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Full text of "Sermoens do P. Antonio Vieira, da Companhia de Jesu, visitador da Provincia do Brasil, Prègador de Sua Magestade. Quinta parte"






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SERMOENS 

D O 

P. ANTÓNIO VIEIRA, 

DA COMPANHIA DE 

J E S U, 

VISITADOR DA PROVÍNCIA DO BRASIL, 

Pregador de Sua Mageftade. 

QVINTA PARTE. 




LISBOA, 

NaOíficinadcMIGUEL DESLANDES, 
ImpreíTor de Sua Mageftade. 
A cufládc A ntónio Leytc Pcrcyra, Mercador .deLivros^ 

"^ M.DC.LXXXIX. 

Com todas as lianfas necejfarias^^ Trjytlegh Reah 



.^■■. 



5/ 




Si 



V- 



-M If tt MÂÈàààààêààà--àMàÈà 




CENSVKA DO M.RP.M. Fr. ANTÓNIO "DE SANTO 

Thmás, Kellgiefo da Seráfica Ordem deS.Francife», 

^dificador do S.Officio, 

Eminentíssimo Senhor.. 

VI cfte Livro, quinta Parte dós Sermoens do P. M. Ante- 
nio Vieira, da Religiofiflima Companhia dejESU , & 
Fresador de S. Mageftade: he Livro Quinto em numero , & 
noexcellente,entreosdoAuthorpòdefer primeiro: fendo 
que tudo feu.competindo fó entre fy,náo parece ter fegundo , 
&affimefte,comosmaisem equilibno, bem parece eíFeito 
do finsular engenho do tal Authori pois nelle, como nos ou- > 
tros, o efpirito.Sc eftilo he o próprio, corrente, & o mais fobi- 
do,douto, dócil, grave, elegante. & tão claro , ^in^a no que 
difcorrecomoTheologo,queagentede toda a forte que o 
ler, fe faràinteliigivel ( fegundo a capacidade de c^da hu» J 
o fcudifcurfo: graça fem igual de táo efclarecido Pregador, 
&náohedefigualàquenáofónefte, mas em q^afi^^doso* 
feus efcrkos moftra a experiencia,que ate no vulgar da Efcri- 
tura fanta, fobre que conceitúa,& prova como Elcr.turario. 
fe avantaiatanto,queemvulgaridadesma.sufuaesdella, & 
mui repetidas a cada panro.innova rariffimos conceitos, & 
adm iráveis provas o feu juizo -, & por iflo parece ao de alguns, 
depois de lido em qualquer Livro feu C como ja pareceo ao de 
muitos , quando ouvido efte grande Pregador em « Pu P to J 
que diráó o mefmo que elíê diz,mas letn que o venhao a d zcr 
nunca,todosopublicáofempre ( publicidade que também 
merecerá a licáo defte quinto Livro ) por unico nefta vei.ta- 
3 f ij ' gem. 



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gem. Efta ventagem,&: as mais que refpekão todos neíle Au- 
thorà competência, o dáo a refpeitar por maior que toda a 
emulação j&aífim parece de \^eras,f>oisna6 fó para comef-' 
tranhos, mas para com Portuguezes,onde aqueila he mais vi- 
va, vive geralmente applaudido pelo fogeito na predica mais 
extremado j & não paíTa o extremo. a exceílb neíle geral ap- 
plaufoCfendoode naturaes como impoiTivel 3 porque pri- 
meiro elles com a voz de ellranbos o reconhecem Prècrador 
em tudo peregrino, todo difcreto, todo politico, todo erudi- 
to,^: eloquente todo: incomparável emfim no bem que in- 
ílrue^ perruade,rende,& edifica quanto ao efpiritoj como fe 
ye particularmente em os Sermoens vários, que contem eftc 
Livro, que todo nefta fua variedade, com o aííeio do idioma 
Portuguez mais dei eitavel, eílà refpirando doutrina íanta, 
conforme em tudaaaoíTa Santa Fè Isc bons coftumes. Pela 
que fera beneficio cómura,& mui do ferviço de Dcos conce- 
dera licença queíe pede , para que fe publique mediante a 
imprenta. Lisboa^ Convento de S. Franciíco da Cidade, enu 
, 50.de Abril dei d8 a, 

Fr. António de Santo Thomâs, 

Cenfura do M. R. P. M. Fr, Thomè da Conceyç^oJa Sagrada^ 
Ordem do CarmOyQHaltficador do Santo Offiao^ 

Eminentíssimo Senhoil. 

Vleíla quinta Parte dos Sermoens do P. António Vieír^i 
da fagrada Religião da Companhia dejEsu, & Prèea- 
dor de Sua Mageftade-, & acabando de os ler com attençaó> 
leni achar nelles coufa algua digna de reparo,admirando, naõ 
lei fe o genio,ou arte defte 'mÇ\'^nç: talento, fó íç:i dizer,que os 
léus Sermoens faó dignos de maispreciofa eílampa, que a da 
comum imprenfai&: o mefino juízo que jà formei fobre ou- 
tros reus,fórmo agora dcíles. Lisbo;i,em o Convento do Car^ 
n^o, ^o.deMayodcióSS. 

lr.Tij07Mè daConcey^aa, " 



"^htfffiiTin 



i 



Cenfura doP.M. Manoel de Souja^ Prepopâ da Cengrtgafa» 
do Ovíttono de S. Felippe Neru 

SENHOR. 

POr mandado de VoíTaMageftade vi eítes Sermoens ã^ 
P. António Vieira,da (agrada Companhia dejEsu. O no- 
me dofeu Author,que trazem na primeira pagina , baíía para. 
o maior elogio defta obra. Qae muito faça o nome do P. An- 
tónio Vieira impreíFojO que Valério Máximo diíTe do nome 
de Demoftbenes ouvido: CuJ!4s cÕwemorato nomine máxima 
eloquentͣ confiimmatia audkntis animo oboritur > & com tanta 
mais raza5,quanto he mais aplaudido em todo o mundo o F^ 
António Vieira por Frincipe da eloquência lagrada,. do que 
o foi Demoíthenes porPrincipe da eloquência Girega. E ju« 
ftamente he nk.i& aplaudido, pois be entre todos os Pregado* 
res, o queo Sol entre todas as luzes. Santo Agoílinho dizjquc 
o Sol he próprio fymbolo do Pregador Evangélico : & deite a 
heproprijílimos^porquenellere vem todas as propriedades 
daSol,naó fóao vivo, mas comi exceílb. Ao Sol chamou o Ec- 
cleííafticoinftru mento, ou vafoadmiravel do todo Poderofoy 
êcobr3,díga3.doA\ú{rimo:Fafadmirabiky0j>usExcelJí.^ 
mais admirável, que o P. António Vieira rios feus Sermoeas ,. 
admiráveis em tudo, como procedidos do feu entendimento, 
vafo de luzes verdadeiramente admirável : Fas admirabiile ^ 
& obra íingul ar de Deos ; Opiis Excelfi que parece o fez co jai 
erpecial providencia, para que viíTemos atè donde pôde che* 
gar o entendimento humano ajudado do poder Divino. Ab- 
iorve o Sol a luz de todos os aftros : com a do P. António Vi- 
eira parece que fica abforta a dos mais engenhos. A luz do 
Sol faz manifeílos os lugares mais tenebrofos : a intelligencia. 
doP. António Vieira faz claros os lugares da fagrada Efcri- 
tura mais efcuros. Penetra o Sol aprofundidade dos abifmosj, 
para iielles formar o ouro^ & os diamantes^: penetra o P. An* 
tonio Vieira os cora^oens humanos^abifinos mais profundos, 

&comi 



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gc cem a cíficadadafuaperfuaraô introduz nellesoouro pu- 
ro da caridade, & os diamantes das folidas virtudes. Único 
heoSol:&oP. António Vieira também he único: he o Fé- 
nix do noíío feculo ; fabuloíb he o Fénix, mas verdadeiro no 
que repreíenta; o verdadeiro Fenix(^ como em vários luga- 
res prova o doutiílimo P.Cornelio AlapideJ) he o Sol : porque 
para reprefentar as qual idades defte Planeta invétáraó os E- 
crypcios efta fabula ; ao que (no fentir do mefmo Author^alu- 
dio o Profeta Malachiasántroduzindo ao Sol com pennas, ou 
com azas •, he pois o Sol Fénix da esfera quarta: & o P. Antó- 
nio Vieira Fénix da noíTa Esfera -, Fénix efcrevendo, melhor 
que o Sol voando 5 Fénix fó com a pcnna de feus efcritos^me- 
Ihor que o Sol com as pennas de feus rayos. Defta forte fe vem 
retratadas nefte Sol racional as propriedades do Sol viíivel. 
Forem não fó as retrata ao vivo, mas com exceíTo -, porque a 
luz do Sol não fe dilata mais,que por hum hemisfério , & a do- 
P. António Vieira por dousj eftando no da A merica,tambeni 
allumea ao da Europa^ quando refide aíèm da Linha,refplan- 
dece em Lisboa, & delia por meyo da imprenfa em todo o 
mundo. O Sol tanto que declina para o occafo,modéra os ref-. 
plandoresto P. António Vieira,taó declinado jà pelos annoS' 
ao feu occafo, reforça agora mais as luzes Emíim,o Sol jà pa- 
rou, & jàretrocedeo :6c o P. António Vieira nunca rctroce- 
deo,nem parou j nunca parou no zelo , nunca retrocedeo no 
eftilo. Não ha coufa neítes Sermoens,que dcfdiga do real fer- 
viço de Voífa Mageftade } & fe alguém fentiíTc o contrario,fe 
lhe poderia dizer o que Pithagoras diíTe do Sol : Contra Solem 
ne loquaris; Do Sol naó ha que dizer: do P. António Viena naó 
ha que notar. Oqueeuquizera,Senhor,he,que todos os que 
leíremefLCsScrmoens,fcnaófatisfizeíremfóda fua luz , mas 
que também fcdcixaíTem penetrar do feu calor i a luz lhe iii- 
fundiofeu Author pelo entendimento j o calor pelo clpuitoj 
aluzheplaufivei, mas ocalorutil imuitos(comoordinai ia- 
nientc fixede no mundo } naó fazem cafo do útil , fazem uo- 
do o cafu do piaufivcl i cmbcbcmfc de todo noplaulivcl áo 



COll' 




conceito, que os lifongea j deíxaó o útil do efpintOjque os de- 
fengana j & depois de húa liçaó taó efficaz, como a dtíícs Ser^ 
moensjficaó com os entendimentos admirados, mas com os 
coraçoens taò frios , como antes, no amor de Deos. A fanti- 
dade,6c virtude naóconfifte nas efpeculaçoens do entendi- 
mento, mas nas determinaçoens da vontade 5 fe a vontade naô 
tiver calor para bem obrar, pouco importa a luz do entendi- 
mento, que para no entender-, deve pois, quem ler eftes Ser- 
moens,attenderniaisaocalordoerpirito, que fe encerra na 
fua doutrina, do que à luz do entendimento , que fe difunde 
na fua elegância. Seja a conciufaó a do mefmo Ecciefiaítico, 
q\ji3,ndolouv3.^o Sol: MagnusT>ommus,qmfecit illum^ & in 
Sermonibus ejusfeftinavit iter 5 naó ha melhor modo para iou- 
varao Sol,que louvar a Deos,que o criou taó luminofo vaííim 
tambê,à villa do Sol defte felicilli mo engenho, o melhor lou- 
vor he louvar a Deos,que o fez taó fabio. O Sol faz o feu cami- 
nho com a palavra de Deos: &oP.Antonio Vieira com a pa- 
lavra de Deos faz o feu caminho : In Sermonibus ejusfeftinavit 
iter, O Sol com a palavra de Deos faz o feu caminho pelo Zo- 
diaco, que fe divide por doze íignos:& o P. António Vieira 
com a palavra de Deos faz o caminho dos feus Sermoens,que 
divide por doze Tomos, que faó os doze íignos deíle Sol. De- 
fte nu mero, que nos prometeona primeira Parte, he eíta a 
Quinta 5 importa,queapreíre as mais,&que VoíTa Mageílade 
iho mande allim, para que, como Sol, lhe naó falte eíla pre- 
rogativa da diligencia,& fe diga entaó cabalmente deIle,G que 
do Sol : Et in Sermonibus ejus feftinavit iter. Eíle he o meu paf 
recer, fe© pôde dar nefta matéria, quem como eu , tem taó 
pouco de Águia , pois fó as Águias podem examinar os rayós 
do Sol. VoíTaMageftade mandará o que mais for de feu fer- 
viço. Lisboa, & Congregação do Oratório, 26. de Junho de 
a688. 



Mmeelde Souja, 



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;;;43 -»To rf;í^ r>j<^ .->> .^yc.>rc ^ 



LICENÇAS 

Da Religião. 



ç ,^ ^ 



Eu Alexandre de Gufmaó, da Companhia de Je5u, Pi-o^ 
vincial da Província do Braíll , por efpecial comiíTaó, 
que tenho de noííb M. R, P. Vigário Geral Domingos Maria 
de Marinis , dou licença para que fe poíTa imprimir efte quin* 
toTomodosSermoensdoPadre António Vieira, da mefma 
Companhia, Pregador de Sua Mageftade, o qual foi revifto , 
& approvado por Religiofos doutos delia, por nòs deputa- 
dos para iíTo. E em teftemunho da verdade, dei eílaaílinada 
com meu final, & feliada com o Sello de meu Oificio. Dada 
na Bahia em 1 2 . de Agoíto de 1 687. 

Alexandre de Gufmao. 



Do Santo Oificio. 

V Tilas as informaçoens, pòdemfc imprimir os Sermocnf 
de que eíla petição faz menção, Author o P. António Vi* 
«ira da Companhia dejefu , & depois de impreíTos, tornaráò 
para fe conferir , & dar licença que corraó,& fem ella naó cor? 
xeráó. Lisboa o primeiro dejunho de 1688. 

Jeronyma Soares. Joaõ da Cofta "P intenta. 
Bento de Beja de Noronha. Tedro de At t ai de de Caftrs, 
fr Kicente de Santo Thomás. Eftevao de Brita Fo^ês, 
loao de Azevede, 



Do Ordinário^ 

POdcmfe imprimir os Sermoens^de que a petição faz men- 
ção, & depois de impreíTos tornaráó, para fe conferirem, 
& fe dar licença para correr,& fem ella naó correráó. Lisboa 
20. de Junho dei 688. 

òerrao. 



Do Paço. 

POdemfe imprimir , viftas as licenças do Santo Officio, Sc 
do Ordinário, Sc depois de impi eílbs tornaráó à Mefa pa- 
ra fe conferirem, & taixarem,& fem iífo naõ correráó. Lisboa 
28. de Junho de 1 688. 

MelloT. Lamprea. Ribeyro. 

lOncorda com feu original. Carmo de Lisboa 1 8. de Fe- 
vereiro de 168^. 

Fr.Thomè daConceiçãê. 



V 



líloeftar conforme com feu original, pôde correr. Lis- 
boa 1 8. de Fevereiro de i (58p. 

Jeronymo Soares. JoaÕ daCofta^imenta, 

Bento de Beja de Noronha, ^edro de Attaide de Cajlre. 

Fr, Ficente de Santo Thomâs. Eftevae de Brito Fops, 



Ode correr. Lisboa ip. de Fevereiro de 1 6 8p» 

Serrão. 



'Aixaòefte Livro em doze Toíloens. Lisboa 21. de Fe- 
vereiro dei 6 85). 



Roxas. Lamprea, Marchao. Riheiroi. 

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O *J? *^ €í? ^tí^ *i* 
r;> (Jk rp f^ t^y -^ 



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SERMOENS. 

Que contém eíta Quinta Parte. 



1. 

11 
111. 

IK. 

V. 

VI. 



SErmão da primeira T>ominga do Advento. ^^g i . 
Sermão dafegunda T^ominga do Advento. ^^g- f ^. 
Sermão da terceira T>ominga do Advento. ^^g- S S» 

Sermão da quarta T>ominga do Advento. ^^g- 1 * i • 

Sermão de no(fa Senhora da Conceição. ^^g- 1^8. 

Sermão da T>ominga decima fext a fof Tente- 
coften. Tag. 191» 

Vil. Sermão do Sacramento em dia do Corpo de T>eos 

na Encarnação. Tag.i^u 

Flll.Sermão de S.Gonçalo. Tag.1^1, 

IX. Sermão da T>ominga vigefitnafigundapoji Ten- 

tecojfen. Tag.^^iç. 

X. Sermão de no ff a Senhora da Graça. Tag . 3 <^3 . 

XI. Sermão de S. hão Evangelijia. Tag . 4,04. 

X II. Sermão dafegunda "Dominga da §}uarefma. Tag. 43 1 . 
XllL Sermão de Santa Barbara. Tag.^j i . 
XIF. Sermão do fabbado antes da T^ominga de Ra^ 

mos. Tag.^o^í 

XV. Sermão de S. hão Bautijia, "P^^ll- 






Erratas ãejla ãluinta Parte. 



?agin. 



Ifl. 


Sevoshadepczar. 


If(^. 


^£rms. 


156. 


Náo,porque os ou- 




tros fagrados. 


3^P' 


E certamétCjquan- 




do fc não coníide- 




raíTe. 


37P- 


Quereis, 


461. 


Redaet, 


52P. 


Derrubados dos al- 




tares hião caindo 




as imagens. 


Í9^ 


Ebem, 



Se vos naó ha de pezar. ^ 
SlUiSretis. 

Não,porque os outros li- 
vros fagrados. 
E certamente parecia 
imaginário o remédio, 
quando fe não coníide- 
raííe. 
Querieis. 
Reddet. 

Derrubadas dos altares 
hiáo caindo as ima- 
gens. 

Nem; 




SERMAM 

DA PRIMEIRA DOMINGA 

DD 

AD V ENT O 



C(elum^& terrAtranJibunt*. njerbaautemmea non 
tranfibunt, Luc.21. 




§. I. 

AíTarào GeOjSc 
a terra , mas o 
que dizê as mi* 
nhãs palavras 
naópaíFarà. C6 
efta notável , & naó ufada 
fentença conclue Chrifto 
RedemptornoíTo a narra- 
ção do Evãgelho, que aca- 
bamos de ouvir. Diz que 
h^ de vir julgar , & pedir 
• Tom./. 



conta ao mundo no ultimo 
dia delle : & porque antes 
de o mundo fer julgadojha 
deferabrazado primeiro,. 
6c convertido em cinzas 5 
fobre o incêndio, que o ha 
deconfumir, cae a primei- 
ra parte da concluíaó : C£- lu 
lumy & terra tranfibunt 3 & ^ ^ 
fobre a conta que depois 
promete ha de tomar ^ 
todo o género humano, 
çae a fegunda: FL{rbaautem 
Ar^ mea 



I 



n 



2 Sermão da prime ir a^ommgâ 
7nsa nmi tranjibunt. Eíles verá também ,& com ma- 
faó os dous maiores por- ior aíTombro, que nenhúa 
tentos, que no theatro uni- delias paíTou ^ jion tranfi' 
verfal do juizo veráó na- bunt. Eftas duas verdades 
quelle dia Homens, &: An- pois, cuja fé o mefmo íu- 
j-os. Allifeverà o princi- premojuiz com tanta ex- 
pio do mundo junto com o preíTaõ nos ratifica : eftes 
fim, & o fim junto com o dous defenganosja que táo 
principio; o principio com mal nos perfuadimos os 
o fiai, em tudo o que paf- mortaes em quanto vive- 
fou, &ofimcom oprinci- mos :& eftas duas coníl- 
pio , em tudo o que nao ha deraçoens do que paílbu > 
de paíTar. Parece difficul- & do que náo ha de paíTar , 
tofa efta união em tanta tranjibunt , & non tranfi- 
diftancia de feculos j mas himt^ feráó hoje os dous 
effe he , & fera hum dos pólos, ou pontos do meu 
maiores milagres daquel- Difcurfo. No primeiro ve- 
ie dia; porque tudo o que remos, que tudo paíTa: no 
paílbu, & deixou defer, & fegundo , que nada paíla. 
defapareceocomotempo, No primeiro , que tudo 



como fenão tivera paílà- 
ào 5 ou tornara a fer de no- 
vo, ha de aparecer com a 
conta. Se olharmos para 
todas as coufas quantas ou- 
ve, ha, & ha de haver no 
mundo, então fe verá, que 
todas paílaraó , tranjibimt. 
Was fe olharmos para eílas 
mefmas coufas , as quacs 
como refufcitadas com o 
género humano háo defer 
citadas com elle para apa- 
recer cmyuizo s então fc 



paíTa para a vida : no fe- 
gundo,que nada paífa para 
a conta. Emdiataó gran- 
de naó pôde o Sermaó fcr 
breve. Aos ouvintes naó 
peço attençaõ, mas paci- 
ência. Deos^a quem tomo 
por teftemunha de que 
procurei naó lhe dar conta 
do que hoie difler, fc lirva 
denosafliílira toáos com 
fua graça em ma teria que 
tanto toca a todos. 

■ê- II. 



doAdnjentõ. ^ 

cional tão importante fc 

^, II. edendeíTetambemàscou- 

fasnaturaeS3&: indiíferen- 

3 ^T^UdopaflasSc nada tes, inventou o Apoílolo 

X P^^^a. Tudo paíla S. Paulo hum notável ad- 

paraavida , &: nadapaíTa verbio. Equal foi ? íHc??- 

paraaconta. A verdade, quam noriy como feníoiUí' 

^defengano deque tudo qtáhabentuxoreSitanquaffP 

paíTa^ quehe o noíTo pri- non habentes fint : & qui ^ ç^,^ 

meiro ponto) poílo que fe- flent^ tanquam non f entes : t^j» 

ia por húa parte taô evi- & qui gaudent , tanquam 

dente, que parece nam ha non gaudent es : d^ ^/// €mút\ 

miíler prova , he por outra tanquam ncnpofffaentes : & 

quiutimttirhoc mundo ^tan- 
quam non utantur. Sois ca- 
fado? (diz o Apoílolo} 
pois empregai todo o vof- 
fo cuidado em Deos , co- 
mo fe o naó fôreis. Ten- 
des occaíioens de trifteza ? 



taó difficultofo > que ne 
fthua evidencia bafta para 
o perfuadir. Lede os Fi- 
lofofos^ledc os Profetas, 
lede os Apoílolos , lede os 
Santos Padres 5 & vereis 
como todos empregarão a 



penna, & naó húa, fenaó pois chorai , como fenaó 

muitas vezes,&: com todas chorareis. Naófaò de tri- 

f.s forças da eloquência, na íleza, fenaó de goílo ^ pois 

declaração deíle defenga- alegraivos , como fenaó 

nojpoíío que por fy meA vos alegrareis. Compraíles 

mo taõ claro. o que havieis mifter , ou 

5 Sabiamente fallou defejaveis ? pois poíTui-o , 

quem diíTe que a perfei- como fe o naó poíTuireis. 

çaó naó coníiíle nos ver- Finalmente vfais deaigúa 

bos, fenaó nos advérbios: outra coufa deíle mundo? 

naóemque asnofiasobras pois ufai delia , comofe 

fejaó honeílas, 8c boas5fe- naóufareis. De forte que 

naó em que fejaó bem fei- quanto ha , ou pode haver 

tas^ E para que eíta condi^ nefte mundo,por mais que 

Ai] nós 



í 



Ibidem 
3'r 



4 Sermão da primeira dominga 



nos toque no a mor, na uti- 
lidade, no goílo 3 a tudo 
'quer S. Paulo qacrecen te- 
mos hum, como Ccnaòjfan- 
■qí-iam non. Como íenaó ou- 
vcra tal couíli , como fe 
naó fora nofla> como íenaó 
nos pertencera. E porque ? 
Vede a razavõ : ^pratertt 
€nhyi fia^nra bujiis mundi. 
Porque nenhua couíli de- 
ite mundo pára, ou perma- 
nece, todas paíTaó. E co- 
mo todas paÍlao,&: fao co- 
mo íe naó forao , aílim he 
bem que.nòs ufemos del- 
ias, como ife naó ufáramos: 
Tanqnamnonutantur, Por 
iíTb a eíTas mefmas coufas 
naó lhe chan^uo Oráculo 
do terceiro Ceo coufas, 
ienaó aparências j & ao 
mundo naó lhe chamou 
mundo , íenaó íigura do 
m u p do : Traterit enlm fi- 
gmajjujíis nnmdi. 
, 4 Canfideraime o mu- 
do defdc ícus principies , 
& velolicisíbmpre , coma 
nova figura no thcatro , 
aparecendo ,.& dcíapare- 
çendo junta mente^porque 
íempi*c paifando. A pri- 
meira ílcaa dcilç clicaa-o. 



foioParaifo Terreal , no 
qual apareceo o mundo 
vefrido de iijimortalidade, 
& cercado de deliciasj ma^ 
quanto durou eíl:a aparên- 
cia? Eílendeo Eva o bra* 
çoá fruta vedada , ôc no 
breviílimoefpaço,em que 
o bocado fatal paíTou pela 
garganta do homem , paf- 
Ibu também com elle o 
mundo do eílado da inno- 
cenciaaoda culpa, da im- 
mortalidade á morte , da 
pátria ao defterro , das flo- 
res às efpinhas, do defcan- 
foaostrabalhos,&:da feli- 
cidade fumma ao fummo 
da infelicidade, &: miferia. 
Oh miferavel mundo> que 
feparárasafiím, 6c te con- 
tentaras com comer o teu 
paó com o íuor do teu ro- 
ílo , foras menos mifera- 
vel ! Mas naó ferias mun- 
do, fe de húa miferia gran- 
de naó paíraíTcs femprc, & 
por tua natural inclinaçaó> 
a outra maior. Os homens 
naquella primeira mfancia 
do mundo todos vcíHao 
depellcs , todos crão de 
húa cor, todos falhivão a 
mcfinaUngua, todos guar- 
' da vão 



'^ 



íím^ ley- Mas losçx' 



davão a rneíS^ ley. Mas losçx^ natureza, hoje die- 
iião foi muito o tempo em gar^não a hum feculo,rnas 
que fe conferrárão na ar- perto delle , he milagre, 
monia deíla natural irmá- Tardarão em pafíar ate 
dade. Logo variarão , & Noe, 6c também paíTárão. 
niudáráoaspelles comtã- Com. aquellas vidas náo 
tadifl-erença de trajos.que fó crecião os annos, fenam 
cada âh de pès x cabeça também os corpos : &c dos 
aparecem com nova íigii- filhos de Deos, que erão os 
ra. Logo variarão, & mu- , defcendentes de bethj êc 
darão aslínguas com tanta das filhas dos homens, que 
.diíronanciaj&confuram, erão as defcendentes do 
xomoadaTorredeiBabeL Cain ,nafGérãoos Gigan- 
Logo variarão, Sc mu darão tes, de quem diz a Efcritu- 
ascorescomadiverfidade ra,: Erant Gigantes fuper 'f^f 
das terras & clipas , Sc torram. Alguns oíTos que 
com a miftura do fangue, ^linda durão à^^ç.s que o 
poílo que todo vermelho. , pi. efmp ^ Texto fagrado 
Logo variárão5& mudarão chama V"aroens famofos, 
:is leys, não com as de Pia- demoílirãQ pcla^ fymetria 
tão, Sólon 5 ou Lycurgo , humana , que não podião 
mas coma do mais impe fer menos qiíe de vinte, & 

mais covados : & ainda na 
hiftoria das batalhas de 
David temos memoria de 
outros quatro , pofto que 
de -muita menor eftatúra. 
Mas eiiifim acabou a era 
dos Gigantes > porque tu- 
do neíla vida , éc mais de- 
^preíTa^o que he grande, 
acaba,&paíía. 
. , " 6 Diminuídos os ho- 



rioíb, & violento Legifla- 
dor, que hc o próprio alve- 
driq.TudomudárãOjOU tu- 
do íe mudou j porque tu- 
do paíTa, í -r 

f As vidas naquellc 

principio coílumavão fer 

. ,cie fete, d e oito , de no ve- 

- centos, 3c quaíi de niil an- 

...nos j& que brevemente fe 

.acabou eíle bom coíiume ? 

Então oviver muitos íecu- 

Tom 



•/ 



mens nos corpos , 
A iij 



Sc nas 
ida^ 



I 



1^ 



h. í 



y 



1 



^ Sermão daprimeira^omtn^a 

íàiáts y quando tinhão a rios a hum Key 5 & a Á6m 

morte mais perto da vifta, Profetas:. A primeira vi- 



Cquem tal crera! ') então 
creçérão mais na ambição, 
&foberba. E íèndo todos 
iguaes, & livres por natu- 
reza, ouve alguns que en- 
trarão em penfamento de 
fe fazer fenhores dos ou- 
tros por violêciaj&j ocon- 
feguírão. O primeiro que 
featreveoa pôr coroa nà 
cabeça 5 foi Membroth, 
que também com o nome 
deNinojOii Belo deu prin- 
cipio aos quatro Impé- 
rios 3 0'ci Monarchias do 
inundo. O priíTkeirò foi o 
dos Aflyrio^, & Chaldeos : 
& onde eftà d Império 
Chaldaico ? Ofegundo foi 
Ò dos Perfas : & onde eílà a 
Império Perllano? O ter- 
ceiro foi o dos Gregos : & 
onde cftà o Império Gre- 
go ? O quarto, ôc maior de 
todos foi o dos Romanos : 
^ onde cílà o Império 
Romano ? Sc algiía couíli 
jpermanecedeílc, he fó o 
home: todos paífárãOípor- 



íaó foi a Nabucodonofor 
na tftatua de quatro me- 
tacs: a fegunda a Zacha- 
riaS em quatro carroças de 
cavallosdediífererítes co- 
res : a terceira a Daniel em 
hum conílid-o dos quatro 
tentos principaeè, que no 
meyodomarfe dayaó ba- 
talha. Pois fe todas éítas 
vifoenseraó de Deos ^ & 
todaá feprefentavaó oi^ 
ínefmos Impérios^ porque 
variou tantd a Sabedoria 
divina asfígitfas, &: fobre 
a primeira da Eftatua taõ 
clara , Sc nianifcíta acre- 
Centoií outra S duas taõ di- 
verfas em tudo ? Porque a 
Eftatuana dureza dos me- 
faes de que era compoíla j 
ícnòmefmo nòmc dcEf- 
tatua^paréce que reprefen- 
tava eílabilidadc,6c firme- 
za : ^ porque nenhum da- 
quelles Impérios havia de 
perfeverariirmè > ^ eíía- 
vci, mas todos íè havia 6 de 
mudar fuccel]ívamente,& 



<[ue tudo pafia. Em trcs fá- ir paíTando de hãas naçosá 
xnofas viroeiísrcprefcritou á outraáj; por illb os tor« 
Çeos çítes meímos Jmpe- jiotí a reprcftjit^u: na varie- 

..d^dc 



iif 



'^m 



wam 



iifAdvent». ^ \f 

dadexlasVaírbças, nain- quem havcm q«e P^J* 

conftancia dasrodas, & na comprehender quato paf- 

ca"rcira,& velocidade d,o5 fou no mefmo mundo? 

cãvallos. Mas naó parou Qi.ando começou o pri- 

aquiacnergíadarepíefen- meiroimpeno, entaocp- 

S,cQmo'naõ .encareci- meçou também a idc^la- 

daaindabaftancemente.A tría, digno caftigo do Ceo. 

Eftatua eftava em pé, Çc as que pois QS homens fe faze- 

carroças podiaóeftar para- raóadorar , chegaíTem oç 

Ôas. E porqueaquelleslm- m,efmos homens a adorar 

perioscgrrendò maispre- paos,& pedra?, OsV^tjf 

?ipitadameníequeàrpdea ^orèmqueerap,putinhao 

Íblta,na6bayiaô depara^ fi^oos idolatras .canoni^ 

aomefmopaflp, nem pqr zados depois vf^^^f^ 

immÍQ mompnto, & fem- ça6,& hfonja.pu pa vida, 

prcfe haViaÒ de ir mu- ftu depQi? 4^ T"? It 



.dando, Sç paíTandg 5 pprif- 
íb finalmente os reprefea: 
tqu Deqs na couía mais in- 
quieta 5 mudável) &infta- 
Vel, quaesfaóos yentos,ac 



nhaó também elles » fer 
Ídolos. Aflim Saturno, af- 
fim Júpiter, sfliraMercur 
rio , aflim Appllo , affim 
Marte, aflim VenH?? ?flí'7?-. 



muito mais quando em. Çiana : & poftp que f qdo? 

bravecidos,&í^iripros:£í jsftss deixarão os feusno. 

ecce quatuor venti calim^ mes gravadps naç liitreir 

7nabLinmarmagm. ías,ellaspermane^ni,ma? 

'■ - ■-- '=' elles palTárao. Paffarap PS 

íf in idplos,& também paflarao 

*■ ■'' os oráculos com que pelles 

•f "CM quanto paíli- refpondia o pay da Rienti- 

r, raó eftes quatro ra ; porque ao forn da yer- 

' impen^s, que foi atercei- dade do Eyaiigelhp tpdpí 

xa,quarra,qmnta,&fext^ ^miide^erao. 

idade do mundo, e«trand9 .§ Ppíaó começarão a| 

lambem 'pela'' ^úm.i pmm^m^ *^"%xS* 



4 



S 

exércitos 

das batalhas ca m pães 



& 



Sermão ãa primeira dominga 
innumeraveis , apareceo fendo desbaraM- 
do,Scvencido,queró fícoii 
delle efte dito. O mefmo 
Temifrocles.que cô muito 
deíigual poder o desfez, & 
pozem fugida , também 
paflbu^comona Grecia^iSc 



maritimas , das vitorias &: 
triunfos de húas naçoens, 
& da ruina, abatimento, & 
fervidaó de outras,taó va- 
ria, & alternada fempre? 



Sò digo, que aíHm a gloria, fora delia paíTáraÓ todos 

& alegria dos vencedores, os famofos Capitaen» , & 

como a dor, & afronta dos fuás vitorias. PaíTou Pyr- 

Vencidos,tudopaíIbujpor- rho , paíTou Mitridates, 

que tudo paíTa. O exercito paíTou Felippe de Mace- 

de Xerxes, que foi o maior donia : paíTáraò Heitor 6c 

que vio o mundo, confiava Achilles, paíTáraó Anibal 



de cinco mil nãos,. & cinco 
milhoens de combatentes: 
& porque de húa, & outra 

Í)arte fez continente o He- 
efponto, & Cavou , & fez 
nayegavel o mont€ Atho, 
diílè delle Marco Tullio, 
que caminhava os mares a 
pè,& navegava os montes: 
Tantis clãffibus Xerxes in 
Grã ciam tranjijt^ nt Helef- 
fontojunEío^ Athoqnemxm- 
Occro tej)erfo{foy7naria ambularit^ 
lia.buó'. terramqne na^uigarit^ mar ia 
pedibusperagrans , clajjibtis 
montes. Mas todo aquelle 
ímmenfo , & formidável 
apparato,que viíto fez tre- 
mer o. miu*, & a terra , tam 



&: Cipiaó , paíTiraó Pom- 
peo &: Júlio Ceíar, paíTou 
o grande Alexandre, no me 
fingular,&:fem parelha, & 
atè Hercules,ou foíle hum, 
ou muitos, todos paíTáraÓ > 
porque tudo paíTi. 

5> Coílumaò as Letras 
feguir as Armas , porque 
tudo leva após fy o maior 
poder :& aílim ílorecéraò 
variamentc,& cm diverfas 
partes no tempo dcíles 
impérios todas as Ciécias> 
5c Artes. Florcceo a Filo • 
foíia, íioreceo a Mathcma- 
tica,fiorcceoa Thcología,; 
íioreceo a A Urologia, Íio- 
receo a Medicina,íioreceo 



brevemente paílbuj. ^ dcf- u^Iuíka^ florcceo a Ora- 



ão Advento, ^ 

tom , florecco a Poética , ca & Moral como taÕ ne 



floreceo aHiftoria, flore 
ceoa Archítedura , flore- 
ceo a Pintura , floreceo a 
Eílatuaria: mas aílim co- 
mo as flores fe niurchaô, & 
fecaó, aíHm pafiliraó todos 
os Authores mais celebra- 
dos das mcfmas Ciências, 
& Artes. Na Eftattiaria 
paílbiT Phidias & Lyfippo : 
na Pintura paflbu Timan- 
tes Sç Apelíes : na Archite 



ceíTaria à vida3& à virtude, 
parece que naó havia de 
paíTar ; mas os Platónicos , 
os Peripateticos , os Epi- 
cureos, os Cinicos, os Pi- 
tagoricos, os Eftoicos , os 
Académicos, elles, Sc fuás 
Efeolas 5 ôc Seitas , todos 
paílarao. 

IO Nenhua coiifa he 
mais própria defira coníi- 
deraçaó em que himos. 



aura paífouMeliagenes 5c que os jogos, Sc efpedlacu- 
Democrates : na Mufica lospublicos,queoshomês 



paíToii Orpheo Sc Anfion : 
na Hiftoria, Tucidides Sc 
Lívio : na Eloquencia^De- 
moftenes Sc Tullio : na 
Poetica,Ro mero & Virgí- 
lio : na Aflrología , Anaxa- 



inventarão a titulo de paf- 
fatempo , como fe o meí^ 
mo tépo naó paílara mais 
velozmente que tudo quá- 
to paíía. Huns jogos foraõ 
os Circenfes , outros os 



goras êcPtolomeo : na Me- Dionyfios, outros os Juve 
dicina, Efculapio & H7- naes, outros os Nemeos, 



pocrates : na Mathemati- 
ca, Euclides & Archime- 
á&s : na FilofoíiajPlataé Sc 
'Ariftoteles: naTheología, 
Mercúrio Tremigifto Sc 
Apollonio Tyanéo : Sc por 
junto em todasas ciências 
pafTáraa no mefmo tem po 
os fete Sábios de Grecia3 
porque, ou junto, ou divi- 
dido j tudapaifa . Sò a E thi- 



outros os Mara toneos 5 to- 
dos cheos de diíFerentes 
divertimentos, em que, ou 
fe perdia a lioneílidade> 
como nos de Vénus y ót? o 
juizo, como nos de Bac- 
cho > mas nenhuns mais in- 
dignos dos olhos hunia- 
nos, &piedade na tural, que 
os Gtadíatorios. Sãhia to- 
da; Rom=a ao AnfiteatFOiiiii 
que ? 



m 



n 



IO Sermão da primeira^ omin^a 

que ? a ver^Sc feftejar coitíO quem levava hiía coroa de 



Icmatavaó homens a ho- 
mens :cahia6hunSv& ío- 
brevinhaó outros , &: ou- 
tros, fem eftar o poílo va- 
go hum lo momento , ac- 
clamando a cabeça do mil- 



louro. Por cílcs jogos ma:5 
que pelo curíò do Sol fe 
contavaó>iSc dilHnguiaó os 
annos. Mas como coda a 
competência era a correrj 
& o que mai$ corriajO que 



do com applaufos mais triunfava, naó pq.diaó á^i- 
carniceiros,' que cruéis, ab xarde paíllir as Qlimpia- 



íim no dar, como no rece- 
per da$ Feridas, tanto a in- 
frepidez^^dos mortos, co- 
mo a fúria dos matadores. 
Os jpgoç Seculares fe cha- 
marão aílim, pprque fe ce^ 
iebravaó hua íq vez ác fe^ 
ícuioa feçuio i (Sc dizia o 
pregão publico qije f oi]t 
vidava para elles: í^erjtead 
fudosj úiios nernç vidit un- 
quãK', neç yifuru^ efl:VindQ 
veros jogos, que ninguém 
yÍQ,nem ha de tornar a 
ver. E cani efte defengano 
da-ivida paHàda , &: defefr 
peraçaódafpíurajj 03 hiao 



cias, como paflaraò todo§ 
ps outroi? jpgqs ^aquelle^ 
tempos, ou todos pspaíTa-. 
tempos daquellps jogos, 

II Sò húa coufa ha 
que naó pôde paílàr , por- 
que o que nunca foi, nara 
pôde deixar de fcr ^ &c taeç 
parece que foraó as f:ibu- 
Jasjque neíle mcfmo tépq 
íe inventarão , & fingirão. 
Mas fe filas naó paíTáraó 
^m fy mefmaçjpaílaraó na.- 
quelles caíbs,&: coufis que 
jderaó occafiaó a fe fingi- 
rem. Na fec ca univçrlLU 
qucabrazQu todo o munr 



^odos ver , & fe chama vap do, paíTou a fabula de Fae- 
jogos. Os Oiimpicos for tonte: no djlnvip particu^ 
faó os mais celebres, & fur lar , que inundou grande 



jnofos de todos, cm que de 
cinco em cinco annos có- 
corria todo o mundo a hur 
jna Cidade do mcfmo np- 
i7)e4 ou a levar? ou a yer 



parte dcllc,paííbu a fabula 
ide Deucalióa : ao cftudí) 
com" que EÍRcy Atjantc 
^zontemplava p curfo, 6c 
nioyimcntps das Ellrcllas» 
gaílby^ 



\ 



m Advento] '^^^'^^ íi 

Ça&u a fabula de trazer o bios daqtíelle tempo o que 
Ceo aos hombros: na efpe- Ha com o que naÓ ha , & ú 
culaçao continua de todas certo com ofabulofo: para 
às noites com que Ende- que nem o' louvor nos deP 
inidri dbíervava ò^ effeitds vanèça , nem a caMninia 



èo Planeta mais viíinhò à 
terra, paíToú á fabula dòá 
feus amores' com a Liia.E 
porqiíe também dsnoíTds 
vicios;ancr{íaífaca virtu- 
de, èc a rioíTa mefma vida 
|)aíla como fabiiíaj qambr, 
& cdmpía c eii c ia de noS 
inefmos jSaíTòu ih fabula 
de Narcife: a rlquez^ íeni' 
juizò", ria fabiila de NÍ ida^ : 
à cubica infaciaveU ria fa- 
bula de Tan táld : à invej a 
do benl alheo, ria fabula, Sé 
abutre de Ticio : ainxrorí- 
flancia da fortuna ninais al- 
ta, ria fabiiH; Sc roda de 
Euxiori: o perigo de acer» 
farconí òirieyo da virtii- 
tie,8ciíaò declinar aos vi- 
cios dosextremos , na fa- 
bula de Sciíla Sc Caribde$ : 
éc finalmente a certeza da 
niorte,& incerteza da vida 
pendtrite femprç de llum^ 
ío,paírdu, & eftà cõtinua- 
jhénte paíiàndo na fabula 



fiosdefanime, pdis o ver- 
dadeiro, & o falfo, a verda- 
de, & a nteittira, tudd piar- 
12 Mas liàô lie jufto' 
qu^enefíía paíTagem de tu^ 
do ó qiiè paííou no tempo 
dos qu^atro" IrripeViols: pro- 
larios do mundo, paíTenioi 
iíòs erri lllencio; àqiíellá 
Republica íagrada,qu?e al- 
cançou a to-dd^s^^atrd, 6c 
por fer fundada pdr Deos 5 
parece (|iíe tinlía direito a 
iíaó paílar., Nafced' a Re- 
publica Hebréa líú c^ti- 
y eira do Egypto j Sc quent 
èntaõ llíe leVa^taíTe figu- 
ra , facilm^ente llíe poQia: 
pronofticar os três cativei- 
ros, 8c trarifniigraçoerS cú 
que fdi, arrancada da Pa-^ 
fria; riuá vez cativa pór 
Salníariaíaf , em: que paP 
fou deflerrada aos Aílj- 
fips ; diitra vez eativá pdr 
■ ííabutoddnofor , cní: que 



das P^arcaâ. Affim ènvol- paíToii defEerrada ao^^Ba- 
f éraóy 6c- mifturáraó os Sa- byl(^ios ; 6c a t^rceira^ &' 

• • " MB- 



12 ■ Sermão dapriynelra^^ommga 

ultima vez cativa por Ti- Nos Capitaens paíTou o 

to& Vefpafiano , em que braço invcncivcl àç.]\\à-\s 




% 



paííbu deílerrada a todas 
as terras , & naçoens do 
mundo. Começou no fa- 
jiiofo Tri j virato de Abra- 
ham, iraac5&:Jacob5tantas 
yezes nomeado, & honra- 
do por boca do mefmo 
Deos ; mas nem por iíTo 
deixarão de paíTar todos 
três. Succedeolhejorcph o 
quefonhou as Tuas fcUci- 
dadesj & as adoraçoensde 
feupayjôc irmãos •, & po- 
%:0 que todas fe cumpri- 
rão, todas paíTaraó como íe 
foraó fonho. Teve o mef- 
nio Povo três eílados de 
governo , o dos Juizes > o 
dos Rcys, o dos Capitrtés , 
&: fc bem fubindo , Sc de- 
cendo as varas íc trocarão 
com os cetros , & os cetros 
comos baftoens, nenhum 
daqucUes eílados foieíla- 
. vcl, todos paílaraó. Nos 
efpada de 



Macabco vencedor de ta- 
tás batalhas ; paliou a fcça- 
nhaimmortal de Eleáza- 
ro, que metendofe debai- 
xo do Elefante , matou a 
fua própria íepultura ; ôc 
paílbu mais gloriofo que 
todoso honrado, &: zeloíb 
tcílamento do velho Ma- 
thatias, digno de fer eícri- 
toem bronzes. E porque 
naó fiquem totalmente em 
fílcncio as Heroinas da 
melmanaçaò -, quatro ou- 
ve nella iníignes na Fcrmo- 
fura, Sara, Rachel, Fílh cr, 
&:Judith, todas pOTcm fa- 
taes a qu c m as a \\\ o u . Sara 
a hum Peregrino com pe- 
rigos: Rachel a hum Pa- 
ílor com trabalhos: Efrher 
a hum Rcy com deígoílos: 
6cjudith a hum General 
com a morte, Efte acabou 
mifcravelmente a vida-; 
mas as fcrmofuras antes de 
fe acabarem as vidas , jà ú" 



Juizes paílou a eipaaa 
Gedeaó, o arado de San 

^ar,&: a queixada de Sam- nhaòpaflado. Florecêraó 

ílim. Nos Rcys paílbu a no meimo Povo alem de 

valentiade David, a labc- outros igualmente vcrda- 

doria de Salamaó, &: a pie- deiros , dezaiejs Profetas 

dade,vk rcUgiaò de Joliaí. Canónicos , quatro maio- 

res> 



do 'Advêntffiò *4^wí -'. '' 1 3 

res, &: doze menores •, mas dcs,_ a quinta^o Maujoleo 



em efpaço de três feculos 
os maiores5& menores deí- 
de Ofeas a Maíachias to- 
dos paíTáraó. Paflaraó os 
milagres da Vara, pafTáraó 
os da Serpente de metal, 
paíTáraó os de Elias & Eli- 
feo: & porque fó faltava 



de Caria, a fexta o Tem- 
plo de Diana Epheíina , a 
íeptima o Simulacro de 
Júpiter Olympico. E dei- 
xando o Aníitheatro de q 
fófevem asruinas, as Py- 
ramides cahíra5,os Muros 
arrazáraófejO Coloílb átí- 



paíTar a Ley de Moyfes , & fezíe , o Maufoleo fepul 
o Sacerdócio de Aram , a toufe , a Torre fumiofe, o 



Ley,6co Sacerdócio tam- 
bém paíTáraó j porque tu- 
do paíla 

13 Agora quizera eu 
perguntar ao mundo , fe 
como me enche a memo- 
ria de tantas couías, que to- 
das pafilraó , me moilrarà 

algúa aos olhos que nam , 

paíTaíTe ? As íctQ fabricas a mais poderofos Impérios : 
que a fama deo nome de *.^..^^a^a^.^^^^ 

maravilhas , acrecentáraò 



Farol apagoufe, o Templo 
ardeo,&: o Simulacro, co- 
mo íimulacro , defváne- 
ceo fe e m ij mefm o . Tem 
mais que dizer, ou queop-' 
por o mundo ? Sò pode ap- 
pellarparaasmais fortes, 
& bem fundadas Cidades , 
Cortes,6c Metrópoles dos 



argumento verdadeiramê- 



alguns como oitava o An- 
íitheatro Romano. Mas a 
maravilha oitava, ou nona 
he, que todas eíías maravi- 
lhas, que par eciaó eternas, 
paílanio. A primeira ma- 
raviílii forao as Pyrami- 
desdo £gypto, a fegunda 
os muros de Babyloiiia , a 
terceira a Torre de Faro, a 
quarta o ColoíTo de F^o-^ 



te de grande boato 



antes 
de fe lhe tomar o pefo. Ni- 
nive Corte de Nino foi a 
maior Cidade do mundo : 
andavafe de porta apor- 
ta, naó menos que em três 
dias de caminho : edifica- 
da de propoíito com arro- 
gância de que nenhua ou- 
tra a igualaiTe , como naó 
igualou. Mas onde eilà ef-^ 
fa Nipive?£cbatanis Coc- 
te 



1 4, Sermão da primeira ^o^fiinga 

te de ArFaxad , & Cidade dar volta a toda a 





que o Texto fagrado cha- 
ma potentiíllma , era cer- 
cada de fete ordens de mu- 
rosjtodos de pedras qua- 
dradas, cada húa de vinte 
& fete palmos por todas as 
faceSjSc as portas com pro- 
-digiofa altura de cem co- 
vados. Mas onde eftà eíía 
Ecbatanis? Sufa Corte de 
AíTuero , &: Metropoli de 
cento & vinte & fete Pro- 
vincias , cujo Palácio re- 
prefentava hum Ceo ef- 
trellado>fundado fobreco- 
lunasdeouro , &: pedras 
preciofas , & cujos muros 
eraó de mármores brácos , 



redon- 
deza da terra. De Troya 
diíle Ovidio : Jam f^ges eft 
ubi Trota fui t. E o mefmo 
podemos dizer das plani- 
cies, vali es, &: montes, dó- 
de fe levanta vaó às nuvens 
aqnelles vaíliílimos cor- 
pos de cafas, muralhas , & 
torres. De hiãas fe naó fa- 
bem os lugares onde efti- 
veraó ; de outras fe lavraó, 
femeaó, 6c plantão os mef- 
mos lugares, fem mais ve- 
fbigios de haverem fido, 
que os que encontrão os 
arados, quando rompem a 
terra. Para que os homens 
compoílos de carne , «Sc 



&jafpesdediíFerentes CO- fanguefe naó queixem da 



res j bem fe deixa ver quaó 
forte, &: inexpugnável fe- 
ria, pois defendia taó gra- 
de Monarca , dominava 
tantos Reynos, & guarda- 
va tantos thefouros. Mas 
onde eftà eíía Sufa? Seou- 
vcílemos de fazer a mefma 
pergúta às ruinasdcThe- 
bas, de Memphis , de Ba- 14 



brevidade da vida , pois 
também as pedras mor- 
rem : & para que ninguém 
fe atreva a negar, que tudo 
quanto ouve, paílbu,&: tu- 
do quanto hc,paíla. 

í. IV. 



ítra, de Carthago , de Co- 
rintho,de Scbalte , &: da 
mais conhecida de todas 
Jerufalcmi neccílarío feria 



Ar; 



G;d. 



F.aza6 deílc 
urfo, ou pre- 
cipício geral com que tu- 
do paílà, naó he hua fó, íe- 
naó duas: húa contraria a 
toda 



^V, 




'^-^S^o Advento. 



toda aeílabilidade, & ou- 
tra repugnante ao mefmo 
fer. É quaes faó ? O tem- 
po 5 &: antes do tempo , o 
nada. Que coufa mais ve- 
loz, mais fugitiva 5 & mais 
inftavel que o tempo? Taó 
inftavel, que nenhum po- 
der, nem ainda o divino o 
pôde parar. Por iíTo os 



if 



quatro animaes, que tira- 
vaó pela carroça da gloria 
deDeos nefte mundo , na5 
tinhaó rédeas. Defcreveo 
o tempo no Palácio do Sol 
o mais engenhofo de todos 
os Poetas , & dividindo-o 
em fuás partes , diíTe aflim 
elegantemente: 



jl dextra lava que dies^ & menjis^ ò^rmus^ 
S(£cula que-^Ò* fofitsfpatijs aqiialibus^hara^ 
Ver que novum Habat cmEium for ente corona^ 
Stabatnudaaftas^ Ò^fpcafertagerebaty 
Stabat & Atitumnus calcãtisfordibusvuis^ 
Etglacialis Hyems cams hirfâta capiUis, 



Elegantemente, torno a 
dizer, mas falfa, & impro- 
priamente. Aquelle7?<í?^/?í 
tantas vezes repetido,he o 
que tirou toda a femelhan- 
çadeverdadeà engenhofa 
pintura. Porque nem a 
Primavera com as fuás flo- 
res, nem o Eílio com as 
fuás efpigas , nem o Outo- 
no com os feus frutos, nem 
o Inverno có os feus frios 
ScneveSj por mais tolhi- 
d0,&: entorpecido que pa- 
reça, podem eftar parados 
hum momento. Paífao as 



íliuí.- 



horas, paílàó os dias , paí^ 
faó os annos 5 paílaó os fe- 
CUI0S5& fe ou veíFe gerogli- 
ficocomque fe podeíTem 
pintar, havia de fer todos 
eom azas,naó fó correndo, 
ôc fugindo, mas voando, & 
defáparecendo. JSTem ef-; 
cufa efta impropriedade 
eftar o Sol aífentado : Sede- 
batin folio Th^bus i por-s 
queo Sol pôde parar, co- 
mo no tempo dejofwe,oii 
tornar atraz^como no tem- 
po de Ezechias 5 mas o tê- 
po em nenhum tempo > nê 
parar. 



•^:i 



Mi 



Mi! 



Meta- 
mor. 



I (í Sermão da primeira dominga 

parar , nem deixar de ir emendou eíla fiia ímpro- 
por diante fempre, & com priedadeo mefmo Poeta, 
a mefma velocidade. -Bem quando depois diíFe : 



r o 



Ipfa qtioque affiduo labuntwf têmpora motu 
Nonfectís ãcfiumcn^ neque enim confifterefumen 
Aut levis horafotefl. 



E como o tempo nam 
tem, nem pôde ter confi- 
ftencia algua , & todas as 
couíasdeídefeu principio 
nafcérao juntamente com 
o tempo, por iíTo nem elle, 
nem ellas podem parar 
hum momento , mas com 
perpetuo moto , & revolu- 
ção infuperavelpaílar 5 & 
irpaííando íempre. > ■ \ 
\^ A fegunda razão 
ainda he mais natural , & 
mais forte, o nada. Todas 
as coufas fe revolvem na- 
turalmente, & vaó bufcar 
com todo o pcfo, Sc Ímpe- 
to da natureza o principio 
donde nafcérao O homem 
porque foi formado da 
terra , aindaquefeja com 
difpendioda própria vida, 
& fumma repugnância da 
vontade, fempre vai buf- 
caratcrra, & fó dcfcanfa 
nafcpultura. Os Kios ef- 




quecidos da doçura de 
fuás aguas, poílo que as do 
marfejaó amargofas , co- 
mo todos nafcérao do mar, 
todos vaô bufcar o mefmo 
mar, & fó nelle fe defifo-' 
gaó, 6c paraó como era fea 
centro. Aílim todas as cou- 
fas defte mundo, por gran- 
des, 6c cílaveis que pare- 
çaó, tirou-as T>cos com o 
mefmo mundo do naó fer 
ao fer , ^ como Dcos as 
criou de nada, todas cor-; 
rem precipitadamente , 6c 
fe m qu e n i n gii e m a s p o fl a 
terma6,ao mefmo nada 
de que foraó criadas. Vi- 
ftes o torrente formado da 
tempeíladc fubita , como 
fedefpenha impctaofo,6c 
com ruído : <Sc tanto que 
cGÍlbu a chuva , também 
ellefc fcccou, 6c fumio fu- 
bitamentc, 6ctornoua fer 
o nada que dantes cra.-pois 
a 111 111 



Is Advento'. 
áíiim he tudo, &: fomos to- à- generatio âdventt 
úos-.à^iz David : Ad^nihi" 
íum devmient fanqua aqua 
decurrens, SonJiaílcs no ul- 
timo quarto da noite, qua- 



í7 
terra 

ajaemin ^ternumflat. 

ló Mas fe bem fe re- 
para nefta mefma fcnten- 
ça , fendo taõ poucas as 



do as reprefentaçoens da fuás palavras , aííimcoma 

fantaíiaíaó menos confu- kúasconíirmaó, aíilmou- 

fas, que poíTuhieis grandes trás parece que impugnao, 

riquezas > que gozáveis &: cieftruem quanto imo& 

grandes delicias , & que dizendo. Porque fe a terra 

cftaveis levantado a gran- câá fempre firme , & eíla- 

áts dignidades \ Sc quando v el, terra autem in aternum^ 

depois acordaftes , vi^^^ fiat i fegucfe que ao menos 

com os olhos abertos, que a mefma terra naõ paíTa, & 

tudo era nada? Pois aílim que ha no mundo alguma 

paíTaóa fer nada em hum coufajque naó paífe. Con- 

abrir de olhos todas as cederemos pois eíla excei- 

aparencias defte mundo, çaóao noífo aíTumptOí^c 

diz O mefmo Profeta : Ve- diremos que paíTaó as fígu- 

lutfomniumfurgentiu 2>?- ras, como diz S.Paulo>mas 

fnine imaginem ipfonim ad que a terra, que he o thea- 

nihilum rediges. De forte tro, naó paíla > Naó digo , 

que eílas faó as duas ra- nem concedo tal. A terra 

zoes porque todas as cou- toda naó paíTa, mas paífaó, 

faspaífao. Paflaõ, porque 6c fempre eílaó paíTando 

voaócomotempOj&paf-. todas as par:tes delia. A 

fa65porquevaócaminhan- terra compoemfe de Rey- 

dopara o nada donde fa- nosjos ReynQS compoem- 

híraó. Por iílb , como à:iz fe de Cidades , as Cidades 

oEfpirito Santo, quando compoemíe de cafas & 

haaspaíTáraóíOu tempaf. campos, 6c principalmente 

fado, he neceíTario que ve- de homens , 6c tudo ifto , 

nhaò outras para também que tudo he terra (^ & toda 

^■sSiM \QeneratÍQ tr^terit-i aterra } perpetuamente 

Txim.7.- § eftà 



/ 



:. ií 




I » Sermão da prime ir a ^ornsTÍgà 

cfti paíTando. Daniel revê- tado nas entranhas da ttt^ 



lando a Nabucodonofora 
intelligencia da fua Eíla- 
tuaj diífe que Dcos muda 
os tempos, ocas idades, & 
conforme elias paííii os 



rajfaó muito raros, mas os 
que fe fazem na fuperíicie 
delia, fcmpre a trazem em 
perpetuo movimento. 
17 E fe os grandes 



3.31. 



Reynos de hiaa parte para Reynos, & Impérios nam 
outra ; Ipfe miitat têmpora^ faó eíl:aveis,&: paífaó j que 
& £tates : transferi Regna^ feráó as Cidades particu- 
atque canftituit. Afum paf- lares , para que naô he nç- 
fou o Reyno do meímo ceíTario, que a roda da for- 
Nabucoparaa Períia , o tuna dè toda a volta ? Naò 
dos Perías para a Grécia, o fallo daquellas que acaba- 
dos Gregos para Roma, & raó como de morte fubica, 

abrazadas atè a ultima 
cinza no incêndio de húa 
noite , como Troya , & 
Lugduno. Dertadiírejudi- 
ciofamente Séneca: ^mn- 



o dos Romanos para tan- 
tos outros, quantos hoje 
coroaò outras cabeças, as 
quaes fe devem lembrar 
daquclla infallivel fentea- 



Ecci. 10. Ça : Regmim agente ingen- do tmanox/itit Í7iter urbem Se'^^<^* 

^- temtransfertwr propter in- maximam-,& nullam ^ nlhil ^^"^* 

juftitias. O noífo Reyno privatm-^nihil fublice fta^ 

naó fendo no íitio original bile efiv tam hmninum^quàm 

dos maiores , quantas ve- urbinmfata^vohútur. Dei- 

7:es paílbu a outras gentes ^ xadas pois eftas , que fiibi- 

Paífou aos Suevos, paííbu tamentepaifáraódo ferao 



aos Alanos , paífou aos 
Carthaginefes, paílbu aos 
Romanos paílbu aos Ára- 
bes & Sarracenos , & den- 
tro da mel ma Hcfpanha 
também paífou, &: tornou 
a paniir. Os terremotos, 
c|ue íc gcraò do ar violcn- 



naòíerj íó fallo das que 
por feus paílbs contados 
vieraòdchum domínio a 
outro dominio. E quantas 
vezes as Pombas deBaby- 
lonia, quantas osLcoens 
deJeruÍLiIem , quantns as 
^' d€ 
iJon- 



Aguias de Roma 



■I 



j 



doAda)entoV 19 

Gonftantínopia , viraó fo- que à maneira de pexes no 
bre fuás muralhas outras níarjfeandaó fernpre mo 



bandeiras? O maior thea 
tro de Marte no noílb fe- 
culo, & por ventura , que 
cm nenhum outro > forao 



vendo, 6c paííando de huin 
dono para outro dono. 
Ouçamos a familiar evi^ 
dencia com que o grande 



as guerras Belgicas v ^ na- j«izo <íeS. Ágoílinho de 
grande Provincia de Olá- moftrou a hum delles eíla 



da, excepta Dorth,por ifíb 
chamada a Virgem , ne- 
nhúa Cidade ouve> que 
fiaô foíTc conquiílada > & 



perpetua infírabiiidade. In- 
troduz hum Rico 5 que ja- 
d-anciofo de fer fcnhor da 
fuacafa > dizia : ^omum 



alternaíTeodominio. Que meamhako : 6c pergunta* 

direi dos confins fempre IheoSantoaífim : ^am 

incertos 5 & taò frequente- í/í?;;^^ w tuam ? ^^á^;;^ ^/ííít 

mente mudados de Hcf- meus mihi dimtjit . Efunde 

panha com França , de iUe habuit ? Ams nofier il- 

França com Germânia, de Iam reliquit. Eecurre ad 

Germânia com a Turquia, ^roavurn-^inde adAbavmn^ 

êt da Turquia com Itália ? d?7^^ nomina nonpotes dl* 

Annos ha , que a antiga cere.Tatertuushkeam dt- 

Creta, hoje Cândia , fem mijihtranfivitper iUam^fic 

fer das Ilhas errantes do cí^í/^ír/^^^/tò. Eftacafa de 

A rcipelago, tem pofto em que vos jadais fer fenhorj 

duvida o mundo para on** porque he voíTa ? Porque a 

de ha de ir , & fe ha de rc- herdei de meu Pay : & vof- 

conhecer as Cruzes» ou a$ fo Pay de quem a ouve? 

ineyasLuas. De meu Avo : 6c de quem 

18 E quanto às cafas aouve voíToavo? Demeu 

membros menores,de que Bifavo : &: voíTo Bifavo de 

ie compõem innumera- quem? De meu Trefavo. 

velmente as Cidades; que Jà naó tendes palavras 

poderá comprchender o com que profeguir de que 

inextricável laberinto, có mak foi , ^ a quem mais 

B ij ,paí^ 



Angt-íl:. 
Come. 
in Pi&l. 
122. 




t;:^ 



li '< 

'■í!| 

■li! 



20 Sermão da prime ir d^ (minga 

paflbu eíTa cafa , que cha- a parte principal, mas ver- 

maisvoíTa. Pois aílimco- dadeira mente o tudo do 



mo ella paíTou , & voíTos 
anteparfiidos paíTáravõ por 
ella, amm ella, Sevos tam- 
bém haveis de paíTcir. Por 
efte modo fem firmeza, 
nem eílabilidade alguma 
eílaófemprepaflando ne- 
íle mundo as caías , as 
quintas, as herdades , os 
morgados : huns,porque 
os fazpaHaramorte, ou- 
tros,porqueos manda paf- 



mefmotudo. E vendo o 
homem có os olhos aber- 
tos,&: amda os cegos , co- 
mo tudo paíla i fó nòs vi- 
vemos como lenaõ paíla- 
ramos. Somos como os 
que navegando com ven- 
to , & maré , 6c correndo 
velociíHmaméte pelo Te- 
jo acima, fe olhaó fixam é- 
te para a terra , parecelhe 
que os montes, as torres, & 



far a juftiça, outros,porque a Cidade he a que pafi^i^ & 
os convida a paííàr a ri- osquepaílaó,raóelIes.Hc 



queza dos que os coprao j 
outros,porque os obriga a 
neceílidade dos que os ve- 
dem, outros,porque a for- 
çaj& poder os rouba, & 
íenhorea por violência : 
cm fiimma, que naó ha pe- 



o que ii^c o Poeta : Mon- 
tes^ urbesque recednnt. Mas 
demos volta a eíla meíma 
comparação , & veremos 
na terra outro género de 
engano ainda maior. A 
maior oftcntacaõ deeran- 




dra, nem telha , nem plan- deza, & mageílade que fe 
ta, liem raiz, nem palmo vio neíle mundo, &:huána 
de terra na terra, que nam das três qu-e S. /Igoílinho 
eílcja fem pre paíTando , defejára ver, foi a pompa , 

& magnificência dos tri- 
unfos Romanos. Entravaó 



porque tudo paííà. 
§■ V. 



DEíle tudo que 
cílàrcrDprc paf- 
faadojhc o homem naófó 



por hua das portas da Ci- 
dade naquelle tempo va- 
fliilima, encaminhados lo- 
gamente ao Capitólio : 
prcccdiaò .os Toldados ve- 



cccore* 



cedorescomacciamaçoés: taíTc , qúaes éráo os que 
íêguiáofe repreféntadas ao paíTavão : fe os cfo triuafo , 
natural as Cidades venci- fe os que o eílaváo vendo: 



das 5 as montanhas inacef- 
íiveis efcaladas , os rios 
caudalofos vadeados com 
pontes : as fortalezas , Sc 
armas dos inimigos , & as 
machinas com que fora 6 
çxpugnadas : em grande 
numero de carros os def- 
pojoSjSc riquezas 5& tudo 
o raro, 8c admirável das ré- 
gio ens novamente fogei- 



não ha duvida , que pare- 
ceria a pergunta digna de 
rifo. Mas o certo he, que 
tanto os da prociílàó, & do 
triunfo , como os que das 
janellasj. & palanquesjquc 
os eílavão vendo, huns, 6c 
outros igualmente paííà- 
váo, porque a vida, &: o 
tempo nunca pára : & oií 
indo, ou eílanaoj ou camJ-' 
tas: depois de tudo iíFo a nhando^ ou paradosjtodoí 
multidão dos cativos, & fcmpre, & com igual velo- 
tal vez os mefmos Reys cidade paíFamos. 
maniatados 5 & por fim em 20 Declarou efta ver- 
earroça deouro^ 5c pedra- dadetao mal advertida cò 
ria, tirada por Elefantes, húafemelhãça muito pro- 
Tigres, ou- Leoens doma- pria S Ambrofio elegante- 
dos,o famofo Triunfador : : mente : Etfinon Vídemur' 
ouvindo a efpaços aquelle ire corpo-rditer ^ progredi^ 
gloriofo , & temerofo prc- mur, Namficut in na-vibus ^^^^ ^ 
gão : Memento te ejfe mor-' dormientes Gentis ãgu7itnr in píài. 
í^/é-w. Em quanto eíla grã- in portas -, fie vit£ noftr£ ^-^^'i-^- 
de prociíTaó (" que allim fpatiodefluente ^ ad propriu 
lhe chama Séneca ^cami- anus qtii f que finem ^ curfiulã' 
nhava, eílavão as ruas, as bente deducimur. Tu enim 
praças, as janenas,& os pa- dormis ^ér temptis tuum am^ 
ianques, que para efbe fim bulat. Todos imos embar- 
fefazião, cubertos de iníi- cadosnamefma nao , que 
nita gente, todos a ver. E he a vida, ôc todos navega- 
fe Diógenes então pergun- mos com o mefmo vento > 
Tom./». B iii que 



í '1' 



2 2 Sermão ddprhnéira l^omifiga 

queheotêpo :& aflim co- que nenhum flofticm po* 

mona nao huns governaó dia entrar duas vezes em 

oleme , outros mareaó as hum rio: &porquc? Por- 

velas-.huns vigiaó, outros que quando entraíTe a íç> 

dormem: huns paíreão,ou- gúda vez, jà o rio,qu« femí* 

tros eítáo aíTentados : huns pre corre, & paíía , hc ou^ 

cantáo, outros jogáo, ou- tro. E daqui infiro eu, que 

troscomem , outros ne- omefmofuccederia fenao 

nhúa cou-fa fazem,& todos foíTc riojfenaó lago,ou tan- 

igualmente caminhão ao queaquelleem que o ho-. 

mefmo porto •, aílim wòs , mem entrafie > porque ain-. 




ainda queonãopareça,in 
fenfivcl mente imos paf- 
fando femprej&avifmhan- 
dofe cada hum ao feu fim ; 
porque tu , conclue Am- 
broíio, dormes , & o teu 
tempo anda : Tu dormis^ ò* 
tempus Uium amhulat J^'\.& 
poucoemdizer que o tê- 
po anda, porque corre , & 
voa : mas advertio bem em 
notar qu€ nòs dormimos i 
porque tendo os olhos 
abertosp iraver qije tudq 
paíHi 5 ió para confiderar 
que nòs também paílamos, 
parece que os temos fe- 
chados. 

21 Dito foi do grande 
Filofofo Eraclito,alcg:ido, 
& celebrado por Sócrates , 
Socrat. ]\lunpolJt' qiieriUjtiam bis m 



da que a agua do lago^Sc da 
tanque naó corre, nem fe 
muda , corre porém , &; 
femprefe eílà mudando a 
homem,que nunca perma • 
neceno mefmo eílado : Et 
minoiu^m in eodemftatuper- Jo^- 1* 
«í/í!/^'/'. AíIimodiíreJob,&: 
quem o não diíler aílim de 
todo o homem , & de fy 
mefmo , não fe conhece. 
Admirafe Philo Hebreo, 
de que perguntando Deos 
a Adam onde eftava ; j^- c.fiícC 
dam^ ííbí es , elle não refpó- > 9- 
deíTe. Mas logo efcufa ao 
mefmo Adam , & a qual- 

Sueroutro homem a quem 
)cosfizcírea mefma per- 
gunta j porque comopòd^ 
rcfpondcr onde cílà, quem 
waóeílà? Sc diílcra, cíiou 



eumd^mjiuvmm defeedder&s aqui (^ como futilme.itc ar- 



do Adoenta. 
gucS. Agoftinho^ entre a 
primeira fyllaba , & afe- 
giinda ;á o eftou nam feria 
eíloUí nem o aqui íeria o 
mefmo lugar : porque co- 
mo tudo cílà paílândo , tu- 
do fe teria mudado. Por ií- 
fo conclue o mefmo Phi- 
lo> que fe Adam ouveíle de 
refponder própria, & ver- 
dadeira menfe onde cita- 
va > havia de dizer > mfr 



Thilus. 



riciaà Adolecéncia^morrc 
a Puericia : paíTando da 
Adolecencia á Juventud, 
morre a Adolecencia : paf- 
fando da Juventud à idade 
de Varão, morfe a Juven- 
tud : paíTando da idade de 
Varaõ á Velhice , morre a 
idade de Varaó : &: final- 
mente acabando de viver 
portaata continuação, 6c 
fucceíTaô de mortes j com 
€[Mam , cm nenhua parte i a ultima,quefó chamamos 
porque cm nenhua parte morte , morre a Velhice, 
cftàaquilbqucnúca eftà, Aífim o coníideravaó a- 
mas fempre paífa : Adquod queiles Sábios, mais larga, 
-fropTte refpondère foteraPy & menos fabiamente do 
nufquam : eo quod humana que devéraójaps quaes por 
resnunquam in eodemjiatu 
maneat, 

Confiderandò eíle 



21 



iíTo emendou S. Paulo, di- 
zendo que morria todos os _ 
ám^'.§luoUdiemorwr. K ja .^.^x. 



continuo paífar do homem pòdefer, que da cómuni- 

( naó Fora de fy, fenaó on- caçaó que Séneca teve c5 

de verdadeiramente pare* S. Paulo, enfmou elle eíla 

ce que eílà , & permanece, mcfma lição ao feu Difci 



quehc dentro em íy meí^ 
mo ^ diziaó os Sábios da 
Grécia, como refere Eufe- 
bio Cefarienfe, que todo o 
homem , que chega a fer 
vclh o, morre féis vezes. E 
como? PaíTando da Infân- 
cia à Puericia , morre a Tn- 



pulo,quando lhe diz : Sin- 
gulos diesyfivgíilas njitasf ti- 
tã, ^c o Sol, que fempre he 
o mefmo, to dos os dias tem 
hum novo nacimento, & 
hum novo occafo, quanto 
mais o homem por fua na- 
tural inconílancia taó mu- 



fanci^ : paíTando da Pue- davcl, que nenhum heho* 

a iiij jc 



\ 



^4* . Sermão da prmeiraVyommga 

jeoqueFoihontem , nem fando tudo para a vida, na 



f •; 




nem 
ha de fer à manhãa o que 
hehoje ! Defenganemonos 
pois todos, & diga , ou di- 
gafe cada hum com ElRey 
ifj^i.,8, Ezechias : T>e mane nfqtie 
12, advefperam fintes me, E fej a 
a ultima conclufaó defte 
largo difcurfo -, que entaó 
diriiiiiremoS'bem , & co- 
nheceremos. o quehe efta 
vida,&: efte mundo , quan- 
do entendermos que nam 
fó eílamos nelle em per- 
petua paíTagem , mas em 
perpetuo paíiamento. 



23 



§,Nl, 



dapaíTc para a conta. O 
que faz, & ha de fazer dif- 
ficuftofa a conta faó 03 
pecca dos da vida, & de to- 
da a vida. Eque confufao 
fera naquelle dia taó cheo 
de horror , &: aíTombro, 
olhar para a vida , &: para 
os peccados de toda ella,Ôc 
ver que a vida paííbu, & 05 
peccados naõ paíTáraó. 

24. Deixe paíTar&naó 
pai lar, na 6 fó temos os do- 
cumentos da Efcritura, 
mas grandes, & manifeílos 
exemplos da mefma natu- 
reza. Chrifto Redeniptor, 
&: Juiz uni verfal noííocó- 
parou o dia do Juízo ahúa 



ASíim paíTamosf 
todos, & aílim Rede lançada no mar, Sa- ^^'"^ 
paíTa tudo para a vida : de- gen£ mijfa in maré . O mar ^^'^^' 
lengano verdadeiramente he eíte mundo : a rede he a 
nam fó trifte , mas triftilll- comprehenfaó da ciência, 
mo, íe efte fuperlativo , &: 
outros de maior horror 
naõ foraó mais devidos ao 
que, 8c depois de tudo pa f- 
far, fefeguc. Depois da vi- 
da feguefe a conta. E fendo 
aconta,que fchadedar,dc 
tudo o que paílbu na vida 3 
triílillima, ik tcrribiliílima 
f Oiiii Jcra^aó hc í qucpaf- 



& juítiça divina : os que 
nella andáo nadando jk 
prefos,ou com maior 5 ou 
com menor largueza , faó 
todos os homens. E aílim 
como na rede , quando jí 
malha he muito eílrcitaífo 
a agua pòdc paliar, & ne- 
nhúa outra coufa j aílim 
paíFa íòmcntc pur cl-la a 
Vida, 



ão Advento. if 
vida, & tudo o mais C que mo documêto : Cribram a- ^^^^f^ 
faóospeccados }íicaden- quasdenuMusc^loru.Dcí- 
trOj&nadapaíIa.Ohquam ceanuvé como efponj-a a 
apertad;i5& eíireita he efta beber no marjêc fendo a a- 
malhadarededeDeos: &: guado niarfalgada , &:a- 
qiiam fácil de paílar, ainda margofa,paífada porê pela 
por ell a 5 a vida, que como nuvê;,o q là fícajhe o amar- 
agiia fempre eftà paífando! gofo^, & o que cà defce , o 
Omnesmorimiir , & quaíi doce. Por iífo com grande 
aqua dilabmur. O meíluo propriedade efte paífar , Sc 
Chriílo cóparou eílc paf- naô paífar fe compara na 
far,&naó paífar ao crivo, nuvem ao crivo , &: navi- 
quando diífe a feusDifci- da, & na conta ànuvem.O 
Luc.22. pulos \ S'atanas expetivit que paífa por ella, & calo- 
sa- .'vosíit CYíbraret ficut triti- crânios , he o doce da vi- 
cum. AlTimcomo no crivo 
(^diz SJoaô Chryfotlomo, 
comentando eftas pala- 
vras. ' Aílimcomo no cri- 
vo dando hua & muitas 
voltas, paífa o graó , & fò 



da: o queíicalà em cima,' 
& naó vemos, he o amar- 
gofo da conta. 

2 5" Naó podia Job fal- 
tar a enobrecer efle mef- 
mo aíTumpto , como ta6 
fica a palha •, aífim neíle próprio das fuás experien- 
niundo (' que todo he fu- cias, com algua femelhan- 
rado ) com a volta, que daó ça que mais ainda nolo de- 
os diaSjSc os annos, paífaa clare. Diz que obfervoíi 



vida,^: os goílos delia, Et 
innovíjjimo nihtl remanpt^ 
nififolum feccatum , & no 
.jíim,3cparao íim fo íica o 
- peccado. De outro crivo 



Deos todos feus caminhos, 
& coníiderou as pegadas 
dos feus pès: Obfervafii om- lob. 
nesfimitas meas^ ér 'vefttgia, ^ ''- 
fedum mearum cõnJtderaftL 



falia David, qhe o das nu- E porque confidera Deos 

vês,por onde fe coa a agua naó os paífos, fenão as pe- 

da chuva,o qual mais alta- gadas ^ Porque os paífos 

mete nos inculca elle mef- paífaó> as pegadas íicão: os 



m 



y as pegadas a 






■■■< 






2 <> Sermão da primeira dominga 

paíTos pertencem à vida, das cílaó manifefras , 5c 

vemfc , as raízes eílão es- 
condidas, & náo fe vem : & 
aíllm tem Deos guardados 
inviíivelmenre todos os 
noíTospeccados, os quaes 
no dia da conta rebentarão 
comoraizes , ôc brotarão 
nos caftigos , que pertence 
à natureza de cada hum. 




que paílbu 

cóta,q náopaíTa. Masque 
differentementenaó paíTa 
Deos pelo que nòs taò fa- 
cilmente paíTamos ! Nòs 
deixamos as pegadas de- 
traz das coftas , 6c Deos 
tem-nas fempre diante dos 
olhos, com que as nota, & 
obfer va : as pegadas para lilo he o que canto cuida* 
nòsapagaófe , como for- do dava a Job. 
madas em pó, para Deos 26 Finalmente o Apo* 
naó fe apagaó , como gra- ílolo S. Paulo > pregando 
vadas em diamante. Tal contra os que abuíaò da 
he a conílderação dos pec- paciência, Ôc benignidade 
cados, que na noíTa memo- de Deos , & em vez de fe 
ria logo fe perde, & na ci- aproveitarem do efpaço q 
encia divina fempre eftá Ihedàparaapenitécia, ga- 
prefente. O^ Setenta em fí"áoa vida em accumular 
lugar de pegadas trefladá- peccados fobre peccados, 
rão Raizes : Et radicespe- Naó vès (" diz J ò hom em , 
dum meorum conjiderafti. que defprezas as riquezas 



Aíllm como os pés fecha- 
máo plantas,aílim às pega- 
das lhe quadra bem o no- 
me de Raizes. E porque 
deo eíle nomejob às pega- 
das dos feus pafibs? Não fó 
porque os paíTos pafiaó, & 
as pegadas íicão j mas por- 
que ficaó como raízes fun- 
das,6c firmes , 6c que fem- 
pre permanecem. As pega- 



do fofrimento, 5c longani- 
midade divinaj6c que pelo 
contrario, fegundo a dure- 
za do teu coração , enthe- 
fouras para ti a ira, 6c vin- 
gança, que te cfpera no dia 
do Juízo? An divitias honi- 
tatisejusy &patíenti£i & 
longantmitatis contemnis > ^^^ 
Secundam autcm duritiamy ^*^* 
(^ impaniíms cory thefauri- 



ão Advento. >7 

%as tihi iram-, m die ira , & todos enthcfoura mos : to- 
revelattonis juHt judicij dos gaftamos o que paíTa, 
"Dei ? De maneira qu® ao & todos enthefouramos a 
peccar fobre peccar chama que nao paíTa : o que gafta- 
S. Paulo enthefourar , the- mos^he o da vida,o que erir 



faurizastibi : porque ainda 
que a vida , & os dias em 
que peccamos paíTaô -, os 
peccados,que nelle come- 



thefouramoSjO da conta. 

27 Infinita matéria fe- 
ria^ fe agora ou vera mos de 
reduzir àpraticahuma 5 6c 



temos^naó paífao , mas fí- outra parte defta demo- 
cão depofitados nos the- ílração^ &poIas ambas em 
fouros da ira divina. Falia theatro Mas por iíTo nos 



o Apoílolo por boca do 
mefmo DeosjO qual diz no 
Deuteronomio:M>;?;2é'^^^ 
conditafiint apudme^ ò^fi^- 
mata m theÇauris meis^Mea 
ejfultio^i&ego retribuam in 
tempore^ Eíles theíburos 



detivemos tanto íio pri- 
meiro ponto do noílb diC- 
curfo. Naó vimos nelle 
defde o principio domun- 
dojcomo tudo paíTouPNaò 
vimosj comotodos os que 
em tantos feculos vivèraó> 



pois,que agora eftáo cerra- paíTáraõPPois eíTe tudo q 

dos/e abriráó a feu tempo, entáo paíTou para a vida , 

& fe defcubriráó para a có- he o nada que naó paífoii 

ta, no dia doJuizOíque iíTo para a conta: & qí^qs todos> 

quer dizer, /;í&/>^,d^•^í'- q^e então morrerão , & 



velãtianis juftijíidictj T>ei. 
Confideraime hum home 
rico , 8c que tem mais ren- 
das cada anno do que ha 
miíler para fe fuftentar: 



agora eftáo fepultados, faò 
Qs que refufcitados nefte 
mefmo dia haó de apare- 
cer vivos diante doTribu* 
nal diviíio , para dar eífe 



que faz efte homem ? Hãa conta eftreitiíTi ma de quã 
parte do que tem gafta , &: to fizerao. Nefte Tribunal 



outra parte enthefoura. 
Pois ifto he o que fazemos 
todos. Todos gaftamos, 6c 



vio S. Joaõ aílèntado fobre 
humthrono de admirável 
mageftade o fupremo Juiz, 

6c com 



Apoc. 



Ibid. i; 



Uul. 



Sermão dã primeira dominga 
afpe^bo taó tcrrí- fcriptaeraiit mlibrls.k^vvcí 
entendem literalmente ef» 
tes textos como foaó , Be^ 
da,^: outros Padres. Mas 
porque razão o livro da vi^ 
da, era livro , £c os livroy 
daconta,livros? Porqueo 
livro da vida contém os 
dias da mefma vida , que 
faópoucos.Sc os livros da 
conta contem ospcccados 
cometidos nos mefmo» 
dias, que faó muitos. Aí- 
fim que poílos à viíla no 
tremendo tribunal de húa 
parte o livro, &: da outra oá 
1 ivrosr então fe veráó jun- 
tas, & concordes as duas 
combinaçoens do nollb aí^ 
fumpto: no livro , como 
Et líb] i ãperti junt , & dius tudo paííli para a vida j nos 
líber apertus ejt y qui ejl vi- livros, como nada paíla 
t^y & judlcati fnnt mc"Uú 
ex hís qtí£ [cripta erant in 
libris Jecundhm opera Ip fó- 
rum. DeíladiílLnçaòqueo 
Evangeliílafazde livro a 
livros, fc vè claramente, 
que o livro era da vida , //- 
ber^qui eft -vit^-, $c que os 1 i- 
vros eraó da conta^ porque 
pelos livros foraò jul ira- 
dos os mortos: Etjudicã' 
ti fiint mortm cx his qiiíe 



2% 

&com 
vel, que afíirma fugio delle 
o Ceo,& a terra : Et vi dl 
thronummagnnm candidú.y 
érfedentemfiiper eiim^ à ca- 
jus covfpeãufiigit terrã^ ò* 
calum. Diz mais,que vio a 
todos os mortos grandes, 
& pequenos em pè, como 
rcos , diante do mefmo 
throno ; Et vldl mortuos 
magnos^ Ò^pufiUosft antes In 
conjpeãu thronl. E final- 
mente conclue, que entaó 
aparecerão, 6c fe abríraô 
hum livro, & muitos li- 
vros, Seque pelo que eíla- 
va efcrito neíles livros fo- 
raó julgados todos , cada 
hum conforme fuás obras: 



para a conta. 

28 c^t' 



VII. 



te nada do qual 
azemos, que na- 
da paíla para a conta , he o 
que agora havemos de ex- 
aminar. Pergunto: Sc na- 
da pafia para a conta, pare- 
ce que também o nada pô- 
de ler chamado a juízo? E 

fc 



' do Advento^. 29 

fcacafo for chamado , ef- tinha por nada jVCrdadei- 
caparà da conta o nada ramente era nada; t//^/^^- 
porfernada ? Creio que ras miquitatem meam , d^Jpb. 10. 



todos eflâo dizendo, que 
lim. Mas he certo , & de 
fé, que tambcín o nada, 
por mais caliíicado que 
fejajhadefer chamado a 
juizo, 8c porque nada paf- 
faparaa conta , nem o 



í.'Cor, 
44- 



peccatum meum fcruterisy 
érfcias^ quia nihilimpíum 
fecerim. E S. Paulo dizia , 
que elle fe naó dava por 
juftiíicado do que na fua 
confciencia reputava por 
nada, porque deíle nada 
niefmo nada ha de paíTar naó avia elle defer ojuiz , 
femella, & muirigurofa. fenaó Deos : Níhil mthi ,.Cor.. 
Ninguém foi mais caliíi- confciusjum^fednoninhoc'^''' 
cado na Ley da Natureza, jufttjicatiisfumiqui atitem 
que íob:&: ninguém mais judie at me^^ominus eft, 
califícado na Ley da Gra- £is-aqui quam manifefta, 
ça,que S.Paulo ; & que & provada verdade he> 
dizia de íy hum, & outro? que nada paíTa para a con- 
ta , pois atè do mefmo na- 
da a ha de tomar Deos > Sc 
tão eílreita. 

29 Mas qual he , ou 
pôde fera razaó , porque 
onde dous homens taò 



f ob dizia, que nada tinha 
lob. 10 fçito contra Deos : §luia 
^* ni^il impmm fecerm, S. 
Paulo dizia, que nada avia 
na íua confciencia, de que 
dia o acufiíTe : NihilmiM 



confciusfiim. E eíle nada grandeSjtáo caliíicados3& 

de Job , & efte nada de S. táo fantos como Job, & S. 

Faulo efcapáraó por ven- Paulo náo reconhecem 

tura da conta, 6c do juizo > nada de culpa , lha haja de 

Eli es mefmos confeíTaó, arguir Deos, £c pedirlhe 

que de nenhum modo. conta? A primeira razão, 

Job dizia, que Deos o ti- & da parte de Deos {^a qual 

nha poílro a queftaó de fó pôde ignorar quem o 

tormento, como reo , pa- não conhece ) he, porqoe^ 

ra averiguar, fe o que dle ainda nas couías mais m- 

teriores 






M.at.h. 

25.21. 



50 Sermão da pr 

reriores noíías , conhece 
Deos muito mais de nós , 
do que nós de nós. Quan- 
do Chriílo na mefa da ul- 
tima cea re v^elou aos Apo- 
í Lolos 5 que hum deíles o 
avia de entregar : Amen 
dico vobisy quiaunus veftru 
tnetrãdituniseft : diz oE- 
vangeliíla, que muito tri- 
íles todos com tal noticia, 
começou cada hum a per- 
guntar : Nunquid ego fum 
iUd.2z. ^]Jo7nine>VoT ventura, Se- 
nhor, fou eu eíTe ? Pedro , 
Andrè,JoaÓ5&:os demais, 
excepto ludaSjbemfabía 
cada hum de fy, que nam 
era o traidor, nem tal cou- 
fa lhe paíTára pelo peníà- 
mento : pois porque fenao 
deixaó eílar muito íegu- 
ros na boa fé da fua lealda- 
de, mas pondo em duvida 
o de que nao duvidavam , 
pergúta cada hum a Chri- 
ílo fe he elle o traidor: 
Nunquid ego fiim ? Porque, 
ainda que a própria coní^ 
cienck os naó accuíava, 
fabíaó todos que fabía 
Chriílo mais de cada hum 
dellcs, do que elles de fy. 
EUcs conJiçcia6fc> como 



imeira ^õmmg^ 
homens, Chriílo conhe- 
cia -os, como Deos. EíTe foi 
o erro, &: engano de S. Pe- 
dro, que eílava à mefma 
meíli ! Pedro diíTc , que fc 
foíTe neceíTario daria a vi- 
da por Chriílo; CIhííIo 
pelo contrario diíTe, que 
três vezes o avia denegar 
naquella noite. E porque 
foi eíla a verdade ? Porque 
Pedro fallou pelo que \%^ 
noravadefy, 6c Chriílo 
pelo que conhecia delle. 
Hoc illi Chriftus pranuTU ^^^^a,, 
ttabat^ quodínfe fpfe igno^ ° 
r/?^^í,dizS.Agoílinho. E 
como o Juiz daquelíe dia 
conhece mais de nôS) do 
que nós de nós ; nam he 
muito que elle nos conde- 
ne pelo que nós ignora- 
mos, 6c que no feu juizo fe- 
ja culpajO que no noílb pa«» 
receinnocencia. 

30 A fegunda razaò, 
& da parte noíTa he •, por- 
que alllm como Deos fabc 
tanto de nós, aíHm nós fa- 
bcmos muito pouco de 
Deos : & por iíTo as noíílis 
razocns naó pódcm alcan- 
çar as luas. Hum dia de-' 
pois de Chriílo entrar tri-' 
iinfante ( 



do A advento] ji' 

linfante em Jeruíalem , to no £c\i tQ,mi^o -: E t fru cí u pcm 

fimm dabit in temporefu 



vindo de Bethania para a 
mefma Cidade, efiirijty te- 
ve fome • & como vííle ao 
longeíiua figueira verde > 
&- copada, encaminhou os 
paílbs atè ella, por fe aca* 
íb ti veíle algum fruto :.4SV- 
quid forte inveniret in ea^ 
Mas porque naó achou 
mais que folhas,Iançojalhe 
o Senhor maldição , de 
que eternamente naò déí^ 
fe fruto : Nunquam ex te 
fníCiusnafcatur in fempi- 
ternum : &c no mefmo mo- 
mento fe íeccou a arvore 
defdeas folhas atè as rai^ 
zes. He porem muito de 
notar nefte cafo, como no« 
taS. Marcos , que naó era 
tempo de íig05: Nonenim 
erattempiisficontm. Pois fe 
naó era tempo de aquella 
arvore ter fruto^ porque a 
amaldiçoa Chriílo , & a 
fécca,naófó para aquelle 



HW. ''l* 

Poisfehe louvor nas me- 
lhores arvores darem a feu 
tempo o feu fruto, como 
foi culpa nefta , não fe a- 
char nella fruto , quando 
naó era tempo? O mefmo 
Evangelifta S. Marcos diz, 
que eita fen tença de Ch ri- 
flo foi repofta, que o Se- 
nhor deu à Arvore: Et ref- 
pondens dixit ei : Iam non 
ampUus 



m aternum ex te 
frutftim qttífquam madvicet. 
Se a fen tença de Clirifco 
foirepoíla que deu à ar- 
vore, final he que a ouvio 
primeiro , & ella allegou 
de fua juíliça. Reparem 
aqui os Juizes , ou conde- 
nadores, que nem a hum 
tronco irracional,&:infeH- 
fi vel condena Deos fem o 
ouvir. Mas que he o que 
allegou a Arvore? Allegou 
o mefmo texto do Evan- 



14, 



anno, fenaó para femp re ? gelifta : & efia va como ÒX" 
Podia a ver califa ,ou def- zendo mudamente ao Se- 



culpa mais natural de naó 

ter fruto , que naó fer tem- 

o delle ? Da srvore a que 

e comparado o jufto , diz 

David, quedara o feufru- 



nhor: Eu bem tomara eftar 
carregada de frutos ma- 
duros, 6c fazoa dos , para os. 
oíferecera meu Creador j 
porém a cauía ^ & impedi- 
menta 



Rom. 



2 2 Sermão dap 

meto natural de me achar 
íèmelles, he pornaó fer 
ainda chegado o tempo: 
Nonerat tempusficorum. E 
que fetn embargo defta 
replica ao parecer taóju- 
lUíicada , a condenaíTe 
Chrifto, &: com condena- 
^ao attn-siyinfempternuml 
Aílimfoi. Mas com que 
fundamento, oujuíliça? 
Entre todos os Expofito- 
res da Efcritura, mais Le- 
trados, ôc de maior enge- 
nho, nenhum ouveatègo- 
ra, que déíTe íatisfaçaó ca- 
bal a efta duvida. E a ra- 
zão de fe lhe naó achar ra- 
zão, hejporque as razoeiís 
dos homens naò alcançaó 
as de Deos, & onde naó fa- 
bedefcubrir culpaojuizo 
humano, a pôde achar o 
divino. Porque naó com- 
prehende o home a Deos ? 
Forque Deos he lacom- 
prehenfivel. Pois também 
por iíTo os juizos humanos 
naó comprehcndem os di- 
vinos, porque os divinos 
fió incomprehenfiveis : 
^am tncomprehenfibdta 
iudícia ejus ! 

íi Sobre eítes dous 



r inteira ^omingu 

princípios taó manifeííos, 
mim da ciência de Deos 
para comnofco, outro da 
noíTa ignorância para com 
Deos > fica fatisfeira , & 
emudecida toda a admira- 
ção de que Deos haja de 
julgar atè o que reputa- 
mos por nada,& neíTe mef- 
mo nada haja de arguir, & 
achar culpas , de que pe- 
dir, Sc tomar conta no dia 
dojuizo. Sòrefta humef- 
crupulo , que ainda nam 
acaba de fe aquietar,&na5 
menos, que acerca daju- 
íliça, com que Deos nos 
hajadecaíligar pelo que 
naó conhecemos. He ver- 
dade que Deos íabe de 
nòso que nòs ignoramos 
de nòs, mas eíla mefma ig- 
norância noíTIi naó íb pa- 
rece que nos derculpa,mas 
nos livra de ler peccado o 
que naó conhecemos co- 
mo tal. Sem vontade nam 
ha culpa , fem conhecimê- 
to naó ha vontade-, como 
logo pôde fer peccado, & 
caltigadocomo peccado o 
que eu naó conheço ? Bem 
tinha decifrado cíhiThco- 
WAx o Autor do noífa 



PrOT 



:rí 



ão Aò'úent6. 3^ 

Provérbio : Qiicm igno- ignorância lhe aGrecentoia 



laor. 



rancemente pecca, igno- 
rantemence vai ao Infer- 
no. Huafó ignorância ef- 
ciifa cíopeccado, queliea, 
ifívencivel. Mas eíia pou- 
cas vezes fe acha. Os de- 
mais não fó peccáo no 
peccadoj mas na i^oran- 
cia, com q o naó conhece.. 
Nãopeccárão graviílima- 
mítç, os Judeos na morte 
deChriílo?&:cótudo diz 
S.Pedro,q elIes^Scosfeus 
Principes o íizeraó igno- 
rantemente : Seio qmaper 
ignorantiam feciUis^ ficut 
ér Trincifes <vefirL £ o 
mefmo Chriílo quando 
á^iKc y Tãter^ignofce ilUs^ 
nouenimfciunt quidfaciut^ 
juntamente alíegou par 
elles a ignorância, & pedio 
para elles o perdão. Se a 
ignorância os livrara do 
pecçado , não tinháo ne- 
ceflidade de perdão : mas 
pediolheo Senhor o per- 
dão, quando lhe confeílbu 
a ignorância 5 porque tam 
fora eíliveráo de ficar izé 
tos do peccado pela igno- 
rância coQi que o comete- 
rão , que antes a meíma 
: Tom./. 



hum peccado íbbre outro 
peccado. Hum peccado, 
porque tirarão a vida ao 
Meílias não conhecido, & 
outro peccado 5 porque o 
não conhecerão , tendo tá- 
ta obrigação , como evi-- 
dencia para o conhecer. 

3 2 lílo meímo he o que 
fe vè hoje entre os que co- 
nhecem, «Scadorão a Chri- 
fto 5 & não por aconteci- 
mento raro,íenão comum . 
mentejiiem fò nas vidas $ 
fenão também nas mortes. 
Quantos peccados vemos., 
& quam grandesjnê emen^ 
dados na vida, nem confef^. 
íãdos na morte, os quaes 
não ío Deos , mas todo o 
mundo eílà conhecendo ^ 
& fó os mefmos,que os co- 
mctem,osnão conhecem! 
Não os conhecem , por- 
que a largueza ,& relaxa- 
ção da vida efcurece a co- 
fciencia, 6c cega a alma: . 
não os conhecem , porque 
o amor próprio fempre ef- 
cufa, & aligeira o que nos 
códena: não os conhecem, 
porque os intereíres,& có- 
veniencias deíle mundo 
C tra- 



5 ^ Sermão da primeira T)omÍTiga 

trazem configo o efqucci- ^bitabfcondiui tencbrarum. 



u 



Píalm. 



mento do onero : nam os 
conhecem 5 poí que os naó 
querem examinar , nem 
confulrar com quem de- 
viáo ; não os conhecem fi- 
nalmente, porque com ig- 
norância aífedada os nam 
querem conhecer para os 
naó emendar : Noluit in- 
telliaere , ut bene ageret. 
Vede agora , fe caftigarà 
Deos julhimente no dia do 
Juízo os peccados naó co- 
nhecidos, fc por cometi- 
dos merecem hum caíli- 
gOj&pornaó conhecidos 
outro maior ? Forem fe atè 

aquellcdia eílaràó defco- nareprefentação do mef- 
nhecidosj&fepultados nas mo dia dojuizo , o mefmo 
trevasdeíla maliciofa , &: foberano Juiz nos cõmu- 
ignorante ignorâncias en- nicárahum rayo daquelhi 
táo refufcitaráó, & ílihiràó luz,para que viramos ago- 
a kiz , porque o mefmo raoque então avemos de 
juiz univerÍLil, como diz S. ver , & com os peccados 
Faulo, com os refplando- conhecidos nos preíenta- 



,.Co,-. 
4Í- 



Pormeyodeílaluz desen- 
ganadas entaó , &: aílbm- 
bradasasmcfmas confci- 
encias do muito que ve- 
ráó ÍI\ir de baixo do nada 
quenaóviáo, ou não qui- 
zeráo ver^nenhCia terá que 
eílrajihar, nem replicar á 
fentença5ainda que leja de 
eterna condenação , & to- 
das diráó convencidas : pfaim. 
hi}us es'Bomine,&r^um •'^'^r 
jiidiciiim tiium. 

§• VIII. 
33 /^^^^ <^^^^ grande 
V_y mercê de Deos 
fora, fe hoje, que eílamos 



res de fua prefcnça alki- 
miarà as confciencias de 
todos os homens, & defco- 
brirà manifeíta mente a ca- 
da hum tudo o que nellas 
clbiva cfcondido, & ásef- 
cu ras : (^oadulquc ^Y niat 
^DrminiiSj qui & tUumu.a- 



ramos antes ao tribunal de 
fua mifericordia, que de- 
pois ao de fua juíliça ! Mas 
bcmdita feja a bondade 
do mefmo Senhor , que 
nãofó nos deixou comu- 
nicado na fua doutrina hií 
rayodaquclla luz , iVr.am 
trcs, 



do Advento. . Jf 

e não cerrar- ne^n vãlicattonh tu£ , jãm í- 
enim non poteris njilltcare. 
Dai conta da voíTa admi- 
niftração , porque defdc 
eíla hora eílais excluído 
delia. Eíla circunftancia 
de fera conta a ultima j & 



três, fenos Ih 
mos os olhos. Sendo a,ma- 
teriadetudoo quepaífou 
para a vida , & náo ha de 
paífar para a conta , tam 
immcnfa à capacidade hu- 
mana, fó a Sabedoria divi- 
na a poderá comprehêdcr: naó fe poder emendar , he 
ôcaílim o fez Chrifto Se- hííadas mais rigurofas do 



ac.i5. 



nhor noíro5reduzindo-a,& 
repartindo-a em três Pará- 
bolas, nas quaes nos eníl- 
nouemfummatoda a có- 



dia dojuizo. Vindo pois 
aofentidoda Parábola 5 o 
homem rico he Deos ; as 
fuás herdades faó as Igre- 



ta,quenoshade pedir, & jas, &asFrovinciasi oad- 
deque. A primeira Para- miniftrador noefpirituaí. 



bola, he dos Officios, a fe- 
gunda dos Talentos, a ter- 
ceira das Dividas. E eíle 
mefmo numero 5 & ordem 
feguiremos para maior di- 
ftinção,& clareza. 

34 Quanto aos Offi- 
cios, diz a primeira Para- 



he o Papa, no temporal he 
o Rey , 6c abaixo deíles 
dous fupremos todos os 
outros Miniílros Eccleíia- 
ílicos,8c Seculares, que re- 
partidamête tem inferior 
jurdição fobre os mefmos 
fubditos. A todos elles 



bola("queheado Villico^ pois ha de pedir Deos ef- 
que ouve hum homem ri- treita conta, não fó quan- 



CO5 o qual deo afuperin- 
tendenciadas fuás herda- 
des a hu m criado com no- 
me de adminiílrador del- 
ias E porque naó teve boa 
informação de feus proce- 
dimentos, o chamou a fua 
prefença,& lhe pedio co- 
ta, dizendo : Redde ratiu^ 



toàspeflbas, fenão tam- 
bém, & muito mais quanto 
aos officios. Qiianto àpef- 
íba, ha de dar cada hú con- 
ta de fy, & quanto aos offi- 
cios , ha de dar a mefma 
conta de todos aquelies, 
que governou, & lhe foraò 
fogeitos. De forte que o 
Ç ij I^a- 



:; 6 Sermão da primeira TDom-inga 

Papa hà de dar conta de to, que não temos fé, nem 



roda a Chriftandade , o 
Rey de toda a Monarchia, 
o Bi fpo de toda a Diocefí , 
o Governador de toda a 
Província , o Parocho de 
rodaaFregiiefia,o Magi- 
ilrado de toda a Cidade, 
& o cabeça da cafa, de to- 
da a família. Oh íe os ho- 
mens foubéráo o pefo que 
tomão fobre fy quando 
com tanta ancía , Sc nego- 
ciação pertendem , & pro- 
curáoosoíiieíos, oufecu- 
laresjou EceleíiaíiícoSjCO* 
mo he certo que havíáo 
de fugir 3 & benzeríè del- 
Its ! Mas não os procurão 
pelo pefo, fcnão pela dig- 
nidade, pelo poder, pela 
honra, pela eílímação, & 



fabemosaquenos obriga. 
Vedes quantas Almas ha 
neíta Cidade, quantas Al-^ 
mas ha neíla Província^ 
quantas Almas ha em to- 
do o Reyno ? Pois fabei,fe 
oignoraís,au não adver- 
tis, que de todas eíl as Al- 
mas hão de dar conta a 
I>eos os que governam a, 
Cidade, a Província , & o 
Reyno. Porque aílim co- 
mo fobre todos , ^ cada 
hum tem poder <Sc man- 
do, aílim em todos, & cada 
hum faò obrigados a lhe 
fazer guardar as Leys,nam 
fó as humanas, fenáo tam- 
bém as divinas. Não he 
iílo encarecimento meu, 
fenão doutrina folida , & 



maisque tudo hoje, pelo de fé pronunciada por bo- 
intereíle. Porém quando ca de S. Paulo : Obcdne 



no dia dojuizo fc lhe to- 
mar a conta pelo pefo, en- 
tão veráó onde os leva a 
balança. 

^f Sc he tão diílicul- 
tofodarboa conta da Al- 
ma própria , que he huma, 
quam diíhcil, 6z quaniim- 
poíQvel fcrà dalla boa de 
tantas mil P Çoaio hc ccr« 



Tr^pofitis vejiris^&fubjn- 
cete eis : iffi enim fer^vigi- ^^^^^. 
lant qiiafirationernpro ani- xiij^ 
mabus vejiris reddituri. 
Obedecci,díz a Apoílolo, 
a voíTos Superiores, &: fe- 
dclhe muito fogeitos^por- 
que a fua obrigação hc ze- 
lar, & vigiar fobre asvof- 
fis vidas í como aqucUcs 
que 



do Advento'. ^7 

que hão de dar conta a revelação do mermoCh ri- 



Deos de yoílàs A Imas. Ve- 
de quanto maior he a fo- 
geiçáo dosSuperioreSjque 
a dos ílib ditos. Quantos 
íàó os fubditosjqiie eíláo 
fbgeitos ao Superior» tan- 
tas faó as Almas de queeí- 
tàfogeito oSuperior a dar 
conta a Dcos. E pofto que 
çílc oráculo baftava para 



fto, todos os homícidios, 
todos os adultérios, todos 
os furtos 5 todos os facri- 
legios5& mais peccados 
que os vaíTailos cometem 
na vida, &rcynadode hu 
Rey, & as ovelhas, & fub- 
ditos na vida, & governo 
de hum Prelado , todos eA 
tes peccados íè lançáo lo- 



nenhum homem que tem gOí&cícrcvem nos livros 
fé querer tomar fobre fy de Deos debaixo do titulo 



dotalReyj& debaixo do 
titulo do tal Prelado, para 
fe lhe pedir conta delles 
no dia do Juizo. 

jd Ponhamos agora 



húa tal fogeição^ouvi ago- 
ra o que nunca ouviftes. 
Nem todas as íentenças 
deChriílo eftão efcritas 
fio Evangelho : algúas fí- 

cáráo fomente impreííãs efteRey, & depois pore- 
lla tradição defeus Difci- mos também eíle Prelado 
^ulo», entre as quaes he diante do tribunal divino, 
Kéfer- ^^^ Jf^o^^vel como terrivcl & vejamos que refpon- 
eíla: Omnêpsccatum^ quod dem a eftes cargos. O Rey 
^ remiJJiíSi & indifciplinatus he a cabeça dos vaíTallos : 



Haber 
to Pha' 



fi» in- admíferitfrater , ad negll 



dos os peccados , que co^ 
metem os íubditos,fe ef- 
crevem , 6c carregáo logo 
no livro das culpas doSu- 



& quem ha de dar conta 
dos membros? fenão a ca- 
beça ? ORey he a Alma 
do Rcyno : &: quem ha de 
dar conta do corpo,fenam 
a Alma \ Pedira pois conta 
Deos a qualquer Rey,naó 
perior, porque ha de dar digo dos peccados rcusj&r 
conta delles. De modo,que da pefíba , fenam dos 
(çgundo eíla fentença ^ Sc aIheos,& do oíiicio, E que; 
.-.To Cl. 7» ^ C ii] refr- 



1. 

^cAiz-^ i^t^^pT^otinus revertltiiT 

^aíab feniorem. Quer dizer: to. 

nicnfi 
Abbare 
in Mo- 
nafiicis 

ftrioni- 



58 , > 
reípondera 

BiMS Reo ? Parece que po- 
derá dizer : Eu, Senhor, bé 
conhecia que era obrigado 
a evitar os peccados dos 
meus vaílal los, quanto me 



Sermão daprmeira T>õmin^a 

não Rey, tcrceíTaò , & outros por 
adulação , & outros por 
ruim, & apaixonada infor* 
mação? fc os que ficarão de 
fora com mais conhecido 
merecimento, porc]ue os 



foíTe polliveh mas a minha excluiftes ? Mas dado que 



Corte era grande , o meu 
Reyno dilatado, a minha 
IvJonarchiaeftendida pela 
Africa, pela A íia, & pela 
America •,& como cu não 
podia eílar cm tantas par- 
tes, & tão diílantes , na 
-Corte tinha provido os 
Tn bunaes de Prefidentes, 
^cConfelheiros , no Rey- 
no de Miniílros de Jufti- 
ça,&: Letras , nas Conqui- 
HasdeVifo-Reys, & Go- 
remadores , inítruidos de 
Regimentos muito juíios, 
Zic approvados. E illo he 
tudo O que fiz, & pude fa- 
zer Também poderá me- 
ter ncita conta o feu pró- 
prio Palácio, & aqucllcs 
de que íe fervia mais fami- 
]iar,& interiormente. Mas 
fobre todos cae a replica. 
E cíles que cicgcílesjfdirà 
Dcos 3 porque os elege- 
rdes ? Não foráo algús por 
aiiciv^ao , & outros por m- 



todos foífem eleitos com 
os olhos em mim ,& jura- 
mente-, depois que na ad- 
miniílração de feus offi- 
cios conheceftes, que nam 
procedião como eraó o- 
brigados , porque os nani 
removeílcs Jogo, porque 
os dillimulaítes, &; confer- 
vaftes 3 & o quepeorhe, 
porque os deípachalles de 
novo,&com mais autho- 
rizadospoílos? Se o que 
aílblou húa Província , o 
deixaíles cócinuar na mcf- 
maaííblação, & depois o 
promoveftes a outro go^ 
verno maior , como nam 
foftes complice das fuás 
iiijuftiças, & das culpas, 
qucelleemvez de reme- 
diar acrecentou com as 
fuas,&:com o excplo del- 
ias? Se as fuás tiranias vos 
foraó manifeftas , como as 
dcixaíles fem calligo , &z 
os d;^x\o$ dos oílcndiuos 
. . fcna 



do Advento. 



fem rcftituíçáo ? Quantas 
lagrimas de orfa os ) quan- 
tos gemidos de viuvas, 
quantos clamores de po- 
bres chega vão ao Ceo no 
roííb Reynado , quando 



^9 



lado a dar conta, &• a ouvir 
em eílatua o proceífo, que 
depois da refurreiçáo lhe 
fera notificado em carne. 
Oh que efpedacuío íerà 
aparecer defcoroado da 



paraííiprir íuperfluidades MitrajScdefpido dos pa- 

vans> & doações inofíicio- ramentos Pontificaes dia- 

fas, voílbs Miniílros Ç por te da Mageftade de Chri- 

iílb premiados > & louva- fro Jefu aquelíe, a quem 

dosj com impiedade mais o mefmo Senhor authori- 

que deshu mana náo os zou com o nome, & podev 

defpoj a vão, mas defpião P res de feu Vigário, & cuj a 

Ifto hco quepoderàrepli- hainiana , & divina Peííba 

car Deos, emudecendo, & reprefentou nefta vida ! 

náo tendo que refponder O Taftor^& Idólum f lhe 

o trifte Rey . E qual íerà a diràChrifto.Tu q foftePa 



Z3ck. 
11.17. 



ília fentcnça ? No dia da 
Juizo fe ouvira. O certo 
he, que David R.ey imanto 
antes de peccador, & de- 



ítor no nomc,& como Ído- 
lo te cótentaílc có a adora- 
ção exterior q náo mere- 
cias, dà conta. Náo ta pe- 



pois de peccador exemplo codas miferias occultas, 
de penitenciado de que pe- íenâo das publicas, Sc ef- 
dia perdão a Dcos, era dos candalofas de tuas mal 
peccadosoccultos5& dos guardadas, & defprezadas 
aiheos : Ab occultis méis ovelhas. Erão miferaveis 
mudame^Ó' ab alienisparce no temporal, & não trata- 
fervo tua. Mas os peccados íle de remediar íuas po- 

brezasj & eraô muito mais 
miferavcis no efpiritual , 
& naó cuidaftc de curar, 
jnem de prcfervar íèus pec- 
cados. Se as rendas , que 
com táta cobiça recolhias, 
C ini & 



occultos naquelle dia fe- 
ráó manifeflos , & dos 
aiheos 5 por teríidoRey, 
fe lhe pedira taó cítreita 
conta,como dos próprios. 
j7 £nt-re agora o Pre- 



4-0 Sermão da primeira ^07n ingá 

&com táta avareza guar- caía, 8c pcíToa, foi para fa- 




davas, eraó o meu patri- 
monio,qiie eu acquiri naó 
menos, que c5 o meu Tan- 
gue j porque o não diftri- 
buLÍle aos meus verdadei- 
ros acredores > que faó os 
pobres ? Porque o defpen- 
delleem carroças5criados> 
&cavalIos regalados, ci- 
tando elles morrendo de 
fome: Sc em vellir as tuas 
paredes de ouro , & feda , 
andando ejlcs dcfpidcs, & 
tremendo de frio ? Se o ze- 
lo de teus Miniílros viíi- 
tava as vidas dos pequeni- 
nos 3 tratando mais de fe 
aproveitar das condena- 
çoens, que de lhe emendar 
as confciencias : os pecca- 
dos monftruoíbs dos gran- 
des, que taó foberba^Ôc ef- 
candaj-ofa mente vi viaó na 
facç do mundo, como os 
deixalíe triunfar com per- 
petua immunidade, como 
íe foraõ íuperiores às Leys 
da minha Igreja? 

38 Coiífe fio. Senhor, 
rcfpondcrà o Prelado, que 
cm húa,&: outra couíii fal- 
tei, iiias naó ícm caula. O 
que dcípçndi cpai nuuh^ 



tisfazeraos olhos do vul- 
go, que fó fe leva à^^^% 
exteriores, 6c para confer- 
varaauthoridade do oíE- 
cio, & veneração da digni- 
dade. E fe contra os pec- 
cados dos grandes me naó 
atrevi, foi,porque os feus 
poderes faó inexpugná- 
veis ; & julguei por menos 
inconveniente naó entrar 
com ellcsem batalha, que 
com afronta ,6c dcfprezo 
das mcfmas Leys da igre- 
ja ficar no íim da peleja 
vencido : 6c final mente > 
Senhor, cm húa , 6c outra 
omiílaó fegui o exemplo 
univerfal, ^ o que ufió 
nefte officio os que com 
mais poderofas armas, ^ 
com maiores jurdiçoens 
que a minha,cofi:umaó cm 
toda a parte fazer o mef- 
mo. O Ignorante, ò covar- 
de, replicará Chrifto.Taó 
ignorante,6c covarde, co- 
mo fe não tiveras lido as 
Efcrituras , nem os Cano- 
nes,6c exemplos da mefma 
Igreja. For vxntura Fedro 
6c FauIo,vSc os outros A pp- 
ftolçs, que me juni rá \ aò a 
aniu. 



do Advento. 41 
mím,& os feusverdadei- valor deíles , fenaó o que 
rosfucceflbre^.queosimi- chamas coftu me dos ou- 
táraó adies, conciliavaóa tros, agora veras em ti, & 
authoridade das peíToas.Sc nelles, que fe elles o coita- 
do oíHcio , ainda entre maó fazer aílim, eu tam- 
Gentios, com os appara- bem coftumo mandar ao 
tos exteriores ?NaôfabeSj Inferno os que aílim o fa- 
queeíTemefmoPovo.com zem. Ifto baile quanto à 
cujos olhos te cfcufas, fe conta dos oííicios , & to- 
pordarestudo aos pobres mem exemplo os Mmi- 
teviíTem defacompanha- Urosfecul ares na conta do 



do, fó,& a pè pelas ruaSí& 
ainda com os pès deícal- 
ços, entaó fe ajoelhariam 
todos diante de ti , 6c te 
adorariaó ? E quanto à co- 
vardia de te naó atreveres 
com os grandes , tendo a 

teu lado a efpada de Pe- .. 

droi contra quem featre- criados a quem oReyen 
via David, que foi o exem- comendou diíFerentes ca 



Rey , &OS Ecclefiaíticos 
na QO Prelado. 

5. IX. 

39 /"^Uanto à conta 

V^dosTalétos, ef- 

ta temos na Parábola dos 



piar dos meus Paílores .^ 
Entre as feras tomavafe 
com osLeoens , Sc entre 
os homens com os Gigan- 
tes. Que fera mais ferajquc 
a imperatriz Eudoxia-, §c 
vè como a naó temeo 
Chryfol]-omo> Sc que Leaó 
maiscoro.do, que o Em- 
peradorTbeodoíÍo-,&: vè 
como o hu m i 1 ho u, & poz 
a feuspès Ambroíio. Fi- 
nalmentej fenáo fegiiiíle o 



bedaesjpara que negociaf- 
femcom elles em quanto 
fazia certa jornada : iVi^í7-^ 
ttaminidíimvenio. O Key 43. 
he Chrifto, a jornada foi a 
defuafubidaaoCeo, 6c a 
tornada ha de íer no dia da 
Juízo, em que ha de pedir 
conta a cada hum do que 
ne^^ociou com os t3 lentos, 
que lhe deo, <Sc do que lu- 
crou, Sc eanhou com elles : 
TojimuUum ví^ro tempons 2^.1^ 
'venit 



4 i Sermão da primeira T>om'nga 

venit T>õminus fervortim tinha negociado com el- 




zUorum^ & pofuit rationem 
cum eis. Os talentos fam 
os meyos aílim univeríaes 
como particulares có que 
a Providencia divina aíli- 
fte a todos os homens, 5c a 
cada hum para fua falva- 
ça5,&: perfeição; &os avá- 
ços, ou ganâncias , faó o 
augmento das virtudes, 
merecimentos , & graça, 
que no exercicio, agencia, 
6c induftria , com que fe 
applicaò os mefmos me- 
yos, alcançaó os que nam 
fao negligentes. Quam 
exa£ta pois haja de íer efta 
conta , & quam riguroía 
paraosqueuíarem mal do 
talento, na mefma hiíloria 
o temos. Os criados, a que 
o Rey fiou os talêtos , eraó 
três: ao primeiro entregou 
cinco50 qual grangeou ou- 
tros cinco: ao legimdo en- 
tregou dous , o qual gran- 
gcou outros dous, & am- 
bos foraò louvados. Ao 
terceiro deo hum fó talen- 
to, o qual ellc enterrou. E 
poíloqucna conta ooífe- 
receo outra vez , & rcíli- 
tiúo inteiro, porque nam 



Icjnem acquirido coufa al- 
gúa, o Senhor não fó o lan- 
çou fora de fua cafa, 5c o 
mandou privar do talen- 
to, mas o pronunciou porLuc.rp: 
mao crvxàoyftrve nequam^ ^^■ 
que foi a fentença de fua 
condenação. E fe quem na 
conta torna a entregar o 
talento que Dcos lhe deo 
inteiro, &fem defraudo fe 
condena j que fera dos que 
o desbarataó,ôc perdem,& 
tal vez o convertem con- 
tra fy, & contra o mefma 
Deos.^ 

40 Para intelligencia 
defta graviílima,& perigo- 
fa matéria havemos de 
fuppor o que fe naó cuida 5 
& he,que naó fó faó talen- 
tos os dotes da natureza , 
os bens da fortuna , & os^ 
doensparticularcs da gra- 
ça, fcnaó também os con- 
trários, ou privaçocns de 
tudoiílo. Nãofó hedotc 
da natureza a fermofura, 
fenaótarnbema fealdade: 
nió fó as grandes forças, 
fenaó a fraqueza: naò fó o 
agudo entendimento, fe- 
naó o rude : naó fó a per- 
feita 



4Í 

Afajzaõdcíla ver- 



dõ Advento. 
feitavifta, fenaô a ceguei- 41 
ra : naó fó a íaude , fenaó a dade interior, & providé- 
cnfennidade : naó fó a lar- cia verdadeiramente divi- 
ga vida, fenaó a breve. Do na, he, porque todas eftas 
niefmo modo nos bens coufas, pofto que entre fy 



que ciiamaô da fortuna, 
naó fó hc bem o illuftre 
nacimentOjfenaó o Iiu mil- 
de ! naó fó as dignidades 
altas, fenaó o lugar, & offi- 
cio abatido : naó fó as ri- 
quezas, fenaó a pobreza : 
naó fó o defcaníò , fenam 
os trabalhos: naó fò os fuc- 
ct^os profperos , fenaó os 
adveríbs: naó fó os man- 
dos, fenaó o fer mandado i 
nem fó as vitorias , & tri- 
unfos, íènaó o fer vencido. 
Finalmente nas graças , ou 
doens da graça , naó fo he 
graça o dom das linguas, 
masonaófaberfallar , ou 
fer mudo ; naó fó o das le- 
tras5& ciências, fenaó o da 
ignorância : naó fó o do 
confelho, &difcríçaó, fe- 
nam o de naó ter nem po- 
der dar voto : naó fó o da 
oílentaçaó , & boato dos 
liiilagres^ fenaó o de nam 
ferem coufa algua mara- 
vil h ofo, fenaó cota I m en te 
defconhecido , Sc defpre- 
zado. 



contrarias, podem fer me- 
yos,que igualmente nos le- 
vem à falvaçaó, 6c promo- 
vaó à virtude , principal- 
mente fendo diíiribuidos, 
&difpenfados por Deos^ 
&applicados conforme o 
génio de cada hum , que 
por iílb diz o Texto , que 
foraó dados os talentos, 
Unicuique jecundum pro^ 
friamvirttítem. Aírim,que ^fff 
tanto fe podia aproveitar 
Rachel da fua fermofura , 
como Lia da fua deformi- 
dade -.tanto Achitofel do 
feu entendimento , como 
Nabal da fua rudeza: tan* 
to Mathufalem dos feus 
novecentos annos, como o 
moço de Naim dos feus 
vinte : tãto Creíiu do<? feus 
thefo-jros , como iro da 
fua pobreza : tanto Júlio 
Cefar da fua fortuna , co- 
mo Pompco da fua def*^ 
graça : tznto Alexandre 
Magno das fuás vitorias^ 
como Dário 6c Foro de cl- 



[I 






^^ Sermão da primeiraT)om}ngà 

leos ter vencido : tanto asqiielifongcaóo appetí- 
Aramdafoltura , & cio- te ;ôc mais íbguras para a 
quencia da fua língua , co- falvaçaó as que pezaó , & 
mo Moyfes do impedimé- carregao para a humilda- 
to da fua : tanto o futiliíTi- de, que as que elevam , íc 
mo Efcoto da fua ciência, defvanecem para a fober- 
como Frey Junipero da ba. Só foubéraó, manejar 
fua fímplicidade : tanto S, huns,& outros meyos , ôc 
Pedro dos fcus milagres , aprovcitarfe com igualda- 
comooBautifta de nunca de de ambos os talentos 
fazer milagre. Daqui fefe- hum S. Paulo, qie dizia: 
gue, que tanta conta ha de Seio abtinâare^&fcio efurt-^w.y,^ 
pedir Deos ao rico da fua re. E humjob^quena mef- f '^^ 
riqucza,comoaopobreda ma volta da fua primeira 
fua pobreza : tanta ao fam para a fcgúda fortuna , diA 
dafuafaude, como ao do- fe : Si bonafufcepimus ^^^^ 
ente da fua enfermidade : tnanu l^eiy mala quare non ,^ - 
tanta ao honrado da fua fufcipiamus ? Mas eíles 
eftimaçaó, como ao afron- homens quadrados nafcé 
tadoda fua injuria; &tá- poucas vezes no mundo. 

Os dados taõ firmes fc af' 
fentaó com poucos pótos, 
como com muitos > & ta6 
direitos eítaó com as for- 



tes, como com os azares. 

42 Deíla maneira ( & 
fejaeftaaunica,&: impor- 



^A\ 



ta a todos do que deo a 
hunsjcomodoquc negou 
a outros; porque fe o rico 
pódegrangearcom o feu 
talento por meyo da ef- 
mola,o pobre também pô- 
de com o feu por meyo da ._, , 
paciência. Eaílim dosde- tantiflima advertência. J 
mais. Antes hc certo, que Deíla maneira devemos 
^ * aceitar como da maò de 
Deos, fie cótcntarnos çom 
o talento, ou talentos, que 
ellc foi fervido darnos,oii 
fcjaó como os cinco , ou 
como 



entre as coufas,quc fc cha- 
maò profpcras, ou advcr- 
fas, mais eficazes faòpara 
o merecimento as que 
mortiticaõ a natureza, que 



ão Advento'. 4^' 

como os''dous, ou como IJfachar Afimisfortts. Os 



Imm fomente : & fe pode- 
rá fer nenhum, ainda fora 
mais feguro. Quando o 
Rey diílribuío os talen- 
tos aos criados , naó lemos 
que algum delles fe dcfcò- 
tentJ.dh da repartição. Se 
os que Deos deo a outros , 
faò maiores que os voílbs , 
elles teráó mais,3c vòs me- 
nos de que dar conta ao 
mefmoDeos. Mas fomos 
como os que lanção nas 
rendas dos Rey s 5 que fó 
olhaó para o que recebem 
de prefcnte, & naó para a 
conta, que Iiaô de dar de 
futuro. A ã mira vel foi ne- 
íle género a variedade, & 
repartição de fortunas, cÓ 



animaes todos tem fuás 
inclinaçoens, inftintos ,& 
propriedades,& todos fuás 
como virtudes, ou vícios 
naturaes : o Leaó género- 
fo,a Serpente afl:uta,o Lo- 
bo voraz, o Gervo ligeiro,- 
ojumêtofofredor do tra-, 
balho. E debaixo defiras 
metáforas íignificaya Ja- 
cob aos filhos os talentos 
de cada hum , & o ufo dei- 
lesj&quaes haviaõ de fer 
asacçoens, &fucceíibs de 
fuás vidas, & defcenden- 
cias. E fendo aílim, que 
eíles meímos irmãos fo- 
fréraó taò mal aa mefmo 
Pav fazer liuma Túnica a 
hum delies de melhor ef- 



quejacob ( digamolo aí^ tofa,queporiíIb a quize- 
íimj) fadou a feus íilhos, raõ tingir em feu próprio 



quando na hora da morte 
lhe lançou a benção. Ufou 
dos nomes de diírerentes 

Gencf. animaes , &c ajudas cha- 
mou Leaó , catulus Leonis 

ibid.17. yíida\2L Dan Serpente,jí/2í 
^anCoIuber hivia: a Ben- 

^'^■^7- jamim Lobo , Benjamm 

^^^^^ Lúpus rapax : a NeptaM 
' 'Cervo 5 Neptali Cervus 



fangue > como agora ne- 
nhum delles fe queixa de 
o Pay os veílir dé taó áit-r 
ferenres pelles, &:pelos,&; 
de lhe dar, ou chamar taó 
diíferentes nomes , & de 
taó diíferente nobreza , 
quãtovai deLobo a Cer- 
vo, de Serpentea Leaó, &c 
de Leaó a Jumento ^ Por- 



ibid. x4. emijjiis : a Izaçhar Juniéto., que na diíferença da tun i- 

ca. 



Sermão daprimeira^ominga 
Jacob como minimos pela defefpera- 
çaó,& pufilanimidade.Da 
cafta deftes últimos foi o 
que enterrou o talento, 
podendo fer melhor , & 
mais celebrado que todos, 
fe o naò enterrara. Puze- 
raó alguns Thcologos em 



4<) 

ca obrava 

Pay em íeu nome : na dif- 

fercnça,&: repartição dos 

talentos , fallava como 

Profeta em nome de Deos: 

& como a diftribuiçaó era 

feita por Deos, & os talê- 

tos dados por elle -, pofto 



que foíTem taó diverfos na queftaó qual dos criados 

elHmaçaóA credito, quá- fe moftrára mais indu- 

to vai do império à fervi- ílriofo,feoque com dous 

da5,& do Leaó aojumen- talentos grangeára dous, 

to, todos abaixando a ca- ou o que com cinco gran- 

bcça fe contentarão, & có- geara cinco : & como en- 

formarão com a fua forte , tre elles fe naó decediíTe a 

& nenhum ouve que abrif- queílaó, devolveofe a húa 

fe a boca para fe queixar, academia de mercadores, 

ou meteíTe os olhos debai- os quaes todos rcfolyéraó, 

xo das fobrancelhas para que mais induílriofo fora 

jnoR-rar defcontentaméto. o que com dous negociara 

E que diráo a iílo os que dous, que o que com cinco 

tantas vezes deixarão a grangeára cinco : porque 

Relig;ia6, & a n-iCfmaFè, mais diíiicultofo he ga- 

por naó terem humildade, nhar pouco com pouco, 

nem paciência para fofrer que muito com muito. E 

que fe lhe antepuzeíTem fobreefta, que heprimei- 

os que naó podiaó Igualar ra máxima nos negocian- 



no talento ? 

43 Todo o talento he 
arriicado ao perder , ou 
naó dar boa conta dcUc a 
prcfumpçaò humana. Os 
maiores pela fobcrba , os 
menores pela cnvcja, &: os 



tes, provada com a expe- 
riência, acrecentáraó, que 
feoque teve hum fò ta- 
lentOjgrangeára outro,ex- 
cedcria fcm comparação 
nainduílria ao dos dous, 
&: ao dos cinco. Grande 
con- 



do Advento] ' ^f 

conrolaça6,&: verdadeira, viadeierde Agortiníio, 



fe a quizeOem aceitar os 
talentos medianos. Mas 
quem poderá curar a ce- 
gueira, Sc contentar a en- 
veja dos que fe vem exce- 
didos ?SauI porque ouvio 
(^vedeaquem ? ) porque 
ouvio que as chacotas lhe 
prereriaó a David ,. tantas 



de quem fe rezava nas Ef- 
colas Catholicas \ A lógica 
Atiguftini libera nos ^omi^ 
ne-y fe amolecido com as la- 
grimas de fua mãy , ella 
(como hum li rio, q fe ge- 
ra das lagrimas de outro 3 
o naò tornara a gerar ? 
Succederlhehia o que ao 



vezes,&:por tantos modos proFundiííimo engenho de 
oquizmatar , & por i(^o Tertulliano , & ao im- 



perdeoacoroa. E Dédalo, 
aquelle famofo artiíice, 
que prefo em hua torre, 
inventou , & formou as 
azas com que fugio delia 
voandojveiido que Perdiz 
Teu difcipulo inventara o 
Êompaílbj&da imitaçam 



menfo de Origenes , os 
quaes venerados como 
oráculos da fua idade, & 
primeiros Meftres da I- 
greja,aperdéraó,&fe per- 
derão. Mas que muito he 
que o barro caya,& fe que^ 
bre , fe o entendimento de 



de húa efpinha a ferra, te- Lúcifer , fendo o maior , q 
mendo que o havia de ex- Deos criou , excedendo-o 



ceder no talento, odefpe- 
nhou primeiro da mefma 
torre. 

44 Mas ainda faó mais 
arrifcados os talentos , 
que na eminência fe eílr^- 
mão fobre todos. Que ha- 
via de fer de Saulo , fe o 
mefmo Chrifto naò decé- 
ra do Ceo, & o derrubara 
do cavallo para lhe en« 
frear o orgulho ? Queha- 



fó o do mefmo Dcos,antes 
quiz cair do Ceo, que ver- 
fe nelle excedido ! Tanta 
conta tem como iílo os 
talentos menores , & fó 
por iífo poderáó dar boa 
conta. 

5. X. 

45* A Das Dividas hc 

x3l ^ que fó nos re- 

.fta, 



^,ê 



4,8 Sermão da f rime ir aT)omm^d 

lia, ultima, maior, Sc mais zes outros tantos, aincía 



^ 8.2;. 



difficultofa dc todas. Efta 
íe contém na Parábola do 
outro Rey , o qual fez o 
que muitos naó Fazemjque 
he tomar conta aos cria- 
dos de fua cafa : ^i voluit 



diria muito menos do que 
queria ílgniíicar. Porque 
eíle Iley he Deos , 6c eíta" 
divida he a dos benefícios,. 
que Deos tem feito ao ho- 
mem ; & como o menor 



rationem ponerecum fervi s beneficio divino por fy 
Juis. Do que logo fe fegue mefmo, ou por feu Autor, 



no principio das contas fe 
moftra bem, que efte cha- 
mado Rey feria o mais 
poderofo,'&:rico Monar- 
chade quantos ouve > ou 
naó ouve no mundo j por- 
que o primeiro criado foi 



ibid.24 



he de valor infínitOjnaó ha- 
numero em toda aArith-- 
mctica, nem preço em to-, 
das as criaturas, com que- 
fe poíTa comparar, quanto 
mais igualar. 

46 S. Agodinho para 



convencido de que era de- reprefcntar mais clara , & 
vedora fazenda, ou erário mais patentemente efta- 



Rcaldc cento & vinte mi- 
Ihoensdeouro. Tátovem 
a montar os que o Texto 
çhim^i-^decem miilia t alen- 
ta •, porque filiando Chri 



conta, introduz ao mefmo 
Chriílo fazendonos por 
fua própria Peílba os car^ 
gosdo que lhe devemos, 
como fará no dia dojuizo: 



ílo com os Hebréos , & na ^iid eft quod debui ultra 

lino-ua Hebraica, também facerevine^medi.o-mnfc' 

^ - . ,. ' ^^- ^^ ? Que coufa ha> que 

cu dcveíle fazerte,ò ho- 
mem, ou de veíTc Bi zcr por 
ri , que naó tenha fcito.^De 
nada te era devedor > & 
como fe o fora dc quanto 
tenho , dc quanto poíro,&: 



ocomputo,&:valor da di 
vidafe ha dc entender de 
talentos, naó Gregos , fe- 
naó Hebraicos. Mas como 
crapoíIivcl>quehum cria- 
do dcvcíTc a fcu Kcy cen- 
to 8c vinte nulhoc! IS ? Rcf- 
pondo, que quando a Pa- 
rábola diílcra dez mil ve- 



de quanto íòu , tudo em- 
preguei, (^ dcipendi com- 



tigo. 



dú Advento] 4.9 

tígo. Crieite quando nao o mefmo poder, & provi- 



eras, tirandote dos abif- 
mos do naó fer ao fer : dei- 
te hum corpo formado có 
minhas mãos , o mais per- 
feito : deite hila Alma ti- 
rada de minhas entranhas, 
& feita à minha imagem, 
dcfemelhança : ornei , & 
habilitei hum > 6c outro 
com as mais excellentes 
potencias, & os mais no- 
bres fentidos , para que 
foílem os inftrumentos có 



dencia te naó confervára ? 
De repete perderias o fer , 
& tornarias ao nada don- 
de fahifte. Para tua con- 
fervação te àó. nam fó o 
neceíferio, íenaó o fuper- 
abundante , & tanta im- 
m eníidade de criaturas no 
Ceo,^ na terra, todas fo- 
^^itTíiS^LÚ » & occupadas 
em teu ferviço. Deite hum 
Anjojque de dia,& de noi- 
te velando, & dormindo te 



quemefervifles, &amaf- aíHftiíIe, & guardaíTejCO- 
fes : & tu ingrato que íize- mo fempre afliílio,& guar- 



He? Dà contados cuida- 
dos, penfamentos, & ma- 
chinas do teu entendimê- 
to: das lembranças,& ef. 
quecimentos da tua me- 



dou. Agora te revelo os 
perigos fecrctos, & occul- 
tos de que foíle livre por 
feumeyo: & tu lembra te 
dos públicos , & manife- 



moriaidosdefejosj&affei- ílos, que experimentaííe, 

çoens da tua vontade. Dà & vifte. Quantos perecé- 

contadetodosospaííbsde raó em outros muito me- 

teus pès >de todas as obras nores .^ Quantos mais mo- 

de tuas mãos, de todas as ços que tu acabarão de 



vidas dos teus olhos , de 
todas as attençoens dos 
teus ouvidos, de todas as 
palavras de tua lingua , 6ç 
de tudo o mais que tu fa- 
bes, ôcnaó cabeem pala- 
vras. Depois de criado , 
que feria de ti, feeucom 
Tom./. 



mortes defefbradas , &: re- 

Í>entinas3fem tempo, nem 
ugar de arrependimento , 
6c emenda, que eu fempre 
te concedi.^ Dà pois con- 
ta da vida, dà conta da fau- 
de , dà conta dos annos, dà 
coata dos dias, dà conta 
D à^% 



>o 



das horas, fendo mui poii 
cas,&: contadas asquenaó 
emptregafte em meoíFen- 
der. 

47 Atègora te referi 
as dividas exteriores do 



Sermão daprimeirdT^ommga 



cios, odios por amor, per- 
feguiçoens por boas obras: 
por ti fuei fangue , por ti 
fui prefo 5 por ti afronta- 
do, por ti esbofeteado,por 
ticufpido, por ti açouta- 
poder •, agora me refpon- dojportiefcarnecidojpor 
deras às interiores, &pef- ti coroado de efpinhos, 
foaesdo amor, & do mui- por ti emíim crucificado 
to que fiz 5 & padeci por ú, entre ladroens, aberto em 
Por ti depois de te fazer à quatro fontes de fangue , 
minha imagem , & feme- atormentado, & affligido 
Ihança, mefizàtua^fazen- de anguílias , & agonias 
dome homem :por tinaci mortaes, & ainda depois 
nos defemparos de hum de morto atraveíTado o 
Prefepio : por ti fui deíler- coração com húa lança.De 
radoaoEgyptoipor ti vi- tudoifto pedi por ti per- 
vi trinta annos fogeito à daò a Deos, & o pago que 
obediência de hum offi- tumedèíte, foi nam me 
ciai, ajudando o trabalho perdoar , tornandome a 
de fuás mãos com as mi- cruciiicar tantas vezes, 
nhãs , fie acompanhando o quanta» gravemente pec- 
fuor dofeu roílo com o caíle, como te mandei de- 
mcu. Por ti, Separa ti fahi clararpelomeu Apoílclo^ 
ao mundo a pregar o Rcy- Rurfum crucifigentes Filiíi ^^^^, 
no doCeotporti naspe- T>et. Se as gotas de ílm- ó.d. ' 
regrinaçoens de todaju- gue, que derramei por ti, 
déa , &: Galilca,fempre a tiveraó conto , nem de 
pè, Ôc muitas vezes defcal- hua fó me poderás dar boa 
ço,padeci fomes, fedes,po- conta , ainda que padccé- 
brezas ,fem ter lugar de raspormim mil mortes; 
defcanfo, nem onde recli- mas os milhares , & os mi- 
nar a cabeça: por ti recebi Jhocns foraò das vezes, 
in^raádoen^ por bçncfi- que pizalle o mcfmo lan- 
gue, 



do Advento] fi 

guç j facriíícando o infini- Perdida a graça da primei- 



to valor , &: merecimento 
delle aos ídolos do teu 
nppetite. 

48 Ainda cm certo 
modo he maior áivià^. , a 
de que agora te pedirei 
conta 5 que lie a da voca- 
ção. Refervei o fahires à 
luz deíle mundo para o 
tempo da Ley da Graça; 
chameite à Fè antes de me 
poderes ouvir : anticipou- 
ie o meu amor ao teu ufo 
da razaó, & fízte meu ami- 
go pelo Bautifmo. Como 
I ei te, & doutrina da Igreja 
te áti o verdadeiro conhe- 
cimento de mim, benefi- 
cio que por meus juftos 
juizosem quatro & cinco 
mil annos naó concedi a 
tantos 5 6c de que ainda nos 
teus dias carecerão mui-» 
tos.Naó tivefte juizo,nem 
coníidcraçaó para ponde- 
rar, ScpaOnar de queten 



ra vocação caiíle , & t?or- 
neite a chamar , ôc dar a 
maó , para que te levan- 
taílès : levantado tornaftc 
a reincidir húa , 6c tantas 
vezes, & eu poílo quetao 
repetidamente ofFendido , 
6c com taó continuadas 
experiências da pouca fir- 
meza de teus propoíltos, 
6c falíidade de tuas pro- 
meílas , naó ceílêi de te of- 
ferecer de novo meus bra- 
ços 56c te receber íempre 
com elles abertos : atè que 
infiel , rebelde, Sc obíiina- 
do , cerrando totalmente 
os ouvidos a minhas vo- 
zes, te deixaíle jazer no 
profundo letargo da im- 
penitencia final. Dà agora 
conta de tantas infpira- 
çoens interiores minhas, 
de tantos confelhos dos 
ConfeíTores, 6c amigos^ de 
tantas vozes , 6c ameaças 



do a minha juftiça razocns dos Pregadores , que ou 
para condenar hum gen- naó querias ouvir, ou ou- 



tio, que me naó conheceo , 
as tiveííè minha mifericor- 
dia para perdoar a hum 
Chriftáo, que conhecen- 
dome, tanto me offendia. 



vias por curiofídade,6c ce- 
remonia: 6c também ta 
poderá pedir de eu mef- 
mo te naó chamar eíiicaz- 
mentenahora da morte, 
Dij por- 



^: 



m 



V ir 



ji Sermão da primeiraT>ominza 

porque o defmereccfte na naó minha a fentença, què 



wiáx, 

49 Sete fontes de gra- 
ça deixei na minha Igreja 
f que he o beneficio daju- 
íHíicaçaò ^ para quenellas 
felavaíTem as Almas de 
feuspeccadoS5& com ci- 
las feregaíTcm , & creccf- 
fem as virtudes. Em húa 
te facilitei em tal forma o 



logo ouviras com os ou- 
tros malaventurados : Ite 
malediãi- in ignem ater* 
num. 



fo 



S^ XI. 

AQui parou a. 
conta das Di- 
vidas, que era a ultima, ôc 
remédio para todas as cul- maior partida, que fó re- 
pas, que fó com as confef- ftava para as contas. E 
íar te prom eti o perda6> aqui viráó a parar todos os 
quetunaõ quizefte acei- 
tar, fugindo da benignida^ 
de daquelle Sacramento 
como riguroíb, & amando 
mais as mefmas culpas, 
queeílimando o perdão. 
Em outra te dei a comer 
minha carne, & a beber 
meu fangue, & juntamen- 
te os thefouros infinitos de 
toda a minha Divindade 
em penhor da gloria , &c 
bcmaventurança eterna. 



que ta6 defcuidados vi- 
vem de as dar bo.is naquel- 
ledia. Oh dia de ira I ô 
dia de furor ! ô dia de vin- 
gança ! ô dia de amargura ! 
ô dia de calamidade 1 o dia 
de miferia ! ô dia eftupen- 
do ! ô dia tremendo ! ô dia 
fobre toda a comprehen- 
faó, terrível ! Aíllm lhe 
chamaò com horror os 
clamores dos Profetas pe- 
la eftreitiílima conta, que 



quefoio altiíTimo fim para nelle fe nos ha de pedir a 
que te criei. Defprezafte o todos. Ê fe tudo paíTi para 



fim, naó quizeíle ufar dos 
meyos •, & porque efcolhe- 
íle antes citar parafempre 
fem mim no Inferno , que 



a vida, & nada paííli para a 
contai que cegueira, & que 
iaf mia lie a dos que todos 
fcus cuidados cmprcgao 



comigo uo CcQjf tua hc> 6c no que paíTa , fem memo- 

na> 



ão Advento^. '^^ 

ria , nem cuidado do que lias de levaf comtigo, he o 



naò ha de paílar ? Pode ca- 
ber em entendimento có 
juizo maior locura ^ qlie 
trabalhar de diajSc de noi- 
te hum homem, &: cançar- 
ícj&defvelaríej&r matarfe 
pelo que pa fia com a vi- 
da, 8c ha de deixar com a 
morte, &:naó fer o feu úni- 
co cuidado3&: defvelo tra- 
tar fó do que fó ha de levar 
comíigo,& do que fó fe lhe 
ha de pedir conta ? Ouçaò 
cftes loucos a S. y\goíH- 



peccado. Toda a matéria, 
dos peccados cà ha de fi- 
car, porque paííbu com a 
vida, 5c fo o peccado ha de 
ir comnofco, porque nam 
pafi?òu para a conta. 

f I Pa recém e, que pa- 
ra defenganara quem tem 
fé, baila a evidencia deíles 
dous pontos. O que fó qui^ 
zera alcançar deDeos^ & 
pedir aos que me ouvirão , 
he^que tomem eíle defen- 
gano em quanto vivem 



nho : Teccas propter pecn- nefte mudo, & naó o guar- 

niam? híc dimittenda eft. demparao Inferno. D^^^ 

"Peccas propter vrllam ? hic creve o Efpirito Santo no 

dmittendaeft.Teccasprop" livro da Sabedoria huma 

ter mulierem? hlc dimítm- pratica, que tiveraõ entre 

da eft. Et quidqutdeftprop^ fy no Inferno o^ que Là fo - 

ter quodpeccas , hk dimit- raó,depois de ter gaftado a 



tts^ò' ipfiimpeccãtumyqtwd 
cÕmtttis^ t ecum portas, Vcc" 
cas, homem, por amor do 
dinheiro .? êc cà ha de ficar 
o dinheiro. Peccas por 
a mor da herdade ?&cà ha 
de ficar a herdade. Peccas 
por amor da mulher , ou 
tua,ou não tua ^ êc cà ha de 
íicar a mulher. Mashavê- 
do de ficar cà tudo aquillo 
porque peçcaíle j o que fó 
Toin./v 



vida em tudo o que paíla 
com a mefma vida : & o 
que fallaváo,era defia ma- 
neira ; Ergo errãvimtis h 
via veritatis^ & Solintelli- 
gentia non eft orttts nobis. O 
certo he(^diziáo3que errá- 
mos o caminho, & que an- 
dámos às efcuras , & que 
em tantos dias,quantos vi- 
vemos 5 nunca nos ama- 
nheceo a luz do Sol. ^'td 
D iij 



só. 




t^u 



Sermão da primeira T>ominga 
ibiaem 7if)bisprofuitfuperbia : que como a Teta defpedidado 
^- nosaoroveicárão a fobcr- 



ba, Sc gloria váa das honras 



arco ao lugar dellinado, 
qiic dividindo o ar, o qual 
logo fe ccrra,&: unc^naó fe 
pôde conhecer por onde 
paíTou ; Aut tanquamfu-^^-^^^^ 
gitta emiffa tn locum defti- 



Xbid.o. 



do mundo ? T>ivitiarinn 

jaãantia qutd corUulit no^ 

fc: de que nos fervioaja- 

dbancia das riquezas j Ocos ^ ^.-jj . 

goílos, delicias , & paíTa- natitm, divtjus aer in fe re- 
re m pos em que ellas fe có- clufus efty ut ignoretur tran^ 
ÍLimem, deque nos apro- fittisilíhts. Agora, agora 
veiráráo? Todas eíTascou- conhecem bem no Infer- 
ias paílaráo como a fom- no,&: não achaõ compara- 
bra : Tranfienmt omniailla çáo,com que baílanrcméte 
tancjuam timbra. Todas declarara fum ma veloci- 
pafniráo como o correio, dadc,cò que todas as cou- 
que fempre caminha , & ílispaínió, &coma meíma 
niõ^xx2i\Tanq74am níítim preíTa (dizem) paííaraos. 
/í'rr«rrí'??j-. Todas paíTarão nós, porque apenas naci- 
como a nao, que vai cor- dos logo deixamos de Ter , 
tando as ondas , & depois ócfem deixar íinal algum 
que paífou.re lhe iiaó acha de virtude, em noiTos pro-. 
raílo : Et tanquam navis prios vícios nos confumi- 
qu.e pertranfit fluãiiantem mos : Stc & nas n ti conti- 

^'^'^ '''• aquam, cnjus^cumprceterie- mio defivimus cp : é/ vir t ti- ^^-^ ,^, 

rit^noneíiveftighm inverti' tis quidem nulkm figrium 

re. Todas paíBrão como a valumus oftendere : tn ma- 

ave, que voando, & baten - lignitate aut em nojlra con^ 

doolevcvento,quecorta, fumpti fumiis . 
nem final deixa do feu ca- f 2 lílo conferiaó en- 

minho : Aut tanquam avis tre fy naquella trií"l:e,&c tar- 

^^'' ' '' qiu tranfuolat in aere ver- de deíengnnada converfa- 

berans levem ventnm , & çaó os mílcravcis conde- 

niiliim ííg?in inVi-nitur iti- nados:osquaespara maior 

?;£r/.y/7/^//j-. Todas paíTáiaò doe levantando os olhos 

ao 



do Advento, f^ 

ao Ceo,&: vendo là glorio- da gloria entre os Santos, 



como nós padecendo as 
penas entre os condena- 
dos. Nos infenfati vitam il^ ibid. 4; 
lonvm /eftimãbamus inf<í>- 



fos, & triunfantes os que 
tratarão mais da eflreiteza 
da conta, que da largueza 
da vida \panitcntiam agen- 
Sz^.<;.i.tesy& pr<e angi^^ia/piritus niamyéf finem iilorumfine 
gementes 'y com vozes que honore-.ecce quomodo coni- 
Thefahiaó do interior an- putatijimt inter filws T>eh 
guftiado, & CO m arrepen- ér inter SanÕíosfors illorum 
dimento,& gemidos, que ^/^.Taesfaóascoufas que 
jà naó aproveita vaó,^/V£^«- diíTeraó, conclue o Eípiri- 
tes intrafe^ diziaò entre fy, xb Santo, Sc taes os difcur- 
^comíigo: queheo que 
diziaó? Hifu7it quos hahui- 
fnus aliqtiâão in derifum^ & 



fos que íizeraó no Inferno 
os máos quando là fe vi- 
rão. Talia dixernnt in In^ 



íbii. 



H- 



injirnilitudinúm improperij: ferno hi qui peccaverunt, 
Aquellesíàóos dequenòs Vejamos agora, & confí 



zombávamos , rindonos 
dos feus efcrupulos de có^ 
fciécia, & das penitencias^ 
& rigores com que morti- 
jficavaó íeus corpos , quan- 
do nòs fó tratávamos de 
regalar os noíTosjSc fatisfa- 
2er noílbs appetites 5 & 
agora vemos que elles fo- 
Taó os prudentes , & llzu»- 
dos,& nòs os loucos, & vcv- 
fenfatos , pois elles pondo 
^s olhos no fim, & no pre- 



deremos bem os que por 
mifericordiade Deos ain^ 
da temos tempo, & vida, 
fe he melhor aproveitar 
defte defengano neíle mu- 
do,ou guardalo para o In- 
ferno : & fe folgaremos no. 
dia da conta de ter imita- 
do os prudentesjque eter- 
namente haó de gozar a 
viíla de Deos no Ceo , ou 
acompanhar os loucos , & 
infenfatosjque haó de par 
mio de que nòs naó hze*- deceras penas do Inferno 
tnos caio 5 eíláo gozando por toda a Eternidade ? 



Diiij 



SER- 







fifl 



fí>^«^*J> 



'^'S»9«9^9a> 



SERMAM 

DA SEGUNDA DOMINGA 

DO 

A D V E N T O 



Joannes in vImuUs. Mattli. 



II. 




§1. 

Uehade haver 
outro juízo 5 & 
outro mundo 
nos eníinou a 
igreja Catho- 
liça o Domingo paíllido 
com a fé : o meímo artigo 
(^fe nienaò engano } nos 
prova hoje com a razaõ. 
Dizo Evangdiíla S. Ma- 
theus,q o Bautiíla, aquel- 
le grande Santo y aqucllc 
grande í^rccuríbrdç Ç.liri- 



fto, por mandado de He- 
rodes, aquelle máo home , 
&aquelle mio Rey, eílà 
hoje em prifocns ; [joannes 
iwvmcuUs. loannesin lin' 
ctilisl O Bautiíla empri- 
foens ! Logo ha de haver 
outro juizo, & outro mun- 
do. Provo a confequencia,' 
Forqueie ha Deos, he ju- 
ílo : íc he juílo, ha de dar 
premio a bons, 6c caíligoa 
máos : no juizo dclle mun- 
do vemos os mios , cornei 
Hcrodcs, levantados j os 
bons. 



Sermão da fegunãa dominga do Advento^. 
bonSj, como o JBautiílajOp- lo^nnes in vinculis ? 



n. 



primidos : íeguefe logo 
que ha de haver outro juí- 
zo,^ outro mundo ; outro 
juizoj, em que fe emendem 
eílas deíigualdadeSj & in- 
juíliças : outro mundo^em 
que os bons tenhaõ o pre- 
mio de feus merecimen- 
tos, & os máos o caíligo de 
fuás culpas. Oh que altos 
faó os fegredos da provi- 
dencia divina ! os noíibs 
próprios vicios faz que fe- 
jão teílemualias de noíla 
fé. Ham dos principaes 
fundamentos de noíla fé , 
•he a immortaíidade das al- 
mas^&anoíla injuíliça he 
a mais evidente prova da 
noííii immortaíidade. Se 
os homens naó foráoinju- 



5-4 Masaílim comoas 
prifoens do Bautiíla con^ 
iirmãoefba parte da dou- 
trina que preguei no Ser- 
mão paílado j aíHm tam- 
bém me obrigaó as mef- 
mas prifoens , a retratar 
outra parte da mefma dou- 
trina. Preguei que havia 
de haver hum juizo final, 
em que Deos nos ha de jul- 
gar atodos : ainda o digo 
aííim. DilTe mais, que eíte 
juízo de Deos havia de fer 
o mais rigurofo , o mais 
eílreito, & o mais terrível* 
Ainda o torno a dizerrpor- 
que verdadeiramente af- 
íim he. Porém hoje por 
muitas razoens vos pare- 
cera, que ainda ha outro 



ílos, puderafe duvidar fe juizo mais terrivel, ainda 



eraoimmortaesj masper- 
mite Deos que haja inju- 
íliças no mundo, para que 
a innocencia tenha coroa , 
& a immortaíidade prova. 
■Quem pôde duvidar da 
immortaíidade da outra 
vida,fe \^è neíla a maldade 
deHerodes levantada ao 
trono, Sc a innocencia do 
JBâutiílapoítaexn prifoés.. 



ha outro juizo mais rigu- 
rofo, ainda ha outro j ui zo 
maiseftreitOj que o juizo 
de Deos. E que juizo he 
efte.^ Heojuizo,quepoz o 
Bautifta em prifoens , o 
j uizo dos homens, loannes 
in 'V incutis \ O Bautiíla em 
prifoens! Logo o juizo dos 
homens he muito mais te- 
meroíò > que o juizo de 
Deo'3. 



s. 



m 

li 






PiVim. 
14Í.2. 



5f 




Sermão dafegmida^omingd 
Ainda eíia confe- difcernecatifrmmeam : Sc^ 
nhorjjulgaimevòs , & de- 
cidi a minha caufa. Nota^ 
vel encontro de aíFedos: 
fe David no primeiro Piai- 
mo diz a Deos , Senhor, 
naó me julgueis j como o 
mefmo David nofegundo 
Pfalmo diz a Deos 5 Se- 
nhor, julgaime? Húa vez 
julgaime, outra veznam 
me julgueis; que varieda- 
de he cila P Do que acre- 
centa David fe vera a ra- 
zão da diíFerença : lúdica 
me T>etis , c^ difcerne cau» 
fam meam^ decente nonfan^ 
Sfa^ ab homine iniqiw eripe 
»^^. Julgaime vos Senhor^ 
livraime de me julgarem 
os homens. Aqui eílà a dif. 
ferença. No primeiro ca* 
fo confiderava David o 
juizo de Deos abíbluta- 
mente5&:por iflb pedia a 
Deos, que o naójulgafie; 
porque o juízo de Deos 
verdadeiramente he mui- 
to para temer. No íegun- 
do cafo conílderava Da- 
vid o juizo de Deos por 
comparação ao juizo dos 
hom cns, &: por iílò queria 
que Deos o julgaílc} por- 
que. 



Deos. 

quencia he mais clara,que 
a primeira. No juizo de 
Deos atè hum ladraò fe 
falva •, no juizo dos homés, 
atè S.Joaó Bautiíla fe con- 
dena : loannes In v incidis^ 
E juizo em que atè a inno- 
cencia do Bautifta fahe có- 
denada, eftehe o juizo te- 
merofo, elle heo juizo for- 
midável, eíle he o tremen- 
do juizo. Eeíla fera a ma- 
téria do Sermão. Que o 
juizo dos homens he mais 
temerofo, que o juizo de 
Deos. 



í. II. 



QUem melhor 
que todos en- 
tendeo eíla grande verda- 
de,ou novidade , que te- 
nho propoíto , foi o Real 
Profeta David. No Pfal- 
mo cento & quarenta & 
dous, diz David a Deos : 
Non intres injudichim cum 
feri:o ttio ; Senhor , naó en- 
treis em juízo com vollb 
fervo : no Pfalmo vinte &z 
quatro diz o mefmo Da- 
vid liz/^/í-^ ^^í' 'Deus y à' 



que comparado o rigor do rofo , Sc muito mais horri- 



juizo de Deos comos ri- 
gores do juizo dos homês , 
muito mais rigurofo , & 
muito mais tremendo he o 
juizodos homens, que o 
juizo de Deos. No primei- 
ro cafo tinha David diante 
defy o temor do juizo de 
Deos. No fegundo cafo ti- 
nha de hua parte o temor 
do juizo de Deos, & da ou- 
tra parte o temor do juizo 
dos homens, & poíto en- 
tre temor, & temor, achou 
que tinha mais que temer 
no juizodos homens, que 
no juizo de Deos. Agora 
entendereis o mifterioda- 
queflas palavras , que dei- 
xamos de ponderar noE- 
vangelho paíTãdo.Tunc vi- 
debtmt Ftliúhomiràs veni- 
entem innubibus C^li : En- 
tão veráõ o Filho do ho- 
mê,qvirà nas nuvens do 
Ceo. Chriílo he homem, 
& he Deos : pois porque 
naó diz virá o Filho de 
Deosjfenaó virá o Filho do 
homem ? Porque o intento 
deChrifto era fazemos o 
feu juizo tem erofo, Schor- 
rivel : & muito mais teme* 



vel ficava reprefentado 
como juizo de homem, 
que como juizo de Deos. 
He tanto mais temerofoo 
juizodos homens 5 que o 
Juizo de Deos, que quando 
eíle fe quer fazer refpei- 
tar, & temer, quando fe 
quer veftir de horror, & af- 
íbmbro , quando fe quei? 
moftrar medonho , ôc hor- 
rendo ', chamafe juizo de 
homem : naã achou outro 
nome mais fero,na6 achou 
oiitro nome mais atroz, 
naó achou outro nome 
mais tremendo : Tunc ^vU 
debunt FHium hominis. 

56 Temos provado o 
aífumptoem comum: de- 
çamos agora às razoens 
particulares delle, quefaò 
muito varias , muito foli- 
das5& de muita doutrina ^ 
8c pode fer , que vos pare- 
çaõ tio grandes, & taó no- 
vas como o mefmo af*^ 
fumpto, 

5 . IIL 

jL juizo dos homês 
lie 



\% 



6o 

hemaís tem 

juizo de Deos 5 porque 
Deos julga com o enten- 
dimento, os homens jul- 
gaó com a vontade. Quan- 
do entre o entendimento 
de DeoSjSc a vontade dos 
homés, naòouvera aquel- 
la infinita diftancia, baila- 
va fó a difrerença , que ha 
entre vontade, & entendi- 
mento 5 para fer grande a 
defigualdade deííes juí- 
zos. Quem julga com oen- 



SermaÕ àafegunda T>cmmgã 
rofo 5 que o entendimento 



Declaran^ 
do o mefmo Chrifto Se- 
nhor noíTo os feus poderes 
fupremos de Juiz univer- 
fal do mundo , diz que o 
Pay deo todo o juizo ao loan. 
Filho : Tateromne judicia ^*'--- 
dedii Filio. Pergunto : & 
porque o naó deo o Padre 
ao Efpirito Santo ? Para 
hum juízo perfeito reque- 
remfe três coufas : Scien- 
cia para examinar ,Juíli ca 
para julgar , Poder para 



tendimento, pode julgar executar. Pois feapeíToa 
bem, & pode julgar mal; do Filho, & a do Elpiriro 
quem julga com a vótade, Santo temamefma fabe- 



nunca pôde julgar bem A 
razaó he muito clara. Por- 
que quem julga com o en- 
tendimento , fe entende 
mal, julga mal, fe entende 
bem , julga bem. Porém 
quem julga com a vonta- 
de, ou queira mal,ou quei- 
ra bem, fempre julga mal: 
fe quer mal , julga como 
apaixonado, fe quer bem, 
julga como cego. Ou ce- 
gucira,ou paixaó,vede co- 
mo julgará a vontade com 
ta es adjuntos. No juizo 
divmonaóhcaílim: julga 
fó O entendimento, &: tal 



dória, a mefma juíliça, & a 
mefma omnipotécia -, por- 
que razão dà o Padre Eter- 
no o ofHcio de julgar ao 
Filho, & naó ao Eípirito 
Santo .? A razLió moral , & 
altifllmaheeíla. Porque o 
Efpirito Santo procede 
por adiro de vontade, 5c o 
Filho he gerado por aíto 
de entendimento : & o jul- 
gar (^ ainda que fcja Deos, 
o que julga} pertence ao 
entendimento , & nam à 
vontade. Ao KrpiritoSá- 
tOjque procede por vonta- 
de , dcolhe o Padre o dcf- 
pacho 



io Advento: ^i 

pacho das mercês : T>ator nar fó por entendimento , 

munertim : ao Filho, que fe fem vontade 5 o dar mui 

produz por entendimen- por vontade, mas com en- 

to, deolheo juizo das cul- tendimento. E feria bem 

pas: Omnejudichm dedit queodarfoíTe fò por en- 

Filio 5 porque o dar, para tendimento ; & que no 



que fe agradeça, ha de pro 
ceder da vontade, Sc oco- 
denar , para què fe naó er- 
re 5 ha-o de regular o en- 
tendimento. Ainda nam 
eftàdito: ouvi húa coufa 
grande. Quando o Padre 
ab-eterno gera o Filho, 
^era-o por puro aábo de 
entendimento, íem inter- 
venção ainda da vontade : 
quando o Padre > & o Fi- 
lho produzem o Efpirito 
Santo , prqduzem-no por 
a£to da vontade , mas jà 
com fuppoíiçaó do enten- 
dimento. Pois por iííb o 
dar íe attribue à terceira 
peífoa , Sc o j ul gar à fegun- 
da 5 porque o dar ha de fer 
da vontade,mascó fuppo- 
íiçaó do entendimento: o 
julgar ha de fer fó do en- 
tendimento íem interven- 
ção nenhúa da vontade. 
Eis aqui hum perfeito di- 
£tamedajuíliça punitiva, 
&diílributiva. O conde- 



condenar entraíTe tam- 
bém a vontade ^ Naó: por- 
que dahi naceria o que 
acontece algúas vezes , 
que nem as mercês obri- 
gaó,nem os caftigps emen- 
dáo. Condenar com von- 
tade, he paíTar além de ju- 
fto, dar fem vontade, he íi» 
caràquem de liberal : no 
primeiro vai efcrupulofa a 
3uftiça,no fegundo íica de- 
fairofa a liberalidade. 

f8 De maneira que em 
Deos a vontade , Sc o en- 
tendimento tem reparti» 
dos osofficios, o entendi- 
mento j ulga^ a vontade da . ' 
Nos homens naó paíTa af- 
íim. O entendimento eítà 
depoílo de feu oíficio, a 
vontade ferve ambos : a 
vontade he a que dà, 6c a 
vontade h e a que jul ga . A 
queixa de fer a vontade a 
que dà, deixemola aos co-- 
biçofos, Sc aos pertenden- 
tesy afem-razaò dcíer a 
voa- 



<?2 SermaÕ ãafegunda dominga 

vontade a que julga, he a mefmo Chríílo l Ha coufa 



que faz o juizo humano 
mais formidável , que o 
divino. Veyo hua vez a luz 
a fer julgada no juizo dos 
homensj& vinha ella mui- 
to confiada 5 porque jà an- 
tigamente tinha apareci- 
do diante do Juizo de 
Deos, 8c fahio delle com 
grandes approvaçoés: Fiat 
íux-,&faifa efl iiix-^ér vidit 
IDeus Incem > quodejfet bo-^ 
na, Comeftasabonaçoens 
do juizo de Deos entrou a 
luz no juizo dos homens, 
&como vos parece que 
fahiria delle^DiíTe-o Chri- 
íto no Capitulo terceiro 



mais fermofa , ha coufa 
mais útil , ha coufa mais 
ncceíTaria no mundo , que 
a luz? Pelo contrario ha 
coufa mais fea , ha couía 
mais horrenda , ha coufa 
mais inútil, ha coufa mais 
chea de inconvenientes, 
que as trevas? Naó íaó as 
trevas a capa dos latrocí- 
nios, as terceiras dos adul- 
térios , as complices , 8c 
as confentidoras dos ma- 
iores infultos, das maiores 
enormidades , que fe co- 
metem no mundo ? Pois^ 
comohepoílivel, que ho- 
mens com olhos , 8c çom 



de S. JoaòjSc foi neceíHirio entendimento antepuzef- 



que o mefmo Chriílo o 
diíTcíle , para que nòs a 
creíTemos : Venit lux in 
miindiim , & dilexerunt ho- 
mines magis tenebras^ quàm 
hicem. Veyo a luz ao mun- 
do , 8c os homens antepu- 
zeraó as trevas à luz. Ha 
talfem-razaó ! ha tal ce- 
gueira ! ha tal maldade ! 
Quem ouvera de crer de 
juizosracionacs hiia Çç,\\- 
tença taõ barbara como 
Q^x^ fe Q nag aíiirmiira o 



fem as trevas à luz? As mef- 
mas palavras de Chriflo 
deraóa razão '.'Dilexerunt 
homines magis tenebras^ 
quàm luccm. dilexerunt: 
julgarão com a vontade,^ 
naõ com o entendimento : 
8c onde a vontade he juiz, 
ta es como eílas faò as Çcn- 
tenças. Qiie havia de fazer 
hua cega , fcnaô condenar 
a luz ? 'Dilexerunt magis: 
air.áraó mais: Eis aqui to- 
do o juizo dos homens: 
a má- 



àmarao mais 5 ou amarão 
menos. Se amáraÕj aitida 
que feja as trevas,as trevas 
haó de ier melIioreS:,que a 
luz : Te náo amáraó , ainda 
que fejaaluz jaluzha de 



caufa em Chríílo, Ego nuU 
Iam catifam inverno: como 
lhe puzeraó a caufa cÇcm^ 
na Cruz : Impofuerunt cau- 
fàmejmfcrlptam ? Aqui 
vereis quanto vai defer 



fer peor^que as trevas. Oh julgado com o entendi-* 

quantas vezes renova o mento, ou com a vonta- 

mundo eíla fentençalQuã- de. Depois que Pilatos de- 

tas vezes vem a juizo a clarou a innocencia de 

luz,& as trevas, &fahe c5- Chriílo, devolveo as acu- 

denada a luz ! Vede que façoens ao juizo davonta- 

fegurança pôde ter o me- de dos Principes dos Sa- 



reci mento, ou que immu- 
nidade a innocencia em tal 
juizo .^ O fummo mereci- 
mento, & a fummaHino- 
cenciaodiga. 

fp Prefentado Chii- 
ílo ante Pilatos , tirou elle 
as teftemunhas, examinou 
as acufaçoens , & decla« 
rouaChjifto por innocé- 
Lac.23. ttiEgo nuUam cãtifam in- 
vmio in homine ifto : £ u ne - 
nhúa caufa acho neíle ho- 
mem. Da hi a pouco leva- 
rão a C "hriíio ao Calvário, 
pregáraónoem hua Cruz^ 



«4- 



c^tàotQs-.Jefum vero tra^L'ac.:ty, 
dídUvolmitati eomm -, &^^' 
como Chriílo foi julgado 
no juizo da vontade , logo 
lhe acháraó caufa para o 
crucificar. No juizo do 
entendimento, ainda que 
era entendimento de Pila- 
tos, naò fe achou caufa a 
Chriílo : no juizo da von- 
tade , ainda que era o jul- 
gado Chriílo, achou fel h« 
caufa. E porque acha mais 
a vontade fendo cega,qiie 
o entêdimento fendo lyn- 
ce.^ Porque o entendimen- 



Matth. Et ^^^pofaenmt fuper caput toachaoqueha ,a vonta- 
27.3 7> ejus cãufam ipfitis fcriptar/iy de acha o que quer. Con? 
&: puzeraó nella , diz o foniieavontade quer, af- 
TextOjafiacaufa efcríta. fim acha. Se a vontade 
Pois fe Pilatos naò acliou quer fav orecerjaeharà me- 
reci- 



644 Sermão 

rccimento em Judas , fe 
a vontade quer condenar, 
achará culpas em Chrifl-o. 
Que culpas tinha o Bauti- 
íla contra Herodes>para o 
meter em prifoens ? mas 
tinha contra fy a fua von- 
tade, que era a maior cul- 
pa de todas. Bem enten- 
dia Hcrodesjque era inno- 
cente o Bautifta : mas naó 
quero ir por aqui : ou He-* 
rodes entendiajque era in.- 
nocenteo Bautifta, ou naõ 
o entendia: fe o naó enten- 
dia, vede a cegueira da vó- 
tade, que o fazia entender 
contra a razão : fc o enten- 
diajvedeatyrannia da vó- 
tade,queo fazia obrar có- 
tra o que entendia. De húa 
maneira, ou de outra fem- 
pre o Bautifta tinha cer- 
tas as prifoens: Joannesin 
n;incuiis. 



5. IV. 



60 



A; 



ra- 



Segunda 

^zaó de o jujl- 

zo'dos homens fcr mais 
terrivcl, que o juizo de 
Dcos, hc porque no juizo 
dcDcos geralmente baila 



íhãa^omtnga 
fó o teílemunho da pro*. 
priaconíciencia : no juizo 
dos homens a própria con- 
fciencia naó vai teílemu- 
n ha. Vede que grande he a 
fidalguia do juízo deDeos. 
Apareceis diante do Tri- 
bunal divino, acufaóvos 
os homens , acufaóvos 
os AnjoSj acufaóvos os De- 
mónios , acufaóvos voífas 
próprias obras , acufaóvos 
o CeOja terra,o mundo to- 
do j fe a voíía confciencia 
vos naõ acufa , eftais-vo» 
rindo de todos. No juizo 
dos homens naó he aílim. 
Tereis a confciencia mais 
innocente,quea de Abel, 
mais pura , q a de Jofeph , 
mais juftiíicada , que a de 
S. J02Ó Bautiíla : mas fe ti- 
verdes contra vòs hum 
Caim envejofo , hum Pu- 
tifar mal informado , ou 
hum Herodcs injullo , ha 
de prevalecer a enveja có- 
traainnocencia,a calum- 
nia contra a vcrdadc,a ty- 
rannia contra a juftiça , & 
por mais que vos cíleja 
fakando,8c bradando den- 
tro no peito a confciencia, 
não vos hao de valer fcus 
cia- 



doAd^ventd. éj 

damores. Vede que com- homens verem òs còm- 



pn.rnç-^ó tem eííe rigor c6 
o do juízo de Deos. Acho 
eu muita graça aos Pre- 
gadores, que para nos re- 
prefentarem aterribilida- 
dc do juízo divino 5 tra- 
zem aquella authoridade^ 
ou oráculo de Deos a Sa- 
vncg. i^x^d-.Homovídet ea^qu^ grandccoftume>ô qgran- 
»^-7- parent^^Gmintts autemin- Af^f'^^'^y*A.^A^Çr^^^]\/\^^^^ 



çoens ? para os rraydores , 
para os hypocritas,para os 
lífongeiros, para os micnti- 
rofos,&: para outra gente ' 
deílarelèjmaspara os ze- 
lofos, para os verdadeiros^ 
para os honrados, para os 
homens de bem i ô que 



tuetur cor : os homens vem 
fó os exteriores , porem 
Deos penetra os corações : 
antes por iíTo mefmo he 
muito mais para temer o 
juizo dos homens j fe os 
hòmensconhecéraó os co- 
raçoens, fe aos homens fe 
lhe pudera dar como co- 
ração na cara j então nam 
havia que temerfeus juí- 
zos. Que maior defcanfo, 
&: que maior fegurança, 
que trazer hum homem 



de felicidade fora! Mas co- 
mo aconfcienciano juizo 
humano nao vai tefiemu- 
nha,quem leva a calum- 
nia nas obras,que importa 
que tenha as defefas no co- 
ração f* 

6i A maior defefa, Sc 
juílincaçaó , que Chriílo 
tevedeluainnocencia, foi 
o depoimento de Pilatos, 
quando pedindo agua la- 
vou as mãos,& pronúcioui 
queelle era innocente no 



fangue daquelle juílo; Ac- ^^^^^^^ 
lempre coníigo no feu co- cejpta aqua^ lavzt manus co- --i^^, 
raçaó a fua defefa? Acuíàif- rampopulo-^dícens: Innocens 
me 5 condenaifme, infa- egojtim àfãnguine juftihw 
maif lie ? quereis mil tefte- pis. Reparou neíta agua,&: 
munhas, pois eilas aqui, & neíle fangue S. Cyrilloje- 

rofolymitano,&: diíTecom 
opinião íingular, q aquel- 
la agua,& aquelle langue, 
que fahio do lado de CÍiri»- 



moílrari he o coração ; Bo- 
na confcícntia milie tefles. 
Sabeis vòs para quem naò 
era boa invenção a de q% 
Tom./.. 



66 Sermão da figimdaDomm^a- 
lio na Cruz, faziaó alufaô fefas do coração eraõ ver* 
a efta agua, & a eíle fan- dadeiras •, mas como o co- 
%\xç.\ Erant hac duo de late- ração no mundo naó vai 
reyjudicanti aquã^claman- teílemunha, morreo cru- 
tíbusverofangtiis. A agua cificadaainnocécia Quã- 
fignificavaa agua,có que rostresladosdeíle procef- 
Pilatos lavou as mãos: ^r- fofe formão cada dia no 
cepta aquãy lavit manus : o juizo humano ! por iíTo os 
fangue fignificava o fan- innocentes padecemy&os 
gue, que o mefmo Pilatos culpados triunfaó. Quem 
declarou por jufto , & os mais innocente , quejo- 
acuíadores tomáraó fobre feph, quem mais culpado, 
n)id.25.1y, Sanguis ejusfuper nos: queaEgypcia?mas acul- 
de maneira , que airim co- pada moltrava os indícios 
mo cà o reo, ou o homifia- 



do, traz no feyo os papeis 
de fua defefa, aílim Chri- 
ílo meteo no coração a- 
quella agua,& aquelle fan- 
gue, em que confiíliaó os 
teftemunhos authenticos 
de fua innocencia. Ora 
vede agora fair a Chriílo 
do Pretório de Pilatos , 
acompanhado de grande 
tropel de juftiças, Sc vereis 
nareprefentaçaó daquella 
tragedia , o que cada dia 
acontece no mundo. O in- 
nocente caminhava para o 
fuppUcio, o pregaó dizia 
as culpas, o coração leva- 
va as dcfcfas. As culpas do 
pregaõ erag falfas, as dc- 



naçapa,6c o innocente ti- 
nha as defefas no coração-, 
por iffo ella triunfa ,&:el- 
le padece. Morre em fim 
ChriftonaCruz, abrelhe 
húa lança o peito , fica o 
coração patente, &: entaò 
fahiráoem publico asfuas 
defefas: Exi-vitfangiíis,& ^^o.nn: 
^^«^. Pois agora depois de' ■' ■ 
Chriílo morto? Sim ago- 
ra: queefiahe adilleren- 
ça,queha de hum juízo a 
outro juizo. No juizo de- 



que 



hc o 



pois da morte , 
juizo de Deos , cntao va- 
lem as defefas do coração i 
no juízo dcíla vida, que 
heojuizo dos homens, iie- 
nhúa valia tem. Oii dcf- 



gra- 



do Advento. 
graçada forte a áo coração logrados 



^7 



humano .'poder fer julga- 
do dos homens para a cul- 
pa, «Scnaó poder fer vifto 
dos homens para adefeíaí 



Náo ha maior 
delid-o no mundo , que o 
fer melhor. i\o menos eu 
a quem amara das telhas 
abaixo, antes lhe defejára 



Se aílim he, que muito que hum grande deliílo , que 
fenaô defenda a maioria- hum grande merecimen 



nocencia , loannes in "vin- 

€1iU$> 



6i 



O Terceiro mo- 
tivo de maior 
temor,que ha no juizo dos 
homens, comparado com 
o de Deos, he, que no jui- 
zo de Deos as noíTas boas 
obras defendem -nos , no 
juízo dos homens,o maior 
inimigo, que temos, fao 
as noílas boas obras. De- 
mos reviílaa algus exem- 
plares do juizo humano,& 
conflarnosha delia verda- 
de. O primeiro condena- 
do, que ouve no juizo dos 
homens, foi Abel 5 & por- 
que culpas.^ Porque o feu 
facriíicio agradou mais a 
Deos, do q o de Caim. Ha 
tal crime como eíle.^ Se A- 
bel fora como Caim , elle 
tivera os feus dias mais bé 



to. Hum grande deUdo 
muitas vezes achou pieda- 
de: hum grande mereci- 
mento nunca lhe faltou a 
enveja. Bem fe vè hoje no 
mundo : os delidros com) 
carta de feguro , osmere-; 
cimentos homiíiados. Va- 
mos a outro exemplar. 
Saul condenou tantas ve- 
zes à morte a David , ôc 
chegou a lhe tirar elle 
mefmo às lançadas : Sc 
porque crimes. ^Porque fe 
cantava pelas ruas dcjc- . 
rufalem , que David era 
mais valente , que Saul : , j^^g 
^ercuJJJt Saidmiíle^lDãvid 18.7. 
autem de cem milita. Efte 
premio tirou David de 
matar hum Gigante com 
híía funda. Maisventuro- 
foshaviaóde fer os tiros, 
fe náo deraó tamanho eíla- 
lo. AoGigãtederrubou-o 
a pedra, & a David o foni- . 
do. Eis-aqui porque Da* ; 
£ ij vid 




I-1 



Matth. 



6 8 Ser ma o da feguntía ^o?mnga 

vid queria que o julgaííe vem, os mancos andaõ, os 

Deos, & naó os homens : mortos reíufckaõ : Et bea- 

íiojuizodeDeosperdoaó- tus qui fcandalizatus non 

fe os peccados como fra- fueritinme •, &: bemaven- 

quezasi no juizo dos ho- turadooquefenáo efcan- 

mens, caíligaófe as valen- dalizarem mim. y\quire- 

tias como peccados. Gra- paro > ò' beatus quijcanda^ 

çasaDeos, que jà nos hi- lizatusnonfuerít,^ bem- 



mos emendado defte. Va- 
mos ao terceiro exemplar. 
Mas para que he ir mais 
longe 5 fe temos o maior 
exemplo de todos no Evã- 
gelho ^ 

63 Mandou o Bauti- 
íla do cárcere dous difci- 
pulosíeus, que fofiem per- 
guntar a Chriílo fe era el- 
le o Meíllas, Tu es^ quivcyi- 
turusesy an alium expeça- 
?;í«j.^Suípcndeo o Senhor 






aventurado o que nam fc 
efcandalizarPE que tinha 
feito Chrifto, para fe efcã- 
dalizaremos homens.^ Se 
Chrifto arrancara olhos, 
& fizera cegos •, fe cortara 
pès, & fizera mancos -, fe 
tirara vidas, Sc matara ho- 
mens :encaó tinhaó razaó 
de fe efcádalizar de Chri- 
fto j mas por farar, por re- 
mediar, por refufcitar ? 
Sim.Porquenaó hacoufa 
a repofta, porque havia ao de que mais fe efcandali- 
redor grande multidão de zem os homensjquc de ha- 
cnfermos, que efperavaõ, ver quem faça milagres. 
& depois de os firar a to- Antigamente efcandaliza- 
dosmilagrofamente, vol- vao os peccados , &: edifí- 

cavaòas virtudes: hoje as 
virtudes efcandalizaó, & 
queira Deos , que os pec- 
cados naò edifique. Deos 
vos livre de voíTiis boas 
obras , & muito mais àxs 
grandes : os pcccaiios fo- 
ircmolos facilmente j os 
mi- 



toufc para os Embaixado- 
res do Bautifta5&:diftl^lhes 
aílim : Ite rennntlate loa^^ 
ni qua audiHis^ ér vidijlis. 
Ide, dizei ajoaó o que ou- 
vi ftes 5 &: vi ftes : Caci vi- 
denty c landi ambiilant^^mor- 
tui refurgiiíiP, Os cegos 



^doAdiíêntol 6§ 

BiHagf es não os podemos milagres naô efcapa ? Ain- 



íbfrer. E porque P Forque 
os peccados faó oífenfas 
de Dcos y ^ os milagres 
íaóolfenfanoílà. Bem fe- 
guro eu 5 que havia mais 
de quatro enfermos em 
Jcrufalemj que não quize- 
ráoferfarados , fó porque 
Çhrifto não foUe o mila- 
grofo, Naó atirara Saul a 
lança contra David, que 
lhe tirava a enfermidade, 
fe lhe naó doera mais o 



da dizia mais o proceflb de 
Chrifto : Ecce totus mim- ísan.ís ■ 
dusfoft eum vadrt : que era '^' 
tal, que ília todo o mundo 
anos elle. Se diílèraó , que 
ellehia após o mundo, có- 
denaíTemno muito embo- 
ra j mas porque o mundo 
hia após elle l Eis ahi 
quaesfaó os crimes do juí- 
zo dos homens. Se fores 
após o mundo , ninguém 
vos ha de condenar 5 fe o 



milagre, do que lhe agra-r mundo for após vos, naó 

dava a faude. vos ha de valer fagrado. 

6^ Oh quanto mais Que diíTe hoje Chrifto do 

íeguro heir com peccados Bautiíla.?que fe deípovoa- 

âo juízo de Deos,que com vão as Cidades para o buf- 



milagres ao juízo dos ho- 
mens! Em Deos hamife- 
ricordia, na enveja não ha 
perdão. Que levou a Mag- 
dâlena ao juizo de Chrí- 
íío ? peccados ; 6c como fa- 
hio ? perdoada , Remittun^ 
tur eipeccata multa. Que 
levou Chrifto ao juizo dos 
homens ? milagres : & co« 
mo íahio > condenado, 
^da hic homo multa fgna 
facit, Comqueefcaparáó 
os homens do juizo dos 
homens, fe Deos, & com 
• Tom. 7, 



car, para o ver : ^id exi- 
ftis indefertum viderelQuz x .^"s. 
não era cana verde , que íè 
moveífe com o vento : 
Arundimm veto agitatam > 
Que não era homem da 
Corte , que veílilfe fedas , 
fenão cilícios , Hominem 
mollibusvejfitum: Que era 
mais que Profeta, Tlufqm, 
^rophetãm : finalmente , 
que era hnpyEcceegomit- ibid.io, 
to Angelum menm : Ah íim, 
meu Santo Precurfor , & 
vós tendes cinco culpas 
E íij " láp 






70 Sermão dafegunda "'Dominga 

tio grandes como eílas, ác fó Deos. Eis aqui atè don-« 
tão provadas ? Máo pleito de chega o Demónio, quã- 
levaisaojuizodoshomês} do acufa j & o homem 



a vòs vos tiraráó dos 
olhos, & dos ouvidos do 
mundo, a vós vos fecha- 
rão em hum carcere> loan- 
nesinvinculis. 

§. VI. 

6j A Quarta cófide- 
/\ raçaó de fer 
maistemerofo ojuizodos 
homens , que o juízo de 
Deos, he porque Deos jul- 
ga o que conhece 5 os ho- 
mens julgáo o que não co- 
nhecem. Hum dos maio- 
res rigores do dia do Juí- 
zo, he que os mefmos De- 
mónios hão de fer alli 
noííbs acufadores ; mas 
eu antes me quizera ver 



quando julga ? Julga vos as 
obras 5 julgavos as pala- 
vras,&atè o mais intimo 
penfamento vos julga, 6c 
vos condena. Ha tal teme- 
ridade de juizo ? Quejul- 
gue o homem as obras,quc 
vè, que julgue as pala- 
vras, que ouve, feja embo- 
ra> masque queira julgar 
os penfamentos , onde naò 
chega com algum fentido 
do corpo, nem com algua 
potencia da alma l Ella he 
hua das mais graves ra- 
zoens, porque ojuizodos 
homens he mais para te- 
mer,queojuizo de Deos: 
Deos julga os penílimen- 
tos, mas conhece-05', o ho- 



acufadodeDemonios^que mem não pôde conhece^ 
verme julgado de homens. 
O Demónio no dia dojui- 
zo hanos de acufar de to- 
das noílas obras, hanos de 
acufar de todas noíTis pa- 
lavra9: mas em chegando 
aos penfamentos ha de ta- 
par a boca o Demónio, 
porque os pcccados de pé- 
íramejQCQjTuO jccfcrvados a 




penfamentos,^ julga-os. 

66 Dirmeheis, queos 
homens julgão os penfa- 
mentos pelas obras , 6c 
que pelas obras , que fe 
vem, bem fe podem julgar 
os penía mentosjque fe na5 
vem. Seaílim fora , nani 
eráo tanto para te:riCr os 
juízos dos homens i mas 




€. Res. 



doAãventú, ji 

vede quanto ao contrario quodoccdjtones quarat ad- 

das obras julgaó ainda os verfumme. Lãçoufe Aman 

melhores homens os pen- aos pès da Rainha Eílher, 

fa mentos. Efí-ava Anna pedindo que lhe valeíTc 

iTiáy de Samuel orando no contra a indignação del- 

Templo com os afFedos> Rey, de cuja graça fe via 

& eíFeitos, que coílumão tão inopinadamente cahi- 

os afligidos : & que juizo do : & que juizo faria ÁP 



vos parece , que faria o 
Summo Sacerdote Helí 
deftaoraçaó ? Julgou que 
era intemperança : & que 
os movimentos, que fazia 
ilnna com a boca^tinhaò a 
caufa na mefma boca , & 



;.«. 



fuero deíla acção de A- 
man ?Julgou-a tanto con-' 
tra toda a razão , <5c contra 
o decoro, que a fy mefmo 
fe devia 3 que em nenhum 
penfamenco pôde caber o 
penfamento,que lhe veyo, 
não no coração laftimado nem ha palavras, com que 
donde íàhião: Exíjiimavit fe poífa explicar fem dif- 
tilam tenmlentam , & ait: fonancia : Et iam Reginam s<Ji^cr 
Vfquequoebriaeris ? Veyo ^ult ofprimere, meprasête^ 
Naamão Syro à terra de indõmo mea. Eis aqui co- 
Judea para que. o Profeta mo interpretaó os homés 
Elifeo o curaíTe da lepra : as acçoens,6c como julgao 
6c que juizo faria EÍRey por ellas os penfamentos. 
Ezechias defta jornada de Anna orava a Deos , & a 
Naamão ? Julgou, que era fua oraçaó foi julgada por 
mandado cautelofamente intemperança : Naamão 
por íeu Reyj para que tor^ bufçava a faude , 6c a fua 
nandofefema faude, que confiança foi julgada por 
vicrabufcar, tomaííe da- hoftilidade : Aman pedia 

perdão, êc o feu arrependi- 
mento foi julgado por fa- 
crilegio. Nem chorar o ar- 
rependido, nem curarfeo 
enfermo ) nem orar one- 
Eiiij ceíll? 



quioccaíiáodequeixa, & 
da queixa paífaíle a rom- 
pimento de guerra, 6c lhe 
vieíTe conquiítar o Reyno: 
^■.^^^' Anitmdvertíte , é" Videte 



"/ 2 Sermão dafegunda T>aminga 

ceílitado , efl:à izento de do a fó Deos o juizo dos 

fer mal julgado dosho- penfamcntoSíquc nem de 

mens.Anna pedia o reme- toda a Igreja Catholica 

dio de fua eílcril idade a fiou Deos o julgar hum 

Deosj Naa máo pedia o re- penfamento : Ecclefta non 

médio de ília enfermidade judicatâe interno. E o que 

aEIifeo , Aman pedia o Deosnáo fía dos Pontifí- 



remédio de fua infelicida 
de a Efther j 6c nem em 
Efther o fer Rainha , nem 
em ElifeooferSantOjnem 
no mefmo Deos o íer 
Deos, lhe valeo aos mife- 
raveis para que efcapat 



ces, o que não fia dos Con- 
cilies, o que não fia de to- 
da a Igreja, que he julgar 
meus penfamentos , iflb 
faz o juizo de qualquer 
homem. Parecevos muito 
iílo? Parecevos muito, que 



fcm. Nemcomos Reys, os homens julguem penfa 




nem com os oantos ,nem 
com Deos fe pode tratar 
fem fer mal julgado dos 
homens. Táoinjuílo he o 
juizo humano em inter- 
pretar intençoens ♦, tão 
atrevido, &: táo temerário 
he em julgar pelas obras 
os penfamentos. 

6/ Julgar mal huma 
obra boa, grande maldade 
he : mas julgar, ou bem, ou 
mal huiii penfamento, que 
nao pode fer conhecido, 
ainda he maior tyrannia. 
Sc não conheces , nrm po- 
des conhecer o penfa men- 
to^ como te atreves home 
ajulgalo.^Hctáo refcrva- 



mentos , & condenem fó 
por penfi mentos ^ Ora 
aguardai , que ainda nani 
diílenada. E quantas ve- 
zes vos julgarão, êf conde- 
narão os homens pelo que 
nunca vos paflbu pelo pé- 
fimento ? ^\s aqui outra 
maior diíferença dos dous 
juizos: Deos julga^Sc con- 
dena por penfamentos, os 
homensjulgaó, êc conde- 
nao pelo que nunca pnílbu 
pelo penfamento. Paílbu- 
Ihe aigãa hora pelo penfa- 
mento a Jofcph atreverfc 
á honra de fcu Senhor ^ 
Paílòulhealgua hora pelo 
penfainenroa Daniel que- 
rer 



:ão Advento. _ 7Í 
íer machinar contra o Im- vos ccíadenlo os homens 
períodos AíTyrios ? Paf- pelo que não vos paíTou 
foulhe algua hora pelo pelo penfamento a vós, 
penfamêtoaChrifto^que mas condenãovos pelo q 
tatnbemniíloquiz darnos nem lhes paíToupelo pen- 
exeniplo ) quererfe fazer famentoaelles. Mais cia- 
Rey temporal, de que ta- ro. Naó fó vos condenão 
tas vezes fugira ? E com os homens pelo que vòs 
tudo Jofeph por fe atrever nunca imaginaftes , mas 
à honra de feu Senhor eftà condenãovos pelo que né 
em hum cárcere : Daniel elles imaginão de vòs. 
por machinar contra o 68 Chegarão os irmãos 
Império eílà no lago dos de Jofeph ao Egypto,apa- 
Leoens : Chrifto por fe recéraõ diante delle , &: 
querer fazer Rey eítà po- depois que diíTeráo, quem 
ftoemhúaCruz. Comef- eráo,&a que vinhaó ,fe- 
te rigor nenhúa compara- coufe Jofeph mui ao de 
çaótemojuizo de Deos. miniftro, & comafpe£to 
Para Deos condenar por fevero diíTe : Vaó prefos 
penfamento heneceíTario, eíTes homens. Prefos nos, 
que hajapenfamento,que Senhor Viforey,C replica- 
fejamáo,& quefeconfm- raó elles tremendo ) &: 
ta : para o homem conde- porque ? Explor atares ef- ^^^^^ 
nardomefmo modo,nam tis: Sois efpias : vindes a ^ij?. 
heneceíTario, que fecon- explorar os Reynos de 
fmta, nem que feja máo, Faraó meu Senhor. As pa- 
nem que haja penfamen- lavras não eraó ditas, &jà 
to.Pòdefe imaginar maior os dez irmãos eftavaó com 
rigor, maior injuíliça, ma- ospès , Sc mãos em outros 
ior crueldade, que eíla.^ tantos grilhoens, & alge- 
.Eu cuidava, que não •, mas mas. Pergunto agora : Ef- 
ainda paíTa adiante a futi- tts homens iraagiiáraô ai- 
leza,&acrue.dadedojui- gõaiioradevir fer efpias 
20 dos ho)iiens. Naó fó ao Egypto^ ôc explorar q% 

ReY«f 



7Í Sermão dajegimáa dominga 

Reynos de Faraó? Claro deiras. Diga-o a de Na- 
eíUqne nunca tal imagi- both em Samaria , &a de 
náráo. Eraó huns pobres SufanaemBabylonia. Por 
lavradores, que vuihaó fu- ventura imaginava Jeza- 



gindo à fome , comprar 
quatro grãos de trigo para 
manter a vida> & deitar ,à 
terra. Pergunto mais : <Sc 
Jofeph imaginava dclies 5 
que foíTem efpias , &: ex- 
ploradores } Ainda iílo he 
mais claro ) (Sc mais certo. 



bel^que Naboth blasfema- 
ra o nome de Deos , & ád- 
ReyPNáo imaginava tal 
coufa. E com tudojeza- 
belfezcódenar a Naboth 
pelo que nem €í[ç^ imagi- 
nou nunca5nem ella imagi- 
nava àú\^. Por ventura os 



Nunca tal imaginou Jo- Juizes de Babylonia ima- 

feph 5 porque conhecia gináraó de Sufana , que 

mui bem , que cráo osfí- violara a fé, que devia a 

lhos de Jacob feu pay.Pois Joachim, no crime de que 

fe eftes homens nuca ima- a acufavão ? Não lhes paf- 

gináraó em fer eípias,& íè fou tal pela imaginação. E 

a Jofeph nunca lhe paíTou com tudo foi condenada. 




pela imaginação , que o 
foíTem 5 como os manda 
prender? He poílivelque 
hão de eílarhuns innocé- 
tes arraílando cadcas em 
húa mafmorra pelo que 
nem clles imaginára6,nem 
imaginou dclíes quemalli 
os metco ? Aííim palFa. Na 
hiíloria de Joíeph era 
aquelle rigor fingido -, mas 
ainda mal, porque tantas 
tragedias fe rcprcfcntaó 
no mundo, em que as mcf- 
mas injulli^as íàò verda- 



de levada ao fupplicio Su- 
ílina pelo que né cila ima- 
ginou , nem imaginarão 
delia os mefmos:, que a có- 
denáraó. Quantas vezes 
julgais, condenais , infa- 
mais, & dcílruis hum iw- 
noccnte pelo que nem c:\Lq, 
imaginou 5 nem vós ima- 
ginais dellc? Sabeis de cer- 
to, que não fez o crime, & 
iní a mailo, c^ acufulo , & 
condenailo como fe o fize- 
ra. Sc condenar por culpas 
duvidofas hc mjuílica, cò- 
ocnar-i 



âoAãventcT. 
denar por innocencia co- muito ré 
nhecicia , que tyrannia fe- 
ra? a que ufa o juizo dos 
homens eom o Bautifta: 
loannes in vinctãis. 



omite 



§. VIL 



^9 



A Quinta razão, 
Sc diíFerença, 
que acho entre o juizo de 
Deos> & o juizo dos ho- 
mens, heaquellajque pare- 
ce faz o juizo de Deos 
mais temerofo , que he o 
fer juizo final. Juizo íinal l 
Oh que temerofa palavra ! 
Mas dahi mefmo tiro eu 
quanto mais temerofo he 

o juizo dos homens^que o fins pelos principies , mas 
juizo de Deos. Deos naó comoosíucceííbs do mu- 
julga fenão no fim, os ho- do5& da vida , Sc muito 
mensnáo efperâo pelofim mais os que dependem do 
para julgar. Gram rigor! alvedriojnãoguardãopro- 



tttraque crefiere ufque ad i^[^^^^^ 
mejjem. Deixai nacerjdei- 
xai crecer, deixai amadu- 
recer 5 là virá o tempo da 
mefíe, então fe conhecera, 
qualheo trigo, & qual a 
zizania. Eis aqui qual he 
Deosno julgar, éÇc quaes 
faó os homens. Deos não 
condena fenão no fim: os 
homens não efperâo pelo 
fim para condenar. Deos 
para colher efpera peio A- 
gofio : os homens fegaò 
em Janeiro.Os que mais ti- 
moratamente procedem 
em julgar antes do fim, faó 
aqueiles , que reguião os 



Semeou zizania o inimigo 
na feara do Pay de Fami- 
lias j & que a conteceo? Ve- 
de a diferença do Senhor 
aos criados. Os criados 
muito fervorofos : Fis 



porção algíia , todo eíle 
juizo he incerto , & todo 
injuílo. 

70 No dia da Payxão 
de Chrifto morrerão qua- 
tro peííbas notáveis , de 



imus^ér çolligimus ea ^ Se- que faz menção o Evan- 
nhor,quereis que vamos, gelho. Morreo Chriílo, 
& arranquemos logo a zi- morrerão os dous ladroes, 
zania ? O Pay de f amiiias & morreo Judas. Ora no- 
tai 



i 



n 



É 

«;: 

II 
1 

M 
II 

í 1 



ii 






7<:> Sermão da fegíinda^ommgd 

tai a diílTerètlça dos princi- diria, que havia de fer tra-^ 
PÍ0S5& fins de todos. Chri- balhofo, & foi feaciírimo. 
ílo começou bem , acabou Antes de ver o fim náo fe 
bem:o máoladraó come- pode fazer juízo. Pedro 
çoumal, & acabou mal: o feguio a Clirifto para ver 
bom ladrão começou mal, o fim : Vt vider et finem : fe J-^^^J- 
& acabou bem : Judas co- efperaraatèrero fim, éii^ ' "^ * 
meçou bem , 6c acabou não negara. Efperai pelo 
mal. Taes íaó as contin- 
gências das coufas do mu- 
do, (5c apouca proporção, 
que guardâo os fins com os 
princípios. Muitas vezes a 
bons princípios feguemfe 
bons fins , como em C h ri- 
flo ,& a mãos princípios 
máos fins , como nomáo 
ladráo ; 8c outras vezes pe- 
lo contrario a máos princí- 
pios feguemfe bons jfins> 
como no bom ladrão, & a 



11 
fim, enrão negareis •, mas 
eu vos fio 5 que fc chegar- 
des a ver os fins,que haveis 
de querer feguir , 6c não 
negar. Se alguém pudera 
julgar antes do fim , era 
Deos j porque conhece os 
futuros j & com tudo nun- 
ca Deos jà mais julgou, né 
condenou a ninguém , fe- 
não depois das obras. O 
juízo dos homens náo he 
aílim , conhece pouco do 
bons princípios feguemfe prefente, menos do pafla- 
máos fins, como em Judas^ do,8cnadado futuro, ^ 



Poríífo quem quizcr juí 



gar bem , ha de 



aguardar 



pelos fins. Nos Reynos 
paífi o mefmo , que nos 
homens. Q^iem julgaífe o 
fímdoRcyno de Saul pe- 
los princípios, diria , que 
havia de fcr fcliciífLmo, 6c 
foi defcftrado : quem jul- 
ga fie o fim do Rcyno de 
David pelos princípios, 



antes de as coufas terem 
fcr, jàeíbão julga das. No 
mefmo dia em que fe Faz a 
eleição, jà eftà adevinhado 
ofucceífo , jà eftà conde- 
nada a obra , jà eílà deía-* 
creditada a pcífoa. Valha- 
me Deos, ainda não fiz bé, 
ncni mal, 6c jà me condc- 
não ! Náo teremos huma 
pouca de paciência para 
cfperar 




cfperaf pelo fim?; Nolite ^ Naófeiferepiráis m dii- 
* '• - - - vida. Se eftehafBem ain- 
da tivera lepra , que lhe 
chamaíTemleproíb, miiitia 
juílo > mas íe elle eílava 
faó 5 porque lhe haò de 
chamar leprofo? Porque 
eíTe he o j uizo dos homês. 
Foíles vos leprofo algum 
dia ? pois ainda que Deos 



1 Co- antetempusjuditare ^ iiani 
'^''^y íjueirais julgar ante tem- 
po, diz o Apoftolo.Jàque 
quereis ter predeftinados, 
& precitos como Deos, 
julgai também comoDeos 
ao íim das obras. Mas que 
aopredeftinadofe lhe ha- 
ja de adevinhar o mereci- 



nientopara felhe dar logo faça milagres em vòs , Ic-, 

o premio -, & ao precito fe profo ha veis de fer todos , 

lhe haja de profetizar a os dias de voíTa vida. Deos 

culpa para o condenar dá- podervos-ha dar a faude> 

temaóPterriveljuizo. masonomedaenfermida- 

71 Ainda paílaadian- de naó volo hao deper- 

te a razaò porque Deos doar os homens Nojuizo 

jui gano íim, &.OS homens, de Deos com a mudança 

naó. He porque no juízo ; dos procedimentos, mu-; 

de Deos naó bafta a certe- daóíe os nomes , antiga- 

za do futuro para o cafti- mente éreis Sauio , hoje 

go,Ã: bafta a emenda do fois Paulo : no juizo dos 

paíTadoparaoperdaé.No homens por mais que os 

juizo dos homens 5 nem procedi rnentos fe mude, 

para o futuro vai a incerte- os nomes naó fe mudaó jà 



za, nem para o paíTado a 
emenda. Diz o Evangeli- 
fta S. Marcos , que veyo 
Chriílo Senhor noíTo co- 
mer a cafa de Simaó Le- 
profo : chamavafe aífim 
efte homem, porque fora 
1 eprofo antigamente, & o 
mefíno Senhor o farára. 



mais. Se foftes leprofo hu- 
mavez, leprofo vos haó 
de chamar em quanto vir j^/j^,.^ 
verdes : Simonis Leprofi. i^\.i^ 
Poderá haver milagre pa- 
ra farar o Simáo j mas mi- 
lagre para tirar o leprofo , 
naó he poíIiveLOh grande 
fem-xazaõ do juizo huma-. 



7 8 Sermão da fegunddT) o minga 

no •, que da enfermidade occidere \ feã potim timeie 

vos hajaó de fazer appel- enmtquipoteji & anima yé* 

lido ! E vem a fer peor o corpus per der e in gehenna. 

appelíido , que a meíma Quer dizer : Naó temais, 

enfermidadcj porque a en- aquelies,que mataóocor-- 

fcrmidade, quando muito po, & naó podem matar a 

chega ate a morte jo ap- alma: mas temei antes a 

pelUdo paíTa à defcenden- quem lançando o corpo,^ 

cia. OjuizodeDeosterri- alma no Inferno, tanto pó- 



Marrh. 



vel he, mas poíTome livrar 
dclie emendandome. Po- 
rém ojuizodos homens, 
em que naó vai emenda, 
quem poderá negar , que 
hemais terrivei? Efe con- 
tra o juízo dos homens naó 
vai a emenda onde a ha : 
que remédio teria aquelle 
innocente, em que-a nam 
podia haver, porque nam 
havia que emendar, loan- 
nes in vinculis'-^ - o 1 1 j i. u a i v 
.. j .... ■ . :'.iii 'íoq pr'3ffi(: 

73 ''A Ntesque paíTe 
x\adiante ( que 
naó feife mo permitira o 
tempo 3 me occorre, que 
pode occorre r a alguém 
aquella famofa fcntcnça 
deChriílo : Nolite timere 
eos^ qui occtdunt corpus^ 
animam autsm nonpojjunt 



de matara alma, como o 
corpo. E quem faóaquel- 
les5&: quem he eíle?Aqueí- 
lesfaò os homens, eíle he 
Deos. Logo parece que 
daqui fe infere contra a 
doutrina que atègora pro-» 
vamos por tantos meyos, 
que mais temeroro,&: mais 
para temer he o juízo de 
Dcosjqueo dos homens , 
como maisfe deve temer 
o Inferno , Sc morte da al- 
ma, que a do corpo. Mas 
taó erradas como iflo co- 
flumao fer as confequcu- 
cias de quem fcgue as fuás 
apprehéfoenSjOu affedos, 
& naó olha para o cafo de 
que fallaõ os Textos, ív pa- 
ra o intento, com que fo- 
raó ditados, ou elcritos. O 
intento do divino Meílre 
nella occafiaò foi animar a 
fc dos primitivos Chri- 
llãos, 



do Advento] 79 

ftãos^paraqucpadeceíTem &:perig05&: entre pena, &: 
confiantemente os tormê- pena: porque comparada 
tos, & martyrios dos tjr- a pena do Inferno com a 
rannos : & para que poítos pena da morte , ciaro eílà, 
entre dous temores, hum, que muito mais para te- 



ou ©utro inevitável, com o 
niaior venceíTem o menor, 
> ifto he,com o temor do In- 
ferno o temor da morte. 
Aílimo entenderão fem- 
pre Padres,Pontiíices , 6ç 
interpretes, dos quaes co- 
mo tão diligente, foiido,6c 



merheado Inferno. Pelo 
contrario fe a comparação 
fe fizera entre juizo , & 
juizQ, ifto h,e, entre o juí- 
zo de Deos , & o dos ho- 
mens, poílo que os homês 
fó poílaó condenar à mor- 
te, &: Deos ao Inferno^çoiíi 
a mefma evidencia fe fe- 



literal abbreviador de to- 
dos, fó porei aqui as paia- gue ainda neíle cafo, que 
vras do doutiílimo Aiapi- Biais para temer he o juizo 
Aiapif c <Íg- ' í^?^'!/^ diceret : Kottte dos homés, que Q de Deos % 
jbi. metu mortisyquam vabis /»- porque o juizo 'dos homés 
tentãhnnt per fecut ares yue^ condenandome ir morte, 
garemeamfidemyaut ceifar e pódefer injufto j&o de 
abejmprddicatianevohisà Y>tos condenando me ao 
meimperatayvel aliquidea Inferno, naó pode deixar 
indignum committere : qma de fer redto : Jujhm es 'Do- praing^ 



fiidfeceritis incurretis mor" 
tem tum corporis , tum ani- 
m£ hnge atrociarem , & 
diHturniaremyfciUcet ater^ 
nam ingehennãy ubidamna- 
timortuntur morte immor 
taliy&vita moribunda vi- 
vunty&perdurant. De for- 
te que a comparação nam 
fe faz aqut entre j uizo , & 
juizoj fenaô entre perigo j 



mim y & reãum judiçium^^T- 
tuum.E fe ao juizo de Deos 
fó eftá fogeita a culpa , Sc 
do juizo dos homens nam 
eftà fegura a innocenciaj 
vede qual mais fe deve te- 
mer. DeDeosfaó mais pa- 
ra temer os caítigos , dos 
homens mais para temer 
os juízos E deites he que 
nós falíamos, ^-^ 

" . Tam-' 



8 o Sermão âàfegúnda 5?<? minga 

7:5 Também faííoudos 
mefmos juízos o mefmo 
Chriílo, Sc naõcmoutroj 
fenaó no mefmo Texto^ 
immediatamête antesjém 
admirável' comprovaçam 



fó 5 & dl gn a de feu Aii f hdr . 
Si Tatr em famílias Beeí^^^^nu: 
zebuh vocaverunt : quanto '"• =f- 
magis domefticos ejus ? Ne ' ' 
ergo timtieritis cos , nihil 
enimeftopertum^ qiiod nan 



do que digo. A frontavam reveletur-^é' occultíim^quod 
osEícribasj^cFarifeósaos nonfcietur. Naó vos de- 



Difcipulvos do Senhor com 
nomes tao injurioíbs , ôc 
blasfemos como a feu Me- 
ílre : &: chegavaô a dizer, 
6cprégar, & apregoar ao 
inundo, que as maravilhas, 
que ellej&elles obravaój 
eraó feitas em virtude, & 



veis admirar , que fendo 
vòs os Difcipulos , & eu o 
IVl efi:re3& fendo vós os fer- 
vos,8c eu o Senhor , vos 
tratem , &: vos julguem a 
vós os homens, como me 
tratão,& me julgaô a mim. 
Masparaquenaó temais, 



com poderes de Belzebut nem façais cafo dos feus 
Príncipe dos Demónios, juizos,& das afrontas, que 



vos dizem j fibei que Deos 
manifeftarà a voífa verda- 
dcj&casfuascalumnias, ou 
no dia do Juizo, ou ainda 
antes. Noíite ta^ncneoriirn 
frobra^ irrijiones , érfamias 
timere-, qtiia tandem ^eus 
autorizadoSjScdosquccn- veftram jidem , cr i-eram 
tre os demais profeílavaó Religionem patefaciet non 
Religião , & letras} nam tantumin dtejudicij , fed ^ ^^ 
defmayaílc-, com que ia- etianiJnhacvita-.còmcnfJLThco' 

o mefmo Author com S. P'''^-^' 
Chryfoílomo, Thcophila- 'çí.ná. 
to,(Sc Euthymio.Ohargu- 
mcr.ro verdadeiramente 
div'nio,& outra vez di-nio 
'da 



E para que a innocencia,& 
conftancia, ainda noviça, 
dos Apoílolosjvêdofe taó 
indignamente caíumnia- 
da, & condenada pelo jui- 
' zo dos homens (^ & naó de 
quaefquer, fenaódos mais 



zoens os animaria, Sc con- 
solaria o divino Medre 
para que naó fizeílcm cafo 
da temeridade daouclles 



J 



uizciJ. A razaòfoi huma 



do Advento. 8i 

da fabedoria de ̀u Au- car a melllia verdade: mas 



thorí De maneira 



5 que a porque nem o tempo 



dà 



conrolaçaÓ3&: appellaçaó , lugar , nem eu volas qui- 
que tem o juizo dos ho- zera totalmente deven* 
mens, he para o juízo de partamos o trabalho. Eu 
Deos : Sc debaixo defta as aponto, difcorreyas vós, 
efperança certa enfína Hemaistemerofoojui- 
Chrifto a Çcus Difcipulos , zo dos homens, que o jui- 
que os naó temaó , Ne ti-^ zo de Deos, porque o juí- 
mtieritis eos ? Sim . Logo fe zo de Deos he juizo de hu 
o juizo de \^ç.ç>s he o íegu- fó dia ; o juizo dos homês 
ro , que nos dà o mefmo he juizo de toda ávida, 
Deos para naó temer os Todos os dias para os que 



juizos dos homens, bem fe 
concluc, que o juizo dos 
homens he o formidável , 
&oquefedeve temer, & 
náo o de Deos neílas cir- 
cunftancias. O dos homés 
temerfej porque quando 
menos pode fer falfo,& in- 
jufto j 6c o de Deos efpc- 
rarfefem temor 5 porque 
fempre he juíi:o,&: redo. 

\ 5 IX. 

,_ -:.^ . •■ •■ 

74 ^ I ^Udoifto ficou 
j[ jà convencido 
com as razoens, que pon- 
deramos antes de refpon- 
der a eíla replica: reílando 
muitas outras, com que fe 
podia provar 5 & amplitl- 
Tom. 7. 



vivem entre os homens , 
fao dias do juizo. 

O juizo de Deos ha de 
fer em hum fó lugar j o jui- 
zo dos homens he em to- 
dos os lugares \ julgaóvos 
na cafa , . ^ julgaóvos na 
rua i julgaóvos na praça, «Sc- 
julgaóvos na Igreja 5 jul- 
gaóvos na Cortej&julgaó*^ 
vos no monte 5 julgaóvos 
no mundojSc julgaóvos na 
Religião s julgaóvos em 
todos os lugares, onde ef- 
tais, &: nos lugares , onde 
fiaó cftais , também vos 
julgaó : Emfim para o jui- 
zo de Deos ha de irão vai- 
le dejofaphat todo o mu- 
do i para o juizo dos ho^ 
mens todo o mundo he 
F valk 






m. 



1.! 



Í-M 



m 






■A 

,• '"ir' 



8 2 Sermão dafegunda Dominga 

valle de Jofaphat. vir a julgar os vivos , & os 



Ojuizode Deos come- 
ça a julgar defdos annos do 
ufo da razaó por diante : o 
juizo dos homens muito 
antes do ufo da razaó jul- 
ga, & condena. Digaó-no 
as lagrimas de Rachel, & 
o fangiie dos Innocentes 
dejBethlem. Faltavaólhe 
cinco annos para o alve- 
drio, & baíláraólbe dous 
para o cutello : Ab imatUy 
Ma^th. ^ infra. 

75" Ainda depois do 
ufo da razaò wàò nos j ulga 
Deos mais , que as duas 
partes da vida j porque a 
terceira parte, que nos le- 
va aquella morte quoti- 
diana, a que chamamos fo- 
i\o>comonaóhe capaz de 
peccar , nem de merecer , 
naó a julga Deos. No juizo 
dos homens naó he affim j 
nem dormindo nos izen- 



mortos : os homens no feu 
juizo julgaó os vivos, jul- 
gaóos mortos, & julgaó 
os por nacer.Naó vos lem- 
bra a hiíloria do cego de 
feu nacimento , a quem 
Chrifto deo vifta ^ ainda 
naóera nacido,&jà o fa- 
ziaó peccador : Í)tfw/W, loann. ■ 
quispeccavít , hic , aut pa- ^'^' 
rentes ejm<i ut c£cus nafce- 
r^r«r.?^ Deos julga fomente 
do fadbo, os homens atè do 
impoílivel. 

Antes do dia do juizo 
verfehaó muitos íí^^ísilu^^, 
Eruntjigna m Sole^ & Lw^^. ' 
na : mas notai a diíFerença. 
No juizo de Deosjos fmais 
dizem com o juizo : no 
juizo dos homens, o juizo 
naó diz com os íinais. No 
juizo de Deos dizem osíi- 
naiscomojuizo , porque 
os finais faó de rigor, & o 



tamos de fua jurdiçaó: juizo herigurofo: no juizo 
Dormindo eftava JolèpU doshomens, ojuizo nam 
quando fonhou, & porque diz com os íinais , porque 



Crnef 
97 '9- 



íbnhou o condenarão a 
morte feus irmãos : Ecce 
fomniator 'venit , venite oc- 
cidamus eum. 

Deos no feu juizo ha de 



os íinais íàó de amizade,& 
ojuizo he deodio: Vede-o 
em Judas, os íinais eram 
abraços , & o juizo trcico- 
cns: Tradííor aut cm dedit^ ^'l\. 
eis 



Mtmh. 



do Advento. 8^ 

essfignum : qnemcunque oj- mes, fendo os homês a meí-- 
culatusfuiro , ipfe efi^ tene^ ma mudança,por mais que 
te eiim. hòs nos mudemos, nam íc 

Deos no feu juizo , he muda. Mudoufe a Mag- 
verdude, que ha de lançar dalenaj&no j uizo deChri- 
os homens ao Infernojmas fto ficou fanta j mas no juí- 
zo do Farifeo taó pecca- 
dora como dantes era : 
^oniampeccatrix eft. 
No juizo de Deos ave-^ 



ha de fer dizendolhe mui- 
to clara, & defcubertamê- 
te; Ite malediãi in tgnem 
^ermm: os homens nam 

fazem aílim no feu Juizo : mos de fer julgados pelos 
eftaõvos dizendo : Venite Mandamentos j quéguar 



i?" 



Ibi4.34- 



benedtãh Bemdito,6c bem 
vindofejaisj^ no mefmo 
tempo eftaóvos metendo , 
& defejando debaixo do 
Inferno. 

Deos julga como Juiz > 
oshomêsjulgaó como ju- 
diciários : entre o JUÍZ5& o 
judiciário ha efta differen- 
ça, que o Juiz fuppoem o 
cafo , o judiciário adevi 
nha-o. Quantos vemos ho* 
je julgados, & condenados 
por adevintiaçaó : naó pe- 
lo que íizeraó , fenaó pelo 
quefe adevinha, que ha- 
verão de fazer! 



dou os Mandamentos pô- 
de cftar feguro : no juizo 
dos homens naó aproveita 

fuardar os Mandamentos, 
'izeftes O que vos manda- 
rão, & muito melhor do 
que volo mandarão , & fo- 
breiílbfois julgado, &có- 
denado. Comoaíèm-ra-' 
zaó hetaó moderna, nam 
ha exemplo delia nas Ef- 
crituras; telohaó os vin* 
douroSjfe o crerem. 

Deos julga a cada hum 
pelo que he , os homens 
julgaó a cada hum pelo 
quefaó. Mais claro. Deos 



-j^ O juizo de Deosjfen- j ulganos a nos pôr nòs : os 

do Deos por natureza im* homens julgaónos a nòs 

mutável, fe nòs nos có ver- por fy. Donde fe fegue 
temos, & nos mudamos , 
mudafe : o juizo dos ho- 



que para feres bem julga- 
do no j uizo xi e \^^^^ , ba lia 
F ij que 




84- Sermão da fegunda dominga 

quevòslejais bom -, mas tecido nelle, oquefucce- 



para feres bem julgado no 
juízo dos homens , he ne- 
ceílarioque ninguém feja 
máo. Terrível juízo, em 
queparaeunaófahir con- 
denado, he neceílario que 
todo o mundo feja inno- 
cente ! 

NojuizodeDeos bafta 
fer bom no ultimo infiian- 
te da vida, para fer eterna- 
mente bom: no juízo dos 
homens , baila fer máo em 
qualquer tempo da vida, 
para fer eternamente máo. 
Sefoílesbom,&foís máo, 
julgaóvos mal pelo que 
fois : fe foftes máo, & fois 
bom, julgaôvos mal pelo 
que foftes j & fe fois, &: fo- 
lies fempre bom, julgaô- 
vos mal pelo que podeis 
vir a fer. Ha juízo taó cruel 
comoefte ! As culpas em 
profecia^ Sc o Profeta em 
prifoens : Joannes in viu- 
culísl 



77 



5. X. 



Enho acabado 



T 

parece que me tem acou- 



deaosmáos Médicos , & 
aos máos confelheiros. O 
máo Medico encarece a 
enferm idade, Sc naó Ihedà 
remédio: o máo confelhei- 
ro exagera os inconveni- 
entes, & naó dam eyo com- 
que os melhorar. O oíficio 
de Pregador também he 
decurar,&:de aconfelhar. 
Tenho encarecido a en- 
fermidade , tenho ponde- 
rado os inconvenientes» 
tenho moftrado a ceguei- 
ra, a fem-razaò, a injufti- 
ça, Sc a tyrannia do juízo 
aos homens , mas que he 
do remédio para nos li- 
vrarmos defté juízo ? Se- 
não ha remédio, ainda he 
mais temerofa efta ultima 
circunftancia , qiie todas 
as que atè agora temos có- 
íiderado. Verdadeirame- 
te, difficul to fa, Sc impoíli- 
vel coufa parece, achar re- 
médio para efcapar do juí- 
zo dos homens, fendo tan- 
tos, taó livres, Sc taó teme- 
rários. 

78 Mas ouçamos o 

querefolve nclla matéria 

o todo Podcrofo com fa- 

bcdoria 



bedoria infinita : Nolne julgiíe tambeíft à nòs : Lf- 
jumcare^ ut nmjudiceminh : gemfrius ipfe pojmjih /2"w* ^ 
*/>/ f «i? ^»iw judicio judie d" rins de his 5 qu£froximus 
^eritis , judicabimini. Se* peccavetit^judicando'. por- 
naó quereis que vos Jul- que fe nòs julgarmos còM 
guemi; naõ julgueis, pòr- benignidade -aos noífòs 
íjiíe com o meíino jui'ZD> próximos, também Deòs^ 
Cbm qu€ julgardesjfereis nos' julgara benígnamen* 
julgadoSvÈfíaff ntença die ^ tè /^>^âs fe nos o^ julgar- 
Cferifto Senhor noflb:, ou túq^ fèvefamentey també - 
(c pode entendeu dojm^^ - eHenos julgara c6í€\^eM^^^ 
dos homens para coni as * d-áde. De forte, q no juizo 
hõníens, oã do jiiizo; dê^l díí^Ekos para corai os Í10- ^ 
Deos para - com^^Iles^^.- Se'i nífen^ êíla regra lie geralf í 
feelitender do juizo de femexceiçâo : porém no 
Deos para com o» homê^ , ■ juizo; dos fioniens para gó > 
he'ablôluta, &^nivtírfàt^? dsílíoftiefí^têm tãé^polK^ 
ráèfi^e verdadeira : mas fc' ctrtezIyneníPáindáí^prtíb^- ' 



féentender do juizo dos ^ 
hóitíéns p^ra* com OS ho- 
mens, naô. Donde fe tor- 
na a confirmar onifa , & 
n^iii vezes, que mais rigu- 
rbfojôc mais para teníer he 
o juizo dos homens, que o 
de Deos. No juizo deDeos 
para com os homens he 
fempre verdadeira j por- 
^je,:c<í>nio altamente diííe 
èjoaó Chryfoftomo 5 o 
juizo com que nòsnosjul- 
gamosJiiins aos outros,he 
ley, que puzemos 1 Deos, 
paraaucelk por:Cila nos 
"' ■;!.; ^ Tom. 7. 



biiidad€,qu^atèxí) mefmo * 
Ghriflo, íèndo^ taó benig- - 
no em julgar, oz perdoar a 
todos, naô efcapou de fcr;, 
taó injuílànYente julgado >' 
& condenado por cUes. 
SeChrifto, fuma Innocé- 
cia, teve hum Anàz, hum 
Gayfaz,hum Pilatos ,. &• 
humHerodes, que-ojul- 
gáraó,6ccondenára63 quf 
homem aVerà taó innbcê^ 
tc,&jun:o, que por cftes 
quatro. Juizes naó tenha 
quatrocentos, que í o jul- 
guem;^ condenem? • 

Fiij Com 



m 












.í|v| 










S6 Sermão da fegwndalHmin^ 

75> . iÇ^!^ (Eudo.çft;^-. LuciícE. Selmftt Scrafioit 
mefrti^; f^,ntfòn^a7 ». vcainda.-; fcQaòatrevea jirfgar hurw ^ 
qu^. uniíriErftlriieíite ;n4Q Etenxonio, camo fe ha deí 
}ie<íertai),^ juizo dQs ho^- atrever htmi homem a juk.: 
raens para com ^s ho- gaí outro homem 1 i 

niensxppr dídlanje a^tu- 8a Se queremos jdUr 
rald^raz^^ poí^^fppovi- garweniosos olhos par*j 
déc,í^parCÍcMlar€teDeo3,-i a parte díí. dcntra.^ que- 
muitas y^zes Je vçrigca: aioda-xisal , -porque tanso 
nelles, Rolitej^caréy & acharemos que julgar, quc- 
nofijudkahimmincliteeo-i-^^cmímtm i, & que conde- ^ 
demnarei &im^ condemno^- nar. Senos julgarmos fes». 
^/w/wi. Naé>j.ulgui?is.,* ^., paixaóanps,. eiLvospror 
naQ.fereis jul^tdos : =nam t meto, que tenha bios tantoé. 
condeneis j ôc naó fereis . que merySí tanto qucpa^- 
conden^dqs., .Sabeis porr mar ^qii*. naó no&£que > > 
quem;ui,t^3 veze^r fomo^ , nem t^tiapo. vnern: animo 
julgados^ & taô injuftamé- para jdgar a òtiáreffv. O 2^- 
te julgados ?^ Porque tan- Ghriftã<^j por reverenciai 
tas vezes famos Juizes 5 & de I>eos,pclo que deve- ' 
injyftinimos Juizes : .por- mos^ a Chrifto , pela obri- 
qjuJgaifi asobr^s ^Iheas, gacajoq^e temos a n<Díras 
pof4irp:iíGp iu-lgaõ as vof- - almas „ que íej^ o fruto 
ft$|fti)|-á:^^;- porque julgais defteSermaó ÉQiner muiro 
as palavras alheaA, pofií^ hiamjiiizotemera:no ,naò 
fo .vos julgaó as voíTaspa^ Çíymco^ 6m qucfomos juL- 
iavxas: porque juigaiçâtê' gados» queifíb naô he euU 
os penCiiuentos a^lheo^!,/ panoíIÀjo^aío jtiizo, em 
poriírovoSÍulgiVÕ3.&, vo^ quenòs^jtiJgamos, que hc 
condenag, ate o que-BL^na, a. laoíTa condenação. Inquo 
vo$ paíTbu pelo penfamé- ; alterum jndicas , te ipfum ^^ ^<>- 
to. D;iz S. Tiago na fua cendemnas, diz S. Paulo : í', 
Canónica,, que S. Miguel Quando julgamos os ou- 
fenaó atrevco a julgar a tros,condcnamonos a nòs.- . 

Kquan- 



nun.>. 



E qiiantos condenados ef- ^es tro|)eça . a charidade , 

.feô hb]^ ãb inferno fó p©r cm quctáó gravemente 'fe 

tu juizo Demerario ! Deos cmbaraçâo' tiS confcica- 

pút. liíâ. tóiTcficox^diâ àos culs , em que taó perigofa- 

JOrviít'&eítim.efcandaloco- áncntcfe^pcrde a graça^^c 
do efte raó fac^ljôc t^or- ^^com^filifJi Gloria, 
Aa^á^em^ctantaire- '\^;^ _, ^>i, 



> ^. 



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... *|j^' 



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SERMAM 

DA TERCEIRA DOMINGA 

DO 

ADVENTO- 



Tmquises? quid dimdeteipfo> Joaacap.i 




Ambem hojç te- 
mos juizo^, 3c he.! 
íjà eííe o tercét-'^ 
ro. No primetr^J 
Sermaó vimos o ]\irLo^dé 
Deospara có os homens: 
no fegundo o juizo dos ho- 
Jnens huns para cora os 
outros ; nefte hoje, que he 
o tcrceirojveremosojuizo 
de cada hum para comíl- 
go : 77/ quis es? quid dicls de 
{^/^?.. Contém eítas. pa- 




lavras hila propoíla , ou 
emhaixada, que fizeraó ao 
Baútiftaos Sacerdotes^ & 
ITévitas 5 mandados pelo. 
fupremo Concelho Ecclc- 
fiâíiico de Hieru falem : 
quéfèm dizer: Tu quis es y 
Vòs quem fois ? Qutddicis 
deteipfoyQaç: dizeis de vòs 
mefmo? Eíla queftáo de- 
termino tratar > porque 
fendo matéria gravillima , 
& ác grande importância 
cm qualquer parte do mú* 
do, em Portugal he ainda 
ao 



Sermão daurceirà dominga do Advento, h9 
aoprefente mais grave 5 & o gue faó,& outca coufa hé 

G que dizem * Ninguém ha 
neíle mundo , qire fe def- 
creva com à fua definição : 
todos fe enganaó no ge- 



mais importante 



S2''T^Uquises Prfmddí- 
X dsdeteípfo^Apri' 
meira coufa, em querepá- 
rOjhejqueefte^ Embaixa- 
dores de híia pergunta íi- que fois ! E opeor he, que 



nero5& também násdiíFe^' 
renças. Que diíFérentes 
cóufas faó drdinariamen^ 
te o que dizeis de vòsj& o 



zerao duas. 'queftocns : 
Hiaó perguntarão Bauti- 
lta,quemera5 &: para iíto 
parece que liaftava ^ízer, 
Vòs quem fois? E eííes dif- 
feraó, Vós quem fois ,& 
Vòs quem dizeis que fois? 



muitas vezes naó £ió cóu- 
fas differentes : porque o 
qucíbijSjhe nenhua coufa 5. 
êf o que dizeisj faó infini- 
ta^ coufa s. Neíla matéria 
deves quem fois , todo 
Homem mente duas vè- 



Tu quis es? qmd dicis de te zes , húa vez iti enteie a fy, 
'^ ^ , . , &ou^a "v^^: mentenos a 
Víòs : mentefe a fyjporque 
fempre cuida mais do que 
he : & mentenos a nos , 
porque fempre diz mais 
do que ciíí da . Bem diílih- 
guiraõ íogo os Embaixa- 
dores o Tu ^uis es-iácy^id 
grandes noticias do mun- dkisdeteiffq j & quando 
do. Quandç>hiaô faber do Hiaó perguntar ao Bàuti- 
Bautifl:a,;quem era,, per- fta o que era , perguntarão 
guntaóihe. Vos quem fois, o que era, & o que dizia ^ 
gc Vos quem dizeis que porque ninguém' ha ta6 



tpj o r Ora os E m baixadp- 
res naó eraó homens de ca- 
pa, & efpada , fenaó cà do 
foro da igreja: Sacerdotes^ 
•ir Levitas^ mas el 1 es fáí- 
láraó muito difcretamen- 
te, & entenderão o nego- 
cio , coráo quem tinha 



fois j porque qs . homens , 
quando teftemunhaó de 
iymefnaos^ h& CQuía he 



re£to jmz de fy mefmo , 
qiieyoiidiga o que he, eia 
fej^arO que di2:. . , 



m 



T-lÍM 






Tob.y. 
1$. 



Ibid. 



. 83 . Encrpu cx Anjo Ra- jos naó ha geração jlcíios 



fàel xfaliar com p velho 
Tobias cm trajo de ca^- 
nhancci ou ainda de çarai- 
aheiro;& antes de/Tobias 
entregar o ■ fijlio ao Anjo 
para aqneila peregrinação 
taó fabida, fezihe cfta per- 
gunta: Rogo te^ndica mihiy 
de qua domo^& de qua tribu 
es /í^ ? Por V ida vofla , que 
me digais, de que famiJia , 
& de que triòu íqís, A 



Anjos náóhi^;, nçnjpódc 
haver pay , & fiiho •, co- 
mo dizo 4njpRafael,que 
he filho do grande Ana- 
niás ? Apoôpeu^ que elta- 
yaagpni^çuidílndo algué, 
que para c|içarccimento 
do meu ariíimpto havia cu 
de dizer, que em .matéria 
devòyqiieih fcis, ate os 
Anjos mentem. Naó digo 
eu eíres.arrpjamentpSyCÍte 



pçr^nta verdadeiramen- lugar he de verdades foií- 
teeraparaembaraçarhujm das. Os Anjos náò podem 



Anjo > mas a reppfta foi 
notável : Ego [um Azarias 
. Anani^ magni filius. Eu 
íou Azarias fiiho de Ana- 
nias oMagno.Como í^^dif- 
leflèmos de Carlos Mag- 
^o, dePompcpMagnOjdc 
Alexandre Magno. Ha tal 
repoUadehum Anjoi Èçi 
Peosha pay^.ôc filho ; nos 
jhomens,& nos animais ha 
pays,& filhos ; nas meíinas 



mentir, ne 01 errar (^Fallo 
dos bons. } Masagora ^ca 
a diificúldade mais aper- 
tada. Pois íe os Anjos naó 
podem entender 5 nem di- 
zer contra a verdade, co- 
mo diz p, Anjo Rafael, quç 
he filho do grande Ana- 
nia5? Variamente rcfpon- 
dem os Doutores à duvi- 
da j eu o farei .com huipa 
comparação. Entra hum 



plantas ha feu modo tde comediaqte no teatro rç- 
gcraçaó :fó nos Anjos , de prefentando a Lúcifer j & 
todos os viventes do mun- 
do Q entrando o cr ca do, âc 
pincrcado^fó nos Anjos 
naó ha geração » nem pay , 
nem filho. Poi&iènosAn- 



'4 



batendo com o Tridente, 
começa a fulminar blasfé- 
mias contra Deos; Entra 
outro reprefcnrád© a Ne- 
ro > ,(5f UnMido íi ^,ípada%| 
mah- 






çãs,&"quc cóSraõ' rios^ de ^^mofeôfork^ ^ 
fangue Cliríftãô pòr Ro- i " 8^ Séjã^^ráímilnícr 
ma : Sae oittro "réprefèíi- fiador dcíla minha repo-: 
randohum Gentia^y & eri-í fta7 Aparecerão a^ Abrá- 
cônf rahdo IMà eftktita cíé hàrri no viiíe de Mambré^ 
J qpiteri próftrafc pOr tèr^ ' três AnjóSr Mmí de íítòior 
ra, t>àte hòs péiMs, Ôc oífe- authofidade5a quem elW 
réce ificfenfo. Pergàrt to adorou, & outros dotis me- 
âgora : ^qfuélíè primeiro noreS,<jueo acompanha* 
homeiii hè 'tílasfèníò.^a- váÕ.È conto Sara mulher;. 
queíleTeguiidòhòniemhè de Abraharii foífe eííeril, 
tfrannò ? àqueíie terceiífo pròm^teolhe o A njo priít- ' 
homem he idolatra? Cíaro^ cipal, que datli a hum aít^ 
ertá qiiè não : o primeiro^ noíj pbf aquellc mefmo té- 
líáóhe Wasfefiio,aindaq-ue pòtorriafia 3 fe Deos lhe 
ífiibíasTcmias jporq^àe el- déiíe vida, & que jàeTitaó 
IchaõhéLuciftírifazíígu?* ^ teria Sara hurn fflho :Í?<?-^ 
ra de Lúcifer : ò icguncfo' vértens vemam adie Sem- Os^cC, 
rtíphetyrannó', ainda que- pohijioy vitOrComitè^ ò^hd-^^^]^' 
míinda matar Chriftáos 5 bebitftlhim Sara uxor tuà. 
porque èífe háío hé Mero , Que m averà, que naó rê- ' 
fa^ figura d^'N^rB:Ò ter- pareMquelle,^///«r^?;z»/f(f3 
céírò líao héldolatra, ain- íe eu ft>r vivo^j dito por hu^^ 
da <5[uc fè á^oeffia dilte:d4 Ah}o ? E nao lo fallou;^ ^ 
e^atuii dejupiterjpvorqiie , Anjo por eftes termos hya 



elfènao be tíéhtiç, íitê 
gura dè Gentio, Ó mermo 
3i|odionoffocar0; 05lh- 
jo naom èritio , nem pôde 
men tiriainda que diíTehu - 



veíz, fenaó duas : porque '^ ■ 
pondo Safa duvida àprò*- 
meíTa 5 tornou élle á fatifi* \ 
car a fua palavra, dizendo: J 
Juptta rondiãum revertar 



ma coúfa , ^ P^^^Ç^ ^^ ^^^^ ^^ tehoc eódem tentggreyvi 

da verdade; porque elle _ /^rí?;»//^.PQÍsíe os Anjos 

naÒ era íiomemjfozià^fígu- por natureza Ía6 immor- 

taesí 



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[A 



'••i! 



„í 



)*^M' 



$ii: . , . Sermão daièfceira H^omingâ 
taes, 5f a Tua vida por ne- o Anjo Rafael iia repofta, 
nhum acontecimento po* que deo a Tobias. Fazia íi- 
de faltar ^porque promete - gura deíiomem,&' para fa- 
efte AnjO) naó abfohita, zer bem afigura j hua vez 



íenaõ condicionalmente, 
qiíè tornará dalli a hum 
annojfeforviyo, vita co- 
mité^ A x^z^ò^ riaó fó hu- 
mana, mas Angélica, foi ^ 



que lhe perguntarão , A^ò^ 
qúemfois ? naó havia de 
dizer,o que eí"a , havia de 
dizer,o que nam era j Scaf-; 
Hm o fez ; porque nam Iva; 



porque eíle Anjo,&: os ou- propriedade mais própria 
tros dous, como declara o dos homens, que pergun- 



Texto , aparecerão a A- 
braham em figura de ho- 
mens , apfaruerunt et três 
njiri : & elle os tratou, 8c el- 
les fe deixarão tratar em 
tudo como homens, acei- 
tando a fua raefa,& os ou- 
\ tros agafalhos da hofpeda- 
gem. E porque os homens 
prudentes na cófideraçaó 
da incerteza , 6c contin- 
genciada morte , quando 
prometem algua coufa de 
futuro, acrecétaó, fe Deos 
me der vida j por iíTo o A n- 
jo acrecentou a mefma 
còáiQ^o ^ vít a com te-^ipov- 
que naó fallava como An- 
jo, que era, fena 6 como ho- 
mem,cuia figura reprcfcn- 
tava. Do mefmo modo, & 
com "a mcfma , &: amda 
maior propriedade faliou 



tadosoque íàó , dizerem; 
hiia coufa, 6c ferem outra. 
E notai, que vindo o Anjo 
veílidoemhum pelote, 6C; 
reprefentando hum cami- ^ 
nheiro , parece que era 
mais natural dizer,que era 
filho de hum lavrador, ou , 
de hum paftor daquelles 
campos íôc com tudo naó 
diíTefenaó , que era filho 
de Ananias o grande 5 por- , 
que naó ha homem de pè . 
taó de pè, nem caminhei- 
ro taó caminheiro, que fe 
lhe perguntarem donde, 
vem, naõ'diga que vem là . 
do grande Ananias : Ego 
fum AnaniíC r^ãgnifdius.* < ; r 
8+ Allim como To- ' 
biasao Anjo, aílim pcrgú- 
táraò hoje os Sacerdotes, 
6c Lcv itãs ao ilaun íTa : 'lu 
quis 



uis es ? E que refpon deria naó o podia dizer em conf- 



aquelle grande Varaó ? ^í 
confeffus eft^& non nega-vit\ 
■ ^ confeffus eft: quta non 
fum ego Chnfttis : E confef- 
fou, 8c náo negou, 8c con- 
féílbu, que naó eraelle o 
JMeíIias. Em coda a fagra- 
da Efcritura naó ha tal 
modo de falíar como efte, 
Repetio o E vágelifta três 
vezesamefma affirmaçáo 



ciência^ porque feria pec- 
car na mais grave matéria^ 
que ouve nunca no mun- 
do. Pois porque repetem 
tanto os Evangeliílas ,& 
porque exageraó tanto to- 
dos os Santos, & Doutores 
da Igreja efta acção do 
Bautiftra > Porque he ta6 
naturai aos homens cuida- 
rem mais de fy-jdo que faó^^ 



("dizem os Doutares^por- & dizerem mais de íy , do 
que lhe pareceo , que fora jque cuidaó, que não negar 



taó grande coufa confef- 
fàr o Bautifta , que nam 
era o Meíllas, quefeodif- 
fera menos vezes,nem elle 
fe acabara de explicar, nê 
nòs acabáramos de o crer. 
Ora a mim nunca me pa- 
receo efta acçaó do Bauti- 
fta taó grande como a fa- 
zem . Que havia de fazer 
o Bautifta, havia de dizer, 
que era Meíllas? o Bauti- 
fta nem o podia cuidar có 
razaó, nem o podia dizer 
emconfciencia:naóo po- 
dia cuidar com razaó^por- 
que elle íabía mui bem, 
que era do Tribu de \ut\'\ , 
&queo Meíllas havia de 
fer do Tribu Real de Jiidà: 



o Bautifta a razaó, 8cnan^ 
atropeiiar a confciencia, 
nefte cafo, íè tem pela ma- 
ior de todas as façanhas 
humanas. Que lhe pergu- 
taftem a hum homem .Tu 
quis es ? E que eftiveíTe: em 
ília mio dizer, que era o 
Meíllas, & que o naó fizeA 
fe ! diga-o três vezes o E- 
vangeiifta, para que acabe 
de o crer a fé: Et confeffus 
eftyò' nonmgãvit : & con* 
feffus eft: quia non fum ego 
Chriftus, 



8f 



E 



§. IIL 

Míimos Embai- 
xadores fe torm- 
ra6 




m 



I 






'■■■'l 



m 
('•' 




;*•'' 



Ifaice 
3Í-4- 



ífaise 
9.6. 



Mala- 

3. 



94* , Sermão datercciraT>ommga 

raó do deferto fem acha- pennisejus. Outro 
quem lhe diíTeíTe, 



rem 

que era o Meílias. Mas po- 
voado fci eu donde elles 
iiãohaviáo delev^r a em- 
baixada de balde. Se os Sa- 
cerdotes , 6c Levitas de- 
fembarcáraó em outras 
prayas, ôcvierão pelas ca- 
ias mais altas perguntan- 
do, Tu quis es ? como he 
certo^que a poucos paílbs 
havião de achar o Meílias. 
E aonde ? húa legoa de Be^ 
lem, íem fer em Paleílina. 
Hum havia de dizer, que 
elle he o Meíliasj porque a 
ellefedevea noíTa redêp- 
cão : Ipfeveniet^&falvabit 
nos. Outro havia de dizer, 
que clle he o Meílias 5 por- 
que fobre feus hombros 
carrega todo o pcfo da 
Monarchia : Cujus impe^ 
rium Juper hnmerum ejus. 
Outro havia de dizer, que 
elleheoMeíHas i porque 
ofeu confelho he o noííb 
Anjo da guarda: Et voca- 
biturmagni confilij Ange- 
íus. Outro havia de dizer, 
que clle he o Mcíliasipor- 
quen-ifua pcnna cóíiítca 
noíTafaude : Etfanitasin 



havia 
de dizer , q çiút hc o Mef- 
fias 5 porque a paz, que ef- 
tes annos fe gozou , foi 
fruto da vara defuajufti- 
ça : Erit in diebus ejus ju* Pfai. 
Jtitiiiy & abundmtta paris. ^' 
Outro havia de dizer, que 
he o Meílias 5 porque ellc 
heoDeosdas armas, que 
comfeu valor nosfuílen- 
ta : Vocabitur nomen ejus 
^eusfortis. Só naó havia 
de haver quem diíTeíTe, 
que era o Meílias, por fe 
apreflar aceleradamente a 
vencer, Ôc tirar defpojos^ 
Voe a nomen ejits^accelera , 8^.3.'*' 
feftina ^fpolia detrahere } 
porque ainda que às guer- 
ras nos inclinamos com 
grande valor , àsvidorias 
caminhamos com grande 
madureza. 

8^ Por todas eílas ra- 
zoensme parece, que ha- 
via de haver maior demã- 
da na noíTa Corte fobre o 
MeíHado , do que a ouve 
entre os A poíloíos fobre a 
maioria. E vcrdadeiramé- 
te, que fc vem hoje muitas 
couías daquellas , que os 
Profetas antigamente de-^ 
ra6 



7í 




ão Advento^ pf 

raopor linais dos tempos queíeílzerão para ferir^fe 



Ifaiaí 



doMeíTias. O Meílias, di 
zem osProfetas^que hayia 
de dar olhos a cegos, pès 
a mancos 5 limpeza a Ic- 
profos, & vida a mortos : 
Túc faliet pcut cervus clau- 
dus 5 ò* aperta erit lingua 
mutorumy&c. E todos eP 
tts milagres vemos em 
iioílbs dias. Quantos ce- 
gos vemos íioje có olhos ; 
quantos mancos 5 & para- 
líticos poftos em pés j quã-í 
tos aleijados com mãos, & 
com muita mão j quantos 
leprofoslimposj & quan- 
tos mortos, ou que deve- 
rão eílar mortos , & íepul- 
tados, rerufcitados,&: com 
vida ? Pois o poder,em cu- 
ja virtude fe fazem eíles 
milagres , como fe ha de 



ocupão em fegar : em tè- 
po, que as caixas tocáo a 
marchar, & as tropas mar- 
chão a recolher -, & em que 
os defpajos, que havião de 
ornar os templos, & armar 
os aimazens comuns > en- 
chem os celleiros particu- 
lares i como não ha de ha- 
ver quem fe jadbede Mef- 
íias > Dizem mais os Pro- 
fetas , que no tempo do 
MeíHas, os montes fe hu- 
miiharião, &fe enciíeriaó 
os valles : Omrús valUsini' rraiaj 
plebitur^é* omnismonr^Ò''^^''^ 
callis humiliabitur. Oh 
quantos montes, que em 
tempos paííados tocavam? 
com o cume as Eílrellasjfe 
vem hoje, ou já fenão vem 
de humilhados , & abati- 



negar de Meílias ? Dizem dos ! E quantos valles pelo 
mais os Profetas , que no contrario pouco ha taò hu- 



tempo do Meílias as lan 
ças,8c as efpadas fe fcó ver- 
ifais 2. teráó em fouces : Confia- 
* bunt gládios fuos in vame^ 
res^éy lanceasfuas inf alces. 
E em tempo , que ou por 
beneficio da paz prefente, 
ou por efquecimento da 
guerra futura a as armas. 



mildes, hoje tao levanta- 
dos3& táo cheos í E a for- 
tuna,que fez eftes altibai^ 
xos,oufeja deíigualdade^ 
ou fe chame juíliça, como 
fenão ha de ter por fortu- 
na de Meílias ? Dizé mais 
osProfetas, qtie no tempo 
doMeíilasvivirião os lo» 
bes 



W 






<? (> Sermão ãa terceira T>ominga 

bos juntos com oscordei- muita femelhanca mal en-^ 



"'11 



'ii- 












^ !l! !í 

• t ; u.-I 



ros,&queoleáo, & o boy 
feruílentaríaó do mefmo 
mantimento : H^bitabit 
u^lz II. Inpus cum agno^ & Is o qnàfi, 
bos comedet paleas. Se os 
lobos náo foílem tão fa- 



6.7 



tendida acertara de fe nos 
converterem tentação. E 
porque naÓ íio tanto de 
noíTa modeftia , como da 
de S Joaò Bautifta y faiba 
cada hum5& defenganefe, 



gazes em defpintai; a pel- por mais que fe pinte ma- 
k, com os olhos fe podéra raviihofonofeu conceito, 



provar hoje o comprimé- 
todefla profecia. Ainda 
mais que dos lobos, me te- 
mera eu dos leoens com 
palhas na boca. Mas quan - 
doharquem domeílique 
leoens a que fejaó animais 
de prefepio , os authores 
deílas induftriasjou deíles 
milagres, porque náo pre- 
fumirião de Melllas P 



87 



§. IV. 

Am ha duvi- 



da , que tem 



N ._ 

grande analogia a noífa 
era com a do Mellias , & 
que parece podem com- 
petir os milagres Q náo di- 
go os vicios 3 dos noflbs 
tempos com as felicidades 
dos feus. Mas pelo mefmo 
cafo, que fc parecem tan- 
to, não quizera cu, que a 



que lhe falta para MeiTias 
a condição principal. E 
qual he a principal condi- 
ção de MeíTias ^ He aquel- 
la, com que o deíinio,& íi- 
nalou Deos,quando o pro- 
meteoa Abraham : In fe- Gcnef. 
mine Uio benedicentnr om- ^^•'^* 
n^s. No Meíllas, que naf- 
cerdevós , feráóabendi- 
çoados todos. Se tendes 
benção para todos , dou- 
vos licença,que entreis em 
prefumpção de Mellias: 
mas fe tendes benção para 
huns,&: para outros não, 
defpedivos delle penía- 
mento. 

88 Qiiandoo Anjo 
anunciou à Senhora, que 
haviadefcr mãy do Mef- 
fias, acrefceutou cilas pa- 
lavras : T>a,yit illi T)o7ni' f^"c 1. 
nus ''Deus fedem 'Danjídpa- ''' 
íris ejns , à' regr. avit m do- 




ão Advento'. 



mo lacoh m aternum. Dar- 
llieha o Senhor Deos o 
trono de David feu Pay, & 
reinara na caía de Jacob 
para fempre. Neíta ultima 
claufula reparaó com ra- 
zão todos os Interpretes, 
porque diz o Anjo , que 
reinará o Meífias na cafa 
de Jacob,6c naó na cafa de 
Abraham , ou na cafa de 
Ifac ? Se Abraham, & Ifac 
naó foraó Reys 5 também 
Jacob naó teve Cetro, nê 
Coroaj antes Abraham foi 
vencedor famofo de cinco 
Reys , que em certo mo- 
do he mais que fer Rey. 
Ifac,& Abrahaó eraó mais 
antigos que Jacob : & a 
promeíla do MeíHas foi 
feita a Abraham , quando 
acabava de embainhar a 
cfpada daquella grande fa- 
çanha do facrifício de 
Ifac : pois porque naó diz 
o Anjo,que reinará o Mef- 
llasnacafade Abraham , 
ou na cafa de Ifac,fenaó na 
cafa de Jacob ? Vede a ra- 
zaójque he altillima. Na 
cafa de Abraham ouve 
dous íilhos,Ifac,& Ifmael-, 
mas para Ifac ouve ben- 
. ,. Tom./. 



9y 



çaó, para Ifmael naô ouve 
benção. Na cafa de Ifac 
ouve outros dous filhos, 
Efau,& Jacob > mas ouve 
bençaõ para Jacob, & naó 
ouve bençaó para Efau. 
Na cafa de Jacob pelo cõ- 
trario ouve doze íiihos;& 
foitaó abédiçoada aquel- 
la cafa, que para todos os 
doze filhos ouve bençam. 
Por iílb pois diz o Anjo , 
que reinará o Meílias na 
cafa de Jacob, & naó na ca- 
fa de Ifac , nem na cafa de 
Abraham 5 porque o Mef- 
íias naó he como Abra- 
ham, nem como Ifac, que 
tem bençaó para huns, 
6c para outros naó : he co- 
mo Jacob, filho de hum, 
& neto do outro, no qual 
fecomprio a profecia, & 
teve bençaó para todos : 
Infemine ttio benedicentur 
ííwwí-í. Soquem teve ben- 
çaó para todos os domuu- 
ao,foi verdadeiro Meílias 
do mundo : & fó quem ti- 
ver bençaó para todos os. 
de hum Reyno, fera ver- 
dadeiro Meílias àú\ç.. 

8p Se. lançarmos os 
olhos pelo noíTo na muda- 




.1- 




,, > ',v í : 




-'$ 






Geneí. 


49 9. 

17-21. 


■ fi- 


i427- 




í S Sermão da terceira T>ominga 

ça,ou fortuna prcfente, hum bençaò de Leão, a 

iiaó me atreverei eu a pro- outro de Lobo,a outro de 



var, que todos tem ben 
çaó, mas que tem bençaó 
muitos mais daquelles , 
queocuidaó j as mefmas 
bençoeiís de Jacob nolo 
faraó evidente. Chamou 
Jacob a feus filhos para lhe 
deitara béçaóa todos an- 
tes demo rrer 5 &: he nota 



Jumento ? Sim : & era pay 
quem as dava, &: eraó fi- 
lhos os que as recebiaó: 
para que fe entenda, que a 
diverfidade das bcnçoens 
naó argue deíigualdade de 
amor em quem as dá, fe- 
naó diíFerença de mereci- 
mentos em quem as rece- 



vel a difFerença de pala- be. 7\ Judas,que tinha va 
vras,&: comparaçoens, có lor, &: generofidade, dafe 



que ícz efta ultima cere- 
monia. Chegou Judas , & 
deolhe bençaó de Leaó : 
Sedens aecubutfti ut Leo\ 
chegou l<lQ^t2M y Sc deo- 
lhe bençaó de Cervo ; Ne- 
phthaliCervtis emiJJus:c\\Q- 



lhe béçaó de Leaó : a NepH 
tali, que tinha preíleza, 
mas naó tinha valor , da- 
felhe bençaó de Cervo : zt 
Dan, que tinha prudência, 
mas tinha peçonha, dafe- 
Ihe benção de Serpente : a 



gou I>an,& deolhe bençaò Ifachar , q tinha forcas,& 
de Serpente: iv^/^^D^^jiCí?- naó tinha juizo, dafelhe 
kiber in ma-, chegou Jfa- bençaó de Jumento: a Bé- 
ehar,& deolhe bençaó de jamin, que tinha oufadia, 
JnaiQnto: IJJ achar Afinas mas junta com voracida- 
fortts: chegou Benjamin, de, dafelhe bençaó deLo- 
& deolhe bençaó de Lo- bo. Náoeílãomuibemre- 
boi^í^?^'^;?^/» Lupiis rapax. partidas as bençoens? Que 
Valhanie Deos , que deíi- haverá que o negue ? Mas 



gualdade de bençoens , 
húas a huns taõ altas, & 
outras a outros taõ baixasf' 
A hum benção de Serpen- 
tCjôca outro dcCcryo?A 



fabeis porque ninguém ef- 
tà contente com a fua ben- 
çaó ? Porque a todos Falta 
oconhecimcto do Tu quis- 
fj.Conheçafc cada hum, & 
c;íta- 



ão Advento. 99 

eftaràó -contentes todos, ior bença5,qiie poder mo- 



Conheça o Leão, que he 
Leaó: conheça o Cervo, 
que he Cervo : conheça a 
Serpente, que he Serpen- 
te: conheça o Lobo, que 
he Lobo : conheça o Ju- 
mento, que heJumento,&: 
logo eftaràó contentes. 



rar nos Palácios dos Reys? 
No mar contenteíe a Ré^ 
mora, com fer Rémora; & 
que maior fortuna , que 
fendo tamanina, poder ter 
mão em húa nao da índia? 
Na terra contêtefea For- 
miga, com fer Formiga: & 



Mas como todos fe cegaó que maior fehcidade , que 
no juizo de fy mefmos, to- ter o ceileiro provido para 
dos querem bençaó fora o Veraó , & para o Inver- 



Cenef 

X.22 



da fua efpecie. 

po No principio do 
mundo deitou o Creador 
a fua bençaó aos animais, 
& às plantas: Benedixit eis. 
'■^ Diífelhesatodos, quecre- 
ceíTem : Crefcite^ & multi- 
pite amirâi mis ViQX.2. a Ef- 
critura, que tudo iíto foi 
Sectindumfpecies fuás : ca- 
da creatura conforme a 
fua efpecie. Contentefe 
cada hum de crecer den- 
tro de fua efpecie ; conten- 
tefe cada hum de crecer 
dentro da esfera do talcn- 
to,que Deos lhe deo; & lo- 
go conhecerão todos , que 
tem bençaó, cada hum no 
feu elemento. No ar con- 
tentefe a Andorinha, com 
fer Andorinha : &; que ma- 



no ^. Mas por todos os ele- 
mentos fe adoece de ma» 
lencolia 5 porque nenhum 
fe contenta com crecer 
dentro da fua efpecie : a 
Andorinha quer fobir a 
Águia : a Rémora quer 
crecer a Balea: a Formiga 
quer inchar a Elefante. 
Porque as Formigas fe fa- 
zem Elefantes , naó baila 
toda a terra para hum for- 
migueiro. Nas plantas te- 
mos iguaes exemplos de- 
flre engano, & deita verda- 
de; A arvore mais anãa he 
maior que a erva gigante.- 
& com tudo de quantas 
coufasaquentao Sol, ne- 
nhiia lhe he mais agrade- 
cida, que eíla erva. £it£àQ 
que o Sol naíce, atè que fe 
G ij põem. 



( 







"00 Sermão dateneiraT>bminga 

põem, vai fempre a erva em tanta aJcura !Se o Ci- 

dlir/^'°'"Pr"'''"^°° Preftelàdecima olhara 
r^m . í"."'/eg"'"do-o para o vulgo das plantas, 
com tanta inclinação , & & ainda p^ara a nobreza 



adorando-o com tanta re- 
verencia , como vemos. 
Poiservaílnhado campo, 
4 agradecimentos ao Sol 
faó eaes ? NaÓ vedes tan- 
tas arvores,& tantas plan- 
tas, que recebem do Sol 
tanto mais, quevòs > pois 



das arvores, que lhe íicaó 
abaixo 5 elle vivera naó fó 
contente, fenaó ainda fo- 
berbo. Mas o Ciprefte lá 
do alto deícobre os Ce- 
dros do monte Libano, & 
comove, que a natureza 
os fez torres, vive elle def- 



-porque lhe haveis vós de contente de fer pyrami- 

ler a- mais agradecida de de. Como cada hum fenaó 

todas? Forque me meço mete,& fenaó mede den- 

dentro da minha esfera, tro da fua esfera,ainda que 

Conheço,quefouerva,& fejaCipreí^e, que tantas 

acho que ninguém deve vezes vè feus troncos fo- 

maisaoboi, que eu, por- bre os altares, nam pôde 

que me fez gigante das er- viver contente. Naó digo, 

vas. Se cada hum fe medi- quenaó trate cada hum de 

racom os compaíTos da crecer, mas conheça cada 

fua esfera, ô quantos fe ha- hum o que he : Tu quis es > 

viaade achar gigantes! & depois creça conforme 

Porqtie vos haveis de d^Ç, a fua efpecie : Secundum 

contentar da voíTa ben- fpeciem fuam 
çaó, porque haveis de fer pi Defenganemonos, 

ingrato ao Sol, fe vos fez que o crecer fora da pro- 

gigante das ervas > Nam pria efpecie, naó he Íur- 

digo bem : fe das ervas vos mento, he monílruoílda- 

tez gigante .í> Oh quantos dej ao menos bença-Q nam 

gigantes ha defagradeci- he. Húadascoufi" áx^nrxs 

dos ! Muito he de notar a de reparo, que tiveram as 

triíteza de hum Ciprefte bençocns dejacob a feus 

filhos, 



iô Advento'', 
filhos, foi a bençaô de Ru- podeis 
ben,&: dejofeph. A Jofeph 
deoihe Jacob por bençaó, 
que creceíTe : mlhts accref- 
cens Jofeph ^filhis accref cê s\ 
a Ruben deoihe Jacob 
por bençaó, que naó cre- 
ceíTe ; Ruben primogenitus 
^^'^^'meusnoncrefcas. He poíli 



Gènef 



101 

crecer por creci- 
nlento, crecei cora a ben- 
ção de Deos : Filius accref* 
cens : mas fenaó podeis 
crecer, fenaó por crecen^ 
ça, tende por benção o naó 
crecer : Kon crefcas. Co- 
nheça cada hum a fua esfe- 
ra ; Tu quis es 5 & acharáé 



vel, que também hum non todos, ou quafi todos, que 
crefcas^ç^ál porbençaó! ttmhç:viçpib:lnfeminetu0 



HepolIivel,que também 
pòdefer bençaó o naó cre- 
cer ! Diga-o a Lua j ne- 
nhúa bençaó fe podia dar 
à Lua mais vcnturofa, que 
o naó crecer. Porque fe- 
naó crecéra, naó mingua- 
ra. A quantos tem fervido 
o demaíiado crecer , nam 
de bençaó, fenaó de mal- 
dição ! Mas porque razaó 
em Jofeph he bençaó o 
crecer , & em Ruben hc 
bençaó o naó crecer ? Os 
procedimentos, & as ac* 
çoens do mefmo Ruben 3 
&do mefmo Jofeph o di- 
gaó. O crecer nos que o 
merecem, he crecimento 5 
o crecer nos que o naó me- 
Tecem, he crecença : 6c o 
crecimento he grandeza, a 



benedicentur omnes. Com 
efte conhecimento acaba- 
rão de entender , que tem 
entre fy o verdadeiro Mef- 
íias , como diíTe o Bautiíla: 
Medtusveftrumfietit quem ^^^^""'^ 
vos nefcitis : Sc deixaráó de 
o ir bufcar aos defertos, 
onde o não ha : Et confef" 
fuseft^&non íiegavit^ quiã 
nonfuntegoÇhriffus, 



'Pt 



"I "\ Efejiganados 



os Embaixa- 
dores , de que o Bautifta 
naó era o MeíHas 3 foram 
por diante com a queílaó 
do Tu quis es : Sc pergunta- íoannii 
raó fe era ao menos í^lias ; ^*' 
Elias es tu ? Sois vós por 



crecença he fealdade. Se ventura Elias íAíj vezes as 



i 



' •■'■li II 

ti; 
•■f. 

II' 



tf 






J^: 



a>id.28 



^^2 Serma$daterceira^ominga 

menores tentaçoens,prin- ninguém he Elias como 
cipalmentc em gente ef- cu.Ao menos na prefump- 
crupulofa , faó maisdiífi- çaõeu volo concedo Sò 
cultofas de vencer, que as iíTo me parece, que tendes 
maiores ; mas a conftancia de Elias : cuidar que nam 



do Bautifta de todos os 
modos era invencivel. Af- 
íim como à primeira per- 
gunta refpondeo, que naó 
crsíMciTias: Non/um ego 



ha outro Elias, fenaó vos. 
Dizia Elias antigamente: 
Ze/o zelatus fum pro 'Do- 
mino T>eo exercituum , é* 
reliõíusfum egofolus. Eu fó 



'9 »4- 



Chnjius-, alTim refpondeo fou o que zelo a honra de 



àfegunda, que naó era fi- 
lias : Nonfum. Que tem 
iremfe bufcar as coufas 
onde as naó ha! Diz o Tex- 
to que : Hac faãa funt 
trans lor danem : que iílo 
aconteceo da banda da- 
lém do Jordaó. Se vieram 
os Embaixadores da ban- 
da daquem do Tejo , eu 
vos prometo , que elles 
acháraó a Elias. Tu quis es> 
Vòs quem fois > Elias es 
tu: Sois por ventura Elias ? 
Por ventura?& diíTo íe du- 
vida ? pois quem he o E- 
lias fenaó eu? O meu zelo 
do bem comum; o meu ze- 
lo da Fé,& da Chriílanda- 
de ; o meu zelo do ferviço 
do Rey ; o meu zelo da có- 
fervaçáo ,&augmento da 
pacria. Se fer Elias he iílo. 



Deos, todos os outros faó 
idolatras, & naó tem Deos 
no mundo mais q a mim. 
No mefmo dia, em que fi- 
lias diíTc ifto, lhe moílrou 
Deos, que tinha na mefma 
terra fetemil, que nam 
dobravãoo joelho diante 
de Baal: Tierelmquam mihi 
tnlfraelfeptemmillia viro- j^^^fg^ 
runty quorum genuanonfunt *'* * * 
tncurvataanteBaal. Quã- 
do Elias cuida, que naó ha 
outro filias no mundo, co- 
mo clle, ha quando menos 
fetemil. Cuidais que fois 
hum homem unico; &na6 
lo fois homem de dúzias, 
fenaó de milhares, ou de 
milheiros : ha fete mil co- 
mo vòs, & pôde fer que 
melhores. 

í?3 Naó fe queixará 
Elias 




j 



do Advento, i«5 

E'íasdelhe medifffios o ]^roho2im ^, Ecce ega fcin- 
feuefpiritopelafua capa, damRegnum de mcmu Sa^^^^^^ 
poiselle aíHm o fez. Ora lomoníSy& dabo tibi decem 

Tribus, Affim ò diíTc 



cotejemos a capa de Elias 
com outra doutro Profe- 
ta, quaíi do mefmo nome, 
CAhias}5c verá Elias, o 
quefe reputa por único, 
quanto vai de capa a capa, 
dcefpirito a cfpirito , & 
de zelo a zelo. Encontrou- 
fehúavez Ahias comje- 



o 

Profeta, &:aílim foi \ por- 
que o Reyno áos doze 
Tribus fe dividio em Rey- 
no de Ifrael, & Reyno de 
Judà. Mas vamos àcapa. 
De maneira que Ahias an- 
tes da divifaò dos Rey nos 
tinha a fua capa muito no- 



roboamCentaóera criado va, & muito fáa , depois 
de Salamaô , & não Rey) que os Reynos fc dividi' 
& trazia o Profeta naquel- raó anda com a capa feita 



lesdias húa capa nova ; 
Tallium fuum novum , diz 
o Texto Para que naõ cui- 
deis, que he malicia repa- 
rar íia novidade das capas^ 
o mefmo Elpirito Santo 
Author das Efcrituras, re- 
para nertas novidades. 
Emíim Ahias tirou a fua 



cm retalhos. Oh quantos 
vemos veftidos hoje coin 
o aveço da capa de Ahias í 
antes da divifaô dos Rey- 
nos traziaó a capa em re- 
talhos, depois que os Rey- 
nos fe dividirão , trazem 
húa capa muito nova , & 
muito íaa. Pois por certo 



capa nova dos hombros , que efta era a occaíiaó, em 

puxou logo de hãas tifou- que as capas fe haviaó de 

ras, cortou húa vez , cor- fazerem retalhos: hum rc- 

tou outra, atè onze vezes , talho para cobrir o folda- 

com que ficou a capa divi- do, que anda defpido 5 ou- 

dida cm doze partes : & tro retalho para veftir o 



diíTe, que do mefmo modo 
fe dividiria o Reyno de 
Salamáoem doze 7 ribus, 
dos quaes os dez feriaó de 



orfaó,cu jo pay morreo pe- 
lejando na campanha j ou- 
tro retalho para fazer híía 
mantilha à viuva, que por 
G iiij zelo 



i 



lí 













1»fal.68 



^^4* ^ Sermão da ter cetra dominga 

zelo da pátria chegou a ti- dtme ! Vos cftareis comi- 
raro manto, por naó faltar dos do zelo , ma» eftais 
à decima. Que diz agora muito bem comidos. Ha 
^\i^s> ^áddicis deteipfo> huns a quem o zelo come, 
Cortaftes algú dia algum &: ha outros, que comem 



retalho da voíla capa .? Ti- 
raftes algum fio deIla?Cal- 
iar. Eis ahi os voíTos zelos. 
Mas vamos aos noílbs. 

5>4 Jà eu me conten- 
tara com que os noílbs ze- 
lofos 5 ou zeladores foíTem 
como Elias. Todos dizem, 
ciaremos as capas, mas o 
menos avarento he o que 
guarda fó a fua. Quando 
Elias fe partio para o ou- 
tro mundo, naó teve de 
que teílar mais, que da fua 



do zelo. E por onde fe hao 
de conhecer huns, & ou- 
tros ^ Tomandolhe as me- 
didas pela cintura. Se o ze- 
lo vos come a vòs, a voílà 
fuftancia convertefe era 
zelo 5 & fe vòs comeis do 
zelo, o voílb zelo conver* 
tefevos em fuftancia. Oh 
quantos zelofos ha , que 
todo o feu zelo fe lhe con- 
verte em fuftancia .' To«» 
memfe as medidas, como 
dizia Roboamj & acharfc- 



capa, que deixou a Elifeo. ha, que fois mais groíTo 

SeDeos hoje quizeííe le- hoje pelo dedo meminho, 

varpara o Paraifo -terreal do que éreis antigamente 

alguns dos valentes Elias pela cintura. Bomí provei- 

do noíTo Carmelo , para to vos faça o zelo , quetaó 

depois pelejarem com o bemfevoslof^ra : final he 



Ante-Chrifto > eu vos pro- 
meto, que fe quizeíTem fa- 
zer bem , & verdadeira- 
mente feu teftameato,que 
haviaó de teftar de ameta- 
de das capas do lugar. E 
entaó muito comidos , & 
muito carcomidos do ze- 
lo : Z^his domuj^ tm come- 



que o comeis vòs a elle, 6c 
náoelleavòs. Mas, ou o 
voífo zelo coma , oujejue 
(^ que me naó quero meter 
niílbj 3^o menos vcnha-»^ 
mos a hum partido. Se o 
zelo naó ha de comer, je- 
jue cm todos, U fe ha de 
comer , coma de todos : 
feia 



,.-^< 



porque 
Deos lhe entregara na mao 
as chaves das nuvensj mas 
hiaorigor por diante.Tu- 
doedavafeco, mas as en- 
tranhas de Elias mais que 



fejao voíTo zelo com vof- diar facilmente 
co,& com os voíTos , como 
com os demais, & naó ha- 
verá quem fe queixe del- 

le. 

Pf Zelofo Elias con- . 

tra ospeccadosdo povo, tudo. Que fe portaíTe com 

chegou a tal extremo, que efte rigor hum Profeta^ 

dLÍTe eftas palavras : Ftvit naó me efpanto 5 que a que 

^omims,incujusconfpe5fu conhece bem a graveza 

3-^^§- (loSieritTos , aut pluvia. dospeccados, todo o ca- 

-^•'" Vive Deos, em cuja pre- ftigo, que nao he o eterno, 

fençaeílou , que nam ha lhe parece muito pouco, 

de chover do Ceo, nem Oqueme efpanta he>que 
cair húa ^ota de orvalho 



/ 



íbbreeftamà terra. Aííim 
o jurou Elias , &: aíTim o 
Gomprio, porque tresan- 
jios inteiros eííiveram os 
Ceos como Te foíTcm de 
bronze, fem os abranda- 
rem, nem os clamores dos 
homens, nem os balidos , 
£c mugidos dos animais in- 
fiocentes,que paftavaó pe- 
los campos, & pereciaó de 
íede. Secáraofe as fontes , 
fecáraofe os rios , & atè as 
lagrimas fe fecáraò : fendo 
circunftancia cruel de ca- 
lamidade , naò poderem 
chorar o mal os mefmos 



fofrefíemoshomens a E- 
lias. He pòíTivel, que fe ha 
deeílarabrazando o mun- 
do,^: que tenha Elias em 
fuamaó o remédio, & que 
o naó queira dar! He poíli-» 
veUquefe eílejà abrazan* 
doo mundo, & que naní 
querendo Elias dar o re- 
médio , que tem em fua 
mao, que fofraó os homês 
a Elias .^ Sim : Sabeis por- 
que o fofriaò ? Porque ain-'" 
daque Elias tinha as cha- 
ves, tanto fechava as fon- 
tes para íj > como para os 
demais. Os outros eílavao' 
neceílItados,&: Elias anda- 



que o padeciaó. Tudo iílo va mendigando j os outros 
ria EUaspodendo-o reme- eílavaóa pótodemorrer», 






9 




ioc> ^'erma^ daterceiraT)õmingA 

& Eliasvivía de milagre j decantodo Ceo ha decó- 
os outros íccavaófeà fede, pararfeao Inferno? Si m^ 
& bhas abrazavafc&mir- náo conheceis as virtudes 
rayafe. Mo fi in,que hefer do Inferno. Sabeis porque 
zelofo. Mas que na voíTa fe compara o zeloao In- 



cafa corraó as fontes , Sc 
qu e ,nas ou trás fe fequ em í 
Que fobre as voíTas feáras 
chovão as nuvens a rios, 
& que fobre as outras fira o 
Solarayos ! lílo não he 



ferno > Porque o Inferno 
he hum fogo, que a nenhu 
bpmofFende,6ca nenhum 
mio perdoa Mas o fogo 
do voíTo zelo naó he a íli ni : 
entreosmáos té feus pre- 



zelo. Se o tempo pede que dellinados,a quem nao to 
haja Sol, fequ em fe todos: ça , & entre os bons tem 



^ifolemfmim oririfacit 
í^4j.^" J^perbonos,& maios. E fe 
herazaó que haja chuva, 
moihemfe todos: Sluipluit 
fitp^rjuflosy & Jnjuflos. E 
feo mefmozelo diclar , q 
entre os máos,& bons , en- 
tre os juílos, &osinjufl-os 
haja differença i haja diífe- 
rença,masfeja qual con- 
vém : o mal carregue para 
osmáos, masfeja p;>.ra to- 
dos os máos: & o bem in- 
cline para os bonsjmas feja 
para todos os bons. Eíía 
he a cudiçaó do verdadei- 

Cant 8. ^^ ^^'í^- '■^^''rf jlCUl infcT- 

6. VMS £mul(itio : d i z b E fpiri- 
to Santo : que o zelo he co- 
mo o Inferno. Notável có- 



feus precitos,a quem abra- 
za. Ohri^ormais que in- 
fernai ! Não vos digojà , 
que fejais como os Santos 
doParaifo: ao menos nim 
íerciscomoofogo áo \n- 
ferno.^Eenrao muito pre- 
fados de Elias \ quando 
muito tereisafua capa. fi- 
lias foyfe para o Ceo , 5c 
deixou a Elifco a fua capa. 

zelo foyfe, 5c ficou a ca- 
pa do zelo. E quantas mal- 
dades fe cometem debai- 
xo deita honrada capai 

9í> Levou Dco.s huoi 
diaemeípiritoao Profeta 

1 zechiela Hicrufa.em ; 5c 
o que vio o Profeta foi húa 
parede, ou fach:ida, em 



|>ara<jao! O zeio hua virtu- que cílaya hum ídolo do 

zelo;^ 



^Pi^ 



2clo: Eteeceiâolum zeliin fa Ezcchiel a terceira pa 



Ezeck ipfo tntroitu. Cuidas tu E- 
' ^" zcchiel, diz Deos, que naó 
ha aqui mais,que o q appa- 
rcce j ora rompe eíTa pare- 
de , & verás. Rompeo a 



rede : Et ecce quafi viginti ibid>t# 
quinqueviri dorfa habentes 
contra templum 'Domirú : & 
vio vinte & cinco hom ens» 
que eftavaó com as coftas 



parede Ezechiel, entrou , viradas para o Templo do 
6c vio háa cafa, em que ef- Senhor : Et fácies ad Ori 



ta vaó pintadas pelas pare- 
des cobrasj lagartos , baíi- 
lilcos, lerpentes, & outros 
monilroshorriveis, & no 
nieyo fetenta homens de 
omturibulosna 



entem , & adorabant ad or^ 
tumfolis : E todos eftavam 
com os olhos poftos no O- 
riente, & com os joelhos 
em terra adorando ao Sol, 
quenafcia. Eis aqui o que 
Deos moílrou a Ezechiel , 



cans, que 

maó os incenfavaó : Et 
feptuaginta viri defeniori- &oque paíTa no mundo, 
^^it.\. bus domns Ifrael , ftantmm ainda que fe naó veja. Se 

antepiãarns^ Ò* unufmif- 



te habebati thurthuívím tn 
mariufim. ,idiáre,diz Deos 
a Rzechiel. PaíTa Ezechiel 
outra parede : Et ecce fede- 
bant rttidier^s plangentes 
Adonidem & vio muitas 
mui heres aílentadas , que 
cílavaó chorado por Adó- 
nis. Sabida he a fabula, ou 
ahiíloriade Adónis^ & as 
gentilidades,que nafcéraó 
de Aia gentileza : & por ef- 
teefta vão chorando verti- 
das de luto , & defgrenha- 
das. Por diante, Ezechiel, 
diz Deos terceira vez.Paf- 



olhares aos homens para 
as primeiras paredes, nam 
vereis mais, que hum Ído- 
lo do zelo : taô zelofos, & 
taó zeladores , que pare- 
cem huns idolatras do ze- 
lo : mas detrás deíla pare- 
de do zelo, que he o que fe 
faz. ^ Huns eílaó chorando 
por Adónis : outros eftao 
adorando o Soi,que nafce : 
outros eílaó incenfando 
Altares prohibidos 5 êc 
muitos ainda mal com as 
coftas viradas para o Tem- 
plo de Deos. Por fora nam 
ha mais que zelo; mas àtw-' 

tXQ 



i 



tro ha cobras , & lagartos ; voífos diícurfos fao vatí- 



W^ 





loànn. 

I.2I. 



ha baíiliícos, & ferpentes ; 
ha monftros, & monftruo- 
Hdades ; ha coufas , que cf 
taó fechadas a três pare- 
des. Elias por fora, idola- 
trias por dentro. Se ouvef- 
íe quem rompcíTe pare- 
des,© quantas coufas havia 
de ver o mundo í Efte hc o 
zelo, eíles fao os zelofos , 
eílesfaó os Elias : Elias es 
tu. 

§• VI. 

f P7 /"^U vida a repo- 
V-Zíla do Bauti- 
íla,quenaó era Elias, in- 
flarão terceira vez os Em- 
baixadores , 6c pergunta- 
rão : Tropheta es tu .^ Jà que 
náo fois Elias, ao menos 
fois Profeta > A efta per- 
gunta refpondeo o Bauti- 
lla ainda mais feca,& mais 
abreviadamente : Kon : 
Naó. Jàfabeis, que have- 
mos de fazer a mcfma per- 
gunta nano íla terra, ^tro^ 
pheta es tu ? quiddicis de te 
ipfo ? Vos, que tantas cou- 
fas dizeis de nòs^ fois tam- 
bém Profeta ? -Frophetajé* 
flusquam '^ropheta. 0$ 



cimos: as voíTaspropoíI- 
çoens faó revelaçoens : os 
voíTosdiííramesjfaó profe- 
cias : os voflbs futuros na6 
tem contingência : o que 
fucede depois he tudo o 
que diíTeftes antes : tendes 
intelligencias na fecreta- 
ria do Efpirito Santo : naò 
fe decreta la coufa jque fe 
naó regifte primeiro com 
vofco. Baila iílo ? Ainda 
tendes mais. Se fe tratam 
matérias de efl-ado, fois hú 
Profeta Daniel : fe fe tra- 
ta5 matérias de guerra, 
fois hum Profeta líaias : fe 
fe tratáo matérias dé mar , 
fois hum Profeta Jonas : íe 
fetrataó matérias Eccle-^ 
fiaílicas, fois hum Profeta 
Ezechiel: fe fazeis adver- 
tências aos Reysjfois hum 
Profeta Nathan : fc cho-» 
rais as calamidades do po< 
vo, fois hum Profeta Jere-» 
mias : fe pedis focorros ap 
Cco, fois hum Profeta Ba- 
ruc : &-fe tendes algum ia* 
tereíIe,como tendes mui- 
tos , fois hum Profeta Ba-» 
Iam. Muitas graças fcjam 
dadas a Dcos; que nos dea 



táiitos Profetas 
idade. Nao debalde efbão 
pronofticadas tantas feli- 
cidades ao noílo Reyno. 
Não poderá elle deixar de 
fer muito gloriofo , tendo 
dentro em fy tantos , & 
taes Profetas. Chriílo Se- 
nhor noíTo nafceo entre 
dous animais, morreo en- 
tre dous ladroens5&: trans- 
figuroufe entre dous Pro- 
fetas : entre dous animais 
efteve pobre ; entre dous 
ladroens efteve cruciíica- 
do } entre dous Profetas 
efteve gloriofo.Tenhaó os 
Rey s, Profetas ao lado , & 
elles teráó feguras as fuás 
glorias. Mas que Profetas? 
Moyfes5& Elias : hu mor- 
to, outro vivo, mas ambos 
do outro mundo. Ora jà 
que importa tá to ao Rey- 
no o ter Profetas ; exami- 
nemos o TrophetaestUy & 
vejamos por onde fe haó 
de conhecer os veriáadei- 
ros Profetas. 

p8 Primeiramente ad- 
virto, quje os Profetas naó 
fe haó de conhecer , nem 
avaliar pelo numero. Ain- 
da que íejão mais os que 



ão Advento] lop 

na noíTa dizernhúacoufa, nempor 
iíTo fe haó de ter por Pro- 
fetas. Ouvi húa grande hi- 
ftoria do terceiro livro dos 
Reys. Havêdo três annosj 
que ElRey Acab eftava 
em paz com todas as na- 
çoens viíinhas , entrou em 
penfamento fe iria fazer 
guerra a ElRey de Siria,o 
qual lhe tinha tomado a 
Gidade, & terras de Ra- 
moth Galaad. Para ifto 
chamou Confelho dePro- 
fetas,&: diz o Texto fagra- 
do,que fe ajuntarão qua» 
trocentos Profetas : Con- 
gregavit Rex IfraelTro- ?• Re^ 
pbetas ^quãdrmgêtos circi-^^ ' 
ter vir os. A propoftafoi ef- 
ta: Ire debeo in Ramoth Ga- 
laadadbellandum , an qui^ 
efeere ? Devo ir fazer guer- 
ra a Ramoth Galaad , ou 
aquietarme.^ E a razão da 
propofta era .* ^n ignora- ^^^ ^ 
tisquòdnojira fit Ramoth 
Galaad:,^ negligimus tolle^ 
reeam de manu Regis Sy-* 
r/>.?Queas terras de Ra- 
moth erão daquella Co- 
roa,&que parecia negli- 
gencia naó as recuperaré 
da mão dos Sírios. Ouvi- 
da 



Mi 








TIO Sermão Ja terceira dominga 

da^propofta, & a razão Ihcaconfelhavaõaguerrat 



d^lía , refpondéráo todos 
os Profetas a hCia yqz^ que 
fe fizeíTe :i guerra , q Deos 
daria a Sua Mageftade vi- 
toria : Afceme , &: dahit 
ibid.ó. eam^ominusin mamitua. 
Com eíle boai anuncio 
dos Profetas refolveo A- 
cab de fazer a guerra j.mas 
para entrar neila com ven 



quefoíTe eile também cia 
mefma opinião, &: que fal 
laífe ao goílo : Sn f ermo- 'bid.i^; 
tuusflmUís eorum-i ò* loque- ''^* 
rebona. Que refponderia 
Micheas ? (.) que deve fa- 
zer em femelhantes cafos 
todo homem de bem : A^/- 
iJit T>om'muSy qum quodcu^ 
que mtht dlxerit T>ominus , 



Ibid. 8. 



tagem, pedioa KlReyJo- h^cloquar. Vive DeoSjque 
faphat leu confederado, não hey de dizer outra 



que o quizeíTe ajudar na 
emprefa. DiíTeJ o faphat, 
queíim: mas que fe ou- 
veíTe algum Profeta do Se- 
nhor, folgaria queocon- 
fultaíTem também. Ref- 
pondeo Acab, que alli ha- 
via hum Micheasjhomem, 
a quê elle aborrecia mui- 
to, porque fempre lhe fah 
lava contra o gofto, 6c nu- 
ca lhe profetizara bem : 
Remanjit vir uniis ^fed ego 
adi eum-, qtiia nonprophetat 
mihi bonum , fed maltim. 
Levoufe logo recado aMi- 
cheas, qucvieííe, &:diz o 
Texto, que oqncdeoo re- 
cado didca Micheas, que 



coufa, fenamoque omef- 
mo Deos me inlpirar, & o 
que entender em minha 
confciencia. 

^9 Finalmente che- 
gou Micheas à prefença 
dos Reys : propozfelhe o 
cafo : relpondco, q fe nam 
fizeíFe a guerra, porque fe 
havia de perder o Rey, & 
o exercito. Notável eiicó- 
tro de Profetas ! Qiie \os 
parece , que devia fizer 
Acabnefle cafo, por húa 
parte qiiatrocentos Profe- 
tas,qae aconfeJiavaó, que 
íizeífe a guerra, &: por ou- 
tra hum Profeta, dizcnda 
queanaóíizeíre ? Keíbi- 



fuppolto que ElRey tinha vco ElRey Acabo que cu 

q^u a trocécoi) Profetas, que Ihcaconfclhára nas circu- 

^ , Ihincias 



do Advento] iii 

ftancias prefentes, ainda formem os Reys, quanta 



que fora da opinião de Mi 
cheas. Mandou, que fe ii- 
zeíTe a guerra j &: iílo por 
três razoens. Primeira, 
porque havia muitos an- 
nos, que eílava em paz 
com todos os Principes 
viíinhos: &: quando as ar- 
mas eftaó defembaraça- 
das, Sc ociofasjhe bem que 
íè empreguem nas glorio- 
fàs emprefas. Segunda, 
porque as terras de Ra- 
moth Galaadpertenciaóà 
fua Coroa : & as terras da 
Coroa haõ de fazer os 



puder fer, com o fcncimê- 
to comum. Sòpor eíla ul- 
tima razáo (^ quando nafn 
ou vera outras 3 aconfelhâ- 
ra eu a Acab , que nas cir- 
cunítancias prefentes fí- 
zeíTe a guerra: & iftoain^ 
da depois de ouvir a Mi- 
cheasjem cujo parecer nao 
aviarifcoj porque os di- 
dames práticos devemfé 
mudar todas as yQztS:> que 
fe miidaó as circunftan- 
cias. O Medico, conforme 
ôs preceitos da arte , man- 
da que íe corte o braço en:^l 
Reys o poíílvei^&o impoP cànceràdo , porque fe fál^^ 
fivel, porque naó eftejaó veocorpo j mas fe o en- 



em mãos de inimigos. Ca- 
da torraó das terras con- 
quiftadas, ÇqÇ^ eípremer, 
ha de deitar muito fangue 
de vaíTallos, ôco que cu- 
ítou eíle preço , naôfeha 
de dar por nenhum preço 



fermo repugna, & nam fe 
acomoda, tem a medicina 
outro didtainé pratico,, eo 
que manda aplicar remé- 
dios menos violentos, ain- 
da que fejaó menos íegu- 
ros . Conforme a eííe ái^ 



Terceira, & principal ra- <^arriefcguioElRey Acâb 
zaó, porque ainda que as o parecer dos quatrocen- 



razoens de Micheas fof- 
íem boas, eílavaó pela ou- 
tra parte quatrocétos Pro- 
fetas, a quem parecia o có- 
trario : & nas matérias pu- 



tos Profetas, refolveo que 
fe fizeífe a guerra ; tocaoíc' 
as trombetas , marcha o 
exercito , dáfe a batalha 
fobre Ramoth : mas a pou- 



blieas he bem, que fe eon- cas horas de peleja ficou o 

exer 



ml 






Sermão da terceira l^omlngà 
desbaratado , & 



V li 

t 



1,1 



í. VIL 

100 ÇUppoftopois q 

^os Profetas fe 

naóhaóde conhecer pelo 

numero, por ondefehao 

de conhecer? Por três cou- 



112 

exercito 

Acab perdido. Notável 
cafo! Vede como faó áx- 
verfos os fuceíTos , & os 
juizos humanos j Ôc adif- 
ferença que vai de Profe- 
tas a Profetas. De húa par- 
te eílavao quatrocentos 
Profetasjda outra parte ef- fas : pelos olhos -, pelo co- 
tava hum fó Profeta: o 
Rey inclinou para a parte, 
onde eftavão quatrocen- 
tos, & o fuceíTo cahio pa- 
ra a parte, onde eftava hú. 
Por iíTo digo , que as pro- 
fecias não fe haó de julgar 
pelo numero. As profecias 
chamãofe na Efcritura pe- 
fo : Ónus Ninive^ Ónus Af- 
lyrtte^Onus <iyEgyptL Pefo 
de Ninive,quer dizer,pro- 
fecia de Ninivc j pefo de 
Aíliria,quer dizer, profe- 
cia de A íllria -, pefo deE- 
gypto, quer dizer, profe- 
cia de Egypto. Os Profe- 
tas haofe de pefar , náo fc 
hão de contar. Os quatro- 
centos Profetas contados 
eraó mais que Micheas , 
Micheas pefado era mais 
que os quatrocentos. 



ração i & pelos fuceíTos. 
Conhecemfeos verdadei- 
ros Profetas pelos olhos > 
porque o ver heo funda- 
mento do profetizar. Os 
Profetas na Efcritura cha- 
mãofe Videntes : os que 
vem. Sò os que vem faó 
Profetas. Aílim como a 
mais nobre profecia fo- 
brenatural coníiíle na vi- 
íaó: aílim a mais certa pro- 
fecia natural confifte na 
vifta. Sò quem vio pôde 
profetizar naturalmente, 
com certeza. E a razaó he 
muito clara. A profecia 
humana conliíte no verda- 
deiro difcurfo 5 o difcuríb 
verdadeiro naó fe pôde fa- 
zer fem todas as noticias j 
& todas as noticias fó as 
pôde ter quem vio comos 
olhos. Nenhfia coufa ouve 
mais aílcntada na antigui- 
dade. 



T • ão Advento^. 

dade,que fer inhabitavel a 
Zona corrida : ficas razoêS) 
com que os Filofofos o 
provavaó, erão ao parecer 
tão evidentes, que ninguê 
havia, qiiôo negaííè. Def- 
cobriraó finalmente os Pi- 
lotos, & marinheiros Por- 
tuguezes as coftas da Afri- 
cajSc da America, & fou- 
bérão mais , & fílofofáraó 
melhor fobre hum fó dia 
dê viíla, que todos os Sa- 
biossôc Filofofos do mun- 
do em cinco mil annos de 
efpeculação. Os difcurfos 
de quem não vio, faõ dif- 
çuríbs : os di^bames de que 
TÍo,faó profecias, 

loi O outro final da 
profecia he o coração 5 
porque conforme cada 
hum tem o coração, aífim 
profetiza. Os antigos quã- 



naó pronoftica melhor 
quemmelhor entende, fe- 
não quem mais ama. E eftc 
coftume era geral em toda 
Europa antes da vinda ds 
Chrifto , & os Portugue- 
zestinhãohíia grande fin-? 
gul aridade nelle entre os 
outros gentios. Os outros 
confultaváo as entranhas 
do s animais, os Fortugue- 
zes confultavão as entra- 
nhas dos homens. Afiim o 
diz S tra b o no livro tercei- 
ro: Lufit anis 'vetus mos erat 
exintejiinis hominum ^^^^iib.y 
f rofpicerey atque inde omu 
na^iirdivinationes captare. 
Era coílume dos antigos 
Portuguezes (diz Strabo } 
confultar as entranhas dos 
homens, quefacrificavãoi 
&■ delias conjeiturar , & 
adevinhar os futuros. A 



do querião pronofticar o fuperfliçaó era falfa , mas 

futuro, facri fica vão os ani- aallegoría era muito ver- 

mais , confultavãolhe as dadeira. Não ha lume de 

entranhas, & conforme o profecia mais certo no 

que viáo nellas , allim pro- mundo , que confultar as 

npfticavaó.Nãoconfulta- entranhas dos homens. E 

vão a cabeça, que he o af- de quehomens .^ De todos? 



fento do entendimento, 
íenão as entranhas, que he 
o lugar do amor ; porque 
Tom./. 



Não : Dos facrificados. As 

entranhas dos facrificados 

eraó as que coníiiltavaó os 

H aa^ 




i;;>?íi 



Dear; 

lb.2I. 



I í 4 Sermão da t efe eira T>omtnga 

nnn>o5f • primeiro faziam deiro Profeta • mas fe ò 

quçelle di j3er 



ofacriíicio, então conful- 
tavaó as entranhas. Se queb- 
reis profetizar os futuros, 
confultai as entranhas dos 
homens facriíicados: con* 
fultemfe as entranhas dos 
que fefacrificárão , 6c dos 
que fe facriíicáo •, & o que 
ellas diíTerem, iíTo fe tenha 
por profecia. Porem con- 



nao fuce-f 
der, tende-o por Profeta 
falfo. Náopóde haver íi- 
nal, nem mais fácil , nem 
mais certo. Sabeis a quaes 
haveis de ter por Profetas? 
Sabeis de quaes haveis de 
cuidar, que acertarão com 
os futuros ? aquelles de 
quem tiveres experiência. 



fultar entranhas de quem quetudo,ouquafi tudo, o 

que diíTeraó antes 5 veyo a 
íucceder depois. Eíle di- 
dtame feguio Faraó com 
Jofeph j Nabucodonofor 
com Daniel , & todos os 
Principes prudentes com 
feusconfelheiros. Mas af- 
íim como ha Profetas de 
antes , aíTim ha Profetas de 
depois. Ha muitos mui 
prezados de Profet.Jí-^, que 
depois de acontecerem os 
máosfuceílbs, então pro- 
fetiza© pelo arrependi- 
mento, o que fora melhor 
ter profetizado antes pelo 
difcurfo. Efte foi hum dos 
tormentos da Payxão de 
Chriílo. i\tãraóaChriílo 
hum pano pelos olhos, da- 
vaólhe,comas mãosfi- 
crílcgas na lagrada cabc- 



iiaó fe facriíicou,nem fe fa 
criíica, nem fe ha de facri- 
ficar i he naó querer profe- 
: cias verdadeiras : he que- 
rer cegar o prefenre, <Sc não 
acertar o futuro. 
; 102 Oultimo-fmalde 
conhecer os Profetas, faó 
osfuceíTos. No Deutero- 
nomio prometeo Deos a 
feu Povo , que lhe daria 
Profetas > &: o final que lhe 
dcopara os conhecer, foi 
fó cíle : Hoc vobisjignum : 
quodTrv-pheta pradixerit , 
Ò non evenerit^ hoc Dorní- 
nusnoneftlocutus'. Quando 
duvidares de algum fe he 
Profeta, ou não , obferva- 
reisefta regra : Se o que 
cUediíTcr antes, fuccdcr 
depois,tcnde-o por vcrda- 



ca 




ss f)H^ !ííVí.í ^do Advento .. iSiWTiêi i r f 

çaj&diziaôpor efcarneo, cUmmtis In deferto \ Eu 

que profetizaíTe quem lhe íbu liúa voz, que cia ma no 

dera : Trophetiza ^ nobis deferto. Verdadeiramen- 

Matth. Çhrift esquis eft qiã te per- tenaó entendo eíla repo- 

*'^*^^' cuffit. Profetizar depois de fta. Se os Embaixadores 



levar na cabeça ^he profe- 
cia de quem tem os olhos 
tapados : heefcarneo da 
Payxáo de Chriílo. Naõ 
haveis de profetizar quem 
vosdco, fenaó quem vos 
pode dar j porque he me- 
lhor reparar os golpes, 
que curalos : & fe o fuceílb 
nioftrarjquea profecia foi 
certa, a quem a diíTer ten- 
de-o por Vto^ztx.Tropheta 
es tu, 

'a®3 /^Ançados íínaíi 



perguntarão , ao Bau tiíta 
o que fazia, entaó eílava 
bem refpondido , com a 
voz , que clamava no de-» 
fertoiporque o que o Bau* 
ti fta fazia no deíèrto, era 
dar vozes , Sc clamar ; mas 
íe os Embaixadores perr 
guntavãoao Bautiila quê 
era,,como ihe refponde el- 
le o que fazia ?R.efpondeo 
difcretiílimamente.Quan- 
do lhe pergunta vaó quem 
era, refpondeQ o que fa^» 
zia j porque cada hum he 
o que faz , & não he outra 
, ^ - ^ coufa. Ascoufasdeíinemf 
V«> mente os Em- fe pela eíTencia : o Bauti- 
baixadores de lhes refpó- íta definiofe pelas acções : 
der o Bautifl:a,que naó era porque as acçoens de cada 



Meílias,nem Elias, nem 
Profeta > pediraólhe final- 
mente, que pois elíes nam 
acerta vaó a perguntar, 
lhes diífeííc cUg quem çíra. 
A eíla inftancia naó pode 
xieixarde deferir o Bau* 



hum faó a ília eíTencia. De- 
finiofe pelo que fazia , pa- 
ra declarar o que era. 

104, Daqui fe enten- 
dera hu a grande duvida., 
que deixámos atras de pó^ 
derar. O Bautiíla pergun- 
tado fe era Elias , refpon- 



tiíla.E que vos parecejque 
joan. i. refponderia ^ B^ojum vox deo,que não era Elias: AV» 
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Matt'-i. 
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íi^ ^ Sermão da ter ceiraT^ominga 

y//^. EChriftonoCapitu- outracouíli. Ohquegrari- 

loonzede S. Marheos dif- de doutrina cflra para olu- 

íè^queoBautiftaeraElias: garemqueeflranios í Qiiá- 

Joannes Baptifta ipfe eft do vos perguntarem quem 

Elias. Pois fe Chrifto diz , fois , náo vades revolver o 

que o Bautiíla era Elias, nobiliário de voíTos avôs» 

como diz o mefmo Bauti- ide ver a matricola de vof- 

fta, que Hão era Elias ?Né fasacçoens. O que fazeis, 

o Bautiíla podia enganar, iíTofolsj&nada mais.Quã- 

nem^ Chníio podia enga- do ao Bautiíla lhe pergun- 

naríe : como fe hão de có- táraó quem era , náo ái^^z 



cordarlogoeftes Textos? 
Muito facilmente. O Bau- 
tiíla era Elias 5 & não era 
Elias .'náo era Elias, por- 
que as peíibasdeEiias,6c 
do Bautiíla erão diverfas : 
era Elias , porque as ac- 
^oens de Elias , & do Bau- 
ti fia erão as mefmas. A 
modeília do Bautiíla dif- 
fe, que não era Elias, pela 
divcrfidade das peílbas : a 
verdade de Chrifto aíHr- 
inou,que era Elias , pela 
-uniformidade das acções^ 
•Era Eiias , porque fazia 
acçoens de Elias. Quem 
faz acçocns de Elias , he 
Elias: quem íizer acçoens 
de Bautifta, fera Bautifta; 
& quem as fizer dejudas, 
fcràjudas. Cada hum he 



que fe chamava João, nem 
que era filho de Zacharias: 
nãofe definio pelos pays, 
nem pelo apelido. Só de 
fuás acçoens formou a fua 
definição : Ego vox cia- 
mantts, 

I o f Muito tempo ha, 
que tenho dous efcandalos 
contra a noíla Gramática 
Portugueza nos vocábu- 
los do nobiliário. A Fidal- 
guia chamãolhe caíidade, 
& chamãolhe fangue. A 
caíidade he hum dos dez 
predicamentos, a que re- 
duzirão todtis as coufas os 
Filofofos. O fangue he hú 
dos quatro humores , de 
quefccompoem o tempe- 
ramento áo corpo huma- 
no. Digo pois, quca cha- 



as íuas acçoens, ôc.nam. he mada fidalguia aam he fó- 

nien- 




ãoAd'vento. iiy 

mente calldade, nem fó- certos refpeitos: ha fidal- 
menteíanguej mas he de guia, que he paixão 5 faó 
todos os dez predicamen- apaixonados de fidalguia: 
tos, & de todos os quatro ha fidalguia , que he ubí.^ 



humores. Ha fidalguia, 
qucheíangue, & por iíTo 
ha tantos fanguinolentos : 
ha fidalguia , que he ma- 
lencolia , & por iílb ha tá- 
tos deÍGontentes : ha fi- 
dalguia, que he cólera , & 
poriíTo ha tantos mal fo* 
fridos, & infofriveis : & ha 



faó fidalgos, porque occu* 
paó grandes lugares : ha fi- 
dalguia, que he íitio5& de- 
ílacaílahea dosTituIos, 
queeílão aílentadossòcos 
outros em pè: ha fidalguia, 
que he habito 5 faó fidal- 
gos , porque andaó mai^ 
bem vertidos: ha íidalguiâj 



•fidalguia, que he fleima,& que he duração > fidalgos 



por iífo ha tantos que pre- 
ílaòpara taó pouco. De 
maneira, que os que adoe- 
cem de fidalguia, naó fó 
•lhe pecca a enfermidade 
no fangue, fenáó em todos 
GS quatro humores. O mef- 



por antiguidade. E qual 
deitas he a verdadeira fi- 
dalguia ?Nenhúa. A ver- 
dadeira fidalguia he Ac- 
ção. Ao predicamento da 
acçãp he que pertence a 
verdadeira fidalguia. Nam 



5 — ^^ j^. 
Fundador de Lisboa. 



As 



mo paífa nos dez predica- gems^ ^froavos , & qu£ 
mentos. Ha fidalguia, que mnfecimusipfi^ vix ea no- 
hefuítancia 3 porque algús Jiravoco •, diífe o grande 
naó tem mais fuílancia > 
que a fua fidalguia : ha fi- 
dalguia, que he quantida- 
de ; faó fidalgos , porque 
tem muito de feu : ha fidal- 
guia, que he qualidade i 
porque muitos naó fe pô- 
de negar, faó muito quali- 
ficados : ha fidalguia , que 
herelaçaó^faó fidalgos por 
Tom. 7. 



apuáO- 
vit iuin 
Meçam. 



acçoens generofas, &: nam 
os pays ilíuftres, faó os que 
fazem fidalgos. Cada hum 
he fuás acçoens, & naóhe 
mais, nem menos , como o 
Bautifia : Ego vox claman^ 
th in defino. 



Hiij f.IX. 



■118 



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106 



§• IX. 

DEíla doutri- 
na táo verda- 
•deirâj&defta ultima con- 
clufaó dó Bautifta , tiro 
dous documentos , co'-ú\ 
queacabo: hum politico, 
outro efpiritual. Digo po- 
liticamente, que nas ac- 
çoensfchãode fundaras 
eleiçoens : Digo eípiritu- 
almente, quèíiasacçoens 
fe devem fegurar as prede- 
ílinaçoens. As eleiçoens 
ordinariamente fundaófe 
nas ger-açoens5& por iílb fe 
acertaótaó poucas vezes. 
Não nego, que a nobreza , 
quando eílà junta com ta- 
lento, deve íempre prece- 
der a tudo 5 mas como os 
talentos Deos he o que os 



Sermão da terceiroTíommga 



Profeta Ezechiel nò pri- 
meiro Capitulo das fuás 
reveíaçoens aquelle carro 
mifl:criofo,porque tiravao 
quatro animais, Homem, 
Leão, Boy , & Águia .• no 
Capitulo decimo tornou a 
ver o mefmo carro com os 
mefmos animais, mas com 
a ordem trocada j porque 
na primeira vifaó tinha o 
primeiro lugar o Homem j 
nafcgunda vifaó tinha o 
primeiro lugar o Boy. No- 
tável mudança! Que o Ho- 
mem na primeira viíaó fe 
anteponha ao Leão, ã A- 
guia, & ao Boy, muito ju- 
íto 5 porque o fez Deos fe- 
nhor de todos os animais : 
mas que o Boy , que foi 
criado para o trabalho , & 



dà,&naóos paysj naó fe para o arado, fe anteponha 

devem fundar as eleiçoens a três cabeças coroadas: ao 

nas geraçoens, fenão nas Homem, Rey do mundo, 

acçocns. £fte didame he ao Leão, Rey dos animais, 

o verdadeiro em todo o à Águia, Rainha das aves! 

tempo, 6c muito mais no Sim: a razão literal , & a 

prefente. No tempo da melhor,quedão os Expo- 

pazpódefcfofrer, que fe fitoresjhceíla. Naprímei- 



dcm os lugares às gera- 
çoens > mas no tempo da 
guerra, naó íc haó de dar 
fcnão às accocns. Vio o 



ra vifaó ellava o carro dé 
tro do Templo 3 nafcgun- 
da vifió fihio o carro à 
campanha : Egreffaeft glo- 
ria 



dô Advento. ii^ 

r'ía'T>omini de limlneTem' voíllis acçoens. Se per- 
pli : & quando o carro eftà guntarem a hum homem : 
quieto , defe embora o 71?^ ^/j ^5? Quanto ao tem- 



primeiro lugar a quem 
melhor he, mas quando o 
carro caminhajiafede dar 
O primeiro lugar a quê me- 



poral, em qualquer maté- 
ria pôde refponder có cer- 
teza : fc perguntarem a hú 
homem \Tu quis í-j? Quan^ 



Ihor puxa:& porque o Boj to aaefpiritual , ninguém 
puxava melhor» que o Ho- ha no mundo , que pofíà 



Pctii 



mem, por iííò fe deo 0'pri- 
mciro lugar ao'Boy. Quá- 
do o carro eftiver no tem^ 
pio da paz, demfe emÍDrora^ 
Gs ugares a quem melhor 
for j mas em quanto o car- 
ita eíliver na campanha 5. 
Iiamfededar os lugares a 
quem melhor puxar. 

107 E aílim como po- 
liticamente he bem, que, 
nasacçoensfe fundem as; 
eleiçoens, aílim efpiritual- 
mente digo , que nas ac- 
çoens fe haó de fegurar as- 
predeílinaçoens. S.Pedro 
na Epiftola fegunda .• Fra- 
três fat agite , ut per bona 
opera certam veftram voca^ 
tionem^&^ eleãionemfacia" 
tis. Irmãos meus Ç diz S. 
Pedro) trabalhai có gran- 
de diligencia de fazer cer- 
ta a voíía vocação , & pre- 
deftinaçaó por meyo das 



Ireíponder a eíla pergunta^ 
Cada hum de nós efpiri? 
tualmemteheo queha de 
íer : o que ha de fer cada 
hum, ninguém o fabe : &e 
aíTim ninguém ha,que po^ 
fa refponder com certeza 
ã pergunta iTfá^ííii-^í ? A* 
maior mifema , a maLOí 
perplexidade, a maior a£« 
íÍi:ção de efpirito , que ha 
na vi da humana, he faber^ 
hu m ho mem , quse ha. dlc5 
fer, ou eternamente ám^^^ 
fa, ou eternam ente iiafdá:-' 
ce3-& naó faber qualdeftas? 
duas ha de fer ; naó íàber 
hum homem fe he preci- 
to, ou fe he predeftinado. 
A efte maior de todos os 
cuidados, a efta maior de 
todas as perplexidades 
acode S.Pedro com o úni- 
co remédio, que ella pôde 
ter : Satagite^ utper 'vefira 
H iiij y&m 



i 



m 



12 Sermão da terceira "Dominga 

bma opera certam veftram çoens , jà que nas noíTas 
eleãwnemfaaatís. Se que- obras eftà depofitado hum 
reis ter fegurança de voíTa thefouro tão grande, não o 
predeftinação,a maior q sê percamos. Sata^ite.u^bz^ 
revelação fe pode terne- Ihemos por fegurar noíTa 
lia vida^appellaipara vof- predeílinação. Aplique- 
fasacçoens, & voíTas boas monos muito de veras à 
obras : fazei obras boas, & obfervancia dos preceitos 
ellai moralmente feguros, divinos : rompamos por 
que fois predeftinados. tudo o que nos pode fer ef- 
Eftehe o verdadeiro en- torvo, & impedimento: 
rendimento das palavras conheçamonos, & conhe- 
deS.Pedro : & aílim as ex- çamos o mundo , & feus 
plica S. Thomás, & todos enganos : quebremos com 
osTheologos. Oh quefe- húa grande refolução os 
hcidade tão grande, que ]aços,&as cadeas,que nos 
tenhamos nas noíTas obras detém , quaefquer que fe- 
hum feguro de noíTa pre- jão ; convertamonos de 
deftmaçáo í Na outra vida todo coração a Deos : dif- 
hanos de pagar Deos as ponhamonos com todas as 
boas obras com a poíTe da forças para receber fua 
gloria: neftavidajànolas graça, & feguremos para 
começa a pagar com a fe- fempre o premio da Glo- 
gurança delia. Ora Chri- ria. 
íláos, jà que nas noíTas ac- 



ín4 



SER. 



121 






sfa !2Í^ sfe ©fí) sta sta áfè st5 sta 

ffffff^fi 

S E R M A M 

DA QUARTA DOMINGA 

DO 

A D V E N T O. 



Faãum eft ver bum ^omini/uperjoannem, & venit in 
: omnemregionemjordanisypradicansbaptifmumpa- 
nitentia mremifflonem peccatorum, Luc.3. 




§■ I. 

Em que eu o di- 
ga eftà dito por 
íy mefmo , que 
avemos de ter 
hoje o quarto juizo. No 
primeiro Sermão vimos o 
j^uizo de Deos para com os 
homens ; no íegundo vi- 
mos o juizo dos homens 
hunspara com os outros: 
Bo terceiro vimos o juizo 



de cada hum para comíigd 
mefmo. Mas qual fera o 
quarto, & ultimo juizo, 
que nos refta hoje para 
ver ? Nem he juizo de fy 
mefmo , nem he juizo dos 
homens, nem he juizo de 
Deos : he o juizo deíles 
três juízos. Todos os três 
Íuizos,que vimos, vem ho- 
je chamados a juizo. Le- 
vanta nefte Evangelho o 
Bautifta tribunal fupre- 
ma 



=1 



à 




1^2 2 Serrríãõ ãa quarta T>ommgã 

mo da Penitencia : ?*r^^/- dcfprczado : o juizo á<z 

cans baptifmtmpanitentids Deos revogado : he o que 

in remijjionem peccatoriim\ avemos de ver hoje. 
& afTenca-o com grande 109 Tenho propoftó 

propriedade , & miílerio Ccatholico, & nobililUmo 

nas ribeiras do Jordaó : In Auditório) a matéria de- 

omnem regionem lordanis-, íle ultimo Sermão. E fe 

porquejordaó quer dizer; nos palfados mereci alaúa 

Fluvius ludicij \ o Rio do coufaavoíTos entendinié- 

Juizo. A verfe nas aguas tosÇ qmdfentia quàm fit 

deíle rio, a prefentarfc á:^-^ exiguum } quizera que mo 

ante deíle tribunal vem pagaíTem hoje voíTos co- 

hoje os três juízos 5 cada raçoens. Aos coraçoens 

hum por fuás caufas.O jui- determino prègaf hoje, & 

«odefymxOno vçm por caó aos entendimento^. 



Ibfpeiçoensj porque o da 
inosporfofpeito : o juizo 
dos homens vem por ag- 
gravo ; porque aggrava- 
mosdelle: o juizode Deos 



Chriílo foberano exem- 
plar dos que prègaó fua 
palavra, comparou os Prè* 
gadores aos que lavraó,.& 
lemeão : Exijt quifeminat luc.s. 



Ibid.ir. 



vempor appellaçáo>por- feminare :femen eftverbum 

que appeilamos de Deos T>ei. O ultimo Sermão he 

para a noíTa. penitencia, o Agoílodos Prècradores- 

Todos eftes juizps haó de fefe colhe aigmn fruto * 

ftr julgados hoje,&erpero neíle Sermão fe colhe' 

que haó de fair bem julga- Masquandoeu vejo, que 

(Íqs. v porque debaixo do hoje nos torna a repetir o 

jtiizo da Penitencia, o jui- Bautifta, que clamava em r 

20 de fy mefmo emenda- deferto : l^ox clamantis in 4"" ^' 

fei o jiiizo dos homé^ def- deferto. > que conliança pó- 

prezafe •, o juízo de D^o.s defícar a qualquer outro 

revogafe. Aílimqueojui- Pregador , que naõ def- 

zp de fy melmo emenda- mave: ou que palavras pò- 

do:o juuQ dos^bomcíis. ciem fertaó fortes, & eífi- 

cazes 





doAd^vento. 123 

câzes às fuás, que antes de meremos de vos oífender. 



as pronunciar a voz , nam 
cmmudeçaó ? Lembrame 
porém, que para Chriílo 
converter hum homem, 
que o tinha negado três 
vezes 3 porque fe dignou 
de lhe por os olhos, bailou 
a voz irracional, & no£tur- 
nadehúa Ave, cujas azas 



Afpexit^Ò' diffolvit gentes : Hab- $: 
oíhai vós, Senhorjque ain- ^' 
da que foíTemos gentios 
íèmfé,& não Chriftãos, 
osnoíTos coraçoens fe fa- 
raó de cera , Sc fe derrete- 
rão. Neíle dia pois, em 
que nos naó refta outro, 
acendei a frieza de minhas 



apenas a levantaó da terra, palavras,& allumiai as tre- 
para o reftituir outra vez vas de noíTos entendi men- 



ao caminho do Ceo. Tan- 
to pode hum refpexit dos 
olhos divinos. Aílim he , 
Senhor, aífim he. E pofto 
queefte indigno miniílro 
de voífa palavra feja taó 
defproporcionado inftru- 
mento para obra taó gran- 
de: fe os olhos de vofía pie- 
dade, ^ clemência fe pu- 
zerem nos que me ouvem, 
& hum rayo de voífa vifta 
-lhes ferir as almas 5 naó de- 
fefpero, antes confio de 
•voífa graça, que as fobera- 
nas influencias defua luz 
faraó o que podem, & o 
iô^. 3 2. que coílumão. Quirefpicit 
terram-i érfacit eam treme- 
rí» rolhai vós, Senhor, que 
ainda que fej amos de terra 
infeníiveljôc dura, nqs tre- 



tos, de íortç:^ que r efoluta- 
meiíte defenganados , fa- 
çamos hoje hum inteiro,& 
perfeito juizo, de vós, de 
iiòs,& do mundo : de vòs ^ 
para que vos conheçamos, 
& vos amemos : de nós,pa'- 
ra que nos conheçamos,,S^ 
.nos humilhemos: do mun- 
do , para que o conheça^ 
mos, 6c o defprezemo^. 

í. 11. 



IIO 



Pfal 



O Ra venha^ 
entrando OjS 
três juizos,para ferem exa- 
minados , & julgados no 
tribunal da Penitencia : o 
juizo de fy mefmo, para 
que fe emende, o juizo dos 
homens , para que Xe deí^ 
preze» 



i 



114. Sermão da quarta 'Dominga 

preze, o juizo de Deos,pa- nha aigúa vífta , mas efta 



i^ 



m 



li 



% 




Marc 8. 
^4. 



ra que fe revogue : & co- 
mecemos pelo que nos fica 
mais peito. 

No tribunal dos Areo- 
pagitasem Athenascoílu- 
mavaó entrar os reos com 
osroftos cubertos. Aíllm 
entra,& fe preíènta diante 
do tribunal da Penitencia, 
o juizo de fy mefmo. En- 
tra com os olhos tapados, 
porque naó ha juizo mais 
cego. A cegueira do juizo, 
& amor próprio hc muito 
maior, que a cegueira dos 
olhos: a cegueira dos olhos 
faz que naó vejamos as 
coufas, a cegueira do amor 
próprio faz que as veja- 
mos difrerêtes do que faó : 
que he muito maior ce- 
gueira. Trouxeraó hum 
cego a Chriíio, pira que o 
curaíTe : pozlhe o Senhor 
as mãos nos olhos , &: per- 
guntoulhe fe via ? Refpon- 
deo : Vídeo homines velut 
ar b ores mnbtdantes^qixQ, via 
andar os homens como ar- 
vores. Pergunto, & quan- 
do cftava eltc home mais 
cegOjngorLi,ou antes?Ago- 
ra naó ha^ duvida , que ti- 



vifta era maior cegueira, 
que a que dantes tinha j 
porque dantes naó viana- 
dajagora via húa coufa por 
outra, homens por arvo- 
res : U maior cegueira he 
ver hiía coufa por outra , 
que naó ver nada. Naó ver 
nada he privação, ver húa 
coufa por outra he erro. 
Eis aqui porque fempre 
erra o juizo próprio .• çis 
aqui porque nunca acaba- 
mos de nos conhecer.Por- 
que olhamos pára nós com 
os olhos de hum mais cego 
que os cegos , com huns 
olhos que fempre vem húa 
coufa por outra, &as pe- 
quenas lhe parecem gran- 
des. Somos pouco maio- 
res que as ervas , & fíngi- 
monos taó grandes como 
as arvores: íòmos a coufa 
mais inconílante do mun- 
do, & cuidamos, que te- 
mos raizes : fe o inverno 
nos tirou as folhas , imagi- 
namos que nolas ha de tor- 
nar a dar o veraó, que fem- 
pre avemos de ílorecer, 
queavemos dcdurarpara 
fempre. lílo fomos, Scifto 
cuidamos. Eque 



doAd'Vento\ 



I2f 



Piai Tl. 
49.21. 



III E que faz a peni- 
tencia para emendar eíle 
iuizotaoíèmjuizo ? Que 
faz a penitencia paraallu- 
miar eíle cego tao cego? 
Duas cõufas.Tiralhe o veo 
dos olhos : & metei he hum 
efpelhona mao. Tiralhe o 
veo dos olhos, como pedia 
opeccadoraDeos : Í?í"i;í'- 
la oculosmeos : mçtclhthú. 
118.18. efpelhona mao, eomodi- 
-zia DeosaopeccadorriS'/'^- 
tuam te cantrafaciem t%am\ 
Porvoshei a vos diante de 
vòs. Nenhúa coufa traze- 
mos os homens mais ef- 
quecida, & defconhecida , 
nenhiia trazemos mais de- 
trás denòs, que a nòs mef- 
mos. E que faz o juizo da 
peni tecia? Poem-nos a nòs 
diante de nòs: St atuam te 
€ontrafactem tuam . Põem - 
nos a nòs diante de nòs, co- 
mo a reos diante do tribu- 
nal, para que nos julgue- 
mos: poem-nos a nòs dian- 
te de nòs , como obje6to 
diante do efpeiho >para 
que nos vejamos. Coufa 
difficultofa he> quehomés 
taó derramados nas coufis 
exteriores^ cheguem a fe 



ver interiormente , como 
convém. Mas iílb faz a pe- 
nitencia por hum de dous 
modos, ambos maravilho- 
fos : ou voltandonos os 
olhos de fora para dentro, 
para que nos vejaõ^ ou vi- 
randonos a nòs mefmos de 
dentro para fora, para que 
nos vejamos. 

112 Quando Deos 
quiz converter aquelie taó 
defvanecido Rey Nabu- 
codonofor^para que fe def- 
ceíie de feus foberbiíHm os 
penfamentos^êc conhecef- 
feo que era ; o primeiro 
paffo por onde o encami- 
nhou à penitencia , foi 
transformalo em bruto. 
Sobre o modo defta trans- 
formação ha variedade; de 
pareceres entre os Douto- 
res ; huns dizem, que foi 
imaginaria, outroSjque foi 
verdadeira : &: pofto que 
eílefegúdo modo he mais 
conforme ao Texto i de 
ambos podia fer. Se foi 
trásformaçaó imaginariaia 
voltou Nabucodonofor os 
olhos para dencra de fy 
mefrao5& vio taô vivam é- 
te o que era , que áeQi^ 
aquei- 




^26 Sermão dãq\ 

âquellc ponto fenaó teve 
mais por homem , fenaò 
por bruto, & como tal fe 
tratava. Se foi transforma^ 
çaóverdadeira, converter 
Deos em bruto a Nabuco- 
donofor , naó foi outra 
coufa, que viralio de den- 
tro para fóra,para que mo- 
ftraíTe por fora na figura o 
que era por dentro na vi- 
da. Oh quam outro fe ima- 
ginava eíle grande Rey 
antes do que agora feviaí 
Dantes naó fe contentava 
com Ter homem , &: imagi- 
navafe Deos:agora conhe- 
cia que era muito menos 
que homem, porque fe via 
bruto entre os brutos. Se 
voltarmos os olhos para 
dentro de i\ò^ , ou fe Deos 
nos virara a nòs mefmos 
de dentro para fora , que 
diíFerente conceito avia 
de fazer cada hum defy , 
do que agora fazemos! 
Mas figuamos os paíTos 
deíle novo monílro, Ã: ve- 
lo-emos,6c vernos-emos. 
Andou pafcendo aqueiie 
bruto racional o primeiro 
dia de fua transformação 
cncre os animais : là peia 



UãrtaT>ordinga 
tarde teve fede : foyíeche- 
gando fobre quatro pès à 
margem de hum rio , & 
quando reconheceo no cfr 
pelho das aguas a deformi»- 
dade horrenda de fua fíir 
gura, valhame Deos , que 
aíTombrado ficaria de ij 
mefmo! Provaria primei* 
ro a fogir defy ; mas como 
fe vifi"e atado taó forte- 
mente àqueile tronco bru* 
to, remeteria a precipitar- 
fe na corrente : & feDeos 
onaótiveíle maó, que o 
queria trazer por aquelles 
campos de Babilónia para 
exemplo eterno de fober- 
bos,alli ficaria fepukado, 
primeiro em fua confufaó) 
6c depois na profundida- 
de do rio. Que rioheefie, 
fenaó o rio J ordaó, Fluvins 
ludicij : Rio do juiz o .^ E 
quéhe efic Nabucodono- 
foraflim transformado, fe- 
naó o peccador , bruto có 
razaó, & fcm ufo della,que 
anda pafcendo nos cam- 
pos deíle mundo entre os 
outros animais, maisani- 
malquccllcs .^ Sò húadif- 
fcrcnça ha entre nos , & 
Nabucodonofor,que ellc 
quiz 



t'V 




ão Advento, 
quiz fogir de fy^j^c naó po* o que imagináveis 
de, nós ainda podemos, fé 

Chega 



quizermos. L^nega emfim 
o peccador a verfe nas 
aguas déíle rio , efpelhos 
naturaes5& íem aduiaçaó : 
vè de repente o que nunca 
tinha viílo : vèfe a fy mef- 
mo. Oh que aílbmbro! He 
poíli vel, que eíle fou eu ? 
Tal fealdade , tal horror, 
tal brutefa j ta es deformi- 
dades ha em mim ? Sim : & 
muito maiores. EíTe fois, 
& naò o que vos cuidáveis. 
Vede fe diz eíTe retrato 
coín o que vos tinheis for- 
mado de vós mefmo no 
voííb penfamento j vede 
bem,&: coníiderai muito 
devagar neíTe eípelho o 
rofto,^ âis feiçoens inte- 
riores da voííà alma : vede 



127 

vede 

fe vos conheceis : vede fc 

fois eíTe, ou outro ; Tu quis^ 



113 Ç Abeis porque 
43 andarmos ta6 
vangloriofos, & taó defva« 
necidos de nos mefmosf* 
Porque trazemos os oihos 
por fora , & a nós por den** 
tro : porque não nos ve^ 
mos. Se nos viramos inte-, 
ri orm ente como fomos, fe 
coníideraramos bem a de- 
formidade de noífos pec-r. 
cados 5 oh que diíferentè, 
conceito aviamos formar 
denòs l Taó defvaneci- 
dos de il luftres, taó defva- 
necidos de Senhores , taó 



bem eífes olhos, quefaó as defvaneçidos de podero- 
voíTas intençoens : eífes fos, taó defvaneçidos de 



cabellos , que faó voífos 
penfamentos : eíTa boca , 
que faó as voílas palavras: 
eílas mãos^ que faó as vof- 
fas acçoens , & as voífas 
obras : vede bem fe diz ef- 



difcretosí, taó def\^aneci- 
dos de gentis homens, taó 
defvaneçidos de fabios , 
taó defvaneçidos de vale- 
tes, taó defvaneçidos de 
tudo : porque? Porque vos 
fa imagem com a que ten- naó vedes por dentro. Di- 
desnavoífaidèa : vede fe zeime vos, que húa vez 
fe parece o que vedes coin puzeíTei-s bem os oihos em 

-^^n voífos 





TiS Sermão da qíi ar taTyomhga 

voíTos péccadòs : oh como hiílorias de luas façanhas 



Pralm. 
50.5- 



avieis de emendar todos 
eftes epitetos í Nenhum 
homem ouve no mundo, 
que mais íe podeíTe prezar 
de f^, que David ; porque 
nelle ajuntou a natureza, 
a fortuna, &: a graça , tudo 
o que repartio pelos gran- 
des homens :& com tudo 
tienhum homem achareis 
mais humilde, nem menos 
prezado de fy mefmo , an- 
tes mais defprezador de 
fy, que David. E donde 
cuidais, que lhe vinha if- 
to? Teccatim meum contra 
meeftfemper. eítava David 
fempre olhando parafeus 



Chryf. 
ib. 



Naódeo tanta, matéria as 
artes Hercules em feus 
trabalhosjcomo David em 
fuás vi6Vorias. Mas naó 
eraó eftas as viftas, em que 
fe entretinha aquelle grá* 
de Rey , nem eftas as ga- 
lariasjcm que hia paífear. 
Em contrapofiçaó daquel- 
las pinturas(^figamos aíHrn 
a confideraçaó de Chry- 
foftomo 3 mandou fabri- 
car David outra galaria, 
chamada de fuás fraque- 
zasj&nella pintar em di- 
veríos quadros, naó as fa- 
mofas, mas as laftimofas 
hiftorias de feus peccados.- 



peccadosjôcvendo-os, & Aqui vinha paffear Da- 

vcndofc nelles. §uafipec' vid: aqui tinha o bom Rey 

catoriim itriagines contem- as fuás meditaçoens : 6c 

plando : comenta S.Joaó aqui alcançava a maior de 

Chryfoftomo. EftavaDa- todas fuás viclorias , que 

vid contemplando os feus "foio conhecimento de fy 

peccados, como fe eftive- mefmo. 



ravendo5&: confiderando 
as imagens, & retratos de 
fuasacçoens. Naó ha du- 
vida, que muitas peças do 
Palácio de David peio ve- 
rão nus pinturas , pelo in- 
verno nos tapizcs cflariaó 
ornadas com as famoías 



1 1 4 G)uaíipeccatornm 
imagines contemplando-NTi' 
mos com David conílde- 
rando peccados , Sc muda- 
do epítetos. Punha os 
oihos David cm hum qua- 
dro, via a hiftoria de Ber- 
íabcjôc dizia comíigo: He 
poíli- 



h:.'!:; 



wm^^ 



fc-^^Vuv do Advento, '^««wt-íí?^ 



j^6ílívêl,qúè me tenha o 
mundo por Profeta5& que 
naó anteviíTeeu , quede 
huaviílafeaviade feguir 
humpeiifaínento, de hum 
penfamento hum defejo, 
6c de iium defejo liúa exe- 
cução taó indigna de mi- 
nha peíToa, & de meu eíla- 
do! Naó me chamem mais 
Profeta , cham em- me ce- 
go. He poíIiveUque fou eu 
tido no mundo pelo valen- 
te da fama, & que bailou 
1i tia mulher para me ven- 
c^ei*^ & para que eu deixaf- 
ífe a guerra, 6c náo fahiíTe à 
campanha naquelle tem- 
po í em que coíiumavaó 
andar os Heys armados 
diante de feus exércitos: 
Eo tempore^ quofolent Re^ 
ges aã òelia procederei Naó 
me chame ninguém valé- 
tej chamem- me fraco. Da- 
va dous paíTos adiante Da- 
vid, punha os olhos nou- 
tro quadro, via a hiíloria 
de Uriasicomo dava a car- 
ta a Joab,&: como aparecia 
logo morto nos primeiros 
efquadroens , ôc vidorio- 
fos os inimigos. He poíH- 
yel , que me prezo eu de 
Tom./. 



I25> 

Principé ^C^fdàdeirò , & 
que mandei cometer hfu 
aleivoíia tao grande de- 
baixo de minha firma y^ 
que a hum vaíTaiio taó fíelj 
depois de lhe tirar a hon- 
ra, lhe tirei também a vida 
enganofamente l iS ao me 
terei mais por verdadeiro, 
fenaó por fémentido/. He 
poííivèl, que me fez Deos 
Rey do feu Povo,para lho 
confervar,8c defender, & 
queconfoio eu a nova da 
rota do meu exercito, corri 
a nova da morte de Urias > 
6c que péfa mais na minha 
eftimaçaó a liberdade de 
humappetite,quea perda 
de taó fieis , èi. valerofóS 
foldadosINaó me chamem 
Rey, cham em- me tyran-^ 
no. Hia por diante David, 
contemplava outro qua- 
dro, via o cafo de Nabal 
Carmello : como mandara 
tirara vida a tudo o que 
em fua cafa a úvcí^^Ç:^ 6c co- 
mo depois lhe concedia 
perdão pelos rogos de fiia 
mulher Abigail. Hepofli-^ 
vel,que eu fou o celebrado 
debenigno,6c piadofo, 6c 
mando tirara vida a hum- 
I ho- 






130 Sermão da quarta Dominga 

homem 5 porque naõ quiz pelo dito de hum criado^ 




^1» 



^H 



dar fua fazenda aos fogiti- 
vos, que me feguem ! Eu 
fou o que domei os Leões, 
6c os UíTos no deferto ,& 
naó pude domar hum Ím- 
peto de ira dêtroem mim 
mefmo .' Naó me chama- 
rei mais humano, chamar- 
me-heifero. HepoíIIveí, 
que me preze eu de intei- 
rOj& que fendo taó juftiíi- 
cada a caufa de Nabal, ao 
jnenos naó digna de caíli- 
go, naó baftaííe para me 
aplacar a fua jufliça^patro- 
cmadafódcíy mefma: ôc 
que depois reprefentada 
por Abigail, pudeíTe mais 
hum memorial acompa- 



fem mais informaçao,neni 
figura de juízo, declaro a 
Miíibofet, filho do Rey 
meuanteceílbrjporreo de 
lefa Magefíade,& Ihecon- 
fífco afazenda,&:adouao 
mefmo acufador ! Naó me 
terei mais por prudente, 
fenaó por temerário. He 
poílivel, que tenho eu opi- 
nião de redo , & que de- 
pois de averiguada a ca- 
himniajêc provada ainno- 
cencia , deixo ao traydor 
com ametadedos bens,& 
naó mando , que fe reílif 
tuaó todos ao innocente ! 
Naó me terei mais porre- 
â:o, fenaó por injuílo. líis 



nhado do íèu roílo, que da aqui como David pelos re 
fua razaóí Não me chama- tratos de feus peccados hia 



rei inteiro, chamarme-hei 
refpedivo.Dava mais paf- 
fos adiante David , via 
noutro quadro a hiftoria 
deSiba : como acufava a 
Mifibofetfeu Senhor, co- 
mo tomava poíTe da fazé- 
da,& como depois de pro- 
vada a cakimnia, lhe man- 
dirarcílituir fó ametade. 
He poílivel, que me prezo 
eu de coaíiderado, & que 



mudando os feus epítetos, 
& emendando o juízo de 
fy meímo ; & tendo em fy 
tanta matéria para a vai- 
dade, achava tanta para os 
defenganos. 

1 1 f Chriíláos [& naó 
digo Senhores , porq qui- 
zera que vos prezaíleis 
mais de Chriíláosjponha- 
fe cada hum diante á2s 
imagens dç feus peccados , 
Tec 



doAd^enfo\ i^t 

¥^eccatorum imagines con- fouoque me prezo de en- 



templando : cuide,& coníi- 
derenellas hum pouco, & 
verá como as idèas anti- 
gas, que tinha na fantaíia, 
íelhevaó deípintando, & 
como muda, & emenda o 
juizo errado , que de íy 
mefmo fazia. Todos vos 
prezais de honradosjtodos 
vos prezais de valeroíos. 



tendido j& cometi tantas 
vezes húa ignorância taõ 
fea,como anteporá crea- 
tura ao Creador, afumma 
miferiaao fummo, & infi- 
nito bem ! Naó fou enten- 
dido, fou nefçio. Eu fou o 
que me prezo de feíudo ; 
& cometi tantas vezes húa 
locura taó rematada , co^ 



todos vos prezais de ente* mo arriícar por hurn appeí- 

didos, todos vos prezais tite leve, por hum inftan- 

de fefudos : quereis emen- te de gofto húa eternidade 

dar cffQS epitctos? Virar os de gloria , ou de Inferno í 

olhos para dentro aos pec- Naó fou fefudo, fou louco. 

c2idos. Eu fou o que me Deita maneira emenda q 

tenho por honradoj & co- juizo da penitencia os er- 

meti tantas vezes húa vi- roSjSc as cegueiras donof* 

leza taó grande , como fer íb. Em lugar de fefudo, 

ingrato,& infiel a meu Se- põem louco i em lugar de 

nhor,&ameu Deos, que difcreto, nefcio j em lugar 

mecreou, 8c meremio có devalerofo, covardej em 

feufangueíNaófou hon- lugar de honrado , vil: 82^^ 

rado, fou vil . Eu fou o que aquillo era o que cuida va- 



me tenho por valeroío v 8ç 
cometi tantas vezes huma 
fraqueza taé baixa , como 
deixarme vencer de qual- 
quer tentação, 6c virar as 
coitas aChriáojfem refi- 
flirporfeu amor, nem a 
hum penfamentoíNaó fou 
ralerofoa fou covarde. Eu 



mos , iíto o que fomos. 
Ninguém nos diz melhor 
o que fomos, que os noíFos 
peccados. 

§. IV. 

116 A Inda os nof- 

jfj^fos peccados 

li) po- 




1^ ; 
li?'! 



V1J.J 




;;;J 



.:í.Reg. 



132 Sermão da 

poílos diante dos olhos té 
outro modo de côvencer, 
& emendar mais aperta- 
do, 6c mais forçofo : que he 
convencemos a nòs com- 
nofcoj & emendar o noíTo 
juizocomo noíTo próprio 
juizo. Cada hum em feu 
juizo naó fe deve eílimar 
mais, queaquilio em que 
eile mefmo fe avalia. E co- 
mo fe avalia, cada hum de 
nòs? lílo naó fe vè nos nof- 
fos penía mentos, vefe nos 
noíFospeccados. Todas as 
vezes , que hum homefií 
pecca , vencLeíe pelo feu 
peccado : Venimdatus efí'^ 
mfaceret makmyáiz2. Éf-' 
cntiirafagrada. Ora veja 
cada hum de nos o preço 
porque fe vcnácy &c á^hv 
julgará o queiíe. Prezais- > 
vos muito, & eftimais-vos 
rnuico 5 defvaneceis-vos 
muito ; quereis faber o 
que fois por voíTa niefiria 
avaliação:?. Vede o preço* 
porque vos dais 5 vede os 
voífos peccados. Daif-vos 
por hum rcfpcito,daif vos 
por hu m intcreíIc,daif-vos 
por hum appctite, porhCi 
penfiinenco,por hum aílc- 



quarta Dominga 

no : muito pouco he o que 
por taó pouco fe dà. Se noS 
rendemos por taó pouco, 
como nos prezamos tan- 
to ? Filhos de Adam em- 
fím..Quem yííTq a Adam 
no Paraifo cx>m.tanta5 pre- 
fumpçoens de divino , mal 
cuidaria , que em todo o 
mundo podeífe aver pre- 
ço, porque fe ouveíFe de 
dar. E que fucedeo? Deo- 
ÍGÚlQy &: deoatodosíeu^ 
filhos por hua maçãa. Se 
nos vendemos taó baratos, 
porque nos avaliamos taó 
caros? Jà que vos ^ílxmais- 
tanto, naó vos deis por taò 
pouco j & pois vos dais 
por taó pouco, naó vos te- 
nhais por mais. Naó he. 
razaó, quefe avalie taó aln 
to no feu peníamento , 
quem fe vende taó baixo: 
no feu peccado. 
y liX^^.. i Agor3<;catende* 
reis abfpirito,ôc a pruden-> 
cia de David, em pór di^. 
ante dos olhos as imagens 
de feus peccados : Tecca^ 
torum ímtigines cõntempia^ 
<^í?,: quando para íc excitar 
a contrição, ^ conheci- 
mento de fua miferia ^ pa- 
rece 



do Advento', ^ 133 

rece que como Profeta vendo pelos iíadas do mu- 



pudera reprefentar diante 
de fy outra imagem, que 
mais o movera. Naò mo- 
vera mais a David huma 
imagem de Chriílo cruci- 
ficado 5 pois elle fabia mui 
bem, que Deos havia de 
morrerem hua Cruz por 
aquelles mefmos pecça- 
dos? Digo que naó: leve- 
de a razaó porque o digo. 
Muito melhor me conhe- 
ço eu diante da imagem 
de hum peccadojque dian» 
te da imagem de hú Chri- 
ílo crucificado. Quando 
eftou diante da imagem 
de Chriílo crucificado , 
parece que tenho razoens 
de me enfoberbecer , por- 
que vejo o preço , porque 
Deos me comprou ; mas 
quando me ponho diante 
da imagem de hum pec- dadosjcomoojuizo de fy 
cado, naó tenho fenaó ra- mefmo j mas com todos os 



do, naó poílb deixar de 
crer que fou nada. Eis 
aqui a que fe reduz , & co- 
mo fe defengana o juízo 
de fy mefmojquando fe vè 
como em efpeiho na ima- 
gem de feus peccados : & 
aíllm o muda,aíllm o eme- 
da o juizo da penitencia : 
Tradicans ba^tifmum fce- 
nitentia. 

$. V. 

118 /^ Juízo de ff 
V^ mefmo [co- 
mo acabámos de ver J 
emendafe:& o juizo dos 
homens? defprezafe. En- 
tra pois o juizo doshomés: 
a prefentarfe diante do 
tribunal da Penitencia : ôc 
naó vem com os olhos vê- 



zoens de me humilhar , 
porque vejo o preço, por- 
que eu me vendi. Quando 
vejo, que Deos me com- 
pra com todo o íeu íàngue, 
naó poílb deixar de cui- 
dar, que fou muito i mas 
quando vejo , que eu me 
Tom. 7. 



fentidos, Sc com todas as 
potencias livres, 6c muito 
livres j porque com todas 
julga a todos. Traz livres 
os olhos, porque julga tu- 
do o que vé : traz livres es 
ouvidos, porque julga tu- 
do o que ouve : traz livre a 
I iij lia- 



'vi 



Manh. 



134 Sermão da quarta dominga 

lingua , porque publica , peccados noílbs, que fize- 
tudo o que julga; Sc traz li- ra feus ; Sc quem era ta de 
vre mais que tudo a ima- fatisfazera Deos porpec- 
ginaçaój porque Julga, 5c cacos, náo tem ouvidos 
condena tudo o que ima- para aque contra elle di- 
gina. . , zemos homens : E^o attr^ 

iip Mas. que faz a pe- tám tanquam Jurdns nonviúm. 
nitencia para defprezar- aiidkbarn. Digaó os ho- 37 «4- 

mens, julguem os homens, 
condenem os homens a 



mos eíle idolo taõ adora- 
doj taó temido > & taó ref- 
peitado no mundo ? Que 
faz 5 ou q pode fazer a pe- 
nitencia 3 para que naó fa- 
çamos cafojfendo homens, 
dojuizo dos homens ?C6 
abrir, ou fechar hum {tn- 
tido faz a penitencia tudo 
iílo. Para o juizo de fy 
mefmo abrenos os olhos r 
para o juizo dos homens , 
fechanos os ouvidos. No 
dia da Payxaó choviao te- 
ftemunhos , 6c blasfémias 
eontraChrifto ; & o Se- 
nhor^como fe nada ouvira. 
Aífim lho diíTe admirado 
Pilatos; A^í?;^ aiidts quanta 
adverjum tedicuntteftimo- 
»/4?Naó ouves quantos te- 
ílemunhos dizem contra 
ti ? Naò ouvia Chriílo, 
porque ouviajcomo fe naó 
ouvira. O Senliornaqucl- 
ledia hia fatisfazcr pelos 



os 

que quizerem , & quan- 
to quizerem i que quem 

trata de veras da íluisfiçaó 
de feus peccados , quê tra- 
ta de veras de fer bcmji'1- 
gadodeDeos, naó fe lhe 
dà do juizo dos homens. 
Sabeis porque dizemos 
tanto cafo dos juizos hu- 
manos, porque naó fomos 
verdadeiros penirentes.Sc 
a noílli penitencia , fe o 
noííb arrependimento fo- 
ra verdadeiro , que pouco 
cafo havíamos deflizcrdc 
todas as opinioens do mu- 
do! 

120 Peccou David o 
peccado àc Berfabè, & U- 
fias : ao cabo de algum té- 
poveyo o Profeta Nata m 
a adv^crtillo do grande mal 
que tinha feito : reconhe- 
ccoPavid fua cu.pa-.diife: 
'Pccca- 



m 



do Advento. i^f 

2 Reg ^etcavt 5 Pequei ; & no i;/báfta a David , a Saui, 

''^"'^" mefmo ponto por parte dé porquelhe naô bailou hu 

Dcos o abfolveo o Profeta Teccavi ? A razaá literal , 

úoipQcc3.áo:^omimisquo- que daó todos os Douto- 

^^- que transtuUt ^ peccatum reSjhej que o Teccavi de 



ruum.Feccou Saul opec- 
<:íido de deíobedienciajre- 
fervando do derpojo de 
Amalec para o facriíicio : 
veyo também o Profeta 
Samuel advertillo déqua- 
to Deos fentira aqueila 
culpa : conheceo-a Saui: 
diíTe : Teccavi > Pequei i 
mas nem o Profeta ref- 



David foi dito de todo o 
coraçaójO "Pf <rr^.i;/ de Saui 
foi dito fomente de boca.: 
a penitencia de David, foi 
penitencia verdadeira > a 
penitencia de Saul foi pe- 
nitencia falfa. Muito bem 
dito : mas donde fe prova > 
Donde fe prova , que foi 
falfa a penitencia de Saul * 



pondeo , queeftavaper- donde fe prova, que o feu 
doado, nem Deos ihe con- 
cedeo perdaô. He efte hú 
dos notáveis cafos , que té 
aEfcritura, coníiderada a 
femeihança de todas as 
'cifcunílancias delie. Da- 
vid era Rey, Saul também 
eráRey"} David peccou. 



Teccavi foi dito de boca , 
Sc naò de coracaó ? Naó o 
dizemos Doutores ,. mas 
eu o direi, ou ò dirá o Tejt- 
to. Quando David diífe .' 
^eccavi-, naó failou mais 
nada. Quando Saul diííe : 
Teccavi j acrecentou eflas 



Saul peccouj a David veyo palavras vTeccarui '.Jedho- 
amoedar hum Profeta, a nora me c&ramfenwribus 



!. Reg. 
1^.30. 



Saul veyo amoeftar outro 
Profeta •, David diíTe; 'Pec^ 
^•i^v/ , Pequei •, Saul diíTe: 
SP^rf^w, Pequei. Pois íe os 
cafos em tudo foraó taõ fe^ 



pof uli meu & coram Ifrael. 
Pequei : mas vòs Samuel 
tratai de minha reputa- 
ção, & honraim^ com os 
grandes, & povo de meu 



melhantes , como perdoa Reyno, Ah fim Saul, & vòs 
Deos íw David , 8c naó per- depois de dizer Tecca-vi , 
doaa Saul ? Se IwxmTccc^- depois de vos pores em 

liiij cila- 



156 






Sermão da qitarta T>omin^a 
eftado de penitente, ainda executo o caíligo ? Quem 



vm 



ii 



vos lembra reputação , 
ainda fazeis cafo do que 
diráõ, ou naó diráó de vos 
os homens ? Sinal he logo , 
que naó he verdadeira a 
voíTa penitencia , & que 
aquelle Teccavi nafceo na 
boca, &: naó no coraçam. 
Quem chega a eftar verda- 
deiramente penitente , 
quem chega a eílar verda- 
deiramente arrependido, 
como eftava David , nam 
lhe lembraó mais, que os 
feus peccados : Teceavi: 
naófc lhe dado quejul- 
gaó, nem do que dizem os 
homens. 

§. VI. 
121 AS razoes de- 
JTx.^^ verdade 
£ió muitas, & grandes, ou- 
vi as da minha tibieza,que 
a quem tiver mel hor efpi- 
ritolhe occorreráó outras 
mais,& maiores. O verda- 
deiro penitente, elle mef- 
mo fe açufa,& fe condena : 
que fe lhe dà logo, que di- 
gaó outros o que elle con- 
; fefla de fy ? Que importa , 
que outros levem o prc 



fe confeíía por Reo, nam 
lhe fazem aggravo as te- 
ílemunhas. Se hum ho- 
mem eílà verdadeiramen- 
te arrependido , fe conhe- 
ce vercLideira, & profun- 
da mxente fuás culpas , nun- 
ca ninguém dirá delle tan- 
to mal, que elle fenaó jul- 
gue por muito peor.E que 
fe vè julgado mais benig- 
namente do que fuás cul- 
pas merecem , antes tem 
razaó de agradecer, que de 
queixarfe. Por iílb os grá~ 
des penitentes naó fe quei- 
xavaó das injurias Julgue-, 
& diga o mudo o quequi- 
zer, que nunca poderá di- 
zer tanto mal , quanto eu 
fei decerto , que ha ei"a 
mim. 

12 2 Nenhúa coufi de- 
fejamais hum verdadeiro 
penitente, que tomar vin- 
gança em fy das injurias de 
Deos : 6c como o juizo dos 
homens fe põem da parte 
deíla vinííanca , a ntes nos 
ajuda , que nos ofícnde. 
Quem fenaó aborrece a 
fy, diz Chriílo , naó me 



gaó , quando eu mcfmo pòdcfcrviraiuim.Ohco- 

mo 




ão Advento. \^j 

mo fc aborrece a fy , & co- máos, nem bons , que cafo 



mofe aborrece de fy, hu in 
verdadeiro penitente ! E 
que fe meda a mim , que 
fejabemjou mal julgado, 
quem eu aborreço ? Se eu 
conheço verdadeiramen- 
te a deformidade de mi- 
nhas culpas 5 naó hey de 
aborrecer mais a quem as 
fez, que a quem as diz? 

123 O verdadeiro pe- 
nitente fó hua coufa eíli- 
ma,& fô hua coufa teme 
nefta vida : fó eftima o que 
pode dar graça de DeoSjSc 



ha de fazer deíle juizo o 
verdadeiro penitente , o 
qual fó hua coufa defeja j 
queheferbom -, ^íó ào, 
húa coufa lhe pefa , que he 
ter lido máo. 

124 Feche todas eílas 
razoens hua maior que to* 
das. O juizo dos homens 
por mais que vos co-ndc 
nem, pódevos impedir o 
Ceoj ou ievarvos ao Infer- 
no ? Naó. Ponde agora de 
hua parte todos os juízos 
dos homensj & da outra os 



fó teme o que a pôde tirar, voífospeccados , ^ per- 

E como o juizo dos ho- guntai-vos a vós mefmo , 

mensnaô pôde dar , nem quaes deíles deveis mais 

tirar graça de Deos, que fe temer. Os juizos^ àas ho- 

Ihe dà ao penitente do jui- mens, ainda que façaó to- 

zo dos homens ? O j uizo do o mal, que pò demjnemi 

dos homens, quando mui- podem dar Inferno, neni 

to lhe demos,poderà fazer tirar Paraifo: os peccados^ 



mal, mas naó pode fazer 
máos. Seeufou bom, por 
mais que me julguem mal 
os homens,naó me podem 
fazer máo. Seeufou máo, 
por mais que me julguem 
bem os homens , naó me 
podem fazer bom •, & co- 
mo o juizo dos homens 
naó tein poder para fazer 



ainda que acheis nelíes 
todos os falfos bens , que 
vos prometem, fó ú\qs ti- 
rão Paraifo, & daó Infer- 
no. E como o verdadeiro 
penitente eftà vendo, que 
ioosfeus peccados o po- 
dem tirar do Paiaifo, êc ie- 
vallo ao Inferno j que cafo 
ha de fazer dos juizes dos> 



.A\ 





'íí 




'1 




1 


1 





n 






158 

homens ? 
íirn, & fó dospeccados, 
porque fó por clics o pôde 
condenar Ocos. E quem 
teme, que o pôde cõdenar 
Deos,naófclIiedàj que o 
condenem os homens. 



i2f 



Sermão da quar ta dominga 
Dos peccados tes: tal hia David naquelle 
paííb dcfcalço , & choran- 
do feus peccados. QLiem 
conhece,que temoíYendi- 
do a Deos, nenhúa coufa o 
ofFende. Aílim dei prezava 
Davido juízo dos homés. 
126 DaMagdalena 
§. VII. quem o poderá explicar c5 

a ponderaçaójque merecei* 

SUppofta a ver- HQa fenhora taó principal 
dadedeíladou- enijerufaiem^taò fervida, 
trina, que poucos, & que taóeílimada ,ta6 dada à 
poucas penitentes verda- vaidade,& gaias > quem a 
deiras deve haver hoje no viíTe com o toucado def- 
mundo, onde tanto fe tra- prendido , com o veílido 
ta fó de agradar,& conten- fem concertOjpela rua fem 
tar aos homens! Vejam-no companhia, em caía do 
OS homens em David, Ôc Fariíeofem reparo , toda 
as mulheres na Magdale- fora de fy (^ ou toda dentro 
na. David, que pouco cafo em fy, porque toda era co- 
fez das injurias de Semey! raçaó naquella hora } os 
DiífeSemey a ElRcyDa- cabellos dcfcompoílos, (3 
vid em feu próprio roílo as alabaftró quebrado , os 



injurias, que fenaó pode 
raó dizer ao mais vil ho- 
mem : quizeraô remeter 
logoaelleos queacompa- 
nhavaóao Rcy, para lhe 
tirarem a lingua,&: a vida : 
&qvic fez David ? Teve 
m a ó n cl 1 es, pa ra que o d ei- 
xaílem dizer. As injurias 



olhos feitos dous rios, lan- 
çada aos pês dcChriílo, 
abraçando-os, & abraçan- 
dofecomcllcsj que diria? 
Valhame Deos, Senhora, 
que mudança hc eíla.^Naó 
vedes quem íbis ? Naó ve- 
des o que fazeis ^ Naó vc- 
dcs o que dinió os ho'"!!! és ? 



faô a muíic?. dos pcnitcn- Não ; nada vejo^quc quem 

vio 



do Adwnto. i^^ 

vio feiís peccados, naó lhe rar, os irmãos. Nos Fari- 



íicaó olhos para ver outra 
coiiHi. Naó vejo o que fou> 
porque vi o que fui ^ naó 
vejo o que faço , porque vi 
o que fazia. Jâ vi tudo o 
q havia de ver nefta vida, 
& prouvera a Deos -, que 
naó tivera vifl:o t^nto. Jà 
naó faço cafo dos homens, 
nem dos feus juízos ; digaó 
oquequizerem. 

127 Três vezes foi a 
Magdaíena julgada, & eó- 
denada dos homens. Jul- 
gou-a,Sc condenou-a o Fa- 



feos condeneme a malícia, 
nos Apoílolos condeneme 
a virtude, na irmãa conde- 
neme a meí ma natureza ; 
que a quem tem maiores 
caufas para fentir,naó lhe 
daó cuidadoeíras.QuandO' 
as dores íàó iguais,fentem- 
fe todas , quando liúa he 
maior, fufpende as outras. 
A dor dos peccados, fe hb 
verdadeira, hc a maior dor 
de todas, porque tem ma- 
iores caufas, & a quem ver- 
dadeiramente lhe doem 



Luc.7. 



Matcb. 
2(5.8. 



Lucu), 



rifeojcham andolhe pecca- feus peccados, nenhua ou- 
dora: ^uUpeccatrix efti tracoufalhe doe. Afetta 



Juigaraó-iia , & condena- 
raó-na as Apoílolos , cha- 
mandolhe eTperdiçada: Vt 
qíãdperdítiab£r.]\i\^Q\x-2y 
&condenòu-a fua irmãa, 
chamandolhe ocí®fa : Re- 
Uqtíít me folam mmiftrare. 
Tudoifto ou vio fempre a 
Magdaíena, mas nunca fe 
lhe ouvio húa palavra: 
como fe refpondèra com 
o feu íliencio: Condenem 
me embora os Farifeos, 
condenem- me os Apoíto- 
íos , condenem -me os de 
que meãos fe podia efpe- 



que ferio o coraçaó,defen- 
de de todas as fettas > por- 
queainda que achem cor- 
po>jà naó achaó fentimeii-^ 
to_: faça os tiros que qui^en 
o juizo dos hòm.ensí <iUe fej 
o coração eílà ferido áè 
Ekos, ou naó oíl endem,! 
óu naó magoaó. O amoá 
he hum fentimento , que 
faz íttíenfíveis : poriílb íe^ 
compara à morte. A mor- 
te faz infèníi vela que ma- 
ta, o amor iníèniivel a quê 
ama. Q«em trata fó de 
amar a Deos ,fó fente ha- 
vei!^ 



vcllooífendido : a tudo 
maisheinfenfivel. 

127 Exemplos tinha 
cmfymefma a Magdale- 
naj&: poderafe argiimen- 
rarafy coníigo. Que im- 
porta parecer mal aos ho- 
mens, fe eu parecer bem a 
Deos? Que importa pare- 
cer mal aos demaisj íe eu 
parecer bem a quem amo ? 
Quantas vezes nas minhas 
locuras fegui os defprezos 
deite di£lame? E fera bem, 
quefeja agora menos ani- 
niofo meu amor, & menos 
refoluto? Se eu naó repa- 
rei no que diriaó os homés 



Sermão ãa quarta dominga 



cres vezes eftava a Mig- 
dalenaaospés de Chrjíío, 
Oh que grande remédio 
íaó ospèsdehumChriílo 
para hum homem fe lhe 
naódardosjuizos dos ho- 
mens í E fe ifto faziaó os 
pès de Chrifto vivo , quã- 
tomaisospèsdehú Chri- 
fto morto, & crucificado ! 
He poíUvel, Senhor , que 
eftejaisneíla Cruz julga- 
do, &: condenado, fendo a 
mefma innocencia,6c eu 
naó fofrerei fer juIgado,8c 
condenado, fendo pecca- 
dor! Se a vós vos julgaój 
& condenaó pelos meus 
paraoffender a Deos> re- peccados, porque hei de 
pararei agora no que di- íentir eu, que me julguem, 



zem, ou no que diráó para 
obuícar? Naó reparei em 
que diffeílem, que era pec- 
cadora , & repararei em q 
digaó, que fou arrependi- 
da ? Jà que fofri, que mur- 
muraíTem o peccado , naó 
he menos, que calumniem 
a emenda? 

128 Ifto dizia o filen- 
cioda Magdalena as três 
vezes, que a condenarão 
os homens. Ehe muito de 
notar, que de todas cftas 



& me condenem pelos 
meus? Emvòs eftou ado- 
rando as injurias , & as 
afrontas 5 & em mim naó 
as hei de fofrer ? Para vos 
oíi"cndcr,6c me perder5naõ 
reparei no que diriaó os 
homensi &: para vos amar, 
ôcmefalvar, repararei no 
quediraó?Naó he ifto o 
que vós me cnílnais nefia 
Cruz. 

129 Ouvi húa coufi 

grande, cm que parece, 

que 



Exod. 



dô Advento. i^j 

que mudou de condição Quereis ir ao mudo ? Que- 

Deos. Quando Deosquiz reis aparecer entre os lio- 

caftigar o poyonodefer- mens? E não reparais no 

to, allegoulhe Moyfes o que diráó, & he certo, que 

quediriaó os Egypcios: haó de dizer de vos ? Haõ 

Nequ£fo dicãt <:j)Egyptij i dè dizeri, que fois hum Sa*-' 

^deixou ó Senhor de os màritano, & endemoni- 



Jofu 
9- 



Pftlm. 
78.10. 



caíligar. Quando Jofue te 
ve a primeira rota na terra 
de PromiíTaô , allegou a 
Deosoquc diriaó os Ca- 
naneos: ^id fades mag- 
no nomimtuo;Sc continuou 
o Senhor a favoreceJo. 
Quando o Rey no de Ifrael 



nhado : Samaritanus es tUy^^^^ g, 
& T)/emomum babes ; ha54S. " '' 
de dizer, quefoís hú blas- 
femo ; Blasphemavit 3 haó fô!^^; 
de dizer, que fois humeri- 
ganador : Sedutor tile 5 haó ^^"^^ 
de dizerjquefoishum per- *^"^^* 

^_ j ._ ... ^.^. turbador da Republica : 

eílava mais .afli£to , repre- Subvertentem gentem no- ^^^''^^'^ 
íentouDayidaDeosoqiíe firam • haó de dizer, que 

ttnàç,s padlo cóo Demó- 
nio : InBeelzebub Trincipe lucúj 
^amoniorum ejicit ^^- 'f- 
nionia 3 haó de ^áizer, que 
TOS naó podeis íalvar : Se^^^: 
ipfum non poteftfalvumfa - 

x„ ' o — ^^^^ ; haó de dizer iiíial- 

NedicdnfyO que diráó os mêteiníinitos opprobrio^ 
homens. Determina Deos contra vos : SuturabãiM^^'^^ 

oppTobrijs, MáiiHaíe díe^^^"^ 
levantar hum Arrio, que> 
ha de dizer, que naó fois- 
confuftancial ao Padr^^i 
haíède^íev^anta]:- hum MÁ 
líMieoyqueha de dizérs 
que naó fois horaemj hafe 
de levantar hum Nefto„^* 
rio-» 



diriaó as Gentes ; Ne forte 
dicant inGentibus-i^ ceííbu 
a aflição. De maneira,que 
o remédio , que tinhaó os 
Patriarcas antigos para 
alcançar dé Deos o que 
queriaó , era alíegarlhe hu 



de vira terra a remir , & 
falvar o mundo 3 6c fe alli 
feachaíle Moyfes, Jofue, 
ou David com o efpirito 
profético, que tinhaó, pa- 
rece quíe poderão íazet*^ 
Deos a mefma replica. 
Como aíFím , Sçnhor ? 



,VÍi'i 






l^t Sermão 

rio, que ha de dizer , que 
naófoisDeos; hafe de le- 
vantar hum Cal vino, que 
ha de dizer, que nãò eftais 
no Santiííimo Sacramen- 
to j haofe de levantar infi- 
nitos Hereílarcas outros, 
que haó de dizer contra 
VoíTa Divindade, 6c Hu- 
manidade infinitas blasfé- 
mias. Pois fe Deos eftava 
prevendo tudo iílo j & le 
antigamente podia tanto 
com Deos o que diriaó os 
homensi porque agora faz 
taò pouco cafo do que di- 
rão? Porque antigamente 
cncontravafe oquediràò 
dos homens com o noílo 
caftigo , agora encontra- 
vafecomo noíTo remédio: 
& quando o que diráó dos 
homens fe encontra com 
o noíTo caftigo , deixa 
Deos de caftigar pelo que 
diráó : mas quando o que 
diráó dos homens fe en- 
contra com o noílb remé- 
dio, pelo que diráó os ho- 
mens, naõ deixa Deos de 
faivar. Và por diante o ne- 
gocio da faivaçaój&digaó 
os homens o que quizeré. 
Çljriftãos , ha alguns de 



'arta^omínxà 
nós tao pufillanimes, que 
por medo do que diráó os 
homens deixamos de fa- 
zer muitas coufasjque im- 
por taó à noífa falvaçaó. 
Deos nos livre de hua co- 
vardia como efta. Faça- 
mos por noíTa falvaçaó, o 
que Deos fez pela noíla. 
Deos por me faivar a mim, 
naófez cafo dojuizo dos 
homens, &ferá bem que o 
faça eu ? Façafe tudo o que 
forneceífario à falvaçaó, 
êcdigaó os homens o que 
quizerem. Que importa 
fer bem julgado dos ho- 
mens , fe vós naó vos faU 
vais ? £ fe vos vos falvais , 
que importa fer mal jul- 
gado dos homés? Eis aqui 
comoojuizo dos homens 
fe defpreza no juizo da Pe- 
nitencia: Tradicans bap^ 
tí/mum 'Panitenti^e. 



C Mendado no 



^5^ - 

juizo da Peni- 
tencia o juizo de fy mef- 
mo,&dcfprezado o juizo 
dos homens •, refta fó por 
julgar o juizo de Dcos,quc 

CO- 



w 



BééMI 



ào Advento^. v, 145 

como temos dito ha de fair grandeza,&temerofa Ma- 



revogado nelle juízo. Os 
outros dous juízos entra- 
rão a fer julgados, & apa- 
recerão diante do tribunal 
da Penitencia. Do juízo de 
Deos naõ fei como me 
atreva a dizer outro tanto. 
Naó he o juízo de Deos 
aquelle juízo fupremo , q 
naó fó naó reconhece fu- 



geftade, que no ultimo ài% 
do mundo o fará horrível j 
& tremendo. Naó traz di- 
ante as varas , & fecures 
Romanas , iníignias da fu« 
premajuftiça, & authori- 
dadejmastraz aquellaeí^ 
pada de dous gumes : Gla- k^oci2 
díus exutrat^ue parte àcu-'^^'^'^'^^- 
tus : que ligniíicaó as duas 



perior, mas nem pôde ter penas de dano, & de fenti 

igual no Ceo, nem na ter- do, a que fó o juízo de 

ra .? Náo he o juízo de Deos>& nenhum humano, 

Deos 3 de que falíamos, pôde condenar naó fô os 

aquelle ultimo, & univer- corpos, mas também os ef- 

fal juízo, onde fem appel- pintos. Oh que authori- 

laçaó,iiem aggravo , fe dadetaó fevera í oh que 



iaó de abjíbIver,ou conde- 
nar para toda a eternidade 
aquelies, que nelle forem 



jurdiçáo taó horrenda \ oh 
que inílru m entos taó for- 
midáveis ! Se aílim faz tre- 



julgados, que haó de fer mer o juizo de Deos quá- 

todos os homens ? Pois co- do aparece a fer julgado , 

mo pode fer, que haja ou- que fera quando vier a 

trotribunaljQomundo,em julgar] 



queafentença defte juizo 
fe revogue 5 ou como pôde 
fer revogarfe > 

131 O como veremos 
logo : agora vejamos en- 
trar o juizo de Deos , & 
prefentarfe diante do tri- 
bunal da Penitencia, acõ- 



132 Mas qu e faz a PèV 
nitencia, ou que pôde fa-r 
zerpara revogar efte tao 
abíblu to,& taó indepêdenr 
te juizo > Faz quafi o mef. 
mo que para os demais. 
Para emendar o juizo de 
^y mefmo , abrenos os 



panhado de toda aquefía olhos ; para deiprezar q 



loel.2. 

IO. 



Í44 Sermão da quarfa^ominga 

juizo dos homens5tapanos ftinebit enml conclue com 

òs ouvidos: para revogar o eílas palavras : 'Ktmc ergo , 

juízo de DeoSj vokanos o dicit T>ommus y converti- 

coração. Em dando húa mini ad me in totó cor deve- 

volta o coração, eílà o jui- ftro. Vedes todos eftes ap- 

zo de Deos revogado. Fal- paratos , todos eftes rigo- 



Ibid. 1 ; 



la o Profeta Joel à letra do 
juizoíinalde Deos : à^í- 
creve o Sol,a LuajSc as Ef- 
trellas efcurecidas , & o 
Ceo,&:aterra tremendo à 
íua vifta ; Afacieejus con- 
tr emiti t terra^motifimt Ca- 
li : SoUér Luna obtenebrati 
funty& StelU retraxerunt 
fplendoremfuíim : defcreve 
os exércitos innum craveis 
de Anjos armados de ri- 
gorjSc obediência, de que 
o Senhor fahirà acompa- 
nhado como executores 



reSj todos eftes afibmbros 
de ira, de juftiça , de vin- 
gança .^ com dar húa volta 
ao coração eftà tudo aca- 
bado. Voltai o coração a 
mim,ou voltaivos a mim 
com o coração , diz Deos , 
& toda a íentença que efti- 
verfuhninada contra vos 
nefte meu juizo, ficará' re- 
vogada : Nunc ergo , dicit 
T^ominus^ convertimini ad 
me intoto corde vejiro. No^ 
t^io nunc ergo : pelo que 
agora : de maneira que a 



de fua juftiça,6c vingança : penitencia ha de fer ago 
Seminus dedit "vocemjuam ra,&o juizo ha de fer de 



antefaciem exercitus fui^ 
qitia multafunt nimiscafira 
ejusy quiafortía , érfacien- 
ttaverbumejus : defcreve 
finalmente a grandeza, & 
terribilidade daquelle te- 
merofo dia : Magnus enim 
dies Thmini , ò' terribilis 
íbiJ i^. «jalde: & perguntando que 
haverá no mundo, que o 



pois. Efta dift<:rença ha 
entre o juizo de Dcos,&: o 
juizo dcs homens: no jui- 
zo dos homens appellafe 
depois, no juizo de Deos 
appellafe :^ntcs. Nunc ergo: 
Agora, agora, Chriftáos; 
que agora he o tempo -, & 
porque agora fim , & de- 
pois naó ? Porque depois 



poffa foportar : Et qtusfu^ luò pôde haver pcniten» 

cia. 



1- '■ doAd^ventd. 145- 

Ati ficin. Se depois do dia do defmedidamente grande^ 
.'juizo pudera haver peni- que naó pode chegar à 



tencia, poderafe revogar a 
íentença do juizo de Deos: 
mas a razaó porque aqueí- 
lafentença fenaó poderá 
revogar entaó > he porque 
náó ha tribunal da Peni- 
tencia fenaó agora : Kunc 
ergo. Mas vejamos jà os 
poderes defte tribunal. 



praça, onde eflava o Paço, 
menos que ao cabo de crés 
dias. Soou a fentença nos 
ouvidos do Rey, & que 
vos parece, que faria ? De- 
cefe do tronoReal em que 
fe aílentavaó fcmpre os 
ReySy conforme o coftu- 
me daquelles tempos ; raf- 



por hum exempio> & fej a o ga a Purpura, veftefe de hu 
iiiãior, que ouve nomun- afpero cilicio ^ tira a Co- 
do-idaimç áttençaó, > roaj lança da mão o CetrOi 

cobre a cabeça de cinza: &: 
malida que vaó feguindo a 
Jonas com outro pregão, 
em q íedigãi que faça to- 
da a Cidade o que ElRey 
fazia. Ò pregaó de Deos 
hia diante , o pregaó do 
Rey hia atraz : o pregaó de 
Deos para fe executar dal- 
li a quarenta dias , p pre- 
gaó do Rey para que fe 
£xecucaíre Ipgo, & alllm fe 
fez. Veftiofe de cilicio a 
Rainha , veíliraófe de ci- 
licio as Damas, veíliraófe 
de cilicio os Cortefaós, ve- 
íliofe de cilicio todo o Po- 
vo 5 &o que fenão poderá 
crer, fe o naó differa a Ri- 
çritura, veíliraófe, & cu- 
K brifaòfe 



^. IX. 

Oi' j . •. - . - . ... . ■:.■ _ i .:\ 
^. ^f 331 CNcraô Profe- 
•il^íii-. - JCLca Jonas: :prê- 
gandò,ou apregoando pe^ 
Ja Cidade de Ninive:^'<3^- 
huc quadragmta dies , á* 
Mtnive fubvertetur: Daqui 
a quarenta dias fe ha de fo? 
verter Ninive. Era eíla; á 
fentença, que eílava dada 
no tribunal da divina juíli- 
ça pelos peccados daquel- 
Ja Cidade,&: o Profeta naò 
fazia mais , que officio de 
hum notário de Deos, que 
a publicava. Com eíle pre- 
gaó andou Jonas por toda 
a Cidade , a qual era taa 
Tom. 7.^ 



1 46 Sermão da (quarta T^ominga 

briraõfe também de cili- mento algu m. PaíTouaíllm 



cio, para horror, & aíTom- 
bro dos homens , atè os 
mefmos animais. Defta 
maneira foi paífando a Ci- 
dade todos aquelles qua- 
renta dias em continuo je- 
jum, em continua oraçaó, 
em continuas lagrimas, & 
clamores ao Ceo. Chega- 
do o ultimo dia, retirouíe 
Jonas a hum monte, para 
ver como Ninive fe fover- 
tia: Aportara elle às prayas 
de Ninive, fupponhamos, 
que às nove horas da ma- 
nháa , & quando ou vio dar 
as oito daquelle dia : Ab 
mifera Cidade, quejánaó 
tereftamaisquehúa hora 
de duração ! Jà fe vè a fuf- 
penfaóem que paíTaria o 
Profeta toda aquella hora. 
Tocãoásnovc : eis lá vai 
Ninive. Aílimfe lhe figu- 
rou a Jonas quafi deflum- 
bnido entre o lume dos 
olhos,&o da profecia;mas 
Ninive ainda Ic tinha 
mão. As fuás torres eíla- 
vaó mui direitas : os mu- 
ros eítavão muito firmes: 
&: nem a cafa que dantes 
citava para cair fez movi- 



a primeira hora ,paííbu a 
fegunda,paírou o dia todo, 
&:Jonas a benzerfe , & a 
pafmar. Queheiílo , Se- 
nhor ^ Que he da fé de vof- 
fas palavras ? Que he dá 
verdade de voíTos Profe- 
tas > Náo eftava determi- 
nado no tribunal de voílà 
divina juítiça, que Ninive 
foíTe fovertida por feus 
enormes peccados ? Não 
eftava alUnado o termo 
precifode quarenta dias, 
para a execuçaó.^Não efta- 
va notificada por voílb 
mandido efta fentenca ? 
Nãoíbueuo que apubli- 
quei.<^Pois como agora fal- 
ta tudo ifto ^ Como paíTaó 
os quarenta dias > Como 
fica a minha profecia fem 
comprimento ^ Como fica 
Ninive em pè , & a vofla 
palavra por terra? Se o dif- 
feílesjfoi porque otinheis 
decretado-, 6c fe o tinheis 
decretado, porque naó fe 
executou ? Porque o Rey, 
& Povo de Ninive foraó 
táodifcretos, que fcndo- 
Ihc notificada a fentenca 
do juízo de Deos, apocllá- 
raó 



34 



ãúAãtíentê. 147 

f áo para o tri bunal da Pe- dere excldkm > quiafejpon^ 
nitencía. E he táo fupo . ^ ^ • 



rior a jnrdiçáo do tribunal 
da Penitencia , que o que 
nojuizode Deos fe fen- 
tencea, nojuizo da Peni- 
tencia fe revoga. DiíTefu- 
perior , porque fe eíles 
dous juízos foraóiguaes, 
aílim como no juizo da 
Penitencia fe abfolve , o 
que no juizo de Dcos fe 
condena j aílím nojuizo 
de Deos íe podéra conde- 



tanets luBibus cruciando 
dívinamfententia-m prave- 
neruntfua. Os Ninivitas , 
diz S. Paulino , impedirão 
a execução do caíligOjque 
jàlhe eílava denunciado , 
porque condenandofe a 
voluntária penitêcia , pre- 
1'^eniraó a fentéça de Deos 
com a fua.De maneirajque 
por beneficio da Peniten- 
cia pode mais a fentença, 
que os Ninivitas deraó 



narjO que no juizo da Pe- contra fy, que a fentença , 



nitencía fe abfoiveíTe: mas 
he taó fuperior o juízo da 
Penitencia febre o mefmo 
juizo de Deos [ por excef- 
íb de mifericordia fiia ] 
q o que no juizo de Deos 
fc condenajno juizo da Pe 



que Deos tinha dado con- 
tra elles; ^ ivinamjent en- 
fiam pravenerunt Jua. Oh 
grande dignidade ! oh gra- 
de foberania da Penitéciaí 
No juizo íínal de Deos 
C ide notando comigo grã- 



nitencia pòdefe abfolver 5 des diferenças, & grandes 
mas o que no juizo da Pe- excellencias do juizo da 
riitenciafeabíolvòínojui- Penitencia fobre o juizo 
zo de Deos naó fe pôde de Deos. ) No juizo final 
condenar. Bemdito feja de Deos, não he licito ap- 
elle: §lui dedit fotejtatem pellar de huni attributo 

divino para outro atf ribu- 
to. Não he licito appellar 
da jufl-iça de Deos para fua 
mifericordia : no juizo da 
Penitencia , he Ikito ap- 
pellar da juíliça de Deos, 
K ij para 



talem kommibu^y^^i ^í 
- 1 3 f Tu do o qbè tenh o 
dito he literal •, mas ouça- 
mospara maior confirma- 
ção a S.Paulino : Niniijit£ 
meruerunt denunttatú eva- 



i 



II* 



^ 4^ ■ Sermão da -quarta T>07ntnga 

para alminha juííiça. No Deos huns fahcm abfol- 



juizofinaJ de Deos naó fe 
pôde appellar do Fiiho 
para o Padre, nem do Pa- 
dre para oFilho,neaido 
Padre, & áo Filho para o 
EfpiritoSãtOj emfumnia^ 
no juizo de Deos naó fe 
pode appellar de Deospa- 
ra Deos: no juizo da Pe- 
nitencia pojfTo appellar de 
Deos para mim. No juizo 
final de Deos íaô condena- 
dos os peccadores a nani 
vera Deos j no juizo da 
Penitencia faó condena 



tos, outros fahem conde- 
nados j no juizo da Z^eni- 
tencia ninguém fe conde- 
na, todos fahem abfoltos. 
No juizo final de Deo^j 
manifeílãofe os peccados; 
a todos os homens \ no jui- 
zo da Penitencia maiúfe- 
ftaófc a hum fó4i£)mem. 
Finalmente no juizo final 
de Deos, Chriílo ha de fer 
ojuiz*, no juizo da Peni- 
tencia , Chrifto he oavo- 
gado: Si quis peccaverit^ad- 
iJocatU habemtts apnd Ta- loana.; 



dos os peccadores a naô trem Jeftm Chrifium ju 

o ofFenderrque fuaveco- 7?«;^. Vede com tal avoga4 

denaçáo! No juizo final de do no tribunal da Penité- 

Deos naó aproveitão ia- cia,quedifferença haVerà. 

grimas, nem prantos ; no doavogarao revogarlCo- 

juizo da Penitencia baila mo naó fera revogado o 

húa fó lagrima para todos juizo, aonde he avogado o 

os peccados do mundo. Juiz ! aífimfe revoga o jui- 



2.1. 



No juizo finai de Deos 
não yalem interceíToens > 
no juizo da Penitêcianaó 
faó neceíla rias. No juizo 
.final de Deos condenaófe 
os peccadores pelos pec- 
cados j no juizo da Peni- 
tencia condenaófe os pec- 
cados, &■ falvaôfe os pec- 
cadores. No juizo final de 



zo de Deos no juizo da 
Penitécia : Tradicansbap- 
tifmuín panitenti/e. E te- 
mos o juizo de Deos revo- 
gado,o juizo dos homens 
deíj>rezado , &: o juizo de 
fy mefmo emendado. 



5.x; 



^ 






eílãoin Ditos tem chega- 
do i para os que eíláo mor- 
rendo ckega^ para os que 
élláo YÍ¥0s' V èm chegado ) 
A huíis checará mais íedoi 
a outros n\ :: is tarde, mas a 
todoj»inuito brevemente: 
Efta he a cófideraçãamais 
nitenciai& fuppoílo que poderjofa de todas , para- 
elles faô taó grandes , que rios mover' à penitencia 



í. X. 

iOliíi o:íí> ,. ?Àcjq 

fuppofto que 
todos os m2 ! ^^ , 6c perigos 
que temos viíi^ neílesjui 
zos tem o remédio lui 



^.^re-f 



abração todos os bens da 
vida, & todos os da eter- 
nidade i que refta a quem 
tem fé, ^ a quem tem ef- 
perança , fenaó tratar de 
fezer penitencii ? y^gite 
píenitétiam approp^nqu i'va\ 
mim Regnmn dekrvin : fa-i 



Zêi peniten c i i, p.orqr e h'iá 
chegado o ReyrK^-uí) Ceíi^v 
Ha mil 5c fciíi. "'>.ros 
nos, que o Brj„.r: ■ ^.i8b 
eftas palavras , 5r nó^ cita-^ 
mos dizêdo todos os dias : 
Adveniat Regmim tuum. 
Pois fe o Rcyno jà entaó 
era chegado, como pedi- 
mos nós ainda agora, que 



Façaníos penitêcía , C hri- 
ftáos, não nos ache a mor- 
te impenitentes. Nenhum 
Chriftão ha, que não digi» 
que ha àc fazer peniten- 
cia , m?.3 nenhum a queií 
co.acç?i ' jgo, todos a dei-» 
ySxo pai. o fím da vida: 
"Ei'£dií.:KS baptífmum p^r 
.... iici:ntíi€m rjmJJIonem pAC". 
agi: ,íç'S^ír]?/35%:íiÊb£atóíla prèás 
givabautifmo de penité- 
€Í:- para remiíTaó dos pee- 
cados. Se queremos remií- 
feòdepeccados, tomemos 
a penitencia como bautiA 
mo. Todos queremos a 
penitencia como Extre- 



venha?0 Reyno dos Ceos ma-unção, là para o fím da 
emtodos os tempos, teni vida : naq fe .ha de tomar 



tit:s eftados : hum em que 
tem chegado, outro em q 
chega , outro em que vem, 
chegando. Para os que 
Tom./. 



íènaócómo bautirmojque 
náo he licito dilatallo a 
quem tem fé. Se tendes fé 
como naõ fazeis peniten- 
K iij cia? 



i 



V7^'1 



Tf O Sermão da quarta T>omhiga 

cia?E fe tendes propofico Que motivos de vos con- 



de a fazer, 6c de vos con- 
verter a Deos, para quan- 
do a dilatais ? St aliquando 
curnon modò^ dizia S. Ago- 
llinho. Se me hey de con- 
verter em alg4jm tempo, 



verter haveis de ter de- 
pois , que agora naó te- 
nhais ?Se depois haveis de 
fazer verdadeira peniten- 
cia, a qual naó pode fer 
verdadeira, fem verdadei- 



eíTe tempo porque náo fe- ra contriçãojha-vos de pê- 
ra hojer Efta pergunta naó far de ter oiFendido a Deos 



temrepoíia. Nem o mef- 
mo Santo Agoftinho lha 
achou j nem os Ariíloteles, 
nem os Platoens, nem os 
Anjos do CeOíneniomef- 
mo Demónio do Inferno 
lha pode achar jamais pa- 
ra nos enganar. 
; 137 Chriíláos da mi- 
fíhà alma, fobre t3ntos jui- 
zos>bem he que venhamos 
a contaSv Se me ouve algu, 
que efteja refoluto de nam 
fe converter jà mais 5 naó 
fal:ocomeilej mas fe ten- 
des propoíitos de vos con- 



por fer elle quem he ; pois 
Deos hoje não he o meí^ 
mo, que ha de fer depois? 
Náo he a mefma Magefta- 
de, náo he a mefma gran- 
deza^ náo he a mefraa om- 
nipotência / Náo he táo 
bom, não he táo amável, 
como ha de fer entáo ? 
Pois fe entáo o haveis de 
amar, porque o náo amais 
agora? De maneirajpecca- 
dorjque Deos então ha de 
fer digno de ícr amado fo- 
bre todas as coufas,& ago- 
ra he digno de fer otFendi- 



verter.\S> ãltquarJo cur non do em todas / Si ah quando 

modo ? Se tendes propofi- cur non modo ? Mais : fc de- 

tos,& dizeis , que vos ha- pois vos haveis de arrepê- 

veis de converter depois, der bem, & verdadeira- 

porqueonaó fazeis agora.^ mente , he força que vos 

Que motivos haveis de ter pczedetodoo coração de 

depois, que agora náo te- vos não haveres arrcpen- 

nhais.^ Apertemos bem ef- dido agora : pois que locu- 

te ponto : cílai ' ' ' ' 



comigo. 



ra hc eílares agora fazédo 
ror 



por voíTo gofto , & por eííaidadeimasfcao Infer- 

voíTa vótade aquillo mef- no fe vai de, fete annos, 

mo, que , nefta hora eílais porque feha de guardar a 

propondo de vos pefar de- emenda para os íecenta? 



pois 



de todo coração ? Ou Pois fe as meímas razoes, 

entaó vos ha de pefar > ou & os mefmos motivos,que 

naó : fe vos ha depefar, havemo» de ter depois, te- 

condenais-vosj& fe vos ha mos agora, fe entaò nam 

de pefar, 6c propondes de havemos de ter neníium^ 

vos pefar, porque o fazeis? coufa mais> que agora, fal- 

Se vos ha de pefar depois vò mais peccados q cho- 

do prefente , porque vos rar^Sc mais culpas de que 

naó pefa agora do paífado? nos arrepender :Sí aliqu^ 

Si ali quando ciir non modo ? do cur non modo 7 



Mais : fe os motivos dç 
voíTo arrependimento naò 
haó de fer contrição per- 
feita, nem amor de Deos 
fobre codas as coufas,fenaó 
temor das penas do Infer 



do cur non modo ? 

138 Mas atègora hi- 
mos argumentando en^ 
húa fuppoíiçaó,que eu naò 
quero conceder daqui por 
diante , porque vos quero 
defenganar de todo.Quem 



no fomente: Si aliquando á\z\ Si aliqttando cur non 

cur non modo ? Se por tei- modo : fe vos haveis decó- 

mor do Inferno voshaveis verter depois, porque vos 

de arrepender entaò', por- naò converteis agoraj fup- 

quevos naó arrependeis põem que fe vos naó con- 

agora por temor do Infer- verteres agora , que vos 

no ? Por ventura foftes jà haveis de cóverter depois, 

ao Infernojôc perguntares Eu naó quero admitir tal 

pela idade dos que là eílaó fuppofiçaó 5 porque quero 

ardendo ? Se no Inferno rnoftrar o contrario. G hri- 



naó ardem fenaó os ho- 
mens defetenta, & de oi^ 
tenta annos , guardai em- 
t)oraa volla emenda para 



ftáosj fe vos não converte- 
res agora , ordinariamente 
faIlando,naó vos haveis de 
converter depois. Deme 
K iiii li- 






i': 



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^*^ . Serniâõ da quarta T)ommgà 

licenças. Agoftinho para defefperara ningiiem,né 

trocara fua pergunta , & quero dizer, que a falvacaó 

apertar mais a difficulda- naó he poílivel em todo 

de. S. Agoílmho diz : Si tempo : o que fô vos quero 

atiquandocnrnonmodÒ-.Ãt perruadir,he oque dizem 

nos havemos de conver- todas as Efcrituras, &: to- 

ter depois,porque naÓ nos dos os S^intos. Que os que 

convertemos agora ? Eu deixão a penitencia para a 

digo : Si non modo cur ali" hora da morte , ou para o 

quando / Senão nos cóver- fím da vida, tem muito ar- 

temos agora , porque cui- rifcada fua falvacaÓ, por- 

damos, que nos havemos que raramente fe falváo: 

de converter depois ? As Si non modo cur aliquando? 

razoens, que haveis de ter Senaó vos converteis ago- 

depois para vos converter, ra, que tendes vida , como 

todas eífas, & muito maio^ vos haveis de converter 

'retendes agora : pois fe depois, quando pode fer, 

■eítasi-;?âzoens naÓ baftaó que a não tenhais? Dizeis, 

♦pafa-v<)S converter agora: que vos não convertei^ 

comohaõ de bailar huma- agora, mas que vos haveis 

namentepara vos conver- de converter depois- acíe 

terdepois? Aforra defta o depois fora o;ora?Sem-or- 

razaó fez enforcar ajudas, reres no eftado prcfcntc, 

-Fez/udas confígo eíte dif- fe naô chegares a eíTe de- 

-<:urro : maiores miotivos do pois, que ha de fer de vós ^ 

que eu tive para me con- Quantos amanhecerão,.^ 

•vercerínão faó poíTiveis, naó anoitecerão IQiiantos 

a^orq tive o meímo Chn- fedeitáraóà noite, & nam 

i-l^/f^"^ P^^ : pois fe JelevãtáraÕpekmenhãa! 

Chriítoameuspèsnaófoi Qiiantospoítos i meíli OjS 

-baftante motivo para me - afogou hum bocado! Quá- 

converter, naó me íica que tos indo por húa rua os fe- 

efpcrar , venha hiim laço. pulrou húa ruína ! A quã- 

•• Chriíláosj cu> nani quero .. tos levou húa baila naó ef- 

t ^* *' perada! 




do Advento. if^ 

perada! Quintos endou- deixar com o juizOjSc com 



ciecéraó de repente ! A 
quantos veio a febre junta 
como dilírio ! A quantos 
hum efpafmo, a quantos 
liua apoplexia ; a quantos 
infinitos accidêtes outros, 



a liberdade , que pede a 
matéria de maior impor- 
tância: quando jà aspotê- 
ciasefbaráófórade feu lu- 
garj&vós mefmo não ef- 
tareis em vós , como cui- 



que ou tiraó o ufoda ra- dais, que vos podereis có 
záo,oua vida! Todosef- verter entaó? 
tescuidavaò, que haviam 



de morrer húa morte ordi- 
nária 5 como vos cuidais : 
& quem vos deo a vòs fe- 
guro, de que vos naó ha de 
í u ceder o mefmo ? Si . nan 
modo ciir aliquído ? Se ago- 
ra que eftais faòs c5 o ufo 
livre de voíTos fentidos^Sc 
potencias,vosnaó conver- 
teis, como cuidais que vos 
haveis de converter na 
hora da morte, cercado de 
tantas anguftias, & de tan- 
tos ellior vos, a mulher .V os 
filhos, os criados, o íeíla- 
mento, as dividas, os acre- 
dores, o Confeíror50s Me- 
dicQS>afebre, as dores, os 
remédios, a vidapaílada, 
a conta quaíi prefente. 
Quando todas eílas couías 
juntas , & cada huà delias 
baftaráo pa ra perturbar, & 
,pafmar húa alma j & naó a 



verter então; 

139 Mas eu vos dou 
de barato ávida, & aíau- 
de, &o vigor das poten- 
cias,&:dosfentidos 5 mais 
ha que ifto. Para hum ho- 
mem fe converter, naó ba- 
ila fó vida, &raude, &jui- 
zo, mas he principalmen- 
te neceíTaria a graça de 
Deos. Voisfinonmodò cur 
aliqufindo ? Se agora que 
tendes oítendido menos a 
Deos , Deos vos naó dà 
graça eíiicaz para vos con- 
verteres, que fera quando 
;o tiverdes oífendido mais? 
Parecevos que he boa di- 
ligencia multiplicar as of- 
fenfas de Deos para gran- 
gearagraça de Deos ? Se 
ides contmuando aíHm, 
não ha duvida, que depois 
haveis de fer m u i to peor , 
ainda do que fois agora: 
pois fe agora que fois me- 
Ihor^ 






If 






Jfíil 



i 



'si. ^; 



1 5'4'» SerMao da quarta dominga 
lhor,ou menos máo , vos para vencer eíles inimi-- 
naó converteisjcomo o ha- gos fomos taó loucos, que 
veis de fazer depois, quá- efperamos,queelles fe fa- 
do fordes peor ? Os pecca- ção Gigantes ? Se agora , 
dos quanto mais cótinua- queospeccados eftáome 
dos, tanto mais endurece , nos robnílos , & crecidos , 
&obítináo ao peccador: & a alma tem ainda algum 
^cÀsfinonmodò cur aliquâ* vigor , os não podemos 
do ? Se agora quando o derribar, éc vencer 5 que 
voííb coração naòeflàain- fera quando os peccados 
da taó endurecido , & tao eíliverem Gigantes, & a 
obftinado, na6 ha prega- triílealma taó envelheci- 
çoens, nem infpiraçoens , da nelles , & táo enfraque • 
nem exemplos , nem mor- cida, que fenáo poíTa mo- 



tes repentinas, & defaftra- 
das , que vos abrendem, 
que fera quando eítiver 
feito de mármore j & de 
diamante ? Os peccados 
com a continuaçaó,& com 
os hábitos tomão cada vez 
mais forças, &: fazem fe ca- 
da dia mais robuílos , &a 
alma pelo contrario com o 
coílumemais fraca: pois/i 
non ínodo ciir ali quando ? 



ver? Finalmente, Chri- 
ílãos, naó vamos mais lon-* 
ge: fe Deos neíla mefma 
hora vos eílà chamando,& 
vos eílà dando golpes ao 
coraçáo , & vòs não lhe 
quereis abrir) nem o que- 
reis ouvir-, como efperais 
que Deos vos chame de- 
pois, ou que vos ouça quá^ 
do o chamares 5 ou que o 
poflais chamar como con- 
vém ? Si non modo cur ali- 



^r 1 diz a Efcritura : Beatus qui 

136.9. occidtt párvulos j lios ad pe^ quando ! O mefmo Deos 

tram : bemaventurado o por fuás palavras quero 

que quebra a cabeça a feus que vos dcfcngane deíla 

peccados, quando peque- váa efperança, cm que vos 

nos.Eí/z/jdizS.Bachiario, confiais,6c vos precipitais 

cxpeãas doncc inimicus ao inferno : ouvi a Deos 

tms gigas ejjlciatur ? h nòs no Capitulo primeiro dos 

Pro- 




Tro;. 



do Advento. i ff 

Provérbios : Vocavi^ ér re- que o peccador o cbaniar 
nuiftis j chamei vos, fie não de todofeu coração , o ha 
^xcoáiíkcs'. Extendi manum de ouvir: mas não tepro- 
Mí'/?;»,^'"?^^?^////^^/// afpi- metido, que todas as ve- 
ceret^cí\.cnái a minha mão, zes, que o peccador qui- 



^não ouve quem fizeíTe 

Ib:d 2 c, ^ ^~T^ r' -n ■ *-> 

c2iiorDeJpexijtis omneco- 
Jilhimmeum , deíprezaíies 
todos os meus confelhos: 
& que fe feguirà daqui? 
Jbici.25. Bgoquoque in inter itu ve- 
Br o riâeboy ú/uhfannabo: 
eu tambem^diz Deosjquá- 
do vier a Jiora de voíía 
morte zombarei 5 & nam 
farei çaío de vòs, & allim 
como agora euvos cha- 
mo, & vòs não me ouvis, 
aíllm então eu não ouvirei 
ainda^q vòs me chameis: 
Tanc invocabunt me ^ ò" 
7ion exaudiam. C h riftãos, 
nos fiamonos em q Deos 
tem prqmetido,que todas 
as vezes , que o peccador 
o chamar de todo o cora- 
ção, o ha de ouvir : & efta 
promêíTa anda muito mal 
entendida entre os homes. 
He neceííario advertir o 
que Deos tem prometido 
nelJa5&oque não té pro- 
metido. Deos tem prome- 



zer, o ha de chamar de to- 
do o feu coração.Yai mui- 
todehuacoufaa outra. Se 
chamardes a Deos de to- 
do o coração , ha-vos de 
ouvir Deos: mas fe vòs a^^ 
gora não ouvirdes a Deos j 
depois não o haveis de 
chamar de todo o coração. 
O chamar de todo o cora- 
ção não depende fó de noí^ 
íò alvedrio, depende de 
noíTo alvedrio, & mais da 
graça de Deos: & tê Deos 
decretado conforme os 
juízos altiílimos defua ju- 
lliça, que o não poíTa cha- 
mar de coração na morte, 
quem lhe não quiz dar o 
coração na vida. Que faz 
Deos em toda a vida , fe- 
não eílarnos pedindo o co- Prov: 
ração: Filipr£be miht cor^^-^^' 
tuum\ 6c como vòs agora 
negais a Deos o coraçam ^ 
que vos pede, aílim Deos 
então vos negará juíliíli- 
mamente , que lhe peçais 



tidoj que todas as vexes ^ de todo o coração. B&qs 






I <;6 Sermão dn quarta 'Dominga 

agora bufcanos, & não nos pois. Sevos haveis de có- 



acha 5 então bufca remos 
nósaDeos, & nãoo acha- 
remos. O mefmo Deos o 
prometeo, & ameaçou af- 
íim : Sluícritis^ò' no?i Í7ive- 
nietisme^ érinpeccato ve- 
firomoriemini : bufcarme- 
heis,& não me achareis, &: 
morrereis em voílb pecca- 
do. Não diz menos que 
ifto. 

140 Ora,Chrifl:ãos,pe- 
las Chagas de Chrifto, & 
pelo que deveis a voíTas 
•ahiias, que não queirais, 
que vos aconteça táo gra- 
de infeliciciade. Defenda- 
naivos , 6c feja eíle o ulti- 
mo defengano 5 que fevos 
não converteis defde lo- 
go, & continuais pelo ca- 
minho que ides , vos ha- 
veis de perder,&:condenar 
fem remédio. O remédio 
he : Baptifmnmpr^ntentia'' 
húa contrição de coraçam 
muito verdadeira , huma 
couíifFaó mui inteira , 6c 
mui apoílada com iirme 
reíòluçáodc não oífendcr 
mais a Deos. Emíim fazei 
agora aqui 11 o, que dizeis, 
que haveis de fazer dc- 



verter no fim da vida, ima- 
ginai , que chegou ]^ eíTç 
fim , que naó he imagina- 
rão. MasqueimportaySer 
nhor, que eu o diga, fe a 
volTa graça não ajuda a ti- 
bieza de minhas palavras ? 
Soccorreinos,Sen'nor,com 
o auxilio efficaZ deíles 
olhos de mifericordia, & 
piedade^allumiai eíics en- 
tendimentos , acendei cA 
tas vontades , abrazai , & 
abrandai eíles endureci^ 
dos coraçoens , para que 
vosnãoíejão ingratos, & 
reaproveitem nelles o« 
merecimentos infinitos de 
yoíTa encarjiaçáo : Ter ad- 
*uentnmtnumy Senhor,pelo 
amor com que vieíles ao 
mundo a falvar as almas, 
que íalveis hoje no íTas al- 
mas: ao menoijhúa alma. 
Senhor, à honra de vpílb 
fantiílimo nafcimento: Per 
nativitatcm tiiam : pelo 
amor,& pela mifericordia 
c6 q nacelics em hú Preíc- 
pio,por aquelles defempa- 
ros, poraquclle frio, por 
aquellas palhinlias , por 
aqucllas lagiimas , por 
aquella 



do Advento. \^y, 

aquella ellremada pobre- fas almas. Convertei os 

za, & por aquelle aíFeíto fufpirosem infpiraçoens ,1; 

ardentilTiinocom que tu- pedi a voíTo querido EÇ. 

do ifto padeceftes por pofo,o EfpiritoSantOjtrcfc 

amor de nòs. Virgem San- paíTe noíTos coraçoens ca- 

tiífima, hoje heo dia dos hum rayo efficaz de fua 

encêdidiílimos defejos de luz, para que o amemos.^' 

voíTa Expeítaçaó , parti para que ofirvamoSj&j^^-j 

com nofco, Senhora, def- ra que mereçamos a fua 

íesaffeíbos, para que naça graça^ & por meio delia a 

também Chrifto em nof- gloria. 



-lO 3 




n?^yi 



í:iíB-í3 






SEil4 



TS9 



MàMà •■ààMàààààMàêÈm' 

•m^i^-^^-^^ -h^ ■'t^. ■i^-'(^-i^^^ .f^ .&í>? -i^ .&í>3 .í<^. •£<í^ •£<?>' •sííTj^ .^ ■ 

•i^-^^'e^ -fí^Tíc^ ^>>Ç<-^-?^ -S^ -S^ -Ç*^ -Ç^ -^c^-^^ .&$>? .Wf^ .Wô3 .ÇoV: .r-r.-. ma 

f f f ^%"4í^f Wf =f f tf f f ^f i v# 

Sa S.:M a M^ 

^.fiiieb 0A9fnic DA 

CONCEIÇAM 

IMMACULADA DA VIRGEM MARIA SN. 



Maria,eíe qua natus eft Jefus. Matth. 




§. V 

Orno em todas 
as matérias có- 
troverfas dizer 
o jà dito he fu- 
perfluo 5 aíllm na de que 
hoje fou obrigado a fallar, 
dizer o que aindi naóef- 
teja dito, he difficultofo. 
Entre os myltcrios, todos 
foberanos, de Maria Mãy 
de Deos , o que hoie cele- 
bra a Igreja, & todos dcfe- 
jaò" ouvir cítabclccidocó 



algua novidade , he o de 
fua Conceição im macula- 
da. Mas todas aquellasef- 
tradas, por onde fe pôde 
caminhar fegurr.mence,ou 
ao templo defta adoração, 
ou ao callello deíla dcícn- 
fli, elláo taó batidas, & de- 
batidas,que como bem ái^ 
zia ha muitos annos hú dos 
maiores Oradores de HeA 
panha , ninguém podepòr 
opc, fenaó íbbre pegada 
alhea. Boa fatisfiiçaò para 
a defculpa, mas muito def- 
confo- 



ãa Virgem Marta S. N. i f 9 

confolada para o defcjo. neca. Muito fízeraõ os 

Defta mefma fe valeo Te- que vieraó antes de nós» 

rencio, aquelle taò ceie- masnaóperíizeraõ. Entre 

bradoComicOjO quaipe- ofazer , & o perfazer ha 

dia perdaó ao theatro Ro- grandes inter vallos : Mui- 

manodelhereprefentar o tum autem reftat operis^ 

que jà tinha ouvido, &al- multumquereftabit. AíBm 

legava em feu abono , que como elles acrecentáraó 



o mefmo tinhaó feito os 
velhos, & aíTim o faziaô os 
modernos; 

Mullum efijãtn diBu^quod 
non díãumfitprms. 

^areaquum eft vos cog" 
nofcere-i ò" ignofcere : 



fobre o que tinhaó dito os 
mais antigos-, aííim nós po- 
demos acreccntar^ & deC- 
cobrir de novo o que elies 
naóaçháraó , como tam- 
bém fobre nós os que de- 
pois vierem. lílo efcreveo 
animofamente o maior gí- 



Sluod weteres faãitarunt , piri to dos E ftoicos . E nem 



Séneca 



ficfaciuntnovi 

-^^E fe Hfo #tifâváría c^L 
í)eça do mundo ha mais 
de mil annoSí cjue fera ho- 
je entrenós, onde não he 
^áo fácil inventar iiovos 
argumentos, tíomo novos 
trajos? 

142 Eu porém naó me 
acabo de fogeitar a efte di- 
-^amej porque ainda que 
'^os antigos bebéraó pri- 
meiro nas fontes, nem por 
iílb as efgotáraô : Multum 
egerunt qiii ante nosfueruty 
fednonj^^eregenmt y diz Se- 



a mim me metejmedo di- 
zer Salamaó, que naó ha 
coufa nova debaixo do 
Sol : Nihilfub Sole novurn-, ecI. n 
porque a matéria de que i°i 
hoje hei de tratar, naó he 
de debaixo do Sol , íènaó 
do mefmo Sol , & acima 
delle. 

143 Duvidofo pois 
entre o que tem de verda- 
deiro húa deftas {GniGn- 
ças , &oqueoppoem de 
diííicultofo a outra 5 o me- 
yo que determino, 8c devo 
tomar, he o que eníinou o 
Meftre divino ,, em que 
am- 






'4 

A 



I 



i<^o Sermão daConmçao mníaculada 

ambas fe concilião, & fe ria da Conceição imma- 

Matth. concordaó : Ideo omnis culada feja mais facii de 

«i f z. y^;.^^^ doãusfimilíseH Ta- prometer , q de defempc- 

trifamilíãs , qui proferi de nharj comecemos brevif- 

thefaurofuonova^&vctera'. íimamente pelas fuppofi- 

PoriíTotodoo eftudiofo çoeiís. Supponho como 
douto nas Efcrituras hc 



femelhante Çáiz Chrifto} 
aoPaydeFamilias rico, o 
qual tira do feu thefouro o 
iiovoi&maiso velho. Af- 
lim ofareieuhoje,pofto 
que reconheço a minha 
Thien. pobreza ; Ego vir videns 
fmpertatem meam. Dos 
thefouros da Theologia, 
& da Efcritura fupporei 
na matéria prefente o ve- 
llio,& verei fe poíTo dizer 
o novo. A Virgem imma- 
culada, cuja graça fempre 



i » 



certas três coufas geral- 
mente recebidas , cada 
qual porém dentro do feu 
grão de certeza ; a primei- 
ra cientifica , a fegunda 
mais que provável , a ter- 
ceira expreíTamente de fç. 
A primeira, 6c cientifica 
he, que ha dous modos de 
remir, ou de redempçaô > 
húaque tarda, 6c remedea 
o cativeiro > outra que Te 
anticipa , ^ preferva del- 
le. A fegunda , 6c taó pro-- 
vaveljquejà fe naõ pode 



foi antiga,6cíempre nova, afiirmarem publico o co- 
me afllíla com a fua. trario , he,que pela redép- 
Ave Maria, çaó que remedea, rcmio 
Chrífto a todo o género 
§' II- humano,5c pela que fe an- 
ticipa, 6c preferva , remio 
a fua fantiífima Mãy. A 
terceira, ^ expreíFamente 
de fé, he,que o preço de 
^++ P Rometi fup- húa, ^ outra redenipção 
1 por o velho foi o merecimento, & va- 
para dizer o novo. Epofto lor infinito do Tangue do 
que efta propoíta na mate- Filho de^ Deos oHcrccido, 

6cderra- 



Maria^de efua natas eft 
lefusM2Xx}sx.\,\6. 



da Virgem Maria S.N. i6i 

& derramado por todos, lho da Virgem Maria em 

Lfte fangLie pois, & o mo- quanto Jefu, & em quanta 

do com que Chriftoo der- Redemptor,em obrequio, 

ramou íingularmentepor & beneficio íingular da 

fua Máy, com muitoíi pri- mefma Senhora deo o fan^ 

mores de redempçaò atè- guCjque de Tuas puriíHmas 

gora naó ponderados, fera entranhas tinha recebido : 

a novidade, que para ma- de qua natits íy^jfejaoprir 

iorgIoriadaMáy , & do meiro,&: maísgeraI,como 



Filho defejo provar. A tu- 
do me daó fundamento 
as palavras do Evangelho^ 
que tomei por Thema: 
Maria^ de qua iiatus eft le- 
fus. Em Maria temos a 
Remida>& prefervadaino 



fundamento de todos, fer 
a mefma Senhora prefer- 
vada do cativeiro do pec 
cado de Adam por valor,' 
& virtude do mefmo fan-í. 
gue. 
\â^6 



Mandando Deos 



nome dejefu,que quer di- aMoyfes, que dos defer-* 
^erRcdemptor, temos a tosdeMadian onde vivia 
redempçaò: & nas duas foíTe ao Egyptorefgatar, o 
palavras, de qua natus eft , feu Povo, que là eílava ca- 
temos o preço, que foi o tivo, levou Moy fes em fua 
íànguci porque encarnan» companhia a Sephora fua 
do, & nafcendo Jefu de Efpofa. E foi eíla acçaó 
Mariajdella o recebeo pa- do feu Enviado táo eílra- 
ra o dar univerfalmente nhada ,& abominada do 



por nos , & muito particu- 
larmétepela mefma Máy. 



í. ni. 



14.5- 



ENtrando pois 
nas confidera- 
çoens,& modos particula- 
res com que o bemdito Fi- 
Tom.7. 



mefmo Dcos, que antes de 
chegarão Egypto,lhe tor- 
nou a aparecer taó indig- 
nado contra elle, que que- 
ria naó mcnosjquetirarjhe 
a vida : Cumque effet in iti- 
vere^in di-verforio , occtirrit 
ei'Dominus^ & njokbãt oc~ 
ciàere eum, Pa r e mos, & r e- 
L paremos 



<od 4." 



-4 



i 



■■■■■4' 



; 









■íi. 



i^i SermaÕ da Conceição immaculada 

paremosaquicomS.Ago- conformarcom o queho- 



ítinho, Theodoreco, Eu- 
febioCefarienfe, ErniíTe- 
nO;,& outrosj os quaes co- 
lhem do mefmo Texto , 
queeíla,& naó outra foi a 
caufadehúa taó notável, 
& impenfada demoftra 



je pregamos , fepor ven- 
tura ha ainda algum. Se 
Deos quiz matar a Moy- 
fes^porque naó fofreo^que 
ellemeteíTe no cativeiro 
do Egypto com os outros 
cativos a Efpofa que era 



çaó. Pois, Senhor, a Moy^ de Moyfes ;" fe a Efpofa 

ícs, a quem acabais de ele- foíTe do mefmo Deos , co- 

ger por Redemptor do ca- mo o fofreria ? Sendo pois 

tiveirodovoíToPovOjtaò verdadeiramente Efpofa 

de repente quereis privar, fua a Virgem Maria , co- 

naófódoofficio,fenaôda mo fofreri aos quelha 

vida ?Taô grande culpa , querem cativar , & meter 

& taó malfofrida de vòs , com os demais no mefma 

foi querer levarfua Efpo- cativeiro > Mas advertido 

faconfigo? Sim. Porque ifto depaíTagem , vamos 

quandoeumandoa Moy- por diante com a hiíloria 

fes,que và libertar aos que ao noíTo ponto, 

cftaó cativos no Egypto > 14,7 Poftos Moyfes,& 

que queira ellc meter no Sephora em termos tam 

mefmo cativeiro a fua Ef- apertados,& perigofos co- 

pofa , que taó livre eflava mo vimos: eile debaixo da 

delle, quanto vai do Egyp- efpada de Deos condena- 

toaMadianjnio fofroeu do à morte, & ella cami- 



tal deslumbramento,&: tal 
erro em hum homem, que 
fiz Redemptor univerfal 
do meu Povo , & por iíTo 



nhando para o Egypto, 
onde todos eraó cativos j 
que fucedeo > Levavaó 
ambos hum filhinho cort- 



reprefentador de meu Fi- íigo, ao qual naquelle efta- 
Iho. Reparem neílejuizo do circuncidou a Máy,di- 
de Deos os que interior- zcndoaoPay, qelieeraa 
mente fe náo acabáo de caufa de lhe derramar o sá- 

,gue: 



da Vtrgm 
Eíoa.4 gue : Sponfus fanguinum tu 
mihi es:&cno mefmo pon- 
to, aplacado Deos,a Moy- 
les lhe foi perdoada a cul- 
pa,& Sephora ficou livre 
deiraoEgypto ) aparcan- 
ideii^*^* dofedelle: Etdimtfit mm. 
Sephora Quem íe naó admira iiefte 
iraTy- caíò do modo taõ fácil , 6c 
^^- táo breve com que dous 
nòs taó fortemente aper* 
cados fe defatáraó, & doua 
perigos taó grandes fe re^ 
Ibl véraó ? De fortejque em 
fe derramado o fangue do 
filho, o Pay ficou abfolto 
da culpa,& a Máy livre do 
cativeiro ? Com razão dif- 
fe S. Paulo,que tudo o que 
naquelle tempo fucedia, 
craó figuras, & húa como 
comedia do que depois 
havia defer: Omnia in figu- 
ra contingebantillis. O fi- 
lho innocête era figura de 
Chrifto : o Pay era figura 
de Adaój de quem tomou 
a natureza: a Máy era figu^ 
rada Virgem Maria, de 
quemnafceo, E tanto que 
o fangue do filho fe derra- 
mou, o Pay ficou livre da 
culpa,pela qual eftava có- 
denadoà morte :& a Máy 



f.Cor, 
10.11. 



Maria S.N. • i<>j 

ficou livre do cativeiro pa- 
ra onde a levava o mefmo 
Pay. Pôde haver repre- 
fentaçâo por todas fuás 
circunftancias mais pró- 
pria ? Mas ainda faltaõ por 
advertir duas para maior 
gala do myfterio. A pri- 
meira, que a Máy foi livre 
do cativeiro não depois de 
ir ao Egypto, & eftar cati- 
va, fenaò antes, & preíer* 
vada, para que o naó fofi^e* 
A fegunda , que o mefmo 
cativeiro do Egypto na* 
quella occafiaó jà eftava 
acabando,& havia de du- 
rar muito pouco: mas co- 
mo o filho de Sephora re* 
prefentava o Filho de Ma- 
ria,naó permitio o feu fan* 
gue, que fua Máy eftivef- 
fe cativa, nem por hum fó 
inftante. 

14.8 Parece que de- 
pois de tal figura naó pôde 
haver prova real , que a 
iguale : mas íerà tanto ma- 
ior, 8c melhor, quanto vai 
daluzàfombra. Quando 
o mefmo Chrifto na ulti- 
ma Cea confagrou o feu 
preciofillimo fangue no 
Caliz, foi com eftas pala- 
Lij yra^: 



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fá! 



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11 






2. Cor. 



'i(>4, Sermão daConceiç ao immacíilada 

vr^svUicefl Calixfangui' qui eílà a diíferença. O 



w/J" met, quipro vobis , eè^ 
fro multis ejfimdetíir ; Efte 
he o Caliz de meu fanguc, 
o qual fe derramará por 
vósj&por muitos. Terrí- 
vel palavra foi efl:a ultima! 
O fangue de Chrifto he de 



fanguede Chriílo abfolu- 
tamcntederramoufe nim 
fó por muitos, fenam por 
todos : mas em remiíTao de 
peccados ^ naó fe derra- 
mou por todos, fenam por 
muitos ; porque do nume- 



fé, que fe derramou por ro dos todos foi exceptua- 
todos, porque por todos daa Máy,que lhe dea o 
morreo, de que temos có- mefmofangue. Portodos 



tra o Herege moderno o 
texto exprelfo de S.Paulo: 
Tro omnibiis morttius eft 
Chriftus. Pois feomefmo 
Chriílo havia de derra- 
mar, &: derramou o fangue 
por todos,porque naó diz, 
Eíte he o Caliz do meu 
fangue, o qual fe derrama- 
ra por vos, & por todos, fe- 
rjaóporvòs, & por mui- 
toSipro vobis^&pro multis> 
Lede as palavras feguin- 
t^St <Sc vereis quam admi- 
ravelméte refolvem a du- 
vida. Quipro vobisy& pro 
multis effiindetur in remij- 
fanem peccatoru : Será der- 
ramado , diz o Senhor , o 
meu fingue por vòs,& por 
muitos: mas como ^ inre- 
mi/Ji 0)107)2 pí-ccatonun , em 
rcmiílaó de peccados. A- 



os mais foi derramado o 
fangue de Chriílo, & em 
remiíTaó de peccados : fò 
por fua Máy foi também 
derramado , íim , mas em 
remiíTaó de peccados, naó; 
porque naó tevepeccado. 
Oh bemdito Filho de Ma- 
ria,que bem moílraíles fer 
juntamête Filho deDeos, 
pois taó altamente acodi- 
fles pela honra de voíla 
Mãy / Havia de dizer S. 
Paulo, que todos peccáraó 
em Adam : & que o fangue 
de Chriílo fe derramou 
por todos. Mas para que o 
mundo fe naó enganaíTe, 
& foubeíTcque no contra- 
híropcccadoouvc cxcci- 
çaó,&: no derramar o fan- 
gue, differcnca - por lílo 
declarou o Senhor có duas 
li- 



da Virgem Mana S. N. ^ i6y 

limitaçocnstãoexpreíTas, gne, que Chrin-o derra- 
que o feiT ílingue fe derra- mou, para remir fingular- 
mariapor muitos , & em mentea fua Máyj&aprc- 
remiílaódepeccados. Por fervardopeccado } íaiba- 
muitos, & não por todos, mosquandojonde, & co- 



para excluir a fua Mãy: & 
em remiífaó de pecca- 
dosj&naó por outro mo- 
do, para a eximir de toda 
a culpa, da qual nam foi 
perdoada por remiííaó, fe- 
naò prevenida, &: prefer- 
vada por graça. Aílim o 
diíTe, & proteftou em tal 
hora, em tal a£l:o,& com o 
Caliz do fangue que havia 
de derramar nas mãos, co- 
mo Filho emíim , & Re- 
dempror , que era da Mãy 
de quem recebera o mef- 
m o fangue: ^Deqtia natus 
eji lefus. 



T49 



í. IV. 

ri Stabelicido ef. 



geral, em que fícão taóbê 
proVadas('&náo fei fecó 
algúa novidade} as fuppó- 
fiçoensdoque chamei ve- 
lho : para entrarmos no 
que mais propriamente he 
novo,&tudo fobre.ofan- 
Tom./. 



mo obrou o bemdito Fi- 
lho eíle grandcSç occulto 
myílerio,& nunca atègora 
diílintamente examina- 
do, 

ifo S. Bernardino Se^p^,.^^^^ 
nenfe diz,queremio Chri- dm ser. 
lio a fua Mãy com o pri- ^^^^ 
meiro fangue, que derra- 
mou na Cruz,& com gran- 
de preferencia a todos os 
que nella foraó remidos. 
Fundafe naquellas pafla:- 
vras dos Cânticos : Vulne- cant 4* 
raífi cor meum , foror mea 9- 
fpo nja , ijulnerafti cor meu : 
nas quaes reconhece ó Sá- 
to primeiras, &: fegundas 
feridas , ^ diz que as pri- 
meiras oífereceo Chriílo 
na Cruz pela redempçam 
de fua Mãy, paraq a mef- 
ma Senhora, fendo remida 
primeiro que todos, foíTè a 
Primogénita do Redemp- 
tor. As palavras dodevo- 
tiíUmo, (Sc dou tiíli mo Pa- 
dre faó efías: Vulnerafticor 
meumyforor meafiJonfa>,vul' 
L iii mr.ajil 



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Luc 2. 
7- 



1 66 Sermão da Conceição tmmactdada 

neralii cor meum : pro tuo fentença quâro ella o per- 
amore carnemfumpfi , é^' mite. É verdadeiramente, 
vulnenms primis in cruce que quando o Santo diíTe , 
vukerajií cor meum ; nam vtilnenbus primis , íe nam 



Trimogenita Redemptoris 
Filijfuilefiípfi: virgo Bea- 
ta. Altofentir, & digno 
defeuAuthor. De forte, 
que aílim como o Filho 
foi o Primogénito da Máy 



acrefcentàra in Cruce , na 
Cruz , não tinha eu mais 
quedefejar, & dera o pa- 
rabém ao meu penfamen- 
to de fe encontrar com o 
de taó ai lu miado, & fubli- 



em quanto Homem, Tepe- me efpirito. Mas porque 
rithzlium [uumTrimogeni- tenho outras Efcrituras 



tum 5 aííl m a IMáy foi a Pri- 
mogenita do Filho em 
quanto Redempcor, Tri^ 
mogenita Redemptoris Fi- 
lijfiii. E efta foi a primei- 
ra fineza , ou primorofa 
correfpoiídencia com que 
oFilhoJeíu , em quanto 



mais ciaras, que citarei, 
conformandome em que 
ofiiague,queo Red em p- 
tor derramou por fua 
Máy, foi o primeiro, di- 
go que naò foi na Cruz,fe- 
naó no Horto. Abranos o 
caminhoàprova deíla no- 



Jefu , & Redempror da vidade o grande Doutor 

Máy,dequem nafceo,lhe dalgrejaS. Ambroíio , o 

pagou o benefício do fer, quaíílorecendo mil annos 

naó que delia ti veíTejà re- antes, jà entaó deixou ef- 

cebido,fenaó que havia de crito, que dando o Filho 

receber. O Filho Primo- deDeos principio à obra 



genitodaMãy, & a Máy 
Primogénita do Filho : o 
Filho Primogénita^ da 
Máy no nafciméro, a Máy 
Primogénita do Filho na 
Conceição. 

ifi Atè aqui S. Ber- 
nardino, declarada a Ília 



dauniverfú Redempçaó, 
começou por fua Máy. 
Nec mirumji T>ominus re^ 
tíempturus mundum , opera- 
tionem fuam hrhoavit à ^'f^" 
Matrty ut per qtiaynfalus Uxcc.v 
ornnibusparabatur , eautm 
primajruttíimfalktis hau- 
riret 



da Virgem 
riretex pignore. Elegante, 
& eloquentemente, como 
fempre, Ambrofio. Qiier 
dizer, que ningiiem fe de- 
ve maravilhar de que ha- 
vendo de dar principio o 
Redemptoràobra da re- 
dempçaódo mundo, co- 
meçaíle por fua Máy, para 
queella , que o havia de 
ajudar na redempçam de 
todos,foíre a primeira,que 
namermaredempçaó co- 
IheíTe os frutos do fruto 
do feu ventre. 

15-2 lílopofto,fe aU 
guemperguntaííèao mef- 
moFilho,&;à meAna Máy, 
onde colherão eftes pri- 
meiros frutos da redemp- 
çaó,naó ha duvida, que 
ambos ha vião de refpon- 
der,que no Horto: & aílim 
o dizem expreílamente a 
Mãy,&: mais o Filho. He 
paíTo, que fe naó podia de- 
fejar, nem inventar me- 
lhor :& foi hum dialogo, 
que tiveraó entre íy o Ef- 
poíò, que he Chriíto, & a 
Erpoía,que he a Virgem, 
no mefmo livro dos Cân- 
ticos. Veniãt díleãusmetis 
in hortumfuunhÇdiz alli a 



Maria SM. i^7 

Senhora 3 c^ Cúmedat fru- 
ãum pomorunifuorum : Ve- 
nha o meu amado ao íeu 
Horto, &: colha o fruto dos 
feus frutos j iílo he, os pri- 
meiros , & as primicias 
delles. Ifto diíle a Efpofa : 
&logo tendo fatisfeito o 
Filho ao defejo da Mãy, 
diz aílim : Feni in hortum 
meiím^foror meafponfa , & 
mejjui myrrham me a : Vim 
ao meu Horto, irmâã, 8c 
Efpofa minha, & o que alli 
colhi, foi a minha myrrha. 
A mirrha propriamente 
naó he fruto, íènaó hú li- 
cor, que fe fua,& eftila das 
arvores do mefmo nome. 
Pois fe a Efpofa tinha con- 
vidado o Efpofo, para que 
fofleaofeu Horto colher 
os primeiros ÇrntoSyVeniat 
in hortum faum^ér com^dat 
fruEtum pomorum fuorum : 
como indo o Efpofo ao 
mefmo Horto, em vez de 
colher frutosjcolheo myr- 
rha : Veni in hortum meum^ 
^meJJui myrrham meam? 
Aífimo diífe , porque af- 
fim foi , nem fe podia de- 
clarar melhor. Como a 
myrrha he aquelle licor 
L iiij aro- 



bidem. 



I 

i 






til 



,ió8 SermaS daConceição immaculada 

aromatico,que fuaóasar- porque a rcdempcaÓ , que 

vorcs, o fruto que Chrifto obrou no Calvário, era re- 

colheo no Horto , fatisfa- dempcaódepeccado , & 

zendo ao defejo de fua depeccadores; para quea 

May,foioíangue,quepor defuaMãyde nenhú mo- 

anior delia fuou na oraçaó do fe envo! veíTe, & miftu- 



ao mefmoHorto.Expref- 
ía,&: concordemente S. 
Cyrillo Jerofolymitano , 
Sf PhiloCarpacio,6cRuper. 
Carp. to . Chrisíus enim in Horto 
I^^P^" orans, myrrham mefuit, cu 
fan^uinerd fné.vit . Pode 
haver coufa mais clara , 
mais breve,&- mais exada: 
em que fe exprima como 
deícjavamos, o onde, o 
CO mo, & o quando? O on- 
de 5 no Horto , in Horto : o 
eomo5orando,í?r^?2j-:o quã- 
do, quando fuou o Tangue, 
cumfangninem fudavh ^ 



raíTe com ella, a dividio,& 
feparou no tempo, no lu- 
gar, no fangue,& no modo 
de o derramar, fazendo no 
Horto hum novo Calvá- 
rio fem monte, & no fuor 
húa nova Cruz fem cra- 
vos? AíHmo cantou ele- 
gontemente Hildeberto 
Turonenfe; ^^?;;^.'/;,vn/j77/- 
dorCitixfmt c.nte criicem. 
Mas ouçamos a S. Paulo. 
S. Paulo parece que faz 
diíl:inçáoentrehum,&: ou- 
tro fangue, attnbuindo a 



redempçaó univerfal fó ao 
if3 Aviílapoisdeíla fangue da Cru2:-P^r//r.?7?j 
primeira conclufíò raó pcrfangumtm Cnxis ej^^íf' 
iiova,&taÓ provada, que fivequainterris,fivequ£ in 
diremos? Diremos por ve- Cdis; & eílcs faó os ter- 
mos geraes com que com- 
mummenre fallaó os San- 
tos Padres. Donde fe fe- 
giie , que fco fangue da 
Cruz foi íò o preço da re- 
dempçaó univcría! , r.o tal 
caio todo o sãguc do Hor- 
to foi unicamente aplica- 
do 



tura, que andou taõ fina- 
mente primorofo o fobe- 
rano Redcmptor na re- 
dempçaó de fiaa Máy, que 
naólò quiz que foífe im- 
maculada a Remida , fe- 
na 6 ta m bem i m ni a c u 1 a da 
a mcfina redempçaó ? E 



da Virgem Maria S.N. 169 

do pelo Filho à redemp- macula. Em tudo quanto 
çaò da Máy , & por ilTb digo, fallo pela boca da 
propriamente naõ fó Pri- mefma Máy, &: do mefmo 
mogenita, como queria S. Filho : & neíle ponto com 
Bernardino,mas Vnigeni- 
ta ; porque a Primogénita 
tem fegundos, 6ca Vnige- 
nitaheíiagular, & única. 
Mas eíla fineza de nenhú 
modo fe deve, nem pôde 
entender com exciufaodo 
fangueda Cruz , porque 
he certo, que o Filho da 
Virgem também morreo 
pelaAdáyjde quem naf- 
ceo •, que foi nova corref- 
pondencia de reconheci- 
mento, c*^ gratidão, pagan- 
dolhe o naí cimento coma 
morte. Qiie diremos logo 
àvilla deites dons thea- 
tros, ou amateatros-, am- 
bos fanguinolentos y hum 
do Horto , outro do Cal- 
vário ? Digo,que em hum, 
6c outro obrou o Filho de 
Maria comojefu, & como 
Rederaptor a fua redemp- 
ção i mas no Calvário co« 
mo univerfalmente Re- 
mida i no Horto , como 
fmgularmente preíerva- 
da, & em hum , & outro , 
como puriílinu , 6c íem 



texto miiagrofamentefei- 
tofóparaelle. 

154, Hum dos mais 
notáveis Textos da Efcri- 
turanoquediz, 6c na or- 
dem, 6c confequencia com 
que o diz , faó aquellas pa- 
lavras do Efpofo Divino , 
fallando primeiro comíi- 
go,6c depois com a Efpo- 
ía : Vadam ad montem myr^ cant.4 
r/j^, éy ^d CO liem thurts:^-^' 
totapulchraes arnica mea^ 
érmâculanoneftinte. Ea 
[ diz o Efpofo } irei ao; 
monte da myrrha, 6c ao oi- 
teirodo incenfo: 6c ^os-s^ 
Efpofa, ^ amiga minha, 
todaíbis fermoía, ^ toda 
pura fem macula. Supér- 
fluo he repetir , que a Ef-^ 
pofahe a Virgem Maria,: 
6c o Efpofo Chriilo fen 
Filho. Masque correfpô- 
dencia tem dizer o Filha ^ 
que ha de ir ao monte da. 
myrrha , 6c ao oiteiro éx> 
inceníb : 6c logo inferir, 6c 
concluir, que a Mãy toda. 
he fermoía, 6c toda pura 
íem 



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•I 70 Sertnao da Conceição immactdada 

fem macula ? ^^^^;;/ ad ra Chrifro remiro género 



montem myrrha , é* adcol- 
lem thtiris : & logo de re- 
pente fem outro motivo: 
Totapulchra es arnica me a , 
& macula non eft in te ? Pa- 
ra entendimento deíía no- 



humano depois do pecca- 
do, bailava o fangue, que 
derramou na Cruz 5 mas 
para remir , òc prefervar a 
fua Máy fem macula de 
peccadojquizelle por fi- 



tavci coníequencia em q neza particular acrecen- 

fe infere com tanta clare- tarao fangue da Cruz o 

za, &: expreíTaó a pureza fangue, que derramou na 

immaculada da Virgem, oraçaódo Horto. lílo he 

he neceíTario faber , que irão monte da myrrha : 



montCj&queoiteiro, que 
myrrhaj& que incenfohe 
eíle ? A myrrha íignifíca a 
morte,oincenfo íigniíica 
a oraçaó : & neíle fentido. 



Vadam ad montem myrrh^^ 
& juntamente ao oitciro 
doincenfo , à* íid colUm 
t buris. E tanto que fe uni- 
rão os eífeitos deílas duas 



j -j Av*^ ^^ ~.. wxvwK^ vj.wii«k, viuaa 

que he de todos os Santos jornadas, &:fe ajuntou hu 
Padres, omonte da myr- íanguecom outro fangue, 



rha he o Calvário , onde 
Chriílo morreo,6cooitei- 
ro do incenfo, he o Horto 
de Getfemani, onde orou : 
(^porque Getfemani eíla- 
vaíituado em hum tezo 



entaò exclamou, 6c decla- 
rou a vozes o Filho 5 que 
fua ÍViãy era toda pura, & 
fem macula : Tutãptdchra 
es^ arnica mea , & macula 
noncft intci porque o cf- 



fobreoValledeCedron.} feito gerai do fangue da 
E de Chriílo morrer na Cruz,foiremir,&: oparti- 



Cruz, &:orar no Horto, 
tira por confequcncia , & 
conclue o mcfmo Senhor, 
que fua Máy toda he pura, 
& fem macula : có razaó,& 
confequcncia , torno a di- 



culardofinguedo Horto, 
remir prefcrvando. 

j 5-5- Comparemos hu 
fangue com outro , o da 
Cruz com o do Horto, & 

, ^ , ^,- veremos com os olhos eíla 

zer,miíagrofai porque pa- mefma differciiça. Quan- 
do 



da Virgem Maria S.N. 171 

do na Cruz deraó a lança- jangiús:,ut redimeret. A ílim 



da a Ghriftojfahio Tangue, 
ioan.19. _, _, ' , ^ P j 

3 }. & agua : Extvttjangms^& 

aquaim.is quando o Se- 
nhor íiiou no Horto, fo- 
mente fahioíangue : Fa^ 
Luc.21. ^^^j. eftfudorejusfictitgut- 
t^fanguinis. Parece, que 
naó havia de fer aííim. 



44 



os demais. Ecomo ofan- 
gue da Cruz era para re- 
mir, & a agua para lavar as 
manchas do peccado de 
ikdam i poriíTo íahio na 
Cruzo fangue juntamen- 
te com agua : Exivit faur 
guiS) &aqua. Porem no 



Mais próprio era do fan- Horto,como o fangue era 
gue do Horto, que do fan- para remir naó lavando , 
guedaCruz , fair junta- íenaôprefervandodamef- 



mente com agua. Porque 
depois de exhauílo o fuor 
natural , que he humor 
aqueo , entaõ fe feguia o 
preternatural , & prodi- 



ma mancha .-porque fó ha- 
via de remir, & naó tinha 
que lavar^ por iííb o fuor 
naó foi de fangue j unto c6 
agua, fenaó de fangue fó- 



giofo, que he o de fangue. mente : Siçiit guttafangui- 

Qual foi logo o myílerio, ms, Efca he a razáo , Sc 

porque o fangue da Cruz propriedade porque oSe- 

fahio juntamente c6 agua, nhor quando diífejque ha- 

& o à.o Horto naó .^ Todos via de ir ao Calvário, Va- 

os Padres uniformemente dam ad moyitem myrrh^y 

diluem 5 que o fangue da naó faliou palavra na pu- 

Cruz íigíiiíicava a redép- reza da May ; mas tanto 

çâo, & a agua o bautifmo que ajuntou, que havia de 



primariamente inílituido 
para lavar o peccado ori- 

Athan. ginal. S. kXX^d.Vi-3iÇíO\ExÍVÍt 

^trm à^ jãnguisy& aquay ut íta re- 
Amb ?' demptio & immudatío pria- 
iib.de ris Ada: dimanaret, E S. 
cap. . K\nhTo£vo'.Exivit aq.uayò' virtude, produzir por íj 
Jangms : a^ua^ut mundaret^ ío eíle eff eito 3 mas como a 

re-» 



ir também ao Horto,c^ ad 
colkmthuris^ iogoapubli- 
cou,& canonizou porim« 
maculada^id?" macula mn^efi 
in te. Bem podéra o íangue 
da Cruz, como de infinita 



i 






Um 



^ 

m 






"172 Sermão da Conceição hnmactílítJa 

redempçaõda Máy eratá- No fanguedeCíirifl-otan- 



tomais nobre, tanto mais 
alta 5 & tanto maisprecio- 
fajque a de todos , tam- 
bém era credito da merma 
redempçaó, que foílema- 
ior^Scmaisfubido o preço 



to valor tem húa gota co- 
mo todo: & feno todo fe 
quizefreefpecular alguma 
coníideraçaó de exceíTo, 
ou ventagem, o todo. foi o 
da Cruz, & as gotas ò do 



que fe át^^ por elía. Por Horto ; Stcutguttafanmi- 

líTo os empenhos fempre 7Íts. Que razaó de prero- 

mais, & mais primorofos gativa teve logo o Tangue 

do Filho não íe contentaó do Horto , para fer eAç^ o 

com menos, que com do- preferido neíle myílerio 

brarapaga ,acrecentando ao da Cruz ? Refpondo, 

hum preço fobre outro que a 
preço, 6c hum fangue fobre 
outro fangue , como Re- 



que a razão , conveniên- 
cia, & primor deíi;a pre- 
ferencia, foi 5 para quefnaó 
demptoremíim,ôcJefuda fó oRedemptor, & a re- 
Mãy,de quemotomou,&: dempção, fenaó também 
nafceo : 'JJe qua natus efi o preço delia, que foi o fan- 



lefu 



us. 



1^6 



§. V. 

TE mos prova- 
do a preroga- 
tlva do fangue , que Chri- 
fto fuou no Horto em ref- 
peito do que derramou na 
Cruz, Sc como foi parti- 
cularmente aplicado pelo 
mefmo Filho à redempçaó 
im maculada de fua Máy: 
mas ainda naó temos da- 
do^nem inquirido a razaó. 



gue, feuniífem no mefmo 
modo fingular, & extraor- 
dinário de remir, com que 
o Filhoremioa Máy, & 
el Ia foi rem ida. Como Foi 
remida a Virgem Mana ? 
Não depois, lònaó antici- 
padamenre, quciífohefer 
remida por prefervaçam. 
Pois eífa foi a razaó, o pri- 
mor, & afneza , porque 
naó fó o Redem ptor , &■ a 
redempçaó , fenaó tambe 
o p rcço d c 11 a í c anti c i pou . 
O Rcdcmptor apreílbufe , 
^adi- 



da Virgem Maria S. N. 1 73 

& adiantoufe à redêpçaó : as mefmas. St tanto podia 



a redempçaó apreírou(e5&: 
adiantoufe ao peccado : Sc 
para que o preço,que era o 
fangLiejfe apreíraire5&: adi- 
anta íTe também , antici- 
poufeo fangue do Horto 
ao da Cruz. 

1 5-7 Caminhando o 
Pay , Sc May de Samfam 
por hua eítrada deferta 
cerrada de bofques, adian- 
toufe o filho, que os acom- 
panhava 5 & faindolhe ao: 
encontro hum Leaó tao 
feroz na catadura, como 
foberbonos bramidos, ar- 
remeteo a elle o valente 
moçOjfem mais armas,que 
as próprias mãos, Sc afFo- 
gando-o entre ellas, o lan- 
çou morto no bofque. 
Grã façanha, Sc mais quê 
humanai Allimonotaafa- 
grada Efcritura, dizendo, 
queiílo fez Samfam mo- 
vido do Efpirito divino. 
Mas o primeiro movimê- 
to com que fe adiantou , 
deixando atraz fea Pay, Sc 
fua Máy , parece que nem 
foi neceíTariOjnem conve- 
niente. Neceífario naó •, 
porque as fuás forças eraó 



matar o Leaó adiantan- 
dofe, como indo ao lado 
dos Pays : conveniente tã* 
bem naó, & niuito menos j> 
porque acompanhando os 
mefmosPays , os aíTegu- 
rava melhordo perigo da- 
quella, ou de outra fera do 
bofque. Qual foi logo o 
fim ^que naó podia deixar ; 
de fer grande, ôcmyfterio- 
fo ] porq o moveo o mef- 
moeípirito a que íe adiar í 
taíie.^O fim grande, & my^; 
íleriofo foi, como jà no- 
tarão alguns Efcritores 
modernos^ porque nefta 
hiftoria de Samfam fe re- 
prefentava maraviihoíà- 
mente,&com todas fuás 
circunftancias o myílerio 
da Conceição immacula- 
da. Aeftradapor onde ca- 
minha vão o Pay, & a Máy, 
heaqueila por onde def- 
cendemos de Adam todos 
os que recebemos o fer por 
geração natural : o Leão 
feroz,&íòberbohe o pec- 
cado original, que naquel- 
la paíTagem efpera a to- 
dos os homens,&: antes de 
nafcidos lhe naó perdoa,& 
os 



i 



i 











I /4« Sermão da ConcelçaS Immaculada 

os mata; oSamfam, que o o figurado, antes desfaz, <Sc 

matoua elle , he Chrifto defcompoem toda a glo- 
por natureza izento de ria,& privilegio da Con- 

peccadoj&quefô tem po- ceiçaójqueconíllieemfer 

der, &f(3r^'as para vencer, a Senhora unicaméte pre- 

& deílrmr naô fô o origi- fervada > Mas que feria fe 

nal, mas todos. AíTim pois eudiíFeíTe, que nefta que 

como Samfam fe adiátou , parece impropriedade da 

&anticipou para livrar do hiíloria, confiftioamaior 

Leão a feu Pay,& fua Mãy, energia , & gala do myfte- 

antes que elie os encon- rio? AíHm o digo. Porque 

traífeiaílImCliriílofeadi- Samfim livrou daqueila 

antoujScanticipou a prc- fera, que reprefentava o 

fervar do peccado origi- peccado original , naó fô a 

nalafuaMáy,antesqueel- fuaMáy,fenaó também a 

laoencorreífe. feuPayj poriífomefmo 

158 Atè aqui os Dou. foi perfeitilTima figura de 

tores allegados,naó repa- Chrifto no myfterio da 

rando nenhum delles,nem Conceição. Mas de que 

acodindoahúa circunftã- modo.^ Por iílb mefmo. 

cia,6c impropriedade, que Porque Chrifto foi Filho 

fendo efta figura taó natu- da Virgem Maria : & a 

ral do myfterio , naó fô a Mãy que he Virgem, nam 



fô he Máy, fenaó Máy . & 
Pay de feu Filho , porque 
naó tem outro Pay. Logo 
para Samfam fer perfeitif- 



desluftra,&: afea,mas a ne« 
ga, ou põem em duvida. 
Samfam livrou das garras 

do Leaó a feu Pay, &:afua ^ ,^, ^/v.iiv.itii- 

Máy : Chrifto naó prefer- fima figura de Chrifto no 

vou do peccado original a myfterio da Conceiçam, 

homemalgum,fenaóahúa naó fô havia de livrar do 

mulher fomente, que foi a Leaóafua Mãy, fcnaó a 

Virgem immaculada : Io- fua Máy,& a feu Pay jun- 

goa hiftoria naó diz com tamente. Efteheofunda- 

o myfterio,nem a figura có mento porq graves Theo- 

logos 



da Virgem Marta S.N. 17^ 

logos ti veraó para fy , que que depois de muitos dias 
a Virgem Maria em ref- fe manifellou^que o inten- 
peito de feu Filho fe ha- to de Samfam fora formar, 
via, ou podia chamar nam como formou,da íiia meA 



íò Mater como as outras 
Aiiys, fenaó Matripater^ 
que quer dizer Máy , & 
Pay. E pela mefma razaó 
lemos em muitos Santos 
Padres , que o amor da 
Virgem em rcfpeito do 
mefmoChriftofoi dobra- 
do ; porque o amor dos 
outros filhos naturalmen- 



ma hiíloria aqueile famor 
fo enigma, que propoz, & 
cxpozaojuizodos homés 
com nome de problema : 
Troponam vobis problema, jjdid 
Jàeftouvendo,qttenenhÚ '^'^ 
entendimento haverá tam 
rude 5 que heíla íingular 
circunílancia naõ reco- 
nheça mais, & melhor a 



te gerados, dividefe entre hiíloria da Conceiçam de 
opay,&amãyj porém na Maria , que a do mefmo 



Máy Virgem , como em 

Máy,^ Pay, eftava todo 

unido. 

\ 1 5p Ainda tem a meí^ 

ma hiftoria de Samfam 

outra admirável proprie- 



Samfam. Adiátoufe Chri- 
ílo a vécer, & matar o pec- 
cado original antes da Gó- 
ceiçaó defua Máy : & eftá- 
do por muito tempo oc- 
culta aquella íingular fa- 



dade em confirmação do canha do Filho -, que fez o 

mefmo myílrerio. Jà vimos mefmo Filho ? Da mefma 

como Samfam, quãdo ma- façanha occulta , & do 

touoLeaó,oláçou,&:efcó. mefmo fegredo fó a elle 

deo no bofque. E declara a manifefto, fez o mais celc- 

Efcritura,q nem a feu Pay, bre, & mais altercado prò- 

nem a fua Máy,nê a outrê blema,que nunca ouve no 

defcobrio aquella façanha, mundo, difputádo as mais 



fendo de tanta honra fua , 
&taó bizarra. Aílimefte- 
veocculto o myfferiodé- 
fte filencio, & fegredo, atè 



doutas Efcolas da Theo- 
logia, fe Maria fora conce- 
bida em peccado original, 
ou naõ. QaeEfcrituras fe 

naó 



mk 



1 

Ih tjl tZ 



176 Sermão da, Conceição immàculada 

nãotem defenterrado, & da, Scfcíf-ejadadctodos. 
defentranhadoPQiie livros 160 Tornando ao fio 
fe naó tem mandado à ef- do noífo dircurfojafiim co- 
tampa > Que difcurfos, & mo o Filho fe adiantou, <Sc 
argumentos fenaô tem iii- ancicipouà redempçaòda 



ventado ? E em quantas 
difputas publicas , & fe- 
cretas fe não tê cótrover- 
tidoefte mefmo ponto, íe- 
guindo huns Doutores a 
parte aííirmativa , & ou- 
tros com maior applaufoa 
negativa ? Mas todos atè- 
gora problematicamente j 
porque aíllm oquiz para 
maior celebridade, & glo- 
ria do mefmo myíierio o 
foberano Author do mef- 
mo problema : Troponam 
^ohis problema, E fera fem- 
pre problema? Naó. Por- 
que da mefmahiftoria có- 



Mãy 5 aíHm a mefma rc- 
dempçaó fe adiantou, ^' 
anticipouao peccado , &: 
com nova , ôc admirável 
correfpondencia. Foi tam 
admirável a preíla coque 
o peccado original fe adi- 
antou ,&:anticipou a ma- 
tar os homens -, que fendo 
todos filhos de Adam, pri- 
meiro os matou feu Pav 
com o peccado, do que el- 
les naceífem. E para que /e 
veja, que a redempçamda 
Virgem Maria nam foi 
menos apreíTada, nem feu 
Filho fe adiantou , &■ anti- 



lta,que Samíam revelou o cipou menos em preíervar 
enigma a fua Efpoíli. E af- a Mãy, do que Adam fe ú- 



ílmcomo Samfimo reve- 
lou a fua Eípofa,& por me- 
yo delia o entenderão to- 
dos •, aílim Chrifto final- 
mente acabara de o reve- 
la r a fu a F fpo fa a Igr ej a , 
como játcm começadoj &: 
como for deli n ida porei la 
r^ive-rdadc, ccílarà a coii- 
trovcrfia, 6clerà conheci- 



nha adiantado,& anticipa- 
doem matar os íilhos-,per- 
gunto,QLraifoiprimciro,o 
nafci mento do Filho, ou a 
Conceição da Mãy? Naó 
ha duvida ,quca Concei- 
ção da Mãy Ibi muito pri- 
meiro, queo nalbimento 
do Filho^ Pois fe o Filho 
ainda nao era naícido , co- 
mo 



ãa Virgem Maria S.N. i yy 

mo prefervoírdopeccado meiro. Todos os Santos 

Padres reconhecem neíle 
cafo grande myílerio , & 
concordaó em. que aquel- 
le fio de purpura foi íinaí 
dofanguede Chriílo. S. 
dopode-os Adam matar Cyriliocomentãdo aspa- 
com o peccado antes de lavras do Texto, /^^j/?rí7- 



a Mãy antes de nafcer ? 
Refpondo tornando a per- 
guntar. EquandoAdam 
peccou, eraó jà nafcidos 
léus filhos ? Não : &: có tu- 



nafcerem. Pois feria bem, 
que os filhos de Adam os 
mataíFe íeu Pay c6 o pec- 
cado antes de nafcerenijSc 
o Filho de Maria naópre^ 
fervaíTedo mefmo pecca- 
do a fua Mãy antes de naf- 
cer? He verdade, que eíla 
redempçaó taó anticipa- 
da foieíFeito do fangue 
da Mãy j, que elle ainda 
naó tinha recebido. Mas 
eíTahe a virtude do fan- 
gue de Chriftojcomo ago- 
ra veremos. 

1(3 1 Quando ouveraô 
de nafcer Zaraò , & Pha- 
resdous filhos gémeos de 
Thamar j Zaraó lançou 
primeiro fora hum braço, 
no qual a que aíTifl-ia ao 
parto lhe atou hum fio de 
purpura , entendédo q elle 
leria o primogénito-, mas 
enganoufe, porque Phares 
fe adiantou>&: nafceo pri- 
Tom./. 



ttiUt maniim^ m qua obfte- 
trix Ugavit coccinum^ àiz , 
ÇocciniimfanUiJJimu Chri- 
fii fanguinem pgnat, E o 
mefmo dizem S. Ambro- 
fíO, S. Bernardo , & outros 
Padres, Foi pois o cafo, 
que os dous gémeos Za- 
raó 5 ti Phares cada hum 
procurava nafcer primei- 
ro, 6c fer o primogénito, 
para que do feu fangue 
nafceíTe o Meílias, que era 
toda a ambição, & emula^ 
çaódaquelletempo.E que 
fez o mefmo Meflias .'* A 
Phares concedeo , que re- 
ceberia delle o fangucj&a 
Zaraó, que com o mefmo 
fangue o aílinalaria : & af- 
fim foi. Mas a Zaraó deo- 
Ihe logo a purpura ^ & o 
final do fangue, Sc de Pha- 
res naó o recebeo fenam 
muito tempo depois. E 
porque .^ Porque he virtu- 
M de 



GeneO 

38.27. 

;^pi:riLi- 
pnmiriú 
Am':r. 
ilernar. 




W'- 




178 Sermão da Conceição immaculaia 

de própria do Tangue de Redemptor foi Redcmp^ 

Chriftopoderfe dar antes toranticipado, porque fe 

de fe receber. O Tangue de adiantou , & anticipou à 

Phares naó o recebeo redempçaór&aíTimcomo 

Chrifto fenaó quando naf- a redempçaó foi anticipa- 

ceo o mefrao Chrifto, & o da,porque fe adiantou , & 



ílnal,& eíFeito áo feufan- 
gue recebeo-o Zaraó an- 
tes de nafcer o mefmoZa- 
raó : & ifto foi, nem mais, 
nem menos o que fe veri- 
ficou na Conceiçam de 
Maria , & no nafcimento 
de feu Filho. O Filho re- 
cebeo o Tangue da Mãy, 
quando delia nafceo , que 
foi no dia do Teu naTcimé- 
to : Sc a May recebeo o cf- 
f eito do langue , que deo 
aoFiJja^antesde naTcer a 



anticipou ao peccado •, aT- 
íimfoi conveniente para 
maior luftre, & gloria do 
myflerio, que o preço da 
mefma redempçaó , que 
era o Tanguc,foíre também 
anticipado , & poriífo o 
Tangue do Horto fe adian- 
tou , & anticipou ao Tan- 
gue da Cruz. Aílim o no- 
tou, & celebrou com ad- 
miráveis propriedades a 
me Tm a Virgem taó pri- 
moroTamente remida. De- 



anéfma Máy , que foi no pois de dizer Teu bemdito 
dia da fiia Conceição. De Filhojqueofruto, queco« 
Torte,que o Filho foi Re- 
demptor da Mãy por me- 
yodoTangue,qiie delia re- 
cebeo,antes de o receber : 
&a Mãy foi remida , & 
prefervada por meyo do 
Tangue , que deo ao Filho, 
antes de iho dar. E temos 
fiindada,8c declarada a ra- 
zão, porque eRe Tangue 
foi o do Horto. 

162 Aílim como o 



Iheo no Horto, foi a Tua 
myrrha : Veni in Hortum 
meiím , meffíá myrrham ^^"^ <s 
meam-.Ti qual myrrha , co- 
mo vimos , he o Tangue 
q no meTmo Horto Tuou i 
diz logo a Senhora, fal- 
landocom o meTmo Fi- 
lho, que eíTa myrrha a que 
chamaprimeirajfoiocltii- 
ladode Tua Tigrada boca:^^.^ 
Lahiaejus dtjtillantia myr- 
rham 



^3^ 



-^ 



JJLJLMJU ^ 



da Virgem Maria S.N. 179 

rhamprimâ. Mas fe aquel- Senhora , que da mefma 
lefangue, que o Senhor 
fuou,rahio,&: brotou por 
todos os poros do fagrado 
corpo, como diz a Senho- 
ra, quefoieftillado de fua 
boca ? Agora fe verá com 
quanta propriedade inter- 



hocafeeítillava a myrrha 
primeira : Labta ejus di" 
fiillantia myrrhampnmam. 
163 K^^-útl^itl diftiUâ- 
f/^hea mefma com que o 
texto Arábico explica o 
fuor do Horto: Et faãus 



pretamos do Horto , & da ejifudor ejus velutfanguis 

oraçaó do meímo Horto o diftillans. Mas porque ra- 

nome de collem thiiris, zaó chama a Senhora nas 

Chamafe o ságue do Hor- mefrnas palavras ao fan- 

to eftillado da boca de gue do fuor do Horto nam. 

Çhrifto •, porque a força,& fó myrrha , fenaó myrrha 

efíicacia da oraçaó do mef- primeira , myrrhamprimã^ 

mo Senhor no Horto, co- nome taó íingular , que fó 



nefte Texto fe acha em to- 
da a Efcritura fagrada? 
Toda a myrrha nam he 
aquelle licor , ou humor 
preciofo,& aromaticojquc 
feeftilla da arvore onde 
nafce? Sim. Pois porque 



mo taó fervorofa5& arden- 
te, foi a que acendeo , & 

futilizouofanguenas ve- 

as , & o fez manar em 

fuor. Aílimodizcóamef- 

ma confequencia o Evan- 

gelifta S. Lucas : TroUxius 
Ltíc.22. f^j.al;at yérfaãus eíffudor fe chama particular,& fm- 
'^^^^ ejiisficut guttafanguinis: gularinente o fangue , & 
filias E Elias Cretenfe comen- fuor do HortOjnaó myrrha 
^'^^ '^' tando o mefmo Texto:yf r- 

dentt r orat^ acfudor gutta^ 

rum fanguinearum ah ipfo 

f.uit. E comoaopaííbjque 

da boca fahia a oração, das 

veas rebentava, & corria 

o fangue , efta foi a pro- 
priedade com que diíle a 



dequalquermodojfenam 
myrrha primeira : 2>////7- 
lantia myrrham priifiãm? 
Náofe poderá mais pró- 
pria, & eruditamente de- 
clarar o myfterio de fer 
sãgue anticipado. A myr- 
rha, como defere 7e fii- 
M ij niOí 



i 



' id 






I «►f' 



180 SermaodaConcelçaoímmaculada 

Myniv "^^' colhefe da arvore on- 
de fe cria por dous modos. 




O primeiro he/uádo a ar 
vore por fy mefma aquelle 
licor mais futii eílillado 
naturalmente, 8c fem vio- 
lência : & efta fe chama 
myrrha primeira. O fegu- 
do he , picando primeiro 
aarvore5& dandolhe gol- 
pes, pelos quaes fae , òc fe 
defcarrega o licor mais 
groíFo : & eíla fe chama 
myrrha fegunda. E quem 
naó vè que tal foi com ad- 
mirável propriedade a 



myrrna primeira: Myrrha 
primam. E fiz tanto ciifo a 
Virgem puriíllma dcfta 
circunílancia 5& celebra, 
& louva tanto a feu Filho 
por ella ; porque confiílin- 
do naó lo a prerogativa 
maior, fenaõ a mefma ef- 
fencia da fua prefervaçao 
em fer redempçaó antici- 
pada-, que mais primorofa, 
& elegante fineza fe podia 
efperar , ou imaginar do 
mefmo Redemptor , do 
que querer feu amor , & 
inventar fua fabedoria , 



myrrha, &fangue do Hor- queaílim comoa redemp- 
tojcomparadocoma myr- çaódefuaMãy foi antici- 



rha,&: fangue da Cruz ? O 
fanguG da Cruz naó fahio 
fenaó depois de ferido, & 
aberto o corpo do Redêp- 
tor com os cravos, & com 
a lança : o do Horto porem 
anricipandofe a todos os 
infhu mentos da violên- 
cia, elle fahio, & fe eílillou 
por fy mefmo das veas 



pada, allim foífe anticipa- 
do o preço da mefma re- 
dempçaó, & o fangue com 
que a remio, também an- 
ticipado ^ Aílim provou 
finalmente fer fangue áà- 
quellejefus , 5c daquelle 
Redemptor: daquelle Re- 
demptor, que o foi de lua 
May antes de fer homem. 



emfuor,&:efpontaneamé- & daquelle Jefus , que o 
te. O fangue da Cruz tira- foi de Mana antes de fer 



doa força do ferro, como Filho 
myrrha fegunda : o fmgue Jefus. 
do r-í jrco íu:ido fcm força 
mais que a do amor, como 



'JL)e qua 7iatus eji 



í.vi. 



dãVirgem Maria S.U. ^ ^^^ 

foi o mefmo i que na En- 
carnação tinha recebido 
de fua fantiíTi ma Mãy . 
1 6 f A ptimeira, & na- 
obrigaçoens de tural razão em que me 



§. VI. 



i6j^ ta parece que as 



Redemptor juntas comas fundo, he tirada do peito 

de Filho fe devéraó dar do mefmo Verbo encar- 

por fatisfeitas nos primo- nado,ac dos archivos de 

res^Ôc finezas taó repeti- feu entendimento, & von- 

dascomque fmgularizá- tade,&naóem correfpon- 

raò a redempçaó da purif- dencia de outro myílerio, 

íima Máy j mas ainda refta feiíaó do mefmo da Encar- 

a mais primorofa,& a mais naçaõ. Duas coufas rece- 

fina detodas. Foifenten- beodenòso mefmo Ver- 

ça de alguns Padres anti- bo naquelle myfterio, que 

gos, como hoiehe comum foraóacarne, &ofangue. 

entre osTheologos, que E que he o que fez delias, 

o fangue, que o Verbo en- 6c porque razaó ? De am- 

carnado tomou daVirgê basinítituío o Santiílimo 

fantiífima, fempre o con- Sacramento da Euchari- 

fervou unido à Divindade, ília ^ & a razaó foi, diz S. 

fem permitir ao calor na- Thomás^para que tudo o 

tural, que o aiteraífe , mu- que tinha recebido dos 

daíTe , ou diminuiíTe. O homens,o empregafle em 

mefmo conferva hoje glo- faudedosmefmos homês: 

Auguíi. ^'^qÇq no Ceo, como diz S, ^otum quodde nojiro acce- n th. 

AfíSnp. Agoftinho i & o mefmo pit.totumnobiscontuhtadovmmi 



^''^- còmunsramos no Sacra- 
mento, como diz b.rearo 



Ser 



4f- 



Damiaó.lílo fuppofto,naó 
me julgará por temerário 
a piedade Chriftãa , fe eu 
diírer,que o fangue, que 
Chriílo fuou no Horto, 
Tom./. 



falutem. Lembremonos ^^" 
agora , que do Cenáculo 
onde o Senhor tinha iníli- 
tuido o Sacramento,fe pac- 
tioim mediata mente para 
o Horto , onde a mefma 
carnejque tinha facramé- 
M iij tado 



Jr 



ll^ 




1 J 




182 Sermão da Conceição immaculaãa 

tado/uoupartenáodeou- tão devida, & primofofa 
tro, fenão do meímo fan- occafiaó. 
gue E haverá quem fe 16G Ifto he o que di- 
perfuadajqueem tão pou- go,&:náofó , & fem Au- 
coefpaçodetempo^&de thor. Eufebio EmiíTeno 
lugar mudaíTe de penfa- (que alguns querem foíTc 
jnento.&aífedoo mefmo Eucherio, ambos antigos 
entendimentoj&amefma Padres da Igreja , 6c de 
vontade de Chrifto, & fe grande authoridade } ou 
tiveíTc efquecido daquel- ambos , ou qualquer del- 
le mefmo diétame da fua les dizem eílas notáveis 
bondade, & daquella mef. palavras. "D^ carne Maria 
ma correfpódencia de feu coagulatus , de ejiisforma^ 
amor ? Claro eílà, q quem tus njtfceri us, de tjus Jub- ^:^^\ 
talimaginaíle , feria com ftant ia confim matus , fan- hõmii'. 
manifefta inj uria tanto do gumem quem etiampro Ma- ^"^ . ^'^ 
•Filho,como da Mãy. Lo- tre obtulit, dejangiáne Ma^ Domifi. 
?^Í£,^^9"^^^?' ^ ^"^or trisaccepit. Querem di- 
zer : Chriílo gerado da 
carne de Maria , formado 
das entranhas de Maria, & 
dafuílancia de Maria fei- 
to homem confumado,o 



de Chriílo tinha julgado, 
que devia empregar em 
faudedos homens tudo o 
que tintia recebido dos 

homens : havendo de ap* .,^,,, 

plicar algiia parte de feu fingue que nmben7offe" 
langue para a anticipada recco porredempçam de 
redempçaô de fua Mãy ; fua Mãy, foi o que do fan- 
porque naÓ feria aquella gue da mefma Mãy ti- 



mefmaparte,quc de fuás 
entranhas tinha recebido? 
Quemtaô inteiramente o 
tinha confervado, aguar- 
dado trinta ôc três annos, 
fcm duvida, que não feria 
fenão para o empregarem 



nha recebido : Sangmnem 
(juem etiampro Matre obtu^ 
///, defanguine Matris ac- 
cepit. Notemfe muito ne- 
ílas admiráveis palavras 
aquelle fanguinem defan- 
guine Matris ^ de aqucfe 
et iam. 



daVirgem Maria SM. 1S3 
etiam. De forte que o fan- x^S.çtiam ; foi efpcciaimé- 
oiie de que fe falia naó he te applicada, como dizja- 
rodo o fangue de Chrifto, mos, à redempçaó da mef- 
fenaó parte delle , & eífa ma Máy: Sluem ettam pro 
parte não outra > fenaó Matre obttilit . 
aquella mefma parte , que i (>/ E para queo mef- 
recebeo do fangue de fua mo fangue nos coníirmç 
Máy: Sanguinem quem de altamente efte penfamen- 
fanguine Matrts acceftt. E to, yamos ao mefmo Hor- 
aquelle etiam , etiam pro to,& ao mefmo paífo , & 
Matre ehtulit ^^Ç.Ví0X.2.Q^Ç. modo com que fe derra^ 
foi paga , & preço particu- mou. Quando Chrifto Se- 
Jar , offerecido particular- nhor noífo entrou , & per- 
iTiente fó pela redempçáo fe verou na oraçaó do Hor- 
da Máy,alèm do preço ge- to tantas vezes repetida , 
ral offerecido por todos, o as anciãs da mefma oraçaó 
qual naó foi fó parte do eraó fundadas no temor 
fansuede Chrifto , fenaó natural da morte , & dos 
todoofanguej&naófóa tormentos, tendo dado 
parte que tinha recebido licença o Senhor aparte 
do íangue da Máy na En- fenfitiva da fagrada huma- 
carnaçaó,fenaótodooque nidade^aífim para prova 
acquirioemtodootempo da verdade delia , como 
da vida. Efte fangue todo para mais padecer por 
foi o preço da redempçaó nos 3 a que fe fogeitafíe a 
univerfal do género hu- todos os effeitos da natu- 




mano: mas aquella parte 
recebida do fangue da 
Máy,pofto que foi parte 
defte todo , também em 
quanto parte feparada , 



reza, ainda com íinaes de 
temerofa,8c fraca. Nefte 
fentido difte S. Marcos: 
Capitpavere^ &t adere-, o ^.^^^ 
que entendem todos os -í- '^3- 



^//^;^5tambem,&-pormo- Padres de próprio ,verda 

doparticularjí^íi^w^*, tam- deiro, 6c natural temor. 

bem,& fobre opreçoge- Mas efte mefmo temor 

M iiij pa- 




mmmmm 




1 8 4. SermaÕ da Conceição imm acidada 

parece que faz diffiçultofo que o Verbo encarnado 



ofuor defangue y porque 
naófóaFilofofía, fenaóa 
experiência nos enílna, 
que com o temor fe reco- 
lhe o Tangue, & acode ao 
coração , & por iíTo íicaó 
pallidos os que temem. 
Fois fe Chriíío verdadei- 
ramente temia ,&■ aílim o 
temor como o íuor defan- 



conrervava,&: tinha rece- 
bido do Tangue de Tua 
Máy. Provo. Quando o 
Anjo deo a embaixada à 
Senhora, turbouTe hú pou- 
co o animo humiiinimo,&: 
modeílilíimoda Virgem, 
como taó alheo^o que ou- ^c 
via : Tiirbataeft infcrmone -9. 
ejus. Entaóo meTmo An- 



gue, pofto que extraordi- jo lhe Tocegou o cuidado , 



nano, Toi natural •, como 
em vez de Te recolher o 
íãngue para dentro, Tihio , 
& brotou para Tora? A ra- 
zão também natural he^ 
porque no meTmo Tangue 
havia os impulTos, & cau- 
Tas deíles dilFerentes eíFei- 
tos, aílim como eraó dif- 
f crentes os aíFedos , que 
entaó combatiaó o cora- 
ção do meTmo Senhor. 
Húa parte do Tangue, Te- 
guindo o aífeílo do temor, 
era tímido , outra parte do 



& lhe tirou o temor 5 dizê- 
do : Netimeas, Maria\M7í' ^'''^^^ 
ria,naó temas. Socegado 
pois o temor, então acei- 
tou a Senhora animoTa- 
mente a embaixada, & ài- 
zcnd.o:Fiat mihi fecundum ^^ 
verbumtuum,cnVàòcnc2Lr* ' 
nou o Verbo em Tuas en- 
tranhas. E como o Tangue, 
que o Verbo tomou do 
Tingue de Tua Máy , era 
Tangue actualmente ani- 
moíb,iVí^ tímeas Mar/a,ci\€ 
foi o Tangue, quenoHor- 



langue,Teguindo o aíTcaro to naó acodio ao coração , 

contrario, era animoTo : o como tímido , mas como 

ti mído acodio ao coração, animoío íhhio,&: Taltou fó- 

oanimoTolaltou , & Tihio ra das vcas: baãus^Jtfu^ 

fora ; & efl:a parte do Tan- dorcjusjicut guttafnvgui^ 

giieanimoTo,queTdcou,&: nis. Aílim Te portou era. 

íahio tora , foi o Tangue , Ihardo , &: gcncroTo o íau- 

gue 



da Virgem Maria S.N. ^ i8> 

gue do Horto, Gomolem- fode amor, gratidão, & 

brandofe naó fó de quem primorofiíTima correfpon- 

era, mas de quem tinha fi- dcncia, que a parte aiiti- 

do, para acodir na caufa cipada do Tangue, que ef- 

originai pela honra de fua peciahnente appUcou, & 

própria origem : Sangtii- dedicou à fua preíervaçaô, 

nem quem eúam pro Matre foíTeaquella mefma, que 



obtuíit-i defdvguine Matris 
accepit. â^- 

i68 Émfimj&cmfum- 
ina,que Jefujque nafceo de 
Maria,para íe moílrar per- 



de fuás puriffimas entra- 
nhas tinha recebido , 8ç 
guardado. Eu naôfei pon- 
derar, nem admirar efte 
extremo de fineza 5 ma& 



feito,&: perfeitiírimojefu, darei por mim outros ad 
& perfeito, & perfeitiíTi- miradores de mais alta es.- 



mo Redemptor de fua 
Máy, naó fó a préfervou 
fem macula em fua purilli- 
maConceiçãOj que he o 
mais perfeito modo de re- 
mir-, mas para que ella fof- 
fe a primeira entre todos 
osremidos,& a Primoge- 



fera, que todos os huma- 
nos. 

169 Quando Chriílo 
como Redemptor univer- 
fal noífo , & como Redêp- 
tor particular de fua Máy 
ílibio triunfante ao Ceo, 
admirados perguntavam 



nita, ou Unigénita da re- todos os Efpiritos Angeli- 
dempçaó do mefmo Fi- cos^Sluiseft ifte^quUjenit^ 



lho •, antes de eile derramar 
todo o fangue por todos 
na Cruz, o começou a der- 
ramar no Horto,ou única, 
-OU particularmente por 
ella, anticipando o preço 
-da fua redempçaó , alllm 
como a mefma redem p.;aó 
foi anticipada } mas quiz 
também por ultimo excef- 



de Edom^ tinBis veHibus ? 
Quem he efte, que vem da 
terra de Edomcom as ve- 
íliduras tintas em fangue ? 
IJle formofus in Jiola jiia^ 
gr díensinmultitudinefor-^ 
titiidinisfu^. Vem acom- 
panhado da multidão dos 
que libertou com a forta- 
leza de feu braço: 6c quana 
ferr 



\{^uex\ 




mm^ 



1 8 6 Sermão da Conceição immacuUdji 

fermofo elle,&: quam ^^n- achareis que o ílinc^uc de 
til-homem nofeu veílido! 
Ninguém haverá, quenaó 
repare muito neílas ulti- 
maspaiavras: & fer ove- 
ftido do triunfador o prin- 
cipal motivo da admira- 
ção dos Anjos , & fundarê 
no mefmo veftido todos 
os encarecimentos de fua 
fermofura : Ifteformofus in 
ftolafua ? Se era pela tintu- 
ra do Tangue , tinãis vejii- 
bus-i naó levava o Senhor 
no mefmo triunfo as fuás 
Chagas abertas? Pois por- 
que paflaó em fdcncio as 
feridas do corpo , & fó ad- 
miraòo fangue do vefti- 
do? O que manou das Cha- 
gas, &: na cor viva, & bri- 



que fe im^^io o veíiido 
próprio de Chriílo, foifó 
o do Horto. Nos açoutes 
eftava o Senhor total men- 
te defpidoj&o fangue que 
dellescorreo ficou no pa- 
vimento do Pretório. Na 
coroação de efpinhos, o 
fangue que ellestiráraó da 
fagrada cabeça, também 
cahio,& ferecebeo na pur- 
pura, de que Ihefingioa 
Opa real a jocofa impie- 
dade dos foldados. Na 
Cruz tambemeílavadef- 
pido, & o fangue das qua* 
troC hagas,&da quinta to- 
do regou a terra do Calva» 
rio. h\^\\\\ que o fangue de 
que fe tingio a túnica, & 
Ihante, com que neílas fe veíliduras próprias doSe- 
via , naó era o mefmo? nhor, foi o fangue que por 
Pois porque fe celebra tá- todos os poros do corpo 
too do veílido , & naó o fuou no Horto. E comoeí- 



das Chagas ? Porque as 
Chagas eraó recebidas na 
Cruz pela redempçáo uni- 
vcrfal de todos,6c o fiingue 
doveflidoera o fuado no 
Horto pela redempçam 
particular, & prefervaçaó 
de fua Máy. Notai bem to- 
da a hiítona da Pay xão,& 



te langue fe fingularizou 
nos extremos tantos , & 
taò admiráveis , que vi- 
mos,na prefervaçaó de fua 
Máyi por iífo oYoberano 
Redemptor o veflio pela 
melhor, & maisricagala 
de feu triunfo : & por lííb 
como tal a admirarão os 
An- 




ãa Virgem Marta S. N. 187 

Anjos,&: a celebrarão pela vando-a, & defcndendo-a 

maior gentileza do mefmo do peccado^falvou-a, fa- 

Redemptor: IHeformofits tisfazendo também deju- 

inftola fua. íliçaàs obrigaçoens^ que 

170 Tudo o mais que como Filho devia a fua 
fucedeo no mefmo triun- 



fo, cóíirma fer efte fangue 
taóadmirado,o que parti- 
cularmente fe applicou à 
Cóceiçaó immaculada da 
Virgem fantiílima. Per- 
guntarão os Anjos 5 quem 
era o foberano triunfador : 

ifai 6^ ^^^ ^fi ^fi^ ' ^ ^^^^ mefmo 
.1. ^'TCÍpondcoiEgo^quíloquor 

jufiitiam , é^ propugnator 
fumadfalvandum\ Eu fou 
o que faço juíliça , &: fou 
defenfor para falvar. A to - 
d:js falvou Chrifto 5 mas 
fó a fua Máy propriamen- 
te como defenfor 5 propug' 
w<2í(?rj porque aos outros 
falvou, livrádo-os do pec- 
cado i porém a fua Mãy 
defendendo-a,queo nam 
encorreíle. EeÔahea ái- 
ftinçaó dajuíHça, de que 
falia : Ego^qíú loquor jufti- 
tiam-j porque aos outros 
depois do peccado falvou- 
os/atisfazendo de juíliça 
à lefa Mageftade do Payj 
porém a Senliora prefer- 



Mãy . Inftáraó mais os An- 
jos : ^are ergo rubrum eft 
indumentum tmim-i & 'veCtt- „ . , , 

r 1 • Ibid.j; ] 

menta tuajmit calcanUum 
in torculari^ E que cor ver- 
melha he a deíle veftido 
femelhante à dos que pi- 
zão no lagar ? Co a mefma 
comparação tinhaójà di- 
to acima , tinõíis veftibus 
deBofra •, porque Bofra, 
quer dizer vindemia , vin- 
dima. Refpondeo o Se- 
nhor : Tor calar calcavi fo- ^^ -^^^ 
/»/, & de gfntíbus non eft 
*vr mecum Tporque o lagar 
cmquefe me tingirão os 
veftidos, eu fó o pizeijfem 
eftar ninguém comigo. 
Donde fevè a differença 
do fangue derramado na 
Cruz, em que a mefma 
Mãy o acompanhou como 
Corredemptora, &: efteve 
cercado de tantos, aílim 
feuscomo eftranhosjà do 
fangue fuado no Horto, 
em que eíieve fó, & foHta- 
rio,5c atè os que tinha dei- 
xado 









< i! 



Thren. 



xado mais perto, dormin- 
do. E porque efte Tangue 
do Horto na metáfora de 
lagar foi o applicado par- 
ticularmente à redem.pçaó 
da Virgem : aqui vem 
caindo quando menos o 
fom das palavras de Jere- 
mias : Torciílar calcavit 
U)omirms Vir gini filia ht- 
^a:quG o mefmo Senhor 
foi o que pizou o lagar pa 
ra a Virgem, filha deju " 
Finalmente conclue oDi- 



Sermaoda Conceição mmaculada 



da. 



Sanguis eorum. Mas fc 
Chriíloremio os homens 
comofangue, que tinha 
recebido dos mefmos ho- 
mens, aqui fe cófirma mais 
o que dizia mos, que o Tan- 
gue com que remio aMãy, 
foi o que tinha recebido 
da meTma Mãy. E para q 
acabemos com as primei- 
ras palavras: ^lis eft ifte^ ^,°["^^' 
qiii veyiit de Edom^ Edom , 
6c AdamheomeTmOjpor- 
quehum, & outro nome 
temomeTmo íignificado. 



vmo triunfador com húas 

palavras, que parece àts- E diz a admiração dos An- 
fazem quanto temos ditoi jos em figura de Edom, 
porque diz que aquelle que o Toberano triunfador 
ílinguede queeílavaó tin- vinha de Adam, porque a 
tasasTuasveíliduras , era gloria deíle triunfo, ou a 
dos que na Tua batalha ú- parte mais gloriofa delle 
nha vencido : ^^r///j eft toda pertencei à Virgem 
Y^-^ifangms eorum ftiper vefti- immaculada. O reílo do 
meíita mea : logo Te o Tan- 
gue era dos vencidos, nam 

era leu , como Tuppomos ? de Adam , que heo ori 
Antes por ifib Teu , porque 
dos vencidos. Deos nam 



humano remio 
Chriílo naó To do peccado 



tinha Tangue , Sc para ter 
ílingue com que remir os 
homens , tomou o Tangue 
dosmeTmos homens , &c 
por iíTo diz, que o Tinguc , 
que derramoujcra dcllcs: 



iial, Tenáo dos peccados 
aduaes de todos, & de ca- 
da hum : porem a V^irgcni 
M a ri a , qu e n aò te v e p ec - 
cado ad-u:il , Tó a remio , Sc 
prcTcrvou do original de 
Ad.:m ; &: porque de là co- 
meçou o tnúfo, dcià vcyo 
otri- 




da virgem Maria S.N. \^9 

o triunfante: §lutsejtijte^ damos,&às tentaçoens^^c 



qiú venit de Edom ? 
§. VII. 

171 T7 Ste Foi o Famo- 
Ljfiílimo triunFo 
de Jefu em quanto Redêp- 
tor,primeiro de fua Máy, 
& depois do mundoimais 
admirado dos Anjos pela 
gaia do veílido , que pela 
própria PeíToa j & mais 
galhardo pelas gotas de 
fangue do Horto 5 de que 
vinha matizado,que pelos 
rios que derramou na 
Cruz 5 & regáraó o Cal- 
vário. Para os devotos da 
Conceição im maculada 
naónosíica mais que de- 
fejar, nem que fazer, fe- 
naó acompanhar com as 
vozes-, affeâros , & júbilos 
do coração as admirações, 
ôcapplaufos dos Aajos,^ 
dar aiil parabéns , Ôc' mil 
vivas a tal Filho, ôc a tal 
Máy. E poílo que todos 
peia graça do Bautifmo ef- 
tamos livres do peccado 
original, como ficamos ío- 
geitos à corrupção, & fra- 
queza,que com elle her- 



perigo dos peccados a- 
£buaes 5 o que muito nos 
convém , & de que muito 
neceílitamos, he , que por 
meyo da interceílaó pode- 
rofillima da mefma Máy 
nos valhamos da eíficacia 
do mefmo Tangue do Fi- 
lho. Alleguemosaambos, 
que a virtude daquelle 
preciofiífimo Tangue, nam 
To he remir , 8c livrar dos 
peccados jà cometidos,Te- 
naó preTervar anticipada- 
mête delles j & digamos ao 
míTericordioíiílimo Re- 
demptor o que tantas ve- 
zes repete a Igreja : Cito 
antícipent nos mijericordÍ£. 
tu£:qu.e não To nos livre 
Tua infinita miTericordia 
dos peccados com que o 
temos oíFendido , mas Te 
anticipe a nos preTervar 
dos futuros, para que nun- 
ca mais o oíFenda mos, Na- 
quella noite fatal, em que 
Deos tinha decretado ma- 
tar os Primogénitos do E- 
í^ypto, mandou aos íilhos 
deíTracl, que anticipada- 
mente T^crifícaíTem hum 
Cordeiro , & que com o 
Tau-. 



i 




T 90 Sermão da Concetçao mmaculaãa 

fanguc delletingiíTem, & do de nos tentar. E flhal- 
rubricaíTcm todas as por- mente, para que ninguém 
tas defuascafas^paraque duWde5queo meímo fan- 
oAnjoaqueni eílava en- gLieanticipado foi fi^^ura 



comendada aquella exe- 
cução 5 onde vi^Q, o Hm- 
gue, paíTaíTe, Sc deixaíTc li- 
vres os que eílaváo den- 
tro, & onde o naó viíle, en^ 
traíTe, 8c mataíTe a todos 
os Primogénitos. Eíle An- 
jo he mais provável, que 
naó era Anjo bom , fenam 
Demónio, & aflim diz a 
Igreja, que por medo do 
meílnoíingue naó fe atre- 
via nem a olhar para as 
cafas, que elle defendia; 
Sfarfum cruorem poftibus 
vaftator horret Avgeíus.St 
as portas exteriores de 
noíla alma, que faó os fen- 
tidos,8cas interiores, que 
faó a noííli memoria, ente- 
dimento, & vontade , efti- 
verem (inaladas com o ca* 
radter, &: armadas com a 
protecção daquejle Tangue 
taóanticipado deftruidor 
do peccadojnãofó defcon- 
fiarà o Demónio de nos 
vencer, mas ainda terá me- 



do Tangue do Horto , & 
naó do da Cruz: o da Cruz 
derramou Te doze horas 
depoisjao meyo dia: & o 
do Horto jà Te tinha der- 
ramado doze horas antes, 
à meya noite :& eftaToi a 
hora em que o Tingue tri- 
unfador obrou aquelles 
prodigioTos eíFeitos : Fa^ 
ãmn eft autem^in no6fis me ^ ^, 
dio perciijjit ^ominus om- 10.29^ 
ne primagenitum in terra 
(iyEgyptí. Aílim livrou 
Deos aos filhos de ITrael do 
cativeiro do Egypto por 
meyo do Tangue do Cor- 
deiro,&aílim nos livrará 
do cativeiro do pcccado 
por virtude do Teu Tangue 
o Cordeiro , que tira os 
pcccados do mundo, pre- 
Tervandonos anticipada- 
mente dos aduaes , como 
a n ti ci pada mente preTer- 
vou do originai a Mãy de 
qucmnakco: 'De^uana- 
tuseft Icjus. 



SER 




10t 



SERMAM 

DA 

D O M I N G A 

DECIMASEXTA POST PENTECOSTEN. 



ReciimbeinnoviJJimoUco. Luc.14. 




Odas as vezes, 
que o Filho de 
Deos fe aíTen- 
tou à m€ fados 
Jiomeas, íempre foi o me- 
lhor prato a fua doutrina. 
Comia o que regulava a 
temperança, &enfinava o 
que didtava a prudência. 
A matéria era a que lhe 
davaaoccaíiaó, & elle fo- 
breaoccaíiaõ eftendia, il- 
iiiílrava^fic definia a ma- 



téria. Os documentos to- 
dos eraó divinos, & naô fó 
moraes , fenaó ainda poli- 
ticos. E digo moraes, & 
politicos i porque tal foi a 
doutrina do prefente E- 
vangelho. Os que entaó 
com nome authorizado,& 
hoje com íignifícaçam 
odiofa fe chamaó Fari- 
feos , eraó os Religiofos 
daquelle tempo. Diz pois 
o Evangeliíla S.Luças>que 
convidando hum Princi- 
pe dos Farifeos j ifto he, 
lium 



I 

i 



■■s 





191 

hum Prelado daquelles 
Religiofos, a Chriílo Re- 
demptor noíTojpara que 
quizeíTe honrar a fua mefa 
e m hu m dia de feita , qu e 
era o fabbado , aceitou o 
benigíiiílimo Senhor o cõ- 
vite. Aceitou > poílo que 
naó faltava quem murmu- 
raíTe o aceitar. Pareciaihe 
aos murmuradoresjquefe- 
melhantes convites eram 
jnends conformes à auíle- 
ridade da vida, 6c à autho- 
ridade, & proíiílaó de hu 
Meílre decido do Ceo. 



Sermão da decima fext a T>ommga 



ícrvaçao:naoa obfervan- 
ciadodia, mas a obferva- 
çaó do cóvidado. E q fez 
o Senhor, que lhe conhe- 
cia os coraçoens ? Aceitou 
a meia como homem , dif- 
íimailou a malicia como 
Deos :6c no que obrou co- 
mo Deos, ^ reprehendeo, 
Ôcenfinou com.o Meftre, 
moílrou que era Deos, 6c 
homem. Curou ao Vi^- 
dropico, 6c depois tratou 
deoscuraraelles: aoHy- 
dropico, tocando-o com a 
máo,6c aeiles pondolheas 



Mas a razaó,que o Senhor máos,6cmuito bem poílas*. 
tinha para fenaó efcufar , Náo ha vicio mais defcor- 



moílravaó depois os eftei- 
tos muito âi\N^i'íos y Sc de 
outra mais levantada es- 
fera, como também fevio 
no cafo prefente. 

173 Atenção dos Fa* 
rifeosera farifaica ; porq 
Ihearmáraó a Chrifto có 
hum Hydropico, a ver fe 
o curava naquelle dia, pa- 
ra o poderem calumniar 
de qucbrantador do fab- 
bado : Sabbato manda c are 
fanem , O' tpfi obfervabant 
€um. Náo os Icvcu a IH a 
obfervancia jlciuió a ob- 



tez, que a foberba ^ nem 
mais defcom edido, que a 
ambição. Como carece da 
modeftia por dentro, tam- 
bém lhe f-Jtaa urbanida- 
de por fora. Naô diz o E- 
va ngciifra o lugar,que déí*- 
fem na mefa a Chriíioj 
mas diz, que os convida- 
dos fem corteíia , nem ur- 
banidade, todos procura- 
vaó 5 & ainda contendiam 
íbbre os primeiros luga- 
res. Eíla foiaoccafiaó,Sc 
effcoponto da doutrina, 
por iílo moral , 6c junta- 
mente 



mente politico. 

174 Fez Deos efte 
mundo em forma circular, 
como a mefajou tabola re- 
donda dos Pares de Fran- 
ça, para evitar a contenda 
dos lugares, naó fendo ju- 
llo,quedeíigualaíre o lu- 
gar os q tinha feito iguaes 
a natureza. Mas como a 
foberba , Sc ambição pre- 
verteíle a igualdade defta 
ordem , com outra ordem 
defordenada de primei- 
ros, fegundos atè últimos 
lugares, Sc os Farifeos na 
mefa affedbaífem os pri- 
meiros 5 efte foi o vicio, q 
o Senhor obfervou nos 
feus obfervadores. Inten- 
dens quomodo primos accu 



pfíftTentecofien. ^ ipg 

CO rteíia. Na eleição dos lu- 
gares notava-os o Senhor 
de pouco juizo , & no mo- 
do de cada hum fe prefe- 
rir,& antepor aos outros, 
de pouca urbanidade : &: 
eftes dous defprimores 
nafcidos ambos do mefmo 
vicio da ambição, Sc fober- 
ba, reprehendeo, & emen- 
dou o foberano Meftre 
também com hum fò do- 
cumento : Cum njocatus 
fuerisad nuptias , recumbe 
in novijjimo loco : Quando 
fores convidado à cafa , Sc 
àmefaalhea , naó deveis 
tomar os primeiros luga- 
res, fenaó o ultimo. E por- 
que? Porque naó fucedwi 
vir o fenhor da cafa, a que 



Ibid.i 



tóus eligerent: 01hava[diz pertence a repartição dos 
oEvangelifta}comparti- lugares ,&: vos mande le- 
cularattençaó para o que 
faziaô os convidados , & 
para o modo com que o fa- 
ziaô : o que faziaó, era to- 
marem por própria elei- 
ção os primeiros lugares: 



vantar do que tomaftes, & 
o dè a outro melhor , Sc 
mais honrado que vos. En- 
tão vos achareis có afron- 
ta no ultimo lugarjporque 
foftes taó defcomedido, 
f rimos accubitus : & o mo- que vos atreveftes a tomar 
do com que o faziaó, quo- o primeiro:^? incipiâs cum ibfd.9. 
' ' ' " rubòre noviffimum locum 
tenére. 

17 s Eftafoiahiftoria 
N da- 



modo, era introduzindofe 
nellesfem nenhum modo 
de modeftia, refpeito,nem 
Tom./. 



i 



ÍW 



■m 



194 Sermão daTíomingadecimarexta 

daquellecafo, & daqudle defeja melhorar de luMr 

du,aqueo mefmoEvan- ,E nenhum fe acha em tai 

^Í1^ '^ T """""^ P?- P°^°' P°r levantado , & 

rabola : Htcebat autem ò- acomodado que feia, qne 

ad tnvttatos paraholam. naó procure fubir a outro 

Mas feerahiftoria, como melhor. He própria efta 



era parábola? Tudo era. 
Era hiftoria quanto ao 
fuceíTo , & era parábola 
quanto á doutrina. Quan- 
to ao luceflb , era hiftoria 



inclinação da natureza ra- 
cional, como fe fora ra- 
zaó,& naõ appetite. Pri- 
meiro nafceo no Ceo com 
os primeiros racionaes, q 



-.-^..^ , v,xc* xixiLuiid os primeiros racionaes, q 
particuiarpara os prefen- faò os Anjos,& depois fe 
!!! L^^^^^^^Jí^o a doutrina , propagou na terra com os 



era parábola univerfal pa- 
ra todos. A todoS:, & a ca- 
da hum prega hoje Chri- 
fto : Recumbe in novifjimo 
loco. E haverá nefte mun 



fegundos , que fomos os 
homens. Lúcifer no Ceo 
tendo a fuprema cadeira 
entre as Gerarchias , nam 
';■"" ""-»--"v..Lt uiuii- aquietou naquelie lu^ar, 
do quem efcolha por pro- & quiz igualar o feu coní 
pria eleiçao,& fe contente o do mefmo Deos • ExaU 



cultofo ponto para fe en- 
tender, & muito mais ^i^' 
cultofo parafe perfuadir. 
Por iífo tomei por Them a 
eíla única , & admirável 



ero AltiCimo. Adam na ter 
ratendooabfoluto domi- 
nio de todas as creaturas 
dos três elementos j nam 

«v^uiiiavci coube, nem fe contentou 

íentença,ôc ella fo íerà to- com hum Império taó va- 
^.^^fria do meu dif- ílo , & em hua Corte taó 
curfo. Ave Maria, deliciofa como o Paraifo, 

r> / • ^. também quiz melhorarde 

Kecumbe m novifjmo loco. lugar : Emisficut dij. E q ^^^^ 

^--^^ , ^í^io íia deíle piJjnciro 

^^^ T^Odo o home Pay, de que todos naíle- 

X neíle mundo mos, que iiaó hcrdafle dei- 

k 




Ic a altiveza fempre m- 
quieta defta mefma pai- 
xão ? O Letrado , o Solda- 
do, o Fidalgo, o Titulo , o 
de grande nome, 6c o que 
naó tem nome , com o cui- 
dado, & defejo nunca jà 
mais fatisfeito , nem foce- 
gado, todos trabalhão, & 



poJtTentecoften. 



19S 



ponto contenderão todos 
fobre a maioria j porque 
logoafpirou cada hum a 
lhe fuceder no lugar. Do 
Emperador Trajano difíè 
Plinio, que ninguém o co- 
nhecia taò pouco a elle, 
nem fe conhecia taó pou- 

^c^^Kjy twvtw .x«-« ,^ có a fy, que ti vefíeoufadia 

fe defvelaò por ac}iantar,& de lhe fuceder : Nma eji 
melhorar de lugar. Sò pa tam tui , quàm ignarusfui , pj,,,:,, 
rece , que deviaò viver utlocumipfumpoft te r<?»- imane» 
izentos de femelhante fo- cupfiat, E tiveraó atrevi- ^^'' 
geiçaó os que deixarão o mento doze pefcadores, 
mundo,& profeíTaÕ o def- para quererem fuceder ao 
prezo delle 5 mas là os fe- mefmo Filho de Deos , & 
gue, &fogeitao mefmo lhe pleitear o lugar ainda 
mundo a que lhe paguem em vida. 
& voíi 



efte duro , & voluntário 
tributo. 

177 Coufa foi digna 
de admiração, que osDií^ 
cipulos de Chrifto , antes 
de decer fobre elles o Ef- 
pirito Santo , contendef- 
fem fobre qual era o ma« 
ior : ê^is eorum videretur 
ttic.22. gíT^ fnaior ? A occaíiaò po- 
rèm,&o motivo delta co- 
tenda ainda he muito mais 



§. III. 

1. convencer ef- 
te abufo univerfal , naó fò 
dasguerras,& competên- 
cias, m as ainda das pertê- 
çoens pacificas do melhor 
lugar j naô deixarei de re- 
ferir primeiro três opi- 

vwii^cv ccxxx^^ x.v, .. . nioens,ou fuppofiçoens ti- 

admiravel.Equal foi? A- radas da fagrada Çfcritu^ 
cabava o Senhor de lhes ra, as quaes naó fô içonde- 
revelar, que hiaa Jerufa- naóefta ambição taô pro- 
iem a morrerjSc no mefmo fundamente arraigada nos 

N ij cp- 




i 






196 Sermão daTiommgadedmafext a 

coraçoenshumanos, mas ftermuuo tempo. Naó o 

totalmente cortaó as rai- ^clxov^, à-nonerat,^oZl 

zes a toda a noíTa queftaó. ou tinha cah.do àLk^ò, 

A pnmewa nega abfoluta- ou tinha acabado a vida • 

menteoquefuppomos,& masque naó achaíTe Dal 

diz,quenao ha lugares: vido lugar onde o tinha 

que no mundo fe chama ejus .? Sim , refponde Car- 

lugar, por alto, & levanta- thufiano , & o prova com 

do,quepareça, bem exa- ^rmote/es. Jr^ILS 



pfai. 35. minado, he nada : Viditm- 
Sf.jó. pumfufjerexaltatim , ér 
eievatiimficut cedros Liba- 
ni: tranfivt^&ecce non erat^ 
&noneft invenUis locus 
^V/j: Viaoambicioro, diz 
Da vid^ levantado fobre os 
outros homens, como os 
cedros do Libano fobre as 
outras arvores : dei dous 



locatumfmt fimul, fccun- 
dum Tbilofophuyfubtraão 
ergo locato,& locus non ma^ 
net. O Iugar,&: quem eftà 
nelIe,regundoa verdadei- 
ra Filofo fia, Çixo taó reci- 
procamente dependentes 
hum do outro, que faltan- 
do oqueeílava no lugar, 
nemelle , nem o mefmo 



^^fT^r. A- « 7 "'-"ivn». 5 nem o meimo 

paflosadiante, & quando lugarpodem fubíiílir • & 
voltei os olhos para o tor- poriífodiífe bem David, 



naraver,jào naó achei a 
clle, nem ao feu lugar. A- 
^uieílàoponto da admi- 
ração : Et nonefl inventas 
locus ejus, Que David a taó 
poucos paíTos naó achaíTe 
aoambiciofo , que tinha 
viílo taó levantado , a nin- 
guém deve admirar , por- 
que para fazer femelhan- 
tcs mudanças, nem a mor- 
te, nem a fortuna h,ió mi- 



que tanto que defipareceo 
o ambicioíb, &:poderoíò, 
nemaeIleopodever,nem 
achar o lugar onde eíHve- 
ra:£'^ non e/t mventus locus 
ejus. 

179 Efeeftaconfe- 
quenciahe verdadeira no 
lugar que chamaó filico, 
no lugar moral, de que fil- 
iamos, ainda hc mais cor- 
ta, fcgundo a deliniçaó do 
md- 




poft^entecoftetf. ^97 
mefmo Filofofo. Arifto- cair,naQhe o mefmo que 
teles definindo o lugar, herdou, ou pertendeo an- 
dizqueheafuperfícieam- resdeooccupar ? Simta- 
bientedo queeílà nelle. E bem : pois íe pertendido, 
quando o lugar naó he o occupado, &: deixado, era 
ambiente do homem , fe- o mefmo lugar , porque o 
naóo homem o ambiente naó achou David depois 
do lugar, como no noíTo de deixado > Porque de- 
caio 5 muito melhor fe fe- pois de deixado,era o nief- 
gue, que faltando a fu- mo que dantes tinha fido, 
perficie ao chamado lu- &per tendido, poífu ido, & 
gar, nem he lugar, nem deixado, fempre foi nada. 
coufa algúa. E fe nam he Elegan^ , & doutamente 



Hu go C ardeal; Non eft in- 
rventus locus ejus : quodfua 
dignitas nullaerat , &fuum 
effenoneffe erat. Nam fe 
achou o lugar do que efta- 
valevantado como os ce- 
dros do Libâno ; porque o 



-coufa algúa, como o havia 

xie achar David ? Mas tor- 
nemos a apertar mais eíla 

propofiçaó, pois o mefmo 

David no mefrpo Pfalmo 

a repete duas vezes , huma 

vez dizendo que bufcou, ^ . . 

^ naó achou o lugar: ^^- fer dos que nefte mundo íe 
fi,íá .6 rivu&mn ejt in-ventus lo- -c ha mão lugares , nam he 
^'' mi^us^ & outra vez di^ fer,henaó fer : Smm effe 
zendo, que fe nos o buf- non effe erat. E fe os mel- 
carmos , também o nam mos chamados lugares, ou 
acharemos : ^£res íocum pertendidos, ou poíTuidos, 
o.^ms,& non inventes. Per- ^ou deixados, nao fao cou- 
eunto-.Efte mefmo lugar, faalgÚa-,bem fe conclue, 
que David bufcou, & naó que nefte mundo nam lia: 
achou, naó he o mefmo, q -lugares. E iílo quenao he„ 
oambiciofo occupou an- nem ha, he o que com tan- 
tesde morrer , ou cair? todefveloamao,&burcao 
-Sim. E eHe lugar , que oc os pertendentes da vaida- 
cupouantesdemorrcr^ou de 5 &^a mentira: Vtqntd^- 
^ Tom.;. ^''^ ^'' 



Ibid 



{ 




m 



19^ S^maÕ daT>omlngadecimarexta 

Pídm. dtltgituvmttatem.&qu^- faóosquedaóa bondade. 

180 Afeguda fuppo- 
íição, feguindo o fentimé- 
to vulgar, & comum, ad- 
mite, que no mundo ha 



ou melhoria aos lugares , 
&naó os lugares aos ho- 
mens. Se fores bom, ainda 
que a cadeira feja dos Ef- 
cribasj&Farireos, feràbó 



lugares; mas nega queha- o voíTo lugar ; & fe fores 
ja lugar n^elhoE porque? mao, aind! quea caSa 

í(?irol ^ ""r^""''^ "'^ íejadeMoyfes, nem por 
efta no lugar, fenao na pef- líTo o voíTo lugar fera bom. 
foaqueooccupa.Poralto, Que melhor lugar, que o 
ou baxxoquefejao lugar, CSo,&oParaifl >Tn^^ 
le fois bom,rerà o voíTo lu- ~ 
garbom 5& fe fois me- 
lhor, fera melhor: mas fe 
fores mao, & peôr , tam- 
bém fera mao, & mais que 
mao o voííb lugar. Diz 



oCeofezboma Lúcifer, 
nem o Paraifo ^^z bom a 
Adam. Jeremias raó bom 
era no cárcere , como no 
púlpito: & Job taó bom no 
muladar,comono feuPa- 



r^í.,.;A^c u ^ ^ J^^ui^uar,comono leufa- 

ChriftoSenhornoíro, que lacio. Meilior lugar era no 

fobrea cadeira de Moy- maronavio,queo ventre 

h'/lt'"^''^ ?^^^^^^- cIaBalea,&Jonasforme' 

bas,acFarxreos:%.r ca^ Ihorno ventre da lídea 



thedram MoyfifederÚtScri. 
Manh. b^.é^Thanf^r. £ quem 
foi Moyfes, & quem eram 
os Efcribas , & Fariíeos.? 
Moyfesfoio maior Santo 
dofeu tempo, &os Efcri- 
bas, & Farifeos eram os 
mais mãos homens do feu. 



que no navio. Aílim que 
os lugares por fy mefmos 
naófaó mãos, nem bons, 
nem ha lugar melhor, ou 
peor. O lugar que hoje tê 
S.Mathias,naófoi o mef- 
mo dejudas? O mefmo,& 
naô outro. Se fores como 



Pois fe pftn,.7' 7r j ri ''"^^^' ^^ ^^^^^ ^'omo 

roís le eítavao aífentados Judas, naó vos ha de fizer 

na melma cadeira deMoy. bomolugardeS Mathns 

fe, porque não eraô como &fe fores como SM - 

cllc ? Porque os homens thus, nag vos ha de fa7;r 



mao 



; } 




poflTentecofien. ipp 

mão o lugar Me Judas. Se res,netn peores : para que 

quereis ter o melhor lu- ninguém fe defcontente 

gar de todos, fazei por fer do feu, fenaó de fy. 

omelhordetodos,&Iogo 181 A terceira fuppo- 

ovoíTo lugar, qualquer q ííçaò admitemelhoreslu- 

feja,rerà também o me- gares •, mas diz que eílesfó 



181 



Ihor. Mas todos querem 
melhorar de lugar> & nin- 
guém quer melhorar de 
vida. Sucedelhe aos ambi- 
eioros,o que aos peregri 



oshanoCeo, &: nam na 
terra. E porque ? Porque 
todos os lugares da terra , 
por melhores que fejaójou 
pareçaó, mais faó alhcos. 



/pud 
€i.necá 



nos, diz Sócrates. O pere- que noíTos , mais par^ os 

grinofempreanda muda- deixar,queparaospoíruir, 

dode lugar cm lugar, &r maisparaos perder, que 

nunca melhora , porque para os lograr. Os lugares 

fempre fe leva a fy comfi-. da terra fao paíTagem, fo o 

^.ueca 20 kuid mirarisnihilti' do Ceo he aíTeiito : os da. 

e' à « bipeTeznnationesprodeí[e , terra faó de poucos dias,o 

' ' €km tf circumferas> Como doCeo ha de durar para 

duereis melhorar de lu- fempre. Ceando Chrifto 

Sar, fe vos levais a vós cÓ Senhor noíTo partio deite 

vofco > Deixai- vos a vós , mundo para o Ceo , a ra- 

& como VÓS fordes outro, zaô com que confolou aos 

logo o voíTo lugar fera Apoílolosfaudofosde fua 

melhor. Se fois o mefmo , aufencia, foi, dizendo,que 

ainda que fubais ao pina- hia diante a prepararlhe o 

culo do Templo , nunca lugar: Vado par are vobts ]^ 

fahireis do lugar onde ef- locum : fendo porem o mo- 
tais • & fe fordes outro , & tivo defta coníolaçao o lu- 
muito outro , fem íair do gar, mais perto eitavaó os 
lugar onde eílais , vos ve- lugares em que o Senhor 
reis fubido ao mais alto do os deixava , que o lugar 
Templo. Em conclufaó, que lhes havia de prepa- 
Quenaóhalugaresmelho- rar: porque fendo eíte fu. 
^ ^ N 111) t*ir9í 



i 



2 00 SermaÕ da T>ominga decimafexta 

turo, &diílante , parece menorJerufalem.&ameA 

que vinha a íer confolar majudea , de que era ca 

hua auíencia com outra. beça. Poisfeeraó taóim- 

ÍMaquelIaultimahoraem menfamente grandes os 

que Jacob morrerrdo fe lugares em que Chrifto 

apartou de feusfilhos(;que deixava aos feus Apoílo- 

também eraó dozej a con- los , & com taó fuprema 

foiaçao com que lhes en- dignidade, &;urdicaó fo- 

xugou as lagrimas , foi a bre todos eiles ^ porque os 

repartição das terras em naÓ confola o Senhor com 

que os deixava acomoda- a confideraçaó á^^^s \\x- 

dos a todos. Efe para os gares prefentes^fenaó com 

doze 1 atriarcas eraó mo- oJugarfuturo.queiheshia 




tivo de confolaçaó na au- 
fencia de feu Pay taó pe- 
quenos lugares da terra , 
quaespodiaócabera cada 
hum dividida a Judea em 
doze partes3quanto maior 
podia fer para os Apoílo- 
lostodoo mundo , quam 
grande he repartido entre 
elles ? Diga pois Chriílo a 
Pedro, que lhe deixa Ro- 
ina5<5c a Itália ; diga a Ja- 
Gobo , que lhe deixa as 
Hefpanhas , a Joaó a Afia, 



preparar? Porque efteera 
lugar no Ceo, os outros na 
terra. E neíla fó palavra fc 
encerraó ambas as razoes, 
que no principio aponta- 
mos. Os lugares da terra 
faó paíTagem, o do Ceo he 
aíTento. Por iíFo quando S. 
Pedro perguntou a Chri- 
fto : èluidergo ent noòis ? o ^^: 
á o Senhor lhe refpódeo, 
foi : Sedebitis fuper fides í.^,j.,g, 
duodecim.judicantes auode- 
cimtribus Ifrael. Naò lhe 



a André a Grécia, a Feiíp- refpondeoàs barcas, &rc 
pe a Sythia, a Bartolomeu des, que tinhaó deixado, 

com as dignidades que ha- 
viaò de ter neíí^e mundo, 
fenaó com as cadeiras em 
quefe haviaó de aílcntat 
jio dia do JUJL20 : porque fó 
ode 



a Arménia , a Mattheus a 
Etyopia , aThomèa Ín- 
dia, a Simão o Egypro, a 
Thadeoa Arabia,6caPer- 
iia, ôc ao outro Jacobo o 




poflTentecoften. 201 

o de que fe ha de tomar o que tem no Inferno en- 
poíTe naquelle dia, tem af- ut os Demonios^eíTe era o 
fento,odecàtudo hepaf- feu , porque eíTe he o que 
faaeai. E porque mais? ha de durar por toda a 



^^3 Porque fó o kigar, queen 
taó nos couberjie noííb,& 
os deíla vida mais faó 
aiheos, que próprios, por 



25. 



eternidade. E fe ifto fuce- 
deo a hum homem chama- 
do por Deos, & eleito por 
Chriílo ', onde iráó parar 



mais larga que feja a mef- asnegociaçoens, osfobor 

ma vida. Nmguélo2;rou, nos,as adulaçoens, & as 

nem ha de lograr o Ponti- fimonías com que fe pro- 

íicado mais annos, que S. curaÓ,& alcançao os lusa- 



res, que haó de durar pou- 
cos dias, fem memoria da^ 
eternidade, nem temor da 
conta? 

í. IV. 



EStes faó os três 



Pedro,& com tudo jà tem 
fucedidono mefmo lugar 
duzentos Sc trinta & ÍQZt 
Pontiíices,& naó fe fabe 
quantos viráó depois ; pa- 
ra que vejais fe era mais 
alheo, quefeu. Sòhe nof- 
íb, ou feja no Ceo, ou fó; 
radelleo lugar, q ouver- 
mos de ter para sépre. Ef- 
le foi o doeu meto, <Sc ener- 
gia tremenda com que o 
mefmo Príncipe dos A- 
poílolos diífe , que Judas 
perdera o Apoílolado : pa« 
ra que ? Vi abiret in locam 
futtm : para ir ao lugar, que 

era feu. O que teve nefte 

mundo, & entre os Apo- 

ftoIos,era alheo, porque 

eradeS.Mathias, & dos ^ 

que lhe haviaó de fuceder: lugar,&: meiliQr lugar,mas 

nao 



Cl fundamentos , 
ou as três fuppofiçoens ge- 
raes,com que naô fó fe im- 
pugna aambição dos me- 
lhores lugares j mas fe cor- 
taô as raizes a quanto ella 
defeja. Porque a primeira, 
como vimos, diz abfolu- 
ta mente, que naó há luga- 
res: afegunda concede q 
ha lugares, mas nega ha^ 
ver algú, que feja melhor : 
a terceira defende que ha 



i 



i 



iiV. 



-li 



itmin 



%m^ 



2à2 Sermão da T>omhga dedmafexta 

rTofidíd'?Í^ -'^^"^ '"' ^confelha, que tomemos o 
riolidade, eílarao eiperan- ultimo lu^ar • Recnmbe in 
do todos, qual deftas par^ novtjnmolco, EpZnZ 

llt!.TV" P''''"^^ aí-entençadeChK Jor 
perfuadir. Primeiramen- fer de Chriílo, naô fe pó^ 



te,refpondo que nenhuma 
delias. Porque contra a 
primeira,íigo que ha luga- 
res : contra a legunda, qlie 
íia lugar melhor i 5c contra 
a terceira,queefte melhor 



decontraríar,&a dos Fa^ 
rifeos , por fer dos Fari- 
feos, parece que jà cílà c6- 
vencida ; com tudo a de 
Chrifto todos a regei taó, 
& a dos Farifcos todos a 



.'X z^ — '"'^^ oca uus rari: 

lugarnaoeitanoCecCde feguem. Aílim o vemos 
queagoranaó fulloXenaô hole,& jàemfeu tempo! 



na terra. Admitindo pois 
com o comum fentimen- 
to, que ha lugares, 6c huns 
melhores que outros j o 
que pertendo hoje decía- 
rar,he: Entre todos os Li 



coiiifertaò viiluho ao de 
Chriílo, o provava com a 
experiência Tertulíiano: 
Adprwmm locum ctrtnmê 
omnmmcontendít : fccun^ 
dumfolamen hahet , vião" 



gares do mundo, qual fe,a naJno,, habet. O d;fe oVa 
omelhor. Naopôde ha- pertençáo,& a vontade de 



ver matéria mais digna de 
todaaattençaó , & tanto 
inais,quanto jcà cada hum 
a tem refoluto comilão, 8c 
lhe parece fem controver- 
íia, > o Evangelho temos 
o parecer dos Varifeos, & 
o confclhode Chriílo. Os 
Fariíèostem para Ty, que 
o melhor lugar do mundo 
heo primeiro : ^lomodo 



todos os homens he íbbre 
quem ha de levar o pri- 
meiro lugar :&taó porfia- 
da , <Sc unicamente o pri- 
meiro •, que o fegundo lu- 
gar, ainda que icja aigua 
confolação , de nenhum 
modo he vidoria. E fe nin- 
guém fe contenta com o 
lègundo lugar,porqucnaó 
he o primeiro i polto que 
acima 




poftTmtecoHení 
acima de fy veja hum fó, de Chrifto 
& abaixo de fy todos os 
outros > quem haverá, que 
fe contente com o ultimo ? 
Nosfamoíòs jogos Olim- 
picos 5 que fe celebravaó 
na Grecia^Sc eraó provo- 
cados à contenda todos os 
homens do mundo, havia 
primeiros, fegundos , & 
terceiros prémios : & com 



20^ 

para que o 
creamos. Mas efte ponto 5 
que naópcrfuadeaFè,co- 
mo o pcrfuadirà a razaó? 

1 8 f Ora efta fera hoje 
a minha emprefa : De mo- 
ftrara todos os homens, 
que o m elhor lugar do mu- 
do heo ultimo. E naó fò 
para a outra vida , fenam 
para efta 5 nem fó para a 



tudo diz S.PauIOyque hum virtude, fenaõ para a co- 
fó levava o premio: Ow»í'j' modidade3 nem fô para a 
infiadio curnmt -ifed nuns mortificação, fenaó para o 
accipitbravium: ^Qr(\\ico goílo j nem fó para a hu- 
premio a que todos afpi- mildadcjfenaó para a hon- 
ra váo, era o primeiro , & ra. E tudo ifto quer dizer 



fó os que fe adiantavaó na 
carreira aos demais , 6c có- 
feguiaó o primeiro lugar , 
eraó os eftimados por vê- 
cedoreSjSc laureados com 
a coroa. E fe S. Paulo de- 
pois de Chrifto, &: efcre^ 
vendo a Chriftáos,quaes 
eraó os Corinthios , lhe 
propõem efte exemplo, 
pofto que nafcido entre os 
Gentios; quemfe atreve- 
rá a perfuadir a qualquer 
homem, que o melhor lu- 
gar heo ultimo ? Digo a 
perfuadir, & não a crer; 
fSoxque bafta fer confelho 



Recumbein novijjimo loco. 



i%6 



A Primeira pre- 
rogativa do 
ultimo lugar he fer muito 
fácil de confeguir. Aos ou- 
tros lugares,ain da que naó 
fejaó os mais altos , che- 
gafe tarde, & com diíficul- 
dadejao ultimo, logo, Sc 
facilmente. Não he mais 
diíficultoíb o fubir, que o 
decer.^ Pois efla he a razaó 
ainda natural da grande 
facilidade com que o ulti- 
mo 






fl 







4.Reg. 
20. o. 



2 04 Sermão da dominga ãecimafexta 

mo lugar feconfegue. Aos pondeo em continente 



outros caminhafe a paíTo 
lento, fubindo j ao ultimo, 
quafi fem dar paílb^decen- 
do. Quando £lRey Eze- 
chias defejou , que Deos 
lhe confirmaíTe os annos 
devida, que lhe promete 



que naó queria que deccl- 
fem , fenaó que íubiíTem , 
dandoporrazão,queode- 
cer era fácil ; Facile eftum- 
bramcrefcere dccem lineis\ íbid.ioi; 
nechoc^olo titfiat ,fed ut 
rever tatur retrorfum decein 



ra,com algum milagrerpoz gradibus. AíTim refpondeo 
o Profeta Ifaias na eleição Ezechias, náo como Mar 



do mefmo Rey , que eíco 
IheíTe hum de dous,ou que 
o Sol deceíTe dez linhas,ou 
que fubiíTe outras tantas. 
E porque ellando Eze- 



thematicojfegundoa ob- 
fervação particular da- 
quelle cafo , mas como 
prudente Principe, Sctaó 
amigo da fama, como da 



chias na cama, nao podia vida^fegundo as regras ge- 
veroSoi,&:fó podia ver a raes da experiência: Scdif- 



fombra no relógio de Pa 
lacio,que defde a mefma 
cama íe defcobria , foi a 
propoíla eíla ; Fis nt aj'cen~ 
dat timbra de cem line.s , an 
ut revertãUir totidcm gra- 



febem. O feu intento era 
acreditar o milagre pela 
diííiculdade do movimen- 
to do Sol , & por ifib diíle 
com tantareíblução , que 
não queria que deceíTcfe- 



dibus?Q\\^Y VoíTaMage- náo que fubiííb -, porque 



ílade, que a fombra fubá , 
ou que dcça dez linhas ? A 
mefma propoíla , confor- 
me o fitio em que o Sol fe 
achava naquciía hora, mo- 
fl:ravabem,que naó feria 
menos milagre o de decc- 
rcmasfombras, que o de 
fubirem. Cótudo oRcy, 
fcm maisefpeculação, rcf- 



naturai,&exprimcntaJmé- 
tetaódifficultofo he fem- 
pieofubir , como lacil o 
decer. A fettapara fubir, 
fegue violentamente as 
forças do arco , &: do im- 
pulfo ; mas para decer,não 
tcmncccílidade de braço 
aihco , a mefma natureza a 
leva fcm violência ao bai- 
xo, 



poftTentecoflen. 
xo,&: quanto mais baixo, fa mente fubiraó. 
deoreíHi. A 



tanto mais aepre 
barquinha poda na vea 
do R.ÍJ, CO n i vela toma- 
da, ác os remos recoihidos, 
le\^ada fó do impeto da 
corrente como em hom- 
bros allieos, taó defeança- 
damente dece , como 
apreíTada. Pelo contrario 
ao fubir pelo meímo Rio 
acima, feja o vento em bo- 



20 f 

Afetta 
nos deo o exemplo no ar, 
a barquinha na agua , & 
nòs mefmos na terra-, mas 
nas Cortes, que faó outro 
quarto elemento mais 
cheo de impedimentos, & 
difficuldades , ainda he 
mais trabalhofo o fubir. 
Também o podem dizer 
os que cançados da mef- 
ma fubida tomáraó por 



ra taó forte, que quafi re- melhor confelho o parar : 
bente as velas, &: os re- & muito mais os que de- 



meirostaõ robuílos, que 
quebrem os remos , mais 
he aaguaquefaaó, que a 
que vence m. M jS mefmos 
para fubir a huin monte, 
he com tanta dificuldade, 
& moleília , que a própria 
refpiraçaò fe cança , 8c fe 
aperta : mas para decer ao 
fundo do valle, o mefmo 
pefo do corpo o ajuda, ali- 
geira,& move : & mais le- 
vados, que andando, che- 
gamos fem cançar ao lu- 
gar mais baixo, &: ultimo. 
Taó facii he o decer,& taó 
diiiicuítofoo fubir. 

187 Digaó agora os 
que fubirao aos primeiros 
lugares, quam aifílculto- 



pois dos trabalhos, & mo- 
leftias do fubir, em vez de 
confeguir o lugar , fó alcã- 
çáraó,6c tarde , o defenga- 
no. Naó aílim o perten- 
dente do que ninguê per- 
tende, &: o eílimador do 
que ninguém eílima , o 
qual contente com o ulti- 
mo lugar, para decer com 
afetta, naó ha mifter ar- 
co, para decer com a bar- 
quinha, naó ha miíler re- 
mo, & para decer com o 
homem, &comohomem> 
quaíi naó ha miíler pès, 
nem paííbs. As azas do fa- 
vor, os impulfos do po- 
der5& os cuidados da diíi- 
2encia,tudo para ellefaã 
def- 




i 



L'.!: 






\m§ 



tes 



2 O í) Ser ma o da l^âmi 

defprezos58c rifo : & quan- 
do os outros chegaó can- 
çadosaos primeiros luga- 
res, onde haô de começar 
acançardenovo, elle def- 
cançado fe acha no ulti- 
mo,onde fó repoufa o ver- 
dadeiro defcanço. 

i88 Nàoacho exem- 
plo deíla inclinação , & 
deíla facilidade entre os 
homens-, porque a fua na- 
tural ambição mais os leva 
a fubir pelo difficultofo, 
que a decer pelo fácil. Mas 
fe elles fe lembrarem da 
facilidade,&: felicidade có 
que a Pedra de Daniel de- 
ceo do monte58c derrubou 
aEftatuade Nabuco , & 
trocou com elia o feu lugar 
de que a fez defaparecer 
com todos feus metaes: 
Daniel. NuUíisquc locíis iuventus 
^^^* eji eis : naquelle efpelho 
tofco, Sc infeníivel veráó 
eíles mcfmos dous erros 
do feu mal polido juizo. 
Deceo a Pedra do monte , 
6c naó bateo a cabeça, nem 
os peitos, fenaó os pès da 
Eftatua, onde parouj por- 
que efte era o lugar ulti- 
mo, ôc o mais baixoj aonde 



'nga dectmajexta 
a levava o pefo da fua na- 
tural inclinação. E nota, ôc 
pondera muito o Texto, 
que a mefma Pedra fe ar- 
rancou, &deceo do cume 
do monte fem máos : Abf^ j,^. j . 
ctffus lápis fim manibus : 
Porque .^Porque eíla he a 
facilidade,& differença có 
quefedece ao lugar mais 
baixo, 8c fenaó pôde fubir 
ao alto. Aquella Pedra 
naó era pequena,como co- 
mummente fe cuida,fenaó 
muito grande. Taógran- 
de,que fendo a eftatúra da 
Eílatuade feíTenta cova- 
dos,6c os pés, Ôc efpaço en* 
trehumjác outro iguaes a 
efta grandeza 5 ella com o 
mefmo golpe os alcançou, 
& bateo a ambos. i\gora 
pergunto : E quãtas mãos, 
& quantas machinas fe- 
riaó neceíHi rias para fubir 
eíla grande Pedra ao mef- 
mo lugar do monte , don- 
de tinha decido.^ Mas on- 
de naó podia fubir fenam 
com muitas mãoSí&: mui- 
tas machinas, ella deceo 
por fy mcí ma fcm ncceíli- 
dadc de máos próprias, né 
alheas,7^'k^ maníbus. Oh 
ceguei- 





poH^entecoften. ^ ^ 207 

cegueira da ambição hu- ouosdiftribueajuftíçajou 
mana! Dizeime, quantas faó jndulgencias da gra- 



máos bejais, dizeime,quâ- 
tas máosencheiSjdizeime, 
quantas machinas fabri- 
cais para vos alar aonde 
quereis fubir ? Edizeime 
também , quantas vezes 
defarmaó em vão eíTas 
mefmas machinas, 8c eíTas 
máos bejadas , & cheas, 
quantas vezes vos deixaó 
com as voíías vazias ; por- 
que elies alcançarão o que 
pertendiaódevòs, Ôcnam 
vò$o que efperaveis dei- 
les. A Pedra naó derrubou 
a Eftatua,para fubir [ co- 
mo vos fazeis ] pelas mi- 
nas alheas, mas o lugar que 
ellacomo foberba pifava, 
detinha debaixo dos pès, 
eíTe mefmo,por fero mais 
baixOj&oultimo,heoque 



ça. Paraajuftiçahenecef- 
fario o merecimento, para 
a graça he neceíTario o fa- 
vor. Ebaftaó eftas duas 
coufastaõ diííicuitofas de 
ajuntar? Náo baílaó. A- 
bel tinha o merecimento , 
& o favor : & o mefmo me- 
recimento 5 & favor forao 
o motivo de Caim feu ir- 
mão lhe tirar a vida. Pois 
fecomo merecimento, & 
com o favor 5 o lugar que 
veyo a alcançar Abel foi 
o primeiro entre os mor- 
tos i naó he melhor ter o 
ultimo entre os vivos, fem 
o trabalho de o merecer , 
nem o perigo de o não lo- 
grar .^ E fe illo aconteceo 
nos tempos em que os ho- 
mens fe matavão fem fer- 



tomou para fy a Pedra , & ro,& a graça, & o favor fe 
nelledefcançoucomo em alcançava fem ouro ; que 



próprio centro. 

189 Infinita coufa fo- 
ra fe ouve/Temos de por 
emparalélloas diííiculda- 
des dos primeiros lugares, 
& a facilidade do ultimo. 
Os lugares que dependem 
da v6tade,& poder alheo , 



fera no tempo prefente?^ 
Depois que as dignidadeá 
feíizeraó venaesjos luga^ 
res mais fe allugaójdo que 
fealcançáo : & não fe dap 
a quem melhor os merece> 
fenáoa quem mais caros 
os compra. O que fe buíca 
iios 



2 O 8 Sermão da T^ominga decimafexta 

noshomenSjfaóosquean- Eílaturas tão defméíiira- 












tigamente fe chamavão 
talentos : & os que hoje 
tem o mefmo nome, fenão 
eftão engaftados no mef- 
mo metal , por íingiilares 
quefejáojnão tem preço. 
Sò o ultimo lugar 5 porque 
não tem compradores, fe- 
não vende j 8c por iíTo fó 
elle fe confegue íem cabe- 
daljScfe logra fem defpe- 
za. 

ipo Confiderai,& me- 
di bem os degraos , liuns 
tio altos, outros tão bai- 



das debalde as conquiila- 
reis commefuras, que jà 
fe acabou o tempOjCm que 
os negócios fe adiantaváo 
com fazer pès atraz. ^s 
habilitações de peíroa,a fé 
dosofficiosjas certidoens 
dosferviços,&a juftifícà- 
ção das certidoens , tudo 
não tem tantas letras,quã- 
tas faó as diííiculdades có 
que nellastopão, & fem- 
pre afortehefuaj&c voílb 
o azar. Aos menores ha* 
veis de dar, que he menos> 



xos , por onde tropeçan- aos n^aiores haveis de pe- 
do, ajoelhandojôc caindo , dir,& rogar, que em quem 



ou fe perde a pertenção, 
ou fe chega finalmente a 
tomar poííè do lugar per- 
tendido : & vereis quanto 
mais cufta o alcançar , que 
o merecer. A David para 
merecer, bailou lhe derru- 
bar hum Fihíleo : mas pa- 
ra alcançar o merecido , 
foilhe neceíTario vencer a 
duzentos. E que Mini- 
ftro ha, ou Official de Mi- 
niílro, que mais pelo in- 
teiriçado, que pelo intei- 
ro, não fcja hum Filiílco 
cíyrrancudo , & armado í 



tem honra, he muito mais: 
ficando pendente a voíTa 
efperança do feu agrado , 
ócdahora, & humor com 
que foííes ouvido. Nos 
Confelheiros haveis de fo- 
licitaraconíulta, nos Se- 
cretários a penna, & no 
Principe não fó a refolu- 
cão, mas na refoluçáo o ef-. 
feito j para que tudo, de- 
poisdepa^ar os direitos, 
não venha a fcrhúa folha 
de papel fcllada com as 
Armas Reacs,as quacs ha- 
veis de cóquiílar de novo, 
para 



pofl^entecoflen. 209 

para que chegue a fer ai- dam ! que fendo difficiil- 
gua coufa, o que ainda de^ tofiirimo o fubir, & facili^ 
pois do defpacho he nada. mo o decer , elies perver- 
Eniíim, que eíles faÓ os tendo as leys da razaÓ, & 
difficulcolbs, Sccançados da natureza , antes que 



degraospor onde fobem, 
quando naó caem , os que 
aicançãoos primeiros lu- 
gares : &: fó aqueile que fe 
contenta com o ultimo, 
nem ferve, nemrequere. 



remfubircom difficulda- 
de,& trabalho, que decer 
com facihdade, Sz defcan- 
ço. E notai, que he tanta 
a facilidade, «Sc o defcanço, 
que fó fez Chrifto men- 



nem pleitea , nem adula , çaò do defGançar,&: naó do 
nem roga, nem paga,nem decer. Naó diífe como a 
deve: & fem depender de Zacheo, dtfcende , fenam , 
Minifl:ros,nemdeTribu- recumbe-, porqueo deCer, 
naes,nemdomefmoRey, ainda que fácil , demanda 
eíle he o que fe confulta, paífos,6c o recumbe^ que he 
êcelleoquefe faz a mer- eftarrecoftado ,como os 
ce,porque fe defpacha a fy Hebreos eílaváo à mefa , 
mefmo. Eque podendo- fófigniíica defcanço com 
meeudefpachar a mim, gofto,& fem trabalho i/eÉ-- 
haja de requerer diante cumbeinnovijfmo loco. 
de outrem? Naó he mais 
fácil o querer , que o re- §. VI. 
querer.^ Ouvi a juíla excla- 
mação de S. Bernardo ne- ipi A Segunda pre- 
fte mefmo cafo. Operver- Xlrogativa do 
fitas ! o abufiofilioru Adaml ultimo luga r he fer o maii§ 
&uia ctm afcendere ãiffictli- feguro. Os outros lugares 
^="'-' mum fit , defcendere autem quanto mais altos , tanto 
^i^í facilimum^, ipfi & leviter menos fegurança tem : & a 
""^' ^fcendunt, & dijfalius àefr fua mefma altura he o pro - 
cendunú Oh pcrverfidade, noílico certo da fua ruma, 
óabufo dos filhos de A- Naó querp que vejamos 
Tom.;. O eftà 



k 



i 



Matth 
24.29. 



2 1 Sermão daT>omingà decimafexta 

cila pouca fegurança em ra,^: propriamente haó de 



outro lugar, fenaó naquel- 
le mefmo ^que por fer o 
mais firme do mundo, lhe 
poz Deos o nome de fir- 
mamento. Anunciando 
Chrifto Senhor noíTo os 



cair, & o Sol, & a Lua ef- 
curecerfe fomente ; porq 
fe naó efcurecem todosjOU 
caem todos? Que cuIpa,ou 
que caufa tem as Eílrellas, 
para ferem eilas lo as que 



íinaes do dia do Juizo , diz haó de cair ? Tem a culpa 
^,,^^ c^i ru ^r V • - 1 /'i S 



que O Sol fe efcurecerà 
que a Lua naó dará a fua 
luz , & que as Eftrellas ca- 
hiráó do Ceo ; Solobfcura- 
bttur , ^ Luna non ãabit 
lumenfuu^Ò* StelU cadent 
deC^/o.Sobre efte cair das 
Eftrellas fe dividem os In- 
terpretes em muito diífe- 
rentesexpoííçoens -, por- 
que íuppoem^ que eíian- 
do as Eílrellas fixas no 
Ceo, & fendo o Ceo incor- 
ruptivel , naó he poílivel 
cahirê propriamente. Mas 
a mim ( diz Maldonado 
di (creta mente ) quando 
Ariílotelesnegaoq Chri- 
íto affirma, pareceme, que 
antes devo crer a Chriíio, 
que a Ariftoteles : M^g/s 
enimChrijio idaffirmanti ^ 
quam Ariíioteli neganti 
Jieripojfe , credendum effe 
arbjtror. Suppoílo pois 
que as Eílrellas vcrdadei- 



quetiveraó defdequefo- 
raó coUocadas noCeo,que 
he fer o feu lugar o mais 
alto. A Lua eftà no pri- 
meiro Ceo, o Sol no quar- 
to, as Eftrellas no oitavo, 
que he dos que alcança a 
noíTa vifta o fupremo : & 
náo he neceílaria outra 
culpa, ou caufa para ferem 
ellas as que haó de cair. 
Em todos os três íinaes fe- 
guio Chriilo a natureza 
dos lugares. No eclypfe da 
Lua feguio a natureza do 
lugar i porque no primei- 
ro Ceo naturalmente a 
eclypfa a terra : no eclypfe 
do Sol fesniio a natureza 
do lugar 5 porque no quar- 
to Ceo naturalmente o 
eclypfa a Lua : & no cair 
das Eftrellas também fe- 
guio a natureza do lugar; 
porque no oitavo Ceo, 
iendo cfte o mais aito,tam- 
bem 



!bid. 8. 



poft^cntecõJíen. 21/ 

bem hc natural o cain para a tentação. O primei- 

192 Não ha altura ne- rofoia torre do Templo ^^^^ ^ 

fte mundo , que náo feja de Jcrufalem : Ajjtmp(it 

precipício. Todo o lugar euminfanãam Civitatem ^ 

mais aí to que os outros.ef- & ftatuit eufuper fimacu- 

tà fempre ameaçando a /í^«íTí'«?/>/í. Ofegundofoi 

própria ruina , fem outra hum monte o mais levan- 

çaufa,ou culpa, que o fec tado, que havia naqueJle 

mais alto. Que culpa tem deftriífco -Jterum affumpfit 

as torres, Sc os montes pa- etm in montem excelfim 

ra ferem elles os ameaça- <valde. E porque razão a 

dos dos trovoens, & os fe- húa torre,& a hum mon te.*^ 

Fidos dos rayos ? Nenhúa Porqueem hum , & outro 

outra fenaò a fua própria lugar armava a derrubar a 

altura, &: ferem os lugares Chriílo. Na torre, foliei- 

mais levantados da terra, tando-oa que fe precipi- 

Parece que fe dà por of- taífe : Mitte te deorfum : no iwd $. 

fendido o Ceo de fe aviíl- monte, fa zendo lhe gran- 
des promeífas , para q^e^^.^ 



cahiílè ; Si cadens adorave- 
ris me. Os que tanto anelaò 
àfubida de femeíhantes 
lugares, 3 à que náo podem 



filiarem mais aelle, como 
fe todas as torres foraó a 
de Babel, & todos os mo- 
tes os dos Gigantes. Quâ- 

do Chriílo para nos dar .^^ ,-,-l ^ 

exemplo fe defafiou com ver quem os leva, vejaó ao 
o Demónio , a primeira menos aonde faó levados, 
eleição do lugar foi fua, A torre era lugar Eccleíia- 
provocando-o ao deferto : ílico,& fagrado j o monte, 
*Duãuseftin deJertumyUt lugarfecular ,& profaiio; 
Matth tentareturà^Diabolo.i^^iS na torre prometeolhe o 
4». * a fegunda,6c terceira elei- Demónio Anjos j no mon- 
ção foraó do mefmo Diç- te offereceolhe mundos: 
ínonio, levado elle a ChriX mascomohum, ^ outro 
fto aos lugares, que lhe pa- lugar eraó os mais altos, 
recéraò mais a propolico ou as ofFertas foífem da 

Oij Ceo, 



2 1 2 Sermão da T>ommga decimafexta 

Ceo 5 ou da terra , ou na de Dário: & Aman taõ va- 

Igreja, ou fora delia , am- jído de Aí]iiero,ambos taó 

bos eraó igualmente os de repete cabidos, &: mais 

maisperigofos, & os mais fendo taó difFerentes na 

aparelhados para a cabida, vida, como na profííTaó ? 

ipj Jà muito antes ti- Sim. Daniel fervia a Deos, 

nhaenfayado o Demónio Aman fervia ao mundo: 

eíla mefma tragedia em Daniel era juílo, & finto, 

duas grandes figuras de Aman era mao, & perver- 

hum,&: outro eílado. Da- fo j mas levantados ao cu- 

mel era peíToa V cclefiafti- me dos primeiros lugares , 

ca dedicada ao ferviço de nem a Aman Ibe valeo a 



Deos : Aman era Miniftro 
fecular occupado nos ne- 
gócios do mundo. Aman 
tinha o primeiro, & maior 
lugar na Corte delfley 
-Aífuero: Daniel também 
o primeiro , & maior na 



fua induftria , para fe fu- 
ftentar, nem a Daniel a fua 
virtude , para fe defender 
da cabida. Mais admirá- 
vel foi ainda a de Daniel," 
queadeAman. Amanca* 
bio, porque perdeo a gra- 



Corte delRey Dário: mas çadoRey : Daniel tendo 

quem he aquelle , que na por fy toda a 2-raca do 

praça da Metropoli de Su- Rey, toda ella lhe naô ba- 

zan pregado em bua Cruz ílou, para que naó cabiife.. 



de cincoenta covados có 
amais infame morte eílà 
acabando a vida .? He A- 
man. Equembe aquelle, 
quenaf;^nofa Cidade de 
Babylonia , levado por 
Miniílrosdajuíliça be la- 
çado no lago dos Leoens, 
para morrer efpedaçado 
de fuás unhas ? He Daniel. 
PoisDaniei taó eítiuiado 



E parou aqui .^ Não: livrou 
Deos milagrofamente a 
Daniel das garras dos Le- 
oens: & canonizado fcu 
merecimento com hútao 
pubhco, & eílupendo pre- 
gão do Ceo, o Rey o relli- 
tuío outra vez ao lugar q 
dantes tinha. Mas o que 
agora fe fcguc ainda foi 
maior prodígio. Foraó taò 
pcdc' 




foJtTenfecofiefP. 213 

Í5oderoras, 5c tao aílutas as doente que nao ha de mor- 
machinas de feiís inimi- rer , eftà tutus na febre 
gos, que obrigarão ao mef- aguda > mas não ç^^^fecu-» 
moRey a que elíe otor- r/zi-j porque não eílà fem 



perigo, fem temer, & fem 
cuidado : que iíCo quer di- 
zer Securusy hoc efi^ fine cu- 
ra, Efta he a energia, ôc. 
elegancia daquella fenten- 
ça de Séneca : Sceleratuta 



naíTe a meter no lago, & o 
entregaíTe outra vezà fo- 
me, & voracidade das fe- 
ras. 
■M94 Oh bemaventu- 

radofó, &fó bem enten- 3 . 

dido aqueile, que entre to- ejfe^fecura non pojjunt. E 

dos os lugares do mundo efte género de fegurança 

fabeefcoiher hum tal lu- fegura não fó do perigo, 

gar, do qual ninguém o fenão também do temor» 

poíla derrubar , nem eile & do cuidado , a qual nun-» 

cahir. Dos lugares altos he ca pode haver nos lugares 

verdade, que nem todos altos, he aquefó fe acha 

cahiraój mas também he no ultimo. Quem eftà no 

certo , que os mefmosjque lugar alto, pôde não cahirj 

naó cahiraò, podiaò cahir. masquem eílà no ultimo 

E baila o poderem cahir, não pôde cahir, que hefó 

para não eftarem feguros. a verdadeira fegurança. E 

Como pôde fer fegurança porque > Porque fe do iu- 

a do mar , fe fempre eftà gar ultimo fe podéra cahir> 

íbgeitaà inconftancia dos não feria o ultimo. Do lu^ 

ventos? Os Latinos tem gar alto pódefe cahir ao 

dous nomes, com que de- baixo,do baixo pôdefe ca- 

clarão dous géneros de fe- hir ao infimo : mas do iníi- 



gurança muito diverfa 
Ttitus , & Securus. Tutus 
figniíica a fegurança do q 
que naó periga : SecuruSy a 



mo, que he o ultimo , nam 
fe pôde cahir, porque nam 
ha para onde. 

ipf Efte foi aqueile 



fegurança do que naó pe- evidente argumento , com 
riga,nem pode perigar. O que o Profeta Jeremias 
Tom.7. O iij con- 







■il 

m 



Thren, 

4.22. 



214 SermaÕ da 'T)omlnga decimafexta 

confolou a Jerufalem no de todos os males , izen ta 

cafo da tranfmigraçaÓ de da morte,&faz immortaes 

Babylonia.Chorou o Pro- aos que mata 5 porque nem 

reta eloquentiííimamente eliaos pòdejà matar, nem 

aquella tranfmigraçaÓ có eiies morrer. Eeílepriyi- 

quatro Abecedarios de la- legio he o que logra na vi- 

ítimasjfinalando a cada da,quemconheceo obeni 



letra hum novo motivo de 
dor :& chegando ao ulti- 
mo verfoj&à ultima letra, 
acabou có eíla breve íç^n- 
tença ; Filia Sion, non ad- 



do ultimo lugar , & fe con- 
tenta com eile. Antes de 
fe recolher a efbe fortiíli- 
nio aíilo, pôde decer por 
vontade, pôde cahir por 



aetultra.ut tranfmigrette. defgraça, & pode ferder- 

A tua tranfmigraçaÓ, ôjc* rubado por força; masde- 

rufalem, foi o non fins ul- poisdeeftar no ultimo lu- 

traáos males,que te podia gar,nema força alhca,né 

fazer Babylonia. Mas ago- a mefma vontade própria, 

ra,que eftàs padecendo ef- nem todo o poder da for 



fa tranfmigraçaÓ, tu a de-^ 
vesconfoiar naó com ou- 
tra coufa, fenaó có a mef- 
ma tranfmigraçaÓ : Por- 
que? Porque fe ella foi o 
nonplus ultra , & o ultimo 
dos males,naó pôde paífar 
dahi: Non addet ultra ^ut 
tranfmigret te. Taó alta- 
mente exagerou Jeremias 
o mal,quamíutilmentelhe 
excogitou o alivio. He 



tuna o pode fazer cahir, 
nem decer. Acrecente a 
fortuna hum dcgrao alem 
do ultimo, & outro abaixo 
do iníimo, Ç o que Deos 
naó pôde fazer )& fó en- 
tão poderá decer,quem ef- 
ta no Ínfimo lugar,&: cahir 
quem eftà no ultimo. 

ipó Soquem foube fa- 
zer cí]-a eleição defarmou 
a fortuna. Oh que gloriofo 



propriedade dos males ul- trofeo ! A fortuna defpida 
timos izentarem de fy defuasarmas^&aopè dcf- 
mefmos a quem oprimem . fcs deipojos aquelle verfo : 
Amorte, quehc oiiltimo Maior /um qiicm aãpofft 

Joríwr.a 



pdfl "Pentecofien, /^if 

fortuna nocêre. AíTitn fe bemafortunado^quênam 
dearma a fortuna, que fó pôdecahirj&fónaõpóde 
he force com as armas,que caliir, quem naó tem para 
nós lhe damos. Todos os onde. E porque náo pare* 
poderes da fortuna em que ça,que diílimuío a futiieza 
conriílem?EmIevantar,ac dehúamílancia, que tení 
abater : & fe eu me conten- efta Fiiofoíia>dirá alguém, 
tocomoultimo lugar, né queno mefmo lugar ulti- 
ella me pôde levátar , por^ mo>fem haver outro mfe- 
que não quero, nem aba. rior, & mais baixo , pode 
ter,porque naó pôde. An^ cahir quem eíla nelle : ^u ;^^;^^; 
tes digo, que nem abater^ feexiflsmatftare^ <videat ne 
me, nem levantarme pôde eadat : Quem eftà em pè , 
a fortuna , ainda que quei- olhe naó caya i porq quem 
ra 5 porque temos os con- eíláempé^pòde cahir dê- 
€eitos trocados. Levantar- trono mefmo lugar, feni 
me naó , fegundo o meu cahir para outro. He o 4 
conceito j porque o que el- diífe judiciofaméte o Poe- 
la tem por melhor lugar, ta : Infe magna ruunt. Mas 
eíTeheo que eudefprezo. eíl:a inílancia naó tem ia- 
E abater me também naó, gar no noíTo cafo : quem 
fegundo o feu conceito •, eftà empe pôde cahir no 
porqueoqueeilatem por mefmolugar,mas naóque , 
peor lugar,eíle he o que eu eftà deitado j &: iíTo quer 
eftimo. Abra os olhos a áizzr ^recumhe. Os que ÍM" 
fortuna cega , & emende a biaó,&: deciaó peia efcada 
falfa aparência dos feuser- de Jacob podiaó cahir, 
rados conceitos, & fó en- mas elle que jazia aopè da 
taô poderá fazer bemafor- mefma efcada no ultimo 
tunadosjtédo pelo melhor lugar,6c deitado, eftava fe- 
lugar do mundo naó o pri- guro de poder cahir,^ por 
meiro,& mais alto, fenam iífo dormia a fono folro : 
o mais baixo , & ultimo. Recumkinnoviffimoloco. 
Só he verdadeiramente ^ 

Oiiij §Ylh 







m 



2 1 6 Sermão da T^omin^a decimafexta 

refufcitouem noíTos tem- 
pos,aílim foi tarrj bem con- 
denada como errónea, por 
ferexpreíTamente encon- 
trada com as Efcriturasdi- 

ç i p ^- r ,'"r- v^í^^s- C>oSoldizo Texco 

tam^bem o mais quieto , ou claras , como a luz do mef- 



iP7 



Terceira pre- 



XjL rogativa ' do 
ultimo lugar fobre mais 



fó elle quieto. Neíta per 
petua roda em que fe re- 
volve o mundo , tudo fe 
move, tudo fe altera , tudo 
fe muda, tudo eílà em có- 
tinua agitação, fem coníi- 
llencia,nem firmeza : nem 



mo Sol, que eile heo que 
dà volta ao mudo, allumi- 
ando^o: Oritur Sol,& oc^cá^ 
ciditygyrat per Mertdiem^^^^^ 
&fleã'itur ad Aqmlonem^ 
lu-i rans untverfa m circui^ 
Tiai,i^n\.^í ';' ^^- ^ peio cótrariojda ter- 

«ínmí Tr ""' r^"'^ ? "^"^ ^^^" de mover jà 

ÍaôT' °í í'°^°^°'; """^ "P^ '^«^ Pl^"«^s fe moves 
J^aoeraoSoloque fe mo- & todos os Aftros, & cor* 

do fín, '''*'" '° '"""■ P^s^^eleftesdedia, & de 
do,fcnao que permanece- noite eftaó em perpetuo 
dolemprefixo, & immo- movimento, &abS do 

Ceo arrebatada com eíle 
fe move a esfera do fogo, 6c 
abaixo do fogo o ar, & os 
ventos, & abaixo do ar a 
agua, ou correndo perpe- 
tuamente nos rios , & nas 
fontes, ou indo, &: tornan- 
do àsprayas no mar duas 



vel, eíla terra em que eíla- 
moshe a que, fem nòs o 
fentirmos, fe move , & nos 
leva comíigo,& quádo nos 
aparta do Soí, faz a noite, 
& quando colo torna a 
mo/Irar, o dia. Mas eíla 
opinião , ou imaginaçam 



^\^i, ' - -^c^—^cv..* 'a»^ ua ura y asno mar duas 
pathcfliatica, aflim como VC/e(ino.dia,aj;ida quando 

as 



poftTentecoften. 217 

as tetnpeflrades o naó le- para o Ceo3& para tudo o 



vantaò às EftreIias,oii abif- 
maó às áreas ; qual he a 
razaó porque a terra no 
meyo de todas eílas agita- 
çoens,& tumultos da natu- 
reza, fôellaeftà firme , & 
immovei, fó elia em per- 
petua quietaçaò,& focego: 
Terra autem in íeternuftat^ 
Náo vedes como neíle 
immenfo globo do uni- 
verfo íó à terra como cen- 
tro delie coube o ultimo 
lugar do mundo ? Pois eíTa 
he a razaó porque fó ella 




que fe move entre o Ceo, 
& a mefma terra, que con- 
tente eftaria do íeu ultimo 
lugar, & que graças daria 
por elle ao Autlior da na- 
tureza : vendo o curfo , & 
revolução fempre inquie- 
ta do Sol, da Lua , & das 
Eftrellas: 5c a continua ba- 
talha dos elementos, co- 
mendofehuns aos outros 
fempaz,nem quietaçam, 
mas em perpetua conqui- 
fta de dilatar cada hum a 
própria esfera , & fó ella 



no mefmo mundo goza de pacifica,^: quieta por be- 
quietaçaó,& focego : Cíí/í- nefício da ultima baixeza 



faftabílitatist & immobili^ 
tatis terra eÇt ejus gravitas^ 
quaexigit infimum mundi 
locum , comenta Cornelio. 
E m fuma, que todos os ou- 
tros lugares mais, ou me- 
nos altos faó naturalmente 
inquietos, & fó o Ínfimo , 
ultimo, 6c mais baixo de 
todos he o aíTento firme, 6c 
o centro immovel da fe- 
gura, 6c perpetua quieta- 
rão. 

íp8 Oh fe a terra ti- 
fera olhos , 6c entendimê- 
to,6c oihaíTe cà debaixo 



em que Deos a fez a baze 
do mundo, 6c lhe deo por 
baze o feu próprio centro : 
Fíindajti t erram fufer fia- p^^jj^^ 
hílitatem fuam ? Mas o ho- í°3 í« 
mem,que he terra com 
entendimento,6c olhos, fe 
o mefmo Deos lhos abrio 
de maneira, que foube nao 
querer outro lugar fehaóo 
ultimo •, elle he o que ver- 
dadeiramête logra aquie- 
ta paz , Sc pacifica quie- 
tação do feu taó feíice co- 
mo defconhecido eíladoj 
fem quem lho perturbe 5 



^T!»„., 



/ 






i 



i.Rcg. 

Texc 
Hebr. 



Sidon. 
Apo\'ii- 
naiis 
hb.iE 



2 1 8 Sermão da T>omwga ãecimafextà 

nem altere. Batalhem os public^pracipitibus yò^íw 

outros, &: comãofe fobre brkisculminibus infiftunt^ 

quem ha de fubir,& alcan- hoc ipfo ,fatis miferiores , 

caros lugares mais altos; quodparum intelltgtint in- 

que eu (ciiràj quanto mais quiettjjimo fe Jubj acere fa- 

olho para elles, ôcvejo de mídatui. Notai a palavra 

fora os feus perigos, Ôcnau- fuperlativa inquietiffimo , 

fragios, tanto mais me fa- c6 que hum VaraÓ de taõ 

tisfaço da minha paz, que alto juizo como Sidónio, 



das fuás batalhasjda minha 
retirada, que das fuás vi- 
torias >& da m inha fegu ra 
baixeza , que das fuás in- 
quietas alturas, Olhaijque 
bem entenderão a inquie- 
tação de todas ellas vivos, 
6c mortos. Quando Saul 
depois de morto Samuel, 
o tirou do fundo da terra , 
&ofez vir a eíle mundo, 
pofto que por taó breve 
efpaçoja razão porque Sa- 



não fó chama fervidaó â 
dos lugares altos, mas in* 
quieriííima fervidaó : in- 
quittifjimo fumidatui. 

199 Ascaufasnaturae^ 
deila inquietação dos lu- 
gares altos, ou faó as co-n* 
petenciasdos que os pro- 
curaò, ou as envejas dos 
queosdeíejao , ou o pró- 
prio defi/íbcego dos mef- 
mos lugares, que ainda de- 
pois de adquiridos , nem 



muel íe queixou delle naó elles aquieta5,nem deixaó 
foi outra, fenão porque o aquietara quem eílà nel- 



inquietára : ^are inquie- 
ta ff i me , tit afcenderern ? E 
Sidónio Apollinar refuta- 
do o parabém de certo lu- 
gar eminente a que fora 
promovido hum feu ami 



Ics.Qiianto às competên- 
cias s porque pcJejavaóJa- 
cob,& Efui nas entranhas 
defiia Mãy:& Pilares & 
Zaraó,quelhefucedéraó, 
não pelejavcáo nas entra- 



go, efcrevco eílas notáveis nhãs da fua ? Porque Jacob 
palavras. Sedjententta ta- & Efau ambos pertendiaó 
// nunquam ego afcntior , ut o primeiro luga r : & entre 
fortunatos putem^ qui Rei- Phares & Zaraò taó fora 

cílava 




foH^entecoften. 219 

citava de haver a merma tns^alterafinlflrhfedeat. 
contenda, que tendo Za- Os outros Difcipulos , a 
raò jànamáo coma pur- quem os dous irmãos fe 
pura a enveftidura do pri- viaó preferidos , nani lhe 
TíiQiroy hic exiet prior :,toj^- davaó cuidado : & fó de 



nou a retirar o braço para 
o dar a Phares. De forte, 
que nas mefmas entranhas 
maternas, onde ouve dous 
que competirão fobre o 
primeiro iugar,tudo foraó 
inquietaçoens,& batalhass 
Bcoiídeouve hum fó que 
quiz antesoultimo,queo 



Pedrofe temiaó. Mas fe 
Joaó & Diogo eraó os 
dous mais virtuofos do A- 
poílolado, & os dous ma- 
iores amigos de Pedro, co- 
mo o queriaó excluir por 
eíla via ? Porque onde en- 
tra aenveja, &aambiçam 
de lugares5náo ha virtude. 



primeiro, tudo foi paz, & nem amizade fegura:o ma- 
quietaçaò. líto quanto às ior amigo vos ha de deA 



íoo competências. E quanto 
às envejasPMaior cafo ain- 
da. Pedirão os filhos do 
Zebedeo as duas cadeiras 
da máo direita, & efquer- 
dadoReyno de Chrifto; 
& com que tençaõ as pe- 
dirão ? Com tençáOj diz S. 
Joaó ChryfoílomojqueS. 
Fedro, de quem fó fe te- 
miaojlhc não levaíTe o pri- 
meiro lugar , ouprimaíia 
do Rey n o. Trimatiim hu- 
chryf. J^-^ confejjus impetrare , & 
Homii. pneponi auiãem fe c£teris 
Matth. jciebant , T et rum verojibi 
praferri formidantes dice" 
reaujífunty ut tmus à dex- 



viar5&o mais virtuofo fe 
ha de introduzir. Os pri^ 
meiros lugares leve-os Jo- 
aó & Diogo : & a S . Pedro? 
Nenhum lugar. Por cer- 
to, quenão havia de haver 
eíla inquietação no Apo* 
íl:olado,fe o lugar fora o 
ultimo.O ultimo lugar nao 
tem envejofos, nem quem 
o efcolheo por melhor, te 
que envejar : & onde nam 
ha envejofo, nem enveja- 
do, tudo eílà quieto. E ba- 
ila iílo? Não baila. Porque 20 í 
ainda que não haja com- 
petenciaj nem enveja, que 
inquiete os lugares altos. 



•II 





2 2 (3^ Sermão da T^omlnga decmafexta ' 

he nelles ta6 natural a in- 202 Sò o ultimo lugnr 



quietaçaójcomo dizia,quc 
cMqs mefmos fe inquietaó, 
& a quem eftà nelies. Lú- 
cifer foi criado no Ceo, 
donde cahio ; Cómodo ce- 
^ cidiJUdeCalo Lúcifer : & 
com tudo dizia a fua am- 
bição, que hayia de fubir 
ao Ceo : ^i^ dícebas in cor- 
^id. ij. de tuo:ln Calum confcenda. res mais altos do mar, que 
Pois, Demoniojfe tu eftàs em penhafcos , ou áreas 
no Ceo , como anelas 



Ifai. 
4 2.- 



eftà livre deftas inquieta- 
çoens,& perigos, 6c nam 
por outro privilegio , ou 
immunidade , fenáo por 
fero mais baixo. Errada- 
mente fe chamáo baixos 
aquelles em que naufra- 
gão os navegantes. Não 
laó baixos, fenão osluga- 



fubir ao mefmo Ceo ^ Co- 
mo defejas o que jà tens.? 
Comopertendes o qae jà 
alcançaíle > Como te in- 
quieta o que jà gozas ^ Co- 
mo queres fubir onde jà 
fubiftej&eílar onde jà ef- 
tàsi? Porque o mefmo lu- 
gar em que eílava, o in- 



fe levantáo no meyo delle. 
Por iíTo nelies naufraga o 
mefmo mar,&: fe quebrão, 
& efpedação as ondas. T^i" 
tofas as que fem querer 
fair, nem fubir, fe deixaó 
eílar no feu fundo , que ef- 
fas fò íe confervão em paz, 
& gozáo de inteira quie- 
tação: êc fe là chegão os 



quietava de forte, que ef- eccos das que perigáo, & 
tando nelle , naó podia quebrão, ellas defcanção. 



aquietar nelie. Por iífo fem 
competência, nem enveja 
de outrem , que o dcrru- 
baíTe, elle fe derrubou a fy 
mefmo. A Adam derrubou 
o Demónio ,ao Demónio 
elle mefmo fe derrubou, 
porque tanto o inquietou 
o lugar que tnihajcomo fe 
Q naó tivera. 



& dormem ao fom das ou- 
tras. Deílamefma quieta- 
ção feguraj& firme nos dà 
outro documento a terra 
naquelles grandes corpos 
aqueconcedeoa vida, & 
negou os fcntidos. Todas 
as arvores tem húa parte 
firme, & outra movediça. 
A firme, que faó as raizes, 
eítà 




poftTentecoJlen. , 221 

eftà no baixo j &a move- põem em dons animalr- 



dica, que faó os ramos, no 
alto. Sôalli temjurdiçaó, 
& império , ou a lifonja 
dasviraçoens,ouo açoute 
dos ventos. Todas na ca- 
beça leves,& inquietas , & 



nhosdetaó pouco vulto .^ 
Para que fe envergonhem 
os homens com todo o feu 
ufoda razão, de naófabe- 
remefcolher o lugar, que 

^^^^. , ^ mais lhe convém. E íao 

fó no pè feguras, 6c firmes, tão efquecidos , & defcui-; 
Noaltoquebraófe os ra- dados todos em fazer eíla' 
mos, voaó as folhas, caem efcolha , que fe algum ou- 
as flores , & perde mfe an- ve, que a íizeíre,foi por ef- 
tes de amadurecer os fru- pecial auxilio da graÇa^ 
tos : &: fò no baixo fuílen- divina. AíHm continua o 
taóas raizes o tronco, & meímo David com eílas 
nelleasefperanças de re- admiráveis palavras : ^^^- 
cuperar em melhor anno tus vir.cujus eft auxilium ^^.^^ 
tudo o perdido. Oh mal- absteiafcenfionesmcorde 
eníinado juizo hu mano , ' fuo dífpofmt , in vdlle lacff^ 
que nem as plantas iníen^? marum^inloco quem pofiãPj" 

Bemaventurado, Seníiof i^ 
aquelle homem a quem- 
vosaílifbiscom particular- 
auxiiio de voíTa graçaipor* 
que eíle confiderou todas 
as afcençoens, ifto he, to- 
dos os modos de fubir 
com que os outros procu- 
raó alcançar os lugares^ 
mais altos -, por è m elle eP 



fiveis , nem os elementos 
fem vida baílaó a te fazer 
fezudo! aprende ao menos 
das criaturas fenfitivas , 
& fejaó as menores as que 
teeníinem. 

203 OPardal,&:a Ro- 
la[diz David 3 foubéraó 
bufcar, & achar o lugar 
mais conveniente a fua 



confervaçaó : Etenim Taf- col heo para fy o mais bai-' 
ftr invèntt (ibi domum , & xo de todos, & poz o feu 

lugar no valle das lagri- 
mas: in valle lacrymarumr 
in loco ({uem fofúit, Ma$;^ 
quQ 



Tuhur nidíimfibi) iibiponat 
puUqsfuos. E a que fim traz 
David eíte exemplo , & o 













2 2 2 ' Sermão da dominga decimafextA 

que valle de lagrimas he valle pois , que 
eíte ? O mundo vulgarmé- 
techamafe valle de lagri- 
mas: porém nem todo elle 
he valle, nem todo de la- 
grimas. Não he todo val- 
le, porque tem campos, 
outeirosj& montesj & naó 
he todo de lagrimas, por- 



he dela- 
grimasjôc trifteza para os 
demais, neíle mefmo , & 
no mais fundo ddie , que 
he o ultimo,& mais baixo, 
pozo feu lugar aquelle a 
quem Deos alliftio ; por- 
que naó bafta fó para eíla 
valente refoluçaò o enten- 



mas he neceflarioo auxi- 
lio da graça divina : Cujus 
eftaiixiuumabste: auxilio 
de luz para o conhecer 
por melhor j auxilio de va- 
lor para o preferir a todosj 
& atè auxilio do amor 
próprio , para defcançar 
íem engano unicamente 
ntW^'. Recumbe in novtjji- 
me loco. 



quetambemhede goíios, dimento,& juízo próprio, 
delicias, & paíTàtempos, * "^ " 

Que valle he iogo efte on- 
de fó o homem aíliltido da 
graça de Deos pozo feu 
lugar. In valle lacrymamm^ 
in loco qu^m fofutt ? He o 
valle que fazem os montes 
das afcençoens,iílo he , os 
lugares altos onde todos 
defejaó fubir,que elle con- 
liderou muito attentamé- 
te: Afcenfiones pofiãt in cor» 
dejuo. Os que fubiraó a eA 
tes lugares altos, eftaó nos 
montes da alegria , porque 
confeguiraóo que defeja- 
vaó: & os que nam pode- 
rão fubir , eftão no valle 
das ÍP grimas > porque to- 
dos chorão , & fe chorão 
de lhe naó chegar o dia 
da fua afcençaó, & de nam 
ferem promovidos aos lu- 
gares, que dçfcjaó. Ncíie 



í. VIIT. 



204 



T 



Emosviíloco- 



lugar, entre todos os do 
mundo, para alcançar he o 
mais fácil , para confervar 
omaisfeguro ,& para lo- 
grar o mais quieto: prero- 
gativas nelle fíngularcs, 
pelas quaes deve fer prefe- 
rido a todos os outros. Ne. 
o no- 



pofiTentecôften. 12^ 

o nome de ultimo lhe deve ]icidade com Jupiter:& el- 



tirar nada de eftimaçaõj 
porque fenaó fora o ulti- 
mo, naó as tivera. He todo 
olugarultimocomooque 
coube a Benjamin nanie- 
fadeJofeph.Como os Ir- 
mãos feaftentáraó à mefa 
conforme as fuás idades > a 
Benjamin, que era o mais 



ta felicidade fobre huma- 
na fó a depoíitou nam o 
falfo, fenaó o verdadeiro 
Deos nos thefouros cfcon- 
didos do ultimo lugar. Sò 
alli íè vive fem defejo,fem 
temor, fem eíperança, fent 
dependência, & fem cui-^ 
dado algum, nem ainda le* 



moço,coubelhe o ultimo vepenfamento,queaper 

lugar. Foi porém coufa, turbe.SòallioíbnoJiedef- 

que os mefmos Irmáos, & canço , o comer fuílento,á 

todos os Egypcios muito refpiraçaó vital, & a vida^ 



admirarão -, que fazendo 
Jofephos pratos, o deBé- 
janiin fe avantejava fem- 
precom notável cxceílb a 
todos. Olhamos para o lu- 



gar,& naó olhamos para o todoem fy,&fóradomu- 

praco. Ohfe foubeífemos do ; porque naó quer nada 

tomaro fabor aos goílos, delle. E que naó bafte tu- 

& regalos puros, & íince- doifto,paraque oultimq» 

ros, que fó no ultimo Jugar lugar íeja o mais eftimadoj^ 

feachaó, livres das amar- o mais querido, & o mai^ 



guraSjSc deíTabores , que 
em todos os outros luga- 
resjpor altos, & foberanos 
que fejaó , ainda com os 
olhos cerrados, mal fe po- 
dem tragar ! Là diíle De- 
mócrito, que aqueile que 
fe refolveíle a naó defejar , 
poderia competir de fe« 




vida-, porque fóallieítà a; 
Alma naó dividida, mas 
inteira , & toda comílgo, 
& dentro em fy mefma> 
como também õ homeríí 



pertendido dos homens? 
Tanto pode com elles a 
faifa aprehenfaó daquelle 
nome de ultimo, com que 
reconhecédo-o no demais 
por taó avantejado,& me- 
lhor, o reputaó com tudo 
naó fó por menos honra- 
do>masporafrontofo , ôc 
por 



1 

i 






224 Sermão da dominga decimafexta 

por iíTo o defprezão, & fo- o fenhor da carroça ; &: af- 
gemdelle. íim como o que tem o ul- 

. 20^ Efte he o iilfimo timo lugar na caía , he o 
engano , que fó nos refta fenhor da caíIivaíH mo que 
por refutar 3 cuja mtelli- voluntariamente tem o ui 



gencia çoníifte em faber 
diftinguir no mefmo lu- 
gar húa grande diíferença 
de ultimo a ultimo. O ul- 
timo lugar merecido por 
diílribuiçáo alhea , pôde 
fer afrontofo j tomado por 
eleição própria, he o mais 
honrado. Quem volunta- 
riamente, & por própria 
eleição efcolhe o ultimo 
lugar do mundo , eíTe fó 
ufa do mefmo mundo co- 
mo fenhor delle. Denos a 
primeira prova o mefmo 
mundo, nao como vão, & 
errado, mas como cortez, 
&entendido. Viftes paf- 
fear na praça de Palácio 
liua cochada de Fidalgos j 
& qualdelleshe o fenhor 
da carroça.^ O que vai no 
ultimo lugar. Viíles os 
mefmos, ou outros em có- 
verfaçaó, ou viiitaj Sr qual 
he o fenhor dacafa.^O que 
eftà na ultima cadeira. 
Pois aíllm como o que té o 



timo lugar do mundo,heo 
fenhor do mundo. Nam 
ponhamos a decifaó na 
vontade dos homens, que 
pode fer errada^ mas na do 
mefmo Deos, que hc a re- 
gra de toda a razaó, & ver- 
dade. ComeçoujSc acabou 
Deos a grade obra da cria- 
ção dcíce mundo em féis 
dias : mas porque ordem ? 
Depois de criar no primei* 
ro dia a luz , no terceiro 
criou as arvores , <Sc plan- 
tas, no quarto o Sol, Lua, 
& Eftreilas , no quinto os 
peixes, Sc a ve^, no fextoos 
animaes, que andaô, ou íe 
arrafbáo fobre a terra : & 
depois de povoados por 
eftemodoo Ceo, o ar, a 
agua, 6c a m.efma terra, del- 
ia formou ,& criou o ho- 
mem, p.n"a dominar como 
fenhor tudo o que tinha 
criado. A íli m o diíle o mef- 
mo Deos no mefmo a^to 
em que o formou : Fdcia- ^mef 



ultimo lugar na can-oça,he mus hfjmhian adimaginemy ' ' 

à-fi' 



poH^enfecopn. 
& Jimilítudinem noftram^ vendo deter 
utprafit pifei hus mar is , & 
volatiíibus C^líi & beliijs^ 
univerfa que terra. Pois íe 
o homem era a primeira j 
& mais nobre de todas as 
criaturas deite mundo, 8c 
criado para fenhor delias, 
porque o naò ctiou Deos 
no primeiro lugar , fenam 
no ultimo? Por iflfb mef- 
mo. Porque a honra , & 
dignidade do ultimo iu- rorum. E porque razaó o 
gar do mundo fó compe- ultimo, fendo fua a eleição 



21f 

lugar entre 
os homens , que lugar to- 
maria ? O de Nazareth ? O 
de Belém ? O do Egypto ? 
O do Calvário ? Tal foi o 
lugar que tomou fempre, 
& em toda a parte 5 que 
vendo-o o Profeta Ifaias, 
naó teve outro nome com 
que fe explicar, fenaó cha- 
ma ndoihe o ultimo dos 
homens : Roviffimum vi- ^^^'- ^5- 



tia , & era devida ao Se- 
nhor,& dominador dellc. 
Vedeagorafe hc honra- 
do,&quam honrado he o 
ultimo lugar. Mérito ergo 
pojiremus^ quafi finis natu- 
ra for matus : reèfe ergo no- 
'vijfímus^quajitotiusfumma 
operis-i quafi caufa mundi , 
tropter quemfaãafunt om- 
nta^ diz S.Ambroíio. Mas 
ainda naó eftà dito o que 
excede quanto fe pôde di- 
zer. 

' 2c6 Deos em quanto 
Deos, por fer infinito , &: 



do lugar ? Naó porque ti- 
ve ffcp^ir 3. fj^quQ a igual- 
dade, que tinha com o E- 
terno Padre , foíTe alhea, 
ou roubada, & naó natu- 
ral, & própria, CO mo notou 
S. Paulo i mas porque {en-: 
do taó Deos , & taó fup re- 
mo Senhor do univerfo, 
como o mefmo Padre , né 
outro lugar era capaz de 
fua grandeza, nem outro 
mais decente a fua fobera- 
nía,né outro emfimmais 
conforme a íua doutrina , 
fenaó aquelle mefmo a 



immenfo , he incapaz de que hoje nos exhortou, o 

lugar: porém depois que ultimo. Em humbanque- 

deceo do Ceo a efie mun- te a que ElRey Dionyíio 

do,& fe fez homem , ha- de Sicília convidou as ma- 

Tom.7. P ioi-es 



I 



/ 




2 2 6 Sermão da dominga decimafexta 

lores perfonagens do feu ciufaódaparabola^naquâl 
Reyno, como puzeíTe no parece que desfez o divi- 
uitimo lugar da meíci a A- noMeftre tudo o que te- 



riftippo, oráculo daquella 
idade , o que lhe diíTe o 
grande Fiiofofo/oi : Hunc 
plane locum decorare^ ò" ti- 
luftrem reddere voluiJtkStm 
duvida, ôDionyíio, que 
hoje quizefte enobrecer, 
Sc fazer illuíi-re efte lugar. 
Efeaílim honrou, & iliu- 
ílrou Ariftippo o ultimo 
lugar fô com fe aíTentar 
iiellejque diremos depois 
que Deos o efcolheo , & 
tomou para íy ? OnovtJJi^ 
wumièr altiUimiim \ excla- 
ma S.Bernardo. Antes de 
Deos efcolher eíle lugar 
■entre os homens , podia 
andar em opinioens fe era 
honrado, ou naó o ultimo 
lugar 



mos dito. Dando o Senhor 
a razaó porque fe naó de- 
vem procurar os primei- 
ros lugares jfenaó o ulti- 
mo : porque virá (^ diz ^ o 
dono da cafa,&: do convi- 
te, 6c fe vos vir no ultimo 
lugar, dirvos ha ; Amice-y Luc i^. 
afcendeftiperius'. Amigo,fu- *°* 
bi para cima ; &: pelo con- 
trario, fe tiveres tomado o 
primeiro, o que ou vireis, rbijp, 
íerà:*D^ huic loctim-.htY^n^ 
taivos deíle lugar, & dai-o 
a eíle : & com grande con- 
fufaó,& vergo aha voíTIi fi- 
careis no ultimo : Etinci^ 
pias cum ruhóre novijjimum 
locum tenere. Eíle dono da 
cara,& do convite no fim 



mas depois que da parábola he Deos , que 
Deos o efcoihco, & tomou fegundo as nollas acçoens, 



para fy , intolerável blas- 
fémia feria dizer , que naó 
he o mais honrado de to- 
dos. 



ff. IX. 



207 



p 



Orfimfó rcíía 
fatisfazer à c6- 



6c deliberaçoens as ha de 
premiar,ou caíligar:5c naó 
pondero, que fó ao que ef- 
colheo o ultimo lugar cha- 
mou amigo, Amice : nem 
pondero, que o que tinha 
tomado o primeiro kigar, 
naó ficou nofegunuo,nem 
no tcrceiío, mas deceo, ou 
foi 



\\ 



fojt^entecoften. ii) 

foi lançado no ultimo: mas hçoens, enganos, faiíida- 
o que pondero, & reparo , des> traiçoens, violências , 



he, que ao que elegco o ul- 
timo lugar o premiou 
Deos com o primeiro , 5c 
ao que tomou o priíneiro 
ocaíligoucoiii o ultimo: 
iogo íè o ultimo lugar fe 
dà por caíligo>& o primei- 
to por premi o, melhor pa- 



& tratar cada hum de íu- 
bir , ainda que Teja pelas 
ruinasalheas5& para ef- 
capar de todos eftes males^ 
maldades, & m alicias , naó 
ha outro lugar feguro , & 
quieto,fena6 o ultimo.Pe- 
lo contrario, no Ceo tudo 



rece que he o primeiro lu- hecharidade,paz,concor- 
gar,que o ukimo. dia, amor , contentamen 



208 AHimparece,por- 
que naô coníiueramos nos 
ni efmos lugares o onde, &: 
o quando. Onde, 6c quan- 
do foi a eleiçaô,que os ho- 
mens fízeraó dos lugares ? 
Neíte mundo. E onde , & 
quando ha de fer a mudá- 
ça com que Deos os ha de 
trocar ? No outro. Pois el- 
ía hearazaò da difFeren- 
ça,Sc da troca. No outro 
mundo he melhor o pri- 
meiro lugar ;neiie, o ulti- 
mo. E porque .<* Porque o 
Ceo he a pátria de todos 
os bonsA de todos os bés: 
a terra a de todos os máos , 
& de todos os males. Na 
terra tudo íaó foberbas, 
ambiçoens , envejas, dif- 
cordias, contendas, cavii- 



to, bemaventurança , &■ 
eílimar, & gozarle cada 
hum do bem do outro, co- 
mo do próprio : & por iííb 
os primeiros lugares de 
ninguém envejados,nem 
pertendidos, mas de todos 
aprovados, 6c venerados, 
fem receo que os inquiete 
de dentro,nem perigo q os 
perturbe de fora , íaó taã 
íirmes,& perpetuosjconio 
os meímos bens, 6c felici- 
dade, que lograó. 

209 Epara que veja- 
mos eílasduasdifferenças 
eftabelecidas por Deos 
defde o principio do mun- 
do, húa na terra entre os 
eiementos^Scoutra no Ceo, 
entre os Anjos 5 ouçamos a 
Efcriturafagrada^Na cria- 
Pij çaó 



ífé' 



Pra'm. 
M8. i. 



228 Sermão da Dominga declmafexta 

ção do mudo gaftou Deos Porque fendo a agua por 

natureza fuperior à terra. 



{çis dias , mas fó cinco del- 
les foraó propriamente de 
criação. No primeiro 
criou , no terceiro criou , 
no quartOjno quinto, &■ no 
fexto criou , & fomente no 
fegundo não criou coufa 



&■ fendo o lugar da terra o 
ultimo, ella deixando o íi- 
tio mais eminente em que 
fora criada , correo efpon- 
taneamente a encher as 
concavidades da mefma 



algua. Pois fe o fegundo terra, &fe abraçou de tal 

dia foi totalmente efteril, force com ella no mefmo 

& infecundo fem produ- lugar, queda agua, & da 

çaò de nova criatura > em terra fe formou hum fó 

quegaftou , & empregou globo. E foi taó grata aos 

Deos todo aquelle dia? olhos de Deos eíla acçaó. 



Empregou-otodo emhò 
rar,& exaltar o ultimo lu- 
gar, quanto elle merece. 
Diz o Texto, que no fegu- 
do dia dividio Deos o ele- 
mento da agua , & levan- 
tou húa parte delle , & a 
poz fobre o firmamento, a 
que chamou Ceo. Eftas 
faó aquellas aguas de que 
diz David : Et aqu^ omnes 
qH£ftiper Calos funt , Idu- 
dmt nommT^omtni : onde 
declara, que o Ceo fobre 
que foraó collocadas , he o 
fupremojôc mais alto de 
todos. £ donde lhe veyo 
ao elemento da agua fer 
alfim exalrado,o que Deos 
naó fez a algum outro? 



pofto que natural 3 do ele- 
mento da agua,que haven- 
do de lhe compeafar como 
Author da natureza hum 
lugar com outro lugar,pe-. 
lo ultimo a que fe abateo 
na terra , o levantou ao fu- 
premodoCeo. Mas pois 
eílamos no Ceo, vejamos 
quam contrario foi ià a ef- 
te exemplo da agua ele- 
mentar o do fogo racio- 
nai , que iíTb quer dizer Se- 
rafim. Tinha o primeiro 
lugar no Ceo entre o Co- 
ro dos Serafins Lúcifer, & 
naó fe contentando có me- 
nos fuaaltivcza , que com 
fubir ao fuprcmo lòbrc to- 
das as criaturas, lllo hc o q 
rc- 



\ií 



põftTentecoJíen. 119 

revolvia no pcnfamento , poftosnos'primeiros? Fa- 
quando diífe ; Super ajlra cíl he dar o confelhojfenaó 



for diíficultofa a refoluçaõ. 
Mas eíta naó corre por mi- 
nha conta. Porque naò fa- 
ráoos que tem menos que 
deixar,© q íizcraõ tantos 



ifai. r4. Ç2)^/ exaltabofolium tneum :: 
'^' '"*■ jimilis ero AítiJJimo. E que 

lhe fez o mefmo Altifllmo 

a quem aífedbou fer feme- 

Ihanteí* Verumtamen ad In^ 
&id i P^»^^ detraheris mprofu- Reys > &'Emperadores ? 
' '^^' dum laci. Do Ceo o preci- Náo tinha fé do Ceo, nem 

pitou no Inferno, 6c do fu- 

premo lugar, que aíFeârou 

no Empireo,ao iníimodos 

abi fmos. Aíli m caftiga, ou 



do Inferno Diocleciano &: 
Maximiano, 6c fó pela ex- 
periencia que tinhaó dos 
primeiros lugares do munr 



J>f emea Dcos,6c aíTim tro- do , cançados de o gover^ 
ca os lugares, fublimanda nar,6c mandar , ambos de 
atè o fupremo a quem fe comum confentímento re- 



íibateo ao ultimo j 8c der 
rubando até o ultimo a quê 
affe£tou o fupremo.Tanto 
monta na parábola do noA 
fo Evangelho, ou, Amice 
ajcêde fuferhis^ ou Incipias 
cum rubor e noviffimumlQ'* 
cum tenére;, v hs bc a ol/o/n 
210 A viíía defteèter-^ 
nodefengano, naóliene-^ 
ceíTario inferir qual deve 
fer a reíoluçaó nefta vida 
dos que ainda tem livre a 
eleição dos lugares. Mas q 



nunciáraó o Império em 
hum mefmo dia(jque foi o 
de dezafete de Fevereiro 
do anno de trezentos 8c 
quatro ) Diocleciano em 
Nicomedia, & Maximia- 
no em Milam. E quê na m 
exclamará nefte paífo:ô ce* 
gueira do juizo humano ! 
ô fraqueza grande da noíla 
fé ! que dous Gentios,8c de 
mà vidajtiveirem valor pa* 
ra húa refoluçaõ como ef- 
ta,8c que fendo a medida 



faraó os que jà coníegui^ doslugares có que nos le- 
rão afuajScpor nafcimen- vantamos fobre os noíTos 
tojou negociaça6,ou qual- iguaes taó curta, baile a li- 
quer outra fortuna eílaó fonja deíla preferencia taó 
Tom.7. P iij 



tra- 



i 



w 

ky 






226. 



2 30 Sermão da l^ominga decimafexta 

trabalhofa, & incerta para mefmos a quem inchaó, & 
a antepormos neíla vida à enganaò^ como para a Re- 
quietação, & defcanço da publica, que arruinaó. 
temporal,&à fegurança da Eftes mefmos Efcribas & 
eterna! ^ Farifeos amadores dos 

2 1 1 Razoens pôde ha- primeiros lugares, foraó os 
ver taô urgentes , & obri- foiicitadores da morte de 
gaçoens taô fortes , q naó Chriíío,& os que puzeraó 
permitaó rompereftesla- oFilhode Deos em hua 
ços: mas nos tais cafos,que Cruz : Porque? Sò por naó 
náo podem fer, fenaó mui- perderem os lugares, que 
torarosjjàquefenaôpof- tanto amavaó : Vement 
faó renunciar os lugares, Romani, &tollent noftrum ^T^ 
ao menos fe deve renun- locum. Emíim ,quefe os 
Giaroamor. Mais eílra- primeiros lugares fe nam 
nhava Chrifto nos Efcri- amarem, feráó menos os 
bas,& Farifeos o amor que danos, que caufaráó, pro- 
tmhaó aos primeiros luga. prios,& alheos j mas, ou 
res , que os mefmos luga- amados, ou naó- amados, 
res : Amant autem f rimos fc os que ellaó nelles, os 
recubitusin canis , & pri- não renunciarem de todo , 
mas cathedrasinfynagogis. & trocarem generofamen- 
Para ferem taó arrifcados te pelo ultimo, de nenhum 

modo poderáó gozar a li- 
berdade, a quietâçaó,& o 
defcanço íèguro , que taò 
largamente tenho moílra- 
do-, porque efte privilegio 



como vemos os primeiros 
lugares , baila ferem pri- 
meiros, ainda que fenaó 
amem. Os Santos não os 
amavaó,&com tudofe lè 



de todos, que os repugna- fó he concedido por Deos 
yaó,&fugiaódelles -mas ao ultimo lugar: Recumh 



fe forem primeiros, & jun- 
ta mente amados,entaó faó 
muito mais perigofos, & 
pcrniciofos, aíTimpara os 



in ntívíjjhno loco. 



SER. 



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SERMAM 

ei DO santíssimos^ 

SACKã MENTO 

EM DIA DO CORPO DE DEOS, 

«vv . na Igreja,&Gonvenco da Encarnação. 

íííc ejipams^qui de Calo- defiendit. Joann. 6, 




?Elebra hoje cfta 
Igreja, o 4 cele- 
' braó todas I mas 
k nenhua com táta 
obrigação, nenhua cò tan-^ 
ta propriedade. Nas outras 
hea foíemnidade própria 
do dia,neíla he do dia , 6í 
do lugar, Andão taó liga^ 
dos entre fj eftes dous fo- 
beranos myfterios, Encar- 
naçãOjSc Sacramento, que 
amefmaSabedoria,& elo- 



quência divina, para pre- 
gar as grandezas do Sacra- 
mencojfe valeo das excel- 
lencias: da Encarnação : .^^^ 
Hk ejhpanis^ qui de Cak fp. 
defcendit:E^Q heopaó,diz 
Chriíí:o,q deceodo Ceo. 
Mas quádo deceo do Ceo 
efte paó ? Não no dia em q 
feinftituíoò myíterio do 
Sacramento) fenaó no dia 
em que fé obrou o da En- 
carnação. Aílim o confef- 
famos todos có- os joelhos 
P iiij ©m 



i 



■W 



232 Sermão 

em terra : T>efcendit de Ca- 
líSy é- incarnatus eft. De 
maneira , que no mefmo 
texto cio Thema temos 
dousdias, & dous myfte- 
rios. O dia, &o myíVçpo 
do Sacramento: Hic elipa- 
nis : ac o dia , 6c o myfterio 
da Encarnação : (^lá de Ca- 
lo defcendip : odia, & o my- 
llerio do Sacramento con- 
forme a celebridade, & o 
dia,&:myfterío da Encar- 
nação conforme o lugar. 
Havendo pois de fer o Ser- 
mão Q como he bem que 
íeja^naô do corpo de Deos 
vagamente, fenaó do cor- 
po de Deos na Encarna- 
ção : & havendo de tomar 
as medidas ao difcurfo pe* 
lo mefmo corpo de Chri- 
ílo, naó fó em quanto cor- 
po de Deosfacramentado, 
fenaó também em quanto 
corpo de Deos encarnado> 
digOjqueo dia da Encar- 
nação , & o dia do Sacra- 
mento, ambos faó dias do 
corpo de Deos ; mas com 
grande differença. O dia 
da Encarnação he dia do 
corpo de Deos, porque no 
dia da Encarnação decco 



do SantíJJtmo 
Deos a tomar condiçoens 
de corpo: &o dia do Sa- 
cramento também he dia 
do corpo de Deos , porque 
no dia do Sacramento fu- 
bio o mefmo corpo a to- 
mar attributos de Deos. 
Iftoheo que determino 
pregar hojejmas ainda nao 
acertei ao dizer com os 
termos grandes, que pede 
a magefiade da matéria* 
Para que eu a faiba , & me 
faiba declarar melhor, re- 
corramos à fonte da Gra- 
ça,qu€eítàpref€nte. Av8^ 
Maria. 

§■ II. 

Hicejlpanis^ quíde Cah 

... i:'. dffcendit. 

213 /^Apoftolo S. 
\_/Pauio fallan- 
dodafegiinda parte deíle 
Texto, iílo hc, de quando 
o Verbo divino decco do 
Ceo a veílirlè de noífa 
carne , diz eílas notáveis 
palavras : Cum in forma 
^cieffet^non rapmayn ^r- p},iHp. 
ifítratns ejl ejjefe aqualem -■^•7. 
%)eoyfedfimetipfHm exhia-^ 
Tjrjit 



Sacramento. 2^}* 

nivít forma fervi accipiensy vindadeimmortal, & im- 



mfmilítudinem hommuyn 
faBiiSy & habitu inventus 
ut homo. Quer dizer : Sen- 
do o Eterno Verbo igual 
ao Padre em tudo, & nam 
podendo deixar de o íer, 
fazendofe porém homem, 
& femelhante em tudo aos 
outros homenSj de tal ma^ 
neira encolheo , & fumio 
ern fy mefmo os attributos 
de fua divindade , & gran- 
deza, que naó fe viaójnem 
apareciaò nelle depois de 
encarnado mais que os 
vazios da mefma divinda- 
de. Efta he a própria , 6c 
rigorofa íigiiiíicaçaõ da- 
quelie exinanivtt femetip- 
jarm : & aílim foi. Era o 
Verbo pela divindade Ef- 
pirito, &pela Encarnação 
teve corpo: era pela divin- 
dade immenro5& pela En- 
carnação ficou limitado: 
era pela divindade infini- 
to , & pela Encarnação fi- 
cou finito : era pela divin- 
dade eterno, Scpela Encar- 
nação ficou temporal : era 



paífivel, & pela Encarna- 
ção jà padecia 5 ôc eflava 
fogeitoà morte. Não faó 
grandes vazios da divin- 
dade eftes ? Taò grandes , 
& taó profundos, que fó a 
comprehenfaô de Paulo 
os pode de aigúa maneira 
fondar : Exinanivitfemet" 
ipfum. Mas aguarde trinta 
& três annos a mefma à^^ 
vindade encarnada, &fai-- 
rà com igual, ou maior mi- 
lagre ao mundo o Sacra^ 
mento do Altar : Para que? 
Para que os vazios da di- 
vindade na Encarnação fe 
tornaífem a encher no Sa- 
cramento. Agora acertei 
a me declarar. Aífim co- 
mo pela Encarnação a di- 
vindade de Chriílo fedef- 
pio dos attributos de 
Deos , & fe veílio das pro- 
priedades de corpo : aííiin- 
o mefmo corpo de Cbri-j 
ílo pelo Sacramento íè 
defpio das propriedades 
de corpo, ôcfe veílio dos 
attributos de Deos. E efte 



pela divindade invifivel, foi o modo mais que ad- 
Ôcpela Encarnação viaó- miravel có que os vazios 
no os olhos : era peladi- dadiviadadena Encarna- 

§á05 




i34* SermaÕdõ 

çaó, fe eiichéra5,& reílau- 
ráraõ pelo Sacramento. 
Ora vede. 

2 144 Pela Encarnação, 
(^como dizíamos] Deos 
que era efpiritual , ficou 
corpóreo com partes di- 
ftintas, ôc extenfasjpelo 
Sacramento, Chriílo que 
era,& he corpóreo , ficou 
efpiritual, todo em todo, 
& todo em qualquer par- 
te,como efpirito.Pela En- 
carnação 5 Deos que era 
immenfo, ficou limitado a 
hum fi5 lugar i pelo Sacra- 
mento, Chrifto que era M- 
mitado, ficou irameníbj& 
eílà em todos os lugares do 
mundo. Pela Encarnação, 
Deos que era eterno, ficou 
temporal, Scafiimnafceo, 
viveoj&morreo em tem- 
po; pelo Sacramêto, Chri- 
ílo que era temporal , fe 
tornou a eternizar íem 
termo, nem limite na du- 
ração. Pela Encarnação, 
Deos que era infinito, fi- 
cou finito, como o faó am- 
bas as partes da humani- 
dade i pelo Sacramento, 
Chriílo que era finito,naò 
tem fim , porque eílà infi- 



Santijjimo 

nitamente multiplicado. 
Pela Encarnação , Deos 
queerainvifivel, ficou vi- 
fivelj&afiimoviaõ os ho- 
mens j pelo Sacramentoy 
Chriílo que era vifivel, fi- 
cou invifivei, porque nem^ 
ovemos, nem o podemos 
ver. Pela Encarnação fi- 
nalmente,Deos qeraim- 
mortaI,& impaflIvei,fÍGou 
mortal, & paífivel , (Scpa- 
à^cto^^ morreo pelos ho- 
mens > pelo Sacramento, 
Chriílo que era mortal, 6c 
palllvel, ficou impaíllvel, 
&immortaI , porque no 
eílado,& vida de f-icramé. 
tado,he incapaz de' pade- 
Ger,nem morrer. Equehó 
cada difierença deílas , & 
muito mais todas juntas, 
fenaó eílarem hoje cheos 
no corpo de Chriílo pelo 
Sacramento os vazios,com 
que no mefmo corpo íè 
ocultou a divindade pela 
Encarnação : & fer o cor- 
po de Chriílo facramenta- 
do por todos os attributos 
divinos corpo de Deos.^ 

215- No Capitulo quin- 
to do Apocalypíe vio S. 
Joaó bua couíà notável, & 



ou- 



Sacramento. 



Apocal 



fcid.j 



oiivio outra mais notável. 
Oqueviojfoi hum trono 
de grande mageílade cer- 
cado de toda a Gorte do 
Ceoj&fobreelie hu Cor- 
deiro em pè , mas como 
morto : Agmirn Jiantem 
tanquam occifum, O que 
ouvio 5 foraó as vozes de 



í^f 



priedade5 porque naó di- 
zem, que o Cordeiro efta- 
va morto como vivo , fe- 
naò vivo como morto: 
Stantem tanqudm occifum, 
Ifto he o que cremos pro- 
pria5& diftintament^, & o 
que nos eníina a Fè no my^ 
ííerio do Sacramento. A 



todos aquelles Cortefaós, palavra tanquam íignifica 
& de muitos Coros de reprefentaçaó^&naó rea- 



Anjos, que cantando , & 
acclamãdo, diziaô: Digno 
he o Cordeiro , que foi 
morto , de receber a virtu- 
de, & a divindade: T>ignu5 
eft agnusy qui occifus eft^ ac- 
cifere virtutemy & divini- 
tatem. Eíle Cordeiro nao 
jazendo como morto , fe- 
nãoempè como vivo, he 
o Cordeiro de Deos , que 
tira os peccados do mun- 
do, Chrifto Redemptor 
noílb : mas he ChrifÍ:o,&: a 
mefmo Chrifto naó em 
outro eftado , ou de qual- 
quer outro modo, fenam 
em quanto facramentado. 
Aílim o entendem com- 
mummente os interpretes 
defte lugar : & as mefmas 
palavras do Texto o de- 



iidade:&o mefmo Chri- 
fto facramentado , que na 
realidade eílà no Sacra- 
mento taó vivo como no 
Ceo, no mefmo Sacramê- 
to por reprefentaçaõ eftà 
taó morto como na Cru^, 
Por iílb as palavras da çó^ 
fagraçaó, na Hoftia põem 
o corpo como dividido do 
fangue , &no Caliz o fan- 
gue como dividido do cor- 
po, tudo em íignifícaçam 
da morte, na qual f & de 
nenhum modo fem ella j 
fe aperfeiçoa,6c confuma o 
facrifício. Epor iííb tam- 
bém emfôrma,& com no- 
me de Cordeiro 5 porque 
defde o Cordeiro de Abel 
na Ley da Natureza , fe 
facriôcava tambê iia Lev 



elaraó com grande pro- Efcrita em figura de Cor- 
deiro 



o'r'. 



I 



^m 



m 



V. 



yp\ 



2^6 Sermão do 

deiro o mefmo Chrifto. 
Aílimoeníinou S. André 
ao Proconful Egeas , dizé- 
do : Ego omnipotenti Deo , 
qiã nnus^&vaiis ejt-^immo- 
lo quotidíe immaculatn ag- 
niimy cujus carnem fofiqua 
omnis foptilus crekenttum 
manducavertt , infeger per- 
feveratyò vivus. 

2 16 Suppoftopois,qiie 
o Cordeiro vivo , & como 
morto, queS Joaó vio, era 
Chrifto, 6cChriíto facra- 
mentado •, entrem agora as 
fegundas,&mais admirá- 
veis palavras do Texto, 
comqueosapplaufos , 8c 
acclamaçoens de toda a 
Corte celeftial cantavaó, 
& diziaó ao mefmo Cor- 
deiro, que elle era digno 
de receber a virtude , & 
divindade : T>ignus eft ag- 
nusy qtii occtfiis efiy accipere 
*virtutem , & diiúnitatem. 
O mefmo S. Joaó nota, 
que efte cântico era novo : 
Cantabant canticum novú : 
& parece que naó era no- 
vo, fenaó antigo, & que jà 
tinha de antigu idade, quã- 
domenos,triiita &: quatro 
ajinos, que tantos fe pode 



Santtjjimo 
contardefdeodia da En- 
carnação do Verbo ate o 
dia da inítituiçaô do Sa- 
cramento. Quando fe fez 
o Filho deDeos homem, 
& quando fe unio à huma- 
nidade de Chriíto a di- 
vindade ? Naó ha duvida ^ 
que no dia da Encarnaçaói 
Pois feo receber Chrifto 
em quanto homem a di- 
vindade, pertence ao mef- 
mo Chriíto em quanto en- 
carnado : que novidade hc 
agora adeíle cântico, em 
que toda a Corte do Ceò 
lhe dà o parabém de rece- 
ber a divindade , naó na 
Encarnação em quanto 
Deos encarnado, fenaó no 
Sacramento,&cm quanto 
Cordeiro facramentado ; 
T^igniis eft agnus accipere 
divinitatem ? A palavra 
dígniis ainda aperta , & 
acrecenta mais a duvida j 
porque dignus fignifica 
merecimento, & a uniaó 
hypoílatica, em que a na- 
tureza divina fc unio com 
a humana, nem a mereceo, 
nem a podia merecer a 
humanidade de Chriíto: 
pois fe foi divindade , & 
di- 









Sacramento'. 



divindade merecida , co- 
mo fe diz que Chriílo he 
digno de a receber , & que 
a recebeo como facramen- 
tado ? A razaó alciílima, & 
nova, como lhe chama S. 
Joaó, he a que eu tenho 
dito , & vou provando. 
Porque duas vezes, 6c por 
doas modos diíFerentes re- 
cebeo Chrifto a divinda- 
de .a primeira na Encar- 
nação, em que Deos , do 
modo queerapoílivel jfe 
defpio dos attributos de 



n7 



aíllm como a divindade na 
Encarnação foi a que pro- 
priamente recebeo o cor- 
po, aílim o corpo propria- 
mente foi o que recebeo a 
divindade: Í>ignus efi ag-* 
nus accipere divmitatem. 

217 Pregando o mef- 
mo Chrifto aos que tinha 
fuHentadocom o milagre 
dos cinco pães , alli come- 
çou a revelar o myfterio 
do Sacramento , exortan- 
do- os a que comeíTem de 
outro melhor paó, queelle 



Deo«, veíbndofe do corpo lhes daria, o qual era pao 

humano : a fegunda no Sa- de vida,naó temporal, mas 

cramento, em que Chri- eterna : Operamini nm ci^ 

fto, do modo ta m be m que buniy qui perit , fed qui per-^ 

podia fer, enchendo em manet in vitam internam ^ y 

iy os vazios da divindade, quemFiUus hominis dahit^' 

reveílio o mefoio corpo vobis. E para que nãó du- 






das propriedades de Deos. 
Ondefe deve muito notar 
a propriedade das palavras 
accipere divimtatem -, por- 
que no myfterio da Encar- 
nação naò foi o corpo 
mais propriamente o que 
recebeo a divindade, fe- 
naó a divindade a que re- 
cebeo o corpo : Ver hum ca- 
rofaãiim tft : porém no 
myfterio do Sacramento : 



vidaíTem da virtude defte 
maravilhofo paójacrecen* 
tou, que Deos tinha im- 
preíTo nelle o feu íigillo,ou 
íiaete .* Hunc enim "Tatev 
JignavttT>eus. A palavra 
Jígnavit vai o mefmo que 
ftgíUavit: & aílim fe lè tio 
Texto Original Saibamos 
agora: & qual foi a figura, 
ou imagem que eftava 
aberta aefte íiaete.^ Todos 
03 



ibid. 






w 
llfc 



23S Sermão 

os Santos Padres concor- 
daõ, em que era a fígura^Sc 
imagem da divindade: & 
eíla força cem o nome de 
Deos acreccntado ao de 
Padre: Hunc ^Pater/igna- 
vitT>eus: modo de failar 
em Ciiriílo íingular neíla 
occaíiáo. Mas íe Chriíto 
falia de fy em quanto ho- 
mem, 8c em quanto íacra- 
mentado: em quanto hxO- 
incm^ quem tilius homints 
dabitvobis ',^ em quanto 
facramentado 5 cibum qui 
permanei in tita aternam ; 
porque prova os poderes 
defta virtude com o linete 
da divindade , que Deos 
imprimio nelle ? Náo fe 
podéra melhor confirmar 
oaltiííimo penfaméto em 
queeílamos. AquellaHo- 
ííia, em que a noflli Fè crè, 
& adora o corpo de Chri- 
jfto, lie húa obrèa confa- 
grada,em que Deos impri- 
mio o feu fine te: & como 
nefl-e finete eftava aberta a 
imagem , 6c fisgura da di- 
vindade com todos fcus at- 
tributos, também na mef- 
ma Hollia ficou impreífa 
afemelhançade todos el- 



do Santifflmo 
les, & por iílb fe achão to- 
dos no Sacramento. Ain- 
da falta a maior proprie- 
dade , 6c energia da metá- 
fora do linete de que ufou 
o Senhor,para que melhor 
entendejíemos todoomy- 
fterio. O que no finete ef- 
tá cavado, èc vazio, he o 
que na matéria em que fc 
imprime fica relevado, ^ 
cheo:6c aílim ficarão cheos 
no Sacramento os vazios 
da Encarnação : Exmaní- 
ittf.mctipltim : kujic ^Fater 
JigiJiaiií^eus. Na Encar- 
nação todos os attributos 
divinos vazios, Sc no Sa- 
cramento cheos : na En^ 
carnação todos fumidos, 
6c no Sacramento todos 
relevados. 

§• III. 

218 D Or efte modo 
i ficou o corpo 
de Chrifto 110 Sacramento 
reveftido dos attributos 
divinos, 6c com maior pro- 
priedade corpo de Deos". 
Corpo de Deos , porque 
efpiritual : corpo de Deos, 
porque immcnfo : corpo 
de 



i::i 



^ 



Sacramento) 



de Deos , porque eterno : 
corpo de Deos,porque in- 
finito : corpo de Deos^por- 
que invilivel : corpo de 
Deos ) porque im mortal: 
corpo de Deosjporqueim- 
pallivel. E iílo lie o que 
agora parte por parte , 8c 
attributo por attributo ha 
de ir moftrando o noílb 



219 



buto com queChrifto o 
reílauroujôc encheo no Sa- 
cramento: no qual eílà feu 
corpo facramentado fem 
ocupar lugarjôc com todas 
as condiçoens de efpirito, 
Aílim o eníina a Fè, Sepa- 
ra o prosar com a Efcritu- 
ra, he neceílàrio que nos 
engolfeinosem hum pego 



difcurfo. Mas porque to- fem fundo, qual heo Ca 
das eílas maravilhas de feu pitulo fexto de S Joáo, em 



corpo àiVu)\z2.ào forao 
ordenadas por Chriílo pa- 
ra noífo remédio, & pro- 
veito ; de tal maneira as 
irei provando no Sacra- 
mento , que juntamente 
mollrarei como o mefmo 
Sacramento nolas comu- 
nica todas a nos. Elle fe 
digne de me ajudar, & afll- 
ftir com nova graça em 
matéria taó alta, & tão dif- 
ficultofa. 

219 A primeira pro- 
priedade táo natural da 
divindade, como alheado 
corpo, que he fer Deosef- 
pirito i aííim como foi o 
primeiro vazio com que o 
mefmo Deos fe exiiianio 
na Encarnação , aílim he 



que ja começamos a en- 
trar. Por occaíião do mi- 
lagre referido dos cinco 
páes, que he o principio 
deíle Capitulo, falia Chri- 
fto na maior parte de todo 
elle, do paó que deceo do 
Ceo o Santiílimo Sacra- 
mento do Altar. Hua vez 
diz : Nift manducavevítíS 
carnem Filif hominis , ^ *^ 'f-t- 
biberitts ejusfangiimem^non 
habebitis vitam in vobisi 
Senáo comerdes a minha 
carne,& beberdes o meu 
fangue , não tereis vida: 
outra vez mais brevemen- 
te : §ut manducat me , ipfe ibid.fg^ 
vivetpropter me:Qntm m e 



[oariíiu: 



comera mim , vivirà 



por 



mim. Ealêdeílesdouslu- 



tambem o primeiro attri- gares do mefmo Capitulo^ 

jielié 




240 ^Sermão do 

nelle promete outras mui- 
tas vezes, &- por muitos 
modos a todos os que o 
comerem a mcfma vida. 
Mas não fe pode encare 
cer o grande abalo,pertur- 
bação 5 & efcandalo , que 
eíta doutrina caufou , não 
fó nos ouvintes de fóra,fe- 
náonos mefmos Difcipu- 
losda Efcola de Chnílo, 
muitos das quaes fó por 
eíle ponto fe fairáo delia. 
Quãdoouviáo ao Senhor, 
que lhe haviáo de comer a 
carne, & beber o Tangue, 
parecialhe coufa horren- 
da , & barbara : quando 
ouvião por outra fraíijque 
o haviáo de comer a elle, 
o que não fignifi cava par- 
te do mefmo corpo de 
Chrifto,fenãotodo intei- 
ro, parecialhe impoílivel, 
que hum homem ouveíTe 
de meter dentro em fy a 
outro : 8c quando em hum, 
& outro cafo ouvião, que 
aquella carne, & aquelle 
corpo Vue havia de dar vi- 
da, parecialhe que eíle ef- 
feito era contra toda a ra- 
zão natural , porque o que 
dá vida ao homcm,náo he 



SãntlJJlmo 

a carne, nem o corpo , fe- 
não o efpiríto; como Te vio 
no efpirito, que Deos in- 
fundio no barro de Adam, 
& na vida, que a Almada 
aos noíTos corpos, a qual 
em faltando, não vivem. 
Atéqui a murmuração, a 
duvida, & o efcandalo dos 
ouvintes; vamos agora à 
repoíia do divino Meftre. 
220 O que C?hriíio ref- 
pondco,foráo eílas pala- 
vras : Hoc z osfcandalizat ? 
Sicrgovideritis filinm Lo-^^lff^^ 
mhiis ãfccndmtem ubi erat 
prhis^ Spriiíis tft (jui 'vivi* 
fcaty caro non procícfl qnid" 
quam. ]f!ovos cícr.iK.di- 
za .^ Que feria fe m e v; {{ç.\s 
fubirao Ceo,donc'edecir* 
E quanto às duvidas do 
que nic ouviíles, o que vos 
digo he, que o eipirito he 
o queda a vida, que a car- 
ne ncnhúa coufa aprovei- 
ta. PoisfeChrifto fallava 
de fua carne, & da mefma 
carne dizia, que havia de 
darvida aosquea comef- 
fem jcomo agora diz, que 
a ca rne ncnh ú a cou fa ap ro- 
vcita , 6: que o efpirito he 
o que dá a vida ,^ He tão 
diífi- 



Sacramento. 2_{.r 

difficultofa eíla fentença , mo modo podia ter impe 



Amo- 
niiis ci- 
tac. à 
Maldo- 
nato. 



q deixados os delirios dos 
HeregesjOsSátos Padres, 
& Doutores Catholicosfe 
divide na expoíiçáo delia 
emfete opiniões. A ultima. 



dimento para todo ,.& in- 
teiro entrar em outro cor- 
po, que era a fegunda:ncm 
era contra a razão natural, 
íenáo muito conforme a 



& íingular de Amonio,Pa- ella , que fendo efpirito vi- 
dre Grego , he a meu ver a viíicaííe , & dèílè vidajque 



que melhor penetrou o 
íenddodeChrifto,6c re- 
íblve todas as duvidas dos 
incrédulos com a verdade 
do mefmo Sacramento. O 
corpo de Chriílo no Sa- 
cramento não eílà com as 
condiçoens naturaes de 
corpo, fenáo com as fo- 
brenaturaes, & milagrofas 
de efpirito : & por mo ne- 
íle lugar chamou o Senhor 
efpirito a fua própria car- 
ne : Spiritumhic vocat^le^ 
nam vi-vificifpiritus virtu- 
te carneMy manet enim caro\ 
íaó/ as palavras de Amó- 
nio. E como a carne de 
Chrifto no Sacramento 
não deixando de fer carne, 
he carne com todas as con- 
diçoens de efpirito i nem a 
carne comida defte mo- 
do podia caufar horror, 
que era a primeira duvi- 
da : nem o corpo do mcf- 
Toiíi./, 



era a terceira. E deíla for- 
te desfeitas todas as diííi- 
culdades, fefica verifican- 
do com fumma proprieda- 
de, & com adequada repo- 
llaatodasas objecçoens,a 
fentença de Chriílo: Spri- 
tus eft qui vivificai , caro 
nonprodeft quidquam. Por- 
que a carne não obra alli 
como carne o que fò como 
carne não podia, mas obra 
como efpirito , & como 
carne espiritualizada o q 
he próprio do efpirito. E 
daqui fica declarada agrã- 
de,&: exada correfpondé- 
cia, com que eíle primeiro 
vazio da Encarnação fe re- 
ftaurou com o primeiro 
cheo do. Sacramento. Por- 
que na Encarnação a di- 
vindade do Verbo fe ve* 
ftio da corporeidade da 
carne5& no Sacramento a 
carne de Chriílo fe veílio 

CL ^-^^ 



i 



^'í:ii 



Jeann. 



2 ^2 Sermão do 

da incorporeidade do ef- 
pirico. A fraíi particular 
dequeufaó os Santos no 
myfterio da Encarnação, 
lie chamar a Deos incor- 
porado 5 & da merma ufa a 
igreja cantando na feíla 
da Epiphania : T)uecmfa' 
lutts calittis incorjjoratum 
gignere. Pois aílitn como 
na Encarnação fe contra- 
hioovacuo da divindade 
peloincorporàdo,aí!ím no 
Sacramento reftaurou 5 & 
encheoocorpo de Chri- 
ílo o meímo vácuo peio 
incorpóreo. 

221 Sobre as palavras 
Verbumcarofaãum eft^ & 
hahitavit in nobis^ repara o 
Cardeal Cayetano em di- 
zer o Evangejiíla , que 
unindoíe o Verbo anoífa 
carne , habitou em nós. 
Parece que mais propria- 
mente havia de dizer, que 
habitou com nofcojou en- 
tre nós, como verdadeira- 
mente habitou Chrifto 
com os homens : pois por- 
que não diz, que habitou 
entrenós, ou com nofco, 
fciião em nós ? Agudamê- 
te perguntado 3 mas com 



Santijjhno 

muito maior agudeza ref- 
pondido : T)ixithoc^ ne er- 
rares , exijiimando quod 
Ver bum ex hoc qtiodfaãum 
eft caro-i impedimentum ejje 
ad habitarídíím fpirituali- 
terinanimis noftris, Deos 
em quanto Deos habita, & 
fempre habitou em nós: 
hl 7pfo enim njtnjtmus , mo- ^^^J- 
vemur^&fíimus.'E Tintes áQ '''' ' 
Deos fe veílir de noíTa car- 
ne, nenhúa duvida tinha, 
nem podia ter, que Deos, 
fendo efpirito, eftiveífe,ôc 
habitaíTe dentro em nòs: 
porém depois que Deos fe 
veftio do noíTo corpo, po- 
dia cuidar alguém, que ef- 
fe mefmo corpo podia fer 
impedimétopara quedei- 
xaííe de eftar em nós, por 
quanto dous corpos nam 
podem eftar juntos no 
mefmo lugar : para tirar 
pois eíle erro,diíie nomea- 
damente o Evangeliíía, 
que o Verbo depois de fe 
fazer carne , não fô habi- 
tou com nofco, fenão em 
nós : Carofaãum eft^ & ha- 
bitavit in no bis. Atcqui 
Cayetano: o qual porém 
declara , que iíío fc lia de 
cn- 



li^BMI 



lintendcr na o 
mente do feu corpo nos 
noílbs corpos, fenaó efpí- 
ricual mente da fua Almz 
nas noíTas Almas : & aííim 
foinomyílerio da Encar- 
nação precifa mente. Mas 
depois que fobre o myfte- 
rio da Encarnação o mef- 
moVerbo encarnado acre- 
centouo do Sacramento, 
naó fó habita Chriílo em 
nòs efpiritualmen te quan- 
to à Alma 5 fenaó corpo- 
ralmente quanto ao cor- 
po j porque eftando o nief- 
mo corpo efpiritualizado 
no Sacramento 5 como ef- 
pirito pòdeeftarjuntamê- 
teofeu corpo dentro do 
noíTojfem o impedimento 
de hum corpo excluir o 
outro. E eíla lie húa nova, 
&altiilima razaó porque 
nasmefmas palavras nam 



Sacramento. 24^ 

corporal- mentada havia Chriílo dé . 
habitarnaófôcom nofcO) 
fenaó propriamente em 
nos: Et habitavit innobis. 
222 Deíla maneira en- 
cheo Chrifto no Sacramé- 
to o primeiro vazio da di- 
vindade na Encarnação 9 
efpiritualizando o feu cor- 
po, &:fazendo-o efpirito, 
afíim comoDeos,q he efpi- 
rito, fe tinha feito corpo. 
Mas efta admirável trans- 
formação, naó fó a obrou 
Chrifto em feu corpo fa- 
cramentado , fenaó que 
também, como prometi, 
pormeyo do mefmo cor- 
po facramentado no la co- 
munica a nòs. Abre bem a 
boca, que eu ta encherei: 
diífe Deos a David : Dila- pr.ií 
ta os tuum^& implebo illud. '^^'^ 
Eftas palavras fe entêdem 
do diviniílimo Sacramen- 



diffe o EvangeUíla , que o to, do qual fe diz no mef. 



Verbo fe fizera homem , 
fenaó que fe fizera carne: 
Ver bum caro fa^um eji: 
porque fendo a carne á 
propria,&immediata ma- 
téria do Sacramento : Caro 
mea vere eft cibus i por me- 
yo da meíma carne facra- 



mo Pfalmo : Cibavit eos ex 
adipefrumenti. E diz Deos^ 
queelle he o que lhe en- 
chera a boca : Et ego imple- ibid 
bo illud : porque fô Deos 
pôde encher a capacidade 
da noíla Alma, & naó com 
outra coufà, fenaó comíi* 



i 



244 Sermão do 

go mefmo , como faz no 
% Sacramento. Etegoimple- 
Hugo bo tllud^ me ipfo , comenta 
^^'' Hugo Cardeal. Abrio pois 
a boca David, como Deos 
o tinha convidado : & que 
Ihefucedeo ? Os meúape- 
1 i?.T]] ruh&attraxi[piritú\ Abri 
a boca5& o que recebi nel- 
la5& por ella, &: o com que 
Deos ma encheo, tudo foi 
efpirito. Poisfea promef- 
fa de Deos tinha íido , que 
• lha encheria com feu cor- 
po facramentado: Aperte- 
mos maiseíla fuppollçaó 
có a authoridade do Dou- 
tor Máximo S.Jeronymo 
no mefmo lugar: Vis come- 
dére ipfum T>eum ttmm , ò* 
^ym°in Salvãtorem^ Judiquid dl- 
hua ; cat '. IDiUita os tnum^& im~ 
^'^""'' plebo ilhid.T>ilatate oraaje- 
ftra^ ipfe eft & T>ommusj& 
panis : ipfe horíatur nos ut 
comedamus-iò' ipfe nofier eft 
ciíms. Pois fe a promeíTa, 
digo, de Deos feita a Da- 
vid era , que lhe havia de 
encher a boca cóíigo mef- 
mo, & com feu corpo fa- 
cramentado j como abrin- 
do a boca o mefmo David, 
p que rcccbeppÁaò foi cor- 



Santiffimo 

po, fenaó efpirito : Os meii 
aperiii-i& attraxifpifitum ? 
Porque o corpo de Chri- 
íloaflim comoeílà no Sa- 
cramento transformado 
emfy , aílim eftà também 
transformado para nòs : 
em fy transformado em 
efpirito j para caber fem 
extençaó debaixo das ef- 
pecies, queo cobrem : & 
para nòs transformado em 
efpirito, para caber fem a 
mefma extençaó dêtro dos 
corpos dos que o comun- 
gaô : em fy transformado 
de corpo em efpirito , & 
em nòs transformandonos 
de corporaes em efpiri- 
tuaes. Expreífamente S. 
Bernardo ; Transformattir 
manducans in naturam cibi: 
corpus enim Chrifti mandu- 
care nihil eft al/iidy quam 
corpus Chrifti eftici. E por- 
que feria coufa muito dihi- 
tada confirmar a verdade 
deíles maravilhofos efTci- 
tos com os exemplos del- 
Ici baRc por prova o mef- 
mo S. Bernardo , que naò 
fó odiírc,masocxprimcn- 
tou em Çj mcfmOjVivcndo 
em corpo por virtude do 
mef- 



^-ir^ 




Sacramenta: Í4f 

mermo corpo^eomo fe naó bido em Nazsreth , que 



tivera corpo , andando ve- 
ftido de carne, como fe fo- 
ra efpi ri to, podendo dizer 
GiUt..f. ^^^ S.Paulo : Spiritu vivi- 
H mus^ffiritu & ambulemus, 

ff. IV, 

èíj /^Segundo va^ 
V-/zio da divin^ 
dadeheairnmeníidadedi^ 
vina, a qual pelo my ílerio 
da Encarnação fe limitou 
a hum fó lugar, qual era o 
que occupava a fagrada 
bumanidade. OuveHere- 
gcs,que entendendo efte 
myfterio ás aveííàs , úyq-- 
Taó para fy, que pela uniaó 
hypoílatica a humanida- 
de fe fizera immenfa,&ef- 
tava como Deos cm toda a 
parce,&: por iííb foraó cha 



nafceo em Beíem,que pré- 

f;òu em tal, & tal lugar de 
udéa,&GaIiIéa, & mor- 
reo em Jeruíàlcm. Deíla 
immenfidade porém de 
que Deos fe defpio pela 
Encarnação , fe reveílio; 
outra vez pelo Sacramen- 
to , no qual o corpo de 
Ghrifl:o,ou reproduzido, 
ou multiplicando as pre-i 
fenças, fendo hum fó ,& o 
mefmo, eftà no mefmo té-^ 
po em todas as partes do 
mundo. 

224* No mefmo mun- 
do , & na mefma hora em 
que Chrifto inílituío o Sa- 
eramento,fe eílava vendo 

fará confirmação da noíFa, 
'è hum milagre natural 
defta mefma multiplica- 
ção das fuás prefenças. A 
mados Ubiquitarios, Mas hora em que Ghriílo iníii' 
~ foi a humanidade a tuíooSacramento,erajàa 



nao 

que pela uniaó có o Verbo 
jfe eílendeo à immeníidade 
divina,fenaó a immenfida- 
de divina a que pela com- 
municaçaódos ediomasfe 
eílreitou à limitação hu- 
mana, fendo verdadeiro 
dizer,que Deos foi conee- 
Tom.7. 



primeira, ou fegunda da 
noite: In qua no6fe trade- i.Cov. 
batur : & que he o que vem ^ ^-^^^ 
entaó os noííbs olhos neíle 
Emisferio? Vem queau^ 
fentandofe o Sol de nos, 
por húa prefença fua de 
que nos priva, fe nos deixa 
Qjij . mui- 




m 







:!^í 



multiplicado em tantas 
prefenças, quanto he o nu- 
mero fem numero das Ef- 
trellas j porque cada híia 
delias naòhe outra coufa, 
fenaó hú efpelho do mef- 
mo Sol, em que elle fendo 
hum ró,&: au fente , fe nos 
torna a fazer prerente,mul- 
tiplicado tantas vezes, & 
em tantos lugares , quan- 
tos faódefde o Oriente a 
Poente, & defde o Seten- 
trião ao Meyo dia os de 
todo o mundo que vemos, 
lílomefmoheoque fez o 
noífo divino Sol Chrifto 
facramentando feu facra- 
tiílimo corpo. Aufentoufe 
de nòsfegundo a prefença 
natural -, mas por eíla pre- 
fença fe deixou com nofco 
em tantas outras, quantos 
faõ os lugaresj&r altares de 
todo o mCido, cm que ver- 
dadeira, 8c realmente, fen- 
do hum fò^Sc o niefmo,efl-à 
multiplicado no Sacramé- 
to. Vede a propriedade có 
que affim o defcreveo o 
Profeta Malachias. 

2 2f Qucixavafe Deos 
de os íilhos de lírael a imi- 
tação de Caim facníica- 



Sermaodo SanttJJimo 



rem , & oíterecerem em 
feus altares naò o mel hor , 
& mais preciofo,comô erã 
decente, fenaó o peor, & 
mais vil, &: os confunde c6 
eftas notáveis palavras: 
Isíon eft mtht uclnntas in 
'vobis^ & nttàius non fujci- Mahch.. 
piam de manu vejtra -.abor-^^^'^^' 
tuenimfoUsnfque ad occa- 
fu?ii magmim ejt nomen meu 
ingentibus :ò'tn cmniloco 
facrifcatur^ & cfferttir no» 
mhà mco oblatto munda. 
Defenganaivos , que naó 
quero voíTos facri feios, 
nem aceitarei voífas ofier- 
tas : & porque naõ cuideis, 
que me faraó falta j fabei 
para confuíaó voíTa , & da 
voíTà J eru fale m e m qu e fó 
tenho Templo, &fou co- 
nhecido, que virá tcnipo 
em que defde o Oriente 
ate o Poente, em todos os 
lugares do mundoj&- entre 
todas as gentes , fe ofere- 
cera , & íàcrifícarà a meu 
nome naó muitos facriii- 
^iosj&impuroò como os 
vo/íbs, fenaó hum purifíi- 
mo5& fintiilimo-F. quefa- 
criíicio hc cílc r Poílo que 
todos os Santos PndresjSc: 
Du.u- 



^ 



\^ 



Saàammta. . 24/ 

"Doutores dizem, que heo veilidur^s de Cíirifto , af- 



Sanciílimo Sacramento da 
-EuchariO:ia,naó temos ne- 
ceíUdade de fua authori- 
dade, porque aíHni o tem 
■definido (& he de féjo fa- 
^grado Concilio Tridenti- 
;no. Só acrecento,que a pa- 
lavra Hebréa, que refpon- 
-de a oblatio mundafigniã- 
-cahúa offerca particulaii, 
-cha mada Mincha j aqu M 
<íc fazia como as noífás ho»- 
ilias, da ílor da farinha, & 
no Levitico fe chama Sa^ 
criíicio. Efte facrifício 
pois a que naó falta a pro^ 
priedade das efpecies de 



íini as quatro partes do 
mundo (diz S. Cyrillo^re- 
partiraó entre fj a carne 
do mefmo Chriíto íacra- 
mentado,da qual fe tinha 
veíjido o Verbo : ^^uor 
orbis partes ad fahtem ta- ,^y^*ií-' 
du5Í£ mdumentum l^erm-i m yoan. 
hoceftycarnem ejus impar- '^P^^' 
tihiliterparUtifunt^ E no- 
ta elegantemente o Santp 
Padre, que neíla reparti- 
íçaõ^ou partição, naõ oiive 
partir : Impartibiliter par' 
titifunt ypotquc cõmuni- ^ 
eandoieo Senhor>&Jíar|ti- 
^icandoatodos^,' & afeada 



paô, hc o facrifício do cor- hum por meyo de fua car- 
po de Chrifto facramenta- ne na alma,&: no corpo, & 



do, o qual enchendo o va- 
zio da immenfidade divi- 
na encolhida, & efcondida 
na Encarnação , fe èfíiend^ 
immenfamente defde ô 
Oriente ao Occafo,por to- 
das as partes, & lugares do 
inundo í ^à ortuenmfoUs 



eítando prefente em tod;is 
as partes do m undo , naó 
eftà nellas como parte^ íè- 
naó todo, fendo hum íò-i^ 
o mefmo : Infiríguios enim 
partibílitef tranjiens^& ani- 
mam^ ér corpm eorum per 
carne fuam fafíõiificansim- 



itfque ad^accafitm inomni partibiUter atqueinmgt^íiii 
Ucofàcrificatur^Ò' offèrtur omiibuseft^ctm 'Unu^úbime 



namMmtõ oblatio munda^ ■ 
226 Aílim como os 
foldadosdo Calvário par- 
tirão enx quatro partes as 



fit nuUo modo divifm. A tè 
aqui o grande Cyrillomao 
fe poderid<5 mais largamê^ 
t€ éílendoraiinmeníidadè 
que 



^4^ ^ SermaSdoSantifflmo 

que Chrifto tem no Sacra- mêto,fenâó aquelles mef- 



mento, que na brevidade 
daquellas duas palavras , 
unm jíhiqueyh]xm em toda 
aparte. :^;.'n 

227 E para qàeíè ve- 
ja como o mefmo Senhor 
facramentado comunica 
eílaimmeníidade aos ho- 
mens,ponhamonos no Ce- 
náculo de Jerufalem. O 



8 ^ 



6.2#. 



LUC.X2. 




■:li 'K 



■ r I 



mos doze a quem havia de 
encarregar a converfaó de 
todo o mundo. Sendo cou- 
fa mui diâicultofa de en- 
tender, que taó poucos ho- 
mens, & de vidas, quenao 
foraó largaSjpodeíTem em 
taó pouco cempo penetrar 
todas as terras, & pregara 

^ _ todas as. naçoens dom un- 

primeiro ado em q Chri- do, fenaó foífem multipli- 
ito começou a exercitar cando as preíènças como 
eftafua immenfidade, foi Chrifto no Sacramento, 
quando entregando o paó Os Evangeliftas fó dizem 
confagrado nas máos dos dos ApoKoloSyTr^^/cave- ^^a^< 
^poílolos, lhes diííe, que runt ubique : mas aílim co- ' '' '" 
o dividiflem entre fy ; 2)/- mo Chriíio facramentado 
■vidite inter vos. Dividirão umisubique.pnmtiTO eíle- 
ò pao , & o fagrado corpo, ve em. hua fô parte, depois 
que atè entaó nas mãos cm todas-, aflimeíleshúas 
do Senhor eftava em hum vezes eftavaò firmes em 
fó lugar, logo ficouem do- hum fó lugar,& outras ve- 
ze lugares. Agora pergun- zes multiplicados em mui- 
to; Eaífim como Chrifto tos. 

- 228 Atègora naó hc 
ifto mais que conjedura 
minha j o que cume naó 
atrevera a dizer, fe o naó 
pudera provar. Paliando 
David dos mefmos Apo- 
ílolos , como affirma S. 
Paulo,& he de fé, diz, que 



comunicou aos Apoftolos 
feu corpo por aquelle mo- 
doimmenfo , cómunicou- 
Ihes também a mefmaim- 
menfidade? Creo, & digo 
que íim. E eíTa foi a razaó 
porque o Senhor naó ad- 
mitioà primeira mefa em 



^ueiecoi3Ía|irou O Sac/a- as vo^s de fua pregação 



rf 



Sacramento. 14^ 

íè ouvirão em todo o mu n- Jhançavquéa fuá immen- 



18.Í. 



doatè os últimos fins dei-. 
le : In omnem t erram exlvit 
fonuseorum:>& in fines or- 
bis terra verba eoriim. E fe 
pedirmos ao mefmo Da- 
vid, que nos declare com 
algua comparação , como 
fendo os Apoílolos taó 
poucos, fe pode cftender a 
íua pregação a taó remo- 
tas diílancias ? Refpondc, 
que do mefmo modo com 
que os Ceos prégaó 5 6c 



íidadejôc multiplicação de 
prefenças a tinhaó recebi- 
do de Chrifto facramenta- 
do, o qual, como fica dito, 
na noite em queinftituio o 
SantiíHmo Sacramento , 
aufentandofe de nós coma 
Soljfe deixou multiplica- 
do no mefmo Sacramenta 
como nas Eftrellas. 
. 1 2p E fe alguém :re*- 
plicar, porque naó áiz^m. 
ifto os Hiftoriadores , que 



apregoaó a gloria de Deos efcrevéraó as vidas , & pe- 
de dia , 6c de noite : C^- regrinaçoens dos Apofto- 
li enarrant gloriam 'I>ei^& los ? R^efpondo , que fim 
ffperamanuuejmannuntiat dkem,6cq<uefó na fuppp- 
^^^'^firmamentum: dies dieierm fi^âo doi ^_iài\%o fe podem 
€iat ver bum & nox noãi conciliar. Muitos Autho^ 
indicat fcientiam, E como res aífinalaó a cada hum 
préggóos Ceos de dia, 6c dos Apoílolos varias re-í 
de noite? De dia prégao dç> gioèns , Bcgentes '. a quem; 
hum fQlugar,queheoda 
Sol : de noite prégaó de 
muitos lugares , que íàó os 
dos outros Planetas, Sc das 
Eftrellas. Pois aiHaiprégai 



pregarão, o que outrostpc^ 
rèm negaó , fundados fó^ 
mente na chronologià dos 
tempos por onde faô jul* 
gadas por apócrifas aquela 



vaó os Apoílolos , jà cada las hiííorias.Ma« fe fuppo* 
hum como hum em hum zermos;, como devemos; 



fó lugar,Sc jà cada hum co- 
mo muitos em muitos lu- 
gares confirmando admi' 
ravelméte com efta feme- 



fuppor, que no mefmo tê^ 
popor multiplicação das 
prefenças aíliftiaò o» Apo- 
ílolos ^ídxyeríos Jug^r^s,' 
• tud^ 





ai 



>! 






25-0 Sermão do 

tudo facilmente fe verifi- 
ca com grande gloria do 
Evangelho. Nemcaufarà 
grande admiração eíle mi- 
lagre aos que coníiderarê 
a neceílidade -delle^ -por- 
que fe eílando Q mundo 
tão cheò de Miniftros do 
mefmo Evangelho, fabe- 
mos que conçedeo Deos 
efta graça de aparecer em 
partes muito diífontesí S. 
Martinho, a S. Gemenia*- 
no, aS:TrontanQ, a S.. An- 
♦toniodePadua, aS. Fran- 
eifco de Aílis, a S.Françif- 
co Xavier 5 & oa' ostros' 
muitdá para fins xíe mui tá 

Nazian. • - i ' ■ • 

pfat.2o ttienor impG7rtaneia^quan.4 
to majs para a-conyerfaõ 
univerfal do mundo, fendo 
os inftrumentos delia tad 
poticos ? -Fina;! rrí ente fe a- 
S.Bafiliofoi licito dizer 
de fy meímo nullo loco ctr^ 
Enod in ciinfcriftm fum : & a Eno- 
píiamr dio chamar a Epiphanio 
inúpere^àirmmenjm-iQ^é 
negara áipartieipaLçaó de- 
lia immenfi-dadeàimmen-í 
fidade daquellas obras, 
quefem ella eraó inconi- 
pofllvcis? 
' í j^í lAíIiTn^íriukiplicou 



SantljTmo 
C hrirto as fuás prcfenças> 
aílim multiplicarão os A- 
poílolosaç llias, &: afíini 
devemos ví<òs multiplicar; 
as noílas para afíitHr ao á^i" 
viiiifíimo Sacramento en» 
toda a parte. O noífo cor- 
po naòhe capaz natural- 
méte defta multiplicação , 
ou immeníidade , mas a 
noílaalmaíim ,& a noíTa 
memoria>a qual fó nos per 
dio o mefmo Senhor na in- 
flituiçaó defte immenfo 
mY^erio-.Uhicunquefuerit me.i». 
corfnís^ íiltc congregabúttir n- ' ' 
e^^^zí/7/í Janota ia palavra 
íibicunqMe^^m roda a parte. 
Emtodaaparte,dizChri- :j^'^ 
fio, onde eiHvxro corpo, 
alli voaráó,&: concorrerão 
as águias. Eque corpo, & 
que águias íaó eítas ? O 
corpo 5 refpóde S. Am bro- 
fio, heo corpo do mel mo 
Chriílo no Sacramento,&: 
ás águias faó as almas de 
fublime, & levantado ef-» 
pirito, quecomas azas do 
penlamento, ôcdoatfeíto 
oaíliíl:em,adoraó, &• vené- 
raó em todas as partes do 
mundo : Eji corpus de quo Amhr. 
dttííim-efi^ar^.mea vereefi càp^"/.' 

CíhíiSy 



% 



r\\ 



i ■■" 



Sacramento. * 25-1 

cibm-iCircahoc corptis aqui- ordine Melchifedech. Cha* 
l(efunt',qu£aliscircunjiant mafe o facerdoçio ác 
fpiritualihís. E íle he o mo- C hriílo, facerdôcio fegú-^ 
do com que noífas almas do a ordem de Melchife- 



pelopenfamento , &:me- 
iMonàimmenías hão de af- 
fiftir 5 adorar , & louvar 
fenítpreao mefmo Senhor 
em todo lugar, como Da- 
vid exiiortava à fua, que o 
íizefíe : In ofUni loca domi- 
nàtionis èjmbèúedic anima 
PieaT)omino. 



§. V. 



231 



o 



Terceiro va- 
zio da divin^ 



dech,naó quanto à digni- 
dade, como fe Melchifê. 
dech [ que foi Sacerdote 
da Ley da Natureza} o in- 
fl:ituiíreimasqua;ntó à fe' 
meihança da vidima , &c 
matéria do facriíicio , por-^ 
que na6 facrifica va Cor- 
deiros como Abel 5 nem 
outras re^es, ou aves co- 
mo Abraham , fenaô paó , 
& vinho, qiie he a matéria 
do faerifício da Ley dá 
Graça , & Sacrameiíto de 



raça, 
dade na Encarnação fói'o' ^Wi^óvMelchifedechpro- ^""^^^ 
dafua eternidade, fazen- fèrenspànem^érvintim-.erat 

énim Sacerdús ^ei altiffi- 
mi. E chamaíe facerdocix^ 
eternojporque naaacabõíí 
como o facérdociò de A* 
ram. No facerdôcio de 
Aram acabou o fa cerdo* 
ciOj&: acabava o Sacerdè-^ 
te : acabou o facerdôcio j 
porque fe acabou aquella 
Ley ; a qual neceíiàriamê-í' 
teha de acabar quandoó 
facerdôcio acaba , como 
doutamente deiine o Apo- i^^ix^p 
íloloS. Paulo •/ Translato -^^ " \ 
enim 



dofe temporal, nacendo, 
& vivendo em tempo o 
que era eterno. Mas étíáé 
aníefma eternidade jurou 
Deo^ de dar a feu Filho 
encarnado húa tal prero- 
gativa com que podeíTe 
inaravilhofamente encher 
efte grande vazio , que foi 
o facerdôcio eterno fegú- 
doa ordem de Melchifé- 
dech : lura-vit T>omi?ius.ò' 
nonpanitebit eum^ tu es Sa- 
cerdos in íSternumfecímdàm 




n 






J 



:'l í 



2 f 2 Semao 

enimfacerdoiío^ necejjeefi , 
ísííe^ /f^ij" translatio fiat, 
E acabava o Sacerdote, 
porque mor ré cl o hum Sa- 
cerdote, lhe fucedia outro, 
comofucedeo a Aramfeu 
filho Eleazaro, & a Elea- 
zaro os demais : o que iiaó 
foi, nem podia fer naPef- 
ípaimmortal de Chriíloj 
como notou o mefmo S. 
Paulo : Et alij qtiiàem plu- 
^ resfaãifimt Sacerdotes^id- 
3rj. " circo quod morte probibe^ 
renturperm nérejoic autem 
eo quod mane at in £ternumy 
fempiternum hahet, SaceV' 
dotium. >5 ,íi:>mí) 

232 Maspoftoquc o 
facerdociode Chriftofeja 
eterno,& eterno o mefmo 
Sacerdote Chriílo, parece 
quefc naófegue , que o 
vazio da eternidade do 
Verbo na Encarnação, fe 
fupriíre,ou encheífe no Sa- 
cramento , porque o Sa- 
cramento naó he , nem ha 
de fer eterno, 6c fó dura, & 
ha de durar atè o fim do 
inundo , & acabar junta- 
mente cóellc. Depois do 
fim do mundo fó ha de ha- 
ver CeOjÔc Inferno : os do 



do ^nntljjlmo 
Inferno nao faó capazes 
de ílicriíicio , nem de Sa- 
cramento: os do Ceo naó 
haõ mifterhum ,nem ou- 
tro. Náohaô mífter o fa- 
crificio , porque faó juílos, 
&jànaó podem crecer na 
graça : nem haòmifter o 
Sacra mento,porque a prc- 
fença de Chriílo , q criaó , 
& venera vaó encuberta,6c 
invifivel , là a tem defcu- 
berta aos olhos, 6c a gozaó 
manifefta: logofeo facri-»' 
ficio,6c Sacramento do AI* 
tarnao ha de durar mais 
que efte mundo, 6c ha de 
ter fim como elle , feguefo 
que naó he eterno. Efta 
mefma duvida excitou S. 
Thomás na queílaô vinte n.y. 
6c du as da terceira parte, '^' ou; 
tx, refponde, que no facri- \l ^ 
ficiofe devem confiderar 
duas coufas, a oblação , 6c 
aconfumação : a oblação 
em que fe offerece o facri- 
íicio , 6c a confu mação em 
que fe confegue o íi m,6c fe 
lograó os efl eitos delle. S, 
oblação pertence a efte 
mundo, 6c a confumaçam 
ao outro. Por jílb S. Paulo 
chamou a Q\\ú^o^Totifex 
fu. 



3.q. 
art.f 



71- J>, 






Sacramento 
fiituTorum honor um\ Ponti- trabit infância. 
íice,&: Sacerdote dos bens 



futuros , porque os bens 
futuros , que faó os que fe 
gozaój Schaó de gozar no 
Ceo, faó os que Chrifto 
nos niéreceo pelo feu fa- 
criíicio. Epofto q a obla- 
ção neíle mundo íqÍ![q té- 
poraI,6c em tempo , a con- 
funiaçaó no Ceo ha de du- 
rar por toda a eternidade ; 
& por i^o he eterna,^ como 
diííe o mefmo S. Paulo : 
Vha oblatione confummavit 
Í7t fempiternum fanõfifica- 
tos. 

233 No Levitico 
mos liiia excellente 
deíla differença , & deíla 
ordeai no dia chamado 
d.is Expiaçoens.Mandava 
Deos^queofummo Sacer- 
dote nao entraíTe no San- 
£ta San£torum , fem pri- 
meiro fora delle offerecer 
o facriíicio5que no mefmo 
lugar difpoem a Ley ; Ne 
. ingredtatttr Sanõfuarhim , 

fíwd efi intra velum , nifi 
íCc ante fecerit : 'vitulum 
propeccatQofferet, & arie- 
ttm inkolocauftíim : his rhe 
selebratisy ultra velum in^ 



te- 
figura 



^51 
E porque 
razaójôu com que myfte- 
riooíàcrificio fe havia de 
oíFerecer primeiro, & fora 
do San£ta San6borum , & 
naó depois 5 & dentro nel- 
lefPorque o fummo Sacer- 
dote íigniíicava a Chrifto, 
oSandta Sãd-orumoCeo, 
o facriíicio o da morte de 
Ghrifto na CruZjOu no Al'- 
tar, onde fe reprefcnta a 
mefma morte : & eíle fa- 
criíicio naó fe havia de of- 
ferecer depois , fenao an- 
tesjuemno San£ba Saníto- 
rum^fenaò fora delle. Naó 
depois, iílo he , na eterni- 
dade, fenaó antes ^ & em 
tempo, em quanto dura o 
mundo: nem no San£ta Sá- 
£l'orum, iílo he,no Ceo, fe- 
naó fora delle, Sena terra. 
Aííim foi quanto à obla- 
çaó,& aíTim ha de fer quá- 
to à confumaçaó naò de 
outro, fenaó do mefmo fa- 
criíicio. Foi quãtoà obla- 
ção 5 porque na terra oííe- 
receoChriílo o facriíicio 
da Cruz como hoje oífere- 
ce o do Altar , &: oíFerece- 
rà até o íim do mundo : & 
ha de ferguanto á condi- 
maçaoj 



I^sfj' 



/ 



m 







2 54 Sermão do 

mação 5 porque no Ceo ha 
de coníumar Chriílo o 
rnefmo íacriíicio, cómuni- 
candonos os ePreitos delle, 
que coníiílem na viíla cla- 
ra de Deos por toda a eter- 
nidade : & por iílb o Sacer- 
dote, & o facriíicio, hum, 
êc outro eterno. 

2 34Tudoifl:ovioS.Joa6 
no Ceo, como jà tinha vi- 
ílo o Cordeiro vivo de- 
pois de morto, & gloriofo 
depois de facriíicado. Fal- 
ia o Evangeliíla Profeta 
da Cidade de Jerufalem 
Triunfante, que heo Ceo, 
& diz, que a claridade de 
Deosaallumea , &:que o 
lume fae do Cordeiro ; Na 
claritas ^ei iUumina'vit 
eaniyò' lucernaejus eft ag- 
mis. P\ilIou S.Joaó como o 
primeiro, &: maior Theo- 
logo da Igreja. Para os Bê- 
aventurados verem clara- 
mente a Deos, he neceíTa- 
rio que os feus entendi- 
mentos fejão elevados por 
húa claridade fobrcnatu- 
ral, a queos Theologos 
chamaó lume da gloria j & 
ifto he o que vio , & diz o 
Evangelilta. A claridade 



SantiJJImo 

d e Dcos> que ai í u m e.i a C i- 
dade de Jerufalem celeíle, 
he a viíla clara do mefmo 
Deos : Ciar it as Dei iUumi- 
naviteam : & o lume da 
gloria , fem o qual fe náo 
pôde ver a Deos,eíre fae do 
Cordeiro: Et lucernaejus 
eftagmts. Mas porque fae 
o lume da gloria , nam do 
objecto eííencial da mef- 
ma gloria, que he Deos, & 
claramente viílo, fenaó do 
Cordeirojque he Chriílo , 
o qual S.Joaó vio como fa- 
criíicado.^ Porque eíTefoi 
o ílm,& effesfaó os effei- 
tos do mefmo facriíicio 
ofFerecido na terra, & con- 
fumadonoCeo : ofl^ereci- 
docmtempo,&: confuma- 
do na eternidade i & por 
iílb taó eterno como o 
mefmo Sacerdote : Tu es 
Sacerdos in ^ternum. 

23 f Etla eternidade 
he a que faz eterno o San- 
tiílimo Sacramento, ainda 
que a oblação do íacriíi- 
cio em que fe confagra o 
mefmo Sacramento haja 
de ter íim,8c acabar com o 
mundo. E poílo que eíla 
ctcrnidadcem quç naó ha 
du- 



Sacramento. 2 ff 

duvida, bafta para prova ílofoi crucificado no Cal- 



do meu intento > & ifto he 
o que enfina o Doutor An- 
gélico , allegando os nief- 
mos textos do Apocalyp- 
fe, & Levitico proxima- 
mente citados 5 eu com tu- 
do acrecento , que o divi- 
nillimo Sacramento nam 
fó he,6c fera eterno no Ceo 
pela eternidade de feus ef- 
íeítos y fenáo também de 
fua própria fuílancia : por- 
que depois do íim do mu- 
do, quando jà naó haverá 
Altares^ncm Sacrários na 
terra , fe confervarà eter- 
namente no mefmo Ceo 
húa Ho ília confagrada. 
Afíim o conííderáo5& pre- 
lumem muitos Authores 
afceticos3& contemplati- 
vos 5 cuja opinião para 
mim naò he menos prová- 
vel, que pia. No dia do juí- 
zo ha de aparecer no Ceo 
com o mefmo fupremo 
Juiz a fua Cruz: Tuncpa- 
rebit Jígnum Filij homtnis 
inC^elo. E que Cruz ha de 
fereíla? SJoaÓ Chryfo- 
ftomo com muitos outros 
Doutores, diz que ha de 



vario, & afíim o profeti- 
zou a Sibylla: 
O Ugnumfelixjn quo T^eus sibyiia 

ipfepependit ! ^^^;^^ 

Nec te terra capit ^fed Ca li 

teEfa videbis. 
Cum renovata T)ei fácies 

ignitamicabit. 
Suppofto pois, que a Cruz 
deChriílo ^V7ÍÒ\à2i hoje 
em infinitas partes, fe há 
de recolher outra vez de 
todo o mundo, 6c reunirfe 
com maior milagre, que o 
da refurreição dos mor- 
tos, à fua inteireza , & con- 
fervarfe eternamente no 
Ceo j porque fe negará fe- 
melhante privilegio ao 
pão vivo, & vital, que de- 
ceo do mefmo Ceo ? Se 
hum lenho morto, {ç,co;y 8« 
duro mereceo fer fublima- 
do a tanta dignidade , & 
eternizado nella , fó por- 
que foi fantiíicado como 
cotado do corpo de Chri- 
ílo,& matizado com feu 
fangue> o Sacra mento, que 
cótèm todo o mefmo cor- 
po,&:fangue, & foi iníti- 
tuido para dar vida eterna 



fer a mefma em que Chri- aos homens > porque care- 
cerá 



i 




•'5 



■■íl 



2j6 Sermão do 

cera da mefma eternida- 
de? Foi tanto o refpeito, 
que o Verbo encarnado 
guardou àquella parteíi- 
nha de carne , & fangue, 
que recebeo das entranhas 
puriílimas de fua Mãy^ 
que nunca confentio , que 
o calor natural 5 como na- 
turalmente coíiuma5aga- 
ftaíle,&: confumiííe , & co- 
mo diz S.ilgo ílinh o, ain- 
da depois de reíuícitado a 
conferva , & coníervarà 
AngiiíT. eternamente em fy mef- 
.^crm:t3e jYio : Caro Chriíti auãmvis 
rione B. glorta rejurrí6ttcms juertt 
^- mrignijicata^ eadcm tamcn 
manfit , qtia ft. wpta eíí de 
Maria. E que aggravo fa- 
namos a efte mefmo ref- 
peito ,&: amor, fe imagi- 
naíTemos do mefmo Chri- 
fto, que haja de permitir 
ao tempo, queaífim como 
ha deconfumir , & acabar 
p mundo, aíTim confuma , 
& acabe com elle hum Sa- 
cramento em que naó fó 
eftà húa parte da fua carne, 
& fangue, fcnaó toda em 
* todo, 6ctoda em qualquer 
parte? Digamos logo, & 
creíijUQS piamente, quç aí- 



Sayitijfjno 
fim como a Hoftia confa- 
grada fe prefervou muitas 
vezes de outros incêndios, 
aílim fe prefervarà do in- 
cêndio univerfal do mun- 
do, para que como paó dos 
Anjosjque çoméraó os ho- 
menS5a adorem eternamê- 
te no Ceo homens, & An- 
jos. 

236 Os mefraos Au- 
thores, & outros (^ & nam 
com leve conjectura ^^t- 
tribuem femeihante pre- 
rogativa ao livro dos Evá- 
gelhcs:naô porque os ou- 
tros fagrados naó conte- 
nhaó a palavra divina 5 
mas porque efta foi pro- 
nunciada pelo proprjo Fi- 
lho de Deos : Novijf/ivu' lo- j'-^'"- 
qmitns efi nobis in tilio: &c 
aííim como no dia dojui- 
zo aparecerá a Cruz, aílim 
eítarà aberto,& patente o 
Evangelho para ferem jul- 
gados por elle, huns por- 
que o naó creraó , outros 
porque o naó guardarão. 
NofeuApocalypfediz S. 
Joaó , que pelo meyo do 
Ceo vio voar hum Anjo,o 
qual tinha na maó hum E- 
vangelho ttQmo'Maòetem i^X^ ' 
Evan* 



iill 



Sacramento, 257 

E'vangeliufn 'aternum:6>c Clirifto merece juftamen- 

com grandes vozes avifa- te fer perpetuado na eter- 

vaatodo ogenero huma- nidade do Ceo ; quanto 

no , que temeíTem a Deos mais a maior obra das fuás 

por fer chegado o dia do palavras, & o fagrado , 6c 

juízo : ^ia venit horaju- confagrado volume do di- 

dkij ejus. De forte que viniílimo Sacra meto , que 



também no dia do juízo 
aparecerão Evangelho. E 
fe perguntarmos porque 
fe chama Evangelho éter- 



também Ezechiel recebeo 
da maó de outro Anjo , & 
comeo em forma de livro ? 
S Joaó, que efcreveo o feu 



de Deos obrou neíle mun- 
do, foraó tantas , que fc 
feouveífem de efcrever, 
naó caberiaó no mefmo 



jiOi reíponde SJeronymo, Evangelho depois dos ou 
que a razaó , &: myfterio trosEvangeliftas, confef- 
he-, porque o Evangelho Ía5& protefta no fim, que 
neáe mundo foi temporal, as maravilhas,que o Filho 
^pregado temporalmen- 
te ; mas no Ceo durara por 
toda a eternidade : Sempt- 
ternumfuturum in Calis^ad 
-,. coparationem videlicet hw mundo os livros. Logo fe 
■E^iOczàjusnoftn Evangelijy quoa no Ceo na de durar eter- 
^"^"' temporale efty & in tranfitu- namente o Evangelho, em 
ro mundot ac feculo fradi- que fe contem parte fó- 
catum. Com o mefmo fen- mente das mefmasmara- 
pf^j^ tido &\S^t David : In ater- vilhas j com maior razaó , 
>Sí8.8p. num^omine-iVerbum tuum & em fuplemento do mef- 
permanet in Calo : onde o mo Evangelho, fe deve là 
n;eri;um tuumyT>omineipro- eternizar o Sacramento, 
pria a & particularmente 
íigniíica o Evangelho , ao 
qual tantas vczgs chama 
S. Paulo Evangelium Chri^ 
fti. Efe o livro dos Evan- 



em que eftão reíumidas to- 
á-3is: Memoriam fecit mira- 
bilium fuorum, efcam aedit , j^ ™j^ 
timentibusje ^ Fin alm en te 
o Sacramento he o penhor 



gelhos por fer palavra de da gloria, que o Ceo no^ 
Tom./, R deò 




2 f § ^ Sermão do SantiJJimo 

deoneíl:avida:&: quando não durava mais que hum 
depois do jSm do mundo dia. E com que myíierio 



fe defempenhar , 6c nos 
meter de poíTe da gloria , 
encaó fe reílituirà o mef- 
moCeOj Sc tornará a rece- 
ber o feu penhor. Emfu- 
ma,que aíllm como aCruz 
de Chrifto , & o livro dos 
Evangelhos naó haó de 
acabar com o mundo, mas 
fer eternos, aílim , & com 
mais jufti ficada providen- 
cia o Sacramento emhúa 
Hoftia confagrada. 

237 E para que naõ 



eftas três coufas fomente , 
& todas na Arca ? A Arca 
encerrada no Sanda San- 
(Eborum , na qual reíidia 
Deos prefencialmente fo- 
bre azas de Cherubins, rc" 
prefentava o que David 
chama Ceo do CeOjque hc 
oEmpireo : Caíum Calí\f^% 
domino : &: o myfterio 
mais próprio, Sc mais pro- 
porcionado de toda cila 
reprefentaçaó,ou naó hc, 
ou não parece que pôde 



pareça, que eftas três ex- fer outro, fenaò que con- 
ceiçoens ílió totalmente fervarà Deos eternamente 



reíèrvadas ao conhecimê- 
todivinoj&fecreto de ne- 
nhum modo revelado, ao 
menos naquella parte da 
Efcritura fagrada, em que 
as figuras do futuro fepin- 
tavaó na hiftoria do paíTa- 
do ; lembremonos da Arca 
doTeílamento , na qual 
confervou Deos três cou- 



\i 



no Cco, a Cruz íigniíica- 
da na Vara, o Evangelho 
íigniíicado na Ley , & o 
SantiíUmoSacraméto íig- 
niíicado no Mana. Por iíTo 
omefmo Chriílo alludin- 
doà Arcado Teílamento, 
deoao mefmo Sacramen- 
to o nome de Tefta mento, 

Sc eterno : Novty & aterra 

ias entre todas as daquelle Teftamenti. Ao mefmo fím 
íempolingulares: a Vara podemos dizer , que cúh 
deMoyfes, as Taboas da preparado no Ceo aquclle 
Ley,& com maior milagre Altar,quc là vio S. Joaó : 
a Vrna do Maná, o qual Vidifui^tus jiltare animas 
fera táo corruptivd , que intcrfeãçrum pro^ter Ter- ^l'. 



Apoíáf 






Sacramento] 2 ff 

humT^ei. E quepeçasjper- da arvore da vida defen- 



guntoeu, mais próprias, 
& mais dignas de ornar 
hum Altar, quehiía Cruz, 
o Santiíluno Sacramento , 
6c hum livro dqs Evange- 
lhos? 

238 Provado aífim por 
hum modo com certeza j^ 
& por outro com probabi- 



dido por hu m Cherubim 
com hua efpada de fogo,r6 
para impeair totalmente > 
que comédodaquelLefru- 
to,na6 yivt^ç, eternamen- 
te: CoUocanjtt ante Tara- 
difumQherubim^&flammm ^ 
gladium ad cuftodiendam i.^tf.i.ii^ 
viamligm vita. Ne forte 



Íidade,como o corpo de Jumatetiam de lignovita^ 
Chrifto facramentado Io-» ^vivatin aternum. Per- 



gra, & logrará para fem- 
preoattributo deeternoj 
ibreíla moílrar como o 
mefmo corpo, q por amor 
de nos fe facramentou, co- 
munica aos que o cómun- 
gaó a mefma eternidade. 
Eftahea fegunda obriga- 
ça6,6ca mais diíficultofaj 
que acompanha todos os 
nodbs aíTumptos i masne- 
íie carece de toda a diíE- 
culdade pela aííeveraçao 
taó ciara, ôc taô expreíTa cq 
que o mefmo Senhor nos 
certificou deíla verdade ^ 
dizendo : ^i manducat 
fòan, d huncfanem^ vivet in teter^ 
^' /z«r/3?. Mal cuidou Adam , 
que nunca elle , nem feus 
filhos ouviíTem tal oracur 



guntaó agora os Expoíito- 
resfe eílà ainda efte Che- 
rubim guardando o que 
guardava : Sc fenaó eftà » 
quando embainhou j ou 
apagou a efpada ? Reípon- 
dem comummente, que a 
apagarão as aguaSjÔc inun- 
dação do diluvio , o qual 
também dizem , quede- 
ílruíojéc desbaratou oPa- 
raifo, 6c fuás arvores : mas 
tudo ifto he incerto. Se o 
diluvio naô derrocou,neni 
fccou a oliveira , donde a 
pomba trouxe o ramo ver- 
dej porque havia de arran- 
car, ou derrubar as arvores 
doParaifo,6c mais a da vi- 
da , que Deos quiz guar- 
dar? Se o mefmo diluvio 



lOa quando vio o caminho naq aíFogou no mçfmo Pa- 

B.Í) raifp 



*•:-?< 



i 






% 



2<>^ Sermão do 

raiíb a Enoch, como havia 
de tirar da fua eílancia ao 
Cherubinijquenaó reípi- 
ra com ar, nem fe affoga 
com agua ? E fe elle,como 
dizem os mefmosAutho- 
res, naófó guardava dos 
homens aqueiles frutos, 
fenáo também do Demo- 
nio,para que com elles nos 
nãotentaíTe; como fe ha- 
via de apagar com agua o 
fogodaefpada, q os mef- 
mos Demónios temiaõ» 
xnais que o do Inferno?Di- 
gaó poisoslnterpretes^ou 
prefumaó adevinhar co- 
mo quizeremjque eu fô di- 
go, & com toda a certeza 
aííirmo,queo Cherubim 
deixou a fua eftancia , & 
embainhou, ou apagou a 
fuaefpadanamerma hora 
dirofiíTimaemque ofobe- 
rano Reílaurador das rui- 
nas de Adam inftituío o 
Santiílimo Sacramento > 
porque entaó ceílbu o fim 
daquella prohi bição,&da- 
quellaguiirda. Aguarda, 
& a pruhibiçaó era, para 
que o homem comendo 
naó vivcíTc eternamente: 
KefuukU d(í ligno vít^e ,• <^ 



SantiJJimo 

vivai in aternum. E como 
Chrifto inftituindo o Sa- 
cramento deo faculdade a 
todos os filhos de Adam, 
para que comendo vivef- 
fem eternamente j entaó 
apagou o Cherubim a ef- 
pada,& deixou a fua eftan- 
cia , & náo fó ficou fran- 
queado o caminho da ar* 
vore da vida, fenão a mef- 
ma arvore tranfplantada 
por todo o mundo, paraq 
todos os que, pelo que có- 
rneo o mefmo Adam , ficá- 
mos condenados à morte, 
não de outro modo , íenaó 
também comendo, viva- 
mos eternamente : ^«/ 
'mmducat hunc fanem , ^'/- 
vet in aternum. 

§• VI. 

IVJlIatei em en- 
cher eftes primeiros três 
vazios da divindade : 8c 
porque ainda nos reílaó 
quatro, fera força , quanto 
forpoíTivel , reduzilos a 
maior brevidade. O quar- 
to he a immortahdade fei- 
ta mortal , o quinto a im- 
pailibilidadc feita paíli- 
vel .- ^ de ambos pela mef* 
ma 



Sacramento, ^ 2í>i 

ina razaój 8c por ferem taó qiíando já a viílima efta va 



conexos, trataremos jun- 
tamente. Digo pois,qiie fe 
na Encarnação a immor- 
talidadedivinajdo modo 
que podia Ter, fe fez mor- 
tal , &: a impaíUbilidade 
paílivel \ o corpo de Chri- 
ílo no Sacramento de tal 
forte fuprio, &; encheo ef- 
tesdous vazios da divin^ 
dade , que fendo natural^ 
mente corpo mortaljíicou 
immortal, & fendo natu- 
.ralmêtepafliveljíicou im^ 
paílivel. 

240 Com ferem tan- 
tas as figuras do SantiíH- 
mo Sacramento > que fe 
lem,6c o precederão na fa- 
grada Efcritura j a primei- 
ra que nos propõe a Igre- 
ja, he a do facrificio de 
ífaac : Infigwis pT^figna- 
tur^ cum Ijaac immolatur. 
Mas fe bem fe coníldera a 
hiftoria táo fabída do mef- 
jno ifaac , parece que fe 
náo pôde reprefentar nel- 
Ia o Sacramento , porque 
Terdadeiramente náo foi 
íkcrificio. Mandou Deos 
a Abraham,que lhe facri- 
íicaíTefeu íiiho Ifaac , & 
Tom./, 



fobre o Altar , a efpada 
defembainhada, & entre o 
golpe,6ca garganta do fi- 
lho fô havia dous dedos de 
diítancia,teve Deos maó 
no braço do Pay. Logoaf- 
íim o golpe, como o facri- 
fíciojtudo ficou no ar. E o 
mefmo Deos o provou, 
porque alU> & no mefmo 
inítante apareceo atado 
Jium Cordeiro , no qual 
Abraham acabou de exe- 
cutar o golpe, & efte foi o 
que morreo , & foi íacrifi- 
cado. Pois fe o Cordeira 
foi o morto, & Ifaac ficou 
vivos como foi Ifaac figu- 
rado facrificio de Chri- 
fto.?PoriíIb mefmo: 5c ca 
a maior propriedade , que 
fe podia imaginar.Chrifto 
não foi húa fó vez facrifi- 
cado, fenão duas : húa vez 
na Cruz, outra vez no Sa- 
cramento 5 & primeiro no 
Sacramento, 6c depois na 
Cruz, aílim como primei- 
ro foi facrificado Ifaac, & 
depois o Cordeiro. O Cor- 
deiro morreo, & padeceo, 
porque foi figura do facri- 
ficio da Cruz , no qual o 
R iij corpo 



fpf 



2 <^2 Sermão 

corpo natural de Chrifto, 
como mortal, &:pafíivel, 
padeceo,^ morreo : po- 
rem Ifaac foi figura do fa- 
crificio do Altar 5 & por ií" 
foj fendo facriíicado , naò 
morreo , nem padeceoj 
porque o corpo de Chrifto 
no Sacramento eftà im- 
mortal,& impafíivel. Ex- 
cellentemente Ruperto : 

iSenef meti impãJJlhUts permanet 
í»P' 32.' ^viq;usy qtiemadmodumtl- 
lie Ifaac immolatus , & ta-^ 
men gladio non efl attaEíus, 
Se em Ifaac fe executara o 
golpe, & morrera , feria fi- 
gura do facriíicio da Cruz 
cm que o corpo natural de 
Chriílopadeceo,&: mor- 
reo : mas porque poílo fo- 
breoAltar náo padeceo, 
nem morreo \ por iíTo foi 
figura do facriíicio do Al- 
tarjem que o mefmo corpo 
facramentado fe conferva 
immortal , ^ impaffivel: 
Impaffibilis permanet à* 

Wt'VUS. 

241 As palavras omni- 
potentes com que Chriílo 
inliituiOjíSc obrou hum taó 
milagrolò myíterio,forag: 



do SantiJJimo 

Hoc eft corpus metim , c^uod 
provobtstradetur ; Eftehe 
o meu corpo, que por vòs 
fera entregue, E porque 
naó diíTe o Senhor,que por 
vòs fera morto, ou cruci- 
ficado, fenáo entregue ? A 
palavra tradctur íigniíica 
entrega por traição, & tal 
foi a entrega que fez Judas 
do mefmo corpo de Chri- 
fto aosJudeos,húa vez em 
quanto corpo natural , & 
outra vez em quanto fa- 
cramentado. Muitos, 6c 
graves Authorcs, entre os 
quaeshe Santo Thomás , 
entendem q quando Chri- 
fto diíTe a todos os Apoílo- 
los ; Accipite , é' manduca^ 
^í"; Judas tomou nas mãos 
o paó facramentado , mas 
naó o comeo. E para que 
faibamoso que fez delJe, 
acrecenta Theophilado , 
queoefcondeo , & levou 
aosPrincipes dos Sacer- 
dotes , quando com elles 
foi ajuílar a venda : Tanem 
accepity ^ non comedi t , feJ 
occultavit , ut mavifcjtaret 
Ilidais y ano d corpus juum 
voe ar et. Depois deíla pri- 
meira traicaój & entrega 
fciU 



Savr amento. 16^ 

feita por Ju das, entaóexe- panem ejus , & erMamus 

cucouellea fegiinda , que eum de terra viventium. O 

foi a da prifaò no Horco. I/gnum he a Cruz ^ o pamm 

O que fuppoílojpergunto; ejus, íie o paó confagrado : 

Porque razaójou com que & diz o Senhor, que reíbl^ 

myílerio quiz Chriíto q véraó em confelho, de pôr 



duas vezes foífe entregue 
aos/udeos feu corpo , húa 
no eflado natural, ôc outra 
no de facramentado ? Sem 
duvida, para que pofto de 
hum , & de outro modo 
nas mãos de feus inimigos, 
atèelles, o feu odio , a fua 
raiva,& as fuás máos ex- 
primentaíTem o que po- 
diaó, ou naó podiaó fobre 
o corpo do Redemptor, 
que para o fer, fe poz nel- 
las. O corpo natural pode- 
raóno atormentar, & ma^ 
tar,&: por iífo o cruciíicá- 
ra5,&: lhe tirarão a vida : o 
corpo facramentado tam- 
bém o quizerao cruciâcarí 
& matar } mas naò pode- 
rão. Ouvi agora o que por 
ventura nunca ouviftes. 
242 He cafo , que revelou o 
mefmo Chriílo por boca 
do Profeta Jeremias , fal- 
ia ndo dosjudeos ; Cogita^ 
'veruntfuper me confíliay di- 
í; entes : Mittamus lignum in 



Jerem 
H.19. 



O feu paó na Cruz5&: o cru- 
cificar para lhe tirarem a 
vida. Aílim entendem ef» 
te Texto pela figura H7- 
pállage Tertulliano , La- 
£tancio,S. Thomás, Joa- 
chim, Maldonado, & ou- 
tros. E quando efta execu- 
ção, por fe applicarem o^ 
Principes dos Sacerdotes 
à do Calvário, fe naó veri- 
ficaíTena occafiáo referi- 
da por Theophilaíbo ; he 
certo que em outros tem- 
pos depois,roubáraó,6c ef- 
condéraó os Judeos, como 
Judas 5 a Hoftia confagra- 
da,êc lhe deraó muitas pu^ 
nhaladas : m.as com que 
effeito.^ Álguas vezes ma- 
nou delia copiofo fangue 
em prova de que debaixo 
daquellas efpecies exte- 
riores fe encerra realmen- 
te o verdadeiro corpo de 
Chriílo : & outras vezes 
ceílbu efte prodigio , nem 
viraó final, ou effeito al- 
R iiij gunx 






■:1í 






2 ^4* ^ Sermão do SantiJJifno 

gum da fua impiedade fa- o prova quanto à immor- 
crilega ; para que a ceguei- talidade-Áilim comoDeos 
ra Judaica fe defenganaf- feito homem quiz moi-rer 
fe •, que fe na Cruz lhe po- na arvore da Cruz para fe 
dérao tirar a vida , porque vingar do Demónio , que 



eílava nella mortal, & paf- 
íivel: jio Sacramento lhe 
não podem fazer dano pu- 
nhaes, cravos, nem lançasj 
porque eftà alli tam im- 
mortal, ScimpaíTivel, co- 
jno no Ceo. No Cco im- 
anortal^Sc impaífivei -, por- 
que depois de morto fe 
ámmortalizou pela refur- 
reiçaó: & no Sacramento 
também immortal, U im- 
paílíveh porque antes da 
morte fe tinha já im morta 



com outra arvore tinha 
enganado aos primeiros 
homens : affim traçou com 
fua infinita fabedoria , 6c 
omnipotência 5 que nòs o 
comcíFemosnoSacramen- 
tOjpara continuar, & con- 
fumar a mefma vingança, 
fazendo verdadeiras nelle 
as duav<i mentiras, com que 
omefmo Demónio f^ilfa- 
mente tinha acreditado a 
virtude daquella fruta. O 
que o Demónio prometeo 



lizado pela coufagraçaó. a Eva, foi , que fe comef- 
Bem feencheo, ôcfuprio fem da fruta da arvore vc 



logo neílaim mortalidade, 
&impaíllbilidade do cor- 
po de Chriilo f^cra menta- 
doaimmortahdade,&ini- 
paílibilidade divina , de 
que o Verbo na Encarna- 
ção fe tinha exinanido. 

245 Eque eíles dous 
eíFeitos de immortal , & 
impaílivelfe nos comuni- 
quem a nós no Sacramen- 
to j hum dos principaes 
«locivosdafua ^Aituijáp 



■íí' 



dada , nãofó não morre* 
riáo, mas licarião como -;enc# 
Deofes ; Nequaquam mor- 
temoriemm-i & eritisjicut 
dij. Ahíim Demónio, á'\z 
Chriílo,pois iílomeAiio, 
que tumentindoíingiíle, 
flirei eu verdadeiro , & in- 
ventarei hum ta] género 
de manjar,que comendo-o 
os homcns,nãofó íiqueni 
endeofados,//a// á'//,fcna6 
^aitttçnuiumpxtaes : AV- 



Sacramento. 26 f 

quaqtíam morte monenúni. me: primeiro fe armavão 



Afíimofezafeu tempo o 
mefmo Senhor , & afíini 
declarou ) que eíle fora o 
íeu intento,quando tão ex- 
preíTamentediíTe : Hk eft 
fanis de Calo defcendem^ ut 
fiquis ex ípfa manducave^ 
rity notí moriatur. De forte, 
que não ha du vidajem que 
ocorpodeChriílo cómú- 
gado em quanto no Sacra- 
mento eílà im mortal , 5c 
impafíivei, deites dous íb- 
beranoíiattributosnos co- 
munica o primeiro,que he 
aimmortalidade. 

244 Sobre o fegundo 
porém, que he o da impaf- 
iibilidade,íè recorrermos 
à experiência, a meíliia ex* 
periencia parece que o faz 
difficultofo. De todas as 
hiílorias Eccieíiafticas co- 
ita, que no tempo dos Ne- 
ros,ác Dioclecianos, quan- 
do os Chriílãos erão tira- 
dos dos cárceres , ou para 
adorar os ídolos , ou pa^ 
ra padecer exquiíitifíimos 
tormentos: lembrados da 
fenteaça de David : ^Vara- 
Jti in confpt^u meo menfam 



me. 

com o Santiílimo Sacra- 
mento. Aílim armados en- 
tra vão em tão perigoías 
batalhas, aílim pelejavão, 
aílim vencião; masco tão 
diíferentes modos de ven- 
cer, que a mefma vidloria 
parece que punha em du- 
vida a fortaleza, ôc virtude 
das armas. Hunsmartyres 
caminhavãofobreas efpi- 
nhas como fobre íloresj 
outros a cada paílb que da- 
vãOjlhe brota vão dos pès 
encravados tantas fontes 
de fangue, quantos eraó os 
efpinhos : huns lançados 
com pedras ao peícoço no 
mar, refpiravão debaixo 
das ondas, & faiáo vivos às 
prayas ; outros morrião 
afogados; huns veftidos da 
laminas ardentes, ou me- 
tidos nas fornalhas , naó 
lhe fazia mal o fogo, ou^ 
tros ardiãOjSc íicavão des- 
feitos em cinza ; huns ex* 
poítos no Anfiteatro aos 
Leoens,6c Tygres erão re-- 
verenciados das feras, ou- 
tros defpedaçados, 8c co- 
midos da fua voracidade 3, 



^dverjus eos^ qui trihuUnt &" i^mw^ : {luns eílejididos 



i 



til 



*^ 



; ■: Ir 



2 66 Sermão do SmttJJimo 

nosequleos ^nas cataílas, llld extra patientlam eft^ 
nas grelhas, riãofe dosty- vosfuprapatientiam. Por- 
raiios, outros invocaváo o que Deos he impaffivel 



nome do Deos , por quem 
padeciáo, com o qual na 
boca, exhallaváo confian- 
temente a vida. Pois fe to- 
dos pelejaváo armados cô 
o mefmo Santiííimo Sacra- 
mento, como a huns com- 
municava o impaflivel 
corpo de Chrilio a fua im- 
paílibilidade, não confen- 
tindo que padeceírem,&: a 
outros não , deixando-os 
padecer? 

z^f Refpondo y que 
ahuns,&a outros fazia o 



'm\ I 



por natureza, & vos felo- 
heis fuperiormente pela 
paciência. No que toca ao 
exceder a Deos,falIa c^ene- 
ca como Gentio > mas na 
impafiibilidade da paci- 
ência ouçamos nos aos Sá- 
tos Padres. S.Pedro Ve- 
ronenfe poz em queílão fe 
feha de chamar impafíi* 
vel a fortaleza, que pade- 
ce tão conftantemente,co« 
mo fe não padecera. Incer* 
tum eft utrum impajjiòilis 
judie et ur , cítm aliquidpaf' 
diviniílimo Sacramento fayquafinihilpalfajit^inve^ 
impaíTiveis, mas com dif- niatur. Porem S.João 
ferente milagres huns ím- Chryfoftomo fobre as pa- 
paíTiveis pela impaíTibili- lavras de S. Paulo , omnia 
dade, a outros impaffiveis fuffert , nao com duvida, i^/v' 
pela paciência. Ouçamos mas como propoílção cer- 

ta,& evidente, aírlrma que 
aque affim fofre , & pade- 
ce, jà tem paífado de ho- 
mem paffivel àimpafllbi- 
lidadedos Anjos : Tradu^ 
ãus eft ddtpfam yln^elomm 
mpatibílitatê. Afiim que, 
ou porimpafíibihdade íx- 
zendo que não padeção,ou 
por paciência tão force, & 



aoMeílrede húdos mef- 
mos tyranos , &: o maior 
deli es, que foi Ncro,Ferte 
fortiter adverfa : hoc e(i quo 
U^eum antece datis , diz Se- 
neca:Padecci forte,&: con- 
•ílantemente, advertnido, 
quciílo he io aquillo cm 
que podeis exceder ao 
meiíno Deos. £ porque.^ 



m- 



invencível como 
padecéraójfazo corpo de 
Chriílo facramentado im- 
palliveis aos que o come. 
Ejà pôde fer em confir- 



3 acr amento. 26/ 

fe naó de da Hoftia, por mínimas, 
& imperceptíveis que fe- 
jaó jcílà inteiramente to- 
do o corpo de Chriílo; 
Perguntemos agora aos 



maçáo da primeira, & de- Filofofos quantas faó as 
ftafegunda prerogativa, partes da quantidade? As 



que por iílb David diíle do 
mefmo Sacramento : í*/2- 
nemAngelorum manduca^ 
'vithomo. Se os Anjos naõ 
confagraó , nem comem , 
nem podem confagrar. 



duas opinioens mais cele- 
bres concordaó , em que 
faó infinitas : & fó diíFerem 
em que género de infini- 
dade j porque huns defen- 
dem, que faó adbualmente 



né comer eíle divino paó > infinitas, o qual infinito fe 

como lhe pôde convir o chama Categorematico , 

nome de pão de Anjos-, fe- outros fó admitem,que fe^ 

não porque faz immor- jãoinfinitas potencialmé- 



taes,& impaíli veis, como 
Anjos, aos homens, que o 
gomem ? 

í. VIL 



O Sexto, & grã- 



^4^ 

^.diflimo vazio 
da divindade do Verbo na 
Encarnação, he a infínida- 



te, o qual infinito fe cha- 
ma Syncategorematico. E 
porque efta fegunda opi- 
nião he a mais comum, 6c 
as partes que admite nelle 
género de infinito naó po- 
dem fer menos infinitas, 
que as do outro, confor- 
mandomecom ella, digo 
aííim : Infinitum eft , cujus 



de com que, fendo por na- femper aiiquid extra licet 
tureza infinito, fe fez fini- ac cif ere \ O mÇímto^ co- 



to. Mas também o corpo 
de Chriílo no Sacramen- 
to fuprio, &• enche admi- 
ravelmente eíle vazio. Em 



mo define AriíloteIes,he 
aquillo , cujas partes por 
mais,&:mais que fe divi-^ 
dáo,fempre rcílaó outras 



todas as partes da quátida- mais em que í e poííà di vi 



dir^ 







26^ Sermão ão 

dir. Eílando pois o corpo 
deChriílotodo em toda a 
Ho ília 5 & todo em qual- 
quer parte dei ia por míni- 
ma que feja, defendo po- 
tencialmente na mefma 
Hoília tantas as partes da 
quantidade , que por mais 
quefe divida , fempre fe 
pôde dividir mais, 6c mais 
ítm. fím : bem refegue, co- 
mo concluem todos os 
Theologos,queefl:ào cor- 
po de Chrifto no Sacra- 
mento,naó finita, íènão in- 
finitamente. 

247 E pofto que efta 
verdade a não alcácem os 
fentidos 5 antes fe enga- 
nem nella,em hum mefmo 
exemplo fez Chrifto, que 
a provaíTe o gofto , que a 
apalpaílem as niãos,& que 
a vitíem os olhos. Deo o 
mefmo Senhor de comer 
a cinco mil homens (^ a fo- 
ra a outra multidão de 
mulheres, & mininos,por- 
que o feguiáo a-s: famílias 
inteiras} com cinco pães 
fomente, osquaes crccé- 
rãodc fortc,que depois de 
fatisfeitos todos, recolhe- 
rão os j Apoíiolos das íò- 



SantíJTmo 
bras doze alcofas. Mas de 
que modo creòeo tanto ef- 
tepao, fendo tão pouco? 
Frangentis fragmenta Juc- 
ceduntyé'fal/untfemperper 
fiaãafrangentes : Creceo 
tanto aquella quantidade 
de pão, fendo tão peque- 
na, diz S. Hylario -, porque 
quanto mais, ôc mais fe di- 
vidia, tanto mais , & mais- 
fe multiplicava. Tom.ou 
Chrifto o pão cm fuás fa* 
gradas mãos, partio-o, &j 
quanto mais o partia , tan* 
to mais crecia nas máo5 
deChriftordeo-o Chrifto 
aosApoftolos, & quanto 
os Apoílolos mais o par- 
tião, tanto mais crecia nas 
mãos dos Apoílolos : da-» 
vão-no os Apoílolos aos 
paysjpartião-noos pays, 
& tanto mais crecia nis 
mãos dos homens : dav:3 o- 
noos pays às máys, par- 
dão-noasmãys , & tanto 
mais crecia nas mãos das 
mulheres : davaó-no as 
m áys aos fílhos,partiaó-no 
os íilhos,& tanto mais cre- 
cia nas mãos dos mininos. 
Dcíla maneira partiaóto- 
dos,& coméraó todos: & 
por- 



Sacramento. 
porque o pao quãto mais, ria para reparar na 



& mais fe partia , tanto 
mais, & mais íe multipli- 
cava 'y por iííb fendo taó 
pouco, fobejou tanto j & 
fe o numero da gente foíle 
maior , fobejaria muito 
mais. Tanto alEm , que 
quando os doze Apoftolos 
repartirão entre fy o mun- 
do, fe cada hum levara có- 
íigo a fua alcofa, naó feria 
neceflario, que os lavra- 
dores araílem a terra, nem 
femeaíTemjnem fegaíTem, 
nem recolheíTem , porque 
squellas mefmasíobrasde 
paó tantas vtz^s partidas , 
partindofemais, armais, 
baftariaô a fuílentar o mu- 
do. 

248 E porque mnguê 
duvide, que do mais par- 
tir nafcia o mais erecer , 
combinemos elle milagre 
com outro femelhâte. Em 
outra occaílaó, 6c em ou- 
tro deferto deo o mefmo 



2^9 

diíFe- 
rença deíles números em 
hum, & outro cafo. No 
primeiro,os que comerão 9 
eraó mais , & os pães eraá 
menos 5 porque os que co- 
merão, eraó cinco mil, 8c 
os pães cinco. No fegundoj 
os que comi raó, erao me- 
nos, 5c os pães erão maisg 
porque os que coméraó, 
eraó quatro mil,6c os pães 
fete. Logo por boa conta 
parece, que mais havia de 
fobejãrneíle fegundo mi- 
lagre , que no prímeiroJ 
Qual foi pois a razaó por- 
que quando os que come- 
rão, eraó mais, & os pães 
menos, fobejou mais:.6c 
quando os que coméraó^ 
erão menos , & os pães 
mais, fobejou menos ? A 
razaó he manifefta, como 
eu dizia, porque do mais 
partir nafcia o mais erecer. 
No primeiro milagre co- 
mo os que comiaò , eraó 



Chriíío de comer a quatro mais, 6c os pães menos , foi 
mil ho mens com fete pães: neceílario partir mais , 6c 
6c recolhendofe também poriíTocreceoopaómais: 



asfobras ,foraó as alcofas 
que fe encherão fete. Pou- 
ca Aritmedca he neceíFa- 



nofegimdojcomo os que 
comiáo,eraó menos, 6c os 
pães mais a foi neceíFario^ 



í 



1í' 



270 Sermão 

partir menos , & por ií^o 
eréceo menos. Equeper- 
tendeo Cliriílo Senhor 
noílb com efta evidencia 
tãofeníivel aos olhos, às 
ináos,&aogofl:o ? Egré- 
gia mente S. Paulino : 'Po- 
fulos quíJiquepanibusChri' 
ftus implevity ^fur tentes fi- 
dem carnaliterfatians ^fpi- 
ritualiter irrigans. O mi- 
lagre dos cinco pães foi o 
prologo com que o divino 
Meftre quiz difpor os âni- 
mos dos homens para a 
fé do Sacramento de feu 
corpo, do qual tratou na- 
quella occaíiaò taõ larga- 
mente, que tudo o que en- 
íina a Igreja, &o mefmo 
Evangelho que hoje can- 
ta, he hiia fó parte daquel- 
la doutrina. Por iíTo fez o 
Senhor , que o paó fendo 
táo pouco, feníivel 6cpal- 
pavelmente creceíTe fem- 
pre mais, & mais entre as 
mãos dos mefmos que o 
partiaó,para que naó du- 
vidaíTem crer , que em taò 
pequena quantidade co- 
mo adehúaHoíHa fe po- 
dia comprchender toda a 
grandeza fem fim de hum 



do SantlJJlmo j 

infinito, & que naó fó fi- 
nita, fenaò infinitamente 
eftava nella feu corpo. Eíla 
he a iníinidade,de que diz 
S. Thomis :EJfeChriJium 
in Hojiia Jemelin aãu^ i». 
finitiesinpotentia: porque 
eílando todo Chriílo em 
toda a Hoftia, 6c todo em 
qualquer parte , fe eftas 
aduaímente fe dividirem, 
ellarà também adrualmen- 
te era todas , & fempre 
mais,& mais fem fim, por-* 
queonaótem. 

24,9 Sendo pois efta 
manifeíla infinidade a cô 
que o corpo de Chriílo nô 
Sacramento fuprioa infi«# 
nidade do Verbo efcondi-r 
da na Encarnação 3 fó refta 
íliber (^ o que naó parece, 
fácil ) como nos cómuni* 
ca também a nos a mefma 
infinidade ? Digo que nos 
comunica Chriílo no Sa- 
cramento a infinidade de 
feu corpo, flizendo que afr 
fim como he infimco o 
manjar , que nosdàa co- 
mer, feja também infinita 
a fome, ou wòs infinitos na 
fome com que o comer- 
mos. O manjar fyncatcgo- 
rcmaticè 



D.TK-â 

4.Dift. . 
lO.q. I. 

Arr.í. 
explica- 
ras à 
Suario 

Sea.4* 



Sacramento. lyi 

rematicè infinito , & a fo- ra o faftio : IniUis àppeti' 



me também infinita fyn- 
categorematicè. Texto 
cxprellb do Efpirito San- 
to no capitulo vinte & 
quatro do Eccleíiaílico ; 
^uiéàíintme^ aãhuc efu- 
rienti & qui bibtmt me, ad- 
hucfiúmt, Chrifto na Ho- 
ftia dà a comer feu corpo , 
& no Caliz dà a beber feu 
fangue : mas o mefmo cor- 
po caufa tal fome aos que 
o comem, &: o mefmo fan- 
gue tal fede aos queobe- 



tus fatunt atem , fatuntas^^^^^B^^^- 

r /i- 1' J V Homil. 

fajtíammgenerat : porem^^in 
nos do Ceo , poílo q tam- ^^^"S- 
bem a fome fuccede o co* 
nier5&ao comer a farturia, 
à fartura naó fuccede o fa- 
ftio, fenaó outra vez a fo- 
me: Iniftis autem appeti' 
tus fatunt atem , faturitas 
appetitum parit i donde fe , .r^ 
íegue(^conclue o Santo) ;•; 
queaquelle que mais, 5ç 1: 
quanto mais come > eíle 
mais,6c tanto mais fica fa- 



bem, ambas fyncategore- mmto-.Tantoqueampiiusà 

maticè infinitas, que Òs 'comedenteefurimtur^quan-' 

que o comem , quanta taamplms ah efariénte co- 

ínais,5c mais comem, tan^ meduntur. Notai a repeti- 

tomais, & mais defejao çáo,&conexa6dehum,âc 

comer-, ^ui edunt me , ad^ outro ampãus : amplius ab 

huçefunent\ & os que o ba- efuriente^ amplius à cút^^ 

Í)em,quanto mais, & mais dente -. mais o que come,.^ 



bebem,tanto mais,& mais 
deíè jaó beber: Er qui bi^ 
hmtme^aãhucjltient. 

2fo Naó feria o divi- 
no Sacramento manjar do 
deo , fenaó caufára eftes 
cífeitos taó contrários aos 
da terra. Nos manjares da 
terra [diz S. Gregório] à 
fome fuccede o comer, ao 
comer a fartura, & à fartu* 



mais o que tem fome, por- 
que a comida V& a fome 
fucceífíva , & reciproca- 
mente fe caufaó húa a ou^ 
tra. E defte mais, 8c mais 
quecrecendo fempre naÒ 
pôde ter fim , fe forma o 
in^nitodos que aílim co- 
mem .* porque como ao 
mais,&: mais da fome íe fç- 
guéomais, 6c ma;is da far- 



i 



272 



Sermão do Sanfifjlmò 



mtnquam dicit^fufficit '. Sc ^'o^j? 



como a matéria do Altar 
era inconfumptivel , Sc o 
fogo que delia fe fuftenta- 
va, inlàcia vel j nem o infa- 
ciavel do que comia , nem 
o inconfumptivel do que 



6.11 

Marc 





tura,&ao mais, & mais da 
fartura o mais, & mais da 
fomcj ou eíles fartos,& fa- 
mintos haó de deixar de 
comer,oufe comem., haó 
de continuar mais, Sc mai^ 
infinitamente. O milagre 

do deferto teve fím; por- fe dava a comer podiao 
quefobejouo paó, Ôcfal- deixar de fer perpétuos:/» 
•touafome.-fobejouopaó: Altarifemper ardebit. Fi- 
joann: Supevaverunt fragmenta : nalmente efte era o my íle- 
faltou a fome : Saturati rio que depois fe verificou 
funt. Mas no milagre do no Sacramento do Altar, 
Sacramento, nem o paó aílim quanto ao corpo, co- 
pôde fobejar, nem a fome mo ao fangue de Chrillo i 
faltar. A fome naó pôde porque fendo os que o co- 
faltar ; porque nafce do mem infaturavelméte fa- 
paó: Bco paó naó pôde fo- 
bejar; porque a mefma fo- 
me que delle nafce, o co- 
me. Eporiílb nem o mi- 
lagre, nem a fome, nem o 
paó,nem os que o comem 

podem chegar jà mais a efiirient-ièrqui hwumme 
ter fim ,nem a deixar de adhucfitient. 
participar por efte modo 
o modo de infinidade,que 
«corpo de Chriílo tê no 
Sacramento. No feu Altar 
mandava Deos, que fem- 
preardeíTefogo : Ignis in 
Altari femper ardcbit. E 
porque > Porque o fogo 
nunca diz , balta ; Ignis 



I^evit 



mintos,&: os que o bebé, 
infaciavei mente fcquio- 
fosjnem aos que comem 
pôde faltar jà maisa fome, 
nem aos que bebem, a ih" 
de : §lut edunt me , aahtic 



§, Vill. 



25-1 



Final mete o ul- 
timo a ttribu to 
de que o Verbo fc defpio , 
veílindofedcnofili carne, 
foi a inviíibilidadc divi- 
na, fazendoíc de invifivel 

Vifl. 






Joann. 
M4- 



Sacramento. 273 

He o que diíle o propriedades da divinda- 
de exinanida, riaõ ío as re- 
cupera em ÍY Ghriííro fa- 
cramentadO) mas também 
nolas comunica a nòsi co- 
mo fe pode verificar » ou 
provar no attributo da in* 
vifibilidade? Sefora nou- 



viíivel 

Profeta ^2imc\v\Tõft hac 
in terris vifus efi , & cum 
hominibus converfatus eft : 
6cporiflb' omefino Evan- 
gelifta S. João tanto qxie 
diíle; Ver bum carofaãum 
eH j ajuntou logo 5 & "vidi- 



mus gloriam epts , gloriam tro lugar 3 féria diíHculto - 
quafi Vnigeniti à ^atre. fo;nefteem que eílamos> 
Mas fe o V crbo veftindo- 
Iç de corpo humano , &r 
fnanifeftandofe a noííb^ 
olhos, de invifivel fe fez 
viíivel j o mefmo corpo, 
para recuperar a inviílbi- 
lidade perdida na Encar- 
nação, depois de viílvel^^ 
6cviílc>,encobrindofe ou- 
tra vez aos noííbs olhos, 
fe tornou a fazer imiíxvcl 



he evidente. 

2 f 5 Fallando a Efpo» 
fafanta de Chrifto facra'-: 
menta do, diz que eftà en- 
cuberto, & in viíivel de- 
trazdaquella parede dos 
accidentes: En ipjejíatfoft cant. «: 
parietem noHrum. Amm^- 
entendem efte lugar com- 
mummente os Interpre- 
tes. Olhai agora para 



no Sacramento, Efta pri- aquella parede^ ôc paraef- 

meira parte do noífo af- tas paredes. Detraz da- 

fumpto naó ha miíler pro- quella parede eftà o Eípo- 

vaj porque a invifíbilída- fo: dentro deitas paredes 

de fó fe pôde v er,naõ ven- eftaó as Efpofas : alli o Ef- 

do,como nòs naó vemos pofoinvifivel,aqui as Ef- 

ao mefmo Chrifco , que pofas também inviíivei^. 

cremos, & adoramos pre- Que maior,8c mais eílreita 

fente,mais fírmcméte, que invifíbilidade, que aquellà 



tS^ fe o viramos. Mas a fegu- 

da parte do mefmo af^ 

fumpto , em que atègora 

moítramosjque as mefmas 

Tom. 7. 



que naó por hum dia, nem 
por muitos ) íenaô para 
fempre fe negou , & fe ef- 
condeoaos olhos domun- 
S ' àoi 



jLevit, 

A 6. 2. 



Aaor. 

»9. 



ÍBI i i 




^4 Sermão do Santiffmo 
do? Talhe a invifibilida- moveí,& immudavel E 
dedeChnítono Sacra- eíle he o modo, & encerra- 
mento, & tal a das Efpofas mento perpetuo com que 
domefmo Chrifto. EíTa naquella parede, &neftas 
he a grande energia com paredes o Erporo,& as Ef- 
que a Eípofa chamou pa- poías eftaó para fempreef- 



redeàquellcs accidentes: 
¥oft parietem noftrum. Po- 
deralhe chamar véojpode- 
ralhe chamarnuvem. No 
Templo de Jerufalem o 
que fazia inviíivel o Pro- 
piciatório em queeftava 
figurado Chrifto^era o véo 
que cobria o Sanda San- 
ítorum : SanBtiarhtm qitod 
efi intra velum: no monte 
Olivetea que também ti- 
rou dos olhos dos Difcipu- 
losaomefmo Chrillo fu- 
bindo ao Ceo, foi húa nu- 



condidas aos olhos huma- 
nos. 

2f4. O Profeta Ifaias 
fallando com Chriílo no írai.45-. 
Sacramento, diz : l^ere tu '^* 
es 'Deus abfconditus^ D tus 
IfraelSahator. Verdadei- 
ramente, Senhor, vòs fois 
Deos efcondido , Deosef- 
condidojôc Salvador. E 
fallando do myílerio da 
Encarnação, diz que aef- 
condida conceberá : Ecce |^^'-7* 
abfcondttacoricifíet. i^ílim Tert; 
fe lènoOngmalKebreOj^"'' 



vem : Et mbesfafcepit eum em cuja lingua,efcondida, 
abocuhs eorum. Pois fe os & Virgem, tem omelmo 



accidentes daquella Ho 
ftia faó os que nos tiraõ 
dosolhos,&nos fazem in- 
vifivelo Efpofo facramê- 



íignifícado. Chriílo Deos 
efcondido no Sacraméro, 
& as Virgens confagradas 
aChriílo , efcondidas na 



tado i porque lhe naó cha- Encarnação. Nem he ma- 
ma a Efpofa véo,ou nuvé , ravilha, que debaixo deíle 
íenáo parede , pojlparieté > fagrado nome jà entaó fof- 
Porqueo véopòdefe cor- fe exemplara Virgem das 
rer,&:anuvempodefemu- Virgens às que depois a 
dar -, porém a parede hc haviaó defeguir .-^^^//c^- 
impedimento íixiuc , im- tíir RegtVtrgiuespoJt eam. 

£ poi§ 






Sacramenta. ijs 

E pois eílamos no ultimo fto5&: efcondida em Deos : 



attributo da divindade re- 
ciif>erado por Chriílo no 
SacramentOjSc comunica- 
do a eftes generofos 1^ fpi- 
ricos, que por feu amor em 
corpo íè iizeraó i n viíi veis$ 
que lhe poílb eu dizer por 
fimjfenaóo.quelhe dizS. 
CoioíT Paulo : Mortui eftis 5 & ví- 
^ ^ • ta vefira abfcondita eft cum 
<2hriJÍ0yin'T>eõ:B,9c2ls mor- 
tos,diz o Kpo\\:o\o^ Mortui 
eftis-y^ não diz demaíia- 
doj porque hua vida en- 
cerrada entre quatro pare- 
des, nem vifta , nem viíi- 
vel 5 que outro nome Ih^ 
vem mais próprio , que o 
de morta,^: fepultada? Af- 
fim encareceo Job o eíla- 
do da Tua fepultura j naó 
tanto pelo enterradojquá- 
íopeloinviíivel : Nec af- 
loh.-^.í.píciet me vifiis hominis : nê 
meveráójà mais os olhos 
dos homens. Mas poíto 
que eílavoíTa vida por ef- 
condida, &: inviíivel pare- 
ça aos outros morta5Sc fe- 
pultada 5 coníiderai-vos 
para voiTa confolaçaó, on- 
de eftà efcondida, Sc com 
quem ; efcondida có Chri- 



Et njita veftra ahfco7idita 
eft cum Chrifto m'T>eo. Eftà 
efcondida com Chriílo, 
porque também Chriílo 
eílà efcondido no Sacra- 
mento V & eílà efcondida 
em Deos , porque quanto 
mais retirada dos olhos 
humanos, tanto mais fenaó 
tiraò nunca delia os olhos 
divinos. E fendo eíla taò 
grande confolaçao , ainda 
he maior a com que con- 
clue S.Paulo; C^^^C^rz/^/z.f CoioC 
apparuerit vita veftra^tunc ^•^' 
^vosapparebitis cum ipfo 
inglória'. Chriílo que ago- 
ra he a voíTa vida , & alli 
eílà como vos inviíivel,& 
efcondido,virà aquelle dia 
ultimo, em que ha de apa- 
recer, 8c fer viílo de todo o 
mundo: &entaó também 
vòs haveis de aparecer, & 
veráó os olhos , a que ago- 
ra vòs negais, quã precio- 
fo he , & quam agradável 
aos divinos, que fó vos vê, 
o inviíivel deíla voííà 
claufura ; porque aílim co- 
mo agora imitaíles aChri- 
ílo na fua inviíibiíidade , 
aíHm elle vifivelmente 
S i] nos 



i 



27<^ Sermai 

nos olhos de todo o mun- 
do vosha de coroar com a 
fuamefma gloria : Et vos 
apparebitiscum i^fo ingló- 
ria, 

§. IX. 



BEm acabava 






iJaqui o Ser- 
ma6:masemdia, &foIê- 
íiidade taó univerfal,obri- 
gaçaóheprecifa, que di- 
gamos húa palavra para 
todos. Se o corpo de Chri- 
ílo no Sacramento enche 
os vazios da divindade, 
quanto mais facilmente 
encherá os da noíía nçccf- 
iidade ? Tudo Deos criou 
vazio , mas logo encheo 
tudo. Vazia criou a terra: 
Cenef Terra ãut em erat inani s^à" 
'vacuã} mas logo a encheo 
por dentro de thefouros,6c 
porfóra de plantas,6c ani- 
ma es: vazio criou o Ceo; 
mas logo o encheo por dé- 
trode Gerarchias, & por 
fora deSol,Lua, & Elirel- 
« las : vazio criou o mar, & o 

ar-, mas logo encheo o ar 
de táta variedade deaves> 
&c o Kiar de taó ^rniiaiu 



> do Santijflimo 
multidão de peixes : va- 
zios criou aos primeiros 
homens como vafos ^e 
barro j mas logo os encheo 
dejuíliça original , & de 
tantos outros doces, & gra- 
ças. Taó natural he à ái'- 
vina bondade, que foi, he, 
6c fera femprc a mefma , 
encher os vazios de íuas 
criaturas : & aflim enche- 
rá os da noííli necellidade> 
& pobreza , muito melhor 
que o óleo de V' lifeo , por 
muitos que fejáo, vaja va^ ^.R<?gf 
cua non pa-iica. Antigua- '^^* 
mente na JeV) que era de 
rigor, mandava Deosque 
ninguém apareceíTe em 
íua prefença com as mãos 
vazias : Non apparebis in ^^"^ 
confpeEiu mco vacuus : po- ^^'^^' 
rèm hoje que eílamos na 
Ley da Graça, a todos nos 
exhortao mefmo Senhor, 
quenaó fó lhe prefcnte- 
mos vazias as mãos, fenao 
tambem,&: muito mais,os 
coraçoens ,& os dcfejos, 
para nolos encher abun- 
dantiífimamente do que 
elle melhor fabe dar, que 
nòs pedir. Quando os Ir- 
mãos dejofeph furão btif- 
çar 



Sacramento. 277 
car paó ao Egypto ^ todos 2 f^ Mas he tanta (de 
levavaóos faccos vazios, quem me queixarei? ^ ^ô 
& todos os trouxeraó tanta a fraqueza da noíTa 
cheosj&ríellesjuntamen- fé, &ta5 poucaaeftima- 
te o preçoj porque eíle à^v- ça5,que fazemos dos bens; 
vino pao , que naqueJle fe do Ceo, que nem de graça 



j'eprerentava 5 era paò de 
graça. E depois que Deos 
peio beneficio da Encar- 
nação fe fez Irmaó noíío , 
naó íèria taó bom Irmão 
como Jofeph, fe recorren- 
do aos ceileiros de fua li- 
beralidade, que no mefmo 
paóeftaô encerrados, nos 
naóderpachaífe cheos, & 
ricos de tudo o que a noíla 
íieceííidade lhe prefen- 
tafle vazio. Chegai, che- 
gai (^ diz S. Thomás A rce- 
bifpo de Valença) chegai, 
naó aefta fonte , íènaó a 
efte oceano immenfo de 
graças , que a todos eílà 



os queremos. Oavi o que 
diz a femelhantes Almas 
ate hu 111 Poeta Gentio : O 
cuTvas animas htnninum^ 
ér caleftmni inanes \ Oh 
Almas dos homés taò bru- 
tas,&: irracionaes como as 
dos mefmos brutos : í*^^^- 
i;^5"5porque fempre andais 
encurvadas , & inclinadas 
para a terra, & por iíTo va- 
zias dos bens do Ceo , & 
caleftium inanes \ Por mais 
que húa Alma foíTe fenho- 
ra de toda a terra , 6c defde 
a terra ao Ceo fenhora de 
todo o mundo > fempre fi- 
caria vazia,porq fó Deos a 



expofto, a todos defeja , a pôde encher. E tendo nos 
todos chama,a todos efpe- a Deos tão perto, quantas 



ra ♦, & por maiores , & de 
maior fundo que fejaó os 
vazios de voíla neceíllda- 
de, cada hum encherá os 
íeus atè naó poder levar 



Almas ha indignas deíle 
nome,quefe naó chegaó a 
elle,fenáo por força , & a 
mais naó poder deanno 
em anno ,^ EUe chanoufe 



mais. Oceanus eft gratiarú paó de cada dia, para que 

immenfus , vasfuum (^uif" todos os dias o comeílc- 

gmadfummumreflet^ mosj como faziaó ospri- 

Tom./. S iij meiros 



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BvB^H 


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V^iB^H 


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■ *'^fifiíí 


1 vÊW 


1 'Mi 




■278 Sermão do 

meiros Chrií]:áos:8c fomos 
chegados a tempo em que 
fe tem por grande chriítã- 
àoAQ 5 & devação comun- 
gar todos os mefes. Que 
bem compete aos que nem 
ifto fazem, as palavras de 
Job ISic é^ego habni men- 
]ob.y. ,.fes vácuos. Devendo fer os 
diascheos,arèos mefes faó 
vazios. PaíFafe hum mez, 
& outro mcz, paíFafehum 
JiibileOj&:oucroJubileo,ac 
nem a importância da gra- 
ça, nem a cóveniencia das 
graças (^como fe naò ou ve- 
ra fé, nem outra vida ; co- 
mo fe naó ouvera inferno, 
nem Purgatório} nos per- 
mitem os vicios j de que 
eílâo cheas as nofilis Al- 
mas,que por meyo da con- 
triçáo,& coníiífao as pre- 
fentemos àquella fagrada 
mefa vazias. 

2 f7 Vazias aífim dos 
peccadosasnoíílis Almas, 
ffc fomos Chriftãos, ou 
daqui por diante oquere- 
'mos fer Jo que deve procu- 
rar cada hum de nos com 
verdadeira refolução, fiô 
duascouíasraprimcirajen- 
cher a Alma com a graça , 



Santiffimo 

para que naó eíleja vazia: 
afegunda, encher a graça 
com obras chriftáas jpara 
que perfeveremos na mef- 
ma graça. Qual he a razaó, 
ou defeito, porque os que 
fe confeífaó,&: cómungaô, 
& fe põem em graça de 
Deos , naó perfeveraó na 
graça muitos dias, & tal 
vez no mefmo dia a per- 
dem > A razão,& o defeito 
hej porque ainda que en- 
chemos a Alma com a 
graçajnáo enchemos a gra- 
ça com as obras , fem as 
quaesclla naó pode per- 
manecer. Confideremos, 
&pefemos bem o que diz 
S. Paulo de fy, & o que nos 
aconfeiha a nos. O que nos 
aconfelha o Apoftoio, que 
foi ao Ceo, & tornou , he, 
que não tenhamos a gra- 
ça vazia : Ne in "vaciium , 
gratiam T>ei recipjatis : & 
o que nos diz de Íy,he5que 
a graça que recebeo de 
Deos, nunca a teve vazia, 
&■ por ifío permaneceo 
femprenella ; Grar/a tjus 
in nie ia ena non fuit , fcd 
gr aí! a (jiisfempcr in me ma- 
net. Sendo a graça tàò con- 
traria 



Ó I. 



I Cor. 
r-T 10. 

c!cí: 



mk 



iBfei 



Sacramento. 27P 

traria à natureza , fó nifto vácua nonfult: ta mbem fá- 



íe parece a natureza com a 
graça , ou a graça coma 
natureza. A natureza de 
nenhum modo admite , 
nem permite vácuo , don- 
de naíbeo ò Proíoquicí^ 
KondãiuT i)acmm m r-e- 
rum natura. E eíTa he a Fi- 
loíbfia, porque nos ele- 
mentos, & mixtos, ou ef- 



rà em nòs como nelle fem- 
pre permanente 5 Etgra^ 
tia ejus femper in me ma^ 
net. 

25-8 E fe me pergun- 
-tais como eferà a. graça 
fempre cliea, & inunca va- 
zia ? Refpondo , que en- 
chendo os vazios que na 
Alma Gccupavao os vi- 



pontaneamente 5 & porfy cios, primeiro có os aélos, 
mefmasjou obrigadas da & depois com os hábitos 



arte , vemos tantos eíFei 
tos , que parecem mila- 
grofos, & verdadeiramen- 
te faó naturaes. Vemos fu- 
bir a agua, & a terra 5 ve- 
mos decer o ar, &■ o fogo, 
vemos róperemfe os már- 
mores, Sceílallaros bron- 
zes , tudo por acudirem a 
impedir o vácuo , ou va- 



das virtudes contrarias. 
Em lugar da foberba entre 
emnofías Almas a humil- 
dade, em lugar da intem- 
perança; entre a pureza , 
em lugar da envejaa ca- 
ridade, em lugar da ira a 
maníidaó, em lugar da gu- 
la a fobriedade, em lugar 
da ambição o defprezo do 



zio 5 o qual fe ouveíTe na mundo, em lugar da Vm^ 
natureza , pereceria o mu- gança o perdaó das inju- 



do. O mefmo aconteceria 
(^ & acontece } à graça , fe 
nella ouveíTe vácuo: & por 
iíTo o devemos reíiftir com 
todas as forças : Me in va- 



nas, em lugar do ódio o 
amor do próximo , ainda 
que feja o maior inimigo ; 
finalmente em húa pala- 
vra, por mais que a natu- 



cuumgratiam "Dei recipia- reza corrupta , & mal ha- 
tis. Se a graça em nòs nun- bicuada repugne, que o ai - 
ca.eftivervaziajcomo em to,& leve deça,& o baixo, 
§.Paulo ; Gratia ejus in me & pefado fubá: porque de- 

S iiij Ha 



2 8o Sermão do 

íla maneira nos confor- 
maremos com todo o ex- 
emplar do noíTo aíTump- 
tOi imitando a Deos na 
Encarnação, que deceo a 
tomar condiçoens de cor- 
po,&aChrifto no Sacra- 
mento, cujo corpo fubio a 



Santiffimo 

participar os attributos de 
Deos, os quaes nòs tam- 
bém gozaremos eterna- 
mente na mefa da Gloria 
por graça do mefmo paó, 
que para nòs fubirmos de- 
ceo do Ceo : Hic eftpanis^ 
quideCalodefcendit. 




SER- 



28l 



cia fi^-!ri) «falia lia stlcíactllfeííal^ 

f f f ^f ff ¥f f f -^ t f #f f 'f * f t" 

SERMAM 

DE 

S GONÇALO 



*JV venerit infecunda 'vigiUa^&fim tertiavigilia^eneritf 
&itamvenerit ykeatífunt fervi illi. L.uc.12. 



§.i. 

Nde ha muito 
i||(gi|em que eleger, 
L^^iR n-aó pôde haver 
: Vrwi® pou CO íbbre qu e 
duvidar. Celebra hoje a 
noíTa devaçaó hum Santo, 
fobre cujo ellado duvida- 
rão os Hiftoriadores , fo- 
bre cuja profiíTaó duvidou 
^llemeímo, & fobre cujas 
grandezas, para eleger as 
maiores, eu fou o que mais 
duvido, DuvidáraposHí-^ 



ftoriadores fobre p íeu ej^ 
tado^porquehunso fize- 
raó da Jerarchia Clerical , 
como filho de S. Pedro | 
outros da Monaílica , co- 
mo Monge de S. Bento } 
outros da iMendicantejCO- 
mo Religiofo de S. Do-» 
mingos : controverfía era 
que he mais glonoía a du* 
vida, que a decifaó. Aíllm 
duvidarão , &■ contende- 
rão as mais nobres Cida- 
des da Grécia fobre qual 
foife^ououveffeíidoa Pá- 
tria 





2S2 ^. 

tria do famofo Homero. 
Duvidou o mefmo Santo 
fobre qual feria a profííílió 
em que Deos mais fe agra- 
daria que elle o ferviífe: 
porque naó baila fervir a 
Deos ; mas he neceílàrio 
ft:rviIo como elle quer. E 
como neíle requerimento 
empenhaíTe muitas horas , 
& muitos dias de fervoro- 
faoraçaó,&,porque jà era 
Sacerdote> muitos facriíi- 
cios ; finalmente lhe ref- 
pondeo o divino oráculo, 
que fe dedicaíTe a feu fer- 
viço naquella Religião, 
em que fe dà principio aos 
Officios Divinos pela Ave 
JVlaria. Com efte indicio , 
no qual era íignifícado cla- 
ra mente o fagrado Inftitu- 
todos Pregadores, refol- 
veooSanto a fua duvida: 
&comomefmoefpero eu 
refolver a minha. Para dar 
pois bom principio ao 
noíTo difcurfo , antes de 
faber , nem propor qual 
ha de fer,comecemos tam- 
bém faudando a Máy da 
graça , & digamos A^ve 
Maria, 



nnao de 



í. II. 



s; 



■venerit infccuda vigília^ 
&fun tertia vigilia vene- * , '• ' '» 
rity beatijunt fervi tUi: ^ ' 



DUvidofo eu 5 



26o . ^ 

& muito du- 

vidoíb, como dizia, entre 
as grandezas do no íib San- 
:to,para eleger , Sc pregar 
dcUeas mais admiráveis, 
fobre efta minha duvida 
encontro no Evangelho 
có outra maior. Diz Chri- 
fto Meftre divino , & Se- 
nhor noíTo 5 que os fervos 
que elle achar vigilantes, 
ou venha na fegunda vigia 
da noite,ou na terceira^ef- 
fesfaóos Bemavéturados. 
A fuppoílção , & fraíi he 
niihtar; porque jà os fol- 
dados naquelle tempo di- 
vidiaó a noite em quatro 
vigias , de cujo numero 
perfeverahojeonome de 
fe chamarem quartos. E 
porque a nofla vida, como 
dizJob,he milicia,& nefte 
mundo vivemos às cfcu- 
ras,ou com pouca luz co- 
mo denoitCj divide o Se- 
nhor 



^.v 



mmm 



S.Gonçãto. iS^ 

nhor a mefma vida do lio- dos miniiios^ ainda os naó 



meni em quatro partes 
com nome de quatro vi- 
gias. A primeira parte, ou 
idade he a de minino, a fe- 
gunda a de manceboja ter- 
ceira a de varaója quarta a 
de velho. Suppoílo pois 



tenta o mundo ; na ultima, 
quehea dos velhos jjà os 
não tenta : & a virtude fem 
batalha, que nos mininos 
he innocencia , 6c nos ve- 
lhos defengano , quanto 
mais eftà em paz , & fora 



queeílas partes, ou idades da guerra , tanto menos té 
nocurfoda vida humana de vidoria,& de folida , & 



faó quatro, porque deixa o 
Senhor a primeira, & a ul- 
tima, Seio fazmençaó da 
fegunda,& da terceira ? Si 
venertt i?i fecunda vigiliay 
&Jii?i tertia ^vigília vene- 
rit? A razaó natural quan- 
to às vigias, he, porque na 
fegunda, & na terceira he 
mais carregado o íbno, 
mais trabalhofa a refiílen- 
cia,&mais difficuitofa a 
vigilância. E quanto às 
partes , ou idades da vida 
neta mb em a mefma , ou 
•femelhante -, porque na 
idade de mancebo , & de 
varaó , aílim como as ten- 
taçoens faó mais fortes, af- 
íim he mais trabalhofa a 
•reíiílencia dos vicios , & 
niaisdiflicultofa a obfer- 
vancia das virtudes. Na 
primeira idade , que he a 



forte virtude. 

2 dl S. Gregório Na- 
zianzeno concordando ef- 
te texto com a Leyem q 
Deos nos manda que a 
amemos , da outra razap 
igualmente própria, & na- 
tural, mas muito maisfu- 
blime; T>iliges T>omlnum ux^^^^, 
l^eum tuum ex totó cor de -"• 
tuOi & ex tota anima tua^ ò* 
ex omnibus viribus tuis^ C^* 
ex omni mente tua. Amaras 
a Deos teu Senhor com to- 
do o teu coraçãOjCom toda 
a tua alma, com todo o teu 
entendimento, 5c com to- 
das as tuas forças. De forte 
quedeílas quatro partes, 
ou deftes quatro todos ha 
de conftar o amor deDeos, 
para fer legitimo de todos 
CS quatro cofiados. Amor 
de todo o coraçáo^anior de 
toda 



ni 



r'.t' 



2S4. Si 

tocia a alm.ij amor de todo 
o entendimento, & amor 
de todas as forças. Poisef- 
ta he a razáo,porque Chri- 
ílofó falia da fegunda, Sc 
da terceira vigia, & naóda 
primeira, nem da quarta: 
£ porque fó chama Bem- 
aventuradosaosda fegun- 
íiaj& terceira idade , que 
faó osmancebos5&: osva- 
roens, & naô aos da pri- 
meira,& da quarta,que faó 
osmininos ,& os velhos? 
Sim 5 Sc clariílimamente. 
Porq Deos quer Ter amado 
não lo com todo o cora- 
ção 5 & com toda a alma, 
fenaó também com todo o 
entendimento, & com to- 
das as forças : & pofto que 
osmininos, & os velhos té 
coração, & tem alma 5 os 
mininos ainda não tem 
cntendimêto, &os velhos 
jà naó tem forças : logo fó 
os da fegunda , & terceira 
vigia, fó os mancebos, Sc 
os varoens podem amar,& 
fervir a Deos com todas 
as quatro partes, ou todos 
os quatro todos do intei- 
ro,& perfeito amor : com 
fodo CQraçáQaí'^' íoto cor' 



de : com toda a ai ma , ex to- 
ta anima-, com todo o ç^n- 
tcv^CwmzritQ^extota mente-. 
com todas as forçasjí a" om- 
nibus viribus. 

261 Entendido afllm 
(^ pois aíTimfe deve enten- 
der^ o Evangelho , parece 
queelleporfy mefmo nos 
tem jà dividido o difcurfo 
em duas partes, & que íè* 
gundo ellas , devemos tra» 
tar das duas principais 
idades do noíTb Santo: a 
fegunda, que nos mance- 
bos heílorente,& a tercei- 
ra,que nos varoens he ma* 
dura i fendo húa , Sc outra 
na fua perfeição , ambas 
forãocheasde flores , Sc 
ambas de frutos. Mas po- 
ftoqueaílim pareça a ou- 
tros, a mim, cuja he a elei- 
ção, não me parece. Não 
faó as excellencias de S. 
Gonçalo tão pouco gran- 
des, quecaibãoemtãoef- 
treitos limites. Quando o 
Rio fae daMadre,tambem 
as margens faóRio.Não fó 
havemos de alargar o E- 
vangclhojfcnão também o 
numero das vigias. Digo 
pois, ou deteriniiio dizer , 
que 



^.^r;: V. 



S. Gonçalo. 285: 

que S. Gonçalo naó fó foi tos dias ; S. Gonçalo na6 

efperounem hum fôdia, 
porque no mefmo dia em: 
que naícendo fahio à luz 
quarta :& não íó da pri* do mundo, jà era homem, 
meira, da fegunda , da ter- &: grande homem no fer , 
ceira,&da quarta jfenaõ poíloque foíTe mininona 



Santo da fegunda , 6c da 
terceira vigia ^ fenaótam 
bem da primeira , & 



da 



eftatúra. Fallandoo Pro- 
feta Zach árias do futuro 
Salvador do mundo, ç^iíci^ , 
ta primeiro as admirações 
do que havia de dizer com 
a palavra Ecce : & o que 
diife , he, que o feu nome 
íeria: O que nafce homem: 
Ecce vir oriens nomen ejus, 
Efehe prodígio digno de ^ 
pois de morto 5 em que tê admiraçáo,5c admirações, |*'2^^ 
jà cinco vezes tantos an- quehum homem, que era 

juntamente Deos,nafcdIe 



também da quinta. Santo, 
& admirável Santo na pri- 
meira idade de minino : 
Santo, & admirável na fe- 
gunda de mancebo : San- 
to, Sc admirável na tercei- 
ra de varaó : Santo, ^ad- 
mirável na quarta de ve- 
lho:& finalmente Santo, 
6c admirável na quinta de- 



nosjquantostevede vida. 
Se o difcurfo for largo, fa- 
cilmente fe acomodará a 
devaçaõcoma paciência. 

/. ÍII. 

2^3 /" Omeçandope^ 
V^la primeira vi- 
gia ', foi Santo, 6c admirá- 
vel Santo S. Gonçalo na 
primeira idade de minino, 
porque naó foi minino 
minino, fenaõ mijiino ho- 
mem. Os outros mininos 
para chegarem a fer ho- 



minino,&: homem,^/> ori* 
ms\ quam admirável San- 
to devemos entender, que 
foi o noííb , fendo àAã.^ 
feu nafcimento naó home 
minino, fenaó minino ho- 
mem? Hum íó homem ou- 
ve no mundo, que nafceA 
fe homem. Eftefoi Adam^ 
a quem Deos criou em 
idade, 6c eftatiira perfeita, 
Maseíle homemjque uni- 
camente naí?:eo homem» 



aBensiiíiQ de eípexar piui- neíp pojr ilío deixou de fer 



286 



Sermão de 



iy^r: 




I .1^ 




minino.Vòso julgai. Ode 
que era renhor,& o que ti- 
nha de Teu Adam, naó era 
menos que todo efte mia- 
do :6c hum homem , que 
tendo tanto , deo quanto 
tinha por húa maçãaj vede 
fe foi minino. Adam naf- 
cido homem , mas ho- 
mem minino •, Gonçalo 
nafcido minino, mas mi- 
nino homem. 

E quando come- 
çou eíle grande minino a 
moílrar publicaméte, que 
era minino homem ^ Oito 
dias depois de nafcido, 
que foi o de feu bautifmo. 
Sahiodapia onde os ou- 
tros mininos eílranhaó tã- 
to o rigor da agua, 8c quan- 
do a ama o recolheo nos 
braços para o acalentar do 
choro,&:lhedaro peito; o 
prodigiofoinfinteem vez 
de chorarj&: mamar, fitou 
os olhos em hum Chriílo 
cruciíicado,& com o roílo 
alegre , &: os bracinhos 
abcrtos,&c cftendidos, pa- 
recia que lhe dava as gra- 
ças da graça que recebera. 
ÃnimeRcvc por largo ef- 
paço com admiração , & 



pafmo dos circunfl-antes, 
fem o poderem divertir da 
viíla firme , &: contempla- 
ção attenta do fagrado ob- 
jedto. E quem negará, que 
foi iílo receber o bautif- 
mo náo como minino, íè- 
não como homem.^ O bau- 
tifmojou o recebe osadul- 
tos,que íàò os homens , ou 
osinnocentes, que faó os 
mininos : mas com grande 
femelhança no bautifmo, 
&com grande dift'erença 
nos bautizados. No bau- 
tifmo com grande feme- 
lhança j porque afiim a 
huns como a outros comu- 
nica a quelle Sacramento a 
graça, & infunde os hábi- 
tos de todas as virtudes: 
mas nos bautizados com 
grande differençaj porque 
nos innocentes fícão os há- 
bitos das virtudes como 
amortecidos fem podcré 
exercitar os a£bos delias: 
& nos adultos ficão vivos, 
Ôcpromptos 5 porque lo- 
go, ou produ7:em, ou po- 
dem produzir os a£los vir- 
tuofos, a que os mcfmos 
jiabitos osínclinão. Allim 
fcvio no bautifmo de S. 
Ago- 



S. Gonçalo. 287^ 

Agoftinhoj que foibauti- devotajôc confiante atten- 



zado em idade de trinta &: 
três annos, & aílí ni elle co- 
mo S.AmbroíIoq obauti- 
ZOU5& também tinha fido 
baiitizado em idade adul- 
ta, compuzeraô extempo- 



çaójO da perfeverança. 

264 Là diz O Real Pro- 
feta do homem que logo 
começa, & ha de fer gran- 
de Santo : Et erit tanquam 
Ugmim^ quodplantatum eji^ç^i^ 



raneamente5& cantarão o fecus decurfus aquãrum ^^-^ 
Hy mno, Te T>etimiÇ.m que quodfruBum fuum dabit in 



fe contém tantos , & taó 
excellentes a£tos , & taó 
ardentes aíFedtos de todas 
as virtudes. Agora pergú- 
to : E a qual deílas duas 
differenças, ou claíTes de 
bautizadospertéceo nof- 
fo Sáto ? He certo, q naó à 
dos mininos , & innocen- 
tt^., íenaó à dos homens, & 
adultos. Porque logo, co- 
mo íe o bautifmo lhe in- 
fundira naó fó os hábitos, 
fenão os a£tos de todas as 
virtudes; em não chorar, 
exercitou o da fortaleza j 
em naó tomar o peito,o da 
temperança ; em fixar os 



temporefuo\ Que fcrà como 
a arvore nova , & tenra 
plantada junto às corren- 
tes das aguas, a qual dará o 
fruto a feu têpo. As aguas 
correntes faó as do bautif- 
mo: as plantas novas re- 
gadas có ellas, faó os bau- 
tizados não adultos, fenaó 
mininoS)&innocentes: & 
deílesdiz o Profeta naô 
que dão logo o fruto, fenaó 
que o daráó a feu tempo. 
Porque ? Porque naquelle 
eílado imperfeito da natu- 
reza, que he a infância, 
aííimcomo tem emmude- 
cida a lino;ua , & enfaixa- 



olhos,& eftender alegre os dos os braços, aílira as po- 

bracinhospara a imagem tecias da Alma comodor- 

de Chrifto crucificado , o mentes não efláo promp- 

da prudência, o da juíliça, tas,& expeditas para exer- 

o da religião, o da fé, o da citar logo os ados das vir- 

caridade:&em onaó po- tudes. Crecendo porém 

derem divertir daquella depois^ac tomando força s^ 



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É 






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1 



Sermão de 
ou amanhece, raò a Fé, aquelles olhos fí- 



2S8^ 

entaófae , 

como Sol de entre nuvês, 
o lume do entendimento, 
&darazaó, & entaõ he o 
tempo determinado pela 
natureza, 6c efperado pela 
graça, para poderem pro- 
duzir, 6c produzirem os 
frutos : Etfruãnm fimm 
dabit in temp ore fito . À íli m 
fucede a todos os mininos. 
Porèmonoífo, como ex- 
ceiçaó dos demais, antici- 
pando os limites, & vaga- 
res da natureza, fez feu o 
tempo que naó era feu, &: 
léus os frutos que naó eraó 



zeráo feu o coração com 
que a creraó , & aquelles 
olhos íizeraó feus os pès, 
ou para melhor dizer , as 
azas,comque vencerão as 
diílanciaSjque ha de mini- 
no a homem , fem deixar 
efpaçoemmeyo, Aflim fi- 
cou o noílb SantOj&fe mo- 
ftrou publicamente mini- 
no,6c homem juntamente 
no mefmo tempo -, porque 
náofendoo tempo feu em 
quanto minino , em quan* 
to homem,&: com acçoens 
de homem o fez feu : Et 
do tempo. Reparou , & fruãumfimm dabit in tem* 
confidera difere ta mente porefuo. 
S.Agoftinho, queosmini- zóf Náoparouopro- 
nosvaõ ao bautifmo com digio naquelle primeiro 
pès naò feus, 8c crem com dia j mas depois fe conti- 
coração não reu,6c confef- nuou com novas , & maio- 



faó o que crem com lingua 
naófua : ^ar^oulis mater 
E,cclejta aliormn pedes ao- 
cÕmodatutveniant -i aliorú 
corutcredant^ alionim lin- 
guam íLtfateantur. E tudo 
ifto fízerão feu os olhos do 
noflb n-iinino , fíxandofe 
cm Chrifto cruciíicado. 
Aquelles olhos íizeraó fua 
a lingua com que confeííá- 



res circunftancias -, porque 
o mefmo minino, que en- 
tão não chorou,agora cho- 
rava irremediavelmente, 
& o que entaó não tomou 
o peito, agora eftava con- 
fiante em de nenhum mo- 
do o querer admitir. Não 
fe entendia ao principio o 
fciircdo deitas lasírimas,^: 
abílincaciasi até que final- 
mente 



S.Gonçalo, 1%^ 

"mentefe conheceoc| eraó piritualfejamaisnobreno 



faudades dos feus primei- 
ros amores. Para qiienaó 
chor-iíre5(Sc íe deixaíTe ali- 
mentar, de que induílria 
ufáraó ? Levavaó a Gon- 
çalo , ou Gonçalinho à 
mefma IgrejasÔc tanto que 
punha os olhos na imagem 
de Chriílo crucifícado, 
cila vifta lhe enxugava lo- 
go as lagrimas , & lhe tira- 
va o faliiojcom quejàcon- 
|:ente,&: goftoíò aceitava o 
natural alimento. Hfte era 
o único remédio, fem ha- 
ver nenhum outro ; cafo 
verdadeiramente raro , & 
mais íè confultarmos nelle 
a S. Paulo. Para intelligé- 
cia do grande prodigio, 
que encerra, fe ha de fup- 
por^que o homem he com- 



homem que a animal , a 
animal com tudo he pri- 
meiro que aeípirimal, Sc 
que a efpiritual naó tem 
lugar fenão depois da ani- 
mal : Non prius quoàfpiri- 
tualeeft^fedquod antmaley^^^^l' 
deinde quod/pirituaJeMn^iy 
fie outra coufa confirma o 
Apoftolocom o exemplo 
de Adam homem da terra, 
de quem recebemos a vida 
animal,& foi primeiro que 
Chrifl:o:Sc como exem- 
plo de Chriílo homem do 
Ceo, de quem recebemos 
a vida efpiritual, & foi de- 
pois de Adam. Ifto he o 
que enfina S, Paulo. Va- 
mos agora ao que fe via no 
noílb Santo. O chorar, ou 
naó chorar, pertence à vi- 



poftodeduas partes, húa da feníitiva; porque o cho- 
animaljêc outra efpiritual: ro he effeito do fentimen- 



a animal coníta de duas vi- 
das, que faó a vegetativa , 
&fenfitiva i 5c a efpiritual 
confiíle em húa fó , quehe 
a racional. E que diz S. 
Paulo ? Tudo o contrario 
do que acabamos de con- 
tar do noítb minino. Diz 
que pofto que a parte ef- 
Tom./. 



to : o tomar50u nao tomar 
o peito,pertence à vida ve- 
getativa -, porque a nutri- 
ção he effeito do alimento: 
do mefmo modo o chorar 
porver a Chriílo, &; naó 
admitir gofto íem elle, he 
eíFeito da vida racional, & 
o mais racional da mefma 
T vi^ 



25ÍO Sermão de 

vida. Pois fe S. Paulo diz, meira, que Deos he o ulti- 



õJilL^ 





I .1 



que primeiro he no ho- 
mem a parte animal, & de- 
pois a parte efpiritualj co- 
mo eraó primeiro no noííb 
minino osa£í:os da parte 
efpiritual, & depois os da 
animal: primeiro o bufcar, 
&veraChriílo,& depois 
o ceíTar do choro, & tomar 
o peito? Porque S. Paulo 
fallava conforme a ley or- 
dinária da natureza, & dos 
mininos, que primeiro faó 
mininos,& depois homés : 



mo fim do homem : fegun- 
da," que todas as acçoens 
humanasjôc propriamente 
de homem, devem fer en- 
caminhadas a efte ultimo 
fim: terceira , que as ac- 
çoens, que não levão dian- 
te dos olhos efte fim, ainda 
que as faça hum homem 
de cem annos, naó faó hu- 
manas, nem de homem, 
fenaó animaes, & de mini- 
no,ou bruto. Edigo indi- 
ftintamente de minino, ou 



porém o noíTo Santo obra- bruto; porque taó animal 
vacomoexceiçaó da mef- acçaóheo n>amar , & o 



ma ley, 6c náo como mi- 
nino fomente minino, fe- 
naó como minino junta- 
mente homem. 

266 Daqui fefegue em 
maior aíTombro do cafo, 
que o mefmo não ceifar 
do choro, oco mefmo naó 
tomar o peiro, fenaó com 
Chrifto diante dos olhos, 
jà não eraó no noíTo Santo 
ados animaes , & de mini- 
no, fenaó racionaes , & de 
homem. Para prova deíla 
grande confequencia fup- 
ponhocomaFè,&com a 
Xheologia três coufas: pi i- 



chorar em hum minino » 
como o mamar, & o balar 
em hum cordeiro. Nem o 
exemplo, ou nome demi«p 
nino de cem annos he no- 
vidade neíle ponto > por- 
que mininos de cem annos 
chamou o Profeta faias 
aos que delle modo obraó: 
'Fuerictntum annorum. -Errai. tf c: 
como o noífo minino cef- 20. 
fava do choro,& tomava o 
peito com Chriílo diante 
dos olhos, que he o ultimo 
fimdohomcm , o mefmo 
ceflar do choro, & o mef- 
mo tomar o peito, que nos 

OUtiO,' 



«fe 



S.Gonçalo. 291 

outros mininos faó acções não muito antes deila,aín- 

animaes^demininojiiel- da mudo ,& ainda total- 

le eraó racionaes,& de ho- mente infante , jà o noíTo 

mem. Oh que grande mi- minino erajuntaméte ho- 

nino,& que grande home mem. Tire pois S. Gonça- 

fois> meu Santo ! O mefmo lo das mefmas palavras do 

S.Paulo dizia de fy : Cum Apoftolo o qumdo autem^ 

efemparvulust lo que bar ut Sc applicando a fy as pri- 

farvulus yfapiebam utpar- meiras,& as ultimas , diga 

vulus, cogitnbam utparvu- confiadamente : Cum ejfem 

lus : quando autcm faBus parvuluSyfaãusfum vir, 
fum vir , evacuavi qua erat 



parvuli: Eu,diz o Apoílo 
lo, quando era minino/al- 
lava como minino , enten- 
dia como minino, 6c cui- 
dava como mininOjporèm 
depois que creci,& fui ho- 
mem, ácr^ú tudo o que 
era próprio de minino. S. 
Gonçalo era muito mais 



§^ IV. 



167 



QS 



anto à fegu- 
'da vigia , foi 
Santo,& admirável Santo 
S. Gonçalo na idade de 
mancebojporque feito na- 
quelles annos Paftor de 
Almas C oíficio taó peri- 



minino que S. Pauloj por- gofo para a própria, como 
queS. Paulo na idade cm útil para as alheas } de tal 
que fe chama minino , jà forte acodio a húa obriga- 
fallava : Loquebar ut par- çaò fem faltar a outra, que 
'z;í////j:& S.Gonçalo ainda a ambas fatisfez adequa- 
naòfallava, nem começou damente. Faltavaóihe ao 
afallar fenaó dahi adous novo Prelado as cans, que 
annos :& quando o Apo- no facerdocio faó os ef- 
ílolo do terceiro Ceo era maltes da coroa, 6c na pre- 
minino, 6c obrava como lazia o ornamento da dig- 
minino,6clhe falta vão ain- nidade •, mas não lhe falta- 
da muitos para fer home ; va nada do que as mefmas 
n^o neíFa mefma idade, fe- cans íigniiicaó,6c naó pou- 

T ij cas 



2 92 Sermão de 

cas vezes dermentem. Saó Ihores cabeíIos,&:a peor 
como as neves de que fem- cabeça, que nunca ouve, 
preeftà cuberto o monte foi a de i^ bí aláo : oscabel- 
Ethna , debaixo das quaes los vendiãofe a pefo de ou- 
feocultaóvolcoens5& m- ro,& a cabeça nenhum pe- 



cendiosifaó como as que 
o divino Meílre chamou 
j^^,,j^ fepulturas cayadas, Sepul- 
33.27- chradealbata^ brancas por 
fora, 6c corrupção por den- 
tro. E também podem fer 
como aquella arvore,a q jà 
comparamos o noíTo San- 
to em mais levantado fen- 
tido. Delia diz o Profeta , 
que nunca lhe cahirá a fo 



focinha. Mais lhe tomara 
eu o chumbo na teíla, que 
o ouro na gadelha. Tam- 
bém ha cabelloSjque pare- 
cem de ouro,& faó de pra- 
ta fobredourada i & ido 
he o peor, que tem as C2nsj 
poderemfe tingir. Náoaf- 
íim os cabellos negros,que 
não admitem outra cor. 
Por iÇÍ'o a Paftora das E- 



.Pfalm. 




r '.t ; 



Sapicnt. 



\h^: Folmmejus nondefuet: glogasde Salamão o que 
&c as arvores que naó mu- louvou nos cabellos do íeu 



dão a folha, tão verdes faó 
de poucos annos,como de 
muitos. Mas quanto com 
maior indecencia fe de- 
vem eftranhar nos velhos 
as verduras, tanto he dig- 
na de maior veneração nos 
moços a madureza. As 
verdadeiras cans,diz o Ef- 
pirito Santo , faó o juizo 
íezudo 5 & naó coníiítea 
velhice na cor dos cabel- 
los, fenaó na pureza da vi- 
da : Cam autem funt Jmfus 
homints^ ér atasjenc^hitis 
vitaim?mctílata:.. Os me- 



Paílor, foi ferem da cor do 
corvo : Com£ ejusficut eíâ- Cant.-ç, 
ta palmar um , rjgra quaji^^' 
corvus, 

268 Sendo pois o me- 
lhor,& maior de todos os 
Paftores Paílor, &: mance- 
bo, grande louvor he do 
noíío Santo fer eleito Pa- 
ílor na mefma idade. Man- 
cebo era A'^el , & que Pa- 
Itormaisrcligiofo ^ Man- 
cebo era Jacob, <Sc que Pa- 
ílor mais vigilaure? Man- 
cebo era David,3c que Pa- 
ílor mais animoíb, &: ef- 
forcado i* 



í^ 



S. Gonçalo. 293 

forçado? Se oLeaó ("diz mes o roílo dos podero- 



o Texto 3 lhe tomava o 
cordeiro pela cabeça, tira- 
valho da garganta pelas 
pontas dos pès : & fe lho 
engolia pelos pès , arran- 
cavaího das entranhas pe- 
las orelhas. A idade da ve- 
lhice he jà muito fria para 
acçoenstaó alentadas, & 
tão ardentes. O peor ga- 
do de guardar, he o ho- 
mem. Quarêta annos guar- 
dou ovelhas Moyfes fem 
nenhum perigo, & naó ha- 
via dous annos,que era Pa- 
ftor de homens, quando fó 
Deos lhe pode guardar a 
vida dos mefmos a quem 
cUe guardava. Elle leva- 
va-os a beber nas corren- 
tes puriííímas do Jordaój 
& elles fufpiravaó pelos 
charcos do Nilo, & lodos 
do Egypto. A maior falta 
que hoje fe exprimenta 
nos PaftoreSjhe a do valor. 
Se S.Gonçalo o naó tivera 
moftrado antes, tanta cul- 
pa teria quem lhe meteo o 
cajado na mão, como elle 
em o aceitar. Se nào tens 
valor para arcar com os 
vicios authorizadosj & te- 
Tom.7, 



foSjnaò aceites o officio, 
diz Deos : Nolifierijudex , ecí 
ni/i vaieas irrumfere mi-^- 
qtiitat es ^ne forte extimefcas 
faciempotentis. No reba- 
nho manfo à-AS ovelhas 
também ha valentes de te- 
íla taó dura,& armada,que 
fe batem huns com os ou- 
tros, mas todos temem5& 
reverenceaóoPaílor. Aí- 
íim foi antigamentejqiiá- 
doosPaíloreseraó Chry- 
foílomos, & Ambrofios, 
poftoqueojmais podero- 
fos da manada foíTem 
Theodofios, 6c Arcadios. 
Se os Paftores não guarda- 
rão tantos refpeitos 5 elles 
foraómais refpeitados. E 
aííim o foiS. Gonçalo, po- 
ílo que mancebo. 

269 Do tempo em que 
governou a íua Igreja, di- 
zem muitas coufasos Hi- 
ftoriadoresjtodas próprias 
de hum bom Paílor. Di- 
zem que naó fe veília da 
láa das ovelhas, nem fe fu- 
ftentava do feu leite , & 
muito íiienos do feu fan-^ 
gue. Dizem que o patri- 
mónio de Chriíto não o 
T '^i] ga- 




294 Sermão de 

gaíiava com criados, cães, mais a pena que os multa - 
oucavallos, nem cóacre- vanabolfa, que a que os 
centaracafa, oulheveílir condenava na Alma. Pre- 
ás paredes. Dizem que ex- gando pois hum dia o San- 
cepta a limitada côngrua to, ^-aíFcando eíle abufo 



do próprio fuftento , tudo 
o demais diílribuia aos 
pobres, & naó comopro- 
priocomnomede carida- 
de, fenaó como feu delles , 
&:por obrigação de juíli- 
ça. Dizem que naó íb pre- 
gava aos ouvidos , fenaó 
tambem5& muito mais aos 
olhosj porque os exem- 
plos da fua vidaeraó a al- 
ma de toda a fua doutrina. 
Eftas 5 &: outras muitas 
eoufas dizem os Hiftoria- 
dores, mas todas em có- 



como tão alheo da Fè, & 
Religião Chriíláa j vio 
paíTarhâa mulher, que le- 
vava húa ceíla de pao,cha- 
mou-a 5 mandou lhe que 
pozeíTe a ceíla a feus pès, 
&: repetindo com voz te- 
merofa a forma da excó- 
m.unhaò febre os pães,que 
eraò muito alvos , fubita- 
mente fe converterão em 
carvoens. Ficarão aífom- 
brados todos , &: muito 
maisa pobre mulher, que 
deoporpeididooíeupaó. 



mum. E porque do tempo Mas depois que com a vi- 
emqueonoílò Santo foi íladetaóeítranha , & rc- 



Paftor, hum fó cafo refe- 
rem em particular / por ef- 
tecollegiremososdemaisi 
6c vendo como obrava, co- 
nheceremos qual era. Ha- 
via entre os freguezes de 
S. Gonçalo o abufo, que 
ainda dura em outros, de 
terem perdido o medo às 
excómunhoens. Eraó da- 
qucl la gente que naó crè o 
que naó fe vè , & fentiaó 



pentina mudança os vio 
perfuadidos ao que naó 
acabaváo de entender j 
agora, diz o banto , para 
que vejais também quam 
contrario he o elfeito, que 
obra a abfolvição nos ex- 
comungados, Vepetio fo- 
bre os carvoens as palavras 
daabiolvicaò, 6c nomef- 
mo momento , &: do mef- 
mo modo íicáraó outra 
vez 



m 



S. Gonçalo, 295- 

vez convertidos em páes rer Fazer niilap;resà cuíia 



taó alvos como dantes 
eraó. 

270 Feitaademoftra- 
ça5dehiini,&:oiitro mila- 
grejdiíle S. Gonçalo à mu- 
lher, que ievaífe o feu paó 
com a benção de Deos: & 
aqui reparo muito. Sendo 
opaónar-húa, fenão duas 
vezesmilagroíbj dobrada 
razão tinha o Santo para o 
aplicará Igreja. Oh tem- 
pos ! Parocho íç,i eu, que à 
conta de liúa excomunhão 
teve pão com quefuílen- 
tar muitos dias a fua famí- 
lia , 6c era muito mais nu- 
merofa que a de S., Gonça- 
lo. E porque náo fez elle 
outro tanto ? Ao menos 
parece que devera mandar 
refervar alguns daquelies 
pães convertidos em car- 
vão para perpetua memo- 
ria, & horror do cafo. Por- 
que tornou pois a entregar 
à mulher todo o feu paó 
taó inteiro no numero, & 
tão branco na cor como 



do pão alheo.Qiiantos mi- 
lagres vemos neííe mun- 
do,^ quantos homens, 6c 
alvitres milagrofos, & to- 
dos ã cuíla do pão alheo5& 
nenhum do feu .^ A Elias 
fuílentava Deos cada dia 
com douspãesj&a S. Pau- 
lo primeiro Ermitão tam- 
bém cada dia com meyo 
pão :6c fendo os Miniíiros 
de hum 5 & outro milagre 
corvos, fempre o pão era 
damefa de quem manda- 
va fuílentar os famintos, 
& não tomado a outrem. O 
maior milagre neíle géne- 
ro foi o dos pães,que fendo 
cinco, fe multiplicarão a 
tantos milhares , que fu- 
ílentáraó cinco mil ho- 
mens , &; fobejáraõ tantas 
alcofas Mas eftes fobejos 
para quem foraõ ? Para os 
donos dos cinco pães, que 
eraôosApoílolos. Seme- 
lhante milagre jà o vimos 5 
& eltamos vendo. O que 
hontem fe cotava por uni- 



era dantes \ Porque enten- dades 9 hoje fe conta por 
deo o bom, 6c defmtereíià- milhares, ác por milhoens. 
doPaílor , que era coufa Mas à cuíla de quem.^Dos 
muito fora de razão que- mefmojs que daó a mate- 

T iiij ria^ 





:^.w 



29<> Sermão de 

ria,5co_cabeda] paraomi- confirmação dous mila- 



lagre. E em vez de terem 
parte na multiplicação, & 
quando menos nos fobe- 
jos,atèos feus cinco pães 
Ihosexcómungão de ma- 
neira, que antes os querem 



gresj mas com tal condi- 
ção, que o que fízeíTe o 
primeiro ,desfizeíle o fe- 
gundo. Tomou pois Ge- 
deão hum velo de lãa das 
fuás ovelhas, & pondo-o 



pcrder,que lograr 5 porque no meyo da eyra , diíFe; 

lo lhos permitem conver- Quero que todo o orvalho 

tidos em carvaó. defta noite caya na láa , & 

2/1 O remédio defl-a nada na eyra: Scaflimíu- 

grande perdição, &: deíla cedeo. Ao outro dia pofto 

grande laílima jà o enfi- o velo no mcfmo lugar. 



nou S. Gonçalo , fe ouver 
quem lhe queira tomar a 
lição. E em que coníiftio o 
remédio ? Cófiílio em tor- 
nar a converter o carvaó 
empaóíaílim como opaó 
le tinha convertido em 
•carvão. Nãoeílàa perfei- 
ção do milagrofo em po- 
der fazer os milagres, fe- 
nãocm os fabcr desfazer. 
E a razaó no noíTo cafo hej 
porque quando os mila- 
gres faó danofos , para re- 
fazer o dano do milagre, 
he neceííario que desfaça 
ofegundooquefez o pri- 
meiro. Tendo hum Anjo 
feito hua grande promeáa 
a Gedeaòjque também era 



ò^i^ç: : Agora quero às a ve- 
ças, que todo o orvalho 
deíla noite caya na cyra,& 
nada na lãa : 6c também fu - 
cedeo do mefmo modo. 
Mas porque fenão conten- 
tou Gedeão com hum fó 
milagre, fcnão com dous, 
ScquedesfizeíTe o fegun- 
do o que tiveífe feito o 
primeiro? Porque fequiz 
certihcar da promeíla do 
Anjo,&: conhecerei eraò 
milagres de Deos. Eentê- 
deo que fendo o orvalho 
bem comum de toda a ter- 
rajnaó podia Deos defrau- 
dar húa parte delia com o 
primeiro milagre,fem que 
Iherefizeíleo dano com o 



Paílor 5 pediolheelle em fegundo. Ifto hc oquepe- 

dio 



S. Gonç 
d Io Gedeaó , iil:o o que fez 
S.Gonçalo , & ido o que 
naó ha quem imite. Baila 
que tudo ha de fer para o 
particular, & nada para o 
comum j tudo para o velo 
deGedeaó, & nada para a 
eyra ? Aílim o exeçutaó 
fem nenhúa igualdade os 
que querem ter jurdiçaó 
atè no que cae do Ceo : 
& por mais que as queixas 
cheguem ao mefmo Ceo, 
nenhum dos que fazem os 
milagres os quer desfazer. 
Se cuidaó que he defcre- 
dito, & menos authorida- 
de do poder desfazer o 
que íizeraó , enganaófe 5 
porque muito mais pode- 
rofos fe moílraráó no des- 
fazer do milagre, que em 
o fazer. Vede-o no noíTo 
cafo. Converter o paò em 
earvoens, pòde-o fazer o 
fogo queimando-o 5 mas 
converter os carvoens em 
paõ, fó o pôde fazer a om- 
nipotência obrando fobre 
as leys de toda a natureza. 
272 Finalmente nefte 
milagre fe retratou o noílb 
bom Paftor a fy mefmo, & 
moftrou qual era, Eíle mi- 



Pfalm, 



úlo. 297 

lagre teve aveço , & direi- 
to : & taes haò de fer os ho- 
mens, que governa® ho- 
mens. O bom Paílornam 
ha de fer todo bondade : 
Cum eleão elecius eris , c^ 
cum perverfo per verter is. \'^Tij\ 
.Nem tudo ha de fer indul- 
gência, nem tudo ceníura. 
Ha de ter excómunhoens 
para os rebeldes , & abfol- 
viçoens para os arrepen- 
didos: & tanto para os bra- 
ços como os pães , como 
para os pretos como os 
carvoens. Ha de faber fa- 
2er,&: desfazer,converter, 
& defconverter.Deos con- 
verteo a Nabucodonofor 
de homem em bruto,& de- 
pois tornou-o a converter 
de bruto em homem. A 
vara de Moyfes era o mef- 
mo cajado com que eile 
governava as fuás ovelhas. 
Eque propriedades tinha 
efte cajado ^ Húas vezes fe 
convertia de vara em Ser- 
pente, ôc outras de Serpen- 
te em vara. Nem por fer a 
Ley de Cfiriílo Ley da 
Graça,ha de fer nella tudo 
graça. A ceremonia com q 
oAuthojr da mefma Ley 

GOÍl* 



298 



■'«I 



conflítiiío a S. Pedro fu- 
premoFaílor, foi meter- 
Ihena máo as chaves do 
Ceo,6c da cerra. E porque, 
ou com que myíterio cha- 
ves? Porque a chave tem 
huavoka para fechar, & 
outra volta para abrir. 
Nem ha de fechar tudo có 
rigor 5 nem deixar tudo 
abertocom demafiada be- 
nignidade. Quando for 
neceíTario, fechar de pan- 
cada; mas fe não for neccf- 
fario, não andar às panca- 
das. Com ferem porem as 
mCigaízs do poder paíio- 
ralas chaves , jà eu notei 
noutra occafiaó , que naó 
diíTe Chrifto, o que fecha- 
res, fera fechado , & o que 
abrires, aberto j íenáo,o q 
atares, Terá atado, & o que 
defatares, defatado.E por- 
que ? Porque quer Chriílo 
que os feus Pailores fai- 
baó atar,5c defatar , Sc naó 
fejáo homens , que naó 
ataó, nem defatáo. Porque 
não atão, andão os vicios 
Toiros y & porque não ác[- 
ataó,eftão as virtudes pre- 
fas. Ohfe refufcitára hoje 
S^Ççnçalo, cQmo fc havi^ 



Ser r/í a ode 



dever tocado tudo! Mas 
temo que o não haviaó de 
merecerosnoílbs tempos, 
como ta m. bem os feus o 
defmerecéraó. 
§• V. 
273 /^Uantoà ter- 
V^ceira vigia , 
foi Santo,6c admirável Sã- 
toS. Gonçalo na idade de 
varaô 5 porque tanto que 
entrou nella , fahio da pa- 
tria,&fe partio peregrino 
ajerufalem a viíitar osfa- 
grados lugares de noíía re- 
dempçaó, Sc viver, como 
viveo,naTerra Sáta todo o 
reftante da mefma idnde. 
Não admiro nefta notável 
refoluçaó o deixar a pá- 
tria, onde o amor natural 
coíluma lançar aquellas 
íorteSjSc doces raízes , que 
tão difiicultofa mente fe 
arrancão : mas quando vos 
vejo, meu Santo,com o ca- 
jado de Paílor trocado em 
bordaó de peregrino , dei- 
xando as voffas ovelhas,«Sc 
de Chrifl:o,porir correr,&: 
venerar os paílbs q o mcf- 
nio Senhor andou neíla vi- 
da para as apafccntar;, 6c 
rematou na morte para as 
rc- 



S. Gonçalo. 299 

remirjifl-oheoqiienaófei eíle confelho parece que 



admirar baílantemente , 
nem acabo de entender 

274 Hiíavezfabemos 
que mudou Chriílo os tra- 
jos,&íe veftio de peregri- 
no: mas quando, ou para 
que ? Era no mefmo dia da 
fua refurreiçaó , tendo di- 
to três dias antes, q quan* 
do tiraílem a vida ao Fa- 
llor,re derramariaó as ove- 
lhas : Terctitiam paftorem , 
O" ãifpergenttir oves gregis, 
E porque duas delias hiaó 
defgarradas , & quaíi per- 
didas de Jerufalem para 
Emaús , eíla foi a caufa 
daquella peregrinaçam , 
querendo-as reduzir outra 
vez o Senhor, & unir com 
o Teu rebanho. Pois fe 
Chriílo como bom Paílor 
fe faz peregrino para tra- 
zer duas ovei has deEmaús 
a Jerufalem-,como S. Gon- 
çalo , que devia imitar a 
Chriílo, fe parte peregri- 
no a Jeruíàlem , deixando 
em Emaús naó duas ove- 
lhas, fenão todo o rebanho 
de que era Paílor ? Emaús 
quer dizer, Cófelho teme- 
rofo : Timens conjilium 3 & 



Ibid 



naó fó foi temerofo , fenaó 
temerário. Nota o Evan- 
geliíla, que Emaús ellava 
diílante de Jerufalem í^^- 
fenta edadios, Stadiorum 
fexaginta^ que fazem da 
noílà medida três legoas: 
& fe Chriílo naó fofreo , 
que duas ovelhas fe au- 
fentaíTem do feu rebanho 
três legoas, & as foi bufcar 
ao meyo do caminho: Ipje 
lefus ãppropinquans ibat 
cum illis ico-cvío fe aufenta 
S.Gonçalo das fuás ove- 
lhas em não menor diílan- 
cia,que de mil legoas,quã- 
tasdiíla Portugal de Jeru- 
falem .? Mais nota o Evan- 
geliíla, que eíla diligencia 
afez Chriílo no mefmo 
dia, In ipfadie : & fe o bom ibi, 
Paílor no mefmo dia aco- 
de a húataó pequena par- 
te do feu rebanhoj como S. 
Gonçalo deixa, & defem- 
para totalmente o feu , 6c 
fe vai viver tão longe del- 
le, não por menos efpaço 
de tempo , que quatorze 
annos inteiros ^ 

27 5 Se alguém quizer 

bufcar efcufa a hua tão no^ 

taveL 



H' 



«If 



30 3 Sermão de 

tavel refoluçaó do noííb Santa, fora trocar a terra 



Santo, difficultofamentea 
achará tal que fatisfaça. Se 
diíTermos que quiz trocar 
a fua terra pela Terra San- 
ta ; eíla razão , ainda que 
parece pia, não he baftan- 
te para deixar o feu reba- 
nho, fendo Paftor. Porque 
ainda que trocar a fua ter- 
ra pela Terra Santa , fora 
trocar a terra pelo Ceo , 
devera trocar o Ceo pela 
terra, não digo por acodir 
a to do o rebanho, fenaó a 
húa fó ovelha delle. Que 
Paftorha, diz Chrifto, o 



pelo Ceo, devera não fa- 
zer tal troca,mas deixar,&: 
trocar o Ceo pela terra, 
nãofó para confervar todo 
o feu rebanho,como diziaj 
mas para acodir a húa fó 
ovelha delle. E fequizer- 
mosconíiderar , que a jor- 
nada da Terra Santa foi 
feita com efpirito, & defe- 
jo de lá converter os In- 
íieis Mahometanos, que a 
dominavão , & habitão, 
também eftaefçufa he in- 
fuíficiente, &alhea do ex- 
emplo de Chriílo. Quan- 



qual tendo cem ovelhas,fe do os Apoftolos pedircão 
acafo fe lhe defgarrou , & ao mefmo Senhor,que ou 



perdeo húa , não deixe as 
noventa & nove no defer- 
to 5 & và bufcara ovelha 
perdida? Aííim o fez o mef- 
mo Chriílo. A ovelha per- 
dida era o homem : as no- 
venta & nove erão os nove 
coros dos Anjos : o defer- 
to onde as deixou, era o 
Ceo : &: fe o bom,& verda- 
deiro Paílor deixou oCeo, 
& reyo aterra para acodir 
a húa fô ovelha perdida; 
ainda que trocar S.Gonça- 
lo a fua terra pela Terra 



viíFeos clamores da Ca- 
nanéa, que era Gentia,ref- 
pódeo, que as ovelhas, que 
Deos lhe encomendara , 
eraó os filhos de Ifrael , & 
não os Gentios : Nonfum ^. "]^' 
mijfus nifi ad oves qu/epe- 
rierunt domus Ifrael. E em 
confequécia defta mefma 
doutrina mandou a feus 
Difcipulos, que fó prègaf- 
femaosjudeos, & nam à 
Gentilidade : hi -viam gen- Matth. 
/ ntm ne abkritis. E como as 
ovelhas, que S. Gonçalo 



10.^. 



. ' I.- . II ' 



S. Gonçalo. 501 

deixava na fua pátria, & na riam : Sc diz o Texto fagra- 
fua Igreja , erao as que do, que vendo Deos que 



Deos lhe tinha encomen- 
dado j ainda que a fua pe- 
regrinação ajerufalem fof- 
fe com intento de conver- 
ter outras do Paganifmo, 
comparado efte zelo com 
a fua obrigaçaõjnaó fô naó 
parece louvável, mas nem 
ainda lícito. 

2y6 Primeiramêteref- 
pondojque a peregrinação 
deS.Gonçaio à Terra Sa- 
tã , naó fó foi licita, & lou- 
vável, mas verdadeiramé- 
te fanta 5 porque elie a em- 



elle voluntariamente hia, 
o chamou, & lhe mandou, j^id.-^ 
qiiefoíTcCeniensquòdper' 
geret ad videndum^ vocavit 
eum. Pois fe Moyfes jà Jiia 
por fua própria vontade ; 
porque o chamou Deos ? 
Porque efte era o cafo co- 
mo o do noííb Santo , em 
que naó bafta a inclina- 
ção, & deliberação pro- 
priaj mas he neceíTaria ef- 
pecial vocação divina. A 
Çarça ardente juntamen- 
te, & illefa, como dizem 



prendeo naõ fó por efpiri- todos os Santos, íignifica o 
to, 8c devaçaó particular myfterio, & myfterios da 



fua, fenão por impulfo, 6c 
vocação efpeciai de Deos. 
Vejamosocafo refoluto, 
& definido na Hiftoria fa- 
grada. Era Paítor Moy- 
Íes,& andava nos deíèrtos 
deMadian guardando as 
ovelhas, que/etro lhe ti- 
nha encomendado, quan- 
do vio de longe a Çarça 
que ardia, & naó fe quei- 
mava. Reíblveofeentaóa 
ir ver de mais perto aquel- 
la maravilha: Vadam^ & 
vidtbo vijwnem hanc mag- 



redempçaó humana 3 &af. 
fimdiílèo mefmo Senhor, 
que decéra a libertar o íèu 
Povo: ^efiendíutliiferemiKd,^ 
eum : a terra em que eftava 
a Çarça, fignificava a Ter* 
ra a que hoje chamamos 
Santa, Ôcaílim lhe chamou 
a voz da (^^LYf^x.Locus enim 
inqtio jias^ terra fana a ejí, '^^^^^^ 
E para hum PaUor como 
Moyfes, deixar como elle 
deixou a ailiílêcia das fuás 
ovelhas por ir ver, & con- 
templar de mais perto os 
my* 



302 Sermão ãe 

myfterios de noíTa redêp- pelo mcyodia, para que o 

caó,6c venerar com os pès naó bufcaíTe erradamente, 



defcalços a Terra Santa , 
não baila fó a vontade > & 
deliberação própria; mas 
heneceílaria particular,& 
efpecial vocação de Deos : 
Cernens quod pergeret ad 
*videndum , vocavit eum, 
AlHmofez Moyfes, que 
totalmente deixou entaó 
ooííicio, & o rebanho: & 
aííím o fez o noílb Santo 
chamado também, & inf- 
pirado por Deos, & por ií^ 
íb náo fó licitajôc louvável, 
fenaófantamente, & com 
adtode maior perfeição. 

2 77 Mas fe foi grande 
a duvida em que da fua 
parte nos meteo a delibe- 
ração do noíTo peregrino 
em deixar as fuás ovelhas > 
muito maior he a que de- 
vemos admirar da parte 
de Deos na vocação divi- 
na taó efpecial,rara, &: naó 
ufadadomefmo Deos, co- 
mo agora veremos Pedio 
aPaílora dos Cantares ao 
feu divino Paftor lhe ma- 
nifeílaíTe os lugares onde 
apacentava as fuás ove- 
lhas , & onde defcançava 



& de balde por outras par- 
tes : Indica mihi quem dili- <^ant. 
git anima mea^ ubipafcasy'^' 
ubi cubes in meridie , ne va- 
gar i incipiampoji gregesfo- 
daliumtuorum. E que lhe 
refpóderia o foberano Pa- 
ftor? Primeiro lhe diíTcq 
naó conhecia quem era: Si 
ignoras te \ porque fe co- 
nheceíTe fuás obrigaçoens, 
naó faria femelhante pe- 
tição : &: fem deferir a el- 
la, lhe mandou que feguif- 
fe as pifadas do feu reba- 
nho , & que trataíTedeo 
apacentarcomo os outros 
Paftores: Egreàere^ cr abi ^.^ 
poBveftigtagregum^érpaf- ' '^' 
ce hados tuos juxta taber- 
naculapaJiorum.Qn^m. naó 
reconhece nefta breve hi- 
ftoria , quam femelhante 
foi a petição da Alma fan- 
taaodefejo do noílb San- 
to: & quam diíFerente a 
repofta que elle alcançou 
de Chrifto, à que ou vio de 
fua boca a mefma Alma, 
em que fe reprefentavaó as 
de todos os Paílores de fua 
Igreja que mais o a mão? 
A 



f ' 



45*. Gonçalo. ^05 

j\ petição da Alma fanta, he , quam fínguíarm ente 

&oderejodo noíTo Santo eítimou Chrifto os aíFe- 

era de ver os lugares onde dos também íingulariíli- 

Chriftoem fua vida apa- mos com que S. Gonçalo 

centou fuás ovelhas com a na fua peregrinação acom* 

doutrina que trouxe do panhou os paílbsda vida, 

Ceo, & onde finalmente & morce ao mefmo Se- 

defcáçouaomeyo dia,nao nhorjpois antepoz efta deJ 

à fombra da arvore da vaçaó j&defejoà obriga- 

Cruzjenaó pregado , & çaó, 6c cuidado da guarda 

mortonella.ííTo quer di- das fuás ovelhas. De húa, 

zer, UbipaJcaSi ubi cubes in & outra parte foi defufada 



meridie. Mas fe ao noíTo 
Santo fendo actualmente 
Paftorlhecócedeo o mef- 
mo Chrifbo efta peregri- 
naçaó,6c que foíle ver, & 
viv^er naquelles fagrados 
lugares 5 como a Alma, 6c 
Paftora fanta, em que eraó 
íigniíicados os outros Pa- 
ítores, de nenhum modo 
lhe defere o Senhor a eftes 
mefmosdefejos, & refo- 
lutamente lhe manda, que 
apacentem as fuás ovelhas, 
&que trate cada hum de 
feguir naó as pifadas de 
Chrifto em Jerufalem , fe- 
naóasdofeu rebanho na 



fínezajmas muito mais adi- 
miravel da parte de Chri- 
fto , a qual ainda naó eftà 
baftantemente põderada, 
^{òi^c pôde dignamente 
encarecer ou vindo ao meP* 
mo Chrifto com S. Pedro, 
iftohe,ao primeiro, & fii-» 
premo Paftor com ofegu- 
do. Perguntou Chrifto 
RedemptornoftbaS. Pe- 
dro, fe o amava mais que 

os outros DifcipuloS : ^^-Joanc^^ 

mon loannisy diligis meflus ^iisr. 
his > E como S. Pedro ref- 
pondefte có a devida mo- 
ácíiizyTíifiis T>ommeyqma 
amo te-. Bem hbGÍsYÒsS^-' 



fua terra: Abipoji vifiigia nhor,quevos amo: Pois, 

g^^gum, Pedro, fe meamas, ài^^ o 

280 Oquedefta admi- Senhor, Fafce ovesmeas^ 

ravel diíFerenca fe fegue ^ Apacenta miíxhas ovelhas. 

Fei 




^oj, Sermão ãe 

Feita eíla primeira reco- Io, pois em lugar de Ihedí- 

mendação, repetio Chri- zer, que continuaíle em 



itid. 



íloa mefma pergunta -, & 
como Pedro reípondeíTe 
do mefmo modo: Pois,Pe- 
dro ) torna a dizer o Se- 
nhorjfe me amas, como di- 
zes, '^Pafce agnos meos^Apz- 
centaos meus cordeiros. 
Jà as perguntas fobre o 
amor eraó duas, ôc as reco- 
mcndaçoens do rebanho 
também duas , & ainda 
acrecentou o Senhor a ter- 
. ceira, ^icit ei tertio-^ác íbr- 
ite que Pedro fe entritte- 
•ceojcomofe o divino Me- 
"íl:re,a qiicm faó manifeltós 
òscoráçbens, duvidaíTe do 
'feuamor, ou deíconfiaíTe 
' do feu cuidado. Pois fe três 
vezes examina Chriílo o 
amor de S. Pedro,naó fô 
comograndej fenaócomo 
maior de todos, & as pren- 
dasqlhepede deíleamor 
húa, duas,& três vezes,he 
queapacente as ovelhns,& 
cordeiros do feu rebanho , 
^afce oves meas-^ ^afce ag- 
fiosmeos ^ que novo,ou que 
outro amor he eílc de S. 
Gonçalo para Chnílo, & 
deChriíloparaS. Gonça- 



apacentar as ovelhas, que 
lhe tinha encomendado, 
lhe infpira que deixe as 
mefmas ovelhas, & fe par- 
ta peregrino a Jerufalem, 
naõ fó a viiitar, fenaô a vi- 
ver nos lugares fagrados, 
onde o mefmo Senhor ti- 
nha paíTa do a vida, & pa- 
decido a morte? 

2 8 1 A mefma vida , & 
morte de Chriílo femprc 
íixa,& ardente na memo- 
ria dono/To peregrino Pa- 
fíor não ha duvida que foi, 
comodejacob, s fua ama- 
da Rachel , pois por cila 
fervio duas vezes íete an- 
nos naqucUe voluntário 
defterro, fendo as fuás fau- 
dades as ovelhas, & os feus 
defejos, &:fufpiros os cor- 
deiros que apacentava, co- 
meçando dcfdc Nazareth, 
&: acabando no monte O- 
livete , &: repetindo cílc 
amorofo circulo com tan- 
tas paufas , &: eílancia.ç, 
quantos eraó, ou tinhaó fi- 
do ospaffos do feu aulente 
amor. Mas quem nos aca- 
bará de defcobrir o niylte- 
rio 



S. Gonçalo'. ^of 

fio deíla taó íingiflar no- Te naó podia apartar áú- 
vidade,& fem exemplo na les. Oh íingular,&admira- 
eftimaçaó de Chriílo ? O vel fineza ! E cila digo em 



primeiro penfamentoque 
meoccorreo, foi, que em 
premio da pureza virgi- 
nal , que perpetuamente 
guardou o nofíb Santo, lhe 
quiz Deos conceder na 
terrayo que fó concede aos 
Virgens no Ceo. Hepri- 
vilegio concedido no Ceo 
aos Virgens 5 diz Saó 
Joaóno Apocalypfe, que 
clles fó íigaó ao Cordeiro, 
que he Chrifto, a todas as 
partes por onde, & para 
onde for : Virgin es enim 
funt : hi fequuntw Agnum 
' quoctimqueierit.V orem os 
Virgens no Ceo naó fó fe- 
guem os paífos do Cordei- 
rO:,mas vem o mefmo Cor- 
deiroj & S. Gonçalo na ter- 
ra fem ver, nem poder ver 
o Cordeiro , lhe feguia, & 
adorava os paífos. Elles 
feguem os paífos do Cor- 
deiro onde eílà o Cordei- 
ro j mas S.Gonçalo naó fe- 
guia os mefmos paífos on- 
de o Cordeiro eftiveífejfe- 
naó onde tinha eílado, & 
fó porq tinha eílado alli, 
Tom.7, 



conclufaó , que foi a que 
Chriílo aílim amado tan- 
to eílimou. A primeira 
peíToaaquê Chriílo apa- 
receo na manháa da fua 
Refurreiçaó, foi à Magda- 
lena. AíIlm o dizem os E- 
yangeliílas. Mas porque 
mereceo a Magdalena naó 
fó com exceiçáo de todas 
as outras devotas mulhe- 
res,mas também dos mef- 
mos Apoílolos 5 eíle taó 
fingular privilegio ? hç,àQ 
a Hiftoria fagrada, 8c o que 
ellafez,& os outros naóíi- 
zeraójôc achareis arazaó. 
As outras Marias, como os 
Anjos lhe diíreraó> que o 
Senhor refufcitára, & naó 
eílava alli, foraófe : S. Pe- 
dro, 8c S Joaó como acha- 
rão no fepulchro a morta- 
lha, 8c o Sudário, 8c naó o 
íagrado corpo, também fe 
foraó : porém a Magdale- 
na fomente porque fabía 
como os demais q aquelle 
era o lugar onde o Senhor 
fora fepuitado, iflo fó ba- 
ilou para que perfeveraíic 

V Au 



li! 



^^o5 Sermão de 

alli,&: naó fe apartaíTe do do abazterno a Sabedoria 

mefmo lugar. De maneira divina, que he o nicfmo 

queos outros deixarão o Verbo^&dizquerecrean- 

fepulchro,porque Chriílo dofe pelos lugares da ter- 

naóeílavanellejporèm o ra^eráo as fuás delicias ef- 

amorda Magdalena naõ tarcó os homens :2)^//?í^^-praim; 

fe fou be apartar do mefmo i?ar jjerjingulas d'm , htdens ^•^'•^'• 

fepulchroi porque ainda inorbe terrarum,& delicia 



ijue o Senhor naó eftava 
aielle,tinha eftado. E afllm 
como bafl-ou, que Chriílo 
tivti^Q eftado dentro da- 
^uellas pedras, para que a 
Magdalena fe naópodeífe 
apartar dellas,eíla foi tam- 
bém da fua parte a iineza, 
^da parte do mefmo Se- 
nhor a razaó,porque tanto 
eílimou o feu amor , & o 
antepoz ao de todos. 
282 Deíle mefmo mo- 



me£ ejfe ciimfilijs hominum. 
Mas fe ainda então não 
havia homensjquc eíliveP 
fem naquelles lugares, co* 
mo tinha as fuás delicias o 
Verbo em eílar com ellcs? 
Porque ainda que os ho- 
mens então não eílivelTeni 
alli, haviáo de eítar de- 
pois. Como fe diíFera o 
Verbo : Aqui ha de eílar o 
Para ifo terreal, & as fuás 
delicias eráo eílar com A- 



doaíliília S. Gonçalo náo dam: Aqui feha de fabri- 
fóaofepulchro de Chri- cara Arca, & as fuás dcli- 



llo,íènáo a todos os outros 
lugares, em que o Senhor 
vivo, ou morto tinha eíla- 
dotrefpondendo , êc pa- 
gando com eíla fineza o 
amor, com que o mefmo 
Chriílo em quanto Verbo 
tinha todas as fuás delicias 
ab xterno em eftar com os 
homens na terra. Notai 
muito. Traçava cite mun- 



ciaseraó eítar com Noé : 
Aqui fe fundará a Cidade 
deHebron, &: as fuás deli- 
cias eráo eítar com Abra- 
ham.- Aqui fera a terra de 
HuSjScasfuas delicias eráo 
eítar com Job: Aqui fe le- 
vantará o monte Smay, & 
as fuás delicias erão citar 
comMoyfes:&: aílim dos 
outros homens, ^ dos ou- 
tros 



§. VL 



283 



QUanto â quar- 
ta vigia , foi 
Santo, Sc admirável Santo 
S, Gonçalo na idade da ve- 
íliicej porque paílandofex 
humdefertoa fazer vida 
eremitica, foube deixar 9 
mundo 5 antes que o mudo 
o deixaáè. Naó quiz queo 
achaíle a morte dentro doá 



S.Gonçah: . 30/ 
tros lugares. Do mefmo 
modo S.Gonçalo. Em Na- 
zarech dizia : Aqui encar- 
nou o Verbo: em Belém, 
Aqui nafceo : no móce Ta- 
bor,Aqui fe transfigurou: 
no Calvário, Aqui morreo: 
no OUvecejDaquifubio ao 
Çeo:6cem todos eftes lu- 
gares erão as fuás delicias, 
cftar com Chriílo > não 
porque alli eftiveííè, ma^ 

porque alli tinha eftado. *icuciin-aiiivji.uv,«wivi.v^«.vy* 

De forte que o Verbo fup- muros do povoado j mas 

pondoofuturOj&S. Gon^ eilerefahioao defertopa- 

çalo fuppondo o paíTado , ra a efperar em campanha, 

ambos có o mefmo amor, Oh que valente refoluçáo, 

& com a meíma fineza i o 6c que bem entendida! 

Verbo tinha as fuás deli- Como a velhice héo ori- 

€Íascomos homens, onde zontedavida,&daniorte, 

não eftavão , porque ha* oorizonteondefeajuntaa 

vião de eílar j 8c S. Gonça* terra com o CcOySc o cem- 

lo tinha as fuás com Chri* po com a eternidade; que 

íl:o,onde não eftava , por- refoluçaó pode haver mais 

que havia eílado, E por ef- bem aconfelhada, & mais 

te modo excellente, 6c íiíi* digna da madureza de hu- 

guiar comprío melhor que mas canSjque dçdicar à có* 

todos o noflb peregrino o templação da mefma eter- 

queDeos prometeo por nidade aquelles poucos 

ffaias , que havia de fazer dias,8c incertos , que pôde 

glorio fos os lugares onde durar a vida .^ Não foi ad- 

tinha poíío os feus pès : Et miravel o noíTo Santo ve- 

lociimpedim m^orum. glori- lho,porque iílo fez^mas he 

!í' ^'^ ficabo, verdadeiramente admira- 

^ Vij M 



?°f Sermão de 

vel,porque fez o que deve- que contamos , tanto mais 



Senec 



raó fazer todos os velhos, 
&não vemos algum que o 
faça. Notou judiciofamê- 
3 teSenecajquede todosos 
ou tf os géneros de morte, 
fendo tantos,&: tão vanos, 
pôde haver efperança de 
efcaparjfóa morte qtraz 
comíigo,ou aposfy a ve- 
lhice, he morte fem efpe- 
rança. Mataadoença,ma- 
ta o incêndio, mata o nau- 
frágio, mata a efpada, ma- 
ta a feta,ou defcuberta, ou 



faó as raízes com que efta- 
mos pegados à terra. A 'as 
confideremos quamdiíFe- 
renremente tinha paíTado 
o noíib Santo velho as ou- 
tras ilias idades , do que 
nòs temos vivido, ou def- 
baratadoas noíílis, & eíla 
feja a maior advertência 
de o reconhecermos por 
íingular , & venerarmos 
por admirável. 

284 Emfímnáo tenda 
S. Gonçalo porque fugir 



atraiçoada, mas de todos defy, íug.odenòspara o 

eftes géneros de mortes feu deferto, & levantando 

muitos efcaparao y ío da húa pequena Ermida fo- 

morte da velhice ninguém bre as ribeiras do Rio Ta- 



efcapou : AUagenera mor- 
tisfpei mixtafimt.nihil ha- 
ht qiiod fperet quem f ene- 
ãus dticit admortem. E fen- 
do táo defefperada eftaef- 
perança,mais á:i^r\:às faó 
para mim de admiração as 



maga, fabricada pelas me- 
didas do feu eíJDirito 5 alli 
fó por fó com Deos em- 
pregava os dias , & velava 
as noites na altjílíma con- 
templação daquelle fum- 
mo bem, que cedo efpera- 



- rr 11 • , 2 — ' *"^ «^v-tii, uuk. v-tuu cinera- 

noílas^v^lhices, do que foi vagozarcomavu^a. Naó 
a aeb.Gonçalo, pois nos havia,oufc ouvia naquelle 



não dcfenganamos com 
ellas. Quanto mais temos 
vivido neíle mundo, tanto 
mais amamos o mefmo 
mundo^éc a mefma vida5& 
quanto mais iaó os^nnoí. 



hemaventurado lugar al- 
gum ruído, que perturbai 
Ic a quietação do Santo 
Anacoreta, fcnãoa tépos 
demundaçocns , ^ rcm- 
pcíbdcs os gemidos, ac vo- 
zes 



S. Gonçalo. ^ ^o^ 

€cs mortacs dos que arre- debaixo dos pès dospaíTa- 



batadosda fúria , Sc cor- 
rentes do Rio taó impe- 
tuonis,como fubicas, ou ef- 
pedaçadosnospenhafcos, 
ou afogados no remoinho 
das aguas pereciaò lafti- 
nioíliniente, & íèm remé- 
dio. Eraó muitos todos os 
annos os miferaveis nau- 



geiros a braveza, 5c fúria 
do Rio,que a tantos tinha 



acto. 



trag 

2^f Grande em pfefai 
mas táo aíhea do fogeiro 
que a emprendia , como 
difficulrofa ,&: impoíTivel 
por todas fuás circunftan- 
cias. AíTim fe riaô agora do 



fragantes3& muito mais as imaginário remcdio os ^ 
lagrimas dos que nelles tantas vezes tinhaó chora 



perdiaó filhos, pays , ou 
maridos. E que faria quá- 
do ifto ouvia, &c via hum 
coração taó cheo, & abra- 
zado do amor divino ? 
Quanto maior he nos San- 
tos o amor de Deos , tanto 
mais forte he, Sc mais foli^ 
cito o amor do próximo. 
Orava continuamêce, mas 



do os verdadeiros perigos, 
E certamente quando íc 
naó confideraíTe no novo 
architevlo mais que o pe- 
fo, & debilidade dos an- 
nos 5 a velhice he idade pa- 
ra ter trabalhado , & naa 
para trabalhar,para ter fei- 
to, mas naó para fazer. E 
que proporção tem Ç di- 



porque de ordinário para ziaò} as contemplaçoens 

remediar os trabalhos hu- de hum Anacoreta comas 

manos naó baftão as máos execuçoens,&; adividades 

Ocioías, pofto que levan- de húa taó grande obra?Sc 

4:adas a Deos : refolveofe o S.Pedro foi chamado nef- 

efpirito de hum pobre, ôc cio , porque fendo pefca- 

folitario Ermitão ao que dorquiz fazer tabernacu* 

iiunca fe atreverão a inté^ los -, que fe diria do noíío 

tar os braços poderofos Ermitão determinado a 

dosReys, que foi uniras fabricar pontes.^ A fuper- 

duas ribeiras do Tamaga ficie defta defaprovaçam 

Çjpm húa ponte » ^ meter do vulgo ainda tem mu irg 

^i::. /fom7> Y iij ma- 




^"li 



l uc j o 

41 r~. 



maior Fundo naThcologia 
erpiritiia],&: afcerica.QLiá^ 
do Marcha fe queixou de 
que Maria fua irmáa a naò 
aiudaíre,oquelhe refpon- 
deo o divino Meílre, foi: 
Manhãs Manha/jolicitA 
es 5 ér turbaris erga phiri^ 
7na Maria optimampartem 
elegit : EíTe voíTo cuidado, 
Martha,poftoque bemin- 
têcionado, não lerve mais 
quede vos perturbar , ^ 
divertirem muitas coufas 
alheas da proíiílaó de Ma- 
ria: & fe cuidais que ella 
aíTentada a meus pès , & 
ouvindome eftà ocioía, 
enganaif-vos -, porque ef- 
colheoaparteque Iheeftà 
melhor, 6c mais me agra- 
da. ^ iílo meímo parece 
que eíiava dizendo, ou di- 
stando a S.Gonçalo a dou^ 
trina de Chrifro naquelle 
cafo,&: contra a fua decer- 
jninaçaó. Maria íignihca a 
vida contemplativa, & in- 
terior, que he a: que pro- 
feíTaó os Eremitas ; Mar- 
•tha figniíifa.avidaaanra, 
^uehea que le emprega 
em acçoens extcriorcs,po- 
fto que cm fervido 'de 



'ma o de 
Deos,&: do próximo ; & fe 
eíla das portas adentro 
dehuaçafa, & occupada 
fó em preparar o que lhe 
parecia neceíTario para 
hua mefa , divertia, & per- 
turbava tanto a Martha; 
qual feria a perturbação,& 
perpétuos divertimentos 
do noíTo Ermitão, empe- 
nhada a fua velhice na fa* 
brica dehúa ponte taòdif- 
íiculcoía ? Pareceme qu<? 
eílou ouvindo os ruidos 
dos carros, dos penhafcos, 
dos madeiros , &a conti- 
nua bateria dos inftrumé^ 
tos dos OiTiciaes, &trabar 
Ihadores, huns desbaftan* 
do, outros lavrando , ou- 
tros fabricando, 6c levan- 
tando as machinas para 
fuítentar os arcos, & guin- 
dar, 6c aflentar a pedraria 
ja hivrada ; Sc o author , 6c 
fuperin tendente da obra 
no mcfmo tempo dividido 
em tantas partes, com o 
cuidado, 6c os olhos nas 
máo6 de todos. Vede fe có- 
petiaaeíla fua jRidiga me- 
lhor que a Martha o Soli^ 
cita es , (^ turharis ergapltp^ 
rm^, :. 

• V ' • ^' • Mas 



S. GonçA 
i%6' Mas efta mefma 
era a maior prova do ai- 
tiííimo grão da contem- 
plação a que o efpirito do 
San'to Eremita tinha fubi- 
do. A Alma que chegou ao 
cume da perfeição da vida 
contemplativa, nem asacr 
çoens lhe divertem a con- 
templaçãojnem a contem- 
plação lhe impede as ac- 
çoens 3 mas toda dentro5& 
toda fora de fy, juntamen- 
te eílà obrando no exte- 
rior,& no interior cótem- 
plando. Que vida mais 
a£tiva,&: mais aduofajque 
a dos Anjos fempre occu- 
pados5& nunca jà m ais di- 
vertidos ? Omnesfunt ad" 
. mintftratorijfpiritus in mi- 
nifterinm míffi. Os Anjos 
da guarda de dia^&i de noi- 
feeftão velandojcada hum 
íòbre o homem que lhe ef- 
tà encomendado : os Cu* 
ílodios dos Reynos , & 
Monarchias íèmprc atten- 
dendo ao governo, & con- 
fervação delias na paz, & 
<ia guerra, & em tantos ou- 
Çros accidentes , que nun- 
ca paráoros que guião com 
tanta ordçm, & concerto 



lo. Cíli- 

os AílroSj cada hum mo- 
vendo a fua eílrelía, quaíi 
todas maiores que efle 
mundo. E de todos diz 
Chrifto : Semper videntfa-^ \ %,ip\ 
ciem ^atris , qui in Calis 
eft : Que eílão fempre con- 
tem plando a face de Deos> 
comofe eíliverão no deí- 
canço>5cíbcegodo Empi* 
reoíem outra occupaçãOj 
ou cuidado. E tal era a c5^ 
templaçáo verdadeiramê-- 
te Angélica do noííb Ana- 
coreta, tão quieto , & fem 
perturbação no meyo da 
tumulto, & trafego da fua 
obra , como fenão tivera 
fahido da ília Ermida. Po-»- 
dendofe dizer delle o que 
do mefmo Deos , de cuja 
vifta nunca fe apartava : 
Immotusque manens das 
cunEia movéri. 

2 87 Vencida efta pri- 
meira apprehenfaó , & co- 
nhecida a concordiaj&ar- 
monía, que confervão dê- 
trono mefmo efpirito, fe 
he perfeito , a vida adiva , 
& contemplativa , a qual 
não entendião os que con-- 
íideraváo o noííb Eremi- 
ta divertido do exercicio. 
V iiij da 



ií 



fu 



•^^^ ^ , Sermão de 

da fua pronnaó 5 feguefe a do qual diz S. Paulo, aue 
regunda.cm que toda a tudo crè, tudo efp era ,^^ 
prudência, & providencia com tudo poác:Omnia cre- 



humana podia reparar 
muito. E qual era? Que 
hum homem fó, &: defaíFi- 
íHdodetodaaoutra com- 
panhia, 6c poder, íe atre- 
veíTea hua emprefa , que 
muitos, & muito podero- 
íos juncos jà mais empren- 
deriáo,nem imaginavam 
poílivel. Se os fabricado- 
res da Torre de Babel, fen- 
do todos os homens que 



T.Cot. 
II. 7. 



dit^ omniafperat , omntafn 
ftinet. Hu dos que fe acha- 
rão entre os edificadores 
da Torre de Babel , foi 
Noè j & he coufa bem no- 
tável, que a ellefó enco- 
mendaíFej&dellefó fiaíFc 
Deos a fabrica da Arca. 
Fac tibí Arcam de ligms^tvxC 
Uvigatis, lhe diíTc o fupre- '^ '•*• 
mo Architedo daquella 
novamachina, & prefcre- 



, , — 1 — *iwvrt iixai^iiiija, oc prcicre- 

havia no mundo juntos, & vendolhe a traça, a forma, 
unidos no mefmo penfa- &as medidas com tanta 



inento,o íim,& effeito que 
confeguiráo, feia confu- 
íaó,& defengano da fua te- 
meridade > verdadeiramê- 
|:eparece, que náo faziam 
grande injuria às caos, & 
prudência do noíJb Santo 
veiho,os que reprova vão, 
que elle fendo hum, Sc fó. 



ain 



da 



miudeza,nem em comum, 
nem em particular faz 
mençaó de outro Artiíi- 
ce 5 ou companheiro, que 
ouveíie de ter parte na 
obra,fenaóo meímoNoè 
fomente: Manjiunculas in 
Arca factes ^ Ò' bit imine li- 
mes intriníecus^ & extrin- ^^'^ ^» 



que a fua idade ficns-.&jir fácies eam.Voís'''' 



foffe mais viva, & mais ro 
buíla 3 intentaíle húa tal 
pbra. Mas o que ninguém 
cria, nem efperava , mten- 
fou,profeguio,& levou ao 
lim cm S. Gonçalo a cari- 



fe a fibrica era taó grande, 
& taó nova,& previa Deos 
que todos os homens do 
mundo,cntrando nelte nu- 
mero o mefmo Noé , nam 
haviam de poder confe- 



tí;ide,ôcamor dpProximp, guir, nè cgncinuar aquclla 



!••; 



S. Gonçalo. ^rjf 

Torre na terra , havendo var dismiindiçoens do 



decereíla fabrica os ali- 
ceíTesfobreaagua; como 
a encomenda, &: íiadehu 
fó homem ? Porque o in- 
tento da Torre era a vai- 
dade, o intento da Arca a 
caridade. O intêto da Tor- 
ra era celebrarem os ho- 
mens o feu nome antes de 

fe dividirem : Qeiebremus fuerit fundamentmn^ & non 
Gcneí. nomen noftrum antequam potuerit perficere^ omnesquh 
intento da 



Rio. 

288 Mas ainda aqui nos 
falta por dar íatisfaçam a 
húa grande máxima da 
doutrina de Chriílo. ^is 
exvobis-volens turrim (edi- 
ficarei nonpriusfedens com» \.x\c.x^ 
putatfu mptus^ qui neceffa- ^ ^ • ^9- 
rtj fimt : nepofieaquam po- 



dhndamiir : o 
Arcaerafalvaros homens 
da inundação univerfal 
do Diluvio: Utpoffim vi- 
vere : &c quando para con- 
feguir os intentos da vai- 
dade, naõ baftaô todos os 
homens; para os da cari- 
dade, por árduos , &z diili- 
cultofos que fejaõ , baila 
hum ío homem. Trocai 



vident-, incípiant iUitdere etí 
Que homem ha de vòs > O 
qual querêdo edificar húa 
torre, naó lance primeirp 
asíiias contas muito deva'- 
gar, &: computando o ca- 
bedal com asdcrpefasi nap 
vejafe he baílante \ por^ 
lhe naó aconteça começar 
a obra, 8c não a poder aca- 
bar,ficandoella, ^elleex-» 



agora o nome de Noè em poílosaorifodas gentes ^ 

Gonçalo,o da Arca em Pó- Ifto he o que enfína Chri- 

te,&:odo Diluvàoem Rio: fto Senhor noílb, & efta$ 

& vereis quam bem fun- faóascontas, Sco compu- 

dada foi a caridade do nof- to que devia fazer o noííb 

ío Santo na efperança de Eremita antes de pòr^nao 



famento à obra : ver 
meiro fe tinha com 



levar ao cabo afua obra-, digoa máo, fenaó o pen 

poisailimcomo a deNoè 

era para falvar os homens 

xla inundação do Diíuvioj comprar os matenaes, có 

aíTim afua era paraosfal- ^que pagar aos Meílres, cq 



pn- 
que 



o:> 



314* Sermão de 
que fazer ^ feria, & fuften- fabulas, que Orfeo com a 
tar os trabalhadores, &ir. fua Cithara edificou os 
to naò fó para começar a muros de Tliebas', porque 
obrajfenaô para a pòr em era tal a doçura , & fuavi- 
perfekaó. Agora pergun- dade daquelle pequeno in- 
ço fe fez S. Gonçalo efte ftru mento tocado porelle, 
computo? Digo que fim, que levava após fy as ar- 



voresjos montes, os rios,a5 
feras, & atè a liberdade 
dos homens. Aífim creciap 
fabulofamenteemTheba^ 
os muros, & aílim em A- 
marante verdadeiramente 
aponte. 

289 DerãolheaS. G6- 



& com taó nova , & a bre 
yiada Aritmética, q todo 
o refumio a duas adiçoena 
fomente : primeira,Eu naó 
poflb nada : fegunda, Deos 
pode tudo.O mefmo tinha 
jà feito S. Paulo, quando 
diÇCcOmnia pojjum in eo 

Philip. ^^\ ^^ confortai : Eu pelas calo huns touros bravos,& 

é-^i- minhas forças nenhuma feros,&ellecom a voz de 

coufapoíToj mas pelasque húafó palavra osamanfou 

Deosmedà, fou todo po- de maneira , que logo to- 

derofo. Tal era o efpirito , máraó o jugo,& tirara ó pe- 

6c tal a confequencia do lo carro, feguindo a quem 

noíToSantoiporqueeunaó esguiava, comofetiveraó 

poíTonada , eufem Deos eníino de muitos annos. 

Dão poderei mover huma Chegava à ribeira do Rio, 

pedra : mas porque Deos chamava os peixes, & eiles 

pôde tudo, eu com Deos, corrédoem cardumes fal- 

&Deos comigo bem po- tavãoaospèsdoSanto,em 

detemos fazer aponte. E quanto elle não dizia ba- 



aííl m foi. Naó deo Deos _ 
S.Gonçalo a Vara deMoy- 
fes i mas para lhe dar ainda 
mais, deolhe a Cithara de 
Orfeo,f:izendo-ade f:ibu- 
íofa vcrdadeixa,CoataQ as 



lia, & os demais com fua 
benção fe retiravaó para 
tornarem outra vez quan- 
do foíTem chamados. Era 
neceíí:u'ia agua para mais 
ftcil íerviço da obra,tocou 
a SAn< 



S.' Gonçalo. 3 ^ f 
o Santo velho com o feu co, elle eícurandofe por ef- 
bordaó em hua pedra , Sc tar fora de caía, lhe refpó* 
correo logo húa fonte: mas deo, que íiiã mulher o foc- 
porquea agua bailava pa- correria5dandolhe para ei- 
ra fatisfazer a fede, & nam la hum efcrito. Recebeo-o 
para alegrar, & dar forças a mulher, & rirídofe para o 
aos trabalhadores , tocou Santo,lhe diíTe : Padre Er- 



.rioT 
•1? 



do mefmo modo em outra 
pedra, Ôc (ahio delia outra 
fonte de vinho. Trabalha- 
vaô muitos braços, & mui- 
tos inftrumentos para aba- 
kr hu m grande penedo , 
(em elle fe mover, mas cô o 
impulfodehuafó maó do 
Santo, mais como andan- 
do por fy mefmo ,que le- 
vado por força , fé foi pèr 
onde erà necéíTariOvForé m 
como ha homiens mais du- 
ros que as pedras , Sc mais 
irracionaes que os brutos j 
aili m como com elies per* 
fuadindo-òs (O Saiito fúal 
vemente a quanto queria, 
femoílrava mais evideni 
temente a oculta divinda- 
de , que lhe governava a 
lingua vâílim ouve hú tão 
duro, & tão afbuto, que pe* 
dindolhe o pobre Ermi* 
táo,em cuja fantidade naõ 
criajalgum foccorroparaa 



mitáo, efte credito não vail 

nada •, porque o que nelle 

me diz meu marido , he q 

vos dè de efmola quanta 

pezarefte papel. Defpedi* 

do taò íècam ente, replicou 

com tudo o Santo ,que f$ 

pezaífeopapel como mã»- 

dava o dono da cafajSí qu« 

elle pelo pezo fe contenta* 

ria có a efmola. Cafo vèr* 

dadeiramêteda.máo ocul* 

tadeDeos! Poz-feo papel 

em húa parte da balança ^ 

& quando parece que ba-^ 

ftavaõ poucos gráos de tri^ 

go l^araia por em equili^í- 

brio, viera 6"facos5& maia 

facosj&po dera vir todo Q 

ceileirojfem igualar o pezo 

do papel, que naò chegava 

a húa folkav Là fe queixa» 

va Job de 'que a Omnipo* 

tencia divina para o mor% 

tiiicar' , ofleãtaíTe feu in A^ 

nito poder contra húa íok 

fua.Qb-ra, .^or íkzmmm *> ilia,quetea ç vçatQ 'r- C^tu 



/ >" 



3^^ Sermão de 

Job. 13 trafolhim.quoãvento rapi- como diz Plínio, he huma 

^s- turyoífendíspotentiam tua: flor, a qual porque nunca 

^ cà para canonizar a S. fc murcha, mereceo dcfde 

Gonçalo oílenta feu poder a antiguidade o nome de 

a divina Potencia em fazer immorcal. líTo íigniiica o 

taó pezada húa meya fo- mefmo nome que Ihepo- 

ina , que nenhum pezo a zeraó os Gregos,por onde 

podcíie Igualar, nem leva- lhe cantou a immortalida^ 

tar,nem mover. AlTim có- de o Poeta h^ninodmmor* 

correo Deos juntamente talesqtie Amararithi. E fc 

como noíTo Santo no co- bufcarmos no Evangelho 

jneçar,no continuar, Seno eíla quinta vigia , achare- 

aperfeiçoarafua obra 5 & mosque depois de failar 

alFim a deixou perfeita, & exprelTa mente na fegúda, 

acabada para tanto bem & terceira,& fuppor nefla 
de tantos, antes que a ulti- 
ma idade IJie acabaílc a yi^ 
4%'7 ói^O j. ■ ofíiio -'• <; a íii-í 



, ; apo ^"^Oncíuídastaó 
V^^ felizmente as 
quatro vigias, 6c idades da 
vida humana, qual cuida- 
mos que feria a quinta vi- 
gia, que eu prometi do 
iioííb Santo , naójà de vi- 
yo,&: mortal, fenaôdeim- 
-mortal, & depois da mor- 
te ? h íla nova prerogn ti va 
mais parece que lhe con- 
vém a S.Gonçalo de Ama- 
rante pelo fobrenome,quc 
pelo ijome. O Aniaxaatho^ 



mefma conta a primeiraj^c 
a quarta , introduz em 
quinto lugar outra inde- 
terminada , & nella hum 
Pay de famílias muito vi- 
gilante : §hiontamfi feira 
'Pater famílias qtia horafur \^^^' ^■ 
veniret , vigilaret utique, 
Eíla pois, naó das idades 
que tem íim , mas da vida 
immortal quenaó acaba, 
foi,iSchea quinta vigiado 
noíTo Sanro , na qual lhe 
quadra admiravelmente o 
nomedePay de fiimiliasi 
porque elle verdadeira- 
mente he o Pay univcrfal 
nam íó daqucllagrande,& 
numerola, PrQYÍjucu>mas 
de 



S. Gonçalo, 517 

de todas as viíinhas , 6c có- cilía nas difcordias -, elíe 

íinantes j as qiiaes em tudo emíim, fe andáo defgarra- 

oqiiehaómifterde perto, doSjOs encaminha , & tal 

& de longe, a eile recorre, vez os caíliga tambê amo- 

Sò quem o vio, o pode có- roíam ente , para que nao 

tarj&crer. Se naó tem fi- degenerem deíilhos de tal 



lhos, a S.Gonçalo os pedéj 
& fe tem muitos,a S. Gon- 
çalo confultaó fe os haó de 
mandar à guerra, ou ao ef- 
tudo, ou aplicar ao arado. 
Sehaò de caiar as filhas, S, 
Gonçalo heocaíàmentei- 
ro,&feos próprios pays, 
ou não podem, ou fe átí^' 
cuidáo de lhe dar eftado, a 
lembrança que ellas por 
modeítiaiè naó atrevem a 
lhe fazer , a fazem em fe- 



Pay. 

291 Por todas eftas ra- 
zoens confirmadas có infi- 
nitos exemplos me parecia 
ao principio, quecò o no- 
me de Pay de familias fa- 
tisfazia S. Gonçalo às obri- 
gaçoens da quinta vigia, 
que lhe acrecentamos à vi- 
da. Mas bem confiderada 
o que depois de morto, òc 
immortal obra , & eítà 
obrando cada dia em be- 



gredo ao Santo, que como neficio dos que o invocaó^ 
mais poderofo, & mais vi- não ha duvida , que lhe vé 



gilantePay, fe naó defcui 
da. A elle encomendaó os 
Paílores os gados,6c os La- 
vradores as fementeiras: a 
elle pedem o Sol , a elle a 
chuva : &o ' anto pelo im- 
pério que tem fobre os ele- 
nientos,afeu tempo,& fo- 
ra de tempo os alegra com 
odefpacho de fuás peti- 
çoens. Elleosremedea nas 
pobrezas, ú\q os cura nas 
enfcrmidades,elie osrecá" 



muito curto eíle nome. E 

para inventarmos algum, 4 
iguale as medidas, & encha 

o conceito de fuás mara- 
vilhasjaílim como ao prin-; 
cipio diífcque no feu naf-* 
cimento foi minino como 
home, ailim digo por fim , 
que depois da fua morte 
foi homem como Deos: 
Alguns annos depois de 
morto S. Gonçalo em oc- 
^fiáo de húa extraordiná- 
ria 



m 




318 Sermão de 

riu tcmpeílade vinha tâo todos graças a S. Gonçalo, 



cheoj&furiofo o Rio Ta 
maga, que náo fó levava 
envolto com figo quanto 
encontrava nas ribeiras, 
mas também nos montes. 
Entre outras couíàs vinha 
atraveííàdo na corrente hu 
carvalho de tanta grande- 
za, que julgarão attonítos 
quantos o viaó,que baten- 
do como pezofeu, & das 
aguas a Ponte, arruinaria 
os arcos, 6c a derrubaria 
feni duvida, S. Gonçalo, 



que peio Habito, & lugar 
donde fahira viíivelmen- 
te, fe lhe manifeílou quem 
era. E eu torno a repetir, 
como dizia, que neíla ac- 
çaó,bem entendida, mo- 
llrouonoííb Santo, q para 
com as fuás obras nam fe 
portava como homem ho- 
mem, fenão como homem 
Deos. 

292 Entre as caufas fe- 
gundas j comofaô osho- 
menSj6ca cauíli primeira, 



C gritarão todos^S. Gon- quehe Deos, ha tal diíFe 

calo, acudi àvoíía Ponte: rença comummente no 

eisque no meyo deftes cia- obrar,que das caufas (c^xx-^ 

mores vem fair da Igreja das,comofaíláoosFílofo- 

hum Fradinho veílido de fos,dependem as obras fó- 

branco com o manto ne- mtntc infierí-y mas dapri- 

gro, & hum cajadinho na meiracaufa dependem in 

máo, o qual voando pelo feri , ó-inconjervari: dasl 

ar ao Rio , lançou a volta caufas fegundas depende 

do cajadinho a hum ramo as coiifas quanto ácriaçaój 

dotronco,&fazendo-ocn- masdacaufa primeira naó 

canar, 6c embocar direito fó dependem quanto à 

pelo olho do arco maior, criação, fenaó tambê quá- 

çllepaíTou precipitado c6 toàconfervaçaó.Quantoà 

a corrente, 6c a Ponte fem criação, Deos,6c o Pay gc- 



dano,nê perigo, íicou taò 
íirme,6c inteira como fora 
edificada. Com iguaes cla- 
mores, 6c triunfos deram 



raõ o Filho : quanto à con- 
íèrvaçaõ, Dcoshefóoquc 
o confcrva fcm dependên- 
cia, nem concurlb do Pay. 
Da- 



mas obras as tinha Deos 
criado,& feito para as fa- 
zer : Ah 9mm opere fu&^quod 
creavit 'Deus 5 ut faceret. 
Pois fe as úv)}ii'x jà fei to, co- 
mo as fez,& criou para as 



S.Gonçãla. ^ic? 

Daqui fe entendera aquel- de fer. Pois aílim como 
le modo notável de f ai lar meu Pay obrou ao fabba- 
com que diz a Efcritura , do naô fervil , fenão fobe- 
que Deos ao dia feptimo ranamentejaflimofaçoeu. 
defcãçou de todas as obras Ifto he o que faz Deos co- 
que tinha feito : Requievit fervando as fuás obras 5 & 
die feptimo ah univerfo ope^ ifto he o que fez S. Gonça- 
rei^uodpatrarat : & logo lofahindo porfymefmo a 
acrecenta,q todas as mef- confervara fua. Confer- 
"^ You-aenta63& ha tantos 

centos de annos, que a có- 
Tervaj & a çonfervarà fem- 
pre 5 porque nas fuás obras 
náo obra como home ho- 

— , ^ ^ mem, dequem àQpQnÚQm. 

fazer ? Forque a primeira fó tnfieri^ fenao como ho- 
vez fellas de novo pela mem Deos , de quem de- 
criação, & depois de cria- pendem inferi , é^ confer^ 
das, para que náo deixaf- Vâri, 
fem defer,fempreas ha- 193 Vamos a outras 
via de eftar fazendo pela obras de Deos homem, & 
confervaçáo.Heoqueref- de S.Gonçalo, Foraó os 
pondeo,& declarou Chri- difcipulos do Bautifta per- 
ito, convencendo admira- gíãtar em nome de feu Me- 
velmenteaosqueocalum- íi:reaChrifto,feeraelle o 
niaváo.de obrar ao fabba- verdadeiro Deos, 6c home 
do : Tater meus ufyue modo prometido peios Profetas, 
operatury ér ego operor. Por & efperado do mundo.T?/ ^^^ 
ventura Deos no mefmo esquiventurusesyanalium luf} 
dia do fabba do em q def- expeãamus> E qãttcÇ^on- 
cançou das fuás obras, dei- deo o Senhor? Em prefen- 
xou de obrar? Naô i por- çados mefmos difcipulos 
que fe deixara de obrar có- deoolhosa cegosjouvidos 
íervando-asjdeixáraó ellas a furdos, lingua a mudos 3, 

íi^iáoa 



3-0 Sermão de 

mios a alejados, pès a mã- raçoens dos trifles, dos' af- 



rDid.4. 



cos, faiide.&: limpeza a le- 
proros,& vida a mortos. E 
eftafoiarepoíla com que 
os defpediojdizendo: £■«;?- 
tes reniintiate loanni^ qute 
audiftis^&vidiflis-.láQ^ái- 
zei a Joaó o que ou viftes, 
&viftes.O mefmorerpon- 
doeu a quem por ventu- 
ra duvidar do que tenho 
dito, ou eftranhar que Te 
diga de S. Gonçalo, q nam 
obrava como homem ho- 
mem, fenaó como homem 
Deos. Ide, ide a Amaran- 
te, vilitai no far^rado iVIau- 



fli£l'os , dos perfeguídoS) 
dos defefperados , que fó 
na invocação do nome de 
S.Gonçalo acháraô a con- 
folaça®,oaíivio, arefpira- 
çaõjO remédio. 

294 Aílím obra como 
immortal depois de morto 
o grande imitador deDeos 
homem. E porque o mef- 
moSenrhor deixou ditOjq 
depois de fubir ao Ceofa- 
riaó feus fieis fcrvoá na ter- 
ra naó íò femelhátes obras 
às ruas,fenão maiores:0/é'- Joann: 
ra qu^ ego facioyfaciet , c^ '"^•'^ 



foleo de S.Gonçalo as me- maiorafaciet , quta ad Ta- 
morias immortaes de fua írf;;/^W^. Seattentamen- 



vida pofthuma, & vereis o 
que me ouvis. Vereis, ou 
pintadas , ou de vulto,co- 
motrofeos das fuás obras 
divinamente humanas , as 
muletas dos mancos , os 
braços dos alejados , os 
olhos dos cegos, as orei has 
dosfurdosjaslinguas dos 
mudos, as mortalhas dos 
mortosjou moribundos: & 
porque os maies interio- 
resj&invirivcisíiió os que 
maisatormentaó , & ma- 
taõ> tambcni vereis os co- 



te confiderarmos as circú- 
ílancias deíles milagres, 
acharemos que os de S. 
Gonçalo comparados cò 
os do mefmo Deos home 
tem hoje no modo de os 
obrar grandes exceíTos de 
maioria. Grandes eraò os 
concurfos dos que em fé 
dos milagres que obrava, 
bufcaváo , &: íeguiaó a 
Chrifto : Seque batur eiitn 
multttudo nuigna 
debant jigna , qn.i: fncicbat 
fiiper hiò^qni injírmabanttiry 
diz; 



quíavt- ^ 



S. Gonçalo. ^^i 

dizSJoaÕ. Efepergun- quias, & eiicomendarre a 
tarmos ao mefmo E vange- feu patrocinio,naó faó cin- 
lifta a que numero chega- co mil,nem dez, nê vinte, 



ibid.f, 



ria a maior multidão de- 
íles concurfos ; naó fó com 
o nome de maior, fenaó de 
niaxima,diz que chegarão 
aferquaíicinco mil: Cum 
fublevaffet óculos lefus , & 



fenaó trinta , & quarenta 
mil. Vereis que a multidão 
innumeravel denaturaes* 
& cftrangeiros naò cabe 
pelas eílradas , que cobrc 
os montes , que inunda 09 



Ibid. 10. 



vidijfet quia multitudo ma-> valles,& que não podendo 
xlma venit adeum : Sc logo todos entrar, nem chegar 
declarado o numero : !D//- de perto,cercáo tumultuo^ 
cubuerunt ergo viri numero famentea Igreja,veneran- 
quaji quinquemillia. AhS^' do,6c adorando de longe 
nhor,com quanto exceíTo as paredes fantas, queen- 
fe prova no voíTo fideliín- cerraó táo benéfico , & fo- 
rno fervo a verdade da- beranodepoílto. Eeftehe 
quella grande promeíTa! outro exceíTo de maioria. 
Quando naterra levanta- que também na compara- 
ftes os olhos para ver a çáo de vòs mefmo lhe pro- 
multidaó dos que pela fa- meteíles. 
ma,& experiência de vof- 29f Para receberem a 
fos milagres vos feguiáo, a faude,dizem os Evangeíij 
maior,&rnais numerofaq ftas,quea multidão dos q 
viílesyfoi de cinco milho- concorriaóa Chrifto , to- 
mens. Porém hoje fe do dosprocuraváo tocar feu 
Ceo onde eftais,aba terdes facratiíTimo corpo>do qual 
os mefmos olhos divinos , fahia a virtude, que os fa- 
& os puzerdes em Amará- rava : Omnis turba qudere^ 
te, vereis que pela fama , & bat eum tangere^quia virtus 
experiências dos milagres deillo exibat y & Janabat 
de S,Gonçalo,os que con- omnes. Cà também procu- 
correm neíte feu dia a vi- raó o mefmo 5 mas porque 
fiçar fuás fagradas reli- o aperto,6c a multidão que 
: Tom./. ' X con. 




322 ' Sermão de 

contenciofamentc fe im- Invocareis oSenhor^&elIc 



pedejhonaó permite , de 
longe venéraó o Santo, de 
longe fe encomendaõael- 
Je,6c de longe, ou recebem 
logo os milagrofos eíFeitos 
de fua virtude 5 ou a levaó 
comíigo alegres a fuás ca- 
fasjcomoprimicias, d< pe- 
nhores certos dos beneíi- 
cios,que na occafião da ne- 
ceilidade nenhum duvida 
Ihehajão de faltar. Mas 



vos ouvira: chamalohei», 
& elle dirá : Aqui eftou.. 
Aquieftou jdiz Deos: & 
Aqui eftoujdizS. Gonçalo, 
homem emíim no obrar 
como Deos : Invocabis^ à* 
dtcet : Ecce adjum. 

E porque algúa vez in- 
vocado S. Gonçalo, fuce- 
deràquevos naò conceda 
o que pedis, & pareça que 
vos nam ouve \ fabei de 



que muito he, que aquella certo, que vos enganais, & 
venturofaProvincia, & as naó quero por prova ou- 



outrasvifinhas, & coníi- 
áhantes logreni a felicidade 
de táo continuos, & certos 
favores : fe as remotiíli mas 
terras da Africa,da A íia,& 
defta America, onde ape- 
gas ha lugar, que naò te- 
nha levantado Templos, 
4DU Altares a S. Gonçalo,fó 
com a invocação de feu 
jiome,comofe nelie fe ti- 
vera facramentado, pelo 
efFeito maravilhofo de 



tro exemplo, fenaó o da 
mefmo Deos. Deos diz, 
que peçamos, & que rece^ 
beremós : Tetite^ & acci- I^^JJ*- 
j&/>r/>: 8c com tudo moílra 
a experiência, que muitas 
vezes pedimos, & não re- 
cebemo<í. Náohatal, aco- 
de S.Agoílinho. Que nam 
recebemos o que pedimos, 
he verdade: mas que naò 
recebemos, hefallb /porq 



9- 



fenam recebemos o que 
fuás graças de taò longe o pedimos,& queremos ; re- 
exprimentaõ, & tem pre cebemos o que devêramos :^ug^í^ 

pedir, & querer. AT-^^^r Ep^íi. " 
^ominus cjuod volumus^ ut ÍX^. 
trtbuat qnod rnalhnius, A f- 
j[pi fa^ cambem algumas 



fente.DeDcosdiziaoFro- 
fctalfiias : hivocabis , à* 
^omimis exaiidiet : clama^ 
kfs^ ii^dicet : Ecceadfum : 



fcMk.« 



S. Gonçalo. 
vezes S. Gonçalo, & naó ítia 
fora Santo, nem amigo, fe 
aílim o naó íizera.Taó mi- 
lagrofo he quando faz por 
vos o milagre , porque vos 
ellà bem , como quando 
ceíladeofazer , & ofuf- 
pende, porque vos eftaria 
mal. Vede-o no mefmo Sá^ 
to. Jà deixamos dito como 
para a fabrica da fua Ponte 
abrio duas fontes nas pe- 
dras, húa de agua,outra de 
vinho : mas a de agua ain- 
da hoje corre, & perfeve- 
ra,&: faz milagres: a de vi- 
nho fecoufe totalmente. E 



3^3 

fenaó também ojui*» 

zo. Vede o que fucederia 
ao Povo de Amarante, fe 
perfeveraífe a fonte do vi* 
nho ? Por iíTo o Santo ain- 
da no tempo da fua obra, 
como notaó os Hiftoria- 
doreS,abria5 & fechava a 
mefma fonte três vezes no 
dia: a primeira vez a ho- 
ras de ai moço -, a fegunda a 
horas de jantar, & a tercei* 
ra a horas de cea : & neftes 
três tempos que fucedia .? 
Tanto que os ofíiciaes, & 
trabalhadores recebiaó ca- 
da hum por medida a fua 



porque fe fecou ? Porque reção , a pedra fe fechava 

maiores naufrágios podia outra vez 5 &a fonte naó 

padecer aquelle Povo ne- corria. Taó provido, Sc vi- 

íla fonte , do que dantes gilante era S. Gonçalo em 

padecia no mefmo Rio. O que os feus milagres foi- 

primeiroqueefpremeo as femparaproveito,& naó 



uvas,&: inventou o vinho , 
foi Noè : & fendo Noè 
aquelle grande Piloto,que 
na maior tempcílade do 
mundo foube governar a 
primeira náo, 5c levou nel- 
ía a falvamento o mefmo 
mundo ; goftando depois 
o mefmo licor, que inven- 
tara, areou de tal maneira, 
que naô fóperdeo a modç- 



para daiio daquelíes por 
quemosfazia. E eiftahe.a 
regra por onde haveis de 
conhecer os milagres, & 
benefícios do noíTo Santo , 
taó agradecidos quando 
vos negar o que lhe pedir- 
des , como quando volo 
conceder, pois vindo por 
ília maó húa,ou outra cou- 
áa,íèmpre he para voílb bé. 
^X ij Atè 



i 



\li< 

\ 




324 Sermão de 

296 Atè aqui tenho com todas as fuás forças? 



fallado em tudo com os 
>\uchores da vida, 8c mila- 
grés de S. Gonçalo. Por 



Cuidando em feus pecca- 
dos 5 lembroulhe o novo 
propofito que tinha feito 



íim quero acabar có hum &arrependendofedaquel- 
cafo, deque eumefmofui laque tivera por melhor 



teftemunha. Havia em 
Lisboa hum devoto,& có- 
frade do mefmo Santo , o 
qual todos os annos con 



obra,pedioperdaó aoSá» 
to, ratificando com voto, 
quenaó faltaria jà maisà 
fua antiga devaçaó 5 fe cf- 



corria para a fua fefta com capaíTe daquelle acciden- 
vinte & cinco cruzados. tecomvida.Náocraóaca- 



Humanno porém em que 
os Oííiciaes eleitos eraó ri- 
cos, fendo também rica a 
Confraria , entrou elle em 



badas eítas palavras, quã- 
do com fegundo repente 
ceílbu totalmente a dor,& 
paflado o moribundo das 



penfamento, que feria ma- portas da morte à inteira 

iorferviço de Deos def- íliude, achandofe taó fam 

pender aquelle dinheiro como dantes , foi porfeu 

com os pobres. Aílim o re- pè dar as graças ao Santo , 

folveo comíigo fem o có- que taõ alpero , & taó be- 

jnunicar a outra peílba : jiigno tinha exprimenta- 



fenaó quando no mefmo 
ponto lhe fobreveyo húa 
dor interior , qne de ne- 



do em dous momentos. 
Mas quem haverá, que fe 
não admire do novo eftilo 



nhum modo podia fopor- praticado nefte cafo con- 
tar-, Sc chamados à preíTa tra a ley geral da efmoIa,& 
os Médicos , refolvéraó contra a preferencia , & 
que logo logo tomaíFc os privilegio dos pobres tan- 
S.icramentos, porque in- tas vezes publicado , & 



fallivelmentc morna. Que 
faria pois com efta fubita 
fentcnça, quem hum mo- 
mento antes citava fani; 5c 



pregado por boca do mef- 
mo Dcos ? Quando con- 
correm Chriíto, «Sc os po- 
bres para a efmola, day-a, 
diz 



i^ 



S. Gonçãlo. 
diz Chrifto , aos pobres, 
porque dando -a a elles,ma 
dais a mim: Queâ uniex 
hís minimisfeci^is^mihffe' 
ciftis. Pois fe neííe cafo 
concorre S. Gonçalo com 
os pobres, como ameaça o 
mefmo Chriílo de morte a 
quem quer dar a efmola 
aos pobres , Sc na 6 oííerta- 
k a S, Gonçalo ? Baila que 
iguala Chnftoospobresa 
íy mefmo, & quer que S, 
Gonçalo feja preferido 
aos pobres ? Bafta que an- 
tes quer Chríílo que feja 
feílejado S. Gonçalo com 
maiores aparatos,& maio- 



^^S 



§, Yim 



^97 nPEnho acaba- 
;i do 5 ou deixa- 
do fem o acabar, o mea 
difcurfo. Mas fe os Ser^ 
moens de S. Gonçalo to-^ 
dos eraó encaminhados à" 
doutrinados ouvintes, & 
naõ he licito faltara imi- 
tação do Santo no feu pró- 
prio diaj que doutrina pof- 
fo eu tirar deíle Sermaó, 
que feja acomodada aos 
qHC me ouvem ? Heyde 
exhortalos a q fejao bons 
Paílores, como S. Gonça- 



res defpeías, que os pobres lo .? J ílb pertence aos Ec- 

niais Ibcorridos ? Bafta cl eikfticos. Heyde exiior- 

que fendo os pobres fub- talos a que vaó em pere- 

liitutos de Chriílo , nao grinaçaó do Braíil a Jeru- 

quer o mefmo Chriíl:o> q falem ? Aífaz peregrinos 

o fejaó de S. GonçaíoPPois faó os que taó longe fe de- 

aííim lie ^ feja também o fterráraõ da pátria. Heyde 

mefmo Chriílo feu Prega- exhortalos a que façao mi- 

dor,& acabe o feu panegy- lagres ? Baila que fejamos 

rico, que eu emudecido Santos fem a fpirarà cano- 

con fc0b,que o naó íoi lou- niza^ão. Que doutrina fe-^ 

var. E eée he o exceíTo de rà bem logo a que tirem os 



favor, & lugar a que S. Gó- 
çalo fubio na fua quinta 
vigia, em qvive j&reyna 
immortal no trono daglo^ 
ria. Tom./. 



da vida,&: obras de S. Gon- 
çalo? A primeira que me 
occorria muito útil , & 
muito neceí]íaria,he, que o 
X iij irxii'^ 



i 



l 



/ V 



^Í:í I;i 



í 



n; 



32<^ Sermão de 
imicaíTemos em fazer pÓ- doclima,porq naô crcyo, 
tes. Coufa he digna de como cuida o vulgo , que 
grande admiração , & que os que lhe adminiílraò o 
mal fe poderá crer no mú- Erário, mais o querem pa- 
do, que havendo cento & rao Papado , que para o 
noventa annos, que domi- Pontificado. 
iiamos,& povoamos efta 298 Mas porque o def- 
terra, & havendo nella cuido que eftranha eíla ad- 
tantos rios,&: paíTos de dí^- vertencia pertence a pou- 
cultofa paíTagem , nunca cos j feja doutrina , & exé- 
ouvefle induítria para fa- pio geral para todos , q ao 
zerhúa ponte. Queriojou menos procuremos aca 



que regato ha na Europa 
fem nome, & que lugar de 
quatro viíinhos , que nas 
pontes naófeja magnifico? 
Sò por ellas fe conferva 
era Hefpanha a memoria 
de que os Romanos a do- 
minarão. Porque Anco 
Mareio fez a Ponte Subi i- 
cia, da Ponte , & de a fa- 
zer lhe formou Roma a 
dignidade de Pontifice, 
cujo nome, antes ainda de 
a mefma Roma fer Chri- 
flãa, fe unio ao Su mo Pon- 
tificado. Tanto honra eíle 
género de fabricas a feus 
Authores. Pois por certo, 
que nem por pobre, nem 
poravaréta padece a nof- 
fa Republica efta falta. Eu 
a attribuo à inércia natural 



bar por onde S. Gonçalo 
começou, S. Gonçalo, co» 
mo vimos, fendo minino> 
foi homem : nòs fendo na 
idade homens,na vida, & 
nos coftumes fomos mmi- 
nos. Melhoro djffe Séne- 
ca do que fe pode traduzir 
na noíTa lingua : Adhuc nori 
folumpueritia in nobis ^ ftd ^^^^^ 
quod eft gravius^ptteriLnas i-.b 1 Ê- 
remanet : ér hoc quidi mpe- p'^*" 
tus ePt , quod authuritatcm 
habemiis ftmimfoittafut ro- 
rum^necpiierorum tantunjy 
fedinfanttnm. Temos a au- 
thoridade de velhos, & 05 
vi cios de mininos ; & o 
peorhe, que naó fó fevè 
em nòs a mininiíTc, quehe 
defeito da idade, fenaó as 
mininiíles , que o faó do 
juizo ; 



S.Gonçalo] 327 

juízo : Nonfolltm fueritia depois a'terra , parece que 
innobis yfed puenlitas re- he começar o ç^ô^iííqxo pe- 
Tnanet. A primeira coufa lasabobodas , & acaballo 
que fez S.Gonçalo, foi por pelos aliceíies. Quanto 
os olhos em hum Chrifto maiSjque fendo a terra ,& 



crucificado, 6c eftenderos 
bracinhospara fe abraçar 
c(?melle:êc ifto he o que 
moços , & velhos giiardao 
para o fim da vida. Então 
vem o crucifixo , entaó fe 



o Ceo criados para o ho- 
memjalíim como o fim do 
home he o Ceo , 6c o prin- 
cipio a terra , aíllm parece 
que devia começar pela 
terra,6c acabar pelo Ceo. 



abraçaó com fuás Chagas, Antes naó,& por iíTo meA 

êc como he por força, 6c a mo. Porque o homem tem 

mais naó poder,muita gra^ o feu principio na terra, 62: 

ça de Deos he neceífaria o feu fim no Ceo, por iíTo 

para que feja de coração, lhe propõem Deos primei* 

Quem quer começar bem, roo Ceo, 6c depoisa terraj 

6c acabar bem , ha de co- porque fe quer começar 

meçar pelo fim, 6c acabar bem,6c acabar bem, ha de 

pelo principio. Defde o começar pelo fim ,& aca- 

principio do mundo enfi^ bar pelo principio. Aílini 

nou Deos ao homem eíla começou, 6c aílim acabou 

importantiílima máxima S. Gonçalo. E fendo a fua 

nas primeiras palavras da vida ,6c morte hdaperpe- 



YÁcúXMTTiún principio érea- 
vit l^eus Calmn^àrterram: 
onde nota S. Joaó Chryfo- 
ítomo, que Deos na obra 
da criação começou pelo 
Ceo,6c acabou pela terra; 
poriíTo naó diz o Texto: 
Creavit ferram^ & Qteltim , 
fenaõ Calum^ò' terra. Mas 
criar primeiro o Ceo, 6c 



tua imitação de Chrifto^f 
foi coufa maravilhofa, que 
aíTim como nafcido tomou 
por exemplar a Chrifto 
morto na Cruz,allim mor- 
rendo imitou ao mefmo 
Chriílo nafcido no Prefe- 
pio. MorreoemfímS.Gó- 
çalo, entregando a Alma 
nas mãos da Rainha dos 
X iiij An- 



íi 



Sermão de 




A njos , de que foi devotif- 
íinio,& fe achou prefente a 
feufeliciílimo traníico 5 & 
tanto que erpirou,re ouvio 
noar liãavoz , que dizia, 
Ide todos ao enterro do 
Santo.Concorréraó todos, 
& o leito em que acháraó 
defunto o fagrado corpo, 
foi deitado no cha6 fobre 
húaspalhas. Aílim acabou 
na morte imitando a Chri- 



morrer ! ô ditofo começar, 
& ditofiíTimo acabar ! Efte 
foi o ultimo exemplo, que 
S.Gonçalo deixou ao mu- 
do, 6c com que deixou o 
m udo, que todos ta m bem 
havemos de deixar. E pois 
o não imitamos no nafci- 
mento, ao menos comece- 
mos defdeeíle dia feu ao 
imitar na morte, trazendo 
fempre diante dos olhos o 



ílo nafcido no Prefepio, fim da vida ,para que por 

xjuem aíTim defde feu naf- fcus merecimentos , & in- 

cimento tinha imátado a terceíTaó configamosavi- 

Chriílo morto na Cruz. dafemíim. Amen. 
í)h ditofo nafcer,& ditofo 





SER- 



y.9 






í*3 -Ç^l •Ê<5f>3 «M-^«M'^S>3- Ç#3.*^y€^--ÇÍ>?'í^'^^^ 

ffffff¥fffff-ffffff--fffi 

SERMAM 

DA 

D O M I N G A 

VIGÉSIMA SEGUNDA POST PENTE COSTEN, 

Na occafíaó em que o Eílado ào Maranhão fe repartia 
em dous GoTernos5&: eíles fe deraó a Peííbas par- 
ticulares moradores da mefma terra. 



Cujus efl imago baec , à^fttperfcriptio ? T^icunt ei : 
Cíefaris. Matth.22. 



§.i. 

A6 ha terra ma- 
is diííicultofa 
de governar 5 q 
a pátria: nê ha 
mádo mais mal 
íbfrido^nem mais mal obe- 
decido, que o dosiguaes. 
Vivendo os Hehreos go- 
vernados por Deos, o quai 




no Propiciatório rerpódia 
a todas fuás confultas , 6c 
ordenava em voz clara O' 
quefe havia de fazer, ou 
naó fazer ; foraó elles taò 
mal aconfelhados , q qui- 
zcraó fer governados por 
liomens, como as outras 
nnçoens : & fendo taó fo- 
berboS:,quedefprezavaó a. 
todas em tudo o mais? ne- 



K 









301 






4i<>i, 



5 50 Sermão da 'Dominga 'vjgefimaftgundd 

ílepontOjqueeraafuama- a pátria, & os eleitos eraô 



lorprerogatiya , pedirão 
fer femelhantes a ellas: 
Conflitue nobis Regem , fi- 
cut & tinivcr'£ habent na- 
lionês. Oi primeiros Go- 
vernadores pois,que Deos 
liies concedeo com poder, 
& foberanía real , foram 
Saul &: David ; Saul que 
andava bufcando asjumé- 
tas, que fe perderão a fcu 
Pay, & David que andava 
guardando as ovelhas do 
feu. Naó fez Deos diffe- 
rençadas calidades, por- 
que todos eraó filhos de 
Abraham ; nem a fez tam- 
bém dos officios , porque 
todos naquclle tempo vi- 
via5 de fuás lavouras , & 
dos Teus paílos. Sò teve 
attençãoàs peíToas, Scaos 
talentos^porque afUm Saul 
como David debaixo do 
feu fayal eraó homens de 
taó grandes efpiritosy co- 



iguaes (^ como dizia } & 
naó bailou que hum foíTe 
Saul,& outro David, para 
ferem bem aceitos. Ale- 
gráraóíèos parentes, mur- 
murarão os eftranhos, & 
os demais (^que eraóqua- 
fi todos} ficáraó defconté- 
tos. Naó digo o que diíTe- 
raó, porque as couíâsnam 
eraó para dizer , nem fao 
para ouvir: íbdigo queef- 
tamos no mefmo cafo. Te- 
mos repartido efte noílb 
Eílado em dous governos 
iguaes,&: debaixo de duas 
cabeças,ambas naturaes da 
mefma terra, fem fer a de 
Promiíraó:&; aíTim da par- 
te das cabeças, como dos 
membros , allim da parte 
dos novos Governadores , 
como dos fubditos ,fe po- 
dem recear, como jà fe te- 
mem, naó pequenos incó- 
venientes. O recurfo eftà 



mo logo moftráraõ as fuás Ionge,o remédio naó pode 
obras. Mas quaes foraó os chegar, fenaó tardcj entre- 



applaufos com que foi re- 
cebida naquella Republi- 
ca depois de taó apertadas 
inílanciasa eleição deíles 
dous governos? A terra era 



tanto fó vos peço, que to- 
meis o melhor confelho. A 
obrigação dos Pregado- 
res , a quem a h fcncura 
chama Anjos da paz , he 
ferem 



pofl Tentecojien. 531 

ferem Miniftros da uniaó, Senhor,Cuja era aquella 



& concórdia : & porque ef- 
ta devemos defejar todos , 
como bons Chriíláos, co- 
mo bons repúblicos, & co- 
mo bons vaíTallos , para eu 
fatisfazer à minha obriga- 
çaó,naó me occorre outro 
meyo mais efíicaz, que de- 
clarar a hunsjSc a outros as 
fuás. O meu intento fera 
eíle, o Evangeiho a guia, a 



imagemj&cujo o nome ef- 
crico nas letras : Ctijus eji ^ 
imago h^c^&fuperfcriptio ? 
Reiípondéraó, que a ima- 
gemj&- o nome era do mef- 
mo Gefar; T>icunt e^Ctífa- 
m.Iíio he o que contém as 
palavras que propuz. O 
reílodo Evangelho ficará 
para outra occaíiaó , & 
também a moeda. Eu naò 



interceílbra para a graça a quero para hoje mais que 
Virgem Senhora noíTa.Pe- a imagem do Cefar 5 por- 



çamola com aquella atten- 
çaó que requere taõ im- 
portante matéria. Ave 
Maria. 



5. II. 



que com as imagens dos 
Cefares hey de fallar. 

303 Cujzueft imago hac^ 
Todos os que governaó 
faó imagens de feus Frin- 
cipes : porque os reprcfen- 
taó na peííoa, & no exerci- 



302 



PErgutado Chri- cio dos poderes. Começou 
ílo Senhor noíTo 



como Meftre da Leyjfe era 
licito aos Hebreos pagar 
tributo ao Cefar Empera- 
dor dos Romanos,refpon- 
deo, que lhe modralTem 
primeiro a moeda do tri- 
buto: Oftendite mthi numif- 
ma cenfus.E como n3.moQ' 
daeftiveííe eílampada húa 
figura com certas letras em 
roda i perguntou mais o 



id.ao; 



efte nome , ou titulo de 
imagem no primeiro go- 
verno do mundo, dado nao 
menos que por Deos ao 
primeiro homem, & nam 
nas proviíoens do officio^ 
fenão antes da creaçaó del- 
le, &do mefmo que o ha- 
via de exercitar. Faciamus 
hominem ad imaginem^ ò-'fi- q . ^ 
milituãimm noftram , & xlz^' 
/f/f/í/" : Façamos o homem 
^ (diíTe 



i 



t 



,M 



Oí 



ç5 3 2 Sermão da T>omínga -jigefimafegíinda 

(^ diíTeDcos^à noíTa ima- re deo Deos o titulo de 
gemjêc femelhança , para imagem fua , porque lhe 
quetenhaa preíidencia,& encarregou o governo do 
governo do mundo. Sobre mundo , 6c que ajuntou à 
eílas palavras lie grave imagem a femelhança, ad 
queílaó entre os Theolo- imaginem-iérfimiUtttdinefn: 
gos,em que coníiíla no ho- para que no mefmo gover- 
memoferimagê de Deos? noíeíembraílê Adam^que 

fe devia fazer femelhante 
quanto foíTe poífivel ao fu- 
premo Senhor a quem re* 
p refenta va : Imaginem di' 
xit obprincipatus rationem^ 
fimiiitudinem^ utpro vir i bus 
humanisfimilesficimus T>eo . 
304 OhquantoSi&quã 
exceilentes documentos 
deixou Deos naquella pri- 
meira acção aos Principes 
de como deviaó fazer , ^ 



Hereges Audeánosdif- 



feraójqueconfiília na ror 
nia,&: eílatura do corpo. E 
também he herefia politi- 
ca a de alguns Príncipes, 
os quaes tanto fe deixao 
levar deffas aparências ex^ 
teriores , que por ellas fa- 
zem a eleição das fuás ima- 
gens. Taò pouco importa 
Earao governo da Repu- 
liça a eftatura50ugentile* 



za dos corpos, C dizSene- eleger as fuás imagés! To- 
ca } como para o governo das as outras criaturas má- 



danáo fero Piloto fermo 
fo. Kefolvem pois todos os 
Santos, 5c Doutores Ca- 
tholicos , que a razaó da 
imagem de Deos no ho- 
mem confifte na Alma 
adornada de três potécias, 
emqucreprefentaao mef- 
mo Deos trino,& hum. Po- 
rém S. Bafilio & S. João 
Chryfoítomo acrcccntaó) 
que a Adam parcicularmé- 



dou-as Deos fazer, ou má- 
dou que fe fízeífe m : o ho- 
me, queohaviaderepre- 
fentarcomo fua imagem, 
& a quem havia de entre- 
gar o [governo do feu mun- 
do,fello có confuka, ôc có- 
felho, &: naô de homens, 
que ainda naó havia, nem 
de Anjosjqucjà eraó cria- 
dos , mas das trcs PcQbas 
divinas : Faciamus hominè 
ad 



1iWu!. 



põflTentecoften, 555 

nd imaginem , & fimilitudi- moria, para que fe lembre 



nem nojtram : &: para que ? 
Et prafit pifei bus maris^ & 
volatilibus Caliy & befiijsy 
univerfaqíie terra: para que 
governe os peixes domar, 
as aves do ar,& os animaes 



da fua obrigação ; o enten- 
dimento, para que faiba o 
que ha de mandar > & a vó-? 
tade, para querer o que for 
melhor : & naó homens de 
húafó potencia Q que por 



da terra. Efe paraaelei- ilTo fazem impotenciasJ& 
çáodequem ha de gover- faltandolhe a memoria, & 



nar brutos, fe requere tan- 
to apparato j & prevenção 
deconfultas, & confelhos 
fabedoria do mefmo 



na 



oentendimêto, fó tem mà 
vontade. Com todas eftas 
qualidades formou Deos » 
& aperfeiçoou a imagem, 
Deos i que fera para eleger que no governo do mundo 
hum homem,que ha de go- havia de reprefentar a Ma^ 
vernar homens ? O cara- geftade divina : bem aílim 
£ter de imagem fua polio comoreprefentaó as Ma- 
Deos por ventura na Alma geílades humanas os que 
do homem,porquefe naó em feu lugar, & com feus 



ha de entregar o governo 
a homens fem Alma ,? Sim-, 
masnaófó por iífo. Naó 
bafta que o que ouver de 
governar feja homem com 
Alma, mas he neceíTario, 
que feja Alma có homem. 
Se tiver Alma, & boa Al- 
ma,naó quererá fazer mal : 
mas fe juntamente naó ti- 
ver a£tividade , & refolu- 
ção,& talento de homem , 
náofarà coufa boa. Deo- 
lhe Deos memoria , enten- 
dimento,& vontade: a me- 



poderes governaó eftas, 
ououtraspequenas partes 
do mefmo mundo. A ima- 
gem do Cefar naó fó efta- 
va eftampada na moeda-, 
fenaó também, & muito 
mais em quem goyernava 
a Republica. Na moeda 
era imagem morta,em quç 
governava, imagem viva: 
na moeda davalhe o cu- 
nho o valor, em quem go- 
vernaua davaólhe as pro- 
vifoens o poder. E fe de 
qualquer delias fe pergun- 
taífe; 






5 ;? 4. Sermão da TDo minga ^vige/imafeg unda 

taíle -• Cujas eft imago bac \ 
Cuja he eíla imagem 7 De 
ambas fe havia de refpon- 
deremdifferente fentido, 
mas com a mefma verda- 
de5que era imagem do Ce- 
far : l}icunt et: Cafaris. 

^of Suppoíla efta fig- reprefentar hum Principe 
nificaçaô nafcida com o fupremo nos olhos do mú- 



§. III. 

^06 /^"^Omeçádopois 

V^^pela obrigação 

das imagês, aílim comohe 

grande dignidade haver de 



mundfoj&cò a mefma na- 
tureza, de que faó imagens 
dos Princjpes os que go- 
vernaó em leu nome, & os 
reprefentaô -, fe eu pregara 
em outra parte , havia de 
repartir o Sermão em três 
pontos. Primeiro , como 
haóos Cefares de fazer as 
fuás imagens: fegundojco- 
mohaôas imagens de re- 
prefentar os Cefares ; ter- 
ceiro, como os fubditoS3& 
vaíTallos dos Cefares haó 
•de reverenciar , & obede- 
cer às mefmas imagens. 
Mas porque o primeiro 
ponto naó pertence a efta 
terra, nem a efte Auditó- 
rio; tratarei fomente do 
í^gundo, & do terceiro, 
que fió taó próprios do lu- 
gar, como neceílarios ao 
tempo. 



do, (^ouíejamaior,ou me- 
nor o theatro ^ ^^irn hc 
muidifficultofo 5 Sc arrif- 
cado o acerto deíla grande 
reprefentaçaó. Facil no 
oue tocaaopoder 3 mas no 
mandar 5 & obrar, muito 
difficultofa, & de poucos, 
lífoquizfigniíicar o Pro- 
vérbio dos antigos, quan- 
do diíTeraó) que a imiageni 
de Mercúrio naòfe faz de 
qualquer madeiro : Ncn ex 
qnolibet lignofit Mercnrius. 
£ porque mais a imagem 
deMercurio,que a de Jú- 
piter, q era entreosDco- 
les a primeira, & mais alta 
foberanía ? Porque Júpi- 
ter era Deos do poder , 
Mercúrio da fabedona, 4SC 
prudência : 8c a mageílade 
do poder qualquer a pode 
reprefentar facilmente, as 
ac^ocns porém da fabedo- 
na," 






poft Tentecojlen 
ria 5 & prudência íaó mui 
poucos os que fejaó capa- 
zes de as compor , & exer- 
citar 5 como ellas requerê. 
Mais fácil he parecer Jupi- 
ter,que Mercúrio. Quan- 
do S.Paulo, & S. Barnabè 
entrarão em Licaonia, ad- 
mirados aquelles Gentios 
do que viaó em ambosjdif- 
feraó, que os Deofes em 
femelhança de homens ti- 
nhaó decido do Ceoàfua 
Cidade :& a Barnabè cha- 
mavaó Júpiter, 6c a Paulo 
Mercúrio : Vocabant Bar- 
nabam lovem^Tauhim vero 
Merctirium. Mas fe Paulo 
por tantas^Sc taó excellen- 
tts prerogativas era maior 
que Barnabè , porque de- 
rao a Barnabè , & naó a 



^507 Subamos das dei- 
dades fabulofas à verda- 
deira,&ellanos dará a ra- 
zão deíla differença. O 
Verbo eterno como Filho 
natural de Deos Padrcjhe 
imagem perfeitiílima da 
mefmo Deos. E porque nó 
fer divino atè os Gentios 
coníideravaó duas eminé- 
ciasfuperlativas 5 húa da 
fumma bondade, 8c outra 
dafumma grandeza , poí 
onde chamavão a DcQ^ 
Óptimo Máximo ; decla-- 
rando Sala mão no livro da 
Sabedoria a fumma per* 
feição com que no Verbo 
fe reprefentão bua^Ôc 011? 
tra, diz que he efpeiho fem 
macula da Mageílade de 
Deos 5 & imagem de fua 



Paulo o nome de Júpiter 5 honà-xà^-.Specítlumfine ma- 



&aPauIo,&naó aBarna 
bè o de Mercúrio.^ Porque 
Barnabè excedia na efta- 
tura,&magefl:ade da pef- 
foa, Paulo na eloquência, 
na fabedoría, & na doutri- 
biiera. nz: ^ioniam ipfe erat dux 
'verbkéc^. repreíentaçaó da 
fabedoria requere muito 
maior cabedal , & muito 



maior home, q a da ma^e- fta diíTereiíca 
ílade. t> . - , 



go bonitatis illius. O que ^''^^ 
aqui fó reparo, he>que híia, 
&amerma reprefentação 
em quanto he da magefea?- 
dejfe chama eípelho; Spe^ 
culum mahfiatis ', & ena 
quanto he da bondade ^(^ 
chama imagem , imago bo^ 
mtat is illius. E arazáo de^ 
deixando 
por 



40',' 



^^6 Sermão da dominga vigefinafegtmda 
por agora a Theologica,&: der,&: a oítentaçáo, & exc- 
bufcando fomente a Mo- cuçáo delle he muito fa- 
ral,qualhe, ou pode fer? cil: porém asda bondade, 
He a mefma que exprime- que faó as do bem mandar, 
tamos na facilidade das &bem obrarjSc bem fazer 
imagens,que vemos no ef- a todos, reprefentãofe nas 
pelho , & na difficuldade outras imagens , ou pinta- 
das que fe moílraó , 8c re- das,ou efculpidas , porque 
prefentão em fy mefmas. eftasfaò muito difficulto- 
As imagens que fe repre- faSj&trabalhofas, & que 
fentãoemfy mefmas, ou requerem muita arte,mui- 



faó de pintura,ou de efcul 
tura. As de pintura hzér 
fe com muitos debuxos, 
muitas cores, muitas fom- 
bras,muitos claros,muitos 
cfcuros : as da efcul tura có 
muito bater, muito cavar, 
muito polir , muitos che- 



tafabedoria , muita pro- 
porção, muita regra. As 
imagens de efcultura fazé- 
fe tirando, as de pintura, 
pondo: para efte tirar, he 
neceífario muito defmte- 
reífe : para efte por , & 
acrecentar,muita igualda- 



yos,muitos vazios: & hu- de: Separa húa coufa , & 
tnas,&: outras có muita ar- outra, muita prudência, 
te,muita applicação, mui- muita juftiça, muita intei- 
ro trabalho. Pelo contra- reza5muita conftancia, & 
rio as imagens , que fe re- outras grandes virtudes, q 
prefentão no efpelho, ellas mais facilmente faltaó to- 
fe pintão fem tinta , & fe das,do que fe acháo juntas, 
entalhão fem fcrro,8capa- 308 Nas duas images 
recém perfeitas em hum de Júpiter & Mercúrio, q 
momento fem mais traba- feattribuíraò aos dous A- 
lho, ou artificio que húa poftolos, temos o exemplo 
reflexão natural. Pois por detudo. A imagemdeju- 
iífo as da mageftade fe re- piter pmtavafe com hum 
prefentão no efpelho, por- rayo na mão , a de Mercu- 
quç a magQlUde , &; o po- rio com hum báculo entre 



fojlTentecoften. 337 

duas ferpentes. E aqiiife omefínotempo fe Tuften- 



via bem quatn fácil hehua 
reprefentaçáo^&quam dif- 
fic 111 cola outra. Fulminar 
rayosjeílremecero mundo 
com rrovoens, efcalar tor- 
res:, derrubar cafas , matar 
homens, fender de aíto a 
baixo cedros, cipreíleSíCn- 
zinhas, & todas as outras 
violências , & danos, que 
caufaóosrayos , tudo he 
muito fácil ao poder, em 
quemabufardeile. Porém 
meter o baíláo entre fer- 
pentes difcordes , & vene- 
nofas,&: fazer que não fe 
mordáo,nemfe efpedacê: 
domar ferezasjamanfar re- 
beldias 5 &■ reduzir a que 
vi vão conforme a razão os 



tão os que a conquiítárão 
nãodospaílos deanimaes 
domeílicos, íènão da ca- 
ça, 6c montaria dehomês: 
& que dificuldade fera 
ainda maior manter em 
paz,8cjuil:iça os que fó íe 
mantém da guerra injufta? 
Eíla he pois a primeira dif- 
íiculdade geral deíle go- 
verno •, mas eíla a obriga- 
ção , 6c officio dos que nel- 
le repreíèntáo a imagem 
do Cefar. 

í. IV. 



A Segunda dif- 



30P _ 

ficuldade,que 

mais ainda impede,& qua- 



quepornatureza,&coí1:u- fi impoíUbilita a boa re 
me não tem ufo delia -, eíla prefentação deílas ima 



he a diíficuldade grande 
em toda a parte,&: na terra 
em que eílamos,maiorque 
emnenhúa outra. Menos 
ha de ciacoenta annQS,que 
nefla terra fe não conhecia 



gens,he,que as imagens, & 
o Cefar eftão muito diílá- 
tes. Quando refpòndéraó 
aChriitOjque aquella ima- 
gem era do CefarjoCeíar 
eílava em Roma, & a ima- 



onome deRey,nemfeti- geríi em Jerufaiem. Que. 
nhaouvido o de I.ey : &: fera onde o Cefar, & o Ref 



que difiiculdade fera fazer 
Gbedecer,& guardar nella 

as Leys dos Reys "i DeíUe 
Tom. 7. 



eílà na Europa , & as ima- 
gens na America ? O Rey 
em hum mundo, 6c os que 
Y ore- 



n 



•i^ 



Jeiem 



fe- 
nhor. Tanto atrevimento 
Ihedàeílar o Príncipe 16- 
gCjorecurfo longe , o re- 
médio longe, écatè a ver- 
dade não íò eícurecida , 
iTiãs opprimida dos mef- 
mos longes. A Rainha Sa- 
bà chamava bemaventu- 
radososque ferviaòahl- 



33^ Sermão da T>ominga vige [ima fegtmda, 

o reprefentáo em outro? lesnáo tiveráo outro 
AtèDeoife temeo deíles 
longes : náo porque não ef- 
teja em toda a parte, & ve- 
ja tudo, mas porque vè fem 
íerviílo. Aílimo mandou 
notificar ao mundo pelo 
Profeta Jeremias ; Ttitas 
ne "Deus c ^cicino ego/um^é* 
noTíDeus de longe? Cuidais 

que eu fou Deos fó de per- Rey SaJamáo em fua pre- 
tOj& não de Jonge ? Enga- fença. E deita bemaventu- 
naif-vosjporque ainda que rança fepriváo em tempo 
210 Ceo íenho a minha de táo bons, 6c táo julios 
Corte,tanto aíJiílo na ter- Reyscomoos noíTos , os 
ra.como no Ceo: C^km queporíerviçofeu , & de 
& terram ego impleo. Ouve Deos, í'e expõe m náo fó às 
com tudo homens tão ig- inclemências dos climas, 
norantes,que interpretan- que he muito menos, mas 
do mal o verfo de David: às fúrias dos longes : & a 
^^íumcainjomino^terram verjôc chorar de perto as 
113. j 6. autem deditfilijs hominum : perdas temporaes, 5c éter- 
cuidarão que porq Deos nas,dequeclles íiiocaufa. 
puzera a fua Corte no 310 Diz a parábola do 
Ceo, demitrira de {^ o do- Evangclho,que partio hií 
minioda terra , èc o dera Rey para muito longe a 
aos homens. Náo creyoq conquiílar hú novo Rey- 
os que governáo as Con- no, & entre tanto deixou 
quiítas cuidáo o mefmo , encomendada a fua fazen- 
nias he certo , que muitos da a três criados , para que 
ásdomínãotão defpotica- negociafiem com cila. De- 
mente, como fe o cuida- ftestrcs criados hum naò 
rão.Tãofenhoresfefiizeni negociou , mas não rou- 
dellasjcomo fc ellas , & el- bou , & os dous dcrão táo 

boa 



.ibid.24. 



pfí 



/•nfel 



fofl 7entecoflen\ 539 
boa conta da fua negocia- ges tem depois osfeusper- 
çáo, que dobrarão o cabe- tos ; Sc por iííb os criados 
dal doRey, & merecerão na aufencia fervem có tal 
delle grandes mercês. Di- refpeitOjOu tal medo, que 
tofo tempo>em que de três na prefença dão boa conta 
criados de que fez coníi- de íj. Porém quando os 
anca hum Rey , fervindo Keysnaó váo às Conqui- 
não à fua viílajfenáo mui- ílas> ou elías íàó tão remo- 
to longe delle, os dous ihe tas^quenão podem là irj 
acrecentáraó a fazêda em comooslongesfempreíaõ 
dobro, & o menos diíigen- longes ; quam longe eílà o 



te, pofto que a náoacre- 
centou , nem hum feitil 
furtou delia. Acharfeíia 
hoje hum par, 8c meyo de 
criados femelhantes a ef- 
tes ? Nem em tres,nem em 
trinta, nem em trezentos. 
E qual he a razão ? Omef- 
mo Texto a deo narrati vã- 
mente em bem clara prova 
do que imos dizendo. Diz 



Rey dos criados, tão longe 
fe põem elles das íuasobri- 
gaçoens. Quando o Rel- 
vai do Reyno às Conqui- 
íi;as,& das Conquiftas tor- 
na ao Reyno , he Rey do 
Reyno, 6c mais dasCon- 
quiílas: mas quando o Rey 
fica no Reyno, &àsCon- 
quiílas manda fó os cria- 
dos, os criados faó os Reys 



o Texto , que foi o Rey das Conquiítas , & não o 
muito longe do feu Reyno Rey. O Rey fallos fuás 
a conquiílar outro , mas imagens, & elles fazemfe 



para tornar outra vez: 
Abijtin Regíonem longin-* 
quam acciperefibi Regniim , 
ér reverti. Qiiãdo os Reys 
vão do feu Reyno às Con- 
quiílasj^cdas Conquiílas 
tornâo ao Reyno : ainda 
queasConquidas eílejaó 
muito longe, aquelles lon- 



Reys. 

311 E quem lhe da 
eftes azos, ou eftas azas,fe- 
não aquellas que os levão , 
%c põem tão longe ? De 
Roma a Jeruíàlem ainda 
tinhaó algum vigor os ref- 
peitos do Cefar .' Si hmic Joana: 
dimittis^non esamicusC^e^ '^•"' 
Y ij faris. 




3 -í^o Sermão da T>ominga vigefimafegunda 

y^w. Mas de Lisboa à In- pois era fua imagem, que 



i 



ciia,& ao Brafil com todo o 
mar Oceano em meyo? a 
fé, a obrigação, a obediên- 
cia, o reípeiro, tudo fe ef- 
fria,tudo fe raaréa,tudo re- 
ferve. Vendofe taó longe 
de quem os manda , como 
là pòdeni o que querem , 
naò íe contentão có que- 
rer o que podem. Leváo os 
poderes de imagens , & 
tomão as omnipotencias 
deCefaresj &não de Au- 
guílos, ou Trajanos para 
confervação , & aumento 
da Monarchia, mas de Ti- 
berios , de Caligulas , de 
Neros, deftruidores delia : 
para que nos não admire- 
mos das ruinas da noíla, 
nem lhe bufquemos outra 
caufa. Porque percleo A- 
dam com o Parai fo a Mo- 
narchia do Vniverío.^ Por- 
que fe não contentou com 
£er imagem de Dcos, mas 
quiz fer como o mefmo 
Deos, que o fizera fua ima- 
gem. A tentação çom que 
o fez apoílarar o Demó- 
nio, foi com lhe dizer, que 
feria como Dcos. Masfe 
Adam jà era como Dcos, 



lhe prometeo de mais o 
Demónio n?,qucllc //r//í , GcneC 
ernisficutdtj r O cquivo- '■'^" 
CO do //r//? foi verdadvcira- 
menre diabólico. Adam 
em quanto imagc de Deos 
|à era como Deos na repre- 
fentaçáo, mas não era co- 
mo Deos na foberanía : & 
iíioheoquclhe prometea 
o Demónio. E como A dam 
fe não contentou de fer 
como Dcos fó na reprefen- 
tação, queeraoque tinha 
por imagem , Òc quiz fer 
como Deos na foberanía, 
que era o que lhe vedava a 
obediência, &: o preceito; 
por iíib quebrou o precei- 
to, & negou a obediência a 
Deos. L líto que lez Adam 
na Aria,he o que fazem na 
mefina Afia, òc n.i no/la A- 
mericaosquenão fe con- 
tentando com fer imagens 
dos Keys , excedem tão 
exorbitantemente toda a 
medida, & proporção de 
imagens, como agora ve- 
remos. 

§■ V. 
312 ^ Ntcs de haver 
no mundo a 
arte 



A 



poftTentecoften. 341 

arte da pintura C que co- que mais parecem Ricos 
meçou depois do incêndio feitios , que verdadeiras 



de Troya ^ diz Plinio,que 
fe rerrataváo os homens 
cada hum pela fua fombra. 
Punhafe o homem empe, 
fazia fombra com o corpo 
interpoíloàluzdo Sol, &: 
aquelia fombra cortada 
pela mefma medida era a 
lua imagem. E como fe po- 
dia conhecer a imagem, fe 
não tinha feiçoens por on- 
de fe dilHnguiíle ? Diz o 
mefmo Piinio^que para fe 
conhecer, lhe cfcreviaó ao 
pè o nome de quem era : 
Omnes umbra kominis cíT" 



imagens do que ha de crer 
a noíía fé que reprefentao. 
Mas ainda tinhaó outra 
maior impropriedade as 
imagens cortadas pela me- 
dida da fombra, porque fe- 
gundo o lugar em que eíli- 
veífe o Sol, feriaó fem ne- 
nhúa proporção muito 
maiores que os mefmos a 
quem reprefentaváo. E iÇ- 
to he o que fe vè, como eu 
dizia, na Afia, 6c na Ame- 
rica, nas índias Orientaes, 
ondenafce o Sol , ^ nas 
OccidentaeS; onde fe poé. 



cumduãa : ideo & quospn* Não pôde haver fem elhã- 
gerent aáfcribere inftitutú, ça mais própria. A fom- 



Faziãofe os retratos na^ 
quella rudeza da arte, co- 
mo em Portugal os que 
chamão Ricos feitios : nos 
quaes as imagens fenão 
conhecerião pela figura, fe 
o não diíTeíFe o rotolo. Ê 
helaftima, que prohibiu- 
do Alexandre , que nin- 
guém podeííe pintar a fua 
imagem,fe não Apellesj ca 
nos apareçaó algúas fi- 
guras tão dcífemelhantes 
dos foberanos originaes, 
Tom./. 



bra quando o Sol eílà no 
Zenith he muito pequeni^ 
na,8ctoda fe vos mete de- 
baixo dos pès: mas quando 
o Sol eílà no Oriente , ou 
íiO Occafo ) eíla mefma 
fombra fe eftende tão im* 
menfamente, que mal ca* 
be dentro dos orizontes, 
Ailim nem mais nem me- 
nos os que pcrtendem, ^ 
alcançáo os go\^rnos ul* 
tramarinos. Là onde o Sol 
eílànoZenitK, naò fó fc 
y II) me- 



í. 



f^i" 




342 Sermão da Uominga vigefimafegunda 

metem eílas fombras de- damaó,aque vulgarmen- 



baixo dospès do Príncipe, 
fenão também dos de Teus 
Miniílros. Mas quando 
chegão àquellas índias, 
onde nafce o Sol , ou a ef- 
tas, onde fe põem, crecem 
tanto as mefmas fombras, 
que excedem muito a me- 
dida dos mefmos R.eys, de 
que faó imagens. 

Hecouíli muito nota- 
vel,& que por ventura não 
tendes advertido , quanto 
excedeo a medida de Na- 
bucodonofor a grandeza 
daquclla imagem, que elle 



te chamamos meminho, 
contém a decima oitava 
parte do mefmo corpo. E 
que fc fegue daqui.^ Cou fa 
verdadeiramente não íó. 
fe mais para a d in irar , íe 
para rir. Seguefeque todo 
Nabucodonofor cabia dé- 
tro do dedo meminho da 
fua imagem. Jà naó he 
grande a infolencia deRo* 
boani em dizer , que era 
mais groííb o feu dedo me- 
minho, que ElRey Sala- 
maófeuPay pela cintura. 
Mas qual fera a daquelles 



mandou fazer depois que vaífallos, que fendo fómê- 

vioemfonhosada fuaEf- te imagens dos feus Reys, 

tatua.DizaHiíloriafagra- fe fazem tanto maiores q 

da, que tinha de altura , ou elíes cà onde o Sol fe poé , 

cóprimentofeífentacova- ou ià onde o Sol nafce, 

dos: Nabuchodoilofor Rex quanto he o exceílb im- 

fecit ft atuam auream alti- menfocomque a fombra 



Daniel.; ttidine ctibitorum fexag in- 
3^- ta, i'\gora pergunto : E 
quanto vinha a fcr maior a 
grandeza deíla imagem, 
que a eftatura do mefmo 
Rej, a quem rcprefenta- 
va.<^ Segundo as regras de 
Vitruvio,&: a fymctría , & 
proporçoens de hum cor- 
po humano, o dedo menor 



fe eíiende, fem outra me- 
dida, Ibm outra proporção, 
nem outro limite mais que 
o quenomar,ou na terra 
fecha os orizontes. A ima- 
gem de Nabuco era de ou- 
ro, as fuás faó de fombra: 
mas como as artes que vé, 
ou vaó exercitar, laò as da 
folida,& verdadeira alchi- 
mia. 



CJMI 



poft ^entecoflen. i \. | 

mia ,elles ilibem cooTcr-^ grés dos rippliuididDs.Nei- 
tereílaíbmbraem ouro,Sc íesíamoros Santuários da 
fazerfe melhor adorar que Europa , ondeie veneraò 
o mefmo Nabuco. A ima- imagens milagrofas , alli 
creiTi de Nabuco para os fe vem penduradas as mor- 
feus adoradores naò tinha talhas, as muletas , asca- 
prémios , Separa os que deas, as amarras, os pès>os 
naó adora vaó tinha forna- braços, os olhos, as lin- 
Ihas. Là,ac cá naó he aífim. guas, os coraçoens dos que 
Os que adoraó, & os que proteftaó naquelles votos 
não adoraó, todos ardem: deverlhe miraculofamen- 
porque todos por diverfos te todos eftes benefícios. 
moaosficãoabrazados,& Deixadas pois as outras 
confumidos terras mais remotas , que 

313 Ainda reíla a ma- também podem teílemu- 
iordor,& o maior eícan- nharneíle cafo j vos que 
dalo, E qual he ? He que me ouvis , que direis da 
quando eíias imagens tor- voífa ? Que milagres viíles 
naó para donde vieraó,ía6 nos jà mortos? (quenao 
taes as bulias de canoniza- fallo , nem quero que fal- 
cão, que leváo com figo, leis nos vivos. } Equaes 
que merecem fer colloca- feriáo as merecidas iníig^ 
das |pbre os Altares. Oh nias, ou trofeos dos meín 
quem lhe puzera também mos milagres, com que a 
diante as iníignias dos feus verdade fem lifonja^ & a 

milagres! Vede que Xa- -'—^^ — ^— 

vieres da India,6c que An^ 
chietasdoBraíil ! Eopeor 



he, que fe algum os nao 
imitou, nem teve imitado- 
res i eíle he recebido fem 
applauro,& eftà fepuitado 
fem culto. Mas naô deixe- 
znos em íúmcig os múd,-^ 



memoria ainda com hor^ 
ror, lhe adornaria as fe* 
pulturas ? Também alli fe 
veriaó mortalhas, naó de 
poucos que refufcitaííem ^ 
mas deiníinitosjêc fem nu-' 
mero, a quem tirarão a v'u 
da. Também fe veriaó ca-. 
4eaSí naó dos que Ubertá^ 
Y iii j raé 



- » 



íi: 



344 _ Sermão daT>ominga vige/ima fegmda 

raó do cativeiro, mas das quellas canonizadas ima- 
naçoens.Sc povos inteiros, gens, que chegando aqui 
que fendo livres , fizeraó deípidas^Sc toicas , torná- 
cativos. Também fe ve- raóeílo£idas de borcado. 



riaô amarras, naó dos na- 
vios, que falváraó, mas dos 
queíizeraó naufragar , 6c 
perder, fendo elles no mar, 
&: na terra a maior tormê- 
ta. Também fe veriaó mu- 
letas, não dos eílropeados 
quefaraíTem, masdos que 
fendo ricos , & abadados, 
os deixarão mendigando 
por portas, & fem remé- 
dio. Também fe veriaó 
braços,6c pès dos que fen- 
do poderofos, fó porque o 
eraó,os enfraqueceo , der- 



& ouro; 6c pintadas có as 
falfis cores com que en- 
ganarão a fama , por ella 
faó recebidas em andores, 
6c frequentadas com rg^ 
marias. > 



A Tègora tenho 



^^4 , . 

reprefentado- 
aos noíTos novos Gover- 
nadores,6cnaturaes o que 
naó devem imitar nos ef- 
tranhos. Nem creyolhc; 
fera diííicultofa a abomi- 



rubou,6coprimio ofeuin- nação de taò perniciofos 
jufto poder fem mais ra- exemplos,naófócomoex- 
zao que a violência Tam- primentados em todos, 
bem fe veriaó finalmente mas também como feri- 
osol?ios,que fizeraó cegar 
com lagrimas: d>: os cora- 
çoens que afogarão em 
triílezas, em laííimas , 6c 
defefperaçoens : d:^. as lín- 
guas que emudecerão fem 
poderem fallar, nem dar 
hum ay, por Ihenaó fer li- 
cito clamar à terra,né ain- 
da gemer ao Ceo. Elles, 6c 
outros faO os milagres da- 



doSjSc magoados. Saibaó 
porém que nelles como 
naturaes concorre outra 
terceira difiiculdade , que 
nos eftranhos naó tem lu- 
gar. Porque? Porque ain- 
da que huns, 6c outros faó 
imagens, elles faó imagens 
comas raizesna terra. As 
imagens naó fó ião obra 
dosElUtuarAos,6c Pinto- 
res, 



I 



U 



pofiTentecoften^ 345- 

rcsjíenaó também dos Jar- ceder aos que tem o o^over- 



dineiros. Húa das coufas 
mais curioías , qiiefe vè 
nos jardins , onde as terras 
le cultivaó mais primoro- 
fa mente que nefta noíTa, 
faó varias íiguras de muf- 
ta^oii de outras plãtas for- 
madas com tal artificio, 
proporção , &: viveza de 
membros, que tirada a cor 
verde, em tudo o mais íe 



no da fua própria pátria, & 
naó por outra razaó , ou 
funda mentOjíenaó porque 
temasraizes na terra. Alli 
tem os parêtesj alli os ami- 
gos, alli os inimigos , alli 
os intereíles da fazenda5da 
familia, da peííba : & qual- 
quer ácÇccs humores 3 ou 
rcfp eitos, 6cmuito mais to- 
dos j untos podem defcó- 
naó diltinguem do natu- por de tal forte a imagem, 
ral que reprefentaó. Mas dcreprefentaçaó de quem 



efta mefma reprefentaçao 
he muito diíHcultofa de 
confervar. As outras ima- 
gens> ou fejaó fundidas em 
metal , ou efculpidas em 
pedra, ou entalhadas em 
madeira, ou pintadas nos 



governa, que nem appare- 
cia lhe íiquedo que deve 
fer,&: em tudo obre, & feja 
ocótrariodo que he obri- 
gado. Se o humor das rai- 
zes lhe brotar pelos olhos , 
naó poderá ver as coufas. 



quaílros, ou tecidas nos ta- nem ainda olhar para ellas 

pizes, fem mais diligencia^ fem paixaó , que he a que 

nem cuidado, fempre c5- troca as cores as mefmas 

ferváo,&: reprefentaó a íi- coufas,& faz que fe vejaó 

gurajqiielhedeooartifice. hiias por outras. Selheto^ 



Porem as que faó forma- 
das de plantas,çomo tem 
asraizes na terra, donde 
recebem o humor, crecen- 
do naturalmente os ramos. 



mar, &occupar os ouvi- 
dos, naó ouvirá as infor- 
maçoenscom acautela c6 
que as deve exammar , ou 
ficara taó furdo,que as naó 



facilmente fe defcópoem, ouça, ainda que fejaó cla- 
Zc fe fazem monftros. Ifto mores. Se lhe rebentarpe- 
meímp fucede>ou pôde fu- la boca, mandará o que de- 



/ 



■A 



í^, 



34,<^ Seymao da.^õmingdvigefimafegunda, 
veprohibir, &prohibiráo oíferccer o governo àOíi- 
quc deve mandar , & as veira,aquairecrcurou,dí- 
fuas ordens feráó defor- zendo, que naó queria dei- 
à^n^ ,& as fuás fentenças xarofeuoleo, cora aue fe 
aggravos. Finalmente, fe ungem os homés,&fealu- 
fair, & vecejar pelos bra- miaóosDeofes. Ouvida a 
ços,&: pelas mãos, quefaÓ efcufa.foraóà Figueira, & 
as extremidades mais pe- tambcm a Figueira naó 
rigoías , & onde fe expri- quiz aceitar, dizendo, que 
mentaó maiores exceílòs, os feus figos eraó muito 
eftenderàos braços aonde doces, & que naó queria 
naò chega a fua jurdiçaó, deixar a fua doçura. Em 
& metera a inaó,& enche- terceiro lugar foraó à Vi- 
rá as máos do que naó deve de, a qual diíle, que as fuás 
^^-^^' uvas comidas eraó o fa bor, 
31; Por certo que fe & bebidas , a alegria do 
os que tomáraó febre fy mundo, & a quem tinha 
eíles encargos fe aconfe- taô rico património , naó 



Iháraó, naó digo comigo, 
fenaócom asmefmasplã- 
tas, que tem as raizes na 
terra, ainda que os gover- 
nos Foraó de maior íuppo- 
íiçaó, & aurhoridade , os 
naóhaviaódc aceitar. O 



lhe convinha deixajo para 
fe meter em governos. De 
forte que aíllm andava o 
governo univerfal das ar- 
vores, como de porta em 
porta,fcm haver qué o qui- 
zeíTe. Mas o que eu noto 



primeiro apologo que fe nefíasefcufis, he, que to^ 

efcreveo no mundo [ que dasconvicraó em húa fq 

he fabula com fignihcaçaó razaó, & a mefma, que era 

verdadeira ] foi aquelle naó querer cada húa á^zu 

que refere a fagrada hfcri- xarosfeus frutos. E ouve 

tura no Capitulo nono dos alguém que diíTeífe , ou 

Juizes. QuizeraÓ ( diz) as propuzeífe tal çoufa a cila» 

Arvores fazer hum Key arvores .^^ Ouve alguém, q 

gue as governafle, & foraó iiRd^Q à OUvexra, que ha^ 



via 



•í 



foft ^entecoflen 
Via de deixar as fuás azei- 
tonas, nem a Figueira os 
feus figos, nem a Vide as 
fuás uvas ? Ninguém. So- 
mente lhe diíTeraó, & pro- 
puzeraó , que quizeífem 
aceitar o governo. Pois fe 
iÇÍQ foi fó o que I he diífe- 
raójSc offerecéraó , & nin- 
guém Ihefallou em have- 
rem de deixar os feus fru- 
tos ; porque fe efcufáraó 
todas com os naó quererê 
deixar ? Porque entende- 
rão, fem terem entendi- 
mento, quequem aceita o 
governo de outros , fóha 
de tratar dei les, & naó de 
fy: & que fe naó deixa to- 
talmente o intereífe , a có- 
"veniencia, a utilidade, 6c 
qualquer outro género de 
bem particuíar,& próprio, 
naó pôde tratar do co- 
mum, 

5 1 é Saibamos agora , 
& naó de outrem , fenaó 
das mefmas arvores, fe efte 
bom governo , do modo q 
cilas o entendéraójfe pôde 
confeguir, 6c exercitar có 
as raizes em terra? Aílim as 
que o offerecéraó, como as 
que o naó aceitarão, todas 



concordáo,que nao. Que 
diíTeraó as que offerecéraó 
o governo ? Diíferão a ca- 
da hiia das outras : Vehi^ ò' 
impera no bis\\ináQ^Sz go* 



Judie 

9.12, 



vernainos. Vinde ?Xogo 
feeilas haviaó deir , ha- 
viaófe de arrai^cardo lu- 
gar onde eílavãó,6c deixar 
as fuás raizes. £ cada húa 
das que náo aceitáráo, que 
refpondeo ? Reípondeo, 
que não podia ir , porquj 
movendofe havia de deir 
xarás fuás x'aizes , èc fem 
raizes náo podia dar fruto; 
Nunquid pojjlim déferere^^'-^'>*- 
pnguedinemmeam-tér veni- 
re, tit inter ltg7ia promove ar l 
De maneira que governar, 
&: governar bem , não pô- 
de fer com as raizes na ter- 
ra. Governar mal, 6c para 
deftruiçãodo bê comum, 
iííbíim. E na mefma hi- 
ftoria o temos , que ainda 
vai por diante. Vendo a^ 
arvores , que as três a que 
tinháo oíFerecido o gover- 
no, o não quizeráo aceitar^ 
diz o Texto, que fe forãé 
ter com o Efpinheiro , U 
lhe fizerãoamefma offer- 
ta. E que refpondeo o Ef- 
pinheiro? 



/ 



>4 



5 4.8 Sermão da dominga vigejimafegunda 

pinheiro ? He repofta mui- 
to ái<^m de ponderação. A ^.. VII.- > 
propoíla das arvores foi a 
Íbid.r4. meíma : ^^2/, é^ impera fu 



Zbid.if 



pernos-. & elle refpondeo 
não fó como Efpinheiro , 
fenão como efpinhado : Si 
verè me Regem vobis confti- 
tuitis^ venite^ &fubumbra 
mea requiefcite\fi autem fion 
vultis 5 egrediatur ignis de 
rhamno^ à* de^oret cedros 
Libani: Se verdadeiramê- 
te me dais o império, vin- 
de todas deicarvos a meus 
pès , & porvos à minha 
fombra: & fe ouver algúa 
que repugne, fahiràtalVo- 
godo Efpinheiro, q abra- 
ze os mais altos cedros do 
Líbano, Não fei fe repa- 
rais na diíferença. As ar- 
vores, que lhe ofFerecéraõ 
o governo, diíferãolhe,/^- 
ni : & elle diíTelhes, k^enite. 
Não íbu eu o que hei de 
deixar as minhas raízes, 
fenão vòs as voíTas. Em 
conclufaô, que quem ha de 
governar bé, deixa as fuás 
íaizcsi 6c quem governa 
n\al,arranca as dos fubdi- 
tos,6c fô trata de confervar 
as fuás. 



317 



Stahea partí- 
L^cular difíícul- 
dade, & o grande perigo 
cm que eftaó de fe não có- 
formarem com o foberano 
original, que reprefentaô 
asimagens,que tem as raí- 
zes na terra. HeneceíTario 
para fe confervarem neíla 
nova reprefentaçaó, &pa* 
ra governarem como de- 
vem , que fe apartem da$ 
fiías próprias raízes. Olhai 
para todas as varas defdc 
a maior à menor com que 
fe governa a Republica. 
AqueihcS varas não tiver aò 
também fuás raízes ^ Sim 
tívcrão. Mas para gover- 
narem, & terem jurdiçaó, 
todas foraó primeiro cor- 
tadas das mefmas raizes,6c 
por lífo todas faó varas fe- 
cas. Qae remédio logo pa- 
ra que as novas varas,que 
nos governão, tendo como 
tem as raízes na terra, con- 
fervem a imagem do Ce- 
farquereprefentaó.^O me- 
lhor, & anticipado remé- 
dio ouvcra fido efcufaréfc 
como 



pofiTenfecoJien. 349 

como fizerão as arvores que pôde a diligencia, & a 



bem entendidas j mas a eí- 
cufa jà não tem lugar. O 
receo de poderem fer co- 
mo o Efpinheiro, quepro- 
meteo fombras, & amea- 
çou rayos,tambem me não 
dà cuidado i porque todos 
conhecemos a moderação, 
^ modeíHados que acei- 
tarão o go\^erno. Mas por- 
que os mefmos governos 
antes coílumão mudar as 
condiçoens dos homens , 
que con ferva las j o mais fe- 
guro mcyo de todos feria 
cortar as raízes. E quando 
areíoluçâo de algum foiTe 
tão animoíii que afiim o fi- 
zeiTej cu me atrevia a lhe 
prometer da parte de 
Deos, que nem por iíTo lhe 
farião falta. A Vara de A- 
ramnão tiaba raizes na 
terra ; & com todo rever- 
deceOj íloreceo, &: deo em 
meyo dia o fruto, cjue as 
raizes lhe não podião dar 
em menoi de hum anno. 
Mas deixados os milagres 
a Deos , Sc recolhendonos 
aos limites da natureza, fó 
vos aconfelho , q^e façais 
com toda a applicaçaô o 



induftria. Que faz o Jardi- 
neiro para confervar a re- 
prefentação das fuás ima- 
gens, por mais que tenhaò 
as raizes na terra ? Traz 
fempreos olhos poílos na 
figura quereprefentao j 8c 
contra todo o Ímpeto do 
humor, que as mefmas rai- 
zes naturalmente cômuni- 
cão à planta , jà endireita- 
do, jà dobrando ,jà ligan- 
do, jà decotando, conferva 
nellas a imagem taó pro- 
porcionadaj inteira, Sc fem 
mudançajcomo fe a tive- 
ra lavrado em mármore, 
ou fundido em bronze. 

3 1 8 Tudo iílo he ne- 
ceíHirio a quem ha de re- 
tratar, ou transfigurar em 
fy não outra , nem menor , 
ou menos fagrada imagê> 
q a da mefma PeíToa Real , 
a quem reprefenta. Fia de 
endireitar, ha de dobrar, 
ha de ligarjha de cortar : & 
como.^ Ha de endireitar a 
intenção , tendo-a fempre 
muito re£ta de fervir fó a 
Deos,&: ao Rey . Ha de do - 
brar a vontade ., para que 
fempre fe incline^ 6c íi ga o 



X 



^ 



jjfo Sermão daT^ammgavrgeJtmafegunda 

juizo,& ditames da verda- Oraabri mdhoros olhos, 



deira razáo. Ha de ligar, 
& arar o appedte, que jun- 
to com o poder, he muito 
vioIento,& rebelde, para 
quefenãodefenírée. E íi- 



ôc logo a vereisi mas he ne- 
ceíTario le\^antar o penfa- 
mento. S.PauIodiZjqueo 
Verbo eterno he a figura 
dl própria fuílancia do 



nalmente, fealgum átí^its. ^c\ár:Q\ ^ii cum/it fpkndor 
.rr.n^ 1. ... gloria,^ figura fubftãntU^^ 

(jus. E que he,ou quer di- 
zer o Verbo? He, & quer 
dizer a palavra. Pois a 
palavra de Deos he a fi- 
gura da fua própria íuftá- 
cia yfi^urafiibílanti£ ejus > 
bim. Porque toda a fua fu- 
ílancia , & todo o feu fer 
imprimio , &: exprimio 



affedtos quizer brotar no 
que não he decente a tão 
foberana repreíentação , 
decotalo logo , &: cortalo 
para que a não defcom- 
ponha j & fe acafo fe fente 
por dentro , naó apareça 
fora. A figura que haveis 
de trazer fempre diante 
dos olhos , he o mefmo 



Hebr.i.' 



Rey de quem fois imagê : Deos na fua palavra, como 

6c náo como aufente,fenão própria, natural, & perfei- 

como prefente •, nem como tiífima figura de íy mefmo, 

inviiivel, fenão como vi- E allim como Deos impri-. 



ílo. Mas como pôde ifio 
fer,feelle eílà tão diftan- 
te? Muito facilmente , fe 
não tirares os olhos do feu 
RegimentOjno qual vereis 
ao mefmo Rey tão natu- 
ral, & vivamente retrata- 



me, & exprime a fua figu- 
ra na fua palavra, afiim os 
Reys, que fa5 os Deofes 
da terra, fe imprimem , & 
eílampáo nas fuás. De ma- 
neira que quem lè as pa- 
lavras, a firma, & 3S ordena 



do em fua própria figura, do Rey nos feu s Regime- 
como fea tivéreis prefen- tos,vè apropria figura do 



te. Dirmchcis que no vof- 
fo Regimento ledes fim as 
palavrasj&c firma do Rey , 
mas naó lhe vedes a figura. 



Rey, ouve ao Rey em fua 
própria figura. ísTunca o 
pincel de Apcllcs retratou 
táo felizmente a Alexan- 
dre, 



'Ht^a. 



íi 



foftTentecoJien. ^fi 

dre, & o reprefentou aos quede Key: In hac mepo- 
olhos taó próprio , & taó tms parte confpicite qu^elã" 






vivo,como os Reys no que 

efcrevenij&ordcnaójíere- 
trataó>ou reproduzem a fj 
mermos. Sapiens in verhis 
producet feipftim :diz oEf- 
pirito Santo. Mas ouçamos 
a hum Rey. 

319 No tempo em que 
os Godos dominarão a Ita- 
lia,humdos Reys que ti- 
veraó a fortuna de eícre- 
ver com a penna deCaíIio- 
doro , defpachando feus 
Regimentos a algunsMi- 
niílrosauíente$,que nun- 
ca o ti n hão vin:o,diz aíTim: 



tetprajentes : non eíf ^obis 
damnum abfentié me£ : titi- 
lius eft mente noffe^ quàm 
corpore. Folgai { diz} de 
me ver antes no que vos 
efcrevo, que em minha 
própria peílba , entenden- 
do que me '^ç.àts melhor 
do que os que na minha 
Corte eítaó prefentes j 
porque vereis o queelies 
naóvem , 8c fabereis de 
mim o que eu lhe encubra 
a elles- aifi m q por eíle mo- 
do nenhum dano recebe- 
reis da minha au fencia. 



Yenetefpeculum cordís^fpe- nem a m inha prefença vos 
€ulum vohmtatis^ ut qtiibus fará falta ♦ porque na pre- 
non fiímfacie notus , fiam fença , como os demais. 



msrú qualitdte recognitus'. 
Quando chegarem a voííàs 
máos eâas minhas letrasj 
recebei-as como hum ef- 



vermeheiso roílo , & na 
aufenciajpelo que vos or- 
deno, vermeheisa Alma. 
Mas naó deixemos fem 



peiho do meu coração 5 da póderaçáo chamar o Rey 
minha vontade, Sede mim às fuás ordens efcritas et 



mcfmo : das quaes,pois me 
naò conheceis pelo roflo, 
me conhecereis pelo ani- 
mo. Notai agora o que 
acrecenta com juízo ver- 
dadeiramente real, & dei- 
criçaó> 6c agudeza mais 



pelhos de íy mefmo : Tene^ 
tefpeculum corais^ fpeculum 
volufitatis. A mais perfei- 
ta figura, que inventou a 
natureza, ànao pôde imi- 
tar a arte, he a que fe vé no 
efpeiho. Porque o q fe vè 
na,s 



y 



.^ 



^^t Sermão da T)omin_ga vigefimafcgunda 

nns cores da pintura, ou to obíervarem as ordens 



nojvulto das eílatuas , he 
fó húa femelhança , Sc re- 
prefentaçaó dapeílba^po- 
rèm no eVpelho naó fe vè 
fcmelhança, ou reprefen- 
taçaó, íe não a mefma pef- 
foa por reflexão dasefpe- 
cies. O efpelho naó he ou- 
tra coufa que hum impedi- 
mento das eípecies com 
que vemos, o qual as naó 



do feu Regimento , feráó 
imagens do Cefar^ Sc pelo 
contrario no ponto cm q 
íenaó conformarem com 
ellas, perderão a femelhá- 
ça, a íiguraj&: o fer de ima- 
gens fuás. 

3 2 o Perguntaò os Theo- 
logos, fe Adam pela def- 
obediencia perdeo o fer 
que tinha de imagem de 



deixa paírar,^^: tornaó para Deos ? £ refpondem geral- 
os olhos. P- aílim como o mente que naó j porq naó 
efpelho fendo impedimê- perdeo a memoria, en ten- 
to da viíla por meyo da re- dimento, & vontade, em 
fiexaó melhora a mefma que confiftia a femelhan- 
vifl:a,aílim na aufencia, çadeDeostrino,&hum, a 
que também he impedi- queomefmo Deosotinha 
mento da vifta , por meyo criado. Mas eíla repoíla 



da efcritura fica a mefma 
viíla melhorada. Sem ef- 
critura he a aufencia im^ 
pedimento , com efcritura 
he efpelho. Eíle efpeiho 
pois dos Reys , em que 
mais vivamente fe repre- 
fentaafua mefma PeíToa, 
quenafua própria figura, 
heo q haó de trazer íem- 
pre diante dos olbos os 
quetempor obrigação, & 
officiofcrimagcs do Rey. 
Entendendo queemquá- 



tem neceílidade de diíiin- 
çaó. Omefmo homem de 
dous modos era imagem 
de Deos : hum como ima- 
gem naturai , outro como 
iip.agem politica. Em quã- 
to criatura racional com a 
fobcranía do livre alve- 
drio cm três potencias, era 
imagem, que naturalmen- 
te rcprefcntava a Deos 5 a 
qual de nenhum modo po- 
dia perder , porque nella 
coníiília a fua própria cf- 
Icncia. 



Nk» 



poftTeniecõJten. _ ^^^ 

íència. Pòrèmem quanto comeíle, comendo tambe 



fenhor do mundo com o 
governo de todos os ani- 
inaes,era locotenente do 
mefmo Deos> &; imagem 
politica rua,8c efta naõ fó a 



elle j logo perdeo a ima- 
gcm^emque reprefentava 
a Dcos politicamente, & 
osanimaes^q já naõ viao, 
nem reconheciaó nellea 



podia perder Adam> fenâo imagem» que tinha pcrdi- 
quede fadbo a perdeo.Mas do, por inftinto natural fc 
quandoj&como? Tinha- rebelláraó, & Ihenegáraó 
lhe Deos dado por Regi-- a obediência. 
mentOjqueguardaíTeoPa-. 321 Viíles (^ diz elc- 
raifOí^cquenem elle, nem gantementenefte paííb S. 
lua mulher comeíTem do Ghryfoftomo^^viítesafo- 
fruto da arvore vedada. E geiçáo có que o voílb cao 
cm quanto Adam guardou vos reconhece, a prompti- 
eíle Regimento Ç que não dão cô que chamado aco- 



tc fabeao certo por quan- 
to tempo foi 3 confervou 
inteiramente em fy cfta 
íègunda imagê de Deos, 
fendo venerado , & reco- 
nhecido por fenhor>&:obe- 
decidonoar, no mar, & 
na terra de tudo quanto 
vivia neftes três elemen- 
tos. Porem depois que fal- 
tou àobfervancia do mef» 
mo Regimento , antes o 
quebrantou em tudo, naò 
guardando o Paraiíb, por 



de, o amor com que vos fe- 
gue,& o alvoroço natural 
có que vindo de fora , vos 
faea receber , & a faltou 
vos feíleja : & pelo con- 
trario, íe vos disfarça ílcs, 
& cobriíles o roílo com 
húarnafcara, eííe mefmo 
cão, ladrando , remete a 
vòs,& como eílranho, ou 
inimigo dà rebate contra 
vós em voíTa própria caía.? 
Pois ifto mefmo fucedeo a 
Adam com todos os ani- 



que deixou entrar nellea maes,depois que defobc- 

Serpente, nem fe abften- decendo, mudou a figura, 

do da arvore prohibida , & perdeo a imagê deDeos, 

porque confentio que Eva que era o caradter villvel 

Tom. 7. Z do 



I 



^ f4 Sermão da dominga vtgejimafegunda 

do domínio do Uni ver fo , 
quenelle tinha delegado. 
Tanto vai de guardarem, 
ou naó guardarem o Regi- 
mento;. & ordens do fupre- 
iiio Príncipe, os que eile 
fubftituío em feu lugar, 
para que como imagens 
íuas o reprefentem. Eu 
naó me queixo das imagés 



§. VIIÍ. 

322 /^Díroatèquiba-i 



(^quãdonaó 
fobeje 3 para que os noíTos 
DO^amenteeicitos tcnhaó 
entendido o modo^co que 
podem 5 & devem íaiísfa-^ 
zer as obrigaçoens de ima- 



emmafcaradas, porque fei gens do Ceíar,em quefem- 
inuito bem as cores, coque outro exemplo ft vem de 



honefta , & modeítamente 
fefabem tingir, ôc fingir, 
em quanto allim lhe im- 
porta a fuás pertençoens > 
mas a minha queixa , & 
de todos he , que depois 
<jue fe vem feitas,ou enfei- 
tadas em imagens, entaó 
tirãoa maícaraj& moírraó 
defcubertamente o q eraó, 
êcíempreforaó. Aílim que 
jiaòha outro meyo certo, 
&regurode fe confervaré 
na inteira repreíentaçaó 
de imagens do Cefar,os 
que por mercê, &c authorí- 
dade Tua tem eílc nome/e- 
naòa verdadeira,^ exada 
obfervancia de fuás ordes j 
& veremfe, ficcomporcTe, 
& rctrataremíc em icws 
Regimentosjcomo em eí- 
peliios. 



prefente coníiicuidoí,: que 
era o primeiro ponto tia 
noíTapropoira. Oiegunda 
pertence aos íubdicos, & 
vaíTaliosdo mefrao Cefar, 
&he,como devem obede- 
cesse reverenciar as mef-" 
mas imagens; em que to- 
das as diííiculdades5que no 
primeiro difcuríò apontá- 
mos, eííão facilitadas , 6c 
por iífo fera eíle muita 
breve. 

323 Primeiramente 
nosíubditosnao occorrea: 
Giiíicuidade do acerto na 
indiíterença, ourciòluça6. 
do que fe ha de obiarj por- 
que ella fo pertence a que 
manda 5 6c não a quem lo 
deve obedecer: fendo pri- 
vilegiofingular da ubedi- 
-encia. 



foflTentecoflm. ^Tf 

cncia, que podendo errar movero bem,aíííniíàbem 



quem manda 5 & errando 
líiuitas vezesjfó o que obe- 
dece, ainda {^ç^^mào eíTes 
mefmos erros , fempre 
acerta. Do mefmo modo 
naóeíláo expoílos osfub- 
ditos àquella terrivel ten- 
tação,em que mete as ima- 
gens dos Cefares o eílar 
longe delles j porque fe as 
imagens, que os reprefen^ 
tão,eftáo longe, os que fe 
devem conformar com el- 
!aS) ainda que ellas fejaô 
disformes, fempre as tem 
àvifta. Finalmente,© íè- 
rem imagens, que tem as 
raizes na terra, tão fora ef- 
tà de íèr inconveniente, 
que he o que mais convém 
a toda a Republica. Os que 
nafcéraó, ou fecriáraó na 
mefma terra, comoas qua^ 
lidades de cada húa faó 
differentes , &: diíferentes 
os climas,6c influencias do 
Ceo quenelias dominão , 
& conhecem as inclina- 



os meyos efficazes, & mais 
provados,com quefe pode 
obviar o mal. E de todas 
eftaspropriedades, & no- 
ticias,na6fó importantes^ 
mas totalmente neceífa- 
riasjcarecem os que vem 
de novo , Sede fora, fem 
lhes valer, como inexper- 
tos, nenhua ciência , òiÇ^ 
curíb, ou juizojpor agudo i 
& bem inftruido que feja. 
Adam & Eva tinhaó cien^ 
ciainfufa, & fabendo, co- 
mo náo podiáo ignorar, 
que as cobras naó fallavãoy 
por informação de húa 
delias, tendo-os Deos po- 
fto no Paraifo para gover- 
narem o mundo, o mundo, 
& o Paraifo tudo perderão 
em poucas horas. 

^24 Pelo contrario, 
quiz Deos acodir ao peri^ 
go de fe perder total men- 
te, em que o Povo de If- 
rael eílava no Egypto 5 & a 
quem efcolheo para eíla 



çoens,&: coílumeSjOu bos, grande emprefa de o con- 
ouviciofos dos que as ha- fervar,& livrar de taó po 



bitãOjSc de tudo tem larga 
experiência , aíTimcomo 
podem fuavemente pro- 



derofos inimigos } A pef- 
foa que efcolheo > foi a de 
Moyfes, o qual poílo que 



3T<í 

veíhdodcpelles, & com 
hum cajado na mão guar- 
dava ovelhas em hum de- 
ferto,na6 tinha menos que 
quarenta annos de vida, Sc 
experiência do mefmo E- 
gypto. No Egypto nafcé- 
ra 5 entre os Egypcios íè 
criáraj&nasefcolas do E- 
gypto aprendera quanto 
elles fabiaó : & por iííb não 
com outros inftrumentos , 
íenáocom o mefmo caja^ 
íio vcnceo todas as diííi- 
culdades, & confeguio fe- 
lizmente a emprefa , obra- 
do os maiores milagres, q 
jamais tinha viílo , nem 
vioomundo. Então que- 
remos que remedee os ca- 
tiveiros do Egypxo:,& faça 
milagres no Egypto, quem 
nunca vio o Egypto. O 
Profeta Abacuc quando 
Deos lhe mandou, quefof- 
feaBabyloniafoccorrer a 
Daniel, que eílava no lago 
dos Leoens , prudentiíli- 
mamente feefcufou , di- 
:2endo, que nunca vira a 
Babylonia , nem fabía on- 
de eftava tal lago; Bubylo- 
raníei. Tiem 71071 vidjy ^ lacumnéf- 
^^ ^'^ ^JSi £ fefoi a Babyloíiia^Sç 



vige/imafegimda 
tornou a Judéa , & fez em 
meyo dia pelo ar,o quehú 
diligente caminheiro naó 
podéra em meyo anno,foi 
porque o mefmo Arijojquc 
lhe deo o recado da parte 
de Deos , o levou, & trou- 
xe, & lhe moftrou o que 
nunca vira , & enfmou o 
que naó fabia. Suppofto 
poisque os que vem de mil 
legoas a eíía noífa terra,ta6 
nova para elles, como Ba- 
bylonia para o Profeta, né 
trazem , nem fao trazidos 
de Anjos em fuprimento 
das experiências que naó 
tem , & quando começaó a 
decorar os primeiros ru- 
dimentos delias 5 fe voltaõ 
outra vez para oiide vie- 
raój muito melhor provi- 
dos eftão hoje os lugares, 
que elles haviáo de occu- 
par,nos que com tanta ca- 
pacidade de conhecimen- 
to, juizo, talento,& verda- 
deiro amor da mefma ter- 
ra,a cultivarão como pro-' 
priaj& não desfrutarão co- 
mo alhea. E quando de feu 
cuidado , (Sc trabalho co- 
Iháoalgú fruto, QiYccin^in* 
d^mçno^ ficará onde naf- 
<:eo> 



^'k 



m 



põflTentecoJien. 35"/ 

ceo, mie he o mefmo que experiência do Teu erro os 



femearícde novo : & na5 
dallo a terrajpara que o le- 
ve o mar. 

32<r Todas eftas razoes 
de conveniência , & utili- 
dade perfuadem no pre- 
feri te governo a prompta 
fogeiçaó, &: alegre obedt- 
cncia dos fubditos, refpei« 
tandoeílas novas imagens 
do Cefar com tanto maior 
propenfaó , & vontade, 
quanto mais tem denatu- 
raesjdomefticas 5 & fuás. 
Mas he tal a protervia da 
condição humana , %c vi- 
cio táo próprio da pátria ; 
que por ferem naturaes* 
domeílicaSrScfuas as mef- 
masimagenS:, em vez de 
conciliarem maior vene- 
raçãOjObediencia , 8c reA 
peito, degeneraó em áç^C" 
prezo, defobedienc ia, 6cre- 
beldia. Ailimlhe fucedeo 
aSaul , &: a David, fendo 
ambos eleitos por Deos,&: 

05 mais dignos do governo 
da fua pátria. Huns obede- 
céráo^outros fe rebelláraó, 

6 em alguns durou a re 



fogeitou à razaó. E fe buf- 
carmos as raízes a efte vi- 
cio, acharemos, que toda 
elie nafce da igualdade da$ 
peíToas, prefumindo cada 
hum, que a elle íe devia a 
eleição do lugar , & a pre- 
ferencia. A eleição do fum* 
mo facerdocio na peíToa de 
Aram foi tão mal recebida 
de muitos, que Datan , A^ 
biron , & Core levantarão 
tal tumulto no povo , que 
para Deos o focegar, & ca- 
ftigar os rebeldes, fe abrio 
fubitamente a terra, & vi- 
vos foraó fe pui ta dos no 
Inferno com todas fuás ca- 
fas,&familias , & abraza- 
dos com fogo do Çeomais 
dequatorze mil homens, 
que feguiraó a mefma re- 
belliáo. E porque a fegui- 
rão .^ Porque muitos deli es 
erâoiguaes, & parentes de 
Aram^,^ náo fofriaó que 
lhe foífe preferido. Mas^ 
tanto fente Deos, & táo fe- 
vera mente caíHga a ce- 
gueira de femelhantes am- 
bíçoens > tendo dado por 



beldia naó menos que (ttc ley ao mefmo povoj que 
a,nnos inteiros i atè que a quando em algum tempo 
Tom,/, Z iij oa- 



( J 


■ 


" 



•^ 95^ ^^'^i^^ÕdaT^ommgavigefimafegnnda 

j ouveíTenide eleger quem que a repreTentaçaó 5 cm 



Dcur 
1 .«f 



OS governaíTe a todos, naò 
foíTe outrem, fenaó de feus 
irmãos, & de nenhum mo- 
do homem eftranho : N.on 
J)õteris alterius gentis homi- 
nem Regem f acere , qni non 
fitfrater tuus. Fina 1 mente, 
fe como diz Chrifro .Se- 
nhor noíTo, o bom Paftor 
he aquelkjque conhece as 
fuás ovelhas, ôc as ílias ove- 
lhas o conhecem a elle: 



Joann. 



queellas confiílem, pofta 
em qualquer materia,fem- 
preheamefma. Quê ver- 
dadciraméte crè em Chri- 
ílo, tanto adora em hum 
Crucifixo de ouro, como 
cmoutrode chúbo. Qiie- 
rem com tudo os lifongei- 
ros,&: os liíbngeados, que 
fô íe devaó os governos,&: 
fó fejaó aptos para elles os 
nomes pompofos > &: ap- 



EgoJumTaftor bónus 5 & pellidosilluíires: como fc 
çognofco oves meãs , & cog- as acçoens, &: feitos honro- 
nofcuntme meí^ : como as 
poderá governar, & enca- 
minhar bem o eftranhoj 
C&mais fefor Mercena* 
rio^ que nem elle as co- 
nhece açllas, nem ellas a 
elle? 



5. IX, 



31S 



MAs contra tu- 
do iílo fe le- 

vãtaaquclla politica mais 
fcguidapelocoílume, que 
approrada pelos exeplos, 
a qual tem perfuadido ao 
mundo, que fó olhe , ou fe 
deixe cegar do reíplandor 
das imagens, fcm advertir 



fos fenaó hajaó de eíperar 
com maior razaô daquel- 
les,que querem aquirir a 
honra,que dos-qiiecuidaó, 
&: dizem, quejá atem. O 
meímo luílre dos illuílres 
lhes tira o temor, Sc os en- 
che, ou incha de inimuni- 
dade, quelhedaó confian- 
ça para grandes oufadias; 
& das ouíadias grades naf- 
cem maiores ruínas. O 
mais illuítre dos elemen- 
toSvOmais alto por lugar, 
&: o mais nobre por cálida- 
de, he o fogo , & delle fe 
acendem os rayos no Ceo, 
&:featea5os incêndios na 
cerra. O feu natural onde 
chc- 



i 



poJlTen' 



chega, he levantar fuma 
ças,& fazer cinzas :& nao 
he acomodado inftrumert- 
to para edificar, & confer- 
var Cidades, o que coftu 



todos faó honradoS5mas da 
nobreza do meyo. Epor-* 
que não fizeraó as Arvo- 
res eíle mefmo ofFereci-* 
mento aos Cedros , às Pai- 



jnaabrazarTroyas.Osou- mas,&aosCiprefies^ Naa 
tros elemétos fervem-nos faó eítas Arvores entre to-» 
de graça,& fó o fogo à nof- das as mais altas , as mais 
fa cuíla, porque para fer- celebradas j as maisiílu» 
TÍrhadeterque queimar, ílres? Pois porque naó tr\r 
& fe naó queima, naó fer- tráraó cm cófideraçáo pa- 
'" * • ' ' ' ra querer a verde , & flo-» 
rente Republica das plan- 
tas, que ellas a governaf- 
fem ? Por iíTo mefm o -, por- 
que eraô as mais altas, 8r 
as mais illuílres. O alto, & 



ve. Tal he a luz do mais 
illuftre elemento : & tal 
muitas vezes o governo 
dos mais illuftres. Naó era 
illuftre David, &foi illu- 
ílriíiim_o feu filho Sala- 



mão : & o Reyno, que fu- o illuftre he bom para o hi 
íl:entou,6c amplificou o^ zarro, & oftentofo , mas 



naó era illuftre, perdeo, & 

desbaratou o illuftriftimo. 

327 NoApologoque 

referimos da Efcritura fa- 

frada , em que as Arvores 
ufcáraój&elegérao quem 
as governafíe • he muito 



naõ para o útil , & neceíla- 
rio. As arvores nao as fez 
Deos para bandeiras dos 
ventos, fenaó para fuften- 
to dos homens. Que im- 
porta que a fua altura, ou a 
fua altiveza feja muita,fe o 



para notar, que aquellas, a íèu fruto he pouco > A quê 

que oíFerecéraõ o gover- fuftentáraòjà mais os Ce- 

no, foraó a Oliveira , a Fi- dros, as Palmas, ou os Ci- 

gueira,6c a Vide, fem en- preftes ? Pelo contrario a 

trar outra nos pelouros de- Figueira he a que faborea 

íla eleição. Reparai agora o mundo, a OUveira,a que 

nosappellidosdc Figuei- o alumia > a Vide,a que o 

ía^Vide, §ç Oliveira, que alegra i U toda», entre as 

Ziiij plaíi^ 



6o 



Scnnao duT^on. 



Eoclef. 
^4 »7. 



plantas as que mais o fu- 
ílentáo. O que diz a Efcri- 
tura das ou trás tres arvo- 
res ai tiírimas3& illuílriíli- 
mas, he, quetodas bufcaó 
a fua exaltação nos montes 
mais levantados: ^/^C^- 
4rus exaltatafum in Liba^ 
no^ & quafi Cyprejjíis in m^^ 
teSion: quajt Talma exaU 
tatá f um in Cades. Hon- 
remfe embora com eflas 
arvores os Teus m5tes> que 
os noíTos valies naó hao 
miíter quem procure a fua 
cxaltação,fenão quem tra- 
te do noííb remédio. Os 
Cedros, as Palmas, & os 
Cypreíles faó os Gigantes 
das arvores, & o que trou- 
5teraó os Gigantes à terra > 
náo foi menos que o dilu- 
vio. Oh que duro feria o 
governo daquelle foberbo 
Triunvirato no forte do 
Cedro, inflexível j no ru- 
gofoda Palma, afpero-, & 
no funefto do Cipreíle, 
rriíle ! Porém o das outra$ 
arvores de meãaeílatura, 
feria igual, feria modera^ 
do, fcaa fuavcque por iífo 
todas allegáraò a fua do- 
çura. Jp, iíto he pelas mpf- 



^iga vtgejtmafegit7iãa 
mas razoens o que deve- 
mos efperar do noíTo. 

328 Sendo poistaó 
particulares as conveniên- 
cias do novo governo nas 
imagens, que temos prc- 
fentesjdo noífo feliciífimo 
Cefar, que Deos guarde , 
feja também noTa,& mais 
exacta que nunca a fogei- 
çaó, refpeito, & reveren- 
cia, com que todos os vaf« 
fallos da mcfma Magefta- 
deos venerem , & obede- 
ça õ, naó fó como fe a Real 
PeíToa eftivera prefence» 
fenaò em certo modo ain* 
da muito mais. Tenho ob* 
fervadoaílim no Ceo co^ 
mo na terra, que mais eíti- 
maô os fupremos Monar-r 
cas os obfequios , que fe 
fazem a fuás imagens, que 
a fuás próprias PeíIbas.Lé- 
brame haver lido em S. 
Agoílinho no livro dos 
feus Comentários fobre 05 
Pfalmos,*quc reíidindoem 
Romano tempo, em que 
ainda naô eílava deílerra.» 
da de rodo a idolatria , fc 
admirava muito de queos 
homens foíl em aofTcmplo 
fio Sol; de que hoje fe vem 
íiaQ 



põJiTentecõften. 5^1 

naó pequenos veftigios, & que naó mandou, que o 



que alli de dia , & naõ de 
noite adoraífem a imagem 
domefmoSol com as co- 
fias muitas vezes voltadas 
a elle ? Pois fe tinhaó o Sol 



adoraíTema elie , fenaóa 
fua Eftatua ? Porque era 
maior oftentaçaojSc gloria 
da fua5que chamava om- 
nipotência, fer venerado, 



prefente, porque naó ado- & adorado na imagem, que 
ravaôao Sol, fenaó a fua oreprerentava,que em fua 
imagem > Porque entcn- própria PeíToa. 



deo a religião, ou fuperíli 
çaó dos Romanos , gover- 
nada pelos primores da fua 
própria politica j aue mui- 
%o maior mageftaac era do 
Monarca dos Planetas 
fer venerado de taò longe 
em fua imagem , do que 



529 Soem huacircun- 
ílancia obrou Nabuco co- 
mo defconfí ado , que foi 
cm fazer a mefma imagetn 
de ouro. Faze-a,Rey> d^ 
pedraj6c feráó as fuás adoM 
raçoens pira ella muita 
mais reverentes, & para ú 



adoradoemfymefmo,po- muito mais gloriofa*s. Na 
ílo que viilo. Ao menos af- Eftatua de ouro podo pa? 
íimhe certo, que o julgou recerque adoraó a mate-» 
a foberanía de Nabucodo- ria,6cna6 a forma, o preçQ 
riofor, quando fe reputava do metal,&na6 a reprefen-* 
fuafoberbanaõfôfenhor, taçaódaimagem.Onde a 
mas Deos detodo o mun- 
do. Fez aquella Eílatua de 
ouro de tão defmedida 
grandeza comofabemos, 
& com as fornalhas acefas 
contra os que a naó adoraf- 
fem, mandou, que ao fom 
de trombetas todos do- 
braíTem os joelhos diante 
delia. Pois fe Na bucodo- 
-|iofor eílava prefence,por- 



matéria das imagens he 
menos preciofa ^ alíi eftà a 
fé,'6ca reverencia mais fí* 
na. Eefta he aiineza do 
noíTo cafo, adorando , ref* 
peitando,6ç obedecendo o 
original foberano do noílo 
CeíarjOaò nas imagens df 
ouro, que atègora cà fe 
manda vaó, fenaó nos már- 
mores naiuraes , U dome*- 



^^2 ^^^^^oda^Bomingavígepmafegunda 
íticos da noííli mefina ter- to do fervico Real , & Di- 
rá. Seo eíFeito for qual fe vino.que com fumma paz, 
cípera, & eu me eftou pro- quietação, & concórdia fe 
iTietendo defta mudança verifique em todo efteEl- 
tíamacdoAItifiimoiOpre. tado,oqQe Chriílo refpó- 
ícnte governo fera taó deo à pergunta, que hoje 
aceitoa peos,&ao Rey, Ihefízeraõno Evangelho, 
queSuaMageftadcocon. iftohe^quea Deosfedèo 
íirme , & faça perpetuo : de Deos , & o de Cefar a 
com menos á^Ç^t{2. fua, Cefar : Reddite quét funt 
com grandes utilidades C^faris.Cafari.&quafunt 
noílas, & com taó conhe» 'Dei^^Deo. 
cidas melhoras, & augme- 




SER. 



3<í3 




ààkààÈ ^à^ààààààààààMà^ 
ffffffffffff^fffffi=ffl'i 

SERMA 

DE NOSSA SENHORA. 

DA GRAÇA. 

ORAGO DA IGREJA MATRIZ DA CIDADg 

do Parájcuja fefta fe celebra no dia da AíTump- 
Ção da mefma Senhora. 



Mma. opúmam partem elegtt . Luc . i o. 




'■'■^BiM^ Rande día,grã'^ 
È» de Feira :, grande 
Evangelho : & 
ííixi»^ grande difficul- 
dade também a de cócor- 
dar com propriedade , & 
verdade o concurfo deílas 
três obrigaçoens. O dia he 
grande i porque he aqiielle 
ferniofodia,emquea Vir- 
gem Maria, depois de pa^ 



gaf o tributo à morte> co* 

mo verdadeira filha de A^ 
damjrefufcitando logo co 
mo verdadeira Máy de 
Deosjfubio ao Ceo a gozac 
para jfempre a gloria defua) 
viíla. A feíla he grande i 
porque he da Senhora da 
Graça, titulo defta Igreja 
Matriz, a primeira, Sc ma- 
ior de húa tao dilatada 
Provincia,& cabeça de to>« 
das.Q Evangelho he graiv 
dej; 



j^4 SermaUe 

de > porque nelle debaixo bridadc do me/mo titulo 

Martha&Mariaferepre- ção da mefma Senhora, 



íencaó as duas vidas a£ti 
va, (Sc contemplativa , em 
cujo complexo fe contém, 
Sc côprehende toda a per- 
feição Evangélica. E he fi- 
nalmente grande a àim- 
cuidade de concordar o 
concurfo deRds três obri- 
gaçoensj porque fendo a 
gloria o fim , &: a graça o 
meyodea confeguirjante- 
Jori 



naó confta , nem ficou em 
memoria. Mas neíta q pa- 
rece fem-razão, & impro- 
priedade, acho eu três gra- 
des propriedades, & ade* 
quadas razoens. A primei- 
ra,porqueagraçahe o di- 
reito por onde le deve aos 
Juílos a gloria: aíegunda, 
porque a gloria fe diílri- 
bue a cada hum pela medi- 
por a graça a gloria , & o da da graça: a terceira,por- 
iiieyoao íim,náo fó parece que quando acaba de fc 
diíTonancia , fenão defor- aperfeiçoar a graça , entaó 



dem maníFeíla : & porque 
applicando o Evangelho a 
melhor eleiçaÓ,&: a melhor 
parte à gloria da Senhora, 
em vez de celebrar a mef- 
ma gloria no dia de fua 
Aífumpção , trocala pelo 
titulo da Graça,tambê pa- 
rece impropriedade, por 
lhe naó dar nome de iniu- 
ítiça. 

331 O motivo queti- 
veraò os antigos fundado- 
res,para que havendo Ic 



fe começa a poíluir a glo- 
ria. £ como o dia em que 
fe cerrou o direitojcm que 
fe igualou a medida, 6c em 
qucfeconfumou a perfei- 
ção da graça immenfi da 
Máy de Deos,foio mefmo 
dia da fua gloriofa A fi um p- 
çaó : Sc naó em ditierentes 
horas , ou momentos da- 
quelíe dia,fenaó na mefma 
hora, & no mefmo momc- 
to,emqueacabou decon- 
í limar a immenfidade da 



yantado eíle Templo de- graça,começou a Senhora 
baixo do titulo da bcnhora a gozar a inimenfidade da 
da Graça , unilfem a ceie- gloria j não fó foi piedade. 



m 



íí: 



Noffa Senhora àa Graça. 3 ^f 
Ôcdevaçaó particular, fe- em queviveo neftemun- 
naó juftiça , que nefte dia do,fempre creceo mais , & 
foífe celebrada, co tno he , mais atè o ultimo inftante 
com titulo de Senhora da da vida. Logo em nenhum 
Graça. Tanto aíTim, q em outro dia, fenaóno ultima 
nenhum outro dia,ou fefta da mefma vida, que foi o 
da Virgem Senhora noíTa mefmodia da AíTumpçaá 
fe lhe pode dar própria, & da Senliora, fe podia,&: de- 
cabalmente o titulo da via celebrar própria, & ca- 
Graça/enao nefte. Epor- balmente a fua graça 3 por- 
que \ Porque em todos os que fó naquelle dia fe aca^ 
outros dias fempre a fua boudeconfumara mefma 
graça hia crecendo, nefte graça em toda fua perfei- 
fó chegou ao fummo grão ^aô,&: grandeza. E iftohe 
de fua grandeza , & fe vio o que faz efta nofla \ greja; 
toda junta, &confumada. 3^ Masporqagraçada 
No dia da Conceição foi a Virgem Maria foi cófumaJ 
Senhora còcebida^cm gra- da no dia,em que acabou a 
ça , mas eíla graça creceo vida temporal, & a gloria 
delHe a Conceição atè o da mefma Senhora també 
Nafcimêto,derde o Nafci- foi confumada no dia, em 
mento atè a Prefentaçao que começou a eterna-, pa- 
no Téplo, & dcfde a Pre- ra entrar naaltiflimaque- 
íèntaçaóno Templo atè a fl:ão,quefe naó pode evitaç, 
Encarnação. No dia da En- neftes ternios,& nefte dia , 
carnação efteve a Senhora entre a graça , & gloria da 
chea de graça,mas eífa gra- mefma Senhora,ambas có^ 
ça foi crecendo até a Viíi- fumadas: 6c para refolver a 
taçaó , da Vifitaçaó atè o qual pertence, conforme a 
Parto, do Parto atè a Puri- noflb Thema,a eleição da 
licação, da Purificação atè melhor parte, Mana optU 
aMorte,&Refurreição,& mam partem ekgit % peça- 
Afcençáo de feu Filho , & mos à mefma Senhora da 
por tantos ajançs depois, Gloria,& da Graça nosaC- 

6^ 



i 



^65 

áíta de tal modo com 
graça, q a mereçamos ver 
na fua gloria . Âve Maria, 

§. II. 

Maria óptima farte elegit. 



333 /^^Ccupada Ma- 

V^ ria com toda a 

fua attençaó em ouvir as 



Sermão de 

fua próprio , applicaa Igreja 
Catholicaà,prerente íblé* 
nidade da gloriofa Af-, 
fumpçaó da Virgé Senho- 
ra noíía. Naó comparando 
Maria (^a Magdalena } a 
Martha , mas preferindo 
MariaCaMáyde DeosJ) a 
toda a Corte celeílial An- 
jos, & homens. Divide a 
gloria doCeo em duas par- 



palavras de fcujôc noíTo di- tes,húa, que comprehende 
vinoMeftre, a (Tentada a todos os Bemavéturados, 



feus figrados pès : Sc occu- 
pada tam.bem Martha com 
todo o feu cuidado nas 
prevençoens,& policias da 
inera,em que havia de fer- 
vir,& regalar a taó fobera- 
nohofpede: Maria enten- 
dêdo,que ainda erriley de 
cortefia era maior obriga- 
ção a da fua aíliílencia: & 
Martha queixofa de qfua 
Irmãaa deixaíTe fó i ref- 
pondco o Senhora queixa 
dehúa ,& accdio pelo fi- 
lencio de outra, pronunci- 
ando como oráculo divi- 
no,que Maria efcolhéra a 
melhor parte: Marta opti- 
mampartemelegtt. Efta hi- 
íloria tomada em allego- 
ria,por naò ter Evangelho 



outra,que unicamente per- 
tence a Maria , &: efta can- 
ta j& apregoa, que naó fó 
he melhor de qualquer 
modo , fenao em grão fu- 
perlativo óptima , Ofti^ 
mam partem ekgif. 

334 Poreftemodofé 
concorda muito acomoda- 
damente o Evangelho cò a 
gloriada Virgem Senhora 
noífa j mas a fegunda diííi- 
culdade, que refervamos 
para eíle lugar, naóconfi- 
fte em concordar o Evan- 
gelho com a fua gloria , fe- 
naó com a fua graça. E que 
feria fe eu d i iTeífe,q m u i to 
mais própria mente fecon- 
cordaóo mclmo Evange- 
lho,ôc as meíniás palavras 
com 



Nvffa Senhora ãa Graça, ^ 6j 

çonio titulo da Graça,que de quem confeguio a opti- 



com o da Gloria da mefma 
Seuliora Aílimo digo, &: 
aílimoprovo. Porque tu- 
do o que Maria acquiria 
aospèsde Chriílo , & as 



m^Lfiptimam partem ekgit. 
Na cóparaçaó literal, Ma- 
ria Magda lena foi preferi-» 
da a Marcha na melhoria 
da graça : na comparação 



melhoras em que foi pre^ allegoricajMariaMáy de 
ferida a fua Irmáa , hiílo • Deos foi preferida a todos 
rial,literal,& propriamen- os Bemavérurados na me- 
te eraó da Graça, & naó da Ihoria da gloria. Porém na 
Gioria.Cóíirmafe do mef- comparação noíla, & deílar 
mo Texto,o qual ò^iz^ que Igreja particular, em que a 
Maria eíiava ouvindo ao feftejamos debaixo do ti- 



Senhor: Audiebat ver bum 
illiiis. Naó díz^que via, fe- 
naó que ouvia, & o ouvir, 
que he o fenuido da fé^per- 
tence a eíla vida^onde a al- 
ma fe melhora pela graça , 
& naó à outra , em que fe 



tulo da Graça , nomeímo^ 
dia, em que a Igreja uni- 
verfal a celebra debaixo 
do titulo da Gloria : quan- 
do a comparada não pode 
íèr fenáo a mcfma Senhora 
comíigo,nêa comparação 



beatiíica peia viíla. Logo pôde íer outra, fenáo entre 
quanto à concórdia do E- a mefma Graça,&a mefma 



vangel ho to o titulo , mui- 
to melhor concordado o 
temos CO o titulo da Gra- 
ça, que com o da Gloria» 
Porque à Gloria íóCc attri- 
bueem parábola , & por 
acomodação, & da Graça 
falia hifto;ial, própria, 6c 
naturalhi ente. 

3 5f S o reíla a compa- 
ração de húa parte boa, &c 
©urra melhor, & a ventagê- 



Gloria ; a qual deites dous 
títulos havemos de dara^ 
preferencia, & de qual ha- > 
vemos de dizer-. Mar moj?" 
ttmam partem elegit : de 
Maria em quanto Senhora . 
da Graça,ou de Maria em 
quanto Senhora da Gioria?^ 
Eíte íerà o altiílimo ponto 
do aojílxj difcurfo. E poílo 
que ambos os títulos na 
Máy de Deos fejáo iramê- 
fosj 



363 " Sermão ãe 

fos y para maiór gloria da do com a fombra ? Será co- 

iTiefma Senhora, daremos mo hum homem compa- 

a preferencia ao titulo da rado com húa formiga?Se- 

íua Graça. Ohfeamefma rà como hum Serafim có- 

Senhora da Graça nos aíli- parado com húa borbole- 

íliíle com a Tua para pene- ta ? Não. Porque a pedra , 

trarmosjou nos deixarmos &odiamante,o Sol ,6c a 



bem penetrar defta verda- 
de! 

§• IIL 



fom bra, o homem,& a for- 
miga,o Serafím,& a borbo- 
leta, tudo faó coufas natu- 
raes , 6c criadas por Deos 
em quanto Author da na- 
tureza: & como faó natu- 
raes , nenhúa delias tem 
comparação com o quehe 
fobrenatural Tanto aílim. 



L 33^ 13 Ara demoftra- 
\ çáo, & intelli- 
gencia delia [ que não he 
fácil ainda aos maiores en- 
tendimentos] havemos de 

fuppor, queaíTim a graça quefeDeos criaífe, como 

como a gloria, faó bensfo- pôde, outros mil mundos 

brenaturaes. E fe me per- mais perfeitos que eíle, & 

guntardes [ como deveis povoados de creaturas 

perguntar, ou todos, ou muito mais nobres ,& ex- 

quafi todos } que coufa he cellentes, fempre o fobre- 

bem fobrenatural? Haveis natural as excederia incó- 

defaber,quehehumbem, paravelm ente. Porque he 

o qual na nobreza , no pre- gráo muito fuperior a tu- 

ço,6c na dignidade excede do o que comprehende em 

atodososbens danature- fyaesferada natureza. E 

íza,aírim viíiveis, como i^- taes faó a graça,&: a gloria, 

viliveis. E para que decla- que fó fe podem comparar 

remos efte exceífo com ai- entre fy,como nós as coni- 

gum exemplo: fera como paramos neíta noíla que- 

hum diamante compara- íláo. 

do com as pedras da rua .^ 337 Digo pois, outor- 

$erà como o Sol compara- no a dizer,que havendo de 

£a. 



Noífã Senhora daGrãç a. ^69 

fazer efcolha entre a glò- &:adadivadeprerente>co- 



ria,Sca graça, coniornieo 
noíTo TÍiema , Maria opít- 
mam partem eíegit , antes 
devemos efcolíieragraça, 
que a gloria. E iílo não por 
húa razaó, fenaó por mui- 
tas. Seja a primeira , por- 
que a graça envolve com- 
íigo a gloria : & ainda que 
poíTa haver graça fem gío- 
ria, não pôde haver gloria 
fem graça. A graça he fun- 
damêto da gloria, & a glo- 
ria he confequêcia da gra- 
ça; a graça a ninguém he 
devida, &: a gloria he devi- 
da a todo o que eftà em 
graça. Diz o Apoílolo S. 
Pedro , que na graça , que 
hea forma com que Deos 
nos faz participantes da 
natureza divina, nosdeo 
as maiores5&maisprecio- 
fas promeíTas. Eíle he o 
fentido daquellas pala- 
vras : Ter quem maxima^& 
^^^'^ pretiofa nobis promiffa do- 
*■ navit^ utper h£c ejficiamt' 
ni divina confortes natura. 
De forte que na dadiva 
nos deo Deos a dadiva, & 
maisaspromeíFas. Mas fe 



mo nos deo as promeíTas 
nà dadiva ? Porque as pro- 
meíTas futuras faó a gloria, 
& bemaventurança , que 
havemos de gozar noCeo, 
a dadiva preíente he a gra- 
ça de que jà gozamos na 
terra : ác porque na graça 
fe envolve a gloria5& bem- 
aventurança , que lhe he 
devida , por iíTo quando 
nos deo a dadiva , nos deo 
juntamente as promeílas: 
Máxima^ Ò']pretiofa nobis 
promijfa donavit. 

338 AíHm declaraóef- 
tefamofo lugar de S. Pe- 
dro os mais doutosjôc mais 
literaes Expoíitores , mas 
eu tenho outro melhorEx- 
poíitorque todos elles, o 
Real Profeta. ^Àa míferi- ^^^^^ 
cordiam , & ver it atem dili- 83! 1 2^1 
git 'T>euSigratiam , à* glo- 
riam àabit T)õminus. Por- 
que Deos ama a mifericor- 
dia,6c a verdade , por ií!Co. 
dará a graça, & mais a glo^ 
ria. Reparemos muito na-^ 
quelie, ^uia ; porque.Pois 
porque Deos ama amife-» 
ricordia,6c a verdade: por- 



ás promeíTas faõ de futuro, que Deos hç xnifericordio- 



^70 



Sermão í^e 



fo,& verdadeiro , eíTa he a 
razaó , ou eíTas faó as ra- 
zoens porque ha de dar a 
graça , & mais a gloria ? 
Sim. A graça 5 porque he 
mifericordiofojèca gloria, 
porq he verdadeiro. Co- 
mo a graça com que Deos 
nos perdoa os peccados, 5c 
nos reconcilia comíigo^a 
ninguém he devida, toda 
he liberalidade, & dadiva 
de fua mifericordia : po- 
rém a gloriajcomo Deos a 
tem prometida a todo o q 
efti ver em graça, toda per- 
tence à fua verdade, por- 
que como verdadeiro naó 
pôde faltar ao que té pro- 
metido. Excellentemente 
S. Agoftinho : lllequi tri- 
buit mifericordiam Jervat 
*veritatemy indulgentia do- 
fiavitycoronamreddet . Do- 
nator efiindidgent ia ^debitar 
coron£. O mefmo Deos 
Cdiz Agoílinho } que na 
graça nos moftrou a fua 
mifericordia, na gloria nos 
moftrarà a fua verdade. 
Na graça a fua mifericor- 
dia, porque nos deo a in- 
dulgência que naó devia > 
& na gloria a fua verdade , 



porque nos dará a coroa 
de que fe fez devedor;2)í7. 
nator indidgentia , debitor 
corona: Sc o modo com que. 
fe fez devedor naó he por- 
que recebeífe de nòs aJgúa 
coufa,que nos haja de pa- 
gar, mas porque elle nos 
prometeooque naó pôde 
deixar de cumprir : í)^^/» 
l^orem "Dominiis ipfefecitfey 
nonaccipiendo , fed promit- 
tendo. Non ei dicttWyredde 
quodaccepifti-fedredde quod 
fromififti, E como nos ar- 
chivos da graça eílaó de- 
pofitados os créditos da 
gloria , vede fe fe deve an- 
tes efcolher a graça, que a 
gloria, poisa graça , 6c a 
gloria tudo pertence à gra- 



ça. 



339 Por efl:a conexão 
infaliivel da graça com a 
gloria chamou S.Paulo bé- 
aventurada aefperançn,có 
quenefta vida efperamos 
a mefma gloria : Expeãan- 
tes beatamfpem , é^ adven- 2 1 j/'^' 
tíim gloria magni T>ei. Mas 
para que nos naó engane- 
mos com eíla efperança, 
como com as demais, que 
tanto coílumáo enganar i 



^ 



Noffa Senhora da Graça. 3 / 1 

hc neceíTario advertir , ventagem à correfponde- 

que ha húa grande diífe- cia do amor infinitamente 

rença entre os fundamen- defignal, mas reciproca do 

tos delia. Olugardaefpe- homem para com Deos, & 

rança he entre a fé, & a ca- de Deos para com o home? 

ridade ; Te a efperança fe A verdade deíla ^-^— 



funda fomente na fé> nani 
he verdadeiramente bem- 
aventurada , porque tem a 
bemaventurança duvido- 
fa: mas fefe funda na cari- 
dade, que he a graça , en- 
tão hc certamente bem- 
aventuradaj&fem nenhúa 
duvida-, porque lhe naó 
pôde Dcos negara bem- 
aventurança, & gloria que 
efpera : Expeõfantes beata 
fpemy & advent um gloria 
magni ^Dei. 

$. IV. 

5^0 A Segudarazaó 
yl^j^porque mais 
íè deve efcolher a graça, 
que a gloria , he tirada cia 
definição , & eíTencia de 
húajSc outra. Agraçacon- 
íiíle em amar,&fer amado 
de Deos,a gloria em ver ao 
mefmo Deos : &: pofto que 
o ver a Dcos feja a maior 
felicidade, quem negará a 



fobera- 
nillima correfpondencia o 
mefmo Deos a fez de fé, 
quando diífe: Ego diligen^ 
tes me diligo,M2iS ainda cô- 
parado o ver a Deos fó c6 
o amar a Deos de noíía 
parte -, nenhum entendi- 
mento haverá jufto, & def- 
intereffado, que naó efco- 
Iha antes o amar. E fenão 
tomemos por juizes aos 
q mais vem, 6c maisamão 
a Deosjque faó os Serafins. 
Ao lado do trono de Deos 
noCeo vio o Profeta Ifa- 
ias dous Serafins, os quaes 
com duas azas cobrião os 
olhos, & com outras duas 
abrião o ^Q\to'fDuabus alis n^i^^^ 
^oelãbant faciem ejus , & 
duabus volabant. Todos os 
Anjos vem , 6c amão a 
Deos,6c quanto mais vem^ 
mais amá05 6c quanto mais 
vem , & mais amáo, mais 
alto, ^ mais eminente lu* 
gar tem cada hum na fua 
Gerarchia. PoisfeosSe- 
A^aif raíins 



I 

J 



B7^ Sermão de 

rafínsfegundoefta ordem, Dcos; porque mais fepre- 

aílim como tem o fupre- zaò os Serafins, & maisef- 

mo lugar na fuprema Ge- timão na felicidade fupre- 

rarchia, aíTinifaõ os que madofeu efladoaíingula- 

maisvem, &mais amáo a ridadedoamor , q a pree- 

Deos, como fe moílráraó minenciadover. PoriíFo, 

ao Profeta com os olhos como nota S. Dionyfio A- 

cubertospara naõ ver, & reopagita,a denominação 

lo com o peito aberto para do entendimento, queíao 

amarPParaamar digo, 6c osolhos com que fe vè a 

para mais amar j porque o Deos, a deixarão aosChe- 

movimento das azas [naò rubins,queeílãohumgráo 

fendo para voar , porque mais abaixo , & tomáraó 

eftavão firmes ) mais era para fy a antonomafia do 

para tolerar o incêndio do incendio,com que fe abra- 



s 



amor, como dizem huns 
S3nchcs Interpretes , ou para mais 

Cornei. í _ '. 

bic. oexcitar,&acender,como 
dizem outros. Pois fe tan- 
to amão,6c tanto, &: tão ar- 
dentemente eíláo amado j 
como parece que api^gaó 



záo no amor do mefmo 
Deos , chamandofe Sera- 
íins,quequer dizer os ar- 
dentes. A fegunda razaó, 
& muito mais alta, he, que 
fechaó os olhos, quando 

^ - -^ 1" 'o-^ abrem o peitOí porque tem 

com huas azas o mefmo q por maior fineza, & mais 
acendem com outras; & digna do mais perfeito 

r. ,_- 1 f 



como negaó ao mefmo 
amor a viíta do objedlo 
amado.^ 

341 Duasrepoflas tem 
eílabem fundada duvida. 
A primeira, que cobriaó 
osolhos para não ver,quã- 
do abriaõ o peito para 
amar, fendo o objeítoda 
YÍfia,&doamor o mefmo 



amor o amar fem ver, doq 
amar vendo. Heoq enca- 
receo S. Pedro nos primei- 
ros ProfeíTores do Chri- 
ílianifmo, dizendo, que 
fem ver a Deos o amavaó .• 
^tem chm non videritis di* 
ligitis. E he a dilFerença \.%!''' 
verdadeiramcntcScrafica, 
çomqueamao na terra os 
bem- 



Nopi Senhora da Graça. ^73 

Bemaventurados da gra- eflasduaspalavraSjnãodu 



çaj& no Ceoos da gloria. 
Os da gloria amáoaDeos, 
masvendo-o: os da graça 
também o amaó, masfem 
o ver. 

34.2 E fe eíla ventagê 
tem em quanto fomente 
amão a Deos,que he huma 
parte da graçajque fera em 
quanto J^mão a DeoS5& faó 
amados de Deos, em que 
coníiíletoda ? Eíla reci- 
proca correfpondencia de 
amor entre Deos, & o ho- 
mem, queeftà em graça, 
declarou a Alma dosCan- 



nai( 
enTU 



vidou de chamar a cada 
húa delias infolente , &c a 
ambas infolentiílimas: In- 
foLens ver bum , ò* ego iUi : 
nec minus infolens dileãus r>.^er~ 
meus mihi : nifi quod utro 
queifífolentius utrumquefi'^^ 
mui. Mas a Alma que ifto 
diíTe, era hua Alma, q eíla- 
vaera graça, & he tanta a 
alteza5aque amefma gra- 
ça levanta a Alma, naó fó 
em quanto ama , fenáo em 
quanto ama , & juntamen- 
te he amada de Deos ; que 
o que podia parecer info 
lencia da parte do homem 



tares, quando diíle : 'Z>/7<?- 
^ Bus meus mihi 'iò' ego illi: da parte de Deos he jufta 
Deos he o meu amado, & condecendencia , tratan- 



eufouaamadadeDeos. E 
fendo Deos quem he por 
íiia infinita grandeza, & fo- 
beranía: & fendo o home 
quem he (^ ou que naó he 3 
por fua vileza, &: baixeza, 
emrefpeitodeDeos tam- 
bém infinita ; quem have- 
rá que naó eílranhe, & fe 
aííbmbre defta confiança, 
&; igualdade de fallar : iUe 



dofe com tal familiaridade 
Deos com o homem, & o 
homem com Deos, como 
fe foraó iguaes : ^ajtex 
£quo moremgererey& repen- 
dere vicem , como nota o 
mefmo S.Bernardo. Com- 
paraime agora o amar a 
Deos no Ceo por razão da 
vifta, com eííe fer amado 
de Deos na terra por razão 



mihiy& ego tUi'. Elle o meu da graça. Os Bemaventu- 

amado,& eu a fua amada ? rados no Ceo diráó, q por- 

S, Bernardo comentando que vem a Deos, amão ne- , 

Tom. 7. Aa iij ceíía- 



^4 



3/ + 

ceflariamente a Deos 
nos diremos na terra, que 
porque eliamos em graça 
de Deos , fomos amados 
neceíTariamente de Deos. 
Sobre eíla minha propoli- 
çaó, cabia melhor ainda a 
cenÍLira de infolente, fe- 
nâoforadeféjcomohe. Se 
a viíla de Deos neceílita 
aosBêaventuradosa amar 
aDeosjtambem a graça ne- 
ceílita a Deos a amar ao 
homem. A viíla neceílita 
aos bêaventurados a amar 
a DeoSjporque não podem 
deixarjnemceíTarde amar 
a Deos vifto : & a graça ne- 
ceílita aDeos a amar ao ho- 
mem , porque não pôde 
Deos deixar,nem ceifar de 
amar ao homem , que eílà 
em 



;raca. 



§.v. 



343 

tagem 



A 



Terceira ra- 
zão, ou ven- 
porque prefcín- 
dindo a graça da gloria ( q 
heofcacido em que falhi- 
mos J fe deve antes efco- 
Ihera graça, he, porque a 
graça faz ao homem íilho 



Sermão de 

& de Deos, a gloria herdeiro. 
Se os homens conhecerão 
o que encerra eíle nome fi- 
lho de DeoSj& como a gra- 
ça não fó nos dà o nomejfe- 
não o fer do que o nome 
fignifica , que difFerente- 
mente eílimariâo em fy,& 
reverenciarião nos outros 
efte nafcimento infinita- 
mente mais que Real! Sc 
nafcer de Felippe em Hef- 
panhajOudeLuisem Fra- 
ca , ou de Ferdmandoem 
Alemanha,fetemcom ra- 
zão pela maior fortuna j 
qual fera a daquelles, dos 
quaesfedizcom verdade: 
Non exfangumibíiSy fed ex .^^ 
^eonatifunt^ Os outros i «s- • 
nafcimentos eílimãofepe- 
lofangue, o dosíilhos de 
Deos por não fangue. Mas 
a caufa de os homens nam 
fazerê deíle altiíllmo naf- 
cimento a eílimação que 
mercccjhejporque naó co- 
nhecem a Deos. Se não co- 
nhecem o Pay 5 como hão 
deeíHmarosíilhos.^ Aílini 
o poaderou com profun- 
diílimo peníiimento o E- 
vangeliftaS. Joaó : Vídete^]oi% 
qualcm charitatem dedit no^ ^ ' • 



NojJ^ã Scyih o ra da Graça. Í7'S 

bis Tater^ utfilij t>ei nomi- naó diz aíllm, fenão que O 



nemítr^&Jtmus.Tropter hoc 
mundus 710)1 novitnos^ quia 
nonno^vit eiim. Vede o que 
chegou a nos dar a immen- 
fa caridade do eterno Pa- 
dre, hum dom táo excel- 
lenteyíScrobre humano, & 
hum foro táo chegado a 
fua própria divindadcjque 
naó fó nos chamemos fi- 
lhos de Deos^mas que ver- 
dadeiramente o fejamos. 
E fe o mundo não eftima 
como devia aos que fomos 
filhos defte Pay,he5porque 
o não conhece a elle: -Pr í>/- 
ter hoc mundus non novit 
nosyquia non novit eum.Qo^ 
moíediííera a Águia dos 
EvangeUftas : Eu foudef- 
prezado, porque o mundo 
conhece o Zebedeo de 
quem fou filho por natu- 
reza,&não me eftima co^ 
mo devéra,porque não co- 
nhece a Deos,de quem fou 
filho por graça. 

34.4. Notai o que diz, 
& não diz S Joaô. Parece 



mudo não nos eftima,por- 
que não conhece a Deos, 
de quê fomos filhos : Trop- 
ter hoc mundus non novit 
nos, quia non novit eum. De 
íbrte,que porque o munda 
nos não conhece por filhos* 
de Deos, fe fegue que nani' 
conhece a Deos ? Sim. E a 
razão he^ porque prefume, 
& faz conceito de Deos,; 
não como de Deos j fenáQí 
como de homem. O ho'-> 
mê fóprefilha, & faz^her-^ 
deiro ao íervojquandõ náo{ 
tem filho próprio. Aílim;^ 
áií^Q Abraham a Deos,que 
fuppofto não ter filho/ería 
feu herdeiro Eliezer íeu 
fervo : Ego v adam abf que 
liberis : & Eliezer vernacu-.Pl''''^^; 
lus meus yh ares meus erit. E ^ ^ 
depois que Deos deoa Ar^^ 
braham hum filho , que foi:;- 
Ifaac, difie Sara fua mu- 
lher, que lançaífe fora a If- 
mael filho da efcrava,pórc 



òi t 



que não ha via de fer hér-ii' 
deiro com feu filho .' Ejice^ 
que havia de dizer, que o ancillam^ò' jilium ejusy nàn ^l^f* 
mudo não nos eftima, por- enim erit bares fiítus ancil^^ 
que não conhece que fo- la cum filio meo Ifaac Iftoí 
mos filhos de Deos : mas he o que fazem os homês , 

(Aa iiij &o 



Roman 
8 i6. 



37^ 

& o mefmo prefume 
cuida de Deos quem o não 
conhece : ^ma non noxtt 
eum. Como Deos tem íilho 
próprio 5 & natural, igual 
em tudo a fy mefmo, 8c nòs 
os homens fomos fervos, 
cuida o mundo ignorante, 
que naó havia de fazer 
Deos aos fervos herdeiros 
com o filho. Mas he tanto 
pelo contrario, que para 
que os fervos foíTem her- 
deiros com o filho , fendo 
fervos por natureza,os fez 
primeiro filhos por graça. 
ExpreíTamente S. Paulo; 
Ipfe enirn fpirltiis teftimo- 
niumreddit fpirtttú nojiroy 
quodfumusfilij ^et. Si fu» 
temfilij^ é^haredes : h cre- 
des quidem T^eiy coháredes 
éLutem Chriííi : fitamen cÔ- 
Jyatimuryiít & conglorifice- 

34^ Neíla ultima pa- 
lavra conglorificemur , & na 
palavra coháredes declara 
o Apoílolo , que aílim co- 
mo a graça nos faz filhos, 
afiim a gloria nos faz her- 
deiros. Para que nòs ago- 
ra vejamos fe nos havemos 



Sermalde \ 

& ros,que de filhos , & fe ha- 
vemos de eftimar mais a 
herança, ou o naícimento. 
Cà onde os Pays faó ho- 
mens, pôde fuceder,&fu- 
ctáG muitas vezes fer o 
nafcimento tão baixo , 8c 
tão vil,& a herança tão co- 
pioíaj&tão rica,quc fe def- 
preze o nafcimento, & fe 
eftime a herança; mason» 
deoPayhe Deos, tão infi- 
nito na nobreza, como na 
eíTencia, ainda que feja a 
gloria a que nos faz her- 
deiros, claro eítà que fem- 
prc havemos de eíhniar> 
naófó maisjfenaó infinita- 



mente mais , a graça, que 
nos faz filhos. Efie foi o er- 
ro, & o acerco daquelles 
dous filhos do Pay, que re- 
prefentava a Deos , hum 
louco,outrofezudo. O lou- 
co, que era oProdigOjem 
vidadoPay pcdio que lhe 
dèfle afua herança, por- 
que eílimava mais o fer 
herdeiro,que filho: porem 
ofezudo, que era o irmão 
mais;velho, deixoufe ficar 
fempre na cafa do Pay fem 
fallar, nem fe lembrar da 



de prezar mais de herdei- herança, porque tanto me* 

no^ 



Nojfa Senhor a 
nos eftimava a herança, 
que o nafcimentOjComo íe 
fora fó filho,& naó herdei- 
ro. E ifto he o que deve fa- 
zer todo aquelkjque com 
juizo maduro , & inteiro 
comparar a graça, & a glo- 
ria. 

§. VI. 

1^4,6 A Quarta razão 
s' ' Jtlk, deíla preferé- 
cia he taò fútil , & bem ar- 
guida como feu Author. 
Aquillo he melhor ( diz 
Efcoto } cujo oppofto he 
peor : o oppofto da gloria, 
quecófifteem vera Deos, 
he nao ver a Deos : o oppo^ 
Ào da graça , queconfifte 
em amar a Deos , he na6 
amar à Deos : logo me- 
lhor he a graça , que a glo- 
ria , porque peor he na6 
amar a Deos, que he o op- 
pofto da graça , que naó 
ver a Deos,que he o oppo- 
fto da gloria. E que feja 
peor naò amara Deos, que 
naó ver a Deos , he mani- 
íeftoj porque naó querer 
ver a Deosynáo fó pôde fer 
licito, fenão meritório , &c 
q^uerer não amar a Deos^c 



da Gr aça, 577 

não fó he íêmprepeccado, 
& graviílimo peccado , 
masnãohe poílivel moti- 
vojquéofaça tolera veljOu 
licito. 

547 No Teft a meto Ve- 
lho, & Novo temos dous 
famofos exemplos defta 
Theologia nos dous maio- 
res Heroes da caridade, 
Moyfes & Paulo. Determi- 
nado Deos a acabar de húã 
vez com o Povo de Ifrael 
pela idolatria da bezcrrói 
oppoz-fe Moyfes a efta de- 
terminação, que Deos lha 
revelara jdizendo: Aut di- 
mitte eis hanc nexam , aut gxocf, 
Jinonfacis -ideie me de libro P-^i^- 
tuoy quemfcripjifti. Ou vos, 
Senhor, haveis de perdoar 
ao Povo efte peccado , ou 
fenaó fazeis o que vos pe- 
ço,rifGaime do voífo livro. 
Efte livro,GomQ confta de 
muitos^ lugares da Efcritir- 
ra,heolivroem que efta6 
efcritos os que faó prede- 
ftinados para a gloria. Mas 
paremos aqui, & vamos a 
S.Paulo. S.Paulo decla- 
rando o grande ^ntímeii-^ 
to que tinha de ver como' 
os da fua nação naôque- 
ria6 



37^ Sermão de 

mó crer em Chriílo , & fe vem que fe embarcaó para 

precipitaváo obftinada- eftas partes, ou outras po- 

mente a perpetua conde- voadas de Gentios,os Mi- 

nação, diz que por elles niftros Evangélicos , nani 

defejava fazer hum tal fa- fe podem perruadir,fenaó 

crihciode fy mefmoa queostraz,ouleva aellas, 

l>»eos,que Deos o privaífe algum motivo de intercf- 

eternamente da gloria,qiTe fes temporaes. E certo que 

confifte na fua viíla , com para desfazer efte eno-ano 

tantoquc a mefma gloria, bailava a cófideraçáorque 

de que elle fe privava, a fazia hum homem muito 



ouveíTem ç\\tB, de gozar 

crendo em Chriílo Jfto he 

o quequerem dizer aquel- 

las animofas palavras : Op-, 

tabam ego ipfe anathema 

IT"' €e à Chrtfto pro fratribus 

ç .,,. meis^ quijunt cognati mei 

• !■■ fecundum caYnew. E aíllm 

entendem eíleTexto,&: o 



bem entendido, quando fe 
embarcava de Roma para 
os defterros do Ponto Eu- 
xino: Vel quo fefiinas irey 
velundey -vide : Olha donde 
yàs,& para onde. Eífesjcu- 
jos intentos taó groífeira- 
mente julgais, vede donde 
vem,& para onde: & coii- 



de Moyfes S Joaó Chryfo- fiderai '( ainda têmpora, 

ftomo, Theofílado, Ecu- mente) o que làdeixão,& 

meniojRupertOjCaíIiano, oquecàachaõ. Mas a rarl 

Origenes, S.Bernardo, & zaó porq avaliais taó bai- 

^ntre Theologos, & Inter- xamente os rifcos dos ma 



pretes he a fentença mais 
literal,& comum. 

348 Antes porém que 
<perremos efte ponto nam 
quero paíFar em filencio 
hua advertência muito ne- 
ceífaria a eíla nolTa terra. 
Os que fô eftimaó o que fe 



res, as incomodidades das 
terras, & a ellranheza dos 
climas a que expõem ávi- 
da, he,porque não conhe- 
ceis como elles o valor das 
almas. Parecevos que fa- 
zia bem Moyfes,& que fa- 
zia bem S. Paulo cm que- 



vècomos olhos j quando rerem trocar a gloria, & 

bem 



NojJ^a Senhora daGraça. 579 

béaventurãça do Ceo pela de Deos pelo amor do pro- 



falvaçáodas almas de feus 
próximos ? Náo creojq íeja 
táo rude a voíTa fé, que di- 
gais que faziáo mal. Pois 
muito menos he trocar 
Portugal, que o Ceo, 6c 
querer falvar as almas pro- 
priasj& mais as alheas, que 
levar a vera Deos as alheas 
à cufta de o naõ ver por to- 
da a eternidade. E ifto he- 
o que fazia não fó depois 
de Chrifto S. Padlo,fenam; 
antes de Ghrifto Moy fes. 

34.9 Agora pergunto: 
Eíles dous homens taó va* 
lentes,&: táo deliberados^ 
que aílim fe refolviaó a 
náo ver a DéoSrfuppunhaô 
também com o impet05& 
fervor da mefma refolu^ 
çáo, que o naõ haviaó de 
amar ^ Abfit : De nenhu m 
Eiodo. Porque aíHm como 
por hum motivo tão pio, & 
de tanta caridade feria ac- 
ção naó fó licita , mas he- 
róica oíFereceríe a naõ ver 
a Deos ,aíllm feria não íô 
iiiicita, mas Ímpia querer- 
fe expor ao não amar. An- 
tes he certo , que quanto 
mais renuaciavão a vifta 



XI mo , tanto mais fortes 
raizes lança vão no amor 
do mefmo Deos. Ouça- 
mos a eloquência deChry- 
foftomo arguindo nefte 
cafo a S. Paulo : ^uid aisy „ 
^aule-i nonne jam ãixijU\ 835. 
§luis nos feparabit à charu 
t ate Chrifit> Ehtm Paulo, 
naófoisvòs aquelle quejà 
diíTeftes , que nenhúa cou- 
fa vos fe pararia do âmoÊ 
deChrifloi'Náo fois aquel-^ 
leque quereis, que a voíía 
almafe defataíTe do voífo 
corpo, para eítar fempre 
Gomelle.'^ Pois como ago^ 
ra quereis carecer de o go» 
zar,&:verpor toda a eter- 
nidade } Antes por iílb 
mefmo,refponde em nome 
de S.Paulo o mefrpoChry- 
íbíícMnoV Porqiíe] eu amo 
muito a C hrifto , por iílb 
me quero privar deo ver^ 
& gozar, para queemlu-. 
gar de mim , que fou hum^ 
fói,o vejaòy ac gozem vmm 
tos, Scfegundo o/^meude4 
íèjo,o amem^& louvem to^ 
dos : hnh cmia amoChri-i 
ftum^ cupio fifarari á frui< 
tione Chrífiiy Mt^lur.eSy imo 

onh 



380 Sermão de 
omneseum amento & law Ceo, fenáo também quc- 
dent, E quanto foíTe agra- rer antes padecer as penas 
davel a Deos efte exceíTo do Inferno. Ifto não per- 
de caridade , aílim em S. tendeo Moyfes, né S. Pau- 
Paulo,comoem Moyfes, Jo,mashereroluçáo famo- 
poílo que a nenhum delJes fadeS.Anfelmo, &àqual 
aceitou o ofFerecimento , no meímocafo eftà obri- 
íe vio bem nas mercês com gado todo o Chriíláo : Si 
que depois honrou a hum , htnc feccatiptidorem^ ò' il- 
&a outro: fazendo geral- Imccernereminferni horro- 
mente, & para com todos remy& neceffarto uniillorú 
tal difí^erença entre a fua haberêimmergi^prmsmem 
graça,& a fua gloria j que a inferna immergtrem , quàm 
quem^ naó quer a fua gra- peccatum in me aamittercm. 



An fel. 
Hb. de 
-'■imilin 
cap 1^0. 



ça,caftiga-o com oprivar 
da gloria, & a quem por fe- 
melhante motivo náo qui- 
zer a fua gloria, premia- o 
com lhe aumentar a graça. 



í. VIL 



35-0 



MUi dilatada 
coufa feria , 
fe ouvefíemos de ponderar 
comoatègoraas outras ra- 
zoens deíía differéça ; mas 
porque naòhe bem , que 
totalmente fiquem em li- 
lencio , de corrida as irei 



Se de húa parte,diz Anfel 
mojfe me puzeíTeo pec- 
cado,& da outra o Inferno 
com todo o feu horror: & 
me foíTe neceíTario efco- 
Iherhumdosdous , antes 
me havia de lançar logo no 
Inferno, que admitir em 
mim o peccado. Mais: E fe 
folie poílivel (^como de po- 
tencia abfolura não repug- 
na 3 ver hum home a Deos 
no Ceo eftando em pecca 
do : qual feria no tal caio 
maisditoíò, eíle homem, 
ou Anfelmo?Náo hadu- 



Salar 
Tsner. 

Ov.eJ. 
Aniajj. 



apontando. Seja a quinta, vida,queAnfelmo.Porque 
que por confervar a graça Anlclmo no Inferno con- 
náo fò he licito , ôc louva- fervava agraça,ainda que 
vel renunciar a gloria do padecia as penas dos con- 

dcnados. 



Noifa Senhora da Graça. ^'Sl;. 

denados, &:o outro no Ceo graça, nao fó mora Deos 



poíloque via a Deos, em 
que confiíle a gloria dos 
Bemavêturados, naó cita- 
va em graça. 

3fi Maisaindaj&naó 
fuppondo cafos extraordi- 
nários, fenaó o que de fa- 
£to eílá fempre obrando 
Deos no Ceo , & na terra. 
No Ceo fempre Deos eílà; 
comunicando a fua viíta, 
aos que depois da morte 
íaó dignos da gloria; & na 
terra fempre eííà comuni- 
cando a fua graça aos vi- 
vos , que fe difpoem para 
ella. E porque modo , ou 
com que diíferença de au- 
thoridade3& honra comu- 
nica Deos a huns, & outros 
a fua viíla, & a fua graça ^ 
Bemditafeja a divina Bó- 
dadejuuncanas demoílra- 
çoens mais divina í Aquel- 
íesa quem comunica a fua 
gloria, leva-os ao Ceo , & 
dalhes lugar na fua Corte : 
porém aquelles a quem co- 
munica a fua graça , vem 
elleem peílbaadarlha, & 
fallos morada fua. Se hi- 
mos ao Ceo,moramos com 
Deos, masfe eítamos em 



comnofco^, fenaò em nòs. 
E para que em nada feja 
menor eíla aíHftencia pef- 
foal de Deos em nòsjque a 
vifta do mefmo Deos nos 
queeftaó na gloria j con- 
cordaó os Theologos, que 
para fer verdadeiramente 
bemaventurado o que vè a 
Deos, não baila fó ver ao 
Padre, ou ao Filho, ou ao 
Efpirito Santo j mas he ne- 
ceíTario ver todas as três 
PeíToas divinas 5 porque fó 
deílemodo he vera Deos 
como elle he : Tunc 'videbí- , joan. 
museumficutieft. Pois af- í-^. 
íim como no Ceo osBem^ 
aventurados da viíla , nam 
fóvêhúa peílba da Trin- 
dade, íènaó todas tresj af- 
fim na terra os Bemaven- 
turados da graça naó fó 
tem dentro em fy o Padre, 
ou o FilhojOu Efpirito Sã- 
to, fenaó todo Deos trino , 
& hú em todas as peíToas. 
E ifto com tanta diíferen- 
ça,& ventagem,quanta vai 
deobjeílo a morador. He 
texto expreíFo do mefma- 
Chrifto: Siquisdilmt me^ J^^^^* 
JermonemmeumJervamh& 
' ãd. 



3^ .- Sermão de 

ài eum njéhiemus^ ér ma^ijío- diamfuam magvam regcne- 

nem apiid ip[um faciemus. ravit nos in harcdítatcm m- 



I. Pctri 
1.3.4. 



Slui diligit me,cis ahi a gra- 
ça : Et ad eum veniemus , 
eis ahi as três peíToas divi- 
nas : Et manjionem apudip- 
fumfaciemusy eis ahi a mo- 
rada perpetua 5 & aíTiften- 
cia permanente. 

35 2 Mais outra vezj 
poílo que depois do que 
acabamos de dizer, pareça 
que não pode haver mais. 
E a razaó deíla nova diffc- 
rença, ou ventagem he: 
que a gloria que havemos 
de gozar no Ceo pela vi- 
íla, já apoíTuimos na terra 
pela graça. Efcrevendo o 
ApoftoIoS. Pedro aos no- 
vos Chriílãos do Ponto, 
Galacia, Capadócia, Afia, 
& Bithinia , aonde fendo 
Summo Pontiíice,& Vigá- 
rio de Chrifto, tinha ido 
pregara Fè[ para que ve- 
jais outra vez, qúam alto 
miniílerio he o da conver- 
íaó dos Gentios, taó pouco 
conhecido da gente rude} 
diz eftas notáveis pala- 
vras : BenedíãíisT>eus Ta^ 
ter domint noftrí Icfu Chri- 



corriiptibilem^ Ò' inconta' 
minatãy é^ immarcejcibilê^ 
confervatam in Cífiis in lo- 
bis. Quer dizer : Bem dito 
feja Deos,Pay de noíTo Se- 
nhor Jefu Chri ílo , o qual 
pela graça do bautifmo 
nos gerou fegunda vez pa- 
ra a gloria incorruptivel, 
&perpetua,que eílà guar- 
dada no Ceo, & em nòs. 
Neflasduas ultimas pala* 
vras,no Ceo,&em nos, />i 
C alisto- in i;í?^/i-,e íià o rna- 
ravilhofo deíla fentença. 
Que a gloria eíleja guar- 
dada no Ceo , bem fe enre- 
de 3 porque o Ceo heo lu- 
gar da gloria, 8c no Ceo he 
que a havemos de gozar 5 
masfeaquelles com quem 
fallava S.Pedro eílavaó na 
terra, como nòs eílamos; 
porque lhe diz que eíía 
mefma gloria não fó eílà 
guardada no Ceo, fenam 
nelles mefmos, & em nòs : 
Ser-vatam in C^lis^ò' in uo^ 
bis^ Porque acabava de 
lhes lembrar, que eílavaó 
gerados fegunda vez pela 
fiiyquifecundtim mifericor- gradado bautifmo, como 

nò$ 



KoJTa Senhora 
nos eftamos: & eíla mefma 
gloria , que depois have- 
mos de gozar no Ceo pela 
viíla,jà agora apoílliimos 
na terra pela graça. De for- 
te, que o Chriílão que eftà 
em graça, quando vai ao 
Ceo, naó fó leva o direito 
•para a gloria comíigo, íe- 
não a poíTe da mefma glo- 
ria em fy. Por iífo não diz, 
qeftà guardada para nòs, 
fenãoemnòs, mC^Us, & 
invohis. Veja agora cada 
humfeefcolheria antes a 
poíTe do bem,ou prefente , 
ou futura,ou dentro em fy, 
ou fora. 



§. viir. 



3f3 



M Ais ainda. Diz 
S JoaÓ Chry- 
foftomo , que alíim como 
não havemos de temer o 
Inferno por horror das pe- 
hasjfenãopor ter ofFendi- 
doaDeos,& perdido fua 
graça : aílim naó havemos 
dedefejar o Cep, princi- 
palmente por amor da glo^ 
ria , fenão por gozar da 
mefma graça, éc amar ao 
mefmQDeos eternaméte; 



da Graça. ^ g-^ 

Utgehennãm timere nonde- 
bemus propter ignem ^Jed ç;^ 
■ qtáa offèndimus tam bonum íoft-ho- 
' Tíominum^ & ah íllrnsgra- Tx^qI}' 
tiafiimus alieni : ita adreg- "^^• 
numnobis fejiinandú prop- 
ter amarem in iUum , út ejus 
gratiafntamur. De manei- 
ra que o ámor,& defejo bê 
ordenado da gloria,naò ha 
de fer por amor da gloria , 
fenão por amor da graça. 
He erro em q cahio Moy- 
íç:s^ mas de que logo fç 
emendou no mefmo aóbo 
com admirável retradta- 
çaó de palavras. Tinha 
Deos dito a Moyfes , que 
eílava em fua graça .• Inve- exoí 
nifU gr at iam coram me, E^>*^° 
fobre eíla fuppolição de '^" 
eftaremfua graça , inílou 
Moyfes dizendo : Si ergo 
invenigratiam in confpeêlu 
tiio , oft^nde mihi facien% 
tuam^utfciam í/, & inve- 
niam gratiam ante óculos 
tuos. Pois Senhor, fe jà ef- 
tou em voíTa graça, conce- 
deime a viíla de voffo ro- 
íl:õ,paraque efteja emvof- 
fa graça.Quem haverà,que 
não veja,6c note neftas pa- 
lavras como Moyfes no 



^84^ Sermão de 

mefmo a£to de as pronun- jo querer a graça para go- 
zar a gloria > muito melhor 
derejojSc muito mais alto 
penfamento he defejar a 



ciar trocoua ordem com 
que as começou a dizer, & 
com que acabou. Quando 



começou, ordenou a graça gloriajpor fegurara graça, 

de Deo1^ para a vifta de O primeiro fez Moyfes c6 

Deos : Si invenigratiam in menos coníideraçáo , quã- 

confpecfu tiio^ oftende mihi ^ do diíle : Si invcntgratiain 



faciem tuaín-, &cquádo aea 
boujordenou á meíma vi- 
ílade Deos, para a mefma 
graça de Deos : Oftende mi' 
hi faciem tmm^ ut invenia 
gratiam ante qcuIos tuos. 
Pois a mefma: graça nas 
primeiras palavras he me- 
yo para alcançar aviíla de 
Deosj&logoa mefma vi- 
fta de Deos nas fegunda^ 
paIav.rasliemeyo para ai* 
caçar a mefrmâ graça ? Sim: 
porque aílim. emendou 
Moyfes,&: melhorou o feu 
defejo. Ordenar- a graça 
para a glòriajôc fazer a glo- 
ria fim da graçajbom defe*- 
jo hej mas ordenar a gloria 
para a graça, 6c fazer a gr.ar 
^a fim da gloria , I;e muito 



in confpeãu tiio^osfende mi- 
hi faciem tuam : 6c o fegun- 
do com muito mais fino,ôc 
prudente juizo , dizendo.* 
Oftende mihi faciem tuam^ 
ut inveniam gràtiam ante 
óculos tuos. 

3 f4, Finalmente,feja a 
ultima razaó de efcolher 
antes a graça, que a gloria, 
a eíleril idade da mefma 
gloria, 6r a fecundidade da 
mefma graça A gloria no 
Ceo he liúa felicidadegrá- 
<ie,mas felicidadcque não 
crece, porque hiia gloria 
náx) cauia outra gloria^ po- 
rém a graça na terra he hu- 
■ma felicidade jou húabé- 
avcnturança , que femprc 
crece, porque fempre húa 



melhor defeJD> Porque ■? graça ellà produzindo ou- 
Porque a graça antes da tra graça. Depois que o E 



gloria eftà perigofa , 6c der 
pois da gloria cílà fegura. 
E poílo que he bom deíe- 



vangelilia S.João declarou 

a gloria de Chriílo pela fu- 

pcrabundácia de graça de 

q^up 



cann 
.14. 



Noffa Senhor 
quôeílavacheo : P^idimus 
gloriam ejus quafi unigeniti 
àTatre^pknum gratiíS , & 
veritatis^ áit que defta en- 
chente, coíiio de fonte pe- 
renne recebemos todos a 
graça, & não húa *fó graça , 
íenáo húa fobre outra íem- 
premais,&mais : qiieiílb 
quer dizer '.^eplenitudim 
ejíis omnes accipimns gra^ 
^^çjiampro gratia. Onde fe 
deve muito notar, que tê- 
do fallado na gloria,& gra- 
ça de Chrifto jfóda graça 
diz, que recebemos graça 
por graça , & graça fobre 
graça,6cda gloria nãojpor- 
que noCeonaõ dáDeos 
gloria por gloria,ou huma 
gloria fobre outra. Efte 
privilegio, & efta preroga- 
tiva he fô da graça. £ 
quamfuperior feja porií^ 
fo mefmo à gloria do Ceo, 
cm nenhum outro dos que 
muito crecéraó na graçajO 
podemos ver melhor, que 
no mefmo S. Joaó, Vio S. 
)ca- Joaó no feu Apocalypfe a 
^4«7Deos aífentadoem trono 
de Mageílade, &que o af- 
fiftiaóem roda do trono 
quatro animaes myíterio* 
Tom.;. 



'ã da Graça. 3 8 f 

fos todos cheos de olhos, o 
primeiro femelhante a 
Leão, o fegúdo a Bezerro , 
o terceiro a Homem , o 
quarcoa Águia. Ninguent 
ignora que neftes quatro 
animaes eraó reprefcnta- 
dos os quatro Evangeli- 
ítas,S. Marcos noLeáo,S. 
Lucas no Bezerro, S. Ma- 
theus no Homem, S. Joa6 
na Águia > & todos cheos 
de oVciQS^mte^iò' retroy por - 
que todos na parte poíle- 
Tior tinhaô as noticias da 
divindade, & na anterior 
as da humanidade deChrí- 
fto, de quem efcrevéraõ. 
Vindo pois a S-Joaôídalhc 
o Texto o quarto lugar, & 
dizquefóeile voava : Eú 
quarttifn animalfimtle aquí^ 
líevolanti. FoisfeS. Joaó 
entre todos os Evangeli- 
ílas foi o que mais altamé- 
teefcreveo, porque fe lhe 
dà o ultimo lugar • Ôc fe to- 
dos os outros animaes ti- 
nhaô azas i porque fe áiz , 
que fó elle voava .? Primei- 
ramente dáfe a S. Joaó a 
ultimo lugar , porque eíle 
efcreveo depois dos ou- 
tros Evangelizas , ac não 
Hb me-» 



i 



Sermão de 
annos 




W^ 



§. IX. 



ss 



ATèqui temos 
vido as ra» 
zoens porque comparada 
a gloria com a graça, íe de- 



38^ 

menos qiic trinta 
depois , havendo outros 
tantos que S. Matheus, S. 
MarcoSjSc S. Lucas eraó jà 
morros. Mas daqui mefmo 
fe acrecenta mais a fegun- 

daduvida • porque fe os „^ o- 3 - 

outros três Evangelizas veefcolher antes a graça, 
eííaváo jà no Ceo vendo que a gloria. E fe alguém 
a Deos, como voava ellefó cuidar, que naó falíamos 
eílandona terra > PoriíTo atègora no que principal- 
mefmo. Porque os outros mente devíamos fallar , 
eflavão gozando na gloria,, quehea Virgem Senhora 
dóde fenão fobe, & b.Joaó nofla da Graça , cuja feíla 
eftava merecendo na gra- celebramos •, digo,qo que 
ça,onde fempre ^c crece. atègora diíTe, aflim coma 
Eu vos prometo , diz S. foraóprerogativas dagra- 
Bernardo,qfeDeos défie ça,aílimforaòexccllencias 
licença aos Bemaventura- da Senhora debaixo do 

mefmotitulo. S. Thomás 
com feu Mellre Alberto 
Magno diftinguem na gra- 
ça Al Virgem Maria três 

^,,^ ^^,...... eltadosdeperfeiçáoiopri- 

gloria,pai a depois voarem meirodcfde o principio de 
à mefma gloria mais cheos fua Conceição, a que cha- 
degraça; logofeaefcolha mão de fuíliciencia : o fe- 
fefarianoCeOjOndcrcnaó guadodefdc o pontoem 
pôde fazer, porque fcnao que conccbeo o Verbo 
fará na terra ? Em S. Joa6 eterno, a que chamaó de 
naó foi clciçaô fua : mas he abundância: o terceiro por 
certo, que ellc foi o mais todo o tempo da vida atè 
amado, & quando os me- a morte, a que chamáodc 
nos amados viao, cllc voa- exccUciicia fingular. Por 
va. to- 



dos, que o eíláo vendo no 
Cco,para virem à terra a 
merecer,Sccrecer a maior 
graça,que todos aceitariaó 
eíle partido deixando a 



Noffa Senho i 
todas as Vazoens pois que 
referimos , muito melhor, 
&mais altamente enten- 
didas, comparandofe a Se- 
jihora comfigo mefma, co- 
mo aquella lingulariílima 
alma, que fobre todas as 
criaturas amou,& foi ama- 
da de Deos, também nam 
pode deixar de eftimar 
mais a graça, que a gloria , 
pois no mefmo amor reci- 
proco coníifte a graça. Eí^ 
timou mais a graça, que a 
gloria, não por aíTegurar 
no Ceo a mefma graça,em 
que fora confirmada defdc 
o inítante de fua Concei- 
ção , mas por aumentar 
mais, & mais o amor , que 
là fe iguala com a vifta por 
toda a eternidade. Bata- 
lhava no coração daMáy 
deDeos o mefmo amor,por 
húa parte com odefejo de 
mais depreíTa o ver, & por 
outra com a razaó de mais 
oamar eternamente , & 
porque eíle motivo foi o 
vencedor , poriílbefco- 
Iheo como melhor parte a 
da graça: Maria optimam 
j.<artemelegit. 
I j6 Naquellaspalavras> 



' a da Gr aça. 387 

Indica mihiyfiení diligít^^l 
anima mea^ ubi pafcas , ubi 
cubes in meridie : manife- 
fíou o amor da Senhora 
quáto defejava ver a Deos 
no meyo dia da gloria : & a 
repoftafoi, q mais convi* 
nha porenta6,quena au* 
fcncia de feu Filho fícaífe 
apafcentando o feu reba- 
nho: Abifoft 'veftigiagre-^^-^A,^ 
gum tuorum&pafce hados 
tuosjuxta tabernuctíla pa- 
fórum. Aílim o fez a Sc* 
nhora, fendo dalli por di- 
ante o oráculo de toda a 
Igreja, &: Meftra dosmef- 
mos Apoftoios, naõfó em 
Jerufaiem,& na Judéa,mas 
peregrinando a outras par- 
tes do mundo. Durou, nao 
digo eíle defterro da glo- 
ria, mas efta aufencia de 
feu Filho, não menos que 
vinte & quatro annos de- 
pois que elle tinha fubido 
ao Ceojcomo prova oCar- 
deal Baronio , fundado 
no teftemunho irrefraga- 
velde S. Dionyfio Areo- 
pagita : até que finalmen- 
te em tal dia j como hoje, 
foi chamada a bemditiíli- 
ma JMãy a receber da mão 
_Bbij de 



A^S 



Sermão de 




Cant 
4.8. 



\im 






defeuFilho 5 & gozar por 
toda a eternidade a coroa 
immenfada gloria, que ti- 
nha merecido a fua graça. 
JE digo que foi chamada-, 
porque aílim o declaraõas 
vozes de toda a Santiílima 
Trindadejnão em comum, 
masdiílintamente repeti- 
das por cada hua das divi- 
nas PeíToas : Vtnt jfonfa 
mea^vemcie Libano^vemco- 
ronaberis, O Padre diíTcj 
/^w/,' chamado- a como Fi- 
IhajO Filho diírej^;2ijcha- 
mandoa como MãyjO Ef- 
pirico Santo diíie>^//j 
chamando-a comoEfpofa. 
Mas fe toda a Santiílima 
TrindadCí&cadahCia das 
divinas Peílbas poríy, & 
portão particulares moti* 
vosdeíejava vera Virgem 
Mariano trono da gloria , 
c^nde também como Filha 
viíle o Padre, como Mãy o 
Filho, & como Eípofa o 
EfpiritoSanto: Sca mefma 
Senhora fufpirava por eíle 
dia com tão ardentes defe- 
jos, &: violentiílimas fau- 
dadesjquc cilas, ôc o amor 
lhe romperão os laços da 
yida,&: lhe delatarão a al- 



ma j como as mefmasPer- 
íbas divinas , que podem 
quãto querem, não íóper- 
mittírao , mas quizeraó, 
queamefma Alma fantif- 
fimacontinuaíTeneíle mu- 
do privada do Ceo, & da 
gloria , & padeceíTe feu 
amor efte largo martyrio 
por tantos annos ? Aqui 
vereis, quam verdadeira 
hc a doutrina de todo o 
no ílb difcurfo, & a* razoes 
delle. AíTentou no Confi- 
ílorioda Santiílima Trin- 
dade o Padre,que a fua Fi- 
lha,o Filho,que a íua Mãy, 
^o Efpirito Santo, que a 
ília Efpoíli íe lhe dilataíle a 
vidadeDcos, 6c a gloria 
por cfpaço de vinte 6c qua- 
tro annos, para que em to- 
do eíle tempo mereceíTe 
m ai Sí 6c m ais, & creceíTena 
graça •, porque computa- 
dos tantos annos de gloria 
com outros tantos de gra- 
ça, não fó por eleição da 
mefma Senhora, fenaó por 
decreto de todas as Peílbas 
divinas lhe convinha, ^ 
importava mais o crecer 
na graça, que o gozar a glo- 
ria. Vt c HW H lar es merita^ 
ejus 



Pct. Da- 

miau. 

'cimda 

A(>i"ipr. 

Vug. 



Noffa Senhora da Graça, 5 89 

ejus ajjítmptionem ad glo- Santos dizem o mefmo c5 



riam tamdiu dtjtuhfii ,- 
S.Pedro Damiaó. 

í. X. 



1^ K As quem po« 



diz termos naó de menor ex- 
preílaó,masde mais pro- 
funda intelligencia , que 
por iílb naó repico. Só qui- 
zera, que todos os que me 
ouvis foífeis Theologos , 
para a demoílraçaò dos 
aumentos de graça, a que a 
Senhora creceo neíles últi- 
mos annos de fua ia n ti fil- 
ma vida. Procurarei po- 



' "dera declarar 
quaes foraó os aumentos 
de graça com que a Virgê 
Maria (^ em todo efl:e tem- 
po mais propriamente Se- 
nhora da Graça ^ acumu- rèm de os reduzir às regras 
lou, húa íbbre outra , as de outra ciência mais vul- 



immeníidades da fua .? S. 
Epiphanio diífe : Gratia 
Saneie Vir gtnis eft immen^ 
Dm. dcT^ • S.Boaventura : /^w^»- 



gar5& maispra£l:ica5pela 
qual jà que nenhum enten- 
dimento humano pode 
comprender efta immen- 



.audib. pi certefuit gratia qua iffa fi dade^ ao m enos de ai gu m 

^om^. fiiit plena \ Sc S. Aníehno; modo a poílamos todos 

ui?^' ^^damplííís dicere pofiíl) 

íap f . T>omina^ immsnfitatè quip* 

\f^^'pegrati£y &gloriíe^ érjeli- le modo de conta, que vul 

:ellenr. 
^P3- 



conjedurar. 
358 Todos fabeis aquel- 



citatis tii£ confiãerare inci' 
fienti & fenfus deficit , ò" 
linguafatifcit. Eltes San- 
tos com palavras claras, & 
expreffas apregoaó por 
immenfa a graça da Virgê 
Maria .'ÔcS. JoaóDamaf- 
ceno, S Jeronymo^ S. E- 
frem, S.Bernardo, S Jgna- 
cio MartyrjS.Pedro V ero- 
nenfe , & /^uaíl todos os 
Tom. 7. 



garmentefe chama ao ga- 
larim, em que tudo oque 
fepoíTue , & precede em 
hum numero, fe dobra no 
feguinte. Suppondo pois 
cò a mais aíTentada Theo- 
logia C em que ella naó eí lá 
pouco obrigada ao doun í- .suar. * 
limo Soares de nolfa Com- tom. 2: 
panhia '} que os ados do aiip^íg. 
amoriôc caridade da Virgé '^^^-^i 
Bb iij fan- 



•■ 




mm 



390 Sermão de 

fanciíllma, os quaes todos quinhentos 8c doze* no de- 
cr:ió perfeitiílimos , con- cimo, mil & vintC & qua- 
tro. De forte, que em dez 
quartos de hoia , 6c com 
dez a£bos de caridade me- 
receo a Senhora , Ã: creceo 
a mil & vinte quatro gráos 
degraça. Agora faça cada 



dignamente mereciao ou- 
tro tanto aumento degra- 
ça, qual era o que tinhaó 
emfy,5tporiíro huns fo 
bre outros fempre mais, ôc 
mais hiaó dobrado a mef-^ 



ma graça i façamos agora humdevagaremfuacafaa 

a conta aos gráos de graça, conta que refta em todos 

4 a :'enhora podia acqui- os quartos de hora de hum 

rirem hum fó dia, & para dia, que faó noventa 6c 

que a conta proceda com féis, porque ainda que fe- 

toda a clareza, naó prefup- gundo a forçofa ley da hu- 

ponhamosnaalmadamef- manidads alguns quartos 

ma \' irgem mais que hum da noite occupaíle o bre- 

gráo de graça, nem coníi- viiUmo fono os fentidos 



cleremos que fazia cm 
cada quarto de hora mais 
que hum aâ:o de caridade, 
lílo poílo,no primeiro 
quarto de hora,& pelo pri- 
meiro afio de caridade, 
dobrou a Senhora o mere- 
cimento , & mercceo dous 
gráos de graçi : no fegun- 
do quarto mercceo qua- 
tro ; no terceiro , oito ; no 
qu irto, dczafeis : no quin- 
to, trinta 6c dous : no fcx- 
to, feífenta& quatro: no 
fctimo, cento ^Sc vinte oi- 
to : no oitavo, duzentos & 
5;incoeata <k fcis ,; no wono, 



exteriores da Virgem, eíTe 
fono naó interrompia as 
acçoens da alma, que fem- 
pre vigiava,amava , & me- 
recia; Ego dormia y& cor ^^^^^^ 
meumvigtíat. Mas porque a. 
entretanto naó íique cor- 
tado o íio, Sc íliíbenfa a de- 
moftraçaòdanoífa conta, 
eu a refu mirei breviíFima- 
mente, repetindo fò as fo- 
mas de dez em dez quar- 
tos. 

Nos vinte quartos de 

hora daquclle dia tinhao 

crccido os gráos da graça 

da Senhora a numero de 

qui- 



Nopi Senhora da Cr aça', g 9 1 

quinhccos & vinte & qua- quatro contos, fetecentos 



tro mil & duzêtos & oi te- 
ta & oito. Em trinta,a qui- 
nhentos & trinta Sc íetc 
contos,quínhentos fetenta 
6ç quatro mil nove cen- 
tos 5c doze. Em quarenta, 
a mil 6c trezentos Ôc feten- 
ta & féis milhoens , fetenta 
& fcis contos í fetccento§ 
& trinta & cinco mil qua^ 
trocentos ^ oitenta 6c oi- 
to. Em cincoenta , a hum 
conto quatrocentos 6c no- 
ve mil duzentos 6c vinte 
niilhocnS) cento 6c fetenta 
6c fete contos , fetecentos 
6c fetenta 6c nove mil fete- 
centos ^ doze. Em ítÇd^n" 
ta, a três milhoens de mi- 
lhoens, duzentos U, onze 
contos , quarenta ^ hum 
mil fetecentos 6c trinta & 
cinco milhoens,6c quarcn-' 
ta 6c féis contos quatrocé- 
tos 6c trinta 6c fete mil 6c 
oitocentos 6c oitenta 6c oi- 
to. Em fetenta , a fete mil 



6c noventa 6c quatro mil 
feiscentos6cvinte 6c qua- 
tro. E m oiten ta,a féis con- 
tos trezentos 6c oitenta èc 
cinco mii quatrocentos ^ 
vinte 6c dous milhoens de 
milhoens, Be cento 6c no- 
venta 6c féis contos oito- 
centos 6c oitenta &dous 
mil&: cento 6c oitenta 6c 
oitomilhoens,cento èc fe- 
te contos, Sc cento trinta 
6c quatro mil 6c novecen- 
tos & fetenta Sc {^is. Em 
noventa 6c féis finalmente,' 
fazafoma de quatrocen- 
tos 6c treze mil , quatrocê- 
cos Sc fetenta Sc cinco con- 
tos , quarenta Sc oito mil 
quatrocentos 6c quarenta 
6c nove milhoens de mi- 
IhoenSi feiscentos Sc feten- 
ta 6c hum contos , noventa 
mil milhoen$,6c trezentos 
6c noventa 6c fete contos, 
fetecentos Sc oitenta 6c fe- 
te mil céto 6c trinta 6c kiSy 



&duzétos 6c vinte 6cqua- que he o ultimo quarto de 
tromilhoensde milhoens, horadehum dianatural. 



duzentos & treze contos , 
quatrocentos fetéta 6c três 
mil quinhentos Sc dezafe- 
te milhoenSj& trezentos & 



35^ Demoftrada efia 
immeníidade de graça 
acquirida peia Virgem Se- 
nhora noííà em hú fó dia , 
Bbiiii cui-^ 




m 



392 Sermão de 

cuidareis fem duvida to- ceição tinha acquírídoem 



dos, & eftareisefperando, 
queeu tire por confequen- 
cia as immenfidades da 



trinta & quatro annos da 
vidadeíeu Filho , & qua- 
renta & oito da fua. Sup- 



mefma graça, a que a mef- puz em fegundo lugar, que 
ma Senhora creceria no ' * ' 

compridiílimo efpaço de 
tantos dias, mezes, & an- 
nos, quantos fe contarão 
defde a Afcenção de feu 
Filho atè a fua gloriofa 
AíTumpção. Mas nao di- 
go, nem direi tal coufa; 
porque feria diminuir, de 
apoucar muito , & Bizer 
grande aggravo à mefma 



em cada quarto de hora 
fazia a Senhora fomente 
humaíto de caridade, & 
amordeDeos, fendo efl:cs 
adbos tantos, quantas eram 
as refpiraçoens da mefma 
Senhora , cuja memoria, 
entendímcntojéc vontade, 
nem por hum momento fe 
divertia da attenriíllma 
contemplação do divino 



graça. As duasfuppoíiçoés objedbo, com que fua alma 
que fiz na conta defte dia, iníeparavel mente eftava 



foraó fó ordenadas à clare 
za,& evidencia da mefma 
cota, & fingidas como por 
exemplo com dous defei- 
tos contrários à manifefta 
evidencia da verdadeira 
fuppofiçaó.Suppuz q a Se- 
nhora no primeiro quarto 
daquelle dia tiveíTc hum 
fógráode graça , & efta 
fuppoíiçaô íbi (ingidajpor- 
que no dia da Afcençaóde 
Chriílo tinha a Senhora 
tão innumeraveís gráos de 
graça, quanta defde o in 



íèmpre unida , amando-o 
de dia,& de noice fem cef- 
far com mais intenfos, & 
efficazes affecios", que os 
Serafins da gloria. Ifro he 
o que entaõ naò fuppuz 
para a clareza da conta, 5c 
o que agora fupponho pa- 
ra a confequencia , &con- 
je£lura da graça, na qual 
como em hum pego , ou 
abifmo fem fundo afoga- 
dos, 6c perdidos todos os 
números da Arichmetica, 
fórcílaao dircurfo,& en- 



llante de lua puriíllma Cp- tcadiméto humano o paf- 



mo 



NoffaSenhoradaGraça. 393 

mo, & à língua o filencio , fi mt^L^quod in ea divina ope- 



& coníiíTaó de que a graça 
deMaria he incomprehen- 
fivel. 

, 35-3 Quê fomente íou- 
be achar paralelo á graça 
da MãydeDeos, foi oau- 
tiquiílimo Aadrès Crecen- 
fe,oquala comparou com 
o inefFavel my ílerio da hu- 
manidade do Filho, a que 
chama inHíiitas vezes infi- 
nitamente infinito. As fuás 



rata ejtgratia tnfih ties tyi- 
finitè. E como a immenía 
grandeza do infinito fó a 
pôde comprehender entê- 
dimento infinito, qual he 
unicamente o de Deos-,por 
iíTo conclue S.Bernardino, 
fa liando da perfeiçam da 
graça da Senhora neíle D.Ber- 
mefmo dia 5 que o conhe- ^^j;^ , 
cimento delia fó eílà refer- deAf- ' 
vado para Deos : Vt foli ^ 'J'|;- 



palavrasfaôeílas;JV^///W, ^20 cogmfcendd referve- 
quõd nosfiiperat^ in eã divi- tur. 



naoperata eft gratia^ nemo 
Andrjas mlretur mttims ad novum , 
Crere '. ^jyieffdhHe quod in eaper- 
de Dar- aVíuM ejt myfteriiimyab omm 
Viíg?"^ Infinitate infinines infimte 
èxemptum. Notemfe mui- 
to eáesnovos, & últimos 
termos 5 ab oníni infimtate 
mfimties infinite Foi o my- 
íleriodeDeos feito home 
infinito fobre toda a infi- 
nidade, exemptum ab omni 
infinitate-^ porque foi infi- 
nito infinitas vezes , infini- 
tiesy Sc infinito infinitamê- 
tc^ijifimtè. Eneíla infini- 
dade, ou infinidades fó fe 
pareceo com elle a graça 
da Mãy infinitamente in- 



^61 Nodiada AíTump- 
çaódefceoomefmo Filho 
de Deos a honrar o triun- 
fo de fua Máy , acompa- 
nhado de toda a Corte do 
Ceo, Anjos, & Santos: os 
quaes admirados diziam; 
^i£ eft jfla^qu£ afcendit de 
defertO:, delkijs ajfluens^m-^ ^ 
nixafuperdtleBumfutim^ 
Quem he efta, que fobe do 
delertOjnaò fó chea, mas 
inundando delicias , fu- 
ílentada do feu amado z' O 
feu amado he o bemdito 
Filho , primeiro motivo 
daquella admiraçao,o qual 
para maior mageftade do- 
triunfo , quiz ellefer em* 
peíToa 



Canr; 



394 Sermão 

peííbaoqiiclevaíTedebra- tanto que apareceo aglo- 



m 



ço a fua Máy. As delicias, 
ou inundação de delicias, 
que juntaraente adrnira- 
vaójéc das quaes naô fó hia 
cheajmas como de fonte 
redundante manavaó , & 
cnçhiaótiido, naô poden- 
do Ter as da gloria para on- 
de começava a fubir 3 eraó 
fem duvida as da graça, 
que na terra,& na vida taô 
immenfaméte tinha acqui- 
rido. Aílim comenta eíle 
lugar o doutiírimoCardeal 
Hailgrino : Affincre mitím 
dicitur grattarum dcUàjSt 
Ó"virtutum\ & innixafu" 
per dileõfuwy ctíjus inniteba» 



riofa triunfante reveílida 
das immenfidades de fua 
graça, maiores na grande- 
za, que todas as delicias, 
que ate entaó fe tinhaõ go- 
zado na gloria,tudo quan- 
to tinha decido do Ceo à 
terra defapareceo à fua vi- 
íla. Excellenteméte S. Pe- 
dro Da miáo : In illa inac- 
ccjjibili Ince perluc€7is , Jic p Pam. 
ntronrmque fpirituum Ije-^^^/^^^ 
betabat dtgnitatem ^ ut (mt Virg, ' 
quajinon jmt y & compara- 
tioiíe tllhis , nec poJJJnt , nec 
debeantapparere. Que Re- 
gião mais povoada (* hc 
cóparaçaô do mefmo San- 



turgrati£. Mas o que eu fo- to ) Que Regiaó mais po 
bretudo admiro nos mef- voada que o Ceo de noite? 



mos admira dores, he, que 
cm tal dia , & em tal con- 
curfo chamem à terra de- 
Cant. 8. ferto : ^laeft ifia , qu£ af- 
í- cendit de deferto ? Se toda a 
Corte do Ceo tinha deci- 
do com o feu Principe à 
terra : Se defpovoado o 
mefmo Ceo, todo naquel- 
lediaeííava junto na terra 
donde começava a mar- 
char o triunfo , como fe 
chama deferto ? Porque 



Tantos Planetas , tantas 
conítellaçoens, tanta mul- 
tidão de Éííreilas maiores, 
& menores fem numero. 
Mas em aparecendo o Sol, 
o m efm o C eo fu b i ta m en- 
te ficou hum deferto, por- 
que tudo à vifra deilc fe fu- 
mioj&defiparcceo, & fó 
elle aparece. O melino fu- 
ccdeo a todas as Gerar- 
chiasdoCconcíledia Por 
grandes, &: iniiunicraveis 
naò 



Nojfa Senhora da Graça. 3 9 f 

naócabiaôna terra, mas com osapplaufos das vo- 

tanro que abalou o triun- zes, com os aíFedbos dos 

fo, & aparecerão os fobe- coraçoens, & com os jubi- 

ranosrciplandorcs dagra- los,& parabéns de toda a 

ça,ouda'ScnhorLida Gra- alma, que Maria em quan- 

ça, tudo o mius deíapare- to Senhora da Graça , ain- 

ceo,6c ficou hum deíerto: da em comparação da fua 

giuége/hfta.qusafcenditde mefma gloria, cfcolheo a 

dtfertú ; porque codas eífas melhor parte : Maria opti-^ 

Gerarchias em iua prefen- mam fartem elegit. 



§. XI. 

^6z T Sto poílo C para 
Xque nos naó falte 



çaeraócomoíenaò fora6> 
ta/mt tmiquãm mnfinv j & 
porque todas em lua com- 
paração, nem podiao, nem 

de viaò aparecer, C'' com" ^ '■. ' 

paratiotie iUiiis^ necpojjtnt^ o fim de taò largo difcurfo, 

nec debeant apparere 5 fó quando o temos acabado^ 

aparcceo, & fó fe fez men- perguntara eu a todos os 

ção do fcú. amado , innixa que me ouvirão > fe fariam 

Cant. Jufer dikã^mjnum^Q^h& eftamefma eleição : fe a 

*'^' nova confirmação deita temfeitoatèagora,ouíea 

mefma verdade j porque determinaó fazer? De nm- 

junta com a graça de Ma- guem creo, fe he Chriílaó, 

ria fó a de feu Filho avulta, & tem fé , que naó faria a 

& aparece -, por ítr graça mefma eleição , cftimando 

de homem Deos, abaixo mais a graça de Deos,que 

do qual, como diz S, An- a mefma gloria, como fez, 

fclmo, nenhúa fe pòdecó- coma maior luz de todas 

íiderar, nem entenderina- asluzesdoEfpirito SantOj 

ior que a de lua Máy: §lua fua fobcrana Efpofa Maria 

maior fub 'D^o necitieat m" Senhora noíTa ; bailando 

telligi. E iílo baile finai- para iífo, quando naó ou- 

mente,para que todos ce- vera tantas razoens, como 

kbremosj & confeAêmos vimos, fer eleição, ^ refo- 



I 



rlKt 



396 Sermão de 

liiçaó fua. E digo, fe he daSanciíTimaTrindadcao 



Chriílaójêc tem féjporque 
o contrario feria não dar 
credito às Efcrituras fa- 
gradaS5que allegamos: naó 
imitar , nem venerar os 
exemplos dos maiores Sá- 
tos de hum5&: 011 tro Tefta- 
mento Moyfes & S. Paulo: 
&: cerrar as portas da pro- 



Padre, ao Filho, & ao Ef- 
pirito Santo. Sò quem naó 
tem fé, como dizia , naó 
tremerá de ouvir , &c ima- 
ginar hum táo horrendo 
lacrilegio. Entaó prezem- 
fe os q lílo fazem de fer de- 
votos da Senhora da Gra- 
caj6c de ter dedicado a fua 



pria cafa a toda a Santiíli- Igreja, 6c poílo a fua pátria 
maTrindade, que em to- debaixo do titulo, & pro- 



dasastres PeíToas , como 
ouviíles da boca do mef- 
mo Chriílo, vé fazer mo- 
rada na alma, que eftà em 
graça. Se quando tresAn- 



tecção da mefma Graça. 
Como a graça coníifte em 
amar , & fer amado de 
Deos, fô quem de todo co- 
ração eílima mais a fua 



jos em figura das tresPeA amifade, que a fua mefma 
foas divinas foraó fer hoA viíia, pôde aífirmar com 



pedes de Abraham, elle 
os náo recebera , & agafa- 
Ihára com tantas demo- 
ílraçoens de cortezia , & 
amor,antes os lançara de 
fua cafa , quem fe naó af- 
fombraria de tal defcome- 
dimento ? Pois o mefmo, 
& muito maior he o que 
fazem a Deos os que nam 
aceitaóa fua graça, ou fe 
defpedem delia, naó dan- 
do com as portas na cara a 
três Anjos , fenaó verda- 
deiramente às trcs Pelfoas 



verdade, que faria a mef- 
ma eleição, que fez a Se- 
nhora da Graça. 

363 MaspaíFandoàfe- 
gunda pergunta , refpon- 
deinie,fe fizeíles efta elei- 
ção atègora.? Ohvalhame 
Deos, que confufaójiSc que 
anguftias feráó as voflãs, 
quando no dia do Juizo fe 
vos fizer eíla meíma per- 
gunta ! O lume da razaó 
natural , fem chegar aos 
preceitos da Ley de Deos^ 
ellà ditando a todo o ho- 
mem, 



Noffa Senhora 
mem, que entre o bem, & 
o mal deve eleger o bem, 
& entre o bom , & o me- 
lhor, eleger o melhor. Ve- 
jamos agora nos voílbspé- 
fa mentos, nas voílàs pala- 
vras, & nas voíTas obras, 
que todas aíli haóde apa- 
recer publicamente, que 
he o que efcolheíles: a gra- 
ça, ou o peccado ? Nos pé- 
íamentoso peccado , nas 
palavras o peccado , nas 
obras o peccado y & íem- 
pre,Ôcemtudo , ou quafi 
tudo o peccado , com per- 
petuo efquecimenta , & 
naó fó efquecimento , mas 
defprezo da graça. E por- 
que.? Nas obras por hum 
appetite irracional, ou por 
hum viliílimo intereíle: 
nas palavras por húa mur- 
muração da vida alhea^ ou 
por hum impeto da ira:nos 
penfamentos por húa re- 
prefentaçaó do defejo vaó, 
& tal vez por húachiméra 
nãofô fingida,mas impof- 
íivel. E he poíIivel,que por 
ifto fe troque , fe venda, & 
fe perca a graça de Deos:6c 
fobretudoj que fentindofe 
tanto outras, que não me-^ 



da Gr aça. 597 

recém nome de perdasjío 
as da graça fenão íintão ! 
Verdadeiramête] , que não 
fei onde eftà a noííà fé, 
nem o noíTo entendimen- 
to ! O que fó fei he, que fe- 
melhante infenfibilidade 
fófeachaem almas, que 
eftão deílinadas para o In- 
ferno , 6c jà nefta vida me- 
recem o ódio de Deos, co- ^^ 
moEfau: Efau autemodio cÍjj. 
habui, Vendeo Efau o feu 
morgado a Jacob por hum 
appetite taó vil,& hum go 
fto taó groíTeiro , & taõ 
breve comofabemos, Ôc 
pondera a Efcritura fagra- 
da, que depois de fazer ef- 
ta venda fe apartou dalli : 
TarvipendenSymàdprimo^ Gere^ 
genita vendidijfet , fem fa« ^^^^ 
zercafo do que tinha fei- 
to, nem pefar o que tinha 
vendido. AíHm acontece 
aos que perdem a graça d$ 
Deos , & muito mais fe t 
vendem por aigúa coufa 
defeugoíl:o.Por qualquer 
outra perda fe enrrijflecé, 
&poreíla,&com efta ra6 
fôraeíláo de le entriíle- 
cer, que antes íealcgraôí 
Latantur cu malefecermt. 



i 






35)8 SermaÕde 

3^4 Aos que atègora tima a ambição humana, 
fizeraótammàj&taóerra- & nenhum pendor faz em 



da eleição como efta, fó 
peço que tomem a balan- 
ça na mão, & pefem o que 
Efau não pefou. Dizeime: 
Quaes faó as coufas neftc 
inundo pelas quaes os ho- 



refpeito de hum fó gráo de 
graça , como também o 
não faria, ainda que Deos 
levantaíTe hum novo Im- 
pério, no qual hum home 
dominaíTe a todos os ho- 



mens coílumão perder, ou mens,&atodos os Anjos, 
vender a graça de Deos ? Finalmente, fobrc as ri- 



Geralmente,diz S. Joaô 
Evangelifta,raó, oudefejo 
de riquezas , ou defejo de 
honras, ou defejo de go- 
ílos, & deleites dos fenti- 
dos. Pondeme agora tudo 
iílo em húa parte da balã- 
ça,& da outra hum fó gráo 
de graça,& vede qual pefa 
mais. Ponde todo o ouro, 
toda a prata,todasaspero- 



quezas, & honras acumu- 
lemfe todos os goftos, to- 
das as delicias , todos os 
prazeres, nao fó quantos fc 
gozáraó, & podem gozar 
nefte mundo , fenaó tam- 
bém os que fe perderão no 
Paraifo Terreal 3 & para 
que vos não admireis de 
que pefe muito mais hum 
gráo de graça , fabei que 



las, & pedras prcciofas, ainda hc mais digno de fe 
que gera o mar , & a terra, appetecer, que tudo quan- 



& hum grào de graça, nam 
fó pefa mais fem nenhúa 
comparação , mas omef- 
mo feria fe toda aterra 
foífe ouro , & todas as pe- 
idras diamantes. Acrccen- 
taimaisà balança todas as 
honras , todas as dignida- 
des, todos os Cetros & 
Coroas, todas as Mitras & 



to gozãOj& quanto hão de 
gozar por toda a eternida- 
de com a viíla clara de 
Deos todos os Bemaven- 
turadosdoCco ; &: fendo 
iíío aílim , pôde haver ma- 
ior locura, que por húa on- 
ça de intereíTc ,por hum 
pontinho de honra ,&:por 
num inítantc de golto per- 



STiaraf ^ ^ tud9 quantQef- der, naó hum fó gráo de 






Nojfa Penhora da Graça. 5 99 

graça de Deos, fenão toda Pois ifto he o que fazeis, 



Píalfti. 



fem o entender, todas as 
vezes q defp rezais a graça 
de Deos. Ouvi ao mefmo 
Chrifto como jà fe queixa- 
va defle defprezo por boca 
do Profeta : Tretíum meum 
deo,erao temporal,queel- cogitaverunt repeUerc.QhQ- €1.^ 
le herdou de feu Pay Ifaac, gáraó os homens a tal ex- 
tremo de cegueira, &mal. 
dade, diz Chrifto, que en* 
tráraó em penfa mento de 
regeitar , Sz defprezar O 
meu preço. Ah Senhor,que 
os mefmos, que crem em 
vòs , & fe chamaó Chri- 
ftãos,não fó chegarão a en- 
trar em taô abominável 
penfamento ■-, mas com os 



a fua graça ? 

365 Mas para q aca- 
bemos depefaro que ain- 
da naó eftà pefado , torne- 
mos ao morgado deEfau. 
O morgado,que Efau ven- 



o qual indo a fer facriíica- 
do, não chegou a derra- 
mar o fangue: o morgado, 
que nòs vendemos, he o 
fobrenatural, & da graça, 
do qual o Filho de Deos 
nos fez herdeiros, tendo -o 
comprado com todo o fan- 
gue , que derramou na 
Cruz. E eíle preço infini- 



to he o que nòs taó vil, taó penfamencos, com as pala- 

impia,ôc taó facrilegamê- vras, com as obras, & com 

te defprezamos, Dizeime, tudooquecuidão, 6c fa- 

fe quando na MiíTa fe leva- zem,defprezão, & daó por 

ta o íangue de Chrifto no nada eíle voílb preçoí No 



Caliz,ouveíIe algum, que 
em vez de o adorar, & ba- 
ter nos peitos , lhe voltaíle 
o roílo , lhe fechaíTe os 
olhos 3 & com o geíto de 
ambasasmãos o regeitaf- 
fe^&lançaííede fy,quem 
haveria que não abomi- 
naíle tal homem , & fe po- 
deífe, o queimaíTe logo? 



ta aqui Hugo Cardea],quç 
em tudo o que fe vende,ou 
compra naó ha hu fó pre- 
ço, fenaó dous. Hú o pre- 
ço da coufa comprada, ou- 
tro o preço daquilío com 
que fe compra : ^od emi- 
tur^é'quo emitur. Eíles íàõ 
os dous preços, q defpre- 
za todo aqueile que pecca, 
acYeU' 



400 
& vende , ou troca 
peccado a graça de Deos. 
Hum o preço da graçajque 
Chriílo nos comprou com 
feufangue,& outro o pre- 



Sermão de 
pelo á\^no de fer abominado: 
Et fajiguhicm teftamenti 
plhitum dtixerit : Sc do 
mefmo Chrifto com ex- 
preííàó,& reflexão de fer 



ço do mefmo fangue, com Filho de Deos, o qualpi- 

quenoscomprou a graça za, & mete debaixo dos 

It le me perguntais atèon- ^hs'.^i FiltumT>ei Loncul- 

de chega eíte defprezo ? caverit. 



Tremo de o dizer, mas he 
bemqueo ouçais, & fai- 
bais. Chega eíle defprezo 
naó fô a dcfprezar de qual- 
quer modo a graça de 
r)eos,&ofanguede Chri- 
ílo, mas a meter debaixo 



^66 Chegada a verda- 
de, Sc evidencia do noíFo 
difcurfoaeíle extremo de 
impiedade, & horror :, que 
fenáo podéra crer, nê ima- 
ginar, fenáo fora de féi 
bemcreo que não haverá 



dos pès,&pizar a mefma alma tão perdida, nem có- 

graça, 6c o mefmo fangue, ciência tão defefperada, 

6c o mefmo Filho de Deos. que conhecendo o erro, & 

Sa6 palavras exprelTas , 6c cegueira em que atègora a 

tremendas doApoíloIoS. fofreo a paciência, 6c mi fe- 

Paulo : ^uifdium 'Dei con- ricordia divina , fem a dei- 



Hcbr. culcaverity &fangíii7icm te- 
^'''^^ JiamentifolUitum duxerit^ 
inquojanâlificatus ejt ^ & 
fpiritíú gratine cÓtumeliam 
fecerit } vede fe falia no- 
meadamente da graça, no- 
meadamente do langue, Sc 
nomeadamente de"Chri- 
ílo. Dagraça,aquefazta6 
grande injuria : Spiritui 
grátis co7it ume liãfn fecerit : 
doíàngue , que reputa por 



tar mil vezes no Inferno, 
como pondera o mefmo S. 
Pau Io, Sz como hú tal def- 
prezo do íhngue de Chri- 
llo,6cdopreçodo mefmo 
finguc merecia^ bem creo, 
digo, que ninguém havc- 
ni,qucnão tenha mudado 
derciòluçáo, Sc com ver- 
dadeiro arrcpendimenco , 
6c dor do paOjdo, a não te- 
nlia feito muito firme ác 
an-' 



Nojfa Senhor, 
antepor a graça de Deos a 
tudo quanto pôde ter , ou 
defejarneíle mundo, em 
quanto no mefmo mundo, 
excepta fó a fua graça, lhe 
pôde dar o mefmo Deos. 
E para que iílo naó íique 
íó em bonspropoíltosjque 
podem eíquecer, & tornar 
a fer vencidos do mao co- 
llume i acabo com decla- 
rar a todos,& lhe proteftar 
da parte do mefmo Deos , 
fobpena de faivar, ou nao 
falvar, o que devem fazer. 
3Ó7 Tudo fe reduz a 
três pontos, & muito bre- 
ves, para que vos fiquem 
na memoria. O primeiro, 
que logo, & fem dilação o 
queeftiver empeccado íe 
ponha em graça de Deos 
por meyo do Sacramento 
da Penitencia,fazendo taó 
exado, 8c taò fiel exame , 
& confiíraó de toda a vi- 
da paífada, como fe aquel- 
la foífe a ultima para ir dar 
conta à divina Juftiça. O 
fegundo,hum total, 6c fir- 
miflimo propofito de con- 
íèrvaramefma graça , & 
perfeverar nella , lem fa- 
zer cafo de fazenda^ hoíi" 
Tom .7. 



ida Gr aça. 401 

ra , ou qualquer outro m- 
tereífe , & conveniência 
humana, & com refoluçao 
de antes padecer mil mor-' 
tcsy que cometer hum pec* 
cado mortal. Terceiro^ 
naófóconfervar a mefma 
graça, mas procurar com 
todo o cuidado de a aumê- 
tar comoexercicio con- 
trario de virtudes, & obras 
Chriftáas : com obfervan- 
cia dos preceitos divinos, 
com a frequência dos Sa- 
cramentos, com a oração, 
com a efmola, com o jejú> 
6c mortificação de todas 
as paixoens dacarne,com 
amor dos inimigos, com o 
pèrdaó das injurias, com a 
paciência dos trabalhos,& 
conformidade com a von- 
tade de Deos em todas as 
eoufas, que nefta mtfera- 
vel vida ordinariamente 
faó ad verfa s : & como dan- 
tes com os penfamentos , 
palavras, 6c obras oífendia 
ao mefmo Deos, ailim da- 
qui por diante as ordene 
todas com reála intençaa 
a feu divino ferviço, 6c au- 
mento de fua graça , na 
qual taõ brevemente co- 
Cc mo 



402 Sermão de 

mo vimos, pôde acquirir, daGraça vos pedimos uni- 



& multiplicar muito gran- 
des theíòuros^ & recupe- 
rar em poucos dias de ver- 
dadeira contrição, Sc amor 
deDeostudoo queefper- 
diçouj&rperdeoem toda a 
yidapaíTada. 

368 E porque delibe- 
rada, & reduzida a alma a 
eíle fegundo, &: feliciflimo 
citado, he certo, que nam 
le defcuidarà o Demónio 
em procurar de a derrubar 
delle com tentaçoens-,aqui 
entraopatrocinio, &: am- 
paro da Senhora da Gra- 
ça , 6c feu fantiílimo nome 
terrivel fobre todos ao 
mefmo Demónio , nome- 
andoa, & invocado- a mui- 
tas vezes no meímocon- 
ílido 5 &; dizendo ; Maria 
M^tergratKCt Mater mi fe- 
rie ordiíT^tu nos ab hoflt pro- 
tege : Maria Máy da graça, 
Maria Máy da mifericor- 
dia,vòsque fó podeis for- 
talecer a noíTa fraqueza , 
nos defendei deílc cruel 
inimigo. 

369 AíTim poftrados 
diante de vofib foberano 
acatamento, como Trono 



camente efta, que vos efti- 
maíles fobre todas. E con- 
íiadamcnte,Senhora, vos 
fazemos efta petição de- 
baixo da promeíla do vof- 
fo Apoftolo : Adeamus er- 
20 cíim íiducta ad thror.nm „ , 
gratt£ 5 ut mtjericordiam » 6. 
confeqttamur^à^gratiã in- 
veniamus in auxilio oportu- 
no. Graça , & mifericordia 
nos promete debaixo do 
voíFo amparo. E como nos 
pôde faltar a graça, ou a 
mifericordia , fendo vòs 
Maria Máy da graça , & 
Máy da mifericordia: iWíí- 
ria Mater grátis , Mater 
mifericordia ? Com.oNJáy 
àà graça não fó tédes abú- 
dantiíllma graça para vòs, 
fenaó para voílbs íilhos , 
quefomoso.9 peccadores. 
O mefmo Anjo, que vos 
faudou dizendo ; Gratia 
pLna^-àQYQccntou logo,<S/>/- 
ritus Sanãiis fuper-veniet in 
te : porque naó fó foftes 
chca de graça,fcnaó fobre- 
chea : 'F/ena (ibi^iiper plena 
7/í>^/>5 como diz voíFo de- 
voto S.Bernardo:Cliea pa- 
ra vò§) Çc para nos fobre- 
cheaj 






UNMft 



NojTa Senhora ãa Graça. 40 3 
cíieas^om que deitas fu- bemanòs^&nospertende 
perabundancias de graça vencenpelo que, Senhora 
náo podeis deixar de par- da Graça,a vos vos perte* 
tir liberalmente com nof- ce defendernos de fuás te- 
co como Mãy da graça, taçoens,8caftucias:rí^;í^^ 
Mater praM. ^ muito me- ah h o fie protege, t. nam lò 
nos o devemos defconfiar vos dizemos, Tu nos ab ho- 
devoíFa mifericordia ^ co- /^/r^r^^^ , mas para qu€ 
mo Máy de mifericordia , eíla protecção leja perpe- 
pois temos razaÓ de vos tua,&fegura atèa morte, 
pedir,ou demandar a mef- acrecetamos, Ethoramor^ 
ma graça, naÓ fôde mife- tisfufcipe. Eíle ditoío dia, 
ricordia, fenaòdejuftiça. Senhora 5 foi aquelíe, em 
Omefmo Anjo vos diílè : que pagando como filha 
Invemftigratíãapud "Deu : de Adaó o tributo à mor- 
Que vòs achaftes a graça. te,na mefma hora em que 
Quem achaoperdido,tem começou a voíla gloria , fe 
obrigação de o reftituir a confumou a voíTa graça: 
quemoperdeo, &:fe Eva pelo que^Senhora da Gío- 
nos perdeo a graçajvòs co- ria,& da Graça, por voíTa 
moKeparadora de todas as fantiílí ma morte, nos con- 
fuás perdas 5 a deveis nam cedei para a noíTa húa tal 
fó por mifericordia, fenaó hora, em que acabando ef- 
porjuítiça, acporreílitui- tamiferavelvidaem Gra- 
çaó a feus filhos. O mefmo ça, na eterna, & feliciílima 
inimigo, que a ella tentou, poíTamos acópanhar voíTa 
& venceo, nos tenta tam- Gloria. 



Ccij 



SER^ 




40+ 



■mm 



VO 






SERMAM 

DE 

SJOAM EVAlSIGELISTA 

Fefta do Príncipe D.Theodoíio na Capella 
Real, anno 1(^44. 



ConverfusTetrusviditillumdifàpiihm, quem ddigcbat 
Jefusyfeqnentem. Joann.21, 

ff. I. 

Uidava eu, que 

fó dos que íèguê 

ao mundo havia 

venturofos , & 
deígraçados. Também na 
fantidade ha fortuna. S. 
Joaó Bautiíla foi dcfgra- 
çado com Reys, S, Joaó 
Evangelilla foi venturofo 
Gom Principes. S. Joa6 
.Bautiíla foi aefgraçadocõ 




Reys 5 porque hum Rey o 
fez nafcerem húa monta- 
nha, 8c outro Rey o fez 
morrer em hum cárcere. 
S. Joaó Evangelifta foi vé- 
turofo com Principes,por- 
queo PrincipedoCeo, & 
oPrincipe da Igreja, am- 
bos andaó em competên- 
cia neíle Evangelho íbbre 
qual fe lhe ha de moílrar 
mais afeiçoado. Fez Chri- 
{ío a S. Pedro Principe 
uni- 



A 



|o3nr. 

M.2I. 



[bid.2:^. 



Sermão de S.loaõEvangeUfla, 405- 
univerfalda faa Igreja, & porque fe moftra fenrido 
apontando S. Pedro para Chriílo do cuidado , que 
S Joaó, diíTe : T>omine, htc moftrava Pedro ? Os fenti^ 
autem quid? Senhor , fe a mentos eraó diverfos, mas 
mim me dais o Pontifica- a caufa era a mefma. Sen- 
do, fe a mim me entregais tiãofe ambos , porque am- 
as chaves do Ceo, aos me- bos amavaó muito a S. 
recimentos de Joaó, que João. Pedro fentiafe da 
lhe haveis de dar? Que ref- dignidade , que lhe dava 
ponderia Chrifto a S. Pe- Chritlo; porque como Pe- 
dro? Sk eum voio manere dro amava muito a Joaó, 
donecveniam.qtiidadte^Sè queria a dignidade para 
eu quero que Joaó fe fique elle,&: não para fy : Chri- 
aíTim, quem vos mete, Pe- fto fentiafe do cuidado, 
dro, a vòs nilTo ? Quem vos que moftrava Pedro , por- 
fez procurador de Joaó ? que como Chrifío amava 
^///í?í2í//^é'? Notável repo- mais que todos a Joaó, 
fta de Chrifto, & notável naó queria que ouvefle 
propofta de Pedro! Chri- quem fe moftraíFe mais 
fto & Pedro ambos parece cuidadofo que elle. Onde 
que eftaó queixofos pelo eftà Joaó,dizia Pedro,por- 
quehaviaõ de eftar agra- quemehaóde dar o Pon- 
decidos. Na repartiçam tificado a mim ? Hic autem 
dos lugares fentemfe as ^íí/V.?Ondeeftoueu,dizia 
dignidades, que fe dão aos Chrifto, porque ha de ter 
outros: nos negócios dos outrem cuidado de Joaó? 
amigos, fentefe que haja ^idad te ? De maneira, q 
defcuidados,masnam que o Príncipe da Igreja, &: o 
•liaja cuidadofos. Pois fe Principe da Gloria anda- 
Chrifto era amigo dejoaó, 
6c Pedro eftava feito Pon- 
tifice : porque fe moftra 
fentido Pedro da dignida- 
de, quelhedava Chrifto? 
Tom. 7. 



vão ambos em competên- 
cia fobre qual havia de 
amar mais a S Joaó ,porq 
fer amante do Evangeli- 
fla amado , ouhe deftmo, 
Ce iij ou 



40 6 



Sermão de 



"^ ■•^\ 



ou he obrigação dp$ ma- 
iores Príncipes. 

371 Taó qualificada, 
Senlior,5c taó authorizada 
comoiílotem V. A. ade- 
vaçaó do feu amado Evá- 
gcliílaSJoaó: authoriza- 
da com os cuidados do 
Príncipe da Igreja,& mais 
authorizada com as emu- 
laçocns do Príncipe da 
-Gloria. Com tudo , Se- 
nhor, eu quando confide- 
ro a V. A .Príncipe de Por- 
tugal 5 naó deixo de ter 
meus efcrupulos neíla de- 
vaçaó. S.Joaó foi o valido 
deChriíloi&: hum Prín- 
cipe de Portugal logo em 
feus primeiros annos aíFei- 
coado a validos! Devaçaó 
a valido, ainda que Santo, 
cm hum Príncipe ! Efcru- 
puíofa devaçaó. Là diziaó 
os Ifraelitas aDeos,que 
lhe naó havíaó de chamar 
Baalim , que quer dizer, 
Senhor meu j porque ain- 
da que Baalim era nome 
de Deos, equivocavafe cp 
Baal , 4 ^^^ "O"^^ do ído- 
lo. Pois feonome do ído- 
lo, ainda pofto cm Deos, 
craperígoíbi o nome de 



valído^ainda que pofto em 
S.Joaó , porque o naó fe- 
ra? Valido ainda que feja 
S. Joaõ,he valido ; & aifei- 
çaó a valido no noífo Prín- 
cipe! Pois por certo, Se- 
nhor, que não faó ç,^^s os 
exemplos,que V. A. vè: 
náo he eífa a doutrina com 
que V. A. he criado.Quan- 
to mais que havendo de 
haver valido , parece que 
naó havia de fer S. Joaó. 
Os validos inventáraóíc 
para os Príncipes defcan- 
çarem nelles j & S. Joaó 
era hum valido , de quem 
diz o Evangelina : Recu^ 
hmtfupra peãuí ^Dominii]cihi^. 
Queeíteve encoítado íb-***^ 
breopeitode feu Senhor. 
Lindo talento de valido! 
Em vez de o Príncipe dç;{* 
cançar nelle, elle defcança 
no Príncipe/ 

§. II. 

373 /"^Omiftoferc- 
V^>prefentar af- 
íim, cu acho duas razoens 
muito forço fas para o 
Príncipe N.S.fe affeiçoar 
a elle grande valido de 
Chri- 



A 



S.loãdEwtígeVfia. , . 4^7 

Chriílo. Aprimeira,pelas porque o foi pnmeiro do 
partesdo valido : a fegun- SereniíTimo D. Theodoíio 
da, pela authorídade de feuAvo: EttamT>omtno 
quem o inculcou. Quiz anja noftro lauãabútter aã- 
ElRey Athahrico tomar hsfiffe. Sendo S.A.demui- 
porfeuvalído a Tholoni- to menos annos fonhou> 
CO patrício Romano , & qire lhe aparecia o Senhor 
cfcreveolhe aíTim em húa Dom Theodoíio > & que 
Epiílola, que he a nona dó lhe encomendava muito , 
livro 8.de Cafriodoro : Ad que foíFe grande devoto 
relevandãjlorenúfmaata* de S. JoaÓ Evangeliflra , de 
tis mftr/folíCítudinem vé^ quem eíle toda a vida fora 
fumeftte wum prudentif^ devotiíTimo. Náo foieíia 
fimum adhibere, quem con* a vèz primeira 5 quetelíci. 
f{atetíamT>omino dvo no- dades de S. Joaò tiv^-ao 
0rô laudabiUter adhafijf^. principio em fonhos. Eíte 
Querovos por cópanhei- íbnho myftcriofo toi o 
rono governo deftes meus principio defta devaçao:ôc 
primeiros annos,dizAtha- efta herança dmna foi a 
larico a Tholonico, por que deixou a hu tal Meto 

. duas razoens-.porq tendei hum Cal Avo. 
prudência para o fer , & ^n Jà outrji vez ao 
porque o foíles primeiro pé daCruz foi S. João is- 
do Senhor Theodorico vangeliíla deixado em he- 
meu avo : ^em conftat rança; Sc a meuver,eftehe 
etiam Domino avo noftro hum dos grandes louvores 
laudahiliteradhajiJfe.^E^^s doDifcipulo amado : ler 
mefmas faó asrazoens,que hum am Jgo,de quemiepo- 
oPrincipe,queDeosguar- deteftar. Hum dos gran- 
de,tcm para fer taô affei- desefcandalos, que tenho 
coado a eíle grande valido do mundo, he , -porque íe 

• àe Chriílo. A primeira^ nãohade teftar dos ami- 

porque tem grandes par- gos? Na morte teílaò os 

tes para o fer : a re<5unda , homes de todos feus bens, 

^ " Ce iiij &pojs 



a 



(>; 






Joann. 



408 

& por eíTa mefma razaó 
parece, que haviaó de te- 
ftar dos amigos em pri- 
meiro lugarj porque entre 
todos os bens, nenhú bem 
ha maior que os amigos, 6c 
entre todas as coufas nof- 
fas ^nenhuahe mais noíTa 
que os amigos. Pois fe os 
amigos faó os noílbs ma- 
iores bens , & os bens mais 



Sermão de 

rusmortuuseft: Lazaro he 
morto. Notável diííercn- 
ça! Quando Chriílo diz 
que Lazaro dorme , cha- 
malhe amigo noíTo : La- 
zartis amicus no/ter dormit-, 
quando diz que Lazaro 
he morto, naô lhe chama 
amigo : Lazaras mortuus 
efl. Pois fe lhe chama ami- 
go quando diíTe que dor- 



rbid.14 



noíTos, porque naÓ tefta- mia, porque não Ihecha 
mos delles ? A razáo heef- ma amigo , quando diíTe 



ta j porque os bens de que 
teftaó,& podem teílar os 
homens, faóaquelles, que 
permanecem depois da 
morte j &:osamigos,ainda 
quefejaó os noíTos maio- 
res bens, faó bens que fe 
acabaócomavida. O ma- 
ior amigo permanece ate 
a morte, depois da morte 
ninguém he amigo. Mor- 
reo Lazaro eftando Chri- 
ílo aufente i & he muito 
de reparar o modo có que 
Chriílo Senhor noíTo deo 
efta nova aos Apoílolos. 
A primeira vez diíTe: La- 
zarus aniicus nofter dor mi t. 
Lazaro nofib amigo dor- 
me. Dahi a pouco expli- 
coufe maisjôc diíle: La;^a' 



que morrera .^Porq quan 
dodiífe que dormia, íu- 
punha-ovivo; que o dor- 
mir em rigor he de quem 
vive > quando diífe que 
morrcrajdeclarava-o mor- 
to : & o nome de amigo 
acabafe com a vida : de- 
pois da morte ninguém he 
amigo. Lazaro vivo he 
amigo : L azar lis amicus 
nofter y Lazaro morto he 
Lazaro : Lazarus mortuus 
eft. E como as amizades 
humanas faó bens que naó 
permanecem depois da 
morte, por iíTo os homens 
naó teílaó deíles bens, por 
iílòfcnaódeixaò os ami- 
gos cm teíiamento. Sò S. 
joaóEvãgcliihi foi cxcei- 
çáo 



à 



■^- 



|oinn 
ip ió 



S.loaÕEi^angelifta. 409 

çaõdefta regra, como de com a morte: as finezas do 



todas. Fez Chriftofeutc- 
ftamentonahora da mor- 
te, & a principal herança 
de que teílou , foi S. Joaó : 
Mu líer^eccefilius tuus . S a- 
bíaqoamor do feu ama- 
do naófe havia de acabar 
com a vida j por iííb foi a 
herança principal de feu 
tefta mento. 

374, No Sacramento 
da [^luchariftia confagrou 



fangue de Chrifto ainda 
depois da morte perfeve- 
ráraó. O corpo de Chrifto 
concorreo a redempçaó, 
padecendo j o fangue de 
Chrifto concorreo à re- 
dempçaó, derramandofe: 
pois por iíTo teílou Chri- 
íto de feu fangue, & náo te- 
ílou de feu corpo , porque 
o corpo depois da morte 
naópadeceo, o fangue de- 



Chrirto igualmente feu pois da morte ainda fe der- 
corpo,& fangue ; mas no rzmo\x'.Exivit Janguis.EÇ- 



modo da confagraçáo re 
paro eu em húa differen- 
ça grande. A confagraçaó 
do CalizjchatnoulheChri- 
fto teftamcnto : Hic Cálix 
Lnc.22. novum teftamentum eji tn 
^' me o fangume : à confagra 



fa foi a caufa porque ad- ip^^".' 
vertidamente o E vangeli- 
ftafallando da lança, naò 
diíle que ferira, fenaó que 
abrira : Latus ejm aperuit : ''^'^■ 
porque a lançada nam foi 
ferida para o corpo , foi 



Ibid-ip. 



çaó do corpo naó lhe cha- porta para o fangue : nam 
mouteílamento ; Hoc eft foi ferida para o corpo, 



corpus meum-t^ nam diíTe 
mais. Pois fe Chrifto cha- 
ma teílamento ao fangue, 
porque naô chama teíla- 
mento ao corpo > 6c fe te- 
ílou do íàngue,porque naó 
teílou do corpo ^ A razaó 
muito a noíTo intento hc 
eílaj porque as finezas do 



porque o corpo naô a {cri- 
tio ', foi porta para o fanr 
gue,porque o fangue fahio 
por ella : Exivitfanguis. E 
como no corpo áç^^ois de 
morto naó havia fentimê- 
to para padecer, & no fan- 
gue depois da morte ainda 
havia impulfos para fair. 



corpo de Chriílo acabarão por iífo ^teílou Chriílo de 

feu 



41 o Sermão de 

fcu fangue,&não de feu noíTo Senhor. Provo em 



corpo : Hic Cálix novum 
tejlamentumeft in meofayf 
guine-. Oh divino JoáOjque 
bem moftrais fer Tangue 
de Chriíto na fineza de 
voíla amizade! Náo fe aca- 
barão roflas finezas coma 
morte, antes depois que 
Chriftomorreo por vós, 
morreíles vòs mais por 



próprios termos. Quando 
Chrill:ofezo feu teftamc- 
to n^ Cruz, teve duas cou- 
fas de que teílar r teílou do 
Reynoj&teíloudeS.íoão. 
Saibamos: E a quem dei- 
xou eíles dous legados ? O 
Reynodeixou-oa Dimas, 
S. loão deixou-o a fua 
Máy. Pois como aíIim,Se- 



elIc-poriíToteílou de vòs nhor, parece que fe ha viaó 
voílbMeftre : por iíío te- de trocar os legados : o 



ílárãódevòs noíTos Prin 
cipes. 

37f Ora eu me puz a 
confiderar em razáo de 
herdeiro , a qual devia 
mais o Principe, que Deos 
guarde, fe a ÈlRey noíTo 
Senhor, fe ao Senhor Dom 
Theodofio .? Em quanto 
herdeiro delRey noííb Se 



Difcipulo bailava deixalo 
a hum amigo , o Reyno 
convinha deixalo à Máy: 
pois porque deixa o Difci- 
pulo à Máy, & o Reyno a 
Dimas .^ Porque a quem 
Chrift-o amava mais, era 
bem que deixaíFe o me- 
lhor legado. E có o Reyno 
de Chriílo fer o melhor do 



nhor, a herança heoRey- mundo, àMáy,a quê a ma- 
no de Portugal : em quan- va mais, deixou a íoaó , a 
to herdeiro do Senhor D. Dimas,a quem amava me- 
Theodofio, a herança he nos, deixou o Reyno. Por- 
S.Joaó Evangelifta. Poisa que muito menor herança 
qual deve mais S. A.em ra- era o Reyno,do queloaó. 
zaó de herdeiro .<* Naó ha S. Ambrofioexpreííli , & 



duvida 5 Senhor, que em 
razaó de herdeiro deve V. 
A. mais ao Senhor Dom 
Theodofio , qucaElRcy 



eftremadamentc .• Matri 
dixit-.Ecce filius títtis: : La^ ^^, 
troni dixit- liodic mccií eris 
in Taradifo : plurisfinans^ 



í. III. 



5*. haõ Evangelifia. ' 41 1 

qiiodpietatts officia divide- 
bat^ quàm quod Reg?iu C^- 

kãe donabat. A May , a -n • • t 

quemamava mais, deo a 37^ A Pnmeiraboa 
loaó, a Dimas, a quê ama- 't\ parte, que eu 

va menos, deo o Reyno : reconheço em S.Ioaò para 
porque pondo em fiel ba- valido, he fer E vangelifta. 
lança de húa parte o Rey- Os validos haó de fer E- 
no do Ceo , de outra parte vangeliílas. O oíficio dos 
a S.Ioão , entendeo Chri- Erangeliftas he dizer ver- 
fto,que dava mais a Ília dade 5 & os validos haó de 
Máy em lhe dar a Joaó, do ter o dizer verdade por oh 
que a Dimas em lhe dar o ficio. Alguns homens tem 
^ —' ^ ^ ' havido Evangelizas, mui- 

tos homens tem havida 
vahdos : mas valido, 6c E- 
vangelifta juntamente fó 
S.Ioaóo foi. A razaó,ou 
fem-razão diílo he ; porq 
os q faó validos não que- 
rem fer Evangelizas: & os 



É^cjaoiTlíirisputans^qmd 
pietatis oficia diviaebaty 
fuàm qmd Regnum Cdtlefle 
dynabat. E feSJoaó fem 
lifonja he melhor herança, 
que o Reyno do Ceo, fem 
ingratidão podemos di- 
zer, que he melhor heran- 

ca também, que o noífo de que faó Evangeliftas nam 

Portugal. chegaó a fer validos. Sq 

Efta he a primeira ra- em S. loão feajuntáraó ef- 

zão,&; mui juftiíicada, que tas duas propriedades, das 

S. A. tem para fer mui af- quaes fe compõem a ma- 

fedo ao grande v alido de ior prerogativa fua. Sabeis 

Chrifto, por fer herança qual he a mais finguiaif 

do Senhor Dom Theodo- prerogativa do Evaugelir 

fiofeuAvo. Aíegundahe, ftaamado? Heferamado 

pelas boas partes, que em íendo Evangeíiíla. R^P^- 

S Joaó fe achaó para vali- ro eu muito no noíTo Evã^ 

dp>como agora veremos. gelho em húa coufa em 

que naó vejo reparar. ^^ 



^12 Sermão de 

joann jc^j^^s quid veTum efl tefti- Ter amados. Oh que gran- 







W^: 



monmme]us\ diz S. Joaó 
por fim de feu Evangelho, 
que tudo o que diz nelle 
he verdade. Ociofa adver- 
tencia,ao que parece, por 
certo. Leãofe todos os E- 
vangeliftas, & nenhum fe 
achará, que fízeíTe feme- 
Ihante advertência. Pois fe 
Gs outros Evágeliftas naó 
dizim que he verdade o 
que efcrevéraó 5 porque 
cizS íoão, que he verda- 
de o q le efçreveo ? Náo 



de gloria de Chrifto! óq 
grande gloria de loáo í 
Grande gloria de Chnílo, 
que o feu amado feja hum 
> vangelifta : grande glo- 
ria de loaó, que fendo E- 
vangeliíla feja o amado. 
Masiílo naó fe acha em 
toda a parte: fó na Corte 
do Ceo,&: na de Portugal ; 
íóno Principe da Gloria, 
&no noífo Principe. O q 
importa, Senhor ,he,que 
feja fempre aílim. Os ama- 



tij ha Igual authoridade ? dos fejaó fó os Evangeli- 
Náo era Evangelifta co- ftas: Sequem naó for Evá- 



mo os demais ? Sim era, 
mas era Evangeliíla ama- 
do •,& porque o amor po- 
dia fazer foípeitofa a ver- 
dade, advertio, que ainda 
que era amado, era verda- 
deiro: 'Dífcipulum quem di- 
ligebat : (^fcimtis qnia ve- 
rum] e/l tejimonhim ejus. 
Ordinariamente nas Cor- 
tes dos Principcs, os que 
contrafazem a verdade, 
faó os q grangcáo o amor. 
Na Corre de Chriílo naó 
heaflimios que tem por 
profiífaó fer verdadeiros, 
iàó os que tem por premio 



gelifta, naò feja amado. 

377 Equalhca razão 
porque os Evágeliíhs de- 
ve fer os amados.^ A razaó 
he evidente: porque o ma- 
ior merecimento para fer 
amadojhe amar,6c a maior 
prova de amar , he filiar 
verdade. Perguntou Dali- 
la a Sanfaó por trcs vezes, 
em que parte tinha vincu- 
lada fua fortaleza, iSc que 
remédio podia harcrpara 
fer vencido ^ Rcfpondco 
Sanfaó a primeira vez, que 
fc o atalfcm fortemcnrc 
com nervos : a fcgúda vez, 
que 



S.loaÕ Evangelifta. 41 1 

que fe o ataíTem com cor- 'vices mentitus esmihi. Pela 

das : a terceira vez, que fe primeirafalfidade em que 

o ataíTem com oscabel- ovaíTailofor achado , ha 

los 5 mas de todas as três de cair logo da graça do 

vezes rompeo elle çom fa- Principe, & cair para fem-. 

cilidade as ataduras. E pre. Parece demafiado ri- 



que faria Dalila vendofe 
aílim enganada ? C^ei- 
xoufe muito de Sanfaó : 
diíTe^que fabia de certo, 
que a n^ió amava , ^ fez- 
Ihe efte argumento,* ^ííí7- 
modo dicis quod amas me ? 
per três vices mentitus es 
mihi\ Como dizes tUjSan- 
íàój que me amas, fe me 
mentifte três vezes ? Bem 
tirada confequencia : mê^ 
tifl:eme,logo naò me amas. 
A confequencia he clara: 
porque amar he entregar 
o coração , mentir he en- 
eobrilo: bemfe fegue lo- 
go, que quem nao falia 
verdade, naó ama ; porque 
como ha de entregar o co- 
ração, quem o encobre? 
De maneira , que da ver- 
dade de cada hum pòdc 
julgar o Principe o feu 
amor : com advertência 
porém , que naó deve ef- 
perar, como Dalila, pela 
terceira mentira ; Ter três 



gorjporq agraça deDeos 
naô fe perde por qualquer 
mentira: bem pôde hum 
homem naò fallar verda- 
de, & mais ficar em graça 
de Deos. Com tudo no 
Principe naò he bem que 
fejaaííim. Porque ? Por(| 
para Deos, que conhece 
os coraçoens , bem pôde 
haver mentiras veniaes, 
mas para quem os naò co- 
nhece, todas he bem que 
fejaò mortaes,& que por 
todas fe perca a graça. A 
graça confiíle no amor: 
quem naò falia verdade^ 
naó ama-,logo onde fe pro« 
va o defamor , bem he que 
fe perca a graça. Percafe a 
graça , onde fe provar o 
defamor, que hea menti* 
ra : ganhefe a graça, onde 
fó fe provar o amor^que he 
a verdade: & andem jim- 
tos çomoem S.Ioaò o titu- 
lo de Evani^eliíla com jò 
de amado, 

Naé> 



f 




4,144 SermaÕ de 

lf% Naó fou amigo cas , diíTe-as S. 
de deixar duvidas na mi- 



nha doutrina. Todos me 
eftaó pondo contra efta 
húa grande inftancia. S. 
Alatheus, S.Marcos,S. Lu- 
cas também foraó Evan- 
geliftas j com tudo não al- 
cançarão privilegio de 
amados: logo S.Joaó naó 
foi amado por fer Evan- 
geliíla; & fe foi amado por 
Evangelifta, qual he a ma- 
ior razão ? A maior razaó 
he efl-a: porque S, loaó E- 
vangelirta, como notou S. 
leronymo, diíTe no feu E- 
vangelho muitas coufas, 
que os outros Evangeli- 
rias deixarão de dizer : & 
dizer as verdades , que os 
outros dizem 5 não he ac- 
ção que mereça ílngular 
amor i mas dizer as verda- 
des, que os outros deixaó 
de dizer , quem iíiofaz, 
merece fer fingularmente 
amado. As verdades que 
diífeS. Mathcus, diíTe-as 
S. Marcos, diíle-as S. Lu- 
cas :ns verdades quediíTe 
S. Marcos, diflè-as S. Lu- 
cas, diíle-asS. Matheustas 
verdadçs quç diffç §, Lu,- 



Matheus, 
diíle-as S. Marcos : mas 
muitas verdades quedifle 
S.Ioão,naóasdine S Ma- 
theus, nem S.Marcos,nem 
S.Lucasj elle fó as diíTe. 
E quem fabe dizer as ver- 
dades, que todos os outros 
callão, elle fó merece fer 
mais amado que todos. 
Não ha de fer o amado 
quem calla as verdades, 
que os outros dizemjfcnaó 
quem djz as verdades,que 
os outros callão. AíTim o 
fez S. Ioão,& por iíTo foi o 
íingularméte amado: T>if' 
cifulum qtiem dtligebat. 



§• IV. 



379 



ASegúda qua- 
lidade de va- 
lido que teve S. loão, & a 
que cu admiro muito nc- 
ííe grande Santo, he fer hú 
valido,quc ficou aflim : S/c 
etim 'uolo mancre. Pergun- 
tou S. Pedro a Chriflo; 
domine , hic atitem qiúd ^ 
Senhor,fc a mim me fazeis 
Principcda voíTli Igreja, 
S.loaòjovonb valído,que 
hwi de fer ? Keípondeo o 
Se- 



S.loaÕE^vangeliJia. 415' 

Senhor: Si c eiím volo ma- mais acomodada para o 



iíére : Quero q fique aílim. 
Eíla he, a meu ver, huma 
das grandes excellencias 
do Evangelifta , fer hum 
valído,que ficou aílim. Ser 
vali do,&- ficar logo de ou- 
tra maneira , iíTo acontece 
a todos, mas fer valido, & 
ficar aílim como dantes, he 
íingularidade de S. loaó. 
S. Pedro, que media a S. 
loáo pelos outros validos 



que Deos pertendia. Deos 
de hiãa pequena parte de 
Adaõqueria fa^er fubita- 
mente húa Eva, que foífe 
taó grande como elle; pois 
por iíTo a formou do lado, 
&c naó doutra parte j por- 
que he propriedade dos 
lados crecer muito em 
pouco tempo. Ainda ago- 
ra coíla,6c jà Eva ? Ainda 
agora húa parte taô pe- 



imaginava que havia de quenadoladode Adáo, & 



crecer muito com o vali 
mento : Hic autem quid^ 
Mas S. íoaó, que fe media 
confígo , ficoufe aíIIm co- 
mo dantes era : Sic eum v&' 
lo manére. 

380 Húa das circun- 
ílancias em que reparo 



tà taó grande como o mef- 
mo todo de que era parte? 
Sim : porque a colla era 
parte do lado de Adão. 
Adaó era Principeuniver- 
fal de todo o criado: & naó 
hacoufa que mais creça, 
nem mais depreíTa, que os 



muito na criação do mun- lados dos Principes. Veja 
dojheformarDeosa Eva feem lofeph com ElRey 



do iado de Adão- ; naó a 
pudera formar da cabeça , 
para que fora entendida.^ 
Não a pudera formar das 
mãos, para que fora exe- 



Faraò : vejafe em A mão 
com ElRey AíTuero : ve- 
jafe em Daniel cõ ElRey 
Dário. E que fendo taô na- 
tural o crecer nos lados 



cutiva ? Não a pudera for- dos Principes, que S.Ioaô, 
mar dos pès, para que fora que era o lado do maiov 



diligente ? Pois porque a 
forma do lado .^ Porque o 
lado de Adáo era a parte 



Priticipe do mundo>nam 

trataíTede screcentamen- 

to^&fç deixaíie iicar aili m: 

Sic 



f 



^m 



Cant. 
7-7' 



*^i 



4IÓ 



■Sermão de 



Síc etim vólo manère ? Gra- 
de excellencia do Evano;e- 
Ma! 

381 Trescoufas hane- 
íte múdojque fempre cre- 
cem, & nunca ficáo aíllm : 
húa faz a natureza , outra 



-rli 



melhorando yàclaritntein - ^p 
clarttatem , como diz S. 
Paulo. Eíla he a cílatura 
das palmas alentadas pela 
natureza j eíla he a eftatu- 
ra dos Santos infpirados 
pela graça -, & efta he a ef- 



fiiz a graça, outra faz a for- tatura dos validos aíTopra- 



tuna. A natureza as pai 
mas: a graça os Santos: a 
fortuna os validos. A eíla- 
tura da Alma Santa diziaó 
as outras Almas fuás com- 
panheiras , que erafeme- 
Ihante à palma : St atura 
tuaafftmilata eji palma. E 
porque mais à palma , que 
a outro corpo bizarro, Sc 
viftofo de quantos criou 
nos campos a natureza ? 



dos pela fortuna. Eílatura 
que por mais crecida , & 
por mais remontada atè 
as nuvens que a vejamos, 
fempre crece mais,&mais. 
E fenão lembraivos dos 
três que agora dizia, Deo 
Jacob por béçáo-a Jofeph> 
que creceíle fempre : Fi- cca^c 
Ims accr t/cens lo feph, f/ms i? -»• 
acere/cens: &:ondefecum- 
prio cila benção ? Na pri- 



Porquc todas as outras ar- vança,Sc valimento de Fa- 
vores, ainda que fejaó os raò. Amam graó privado 



cedros mais gigantes do 
Libano,tem limite no cre- 
cer , & termo na cílatura : 
fó a palma náo , fempre 
crece. Taes faó as almas 
dos Santos. Como a vir- 
tude não tem termojcomo 
a perfeição náo tem limi- 
te, fempre eltão crecendo 
na virtude , fempre eílaó 



de AíTuero , atè o dia em 
que acabou creceoj & por- 
que não teve mais para on- 
de crecerjacabou. Pareceo 
defgraça5& foi natureza; 
que aíllm acontece à pal- 
ma, ou crecer, ou acabar. 
Daniel na privança de Dá- 
rio, tendo fubido a fer hú 
dos três fuprcmos Princi- 



fubindo na perfeiçào,fcm- pes de toda a Monarchia , 
prefeeítáQ renovando, 6ç ainda q Rcy queria que 

cre- 



S.loão Evangelifta, 41 7 

crcceílc mais , & que foífe crece a eftatura dos mef- 

_ .. . 1 iTTt 



cUefófobre todos -.Torro 
Rex cogitabat conflituere 
etm fuper omne Regnum, 
Offenderaòfe os grandes 
de tanto crecer : 5c o remé- 
dio que inventarão para 



mos adorados. Hontem 
Pygmeos, hoje homens, à 
menháa Gigantes, o outro 
dia ColoíTos Pefamedeíla 
ultima comparação, por- 
que quando lhe acrecentei 



qiicnaó creceíTe mais Da- a grandeza, lhe tirei a ai- 
mel, foi bufcaremlhe oc- ma. NáoaíTimomaiorv^ 
cafiaó com que o tiraíTem lido do maior Príncipe b, 
doladodoRey. Na5 he ]Q2.Q'.Sic€umvolo manére. 
frafefódanoíTalinguajfe- Sempre ficou na mefma 
naó do meímo Texto fa- eílatura, fempre fe confer- 
s;rado : Vnãe Trincipes, & vou do niefmo tanianho, 
fatraP£ qiiarebant occafio- & nem apparencias de ma- 
nem^ut mvtnirent Tímielí ioría lhe grangeou o lado. 
èlatere Regis. Do lado o Levantoufe queíláocn- 
querião tirar, porque do treos Apoftolos,qualde.^ 
lado lhe vinha o crecer. lesfoíTemaiorP^/^^m/^^íLuc 
Não fei que influencias té vtderetur effe mmor > Efta ^^• 
o lado do Príncipe , que queílão,ameujuizo, foi o 
cm todo ea-e elemento em maior louvor de S. loão. 
que vivemos, náo ha parte Que feja S. loãoremquc- 
táo fértil , & táo fecunda ftão o valido, &: que ainda 
comoaquellesdouspèsde efteja em queftáo quem 
terra ; tudo alli fe dà, tudo he o maior ! Grande lou- 
■ "" vor de valido í Naquella 

mefma hora , &naquelle 
mefmo lugar em que fe le- 
yantou a queftão,que foi à 
mefa da cea, tinha Chriílo 
feito publica entrega do 
feuladoa S. loão 5 ac na- 



alli medra, tudo alli crece. 
Crecem os parentes , os 
amigos, os cnados.xrecem 
as honras, os poílos , os tí- 
tulos : crece acafa,a fazen- 
da, o regalo : crece o po- 
der, o dominiojO refpeito. 



a adoração , & fobre tudo quella mefma hora , & na- 
Tom./, I>d qucHa 



4^S Ser mau de 

quella merma mefa fe ú- retiir. E tinha crecido, & 



4 



nha S.Pedro valido defua 
valia , para faber por elle o 
fegredo do traidorj&elle o 
tinha perguntado a Chri- 
ílo. Pois íe o valimento de 
S. Joaó eílavataó declara- 
do, fe o lado do fea VáwQx.- 
pe lhe eílava taó publica- 
mente entregue todo , & 
fóa elle ; como duvidaó 
ainda os Apoílolos, & có- 
tendem fobre qual dos do- 
2eheomaior.? Náo eílà 
claro, que o maior entre 



medrado taó pouco S. 
loão com o feu valimento, 
que todos os outros Apo- 
ííolosnaó fó podiaó plei- 
tear com ellea maioría,re- 
não amda as apparencias. 
De forte que no cume da 
fua privança, Sr no mais 
fubido,& remótado do feu 
valimento, naófónaóera 
maior, mas nem o parecia: 
^ús eoYum videret ur. S o 
iftohe ficar aíilm. 

382 Mas nefte ficar af- 



todoshejoaó ? AíTim ha- fim de S. loão, quem ficou 
via de fer,feJoaó naó fora mais acreditado, o lado,ou 



hum valido, que ficou af- 
íim. EraS. loáo tanto do 
feu tamanho fempre , taó 
medido com a fua eílatu- 
ra,sS: taò igual fó configo, 
que por mais que creciam 
os valimentos , elle fem- 
pre fe ficava afilm como 
dantes era: na valia era 
fem contenda o maior, 
mas na maioria como os 
demais: ^ús eorum víd^.' 
retureffe maior. E notai, 
que a contenda em rigor 
naó foi fobre quem era o 
maior,fcnaó fobre quem o 
parecia : . ^is eoriim vide- 



o valido ? Eu cuido que 
ambos. Afilm como nos 
validos, que náo ficão af- 
fim, tanto heo deícredito 
dos validos,como o dos la- 
dosi afiim nefie grande va- 
Jídojque ficou aílim , taó 
acreditado ficou o lado, 
como o valido. Não fiava 
taó delgado como ifio a 
máy de S, loão, & fiada no 
fangue que corre pelas 
veas,pedioa Chrifiopara 
cada hum de feus filhos 
hum dos lados, & hua das 
maiores cadeiras do Rey- 
no : "Dic iitjcdeant hi duo 

fijj 



tfhtfli 



S.loao.E 
filij mel , iinns addexteram, 
é' alitís aãfiniftram in Reg- 
no r//í>. NaódiffirioChri- 
ílo porentaó , mas a feu 
tempo de a metade deíla 
petição fez dous defpa- 
chos : deo hum lado a S. 
loâoj&cdeo húa cadeira a 
S. Pedro. Pois fe a mãy pe- 
dia para S.Ioão a cadeira, 
& mais o lado, porque lhe 
naódeoChriftoo lado^Sc 
mais a cadeira ? E jà que 
lhe naòquiz dar ambas as 
coufas que pedia , fenaó 
hua fó, porque lhe na6 deo 
a cadeira , fenaó o lado ? 
Deolheolado,&naó a ca- 
deira, para acreditar o la- 
doj&deolheo lado fem a 
cadeira, para acreditar a S. 
loaó.Sc Chrifto amando a 
S. loaó mais que a todos 
lhe naó dera o ladojfcnaó a 
cadeira, moftrava que eíti- 
mavamaisa cadeira, que 
o lado J&: era defacreditar 
o lado : & fe lhe déíTe o la- 
do,&:a cadeira juntamen- 
te, moftrava que S. loaó 
naõ fò eftimava5& queria 
o lado , fenaó também a 
cadeira 5 & era defacredi- 
tar a S»l9áo. PoriiTolhe 



Vãngeliftd. ^ 4^^ 

naó deo a cadeira, fenaó o 
lado, &poriírolhe deo o 
ladofem a cadeira. Que- 
rer antes a cadeira, que o 
lado, he afrontar o lado: 
querer olado3&; mais a ca- ^. 
deira,he afrontarfe o va- 
lido: querer o ladoj&nao 
querer a cadeira, he honra 
do v,alido,8c mais do lado. 
Ifto he o queninguê faz, 
iftohe o que fez S Ioaò,& 
iílo o que Chrifto queria ; 
q foíTe feu valido S.Ioaó,& 
que fendo valido feu, fe íi- 
caíTe aíTitn : Sic eum volo 
manére. 

§. V. 

38 j A Terceira qua- 
jnLlidade admi- 
ravel,que refpíandece no 
Evangelifta, foi fer hum 
valido, que fez do fegredo 
ignorância. Hum dos ar- 
gumentos de feu valimen- 
to,que S.Ioáoallega nefte 
Evangelho, foi pergun^tar 
a Chrifto : ^h í>ft,qui tra- j^^^^ 
dette ? Quem era o trai- 21-^0. 
dor,que o havia de entre- 
gar? Refpondeolhe o Se- 
ílhorjque era Judas:&acre- 
Ddij centa 



420 



ccntao Evangelifl"a : Hoc 



Sermão de 
dãoofeí 



Teclo 



a memoria, 
joann. atitem nemo jcivit íHfcum- fendo que o haviaó de en- 
'^^ ' beríthim-.Q^M^i^íonm^vxm comendaraoefquecimen- 
ofoubedos que eftavso à to. O fe.s;redo encomen- 



mefa:logo náo o foubc o 
jnefmo S. loão, que era híi 
dosqueeftavãoa ella. He 
confequencia de S. A^p- 
ílinho. Pois fe Chrifto o 
difleaS. loão , comohe 
poíTiveli que S. loão o naô 
íbubeíTe? Claroeftàqueo 
foube .-pois íe o foube S. 
loaój como diz que o nam 
foube ? Hoc atitem nemo 
fciíit ? A razão he eíla : 
porque o que Chriíto diflc 
a S, íoaó 5 diílelho em fe- 
gredo,6cS.íoãooquefabe 
cm fegredo naó o fabe. 
Nos outros homens o ia- 
berem fegredo he fabcr, 
em S. íoaó o faber em fe- 
gredo he ignorar : Nemo 
fcruít. Nenhum ícgredo he 
fegredo perftitOjfenam o 
que paífa a fer ignorância ; 
porque o fegredo que fe 
íiibevpodefe dizer, o que 
feignorajnaò íepode ma- 
ni fcilar. [{ lia he a cau ía de 
os homens comummente 
não fíbcrcm c;uardar 



dado à memoria corre pe- 
rigo j o fegredo encomen- 
dado ao cíquecimento eílà 
feguro. A razão he: por- . 
que o fegredo encomen- 
dado à memoria he caute- 
la, & oquefe guarda com 
cautela, podefe perder: o 
fegredo encomendado ao 
cíquecimento he ignorân- 
cia, & o que fe ignora to- 
talmente, não fe pode ma- 
nifeftar. Logo o perfeita 
fegredo heíó o que chega 
a fer ignorância , & tal era 
odeS. loão : IJoc aiium 
nemo fcivit difiumbentjum. 
Bufqueiprovaa eíle pen- 
famento,&:fó em hum ho- 
mem Deos a achei. 

384 Falia Chriílo da 
incerteza do dia do luizo , 
&: diz aflim : T>edie auttrn Marc. 
ilía ru-inofctt^ neqtte Ârigeli^ ' ^^^ 
neque Filnts. Odiado! ui- 
20 ninguém o fabc.nem os 
Anjos, nem o mclmo Fi- 
lho do homem. EAc tex- 
to hc hum dos m:iis diffi- 



grcdos ; porque cncomcn* cukofos, que tem o Tclla- 

mcn- 



S.loãÕ E'vangelifla '. ^ 421 

mento Kovó-, tão diffiçul- quando havia de fer o dia 



tofo, quefe canfárão nelle 
todos os quatro Doutores 
da ígreia contra a herefia 
dos Arrianos. Dizer Chri- 
íloquenê o mefmoChri- 
ílo ílibe quando ha de fer o 



doíuizo, fabia-odema 
neira, que não queria re- 
velar efte fegredo aos A- 
poftolos : & nas PeíToas di- 
vinas, como Chriftojofa- 
ber em fegredo he igno- 



dia do luizo : notável pro- rar. S. Hylario : ^od Fi- 

pofição! Chriílo em quan- Ihís hominis nejcit^ facra- 

toDeos fabe quando ha meraumeft^quodraceat. O 

de fer o dia do íuizo , por- que Chriílo chama igno- 

que a Ciência á'iYÍa2i he rancia do dia do luizoj 

comua, & igual em todas nãohe ignorância, he fer 

as três divinas PeíToas: gredo •, mas chamafe o fe- 

Chrifbo em quanto home gredo ignorância , porque 

também fabe quando ha nas Peílbas divinas o en- 

de íer o dia do mizo , por- cobrir he como o ignorar. 

que ainda que a Ciência O mefmo paíTou em S. 

de Chriílo em quanto ho- Ioaò(que delle,& de Deos 

memnãoheinfmita , he fallaô com o mefmo efdlp 

univerfal, ScperfeiriíTima, os Evangeliílas ) quiz di- 

^ conhece todos os futu- zer que encubrira, & diífe 

ros, & decretos divinos, que ignorara : Hoc atitem 

Pois fe Chriílo em quan- nemofcivit dtfcumbenthm. 

to Deos, & em quanto ho- 385 Ainda naô eílà en- 

mem fabe quando ha de carecido o íino do fegredo 

fero dia do luizo, porque deS.Ioaó. Tornemos ao 

diz que o naó íabe ? T>e die noíTo Texto. §^1 recubuit 

mitem tila nemo fcit , neque fuprafjeãiis T>ominh & di- 

,Fãíus> A expoíiçáo deíle xfn^iiseji^^qui tradet ie> 

"paílb mais recebida de to- Diz S. loaó, que vio S.Pe- 

dosos Doutores, he eíta: dro aquelle difcipulo 

porque ainda que o Filho amado do Senhor, o qual 

de Deos fabia muito bem naCeaeíle\^ereclinadofo- 

Toni.;. Dd iij bre 




42 2 Sermão de 

brefeu peito, 8c lhe per- os perguntara, íTm ; que 



guntou quem era o trai- 
dor? Reparo. Parece que 
S. Joaõ naó havia de di- 
zer, que era aquelle que 
perguntou a Chriílo , que 
era o traidor , fenaó que 
era aquelle a quem Chri- 
ílo diíle, quem era o trai- 
dor. Fundo a duvicla:por- 
^ue o intento de S.Joaó 
era provar , que elie era o 
amado de Chriílo , & o 
amor de Chriílo para com 
S.Joaó naó fe prova com 
S.Joaó perguntar o fegre- 
doa Chrilio , fenaó com 
Chriílo revelar o fecíredo 



lhos diíFeraó , não. Não 
dizer hum homem o íè- 
gredoquefabe, he muito. 
Masnãodizer quefabe o 
fegredo , he muito mais. 
Porque.^ Porque nró di- 
zer o fegredo que íabe, he 
guardar fegredo às coufas : 
mas naó dizer que fabe o 
fegredo, hc guardar fegre* 
do aoíegredo. A viíla de 
S. Paulo fe verá melhor 
eíla fineza de S. locão. A 
S.Paulo arrebatou- o Deos 
ao terceiro Ceo , & revê- ^-.^^^' 
ioulhe grandes íegredos : 1 2.4.' 
Au divi arcana vcrhay qua 



•a S.Joaó Pois fe Chrifbo 7ionlicethominiloquí\Ouvi 
revelou o fegredo a S. fegredos, q fenaó podem 



Joaó , porque nam diz 
S. Joaó, que Chriílo lhe 
revelou o fegredo.^ Porque 
diz fomente, que elle lho 



contar. Ora vede quanto 
vai de S. Paulo a S. loaó. 
S. Paulo naó diíTe os íe- 
gredos que ouvira , mas 



perguntou : Et djxit: G^uis diílè que ou vira fegredos : 
ejl^qui tradct te ? Naó fe Audivi arcana verba , qua 



podiafubira mais em ma- 
téria de fegredo. Foi taó 
efcrupulofo valido em 
matérias de fegredo S. 
Ioaó,quenem quiz dizer 



non lie et homini loqui. S. 
loaó não diíle os fegredos 
que lhe diíTeraó, nem á\^z 
que lhe diíícrão fegredos, 
que os perguntara íò diíTe: 
■os fegredos, que lhe diíTe- Et díxit\§luis ejl^qui tradcP 
raó, nem quiz dizer que TeP S.Paulo guardou fegre- 
Ihe diíferaó fegredos. Que do às couíàs , porque nam 



Axkii 



S.lõaõEn)àngeliJla. 
dííTe as fevelaçoensi mas fem a fuftanck 
náo guardou fegredo ao 
fcígredo , porque diíTe que 
lhas revelarão. S. loao 
guardou fegredo às cou- 
íiiSjporque não diífe quem 



423 
de paó. 
Pois fe com menos mila- 
gres íe podia fazer cabal- 
mente o myílerio , Deos 
que fempre acurta de mi- 
lagres > porque náo quiz 



não vos direi a verdadeira 
razão , mas dirvoshei húa 
moralidade muito verda^ 
deira. Todos os Sacra me- 
tos faõ inftrumentos da 



era o traidor j Sc guardou queficaífea fuítancia do 

fegredo ao fegredo, por- pão no Sacramento ? Ea 
quenãodiíTe que lhe dcC- 
cubriráo quem era. Que 
muito logo, que feado taó 
fecretario S.IoãOjfoíTe taò 
yúiáolDifcipulum^quem 

diltgebathfus,&aixit\^is graça,&: efte de mais graça 

eft,quitradette> que todos : & não qui^ 

§. VI. Chriílo,queagraçafedef- 

2S(J A Quarta,&ul- fejunta com o pão , nem 

/\tima boa par- que o pão andaífe junto ca 

te que admiro em S. loaÓ, a graça. O maior abufo, & 

hefer valido , que quiz a o maior nfco que tem a 

graça por amor da graça, graça dos l'rincipes,he an- 

Logo me explicarei mais. darem o pão, &a graça ju- 

No Sacramento da Eu- tos. Seno Altar federa o 

chariílía deixou Chrifto pão a moyos , amda que 

asfontes de fua graça j mas não fora confagrado , mui- 

he muito de reparar, que tascómunhoens fe havia»^ 

não quiz Chrifto que íi- de fazer por amor do paó, 

caífe alli a fuftancia do qfenão fazem por amor da 

pio. Fundoo reparo. Me- graça. Querer a graça poi? 

iTos milagres eráo neceífa- amor da graça,he devaçáo, 

riospara eítar o corpo de querer a graça por ainorf 

Chrifto , & a fuftancia de do paójhe fome.Por líio ha 

pão juntamente , que para tantos famintos, ou tantos 

cftaro corpo de Chriílo esfaimados da graça, lo- 

^ Ddiiij dos 



T Co- 

ri a th. 

14. IO 



m 



424 Sermão de 

àos querem fer cheos de dio Chriílo a eíle íncon- 



graça , mas não de graça 
vazia. Gratia T>n í7i me 
'vactianonfíiit^áizidi S.Pau- 
lo em bem mais honrado 
fentido. A graça ha de fer 
para vòs encheres as obri- 
gaçoens da graça , & nam 
para a graça vos encher a 
\òs^ ou vòs vos encheres 
com ella. Entáo íeria a 
graça menoscuftofaa quê 
adàj&mais bem avaliada 
em quem a logra. Por líTo 
Chriílo não quiz que o 
pão andaíTe junto com a 
graça. Mas porque os om- 
nipotentes do mundo não 



veniente. No mefmo Sa- 
cramento ainda que nam 
ella pão quanto a fuílan- 
cia,eílà pão quanto aos ac- 
cidentes : porem a graça 
não fe mede com o pão. 
Muitas YQzts quem co- 
munga húa hoília muito 
grande, leva pouca graça > 
&quem comunga húa par- 
ticula muito pequena, leva 
muita graça : para que en- 
tendão os homens, que a 
graça não fe deve medir, 
com o pão. 

387 Oh que bem go- 
vernado andaria o mudo. 



fazem eíla feparaçáo co- feviíTemos pobres de pão, 
mo poderão lem grande os que vemos ricos da gra 



milagre i chegou a graça a 
transfuílanciaríe tanto no 
pão, que ninguém bulca 
jà a graça por amor da gra- 
ça, íenão a graça por amor 



ça í Mas íb na de Oeos he 
lilo : na graça dos homens, 
querem eiícs que íeja de 
outra maneira. Ninguém 
teve mais graça com o leu 



do pão, &: pela medida do Puncipe, que David com 
j)ão, ou peio pão lèm me- lonatas:^: qu.i 1 ibi a prova 



dida, fe avalia a graça.Por- 
que tem hoje mais pão 
que todos , quem ontem 
não tinha hum pão ? Por- 
que eílà mais na graça,que 
todos. Oh q groíicna taó 



defia graça .^ O Texto fa- 

grado o diz : Spoliavit fe 
ionatbas túnica qua erat uv^ ' ^eg:. 
dtitus.sí^dtáiteauí 'David: '^'^' 
Defpojoufe lonatas de 
Icusveíhdos, (Sc dco os a 



grande í jMas que bé ucu- David. Defoitc que a pro- 
va 



'^i^i:...i 



S. lo ao Enjangeítjla, ^ 4.2 f 

va da graça do Príncipe nelle o rendido , & naó o 



faóosdefpojos : Spoliavít- 
fe. Notável coufa í que 
cuidem os homens , q não 
tem a graça do Príncipe, 
fenão quem lhe leva atè os 
velHios ! E que tenha a 
graça defpojosjcomo fe fo- 
ra guerra ! Os defpojos faó 
íinaes de haver vencido ao 
inimigo: & que a graça dos 
amigos dos Principes te- 
nha os mefmos llnaes ! Por 
iíTo eu temo , que eíle mo- 
do de conquiílar a graça 
he fazer guerra : fó quem 
faz guerra quer defpojos. 
Quem conquiíla a graça 
pela graça , contentafecó 
o coração. Vejafe no noíTo 
Evangeliilia. Conquiftou 
a graça de Chriílojá: veio- 
fe a rematar a conquiíla 
em que ? Em lhe render 



rendofo. Sò S. loãofoube 
eílimaragraça do Prínci- 
pe, como le ha de eílimar: 
a graça por amor da graça , 
& nada mais. 

388 Três 5 ou quatro 
vezes falia S. loão em fy 
neíle Evangelho , &: fem- 
pre fe chama aquelle Dif- 
cipulo , nunca fe chama 
loaó ; ^ífcipulus ille. Pois 
porque fe não chama S. 
loaò pelo feu nome? Aper- 
temos a duvída.S.Ioáo ne^ 
fce Evangelho falia em' 
Ghriílo, falia em Pedro,& 
fállaemfy: aChriftocha- 
jnalhe Chrifto , a Pedro 
chamalhe Pedro, mas a fy 
não fe chama loaó : pois le 
a Chrifto chama Chrifto, 
& a Pedro Pedro, a loaò 
porqlhenáo chama loaó .^ 



Chriíloo cor^2iO : Recu- Arazaóhe , porque loaó 

buit_ fuprapeõfus ejids. Mui- ' qu er dizer graça & amou 

toeílimou S. loão o cora- S. loaó a graça tanto por 

ção do feu Príncipe ; mas amor de fy meíma , que né 

eftimou-o, porque fe lhe o nome de graça quiz ter 

rendeo,&: não porque lhe ~. cí)èi ella. Os ^ue amão a . 

rendia. O coração do Prin- graça dos Principes mais 

cipeha-fede eftimar pelo defen tereílada mente , ao 

rendimento , & não pelas menos querem com a gra- 

rendas : ha-fe de eílunar çaonome^ querem com a, 



Ul 



i .J 






.14. 



42 (í ^ermaÕde 

graça as vozes: mas S.Ioaã de gloria: & S Joaó amava 

amou a graça dofeuPrin- a gloria de Deos , como 



cipetaó finamente átÇ^a- 
tereíIado,que quiz a graça 
aindafemo norne> quiza 
graça ainda fem as vozes. 
Por iíTo callou o nome de 
Joáo, porque era nome de 
graça. A graça por amor 
da graça ;eftehe o timbre 
do Êvangelifta. 

385? O mais fino amor 
da graça confente configo 
outro amor,que he amar a 
graça por amor da gloria. 
Sò S.JoaópaíTou adiante, 
6c atè do amor da gloria 
quiz feparar o amor da 
graça. Moy fes dizia a 
Deos : Si invenigratiam in 
ocultstíãSy oflende mihi fa- 
dem tuamiSç.nhoT^ÍQ achei 



gloria de hum Deos cheo 
de graça. Vai muito de húa, 
confideraçaõ a outra : por- 
que amar a graça por amor 
da gloria, he querer gozar 
o premio: amar a gloria 
por a mor da graça,he que- 
rer fegurar o amor. Qual 
he a melhor couía,que tem 
a Bemaventurança? A me- 
lhor coufajque tem a Bem-^ 
aventurança, naôhe o go- 
zar a gloria, he o fegurar a 
graça j porque o^sBem- 
aventurados naÓ podem 
perder a graça de Deos ; & 
ifto he o que confiderava 
S.Joaõ. Moy fes confidera- 
va a graça como penhor 
da gloria, S.Joaóconfide* 



graça em voíTos olhos, mo- rava a gloria como feguro 

ItraimeovoíTo rofto, em da graça. "O amor de Moy- 

que confifte a gloria. E S. fes era intereíTado, porque 

Joaó que dizia ? yidimus ordenava a graça à gloria, 

gloriam ejus , gloriam cjuafi enca minha va o amor à vi- 

unigeniti â Tatre pknum fta. O amor de S. Joaó era 

grati£\ Vimos a fua gloria, fino,& puro , porque que-r 

como gloria do Vnigenito ria a graça por amor da 



do Padre cheo de graça. 
De forte qu e M oy fes a ma- 
va a graça de Deos , como 
graça de hum Deos cheo 



graça •, queria amar lem at- 
tencáo a ver. 

g9o Daqui fe enten- 
dera hum myílerio gran- 
de. 



^JoaoE^vangeliJla. 



de,& nunca aíTaz entendi- 
do, do noíTo Evangelho: 
*ÍDifcipuhm , quem dilige- 
bat^ qui & recubuit in cana 
fuprapeãus^úmini. Enca- 
rece S.Joaó o amor que 
havia entreelle, 8c Chri- 
íto , & para prova deíle 
amor, diz que adormeceo 
fobreo peito do Senhor. 
Boa prova de amor , por 
certo! Amar he defvelo, 
adormecer he defcuido: 
pois como pôde fer, que o 
-defcuido feja prova de 
defvelo; & que o adorme- 
xer feja prova do amar? 
Adormeceo , logo amou: 
he boa confequencia efta? 
Sim ; porque S. Joaó ador- 
meceo com o peito recli- 
nado fobre o peito de 
Chrifto: & não pôde haver 
mais fino, nem mais pro- 
vado amor , que aquelíe 
que entrega o coração , & 
fecha os olhos. Entregar o 
coração có os olhos aber- 
tos, he querer a vifta por 
premio do amor : entregar 
o coração com os olhos fe- 
chados, he naó querer no 
amor nem o premio da vi- 
íta. Donde fe infere ckra- 




mente, que teve mais per- 
feitas circunílãcias o amor 
de S.Joaó, que o amor dos 
Bemaventurados j porque 
os Bemaventurados amão 
com os olhos abertos, S. 
loaò amou com os olhos 
fechados. Os Bemaventu- 
rados amão com as fatisfa- 
çoens da viíla, S. loaõ ama 
fem osintereíles de ver. 
Se he boa a minha coníe- 
quencia, digaó-no os mef- 
mos Serafins da gloria. Vio 
Ifaias os dous Serafins, 4 
alliítem ao trono de Deos , 
6c diz que com duas azas 
voa vaô , & có outras duas 
cobriaó o rofto : Uuahus 
. volabant , ó* duahus veU^ 
bant f aviem. Pois fe todos 
os Anjos eftão fempre ve- 
do a Deos, como cubriam 
efíes Serafins os olhos? He 
que como os Serafins no 
Ceofaó por antonomaíia 
os amantes , qucriaó ao 
menos na reprefentaçam 
oíFerecera Deos hú amor 
mais fino que o dos outros 
Efpiritos bemavêturados. 
Eamor mais fino q o amor 
dos Bemaventurados, he 
abrir o coraçaõj 6c fechar 
os 



4^8 



Serma^dê 



os o\\\os'fDuahus Võlabant: 
eisahio coração aberto: 
*íDudbus velabant : eis ahi 
os olhos fechados. Os ou- 
tros Bêaventurados amaó 
com o coração aberto , & 
comos olhos abertosrmas 
os Serafins, que os vencem 
noamor,amáocom o co- 
ração aberto , & com os 
olhos fechados. Bem aílim 
como S. Joaó, de quem 
aprenderão eíla fineza: 
iJífiípuluy quem dilígebat^ 
qui rectibittt fitara pecfus 
T>omini. 



S' VIL 



391 



T^ Como em S. 

Cloáo havia ta- 
tás qualidades de amante, 
& taó grandes partes de 
valido , que muito que o 
amaíTe tanto o Principe 
da gloria Ch ri ílo: q muito 
que o amaíle tanto o Prin- 
cipe da igreja Pedro! Para 
que acabemos por onde 
começamos : o maior en- 
carecimento, que fe pode 
dizer de hum valido, hco 
qucdiífe Curcio de Epa- 
ininondas privado de Ale- 



xandre Magno : Multaiík 
fine Rege profpere , Rexfine 
illo nihil maguce rei gejjít. 
Foi taó grande homem E- 
pamínondas , que fendo 
valido de Alexandre Mag- 
no, elle fez muito grandes 
coufasfem Alexandre, A- 
lexandre nenhúa coufa 
grande fez Tem elle. Outro 
tanto podemos dizer de 
S.Ioaócó toda a proprie- 
dade : fendo valido, nam 
de Alexãdre , mas do mef- 
mo Chrilí o. loaò fez mui- 
tas coufas grandes íem 
Chriílo vifivelmentepre- 
fente, Cbrifto naó fez as 
maiores coufas fem loaó. 
SJcáoTem Chriílo vêceo 
os tormentos de Roma, 
fcm Chriílo bebeo os ve- 
nenos de Efeíb, fem Chri- 
ílo padeceo os deílerros 
de Pa d mos, fem Chriílo 
converteo , ^ rcduzio a 
Chnílo a Afia, fem C hri- 
íloenfinoua todo o mun- 
do, éy- propagou a Ley do 
amor de Chriílo. Grandes 
coufiis fez S. loaó ícm 
C hní i o : Multa tile fine Re- 
ge pr o fperc. Pelo contrario 
Cliriíio icm S.Ioão apenas 
fc2 



LUí:... l 



S, loaoEvangelifta. 
fez coufa grande. Fez guncou 
Chrifto o primeiro mila- 
gre nas vodas, & ahi eftava 
S.JoaóiRefufcitou Chri- 
11o a filha do Principe da 
Sinagoga , & levou coníi- 
go a S. Joaó: Inílituío 
Chriílo o Sanciílimo Sa- 
cramento da Euchariftia, 
que foi a maior de fuás 
maravilhas, & tinha a S. 
Joaó fobre o peito : Trans- 
%uroufeChrifto no Ta- 
bor, & S. Joaô aíHílio na- 
queila gloria : Derramou 
fangue Chriílo no Horto, 
& S.Joaó acompanhou-o 
naqueilapena.-emíini, re- 
mio Chriílo o mudo mor- 
rendo na Cruz,& naó teve 
outrem a feu lado, fenáo 
S-Joaó: Rex (ine illo nthil 
magn£ reigejjit, 

392 Efe iílo fucedeo 
ao Principe da gloria , que 
muito que ao Principe da ^Íi:)S€om a efpad: 
Igreja aconteceíTe o mcf- Deo a fortuna a ' 



mo? Arrojoufe S. Pedro 
ao mar para bufcar a feu 
Meílre, mas S. Joaó foi o 
que lhe moílrou a Chri- 
fbo : Quiz faber S.Pedro na 
Cea, quem era o traidor, 
mas S.Joaó foi o que o per- 



429 
Atreveofe S. Pe- 
dro a entrar no átrio dbi 
Pontiíice, mas S. loáo foi; 
o que o introduzio : Re foi- 
veofe S.Pedro a reconhe- 
cer a fepultura de Chrifto, 
mas S. Joaó foi o que o 
guiou. De maneira que o 
Principe da gloria , & o 
Principe da Igreja ambos 
fevaliaó à^^. Joaó •, mas 
com eíla diíFerença : o 
Principe da gloria valia fe 
de S.Joaó como de yalído* 
o Principe da Igreja valia- 
fe de S.Joaó como de va- 
Jedor. E o noíTo Principe 
como.^ Por ambos os titu- 
los. Tem V.A.Senhor,em 
S.Ioaó valido , & valedor : 
valido para a devaçaó, va« 
ledor para a neceíHdade. 
Reílicuío Deosa V. A. a 
feus Reynos em tempo 
que he neceífario defende- 

a na maó. 

V. A. por 



competidor hum Princi 
pe Balthafar, taó poderoío 
como o de Babilónia. Mas 
fibida coufa he, que bafrá- 
raó três dedos com iiuma 
pcnn apara fi z ç r t r e m e r a 
Bakhaíar. Oh que acomo- 
dada 



430 Sermão de 

dada emprefa para o noílb ras de noíTa confervaçaõ : 



Príncipe! Três dedos de 
S.Joaócom húa penna, & 
húaletra,que diga : Con- 
tra Balthafaremfatís\Com 
amor , & entendimento 
tudo fe acaba. Eíta penna 
hedaFenizdoamor : cfta 



com eíla penna fe faráó 
autênticos os varicinios, 
que taó gloriofamence fal- 
láo da Coroa de V. A.ne- 
íle felicereynado. Final- 
mente Q que finalmente 
aqui vem a parar tudoj) 



penna he da Águia dos en- com efta penna, que he de 
rendimentos. Com efta hum Evangelifta, que tem 



penna fe efcreverà a kn- 
tença de hua demanda 
taòjufta: com efta penna 
íè confirmarão as Efcritu- 



por nome graça, fe firma- 
rão aV.A.depoisdecum- 
pridiílimos annos , os de- 
cretos da Gloria. 




S£K<> 



451 

âââiâi #â=iââáiiâi -àààààà 

SERMAM 

DA SEGUNDA 

DOMINGA 

DA QVARESMA. 



AJfumpJit lefusTetrum^é' l^cohum^ &loannem^ & du- 
xit tUos in montem excelfumfeorfum^ & trans- 
figiiratuseftanteeos, Matth.17. 




S portas quaíl 



'§M da terra de Pro- 
miííaó mandou 
M oy fes apre- 
goar em dous montes al- 
tos, & oppoílos (^ com vo-^ 
zes, que todo o exercito 
immenfodos filhos delf- 
raei eílendido pelos cam- 
pos mil agrofa mente ou^ 
via } em hum chamado 
Garizim , as felicidades 
dosqueguardaíFema Ley 



de Deos , 8c em outro que 
fe chamava Hebel, as mal- 
diçoens, & defgraças dos 
qanaó guardaílem.Taes 
fe me afíguraÔ nefta entra- 
da da Quarefma os dous 
montes também muito al- 
tos, 6c não íó opp oitos, mas 
totalmente contrários, cu- 
ja hiíloria Evangélica ne- 
íle Domingo, <Sc no paífa- 
donosreprefcntou, U re- 
prefenta a Igreja. Nopri. 
meiro monte o Demónio, 
4 ainda fe chamava Prin- 
cipe 



Matth. 



Matth. 
»;.2. 



Si rmão dafegunda IDomin^a 
mundo , mo- cio eílão aparelhadas para 
osquedefprezaó 



cjpc deíle 

li mu a Chriílo todos os 
Reynos do mefiiio mun- 
do , & codas íuas glorias : 
OHéndit et omnia Regna 
fmmdi ^ (^gloriam eorum. 
Nofegundo Chriílo ver- 
dadeiro Rey> 6c Senhor do 
Ceo moílrou a alguns Dif- 
cipulosfeus mais familia- 
res, naó todo o Reyno, nê 
toda a gloria do mefmo 
Ceo, porque não eraó ca- 
pazes de a ver os olhos 
humanos 3 mas algúa parte 
delia : Ettransfguratus efi 



5 &: que- 
brantãoa mefma Lev , a 
que o Demónio tentador 
nos incita com a falia ap- 
parencia das glorias do 
mundo. 

394 Como ambos ef- 
tes montes faó de gloria, 
poíioquetaó diverías , a 
cada hum deiles refpondc 
afiia aíiUmpçaó. Ao ^ri- 
mQivo^AjJumpJit eum T>ia' Matth, 
bolíis: ao íègundo, Affiimp- '^^• 
fit Icjus Tetruniy & laco- ^^^, ^^ 
bum^ Ò' loannem, E certo 171- 



anteeos. Oh quanto vai de qbaftava fer húa aíTump 



monte a monte ! o quanto 
vai de Reynos a Reyno ! 
ò quanto vai de glorias a 
gloria ! Também hum de- 
ites montes , & com mais 
razaô, fe podia chamar o 
das felicidades, & outro o 
das maldiçoens. E tam- 
bém eftà bradando o pre- 



çaò do Diabo, 8c outra af- 
fumpçáodejefu, para to- 
dos amarem, 6c defejareni 
aaflumpçáo de leíu , & 
abominarem , 6c renega- 
rem da aíTumpçáo do Dia- 
bo. Mas que heo que ve- 
mos ? O caminho do mon- 
te Tabor,por ondeie vai à 



gaó em cada hum deiles : gloria do Ceo , deferto , 6c 
Que as felicidades eílão quafifem haver quem o 

pize : ^ a cílrada do outro 
monte fem nome, por on- 
deie vaias glorias do mu- 
do, chca,Sc rebentando de 
gente de todos os eílados» 
amda daqucUcs que pro-» 
feíTaó 



guardadas para os que 
guardarem a Ley de Deos, 
a que Chriílo transíigura- 
do nos anima com a viíla 
da gloria do Ceo : 6c as 
maldições dp mcfmpmQ- 



1». 



da §luarefmA, 

íc^xo o defprezo do mef- dio a cíioraó. ^ 

mo mundo ! Là diíTe Da- porei hum monte a viíta 

vid, que todo o homem, do outro monte , & huaâ 

que tem fé,&: entendimen- glorias a vifta da outra glo- 

to, o que faz muito de pro- ria : o monte da tentação a 

pofitoneílevalledelagri- viílado monteda Trans- 

mas, he difpor a fua afccn- figuração , Sc as glorias do 



çaó : Afcenfiones in corãe 
Taim. /uodíípofuít^invaUe lacry 
^i-^7- marum^inloco^ quempoftiit. 
Pois fe todos defejamos5& 
efperamos que a noíTa af- 
cenção, & aíTumpçaó feja 
para gozar eternamente 
as verdadeiras felicidades 
da Bemaventurançajcomo 
deixamos o caminho do 



mundo à viíla da gloria do 
Ceo : comparando nao 
bens có males 5 fenáobens 
com bens. Por efte meyo 
mais clara , & manifeíla* 
mente , que por nenhum 
outro, fe vera a diíferença 
dos falfos aos verdadeiros : 
6í}àqueos noífos enten- 
dimentos, &: vontades an- 



monte por onde Chrifto dáotaó enganados, ao me- 
nos guia à gloria do Ceo,6c nos nos defenganaráó os 
feguí mos com tanta anciã, olhos. A luz da divma gra- 
& contenda, não digo jà a çafe firva de noios abrir, 
eftrada, feiíáo os preci- & allumiar por interceíTao 
picios, por onde o Demo- da chea de graça. Ave Ma^ 
nio, debaixo do fali o no-, ria, 
me de glorias do mundo , 
nos levaàsmaldiçoens do 
Inferno? 

39 f Ora cu c5 a graça 
divina quizera hoje desfa- 
zer eíla cegueira, que tan- 
tas Almas tem enganado, 
& perdido , as quaes neíla 
vidaanaó conhecerão , 6c 



agora fem nenhum reme- diíferença dos bens, que 




396 OOdo o monte 
Ji da tentação co 
as glorias do mundo à vi- 
ílado monte da Transfi- 
guração com a gloria da 
Ceo5quemnos moílraràa 



3 



4 5 4» Sermão déifegtmda^ominga 

íe prometerr^õ no primei- tão claramente como a luz 



Pfalm. 
46. 



romontejP^ fe prometem 
no fegun'do5fenão quem fe 
achou tm ambos , tentado 
em hum, & transfigurado 
no outro ? Efta mefma du- 
vida tiveráo muitos, que 
refere David , os quaes 
perguntava© : Quem nos 
moíírarà os bens ? Multi 



Ihiij. 



Matih. 

17-2. 



Itid. 



do mefmo Sol nos podem 
moftrar a grande diíFeren- 
ça, que ha entre os bens da 
gloriado Ceo, & os que 
também fe chamão bens 
das chamadas glorias do 
mundo. O lume do Sol he 
puro , 8c fem mancha : he 
tanto para cada hum , co- 



dicunt: ^is oftendit nobis mo para todos : & todo fc 
bo7ia ? E refponde o mef- goza juntOjôc náo por par- 



mo Profeta,queo]umedo 
roílo do Senhor nolos mo- 
ítraria : Signattim efl fuper 
nos lúmen vultus tui ^omi- 
Nunca o rofto de Chri- 



ne 



ílo Senhor noíTo efteve 
mais allumiado5& mais lu- 
minofo, que nefte dia de 
fua Transfiguração , em 
que refplandeceo o fcu ro- 
fto como o Sol : Refpltn' 
duit fácies e jus ficiít Sol. E 
emíinal de que logo aqui 
fe virão os bens , diíFe S. 
Pedro em nome de todos : 
Bonum eft nos hic ejje. Sen- 
do pois o lume do rofto de 
Chrifto o que nos ha de 
mofcrar os bens, & fendo o 
lume do mcilno rofto co- 
mo o do Sol , três coufns 
acho no lume do Sol, que 



tes. Neftas três proprie- 
dades pois do lume do Sol, 
nos moftrarà o rofto de 
Chrifto três diíferenças 
dos bens do Ceo aos do 
mundo,que também feráó 
os três pontos do noííb 
difcurfo. No primeiro ve- 
remos, que os bensdo mu- 
do laó bens com miftura 
de males , & fó os bens do 
CeopuroSjôcfem miftura: 
nofegundo, que dos bens 
do mundo , quando mui,ro 
logra cada hu m os feus,*6c 
nos bens do Ceo logra ca- 
da hum osfeus, & mais os 
de todos : no terceiro , que 
os bens do mundo , fc che- 
gão a fe gozar todos , he 
fuccírivamenrc,& por par- 
tes > porem os bens do Ceo 
fcm- 



iam 



çaó afará taò 
o mefmo Sol. 



fempre, todos, & junta- bens feffl males ,• na terra 
mente. Prometi que tudo ha bens,& males juntame- 
ifto veríamos có os olhos, te. E porque razão ? No 
& pofto que a matéria de Inferno ha fó males j por- 
aleunsdeftes pontos feja que ha fô mãos : no Ceo ha 
fuperior a todos os fenti- fó bens,porque ha fó bonsí 
dos, a luz da Transfigura- & na terra onde andão de 
clara como miílura os bons com os 
máos, era jufto que andaf- 
fem também mifturado» 
^. IH. osbens,&osmales. 

398 A primeira me- 
307 r^Iza primeira ílira deíla verdade he a 
JL/diíferençada mefma natureza em tudo 
noíTapropoíla, que todos o que criou para o home. 
os bens do mundo faô bens No maior mimo dos fen- 
com miftura de males , & tidos, que he a Rofa , cer- 
fó os bens do Ceo bens cando-a de efpmhos, nos^ 
puros,& fem miftura. E aí- deixou, diz S. Ambrofio, 
fim he. Quando Deos nof- hum claro, Sc defengana- 
fo Senhor fabricou efte doefpclhodeftadeliciofa, 
grande edifício doUniver- & dolorofa miftura : Spma ^^^^^ 
fo, dividio-o cm três par- fepjítgratiamflõns tanqua ,b í. 
tes : húa na terra , que he humana fpeculumprceferens'^^^;^ 
cfte mundo em que vive- vita , qu£ Juavtt atem per- 
' ' ' ' funãionis fu£ finitimis cu* 
rarumfpinisjá^pè compun- 
gat. A mefma coníidera- 
çaó feguio , & adiantou 
Boecio, o qual ajuntando 
ao exemplo da belleza o 



mos 5 outra debaixo da 
terra,que he o Inferno,ou- 
tra acima da terra , que he 
o Ceo : & cm todas eftas 



três regioens repartio os 
bens,& os males, mas com 



grande juftiça, ôc diff'eren- da doçurajcantou, ou cho- 
ca. No Inferno hafó ma rou elegantemente : Ar- 
íe^ fem bens 3 no Ceo ha fò matfpina Rofam , mella te* 

Eeij giint 



43^ Sermão da fegunda^omifiga 

gunt apes. E aílim como encia , diíTeraò que Deo5 
naó ha neíla vida Rofa tinha dous tanques , hum 
fem efpinho, nem mel fem de meljoutro de fel, 6c que 
abelha iaílimiião ha pêro- nenhua coufa mandava 



la fem lodo, nem ouro fem 
fezes, nem prata fem li- 
ga, nem Ceo fem nuvem, 
nemSolfemfombra , nem 
lume fem fumo, nem tria- 
ga fem veneno, nem mon- 



aos homens,que naó vieíTe 
paíTadapor ambos :6c que 
efta era a caufa, porque em 
todas as que chegaváo à 
terra , vinha a doçura do 



bem miílurada có a amar- 

te fem valle , nem quanti- gura do mal. Naó podéraõ 

dade fem peio, nem en- fallar mais ao certo, fe ti- 

chente fem minguante, verão lidoa David. Dizo 

nem trigofem palha, nem Real Profeta , que Deos 

carne fem oíFo, nem peixe tem na mão hum Caliz, 

femefpinha , nem fruta, pelo qual dà de beber aos 

porfaborofaquefeja, fem homens,cheo de vinho pu- 

caroço, ou cafca quedei- ro,&: miílurado : CaUx mvcúvtx, 

tarfóra. No mefmo tem- manu^ominivinimeripU'''*''^- 

po de que fe compõem a nus mifto. Repara , Scper- ^^,.,,^ 

nofla vida , naó ha veraó guta S. Agoílinho: piorno- ibit^ 



fem inverno, nem dia fem 
noite. E neíla mefma fe- 
melhança he tanta a diífe- 
rença, que para haver ve- 
raó,6c inverno, he neceíTa- 
riohumanno, 6c para ha- 
ver noite,6c dia, faónecef- 
farias vinte òç quatrç ho- 
ras j mas para haver mal, 6c 
bem , baila hum fò mo- 
mento. 

395) Os Gentios fem 
fé enfinados fó da experi- 



do mert^jtrnixto^Sz o vinho 
era puro, como era miílu- 
radoi6cfeera miíturado, 
cosno erapuio .^ Porque 
naó ha bem natural, Si de- 
fi:c mundo , ainda que da- 
do pela mão de Dcos,por 
mais purOjôc defecado que 
fcja, que não traga cm fy, 
6c configo algúa miílura 
de mal. O vinho hc aquclle 
cordcal ílm pi ez, medicado 
pela natureza para alegrar 
oco- 



da§uarefma. 437 

o coração humano : mas íhor que Salamáo, vede o 



não ha alegria, ou cauíà de 
alegria tão contraria , & 
alhea de toda a triííeza, 
que não dè que penar ao 
coração. Se ri, o rifo fera 
miílurado com dor : íe go- 
íla, o goílo fera metido en- 
tre pezares. Aífim o dei- 
xou em provérbio Sala- 
mãoide prefente como ex 



que faria ? Fabricou hum 
Palácio real ernjerufalé, 
que depois do Templo 
queelle edificara, foi o fe- 
gundo milagre: no monte 
Libano traçou vários reti- 
ros,8c cafas de prazer, em 
que de mais de fe ver jun- 
to todo o raro , &: curiofo 
do mundo , a amenidade 



primentado , & de futuro dos jardins, a frefcura das 
CO mo Profeta : Rifus dolo- fontes, a efpeíTura dos bof- 



remifcebitur , & extrema 
gaudij luBus occupat. 

400 E pois nomeámos 
o mais fabio de todos os 
homens , & o mais opuíen- 
to,& deliciofo de todos os 
Reys, elle nos dirá o ver- 
dadeiro conceito que fez , 
6cnòs devemos fazer dos 
hcns do mundo. Eu me 
refoi vi, diz Salamâo , a m e 
dar a todas as delicias , & 
gozar todos os bens dcfta 
viá-x-fDíxi ego in cor de meoy 
Vãdara, & ciffluam delictjs , 
é^fruar bonis. Com eíle 



prefuDofto querendo , po- menlos : os gados maiores, 

dendò , ^ íabcndo fazer 6c menores, que naqu elle 

quanto quizeíTe , porque tempo também eráo ri- 

niní^^uem pode tanto, nem queza dos Reys , não ti- 

Guiz mais, nem foube me- nháo numero : os cavallos 
Tom./, ^ . Eeiij 




quês, a caça , & montaria 
de aves, 8c feras, & atè as 
fombras no veraó , &os 
Soes no inverno excedião 
com a arte a natureza : o 
trono de mar^m em que 
dava audiência, 5c a carro - 
ça chamada Ferculo , em 
quepaífeava, eraó de tal 
architectura, &: preço, que 
faz particular defcripçam 
dellesaEfcritura : às galas 
deSalamãoomefmoChri- 
ftolhe chamou gloria: os 
thefouros de ouro , &: pra- 
ta,que ajuntou , eraó im 



i ' 



Sermão da fegunda Dominga 
repartidos em coufa viraó léus olhos ,n€ 
inventarão feus penfamé- 
tosjnem appetecéraófcus 
defejos, que lhe negaíTe : 
Omnta qu<e de[ideraverunt 
oculi mei non ncgavl eis^ nec ?.cá. 
prohihiú cor meum qitin om- *°* 



438 
eílavaó 

quarenta miJ prefepios : a 
fumptuoíidade da mefa, 
para a qual concorriaódi- 
verfas Províncias, & a ma- 
geftade, grandeza , & or- 
dem dos OiHciaes, & Mi- 



niftrosjcomqueera fervi- nivoluptatefrueretur. Ef- 
^o j foi a que encheo de tandopois neílas felicida 



pafmoaRainha Sabà : as 
baxel]as,&: vafos eraóde 
ourOjas muíicas de vozes 
exquiíitas de ambos os fe- 
Xos,&os cheiros , & aro- 
mas com que tudo recen- 
dia, quanto cria , & exhala 
o Oriente. Não fallo na 
calidade, & gentileza das 
Damas , filhas ácl^nnci- 
pes,5c €fcolhidas em diíFe- 
rentes naçoens, entre as 
quaes ÍÒ as que tinhaó no- 
me, ôceílado de Rainhas, 
eraofeíTenta, fervidas to- 
das com appararo, & mag- 
nificência Real. Tudoif- 
to gozava Salamaó em 



des de Salamáonaó fó re- 
copilados, mas eíiendidos 
todos os bens do mundo , 
faibamos por fim , que có- 
ceitofezdelíesr Elíeodiz, 
& em bem poucas pala- 
vras: C//j^Wt^ convertijjem 
aduniverfdopera^ cjuafece^ ibid 
runt manus meay& adlabo^ 
res in qtúbus fru ira fiída- 
veram^ vtdi in omnibus va- 
nlt atempo* afjllEíione m ani- 
mi: Voltando os olhos a 
tudo quanto tinha feito, 
em que de balde tinha tra- 
balhado, & faado ( feito 
diz,& trabalhado, v*^ fua- 
do,& náo gozado , porque 



fummapaz,& com igual tudooque gozou, foi de 
fama, fem inimigo , ou re- húác^frujlra )&ío que vi , 



ceoquelhedéífe cuidado, 
& em tudo fe empregava 
comtalapplicaçaó, & ex- 
ceíTojquecllemefmo con- 
feíla de íy , que nenhuma 



& achei em tudo, hc,que 
tudo hc vaidade, ícafíiic- 
çaó de animo ; i-^anitatem , 
& affliãwntm animi.ho-^o 
fe todos os bens do mundo 
. laõ 



da§íuarefma. 4^^ 

faó vaidade, como podem dados, afflicçoens , & do- 

fer verdadeiros bens ? E TQs:Setoto Regm temfore 

ià que lhe concedamos o nec ad unum qmdem hor^ 

nome de bens > fc todos quadrantempuram habml' 

caufaóafflicçaó do animo, fe.meramque Utttiam^ jed 

como podem fer bens fem multis tilam curis , angon- 

miítura de males ? bus, dolonhusque fermtx- 

401 Mas porque nam f/^;». Efeeílatriíle miftu- 

cuidealguem,que do tem- raexprimentáraó nas ma- 

pode Salamaó para cate- iores felicidades do mun 

ráó mudado os bens do do entre os Reys Salamaó 

inundo, ou melhorado de & entre os Emperadores 

natureza; ouçamos outro Carlos; que poderão di- 

erande oráculo quafi de zer das fuás particulares, 

noífos dias. Quando o Em- ainda os mais bem viítos 



perador Carlos Quinto 
fezaquella grande acçaó, 
em que teve poucos a quê 
imitar,& terá menos imi- 
tadores , de renunciar o 
Império j dando as caufas 
defta retirada depois de 
tantas vitorias, confeíTou 
eom lagrimas diante de 
todo o Senado de Bruxel- 
las, que a principal,ou hu- 

nia das principaes fora; , ^ 

porque em todo o tempo & na Coroa o precedia o 
C diz) de minha vida , de- Rey . Tudo governava,tu- 
pois que puz na cabeça a do mandava Jofeph , tudo 
Coroa, nem hum fó quar- lhe obedecia , com nunca 
to de hora tive de pura, & vifta,nem efperada f-elici- 
verdadeira alegria, fenaó dade 5 mas onde ? INo b- 
fempre miílurada có cui- gypto. Nmguem he, nem 
^ - Eeiiij pode 




da fortuna ? 

S. IV. 

4.0Í I^^Randesforaó 
l ^ as q fonhou 
Jofeph , & faíraólhe taó 
verdadeiros os fonhos,que 
de vendido, & efcravo íe 
vioVifo-R.ey doEgypto, 
& com tal authoridade, & 
poderes, quefôno nome, 



3 



44° Sermão dafegttnda dominga 

pòdeferfelicecoma Al- achará que andaõnelletao 



ma noutra parte. O cor 
po, o poder, & a dignida- 
de eílavâo no Egypto , a 
iVlmajO amor, & a faudade 
andavão peregrinando em 
Canaan 5 com que toda 
aquella apparencia dos 
maiores bens da fortuna 
vinhaõ a fer fuplicio , & 



contrapefados os males 
com os bens,que ainda em 
comparação dos maiores 
fe pôde por em balança fe 
pelaómais os males. 

40^ De/oíeph foiPay 
Jacob também aíFáz dito- 
fo. Aquejacob teve pela 
raaior ventura de fua vida. 



deíterro. No Egypto vi- foi quando ao cabo detá- 

vo, na pátria morto : no tosannosdefervir alcan- 

£gyptoapplaudido,napa. çouDor premio a compa- 

tnachc^rado : no Egypto nhiadeRachel. Seo que 

dandode comer ao mun- muicoledefeja, muito fe 

dp, na pátria comido das preza jfe o porque muito 

feras: no í^^gypto tudo, na fetrabalha, muito fe eíli- 

patria nada. Ainda que ma3nenhum goílo.ncnhúa 

J ofeph naÓ fora levado ao alegria teria jà mais quem 

Egypto para efcravo, fe- tanto amava, quefe igua- 

nâo para Vifo-Rey, igual- laíre;com efta. Mas vede 

mente hia vendido : por- quam penfionados dà o 

que muito melhor fortuna mundo os í^oílos , & bens 



era para elle eílar em cafa 
de Jacob , fendo o filho 
maismimofodo Pay, que 
na Corte, &: no Palácio de 
Faraó , fendo o primeiro 
Miniíiro, &o mais valido 
doRcy. Abra os olhos o 
mundo,&:naó fe contente 
com ver os homens por fo- 
ra, pcncrre-os também, & 
coniidcrc ospordumo,<5c 



defta vida. A felicidade 
foihúa,as penfoens forao 
três, & todas aíTáz psfa- 
das.A eílerilidade da mef- 
ma Rachel, os enganos de 
Labam, & os ciúmes de 
Lia.Por mais amadas, & 
por mais pertendidas que 
iciaó as que chamamos 
venturas, todas no cabo 
fao Racheis. Náo ha ila- 
chcl, 



da^arefma. 44.1 

€hel, que naÓ tenha o feu de. Muito eílimão os ho- 

Labaó,& a fua Lia. Se Ra- mens a gentileza , muito 

chel agrada, Labatn mole- eftimaóovalor, muito ef- 

íla:fe Rachel dàgoftojLia timão o entendimento: 

da pena. Qaanto mais que mas perguntem os fermo^ 

para moleftar, Sc dar pena, fos a Abíalam, os valentes 



baftalhe a Rachel fer Ra- 
chel. Lede a hiftoria ía- 
grada, êc achareis que foi 
taó mal acondicionada 
aquellarermofara5que era 
neceíTario todo o amor de 
Jacob para atarar,Sc fofrer 
feusantojos. Muito mais 
trabalho lhe deo depois, 
do que tinha trabalhado 
porella antes. Tão trava- 
dos andao nefta vida os 
goílos com os defgoílios, 
tão mi (lurados os males 
com os bens. Se Rachel 
tem bom roílo , tem nià 
condição : fe Lia tem boa 



a David, os entendidos a 
Achitofel, que penfaó pa- 
gou o primeiro à fua genti- 
leza, o fegundo ao feu va- 
lor,^ p terceiro ao feu en- 
tendimento. Era Abfalam 
taó galhardo mancebo , 
que do pè atè o cabello da 
cabeça, como falia a Efcri- 
tura, nenhum pintou a na- 
tureza mais bello. As Da- 
mas lhe compravaó os- 
cabelíos a peio de ouro, & 
dos mefmos cabelíos ihe 
teceoamortco laço, com 
que pendurado dos ramos 
de hum carvalho, acabou 



condição, tem máo rofto : infamemente a vidajpaílà- 
& não ha bem nenhum taó do pelos peitos com três 



inteiro , que poífa encher 
os olhos , & mais o cora- 
ção. 

Eftendei a viíla , ou o 
penfamcnto por todas as 
coufas do mundo,& vereis 
que não achais húa fó in- 
ííanciiíjnem hum fó exem- 
plo contrario a eíta verda-r 



lanças. E eíla toi a penfaój 
que pagou Abfalam à fua 
gentileza. Era tão valente 
David,que tremendo todo 
o exercito de ífrael á vifta 
do Gigante Golias , elie 
fó,& defarmado aceitou o 
defaí]o,&: derrubado a feus 
pés,com a fua própria ef- 
pada 



44 ^ Ser^^Õ dafegunda dominga 

pada lhe cortou a cabeça feu entendi mento. Fiai- 
Masfoitala inveja , & vos- là de entendimentos, 
ódio, que defde aquella fazei làcafo de valentias, 
hora lhe cobrou ElRey & prezaivos de gentile- 
Saul, que mais de húa vez zas í Tem os males taó vi- 



ço ma lança, que trazia na 
máo por cetro, o quiz pre- 
gar a húa parede. De ma- 
neira que 1 he foi neceíTario 
a David homiziaríè pela 
mor te do Gigante ,como 
fe matara hum Hebreo, & 
fugir da fua vitoria , como 
fe fora delito. E eíla foi a 
penfaõ, que pagou David 
ao feu valor. Era taó en- 
tendido Achitofel, & taó 
prudentes , & fabios feus 
confelhos , queporteíle- 



ciados,& corrompidos os 
bens, que a gentileza he 
laço, o valor delito , & o 
entendimento locura. 

404 Mas para que he 
irmos bufcar exemplos ao 
Teíta mento Velho, fe no 
Novo,6c no noííb Evange- 
lho temos o maior de to- 
dos. Transfígurouíe Chri- 
ílo no Tabor, apparecéraó 
alli Moy fes, & Elias > & 
quádo parece que haviaó 
de dar o parabém ao Se- 



munhodo Texto fagrado nhor, da gloria com que o 
feouviaó como oráculos viáonaquellemonte,oem 



do mefmo Deos. Seguio 
as partes de Abfalam,quã- 
do fe rebellou contra feu 
Pay, aconfelhou-o como 
lhe convinha 5 &: porque o 
moço fatal naó quiz fe- 
guirfenaóoquejà o leva- 
va ao precipicio, foi tal a 
fua defefperaçaójque atan- 
do a banda ao pefcoçOsSc a 
húa trave, fe afogou a fy 
mefmo. E efta foi a peníliô, 
que pagou Achitofel ao 



que lhe falláraó , foi da 
morte que havia de pade- 
cer no do Calvário : Lo- 
que bantur de exceffti, quem \'i'^' 
completiiTus erat in leru fa- 
lem. Pode haver pratica 
mais alhea da occafiáo que 
efta.? Qu^^ndo o roflo de 
Chrifto eftá rcfpíandccen- 
tccomoo Sol, então lhe 
fallãonoccclypfc? Quan- 
do as fuás roupas cli-áo 
brancas como a neve, en- 
tão 



da^arefma. 443 

tàõ lhe fallaõ nos lutos? E fazermos taó pouco cafo 



no dia que tem mais ale- 
gre na fua vida , entaó lhe 
fallaó na morte ? Sim. Por- 
que naó ha alegria nefte 
mundo taó privilegiada, 
que naô pague penfaó à 
triíleza. Atè no monte Ta- 
bor, atè na Peífoa de Chri- 
fto , atè no milagre da 



dos feus chamados bens, 
pela miftura que fempre 
trazem demales^comofe 
verdadeiraméte foraò pu- 
ros males fem nenhúa có- 
poíiçaójou temperamen- 
to de bens. He doutrina, 
que defpedindofe do mun- 
do o Redemptor dellenos 



Transfiguração , por mais deixou eftampada com feu 
foberanos que fejaó os exemplo no meímo mon- 



bens, húa vez que tocáraó 
na terra, naó pode haver 
gofto fem pezar, nem glo- 
ria fem pena. Tanto affim, 
que fe faltar o motivo na 
prefença do que he , have- 
lo-ha na memoria do que 
ha de fer : transfigurado 
agora, mas crucificado de- 



te Calvário. Duas vezes no 
Calvário deraô fel a Chri- 
ftoj húa antes,outra depois 
de crucificado. Antes de 
crucificado , quando lhe 
deraó vinho miftura do có 
fel ; 'Dederunt ei vinum cum Matrh; 
felle mixtum : depois de^^'^"^'- 
crucificado, quando dizê- 
pois. £ fendo a Transfígu- do na Cruz , que tinha fe- 
raçaójcomo logo áiílh o de, lhe deraó fel, Sc vina- 
mefmoChrifto, parecida gre : ""Dederunt in efcam 
com a Refurreiçaó, & naó meamfel^ò' infiti meapota- 1^^^^' 
com a morte 3 viráó dous verunt me aceto. E como fe '^' 
homens do outro mundo, ouve o Senhor em hum,& 
que mifturem a morte có outro cafo ? Em ambos 
a Transfiguração, & con- provou hiia, 8c outra bebi^ 
fundaò oCalvariocom o da,&emambosanaóquiz 

beber. Aíli m o referem da 
primeira, & dafegunda os 
Evágeliílas pelas mefmas 
palavras : Cíè;f/^///?^/f/, i.^3^/ 



Ta bor. 

405- Seja pois a con- 
clufaó dcftas expericcias , 
& defenganos do mundo, 



44-+ Sermão da fegnndaT)omingd 

noluit blbere. Na primeira ambas as bebidas hia fcí. 



I 




bebida, he cerco que hia o 
amargo do fel moderado 
com o doce do vinho, & 
nafegunda hia o mefmo 
fel naó moderado , fenaó 
exafperado com o azedo 
do vinagre.Pois í^q o fel hia 
táo differentemente tem- 
perado em húa, & outra 
bebida, porque igualmen- 
te as regeitou o Senhor 
ambas, fem nenhúa diíFe- 
rença? Porque na primei- 
ra o vinho mifturado com 
o feI,&o doce com o amar- 
go , era o bem miílurado 
com o mal : na íegunda , o 
fel junto com o vinagre, 
era hum mal fobre outro 
mal, fem nenhua miílura 
de bem:& provando Chri- 
llo,& reprovando igual- 
mente húa, & outra bebi- 
da , quiz-nos deixar por 
doutrina , & por exemplo 
naconfufaò dps bens , & 
males de que fe compõem 
efte mundo, que tanto de- 
vemos defprezar, & abor- 
recer o bem miíhiradocó- 
o mal, como fe o bem,&o 
mal tudo fora m:jl,fcm ne- 
nhua mitlura de bem. Em 



em húa juntamente com 
vinho, em outra juntamé- 
te com vinagre, que he vi- 
nho corrupto; & he tal a 
corrupção, que caufa nos 
bens a companhia, & mi- 
ftura dos malesjque o bem 
miílurado com o mal fe 
converte totalmente em 
mal , & perde todo o fer 
que tinha de bem. Faça- 
mos pois de todos os cha- 
mados bens defte mundo a 
eftimaçaò, & conceito que 
elles merecem : indigno, 
qualquer que feja , de fer 
amado como bem , fenaó 
abominado, & aborrecido 
como verdadeiro, & puro 
mal:& pela miUura que 
tem de doce, ainda mais 
abominado , & mais a bor- 
recidojcomo mais falíò,<5c 



enganoío. 



§. V. 



4,06 

cclcffia 

quei 

da gloiia 



SOo 
que 



os bens dá- 
lia pátria 
íó os bens da- 
a terra de Promiffiõ 
fó os bcjiS da- 
quclic Taborda Berna vc- 
turança, 



^a^arepma. 44 f 

turança , fó aquellesuni- arvore da Ciência , &: a 



camcnte fe podem cha- 
mar bens , porque fó faó 
bens fem miftura de ne- 
nhum mal. He o Ceo co- 
mo o Templo de Sala- 
máo, em que nunca fe ou- 
vio golpe de martello, 
porque là, como diz o E- 
vangelifta Profeta, nao ha 
coufa que caufe dor , ou 
pena, nem tire da boca 
hum ay : & faó os morado- 
res do mefmo Ceo, como 
as Eílrellas fixas do Fir- 
mamento , onde naó che- 
gao fumos dos vapores da 
terra , que as offufquem : 



arvore da Vida. Mas a da 
Ciência continha dous 
contrarios,a da Vida naó : 
porque a ciência era do 
bem,& juntamêtc do mal, 
que he o contrario do bê : 
& a da Vida era da vida fó- 
mente,& naó da vida,&: da 
morte, que he o contrario 
da vida.Pois fe ambas craó 
arvores do Paraifo , por- 
quê havia nellas efta gran- 
de differença > Porque 
também o Paraifo naó era 
abfolutamente Paraifo,fe- 
naò Paraifo terreal : & por 
iífohúa das fuás plantas 



gozando todos em fumma era parecida às delicias da 

paz a pátria do fummo terra, &: outra femelhante 

bem , que naó feria fum- às do Ceo. A parecida às 

mo, nem bem , fenaó ex- da terra , era da ciência 

cluiífe todo o mal por mi- do bem,& do mal j porque 

nimo que feja. E por iíTo fó na^rerra fempre o mal anda 

os bens naturaes da mefma miílurado com o bem : âc 

pátria faó puros, finceros, a femelhante às do Ceo, 

& perfeitamente bens , era de vida fem morte } 



fem corrupção, contrarie- 
dade,nem miftura de mal. 
407 Entre todas as piá- 
tas do Paraifo terreal ou- 
ve duas arvores maisin- 
;íignes 5 &dequefófabe- 
;nosonome, que foraó a 



porque no Ceo todo o bê 
liepuroj^c íincerofem mi- 
íl:ura,nem companhia de 
Aílim o diz S. João 



maj 



defcrevendo a Jerufalem 
da gloria: & naó dà outra 
p;2ão deftâ djjíFerença de 

CQB- 



} 



4^'^' Scrmaodiíug 

cottfíis , íeti.io ierein húas 
as Í€giindas, que faó as do 
Ccoiôc outras as primei- 
rasvquefaó , ou foraó as 
deíle mundo: Et mor sul' 
tranon erity neque luãttsy 
Apoc. neque dolor erit ultra , quia 
21.4. prima abierunt. 

408 Para prova dos 
bens deíle mundo fempre 
mifturados com males, 
tomei por teílemunha a 
natureza; & para prova 
dos bens do Ceo puros, & 
fcm miftura, tomemos por 
teftemunha a arte. A arte 
para purificar o ouro, co- 
mo elle he o mais preciofo 
metal , aplicalhe também 
o maisefficaz, ^poderofo 
elemento, que he o do fo- 
i'.yf^* go : Aurum quod per ignem 
probatiir. Alli o purga, &; 
alimpa das fezes , alli o 
prova, & lhe apura a fineza 
dos quilates j & entaó fe 
reputa entre nòspor ouro 
purifiimo. Mas para que íe 
veja o noíTo engano , po- 
nhamos eíTe meímo ouro 
noCeo. Diz S.Joaõ, que 
as ruas da Cidade do Ceo 
VlpfK. faó de ouro limpo : ^toí^^ 
2i.ai. Ci<uiía^}s aurum mundum. 



'iridá ^ominjra 
\í íe perguntarmos y eíla 
limpeza , & pureza cfo ou- 
ro do Ceo em que confi- 
íle? Depois de dizer au- 
rum munaum , acrecenta , ibij, 
tanquam vitrum ferluct- 
dum^ que he puro , &: lim- 
po, porque he diáfano, Sc 
tranfparente como vidro. 
Logo fe o ouro entaó he 
puro , & limpo , quando 
chega a fua fineza a fer 
diáfana , & tranfparente 
como o vidro i bem {ç^íq- 
gue,que o noíTo ouro craf- 
fo, eípefix), opaco , & que 
nenhúacoufa tem de diá- 
fano, nem tranfparente, 
por mais que nos lifongee 
comafuacor , & nòs nos 
enganemos com elle , de 
nenhum modo he ouro 
limpo, Sc ;puro. De ma- 
neira, que comparado o 
ourodaterra,queos Rcys 
põem febre a cabeça, com 
o ouro do Ceo, queosBé- 
aventurados trazem de- 
baixo dos pès, platea ejus ; 
todo o da terra eílà pene- 
trado de fezes, &cheo de 
efcoria, poílo que nòs a 
nao vejamos ^ èz íó o do 
Çeohepuro , Sc limgo. 



aurum mundum 
do, fe pedirmos ao mefmo 
Evangelifta, que nos diga 
com que 



ingredientes 



fe 



purifica tanto efte ouro do 
Çeo ? Refponde, que fó 
com entrar no mefmo 
Ceo : Nonintrabit in eam 
ibiiz;. aliquod coinquinatum, E 
como aquella he a nature- 
za do Ceo, &eíla a da ter 



ãa§luarefma, 44.7 

Sobre tu- da noíTa vontad e, e m quá- 
to quer, he o bera j '& o ob- 
jedoda mefma v<ontade, 
em quanto não quí^r, he o 
mal :& como tudo o que 
ha no Ceo he o bem, & o 
que não ha no Ceo he fó o 
mal j por iíTo ha no Ceo 
tudooque quizermos, & 
fó não ha o que naó qui- 
zermos. Se nos bens do 



ra j a mefma diíFerença de mundo ouvera eíla fepara- 
ouro a ouro nos eníiua, çaó, também na terra po 



que aílim como na terra 
naó pôde haver bem, que 
careça da miftura de mal, 
afllmtodososdo Ceo faó 
puros,&fem miftura. 

409 Se quereis faber 
de mim (" dizia pregando 
S. Agoftinho } o que ha no 
Ceo ? Naó vos poíTo dizer 
o que ha, fem dizer tam- 
bém o que naó ha. Ihl erit 
quidquidvoles , & non erit 
quidquid nolles. No Ceo 
ha tudo o que quizerdes, 
& fó naó ha o que naó qui- 
zerdes. Logo parece que 
o Ceo he feito pela medi- 
da da noífa vontade.? Naó. 
A noíTa vontade he a fei- 



derao homem querer, & 
gozaro bem fem o mal: 
mas por mais que queira, 
naó pôde 5 porque fempre 
o mal anda naó fó junto, 
fenaó penetrado, & infe- 
paravel do bem. E para 
que acabemos de conhe- 
cer a futileza com que os 
mefmos chamados bens 
nos lifongeaô, & alegrão 9 
& com falfas aparências 
degoílo disfarçaó o mal, 
que fempre levaó comll- 
go, levemolos nós ao exa- 
me do Ceo, &làfe defco- 
brirà o feu engano. 

410 Diz o mefmo E- 
vangelifta S. Joaó [ o qual 



ta pela medida do Ceo : & he força, que tornemos a 
porque .^Porque o objeâro ouvir, fuppoílo que S.Pau- 
lo, 



448 Sermão da ftgiinda dominga 

lo, que também vio o Ceo, ÍI05& as da grande alegria. 




nos naó quiz dizer nada.^ 
Diz pois o Evangeliíla t?ó 
notável no que diz , como 
nas palavras com que o 
dizjqueatodos os quede- 
íle mundo paíTaó ao Ceo , 
lhe enxuga Deos os olhos 
de toda a lagrima ; Etab- 
Apoc 7. Ji^^g^^ T>eus omnem lacry- 
*7- mam ab oculis cortim.E que 
quer dizer toda a lagrima? 
Quer dizer todo o género 



que fó a grande alegria, 6c 
o grande gofto fazem re- 
bentar os olhos em lagri- 
mais j porque fe naó haò de 
admitir no Ceo ? Porque 
todas eíTas lagrimas foraò 
deíle mundo. E lagrimas 
defte mundo 5 ainda que 
foíTem de alegria, & gran- 
de alegria 5 nunca podiaó 
fer de pura alegria, & ain- 
da que foíTem de goílo, & 



de lagrimas [como aguda, grande goílo , nunca po- 

& literalmente comenta S. diaó fer de puro goíl ojpor» 

Ambrofio) porq neíle mu- que no mundo naó ha go- 

do naó fó ha lao;rimas de ftofemmiílura de pezar, 



dor,& triíleza, íenaó tam- 
bém lagrimas degoíto5&: 
alegria :&: aíTim de híias 
como de outras enxuga 
Deos CS olhos dos que vaó 
ao Ceo. As palavras do 
grande Doutor da Igreja 
laóeílas; jihjlerget ''Dctis 
omnem lacry mam , 71 am iri- 
fiitia jdpe lacrymas edu- 
cit^fapè& Utúia^jape & 
gaudium. Mas que as lagri- 
mas da triíleza, & da dor 
naó tenhaó lugar no Ceo, 
bemeflà: porém as lagri- 
mas da alegria, 6c do golto, 
& mai^ ^s do graiidc go- 



nem alegria fem miítura 
de triíleza : & femelhantes 
miíluras de nenhum modo 
tem lugar no Ceo, onde as 
alegriasj&: osgoílos , co- 
mo todos os outros bens, 
faó puros, 6c fem miílura 
de mal. A alegria no Ceo 
hc lem trifteza, o goílo he 
fem pezar, o defcanfo hc 
fem trabalho, a fegurança 
he fem receo,o focego fem 
fobrefalto, a paz íem per- 
turbação, a honra fem ag- 
gravo, a riqueza fem cuí- 
dado,a fartura íem faílio> 
a grandeza fem cnveja , a 
abuji- 




ãa ^arefma. 44^ 

abundância fem mingua,a abundantiafine indigentia : 
companhia fem emulação, oãavus pax fine perturba^ 
a amizade fem cautela, a tione : nonusjecuntas alTJ^ 



faudefem enfermidade, a 
vida fem temor da morte \ 
emfím todos os bens pu- 
ros, &: fem miít ura de mal, 
& por i^o verdadeiros 
bens. O Bemaventura- 
dosdoCeo,olhailàde ci- 
ma capara eíle mundo, & 
tende nova gloria accidê- 
taldos bens que gozais, 
naò digo em comparação 
dos malesjfenãodos bens, 
quenôs padecemos. 

411 Mas confirmenos 
cila corrente de bens fem 
males hum compédio dos 
mefmos, & femelhantes 
âttributos 5 com exclufaó 
cada hum do feu contra- 



que timore : decimus cogni- 
tio abfque ignorantia : unde- 
cimus gloria (me ignomima: 
duodecimus gauàium fine 
trifiitia. Atè aqui o Dou- 
tor Seráfico, o qual neftas 
doze prerogativas de bens 
fem males nos defcreveo 
hum inefável zodiaco de 
glorias , o qual todos os 
Berna venturadosnaó nos 
dozemezes doanno,nem 
nas doze horas dodia,mas 
fempre,& fem ceifar eftaã 
correndo, & gozando im- 
movel mente no circulo 
fem fim da eternidade. Di- 
tofos elles, que gozaô tan- 
to bem ; & nòs também di- 



rio, os quacs reduz S. Boa- tofos,fe nos difpuzermos 
ventura a numero de do- ao nao perder. 



2C, como outros tãtos fru- 
tos da Bemaventurança. 
Trimus eft fanttas abfque 
infirmitate-.fecundusjuven^ 
tus fine feneãute : tertiusfa- 
tietasfmefafiidio : quartus 
libertas fine fervitute : quin- 
tus pule hritudo abfque de- 
formitate \fextus impaffibi- 



41a A Segunda dif- 
jCjkS^réí^^ da nof- 
fa propoíta , he, que dos 
bens do mundo quando 
muito logra cada hum os 
feus : dos bens do Ceo, & 



litas abfque dolore '.feftimus no Ceo Ipgra cada hum os 
Tom. 7. Ff feus, 



45 ^ Sâr//:ao dafegunda 'T>om'mga 

íeus, & mais os de todos, cida a verdade, fe lhe nam 

DiíTe quando muito; por- reftituiíFe.Suaeraafazen- 

que muitas vezes naó ba- da doPay de familias do 

fta, que os bens deíle mun- Evangelho, encomendada 

do íejaó noíTos, para que o a hum feitor, para que ar- 

mefmo mundo nolos dei- ' ^ 
xe lograr. Sua era de Na- 
both a vinha, & naó fó fua 



ZI.2. 



por todos os direitos hu- 
manos, mas por diftribui- 
çaó,6cdoaçaó divina, & 
por mais que elle a quiz 
Iograr,& defender, baftou 
queElRey Achab tiveíTe 
appetite de pi atar no mef- 
mofitionaòhum bofque, 
ou hum jardim, fenaóhúa 
horta de verduras popula- 
res, Hortum o ter um s para 
que em adulação do mef- 
mo Rey lhe fofle tirada 
poriuftiçaavinha,& mais 
ávida. Sua era de Miphi- 
bofeth a herança de feu 
Pay Siíul,em que vivia pri- 
vadamente, quando tinha 
direito para afpirar à Co- 
roa,6í bailou o falfo teíle- 
munhodebura criado in- 
fiel, para que acufado fal- 
famente de crime de lefa 
Magcílade, lhe foíTc con- 
fífcadaamcfma herança, 
&z ainda depois dç conhe- 



recadaíTe as rendas dos 
que a cultiva vaó, & nam 
baftou que conííaíTe por 
efcritos o que cada hum 
devia , para que o mefmo 
feitor naó roubaíTe grande 
parte das mefmas rendas 
com tal aftucia , que nem 
demandar o pode o Se- 
nhor, & em vez de o acu- 
far, o louvou. Mas q mui- 
to que a cobiça,&: inHdcli- 
dade alhea nos naó deixe 
lograr os bens deíle mun- 
do.por mais que fejaó nof- 
fos-, fe nos mefmos lem 
outro inimigo, ou ladraó 
bailamos , & por noíTa vó- 
tade , para nos deípojar 
dellesí PozDeosa Adam 
noParaifocom obrigação 
de que o cultivaílc&guar- ^^^^ 
dalle: ^t operarctur^& cu- ;.if. 
flodiret íllum Sc eíla fcgú- 
da parte quando menos 
parece que naó tinha lu- 
gar naquclle eíiado. Outro 
homem, de quem Adam 
ouvefie de guardar o Pa- 
ra ifo. 



raifojnaòohaviano mun- MasnaóíicaíTim. Fupara 



do. Para os animaes tam- 
bém naó era neceílaria a 
o-uarda, porque todos por 
inftinto natural , & foge i- 
ção inviolável o obede- 
ciaó: logo de quem havia 
de guardar Adam o Parai- 
fo^Dequem o naò guar 



lograr o meu , heime dé 
guardar de vòs: & vòs pa- 
ra lograr o vpííò , haveis^ 
vos de guardar de mim. 
Poriílbchamao Santo ao 
meuj&teu com elegância 
verdadeiramente áurea, 
palavra fria : Meum^ac tuu 



dou . Havia- o de guardar frjgidíim illud ver hum. E 
defymefmo: & porque quefrieza50u frialdade hc 



Adam o naó guardou de 
Adam, fendo os bens que 
poíTuia todos os do mun- 
do, elle mefmo,& fó elle fe 
defpojou de todos,fem ha- 
ver outro, que lhe impe- 
diífe o logralos. 

4,1 g Dando a razaó 
defta differença entre os 
bens do mundo, 6c os do 
Ceo S.Joaó Chryfoílomo, 
diz em húa palavra, que 
he, porque no mundo ha 
ineu,&:' teu,& no Ceo naó: 
Vbi non eft meum , ac tmim 
frigidíim illud njerbum.An- 
tes parece,que porque no 
inundo ha meu,& teu, por 
iíTo havia de lograr cada 
humofeu pacificamente, 
& fem cótenda : eu o meu^ 
porque he meu ; &: vos o 
voífo , porque he voífo. 



efta do meujfic teu ? He taí 
frieza,& tal frialdade, que 
naô ha amor no mundo 
tão ardente por natureza , 
&:táointenfo por obriga* 
ção, que logo não esfrie. 
Em havendo meu, & teu, 
não ha amor de amigo pa- 
ra amigo,nem amor de ir- 
mão para irmão, nê amor 
de filho para pay,né amor 
de pay para jfilho , nem 
amor de próximo , por 
líiais religiofo que feja,pa- 
ra outro próximo , nem 
amor do mefmo Deos pa* 
ra Deos. Antes de haver 
meu , & teu , havia amor, 
porq eu amavavos a vòs,Sc 
vòs a mim: mas tanto que 
omeu,& teufe meteo de 
por-meyo,8cfe atraveíTou 
entre nòs, lo2;o fe acabou o 
Ffij axiioti 



4-52 Sermão ^afegunda dominga 
amor 5 porque vòs jà me mitesdecadahum,inven- 
nãoamaisamim jfenaó o táraóos marcos j & para 
meu 5 nem eu vos amo a guardara vinha , & o po- 
vos, fenão o voílb. No mar, inventarão os vala- 
principiodo mundo , co- dos, asfylvasjas {ç.Yts^^ 
mo gravemente pondera as paredes de pedra liga- 
Seneca, porque nao havia da, ou foi ta > mas tudo lílo 



guerras ? Porque ufavaó 
os homens da terra como 
do Ceo. O Sol , a Lua , as 
Eftrellas , & o ufo dafua 
luz he comum a todos, & 
aíHm era a terra no princi- 
pio: porem depois que a 
terra fe dividio em diífe- 
rentesfenhores, logo ou- 
ve guerras, & batalhas, & 
fe acabou a paz , porque 
ouve meu,& teu. 

414 Que direi dos me- 
yos, & dosremedios, das 
induftrias, das artes, ^m- 
fl:rumentos,que oshomês 
tem inventado , para que 
€ada hum podeíTe poíluirj 
& lograr o feu íegura , 6c 
quietamente -, mas fem 
proveito ? Para guardar a 
cafa inventarão as portas, 
Ocas fechaduras i mas pela 
mefma abertura,poronde 
cncra a chave, deixa tam- 
bém aberta a entrada para 
ii^azua. Para finalarosli- 



fe rompe, & fe efcalla. Pa- 
ra guardar as Cidades in- 
ventarão os muros , os fof- 
fos, as torres,os baluartes > 
as fortalezas, os preíidios, 
a artelharia , a pólvora; 
mas naó ha Cidade taó 
forte, que por bataria , ou 
por aíTalto, ou minada por 
debaixo da terra, ou pela 
ar, fe naó expu gne, & ren- 
da. Para guardar os Rey- 
nos, & os Impérios inven- 
tarão as Armadas por mar, 
& os exércitos por terra , 
tantos mil foldadosa pè, 
tantos mil acavallo, com 
tanta ordem,&: difciplina , 
com tanta variedade de 
armas, com tantos artifí- 
cios,&:machinas bellicas; 
mas nenhum deíles appa- 
ratos taó eílrondofos, & 
formidáveis tem bailado, 
nemparaqucos Aílyrios 
guardalTcmo fcu Império 
dos Perfis, nem os Perfas 
o fcu 



o feu dos Gregos, nem os 
Gregos o ícu dos Roma- 
nos, nem os Romanos fi- 
nalmente o feu daquelles a 
q\iem o tinhaó tomado, 
tornando a fcr vencidos 
áos mefmos que cinhaô 
vencido , Ôc dominado. 
Mais inventarão , & fize- 
raô os homens a eílemcf- 
mofimdc coníervar cada 
hum o feu. Inventarão, & 



guim com a chuça , todos 
foraó ordenados p::ira con- 
fervarem a cada hum no 
feu , & todos por diíFeren- 
tes modos vivem do voíTo. 

§■ vn. 

41 f TT Sta he húa das 

^, razoens,a qual 

o divino Meftre Chriílo 

Senhor noíTo nos allcga> 



firmarão Leys, levantarão para que façamos os nof- 
Tribunacs , conílituiraó íbs thefouros dos bens do 



Magiílrados, deráo varas 
às chamadas Juíliças com 
tanta multidão de Mini- 
ílros maiores, & menores, 
€c foi com cífeito tão con- 



Ceo,& no Ceo, & naô dos 
bens do mundo, & na ter- 
ra } porque na terra ha l^^-uiath, 
droens , & no Ceo n2LO'.^^^<^' 
Nõlite thefaufízare vobis 



trario, que em vez de dc« interra^ ubi arugo^à' tinea 
Ôcrrarcm osladroens, os demoUtur^ & ubi fures efo-. 



nictéraõ das portas adcn* 
•troi^c cm vez dcos extin- 
guirem, os multiplicarão í 
éc os que furtatáo com 
ínedojéc com rebuço, fur-* 
táo debaixo de ProvifoéSa 
&: com imra unidade. O 
Solicitrdor com a diligen- 
cia, o Efcriváo com a pcn^ 
na, a Tcftcmunba com o 
i^ramcnto^ o A vogado có 
a allegaçâo, ojulgador cô 
f fçaten,ja , êc, atè oBeii-. 



diunt^&furantur^ Thefam 
fizate atitem imbis in O^. 
ki ubi neque arugo-^nequetiÀ 
nead^moíitttr ,& aht fures, 
non effoimnU necfttmntur. 
Nas quaes palavras fe de- 
ve notar m uito, quenáo fó. 
nos aconíelha, &: manda í>> 
Senhor,que guardemos. ^^^ 
noííbs bens dos ladroensv 
da cobiça , fenãotambem 
dos ladroens da nattirezar : 
VkidrugOy&tinea demoU^ 
Ff iij tur^ 



4 í 4 Sermão ãafegtinda 'T^ominga 

tur. Os bens deíle mun- Que faó todos os eíemen* 

tos, fenáo huns roubado* 
res unívcrfacs de tudo o 
que grangea,& trabalha o 
género humano ? O fogo 
nos rouba com os incên- 
dios, a agua comasinun- 
daçoensjoarcomas tem- 
peib des, & a mefma terra 
com os exércitos innumc- 



do,como faó corruptiveis, 
ainda que náo haja ladrão, 
que os furte, el!es mefmos 
fcnosroubáoi porque as 
roupas, por preciofas que 
fejáo, come-asa polilha, 
que nafce das mefmas rou- 
pas j & os metaes , ainda 
que fejáo ouro, & prata, 
roe os a ferrugem,que naf- ravcis de pragas , que co- 
ce dos mefmos metacs. mo femcada comos den* 



Porém os bens doCeo,quc 
faô in corrupd veis , nem 
dclles fe pôde gerar vicio 
de corrupção,que os gaite, 
nem a lima furda do tem- 
po, que tudo confomc, lhe 
pòdc meter o dente j por- 
que a fua dureza he como 
a fua duração , & faó bens 
eternos. Oh quanto mais 
nosenfinou o divino Mc- 
ftrc neílas paIavras,do que 
cilas dizem! Quando não 
ou vera Coííàrios no mar, 
nem falteadores nos cami- 
nhos, nem ladroens publi- 



tesde Cadmo, nafcem, & 
fe levantão delia , para ou- 
tra vez nos roubar o que 
nos tem dado. Ouçamos 
ao Profeta Joel. Rtjiduum 
eruca contídit locujia : re- 
fiduum locujla comtdtí ^í-H 
bruchus : re fiduum bruchi 
comeãitrubigo. V'icráo,diz 
JoeI,quatro pragas fuccef- 
íivas à terra, hãa fobre a 
outra E que íizerao ? To- 
talmctcdevaíUráoa mef- 
ma terra, íèm perdoar a 
quanto ella dà cultivada, 
ou cfpontanca mente cria , 



cos , & fccreros no povoa- & fem cultura. O que áni- 
do i qucmjia tão podero- xou a lagarta, come o o íza 



fojqucpoffaconfervar, & 
lograr o que poíTue ncíle 
mundo contra os roubos 
inevitáveis da natureza? 



fanhoto; o que deixou o 
gafanhoto, comeo o pul- 
gão; & o que deixou o pul- 
gão, comco a ferrugem. 
De 



BB 



De forte, que para ferem eftecafo,os cuidados, os 



defpojados os nomens dos 
maiores bens, & mais ne- 
ceílàriosàvida, quacs fao 
aquellesdc queella fe íii- 
ftcnra,náo depende a fua 
perda,& defgraça das ho- 
llil idades , & roubos dos 
Sabéos,&dos Chaldêos, 
que deriruirào as terras, os 
gados , & as herdades de 
Job 5 mas baftão fó as pra- 
gas naturaes da mefma 
terra corrupta, para que 
cm hum momento fique 



trabalhos,& osfuoresdos 
que toda a vida, & todo o 
amorempregáo em acqui- 
rír,& aumentar os chama- 
dos bens dcfte mundo, fc 
no mefmo tempo cm que 
cuidâo que faò feus, ná© 
fabem para quem traba- 
lhão ? He ponderação do 
frande Rev , & Profeta 
)avid, trifte verdadeira- 
mente,&digna de quebrar 
as mâos,& os ânimos a to- 
dos os que debaixo defta 
tão pobre como Job, qual- ignorância fe canção. Lhej pr^w 
querquefoífe tão rico, & fmrizau&ignotat cm ca- 387. 
abundante como elle. Tu- gregabtt ea : Acquirem, 
dooquenafcena terra, o ajuntão, enthefourao, & 
SoI,&:achuvaocria; mas não fabem para quem. 
o mefmo Sol, fe he dema- Cuidáo que he para fy o 
fiado, o queima^ & a mef- que chamaó feu, & nao he 
ma chuva, fe he muito cò- feu, nem para fy •, porque 
tinuada, o afoga : para que he para outrem, & tal vez 
acabemos de nos defenga- paraomaior immigo.Af- 
-mr da pouca firmeza , ou fim lhe aconteceo àquelle 
fegurança ,que pôde ha- Rico, a quem o Evange- 
ver nos bens, que não faó lho canoniza com nome 
do Ceo , pois as mefmas nâofó de nefcio , mas de 
caufas, que os dão , os ti- eftolido,/«/í^. Dava o pa- 
rlo, & as mefmas que os rabem à fua Alma pelos 
produzem,os matão. muitos bens, que tinha jii- 

416 E como ficáo bal- tos para muitos annos ; A- r^^^.^ 
4a4os, ainda fcm chegar a nima nita^habes multa hcna - 9. 
. ''^ Ffiiij m 



4S^ Sermão da fegunda, dominga 

in anrwsplurmos, E fendo jamos, que ouve bum hc 

mandado fair deíle mun- memcaó mimofo da for- 

donaquella mefma noite, tuna , que todos os bens 

obidao. ^ P^^g""^^' 9.^1^ i^^e iize- que poíTue deftc mundo , 

t^o.íov. Et qu£ parafti^ ou herdados, ou acquiri^ 

cujuserunt^-^ todoseíTes dos,os logrou pacificamc. 

bens,queajuntafte,&cha- te,fem que a inveja dos 

mas bens, cujos feráó ? O iguaes,nem a potencia dos 

trabalho foi teu, Sc os bens maiores lhe inquictaíFe a. 

lerão d^ quem naô fabes. poíTe, ouduv^idaíTeo do^ 

Nao aíTim os h^m do Ceo, m inio ; que felicidade hc a 

}>ra]m. GIZ o mefmo Profeta. La- defte homem ? Primeira- 

ia/a. hresmanuumtuarum.quia mente com fer fingida &: 

manducabis, beatus es , & nao ufada , fe os bens faó 
^ene tibi ent. Vos tra balJia- 
icis neíla vida -, mas na ou- 
tra fereis Bem aventurado, 
porque comereis o fruto 
<ios voííbs tra bal hos,ou os 
mefmos trabalhos de vo€- 
fas máos; Labores manuum 



poucos, nãodevedeeílar 
contentei 6c fe Çàò mui* 
tos, quem duvida,que ain- 
da defejamais.^ Sendo ccr- 
to,queemhum, & outro 
caio mais vem a padecer, 
loerai 



que a lograr o qae tem 
titarum, Aquelle foi cano- Mas íê por graça efpcciai 
nizadopor nefcio, & eííe de Deos he eíTe homem 



por Berna venturadoj por 
que fó os que trabalhão 
pelos bens do Ceo fabem 
de certo , que trabalhão 
paraf^^&parao quehe,& 
hadeferfeu eternamente. 



5- VIII 



417 



M 



As conceda- 
mos 3 ou hn- 



táo moderado, &taó fe- 
nhor de feus appetires,quc 
com o fcu pouco, ou o feu 
muito, fe dà por ratisfei- 
tojpoíTue, & logra mais 
algúa coufa que o fcu / 
Não. Pois eíhi he a ditfc- 
rença,que ha entre os bens 
do C eo, & os u o n 1 u n d o. 
Os do mudo quando mui- 
to,^ por nula^rc, tanto d* 
xia- 



JM 



da^arefma. 45-7 

natureza, como da fortu- portionem fubftantia^ qua 
na,Iogra cada hum os feus: TpÊcontingit. E eíle pecca- 
os do Ceo naó fó logra ca- do cometido em prefença 
da hum os feus/enaó tam- do Pay, coram te , confeííà 



bem os de todos. Oh fe en- 
tendeííemos bem eílepõ- 
tOy que pouco caíb faría- 
mos dos bens da terra] 
Arrependido o Filho Pró- 
digo do mal aconfelhado 
que havia íido em fua vi- 
da paíEida , veyo bufcar 
outra vez a caía do Pay-) & 
lançado a ícuspèsjlhedif. 
íè : 'Pater^Decvavi in Caiu , 
ér coram te: Pay meu j eu 
em voíTa prefença pequei 
contra o Ceo. Os pecca- 
dos, que fe condenaó no 
Pródigo ) todos foraó co- 
metidos em aufencia do 
Pay,âc muito longe dellei 
ibid. x^i^ regionem knginquam: 



IrUC. 



que peçca do foi I ogo eíle gra cada hu m o feu , fena ni 
de que principalmente fe o de todos, Nomefmoca- 
acufa, cometido em pre- 
fença do Pay, 5c contra o 
Ceo ? O único peccado, 
que cometeo o Pródigo 
em prefença do Pay , toi 
pedir que lhe déífe em vi- 
da a parte da herança, que 
lhe tocava, porque queria 



lograr o ít^x^Ti^miida mihi es , ^ omnm mea tmfunt : 




o Filho arrependido, que 
foi peccado contra o Ceo : 
^eccmnin C^lum ? Sim; 
porque pedir fóafua par- 
te, & querer lograr iòm en^ 
te o feu, foi igualar o Ceo 
com a terra. Na terra, 
quando muito, logra cada 
hum a porçaó dos bens, 
que tocáo a cada hum : ^a 
mihi portionem fubfianti£^ 
qíi£ mecontingtt ; & quem 
he filho do Pay do Ceoj & 
criado para o Ceo , con- 
tentarie fó co m o feu , h e 
injuria, he aggravo , be 
peccado grande, que co- 
mete cot ra o mef mo Ceo, 
porque no Ceo náo fó lo 



íb o temos. 

4 1 8 Eftranhando o fi- 
lho mais velho as fedas 
com que o Pay celebrava 
a reftituiçaó,6c vinda do 
mais moço , as palavras^ 
com que o confolou,foraó 
eílas : Fili^tufemper mecum 



45"^ Sermão dafegunãa n^omlnga 

Fiiho\ vos fempre eftais hum. Sedfic à perfecíis^é' 




coraigo , & tudo quanto 
tenho, he voíTo. Nefte tu- 
do repara muito S. Ago- 
ítinho : porque tendo o 
Pay outro filho, & o Pró- 
digo outro irmáo , como 
podia o Pay dizer a hum 
dellcs,quetudoo que ti- 
nha era feu ? ^tdfibi vult, 
omniameatuafunt^ quafi 
nonfint & fratris ? Nem 
obáa , que hum dos filhos 
nunca íahiífe da cafa do 
Pay , & o outro fora delia 



immortalíbus filijs haben - 
tur omnia^ utjmt ò* omniu, 
jingula^ ét omrúa Jingulo- 
rum : rerpondeelegante,& 
doutamente o mefmo S. 
Agoftinho. Nefte mundo, 
onde os homens faó mor- 
taes , & os bens também 
mortaes, cada hum logra 
fomente o feu •, porem no 
Ceo, ondeos homens, & 
os bens faó im mortaes, ca* 
da hum lograodecodos,& 
todos o de cada hum, O 



viveíTctaò perdida mente> peccador arrependido lo- 
porquejà eftava arrepen- gra a gloria do innocente, 



didodeíTamefma vida: Sc 
onde oPayhe Deos,tan- 
to direito tem à herança 
dos fcus bens os arrepen- 
didos,como os innocentes. 
Aílim que a duvida toda 
eíl:à,ondea põem Agofti- 
nho,quc he no omnia : Om- 
ma mea tuafunt. Pois fe os 
herdeiros , & os irmãos 
craó dous-, como diz o Pay 
que tudo era de hum ir- 
mão , fendo também do 
outro ? Porque fallou co- 
mo Pay do Ceo , & dos 
bens do Ceo,onde tudo he 
de todos > & tudo de cada 



que nunca pcccou, & o in- 
nocente, que nunca pec- 
cou, logra a do peccador 
arrependido: & nem o in- 
nocente por innocente cx- 
clue o peccador , nem o 
peccador por peccador 
defmerece o que logra o 
innocente i mas todos go- 
zaóodecadahum, & ca- 
da hum o de todos : Om- 
niumjingíday ô' om/.ia Jin» 
gulorum. 

419 Haverá por ven- 
tura na terra algum exem- 
plo, que nos declare cfta 
reciproca, & total còmu- 
meação^ 



nicaçaõ, taõ total, & toda também 
em todos , como total , & 
toda em cada hnm? Nun- 
ca ouve, nem podia haver 
tal excmplojou íemelhan- 
ça na terra -, masfó a ouve 
depois que deceodo Ceo. 
Equalhe? O diviniílimo 
Sacramento : Tanis^ qui de 
í^jT ^^^^ àefcendit : o diviniíli- 
mo Sacraméco lie penhor 



4fP 

a íèmelhança $ 

porque fem femelhança 
não pôde haver figura. Lo- 
go fe o Sacramento , em q 
não vemos a Deos,he figu- 
ra da gloria 5 que confífte 
emveraDeosi onde eftà 
efta figura , & efta feme-í 
Ihança? Admiravelmente 
o dizem as mefmas pala- 
vras da Igreja : ^íam pre- 



da gloria, ôr figura daglo- tioficorporis , & fmguinií 
ria. Húa , & oucra coufa tui têporalisperceptio pra- 
nos enfina a Igreja: pe- J%"íír<2í.Notefe muito apa- 
nhar da gloria , future gío- la vra perceptio : náo confí- 
Ti^noms pigniis datm : ^^ íle a figura, & femelhança 
gura da gloria , quam pre' do S:icramento com a g1o^ 



tiõficorpjns , ér fmgumis 
tiii têporalis perctpttoprafi^ 
gurat, O penhor, para íèr 
penhor, náo be neceífario 
que ren ha a íè m e 1 ha í i ca , 
fenáo o p reco, & va I or do 
que aíTegura. Aífim ve- 
mos, que a baxella, outa- 
peceria he penhor de tan- 
ta quantia, quanta fe nos 
fia debaixo delia : & ifto 
mefino tem o valor, & pre- 
ço infinito do Sacramen- 
to, em quanto penhor da 
gloria, ^^las para fer figu- 
ra da gloria^ naó bafta fó o 
valor , & o prejo j fcjoam 



na no que recebemos, po- 
lio que feja o mefmoDeos; 
mas confiíí e no modo com 
que o recebemos : Tempo- 
r di s per ceptttpr afigurai. E 
porque,^ Porque a ilim co- 
mo no Sacramento tanto 
recebe hum,como todos, 
& tanto recebem todos, 
como cada hum i aílim na 
gloria tanto lograó todos> 
como cada hum, & tanto 
cada hum,como todos. Cà 
na terra, como ha a divifaó 
de meu a teu^cada hum lo- 
gra os feus bem, mas nam 
participa os dos outros? 



» 



Luc. 
3) 



Mattb. 
17.4- 



46^0 Sermão dafé^\ 

porém no Ceo os pro- 
prios, & os dos outros ta ri- 
to Hió comuns de todos, 
como particularesde cada 
hum, porque là nao tem 
lugar cita divifaó. 

4Í0 Daqui fe enten- 
derá o fundamento, por- 
que S.Pedro noTaborfoi 
notado pelos dous Evan* 

feliílas S. Marcos , &• S. 
,ucas com húa ccnfura 
taò pcfada como de naó fa- 
beroque diíTc : Ntfiims 
quiddíceret. O que áiííi^ S. 
redro, foi , que fizeíTcm 
alli três tabernáculos, hum 
para Chrifto , outro para 
Moyfes, outro para Elias : 
Faciamm hic tr^a ta^erna^ 
culãitibiimumyMoyJi tmurrh 
&Elf£imufn. E cm que 
efteveo erro, ou dcfacerto 
digno de taò notável , 6c 
declarada cenfura? Eílcrc 
cm que íendo o Tabor 
naòíó hum retrato da glo- 
ria do Ceo, fenaò hCia par- 
ticipação própria , & ver- 
dadeira do que nella íe go- 
za vquizS. Pedro introdu- 
zir 5 & cítabelecer noTa- 
borhua couía taô impró- 
pria, & alhea da meíaia 



haf 



unda Vomivga 
gloria, como teu, &:tcii: 
Tíhi unum^ Moyfi unnm^ & 
Eliaunum. Excellentemé- 
tc S. Pafc ha fio. Error in 
céLíífa eft^quta triafipromit- m^' h'." 
titf acere tabemacuUy unu 
Jciltcetj ac privai um Jofu ^ 
alterum Môyfi^ & ídiud E- 
Itíf^ua/inon eos caperet usu, 
tahemaculunf jfeu in unop^ 
mulconfiperenonpojjent. S. 
Pedro como deíIntereíTa- 
donaóquiz introduzir na 
gloria o meu » &onofíb, 
porque naó diíTc que faria 
tabernáculo para Ç^^ ncid 
para os companheiros, 6< 
a tè aqui naó errou callan- 
do: porem tanto qne fal-i 
lou,& difíe v^ntum ttvi , naó 
parando alii, mas queren- 
do dividir os tabernacu-» 
los , & fazer outro para 
Moyfcs, & outro para É^ 
liasj como fc todo?} naa 
coubeílem no mcfmo ta-^ 
bernaculoj ou o niefmo ta- 
bernáculo naó foíTc capaz 
de todos i aqui, ^ ncíla ái^ 
vilaò, he que cilcvc o íeu 
çno, porque na gloria do- 
Cco, que o Tabor rcprc- 
fentavajO tabernáculo de 
Moyfes hc de Elias, & o do 
Elia^ 



da ^arefma. 4^1 

Elias he deMoy fes, fico de borem. Os indoutos', por- 
Moyfes , & Elias hè de que também muitas vezes 
Chriftb, & o de Chrifto hc 
de Moy fes,& he de Elias, 
^hede Pedro , & he de 
João, 6c he de DiogOjfem 
excluir a ninguém , mas 
cómunicandofe naó fó 
univerfalmente a todos/e- 
naó particularmente a ca- 
da hum. 



í. IX. 

421 /^^Ontraefta dou- 



trina porem , 
poílo que taó provada, me 
parece que eftão replican- 
do naó fó os doutos, & in- 
doutos da terra^fenaó tam- 
bém os Bemavencurados 
do mefmo Ceo. Os dou- 
tos, porque muitas vezes 
leraó no Evangelho : Tunc 
redàet tmkutque fecundum 
opera ejm: Et in qua menfu- 

Marc.4. ra menfifuerttis^ remetietur 

^ 'uobis : & em S. Paulorj^i 

■X. Co- farcèfeminati parcè éy ine- 

úrxt.^.e.fef .^^ qui femmat in beyie- aífímlà por dentro ha m:^- 
dí5íionibíiSy de benediõíio- ior es, 6c menores dignida- 
nibus i^metet : Etunuf- des, maiores, & menores 

'»: Co- quifquepropriam mer cedem coroas, maiores, & meno- 
accipietjecundím Juum la"^ res lumes da viíta de Deos, 

&na 



Match 
■6.27. 



tem ouvido na interpreta- 
ção deftes textos , que os 
prémios do Ceo fe haó de 
diílribuir a cada hum por 
jufl:iça;&que a medida la 
do gozar ha de fer a meí~ 
ma que cà foi do fervir : 6c 
que quem fêmea pouco , 
colhera pouco, 6c quem 
muito, muito : 6c queapa- 
ga,que ha de receber o tra- 
balhador, ha de fer confor- 
me o feu trabalho. OsBê- 
aventurados finalmente j 
porque he certo , que no 
Ceo ha muito differentes 
grãos de gloria, como fo- 
raó diíferentes na terra os 
da graça: 6c que aílim co- 
mo cà por fora vemos que 
no mefmo Ceo húa he a 
claridade do Soljoutra a da 
Lua, outra a das Eftrellas: 
Alia dar it as Solis^alia cla^ 
ritas Luna^ & alia ciar it as ^ ^ 
Stellarum : Stella enim ^if.^x! 
Stella differt in ciar it ate 5 



^6i 
&na 

rança maiores, & menores 
participaçoens , ou como 
diz S. Paulo , pefos delia. 
Pois fe os BemavenCura- 
dos na gloria, & as glorias 
dos Bemaventurados naó 
•faó iguaesj como pôde fer 
primeiramente , que em 
tanta deíigualdade do que 
poíTuem , eftejaõ todos 
igualmente contentes : & 
que fendo o que cada hum 
poíTue próprio de cada hú, 
gozem todos igualmente 
o de cada hum , & cada hú 
igualmente o de todos ? 



Sermão dafegunda T>ominga 
mefma bemaventu- nefta mefma differenca, 
pofto que deíigual , toáos 
refpedbivamente , & cada 
humeftaó igualmente có- 
tentes -, porque nenhum 
quer, ou defeja mais do 
que tem : fundandofe a 
igualdade do mefmo con- 
tentamento na medida da 
própria capacidade, & na 
proporção da juftiçajconi 
que fe vem premiados. Cà, 
onde todos apetecemos 
fer maiores,naô fe entende 
iílo j mas fácil mente fe pô- 
de comprehender por va- 
rias femelhanças. Levai ao 
422 Para declaração de- mar três vafos, hum gran- 
'fíe,que parece enigma, ha- de, outro muito maior,ou- 

tro muito mais pequeno, 
& ene hei- os todos ; nefle 
cafo o vafo menor tem 
menos agua, o grande tem 
mais , èc o maior muito 
mais:& com tudo neíia 
mefma dcfigualdade ne- 
nhum admite, nem pòdc 
admitir mais do que tem ^ 
porque cada hum fegúdo a 
ília capacidade eílà igual- 
mente cheo. Tem hum 
pay três filhos, hum mini- 
no, outro moço , outro jà 
homem feito : velho a to- 
doí. 



vemos de fuppor, que no 
Ceo ha ver , & gozar a 
Deos , em que coníiíle a 
gloria eífencial : & ha go- 
izarfe da mefma gloria dos 
que vem a Deos, & o go- 
■záo, que faó duas coufas 
muito díverfas. Na gloria, 
que confiíle em ver, & go- 
zar a Deos , ainda que al- 
guns poífaó fer iguaes, ha 
-muitos grãos de differen- 
«ça,& exceílb , fcgundo o 
maior, ou menor mereci- 
mento de cada hum, Mas 



da^arefma. j^,6^ 

dos da mcfma tela: & qual porque aílim o pede a na- 



eftà mais contente ? Por 
ventura o que levou mais 
covados ? De nenhum mo- 
do. E fe naó trocai os vefti- 
dos, & vereis fe queralgú 
o do outro. Mas cada hum 
fe contenta igualmente do 
feu, porque he o que lhe 
vem mais jufto , & mais 
proporcionado à fua eíla- 



tureza das partes, & a ar- 
monia do todo. E fe eíla 
uniaó j conformidade , & 
ordem fe acha era hum 
corpo natural, & corrupti- 
vel, qual fera a do corpo 
celeílial daquella fobera- 
na,& fobrenatural Repu- 
blica,onde a vontade do 
mefmo Deos, que o beati- 



túra. O mefmo paífa nos íica,hea Alma, que o in 
Bemaventuradosdo Ceo. forma. 



Porque aílim como a glo- 
ria da vida clara de Deos 
os enche por dentro aílim 
os vefte por fora. Nem 
obftaa capacidade maior, 
ou menor do merecimen- 
to, nem a eílatúra mais, ou 
menos alta da dignidade, 
para alterar, ou diminuir a 



423 E quanto à fegúr- 
da parte da objecção, em 
que parece diíHcultofo go- 
zarfe cada hum das glorias 
de todos, & gozaremíe to- 
dos da gloria de cada hum. 
aílim como fatisíizemos à 
primeira diííicu Idade com 
a proporção da juftiça, af- 



vic.cap 
30. 



igualdade deíla fatisfaçaó, íim refpondo a fegunda cò 

a extcnçáo da caridade. 
O Ceo he húa Republica 
immenfa^ mas onde todos 
feamão : & cfik là a cari- 
dade tanto no auge de fua 
perfeição, que todos, & 
cada hum amaó tanto a 
qualquer outro, como a fy 
mefmo. Donde fe fegue^ 
que ainda que os gráos da 
gloria fejaò deíiguaes fe- 
gun- 



& contentamento década 
hum no feu eítado j por- 
que como bem declara có 
Auguft. outra femelhança S. Ago- 
decí- ftinho, também a cabeça 
he mais nobre que amaó, 
^ amaó mais nobre que o 
pè, & nem por iífo o pè 
defeja ler maójnem a maó 
defeja fer cabeça, nem a 
cabeça defeja fetcoraçaôi 



4^4 

gundo o 



Sermão da fegunda T>om'inga 
merecimento de todos , & cada hum, como 



Laurét. 
Juftin. 
deLôg 
ti tas 



cada hum, a alegria, &o 
goílo deíTa mefma gloria , 
ou glorias, he igual em ro- 
dos, porque todos as eíli- 
maó como próprias, & ca- 
da hum como fua. Expreí^ 
famente S.Lourenço Ju- 
ílmiano. Tanta vis Í7i illa 
calefti pátria nosfociat^ ut 
quod infequifquenonaccí' 
pit^ hocjeaccepíjfein altero 
exultet. Vna cunãis erit 
beatttudo latitia , quamvis 
non unajít omnihis fublimi' 
tasvtta. Notefe muito a 
palavra beatttudo U titia , 
em que o Santo diftingue 
na mefma bemaventuran- 
ça duas bemaventuranças, 
húa da gloria , outra da 
alegria : a da gloria he par- 
ticular , òc determinada, 
porque coníiftc na viíla 
de Deos, que fc mede com 
o merecimento , & graça 
defta vidaj porém a da ale- 
gria naó tem termo, nem 
limite, porque he immen- 
fajôcfem medida, fegundo 
aextençaõ da caridade: a 
qual comprehendendo , &: 
abraçando a todos , fe ale- 
gra , & goza da gloria de ao fogo cm que ardia o feu 



fefora própria. Eefl:e,co- 
mo fe fora própria , naó 
quer dizer, que naó tem, 
nem pofiiie cada hum a 
gloria dos outros, porque 
verdadeiramente a tem,& 
poíTue 3 diz o Santo , naó 
emfy , mas nos que ama ^"l***- 
como a fy mefmo ; ^^t quod Civit. 
infe quijque non accipit^ hoc JJ ^caiu 
fe accepijfe in altero exultet. gci. 
Efta mefma razaó he de hí^^i* 
S. Agofl:inho,de S. Boa- '''i"^'i't 
ventura, deS.Anfelmo, & *^'^^*' 
de todos. 

424 E para que o ufo, 
ou abufo da pouca cari- 
dade deíle mundo nos naó 
efcureçaaintelligécia dep- 
ila verdade,com dous ex- 
emplos deíle mefmo mu- 
do a quero declarar, hum 
lingularem S.PauIo,ourro 
univerfal em todos os ho- 
mens. Erataó immenfa a 
caridade de S.Paulo, que 
elle padecia os males de 
todos os homens, & nenhu 
mal temporal , ou efpiri- 
tualfucedia nefte mundo, 
que naó acrecentaflc no- 
va, & particular matéria 



ãã§luarefma. ^ 4.6 j 

coração. §uis infirmatuTy abrazavaó, & quêimavaó : 

Cor. i^ ego non infirmor > Quis ^ihfcãndalizatuT-^&ego 

' -^- ^ ' '■ ' fíi?;^ /^r^r? Efe a caridade 

de Paulo o fazia padecer 
os males de todos , fcindo 
mais natural à natureza 
humana gozarfedos bens , 
que padecer os males i 



'^' fcandalízatur , & ego non 
urorl Aílim como todo o 
pcfo da redondeza da ter- 
ra pefa, Sc carrega para o 
•centro •, aíllm todas as en- 
fermidades , todas as do 



fes, todas as penas , todos quem duvida, que a cari- 
es trabalhos , todas as af- dade de qualquer bemavc- 
flicçoens, ^ tribulaçoens , turado, a qual no Geo he 
iniferias,pobrezas,trifte- mais perfeita, que a dos 
zas^anguftiasjinfortunios, maiores Santos na terra 3 
defgraçasj emfim , todos excite, aíFeiçoe,& obrigue 
os males do género huma- naturalmente,&fem mila- 
no carregavaò de toda a gre,acada hum, a que fe 
parte fobre o coração de alegre,& goze dos bens de 
Paulo, adoecendo elle de todos ? 
todos,&com todos : Quis 42 f E fe naô C para 
infirmatur^ & ego non infir- que cada hum fe p^rfuada 
Wí?r?E aíTim como no mef- peio que exprimenta em 
mo centro eftá o fogo do fy mefmo } pergunto a to- 
Inferno, em que ardem os dos os que fois pays , ou 
condenados , pagando as máys. Náo lie certo, que 
penas das culpas , que co- ospays , & as mãys tanto 
metéraóneftavida; aílím amão, & eftimaóos bens 



ardia no coração de Paulo 
*o fogo da caridade taó 
forte, 8c intenfa rnente,que 
'todos os efcandalos,& cui- 



de fcus filhos , como os 
próprios ? Atè as feras 
mais feras, fe fe lhes fizer 
efta pergunta , refponde- 



pas,qiiedenovofe come- ráóquefim. Eeuacrecen- 

tiáo,naófó o atormenta- to,quenaó feràverdadei- 

vaó de qualquer modo> ropay , nem verdadeira 

mas verdadeiramente o mây,oquenaóeftimarme-i 

Tom. 7. Gg nos 



4^6 Sermão ddfegundaT>ominjia 

nos os feus bens , que os que fe o amor de todos os 



de feus filhos. Por iíTo os 
Corcefáos de Jerufalem, 
quando David renunciou 
a Coroa em feu filho Sala- 



paySj& mãySj quantos ou- 
ve defde o principio do 
mundo , & haverá atè o 
fimjfe uniíTe em hum fó 



maója lifonjacomquebe- amor, comparado eílecò 

o amor do menor Beni- 
avenmrado do Ceo,naó fo 
o naó igualaria , mas nem 
pareceria amor. Vede ago- 
ra, conclue S. Boaventura, 
quamimmenfaferà a glo- 
ria dos que aílimíe amaó, 
fendo elles infinitos, &a 
gloria de cada hu m,as glo- 
rias de todos I 

426 Oh bcmaventu- 
rados vòs , & bemaventu- 
radas, naó digo a yoílajfe- 
naóas voíTas bemaventu- 



jarao a mao ao mefmo 
David, foi, dizendo todos 
a hua voz,& com o mefmo 
conceito, que Deos fizeíTe 
o trono 5 &: Reyno do Fi- 
jho maior, &: mais felice 
ainda queodoPay. Epor 
iííba Mãy de Nero, tendo 
ouvido de hum oráculo, 
que fe chegaífe a ^ç;r Em- 
perador feu Filho, a havia 
de matar, refpondeo : Ocr 
ctdat , dummodo imperet : 
Matemeembora,com tan- 
to que feja Emperador, 



ranças! Là eílà gozando 



Afilm eftimou mais a Mãy elta verdade, quem a diífe 
a hQnra,& Império do Fi- na primeira palavra , que 



lho,quea vida própria. E 
feaeíles extremos íè ef- 
tende o amor natural da 
terra, que fera o fobrena- 
turaldoCeo? Hetaógrã- 



efcreveo. A primeira pa- 
lavra do primeiro Pfalmo 
de David he, Beattisvir , píài». 
Bemaventurado o home. »■»•. 
E qual he a bemaventu- 



dc,ou por fallar mais pro- rança,queofaz,&lhedà o 
priamente , he taó perfei- nome de Bemaventurado? 



to, taó puro , & taó fobre- 
humanoo amor, com que 
todos os Bemavcnturados 
reciprocamente fe amaó} 



Naóhehúa, nem fó mui- 
tas, fenaó todas as bem- 
avcnruranij-as de todos os 
Bcmaventurudos) porque 
todas 



da^arefma. 
bemaventuran- vòs í^ozais os 



t%>das as 
çasde todos concorrem a 
fazer Bemaventurado a 
cada hum. Aílimo decla- 
ra expreíTamence o mef- 
mo texto original Hebrai- 
co, em que Diviá efcre- 
yeojoqualtem em lugar 
dcBeatm vir^ Beatitudi- 
nes virii. fe cada hum pe- 
la fua gloria particular he 
perfeitiílima mente Bem- 
avènturado, & gloriofo , 
que fera peias glorias, & 
bemarcnturanças de to- 
dos ? Pela fua gloria Bem- 
aventuradocada hum pe- 
lo que elle mereceo, & pe- 
ks glorias de todos fobre 
bemaventurado também 
pelo que elles merecerão. 
Exceíib verdadeiramente 
de comunicação de bens , 



¥-7 
frutos de 
feus trabalhos, pois gozais . 
oqueelles merecerão 5 & 
vòs naó mereceftes. 

427 Vòs (^ ponderem 
os da terra bem o que di- 
go 3 vòs naó foftes Patri- 
arcas, & gozais a gloria 
dos Patriarcas : vòs nao 
foftes Profe tas, & gozais a 
gloria dos Profetas : vòs 
naô foftcs Apoftolos , & 
gozais a gloria dos Apo- 
Solos ; vòs naó padeceftes . 
martyrio, & gozais a glo- 
ria dos Martyf es : vòs naó 
foftes Doutores, nem eníi- 
naftes, & gozais a gloria 
dos Doutores : vòs naó vi- 
veíles nos defertos>6c gOf^ 
zais a gloria dos A naco-" 
retas : vòs nàó profeíTaíles 
continência , & gozais a 



que podéra parecer inju- gloria dos Virgens: vôs fo- 

fío, fe a gloria naó fora fies peccadores, &tal vez 

premio da graça. De vòs grandes peccadoresj^ go- 

pois,& de todos vòs, ò fe- zais a gloria dos innocen- 

liciílimos habitadores def- tes : vòs finalmente fois^ 

fa Pátria celeftial ; de vòs 5 homens com corpo, & naó 

&.a vòs fe pôde dizer com efpiritos , jSc gozais as glo- 

t-sãAÒ-.AUjUboravenmt^ rias de todas as Gerar - 



(^vos in labore s eorum m- 
troiftis : Que os outros me- 
fecéraõjôc trabalharão? & 



chias dos Anjos. Aíílm o 

difcorre , & contrapõem 

admiravelmente o Sera- 

Ggij fim 



S.Bona' 
vent. ii 
Solilo- 



4<> 8 Sermaõ dafegunda T>omínga 

fim dos Doutores da Igre- acomodar à brevidade do 

jaS.Boaventurajpoftoque tempo, & fuppondo que 

com a ordem mudada, mas baftaó as demoílraçoens 

com o mefmo fentido. Ibi deílesdous difcurfos para 

virgo gaudebit defan6f<e vi- fundar fobre ellas húa grá- 

duítatis mérito: ibi njiduA derefoluçaó ; acabo com 



exultabit de cafto virgini- 
tat is privilegio : ibi Confef- 
for de Martyris jucundabi- 
tur triumpho : ibi Martyr 
tripudiabit de Confefforum 
hravio : ibi ^ropheta lauda* 
kit de Tatriarcharum pia 
conver/atione : ibi Tatriar- 
chaexultabitde Tropbeta- 



fazer a todos os que me 
ouvirão húa fó pergunta. 
Gredes ifto que ouviíles , 
ou naó? Quem cré o pri- 
meiro, 6c fegundo ponto, 
he Chrifíaó, quem naó crè 
o fegundo,he'Gcntio-,mas, 
ou íejais Genriosjou Chri- 
ílãos , fe totalmente nao 



rumfide : ibi Apoftoli , & tendes perdido o entendi- 
Angeli gaudebunt de mérito mento,&:ojuizo, não po- 
»mniuminferiorum:ibiom' deis deixar de eflar pcr- 
nes inferiores Utabuntur de fuadidos do que ou viftcs , 
gkria^&coronafiiperiorum, ou a defprezar a falfidade 

de huns bens,ou a defejar 



428 inAltavanos ago- 
£"^ ra o terceiro pó- 
toda noíTa propofta , & 
mofl-rareomo tudoiftofe 
goza no Ceo, naõ fucceíli- 
vamertte,fenaó por junto, 
reduzindo toda a eterni- 
dade a hum inftante, & 
eftendcndo eíTc mefmo in- 
Hante por toda a eternida- 
de. Send© porém forçofo 



juntamente a verdade dos 
outros. 

429 O Gentio naõ fa- 
be que a Alma heim mor- 
tal, nem crè que ha outra 
vida. E com tudo, fe ler- 
des os livros de todos os 
Gentios, nenhú achareis, 
nemFjlofofo, nem Ora- 
dor,nem Poeta, que lo c6 
olumedarazaó , & expe- 
riência do que vem os 
olhosjnãocúdcneo amor,' 
ou 



da§íuarefmã\ 4^^ 

iDucoÈiça dos chamados tcdo vérda-deiro mal^qu 



bens deite mundo, &:naó 
louve o derprezo delles. 
Gentio ouve , que redu- 
zindo a dinheiro hú gran- 
de património , que poí^ 
fuía, o lançou no mar , di- 
zendo : Melhor he, que eu 
te afogue , do que tu me 
percas. Deixo os rifos de 
Piogenes, que metido na 
fuacuba zombava dós A^ 
lexandreSjScfuas riquezas. 
Deixo a fobriedade dos 
Sócrates, dos Senecas, dos 
Ep ide tos, 6c fó meadmi- 



gozar a do falfo bem. Não 
feria louco o que pela do- 
çura da bebida tragaíTe jú.- 
tamente o veneno i* Efta 
pois era a razaó , & a evi- 
dencia, com que fem féj 
nem conhecimento da ou- 
tra vida fe defenganavaó 
os Gentios , & huns pelo 
peio fe defcar regava ò dos 
falfos bens , outros pelo 
défprezo os iiictiaó debai-i 
xodospès. -^'f 

430 EfeaíHm os tra- 
ta va o Gentio, que naó te- 



raj& deve envergonhar a mia delles, queolevaíTem 

todolChriíláo , o exemplo ao Inferno, nem lhe impe- 

domefmo Epicuro neíle diíremoCeo3quedever€-' 

conhecimento, fendo elle, folver,& fazer o Chriftão , 



& a fua Seita a que mais 
profeífava as delicias. G'^/i^ 
ãsbis mi^íus F mintis aolébis: 
dizia oComico Gentio, & 
fali ando com Gentios : Se 
tiveres menos goílos,tam- 
bem ceras menos dores. E 
porque na miftura desfal- 



que não fó reconhece nós 
bens domtmdo a vaidade 
do prefente, fenaó tambê, 
écm.uitomáiso perigo do 
futuro } Será beai, que por 
hum inílante de goílo me 
arrifque eu a hua eterni- 
dade de pena, & por hua 



ibs, 5c enganofos bens, di- âpprehenfaó de bèrri mi- 

vidiaóobemdo mal, &: llurado com tantos males, 

coiitrapeíavaó o que ti- perca a gloria da viíla de 

nliaódegofto,com o que Deos,&ogozar naó íó a 

caufavaó de dor % antes minha bemaventurança , 

queriaó naó padecer a par- ítnzóíi de todos os Bem- 

Tom.j. Ggiij avcn- 



4^7 o Sermaã dafegunda 'Domivza 

aventurados? O fé, ô en- aolosagloriado Cco. O- 



rendimento , onde eftás ? 
Mas o certo he, que nem 
entendimento tem os, pois 
naó fazemos o que íizeraó, 
& entenderão tantos Gen- 
tios : nem fé, fenáo morta, 
& fem acção vitaI,pois el- 
la nos naó move a viver 
como Chriftãos. Se o que- 
remos fer, & emendar o 
deslumbraméto defta taó 
enorme cegueira, eu naó 
vejo outro remédio, que 
nos abra os olhos , íenaó 
tornar pelos mefmos paf- 
fos deftes noíTos dous dif- 
curfos aos dous montes 
donde eiles fairaó. Oh que 



Ihai, & notai bem, quanto 
vai de monte a monte : ve- 
de, & coníiderai bemjquá- 
to vai de glorias a gloria. 
Naquelle monte eítáo os 
males fobre -dourados có 
nome de bens : neíle eíláo 
osbensfemfombra , nem 
apparencia de mal. Alli 
eftàofalfo , aqui o verda- 
deiro • alli o du vidofojaqui 
o certo: alli o momenta- 
neo,aqui o eterno ; alli o 
que vai parar no fogo do 
Inferno, aqui o que nos le- 
va a fer Bera aventurados 
no Ceo. Vede, vedei &CÓ- 
íiderai bem o que deveis 



duas eílaçoens taó pro- efcolher; porque qual for 
prias de hum tempo taó a voíTa eleição neíla vida, 
íanto como o da Quaref- tal fera a voíla remunera- 



ma ! Húa ao monte da ten- 
tação , outra ao rnonte da 
transfiguração : húa ao 
monte, onde o Demónio 
jffioftrou a Chriílo as glo- 
lias do mundo, outra,onde 
jChrii&ç^moílrouaos Apo^ 



ção na outra: ou padecen- 
do fem íim todas as maldi- 
çoens com o Demónio, ou 
gozando na eternidade tO' 
das as felicidades eoxm 
Chrillo. 



SEX^ 



1 . 4*71 



SERMAM 

DE 

S BARBARA- 



SimtleeH RegnumCalorum thefauro abf condito in agro 

^uem qui invenit homo^ abfcondit^ é^pr a gáudio il- 

Uusvadít-i&vendituniverfa.i quahabety 

&emitagrumiUum,M2itth,i'3^. 




5. I. 

Síim como ha 
huns homens , 
que nafcéraófó 
parafy, & ou- 
tros, que naícéraó parafy, 
& para a Republicai& por 
iílb faó os mais beneméri- 
tos do género humano, Sc 
celebrados da fama : aíllm 
ha huns Santos, que foraó 
cfcolhidos fó para louvar a 
Dcos, 6c outros para lou- 



var a DeoSjSc favorecers^c 
ajudar aos homens. E fen- 
do eíla fegunda prerogati- 
va taó parecida ao mefmo 
Deos, que não nafceo para 
fy,fenãoparanós5 & tão 
femelhance aos Anjosjque 
juntamente vem a Deos 
no Ceojôc nos guardão na 
terra: fe fizermos compa- 
ração no mefmo gener® 
entre todos os Santos , & 
Santas,facilmente achare- 
mos j que não fó igualou, 
Gg iiij ma^ 



i 



r ' 



4.72 

mas excedeo a 
Quem ? Aglorioía Santa 
Barbara, a cuja protecção, 
& memoria com tanto ef- 
trondo,& abalo dos ele- 
mentos, fe dedica eíle ale- 
gre dia. 

432 Nas palavras, que 
propuz, diz Chrifl-o Me- 
/l-redivino,&: Senhor nof- 
fo, que he femelhante o 
Reyno do Ceo a hum the- 
íburoefcoadido no cam- 
po , o qual como achaííe 
hum homem venturofo, fe 
foi logo a vender quanto 
tinha,para cóprar o cam- 
po, ôc fe fazer fenhor do 
thefouro. Para intelligen- 
ciadequethefouro efcon- 
dido foíTe efte , he neceíTa- 
rio faber primeiro,quaI fe 
ja o Reyno do Ceo , que 
Chrillo chama femelhan- 
te a e' le : Simile efi Regmim 
Calorum thefauro abfcon- 
dito. S. Gregório Papa ad- 
verte aqui doutamente? 
que o Reyno do Ceo nas 
divinas letras fe divide,ou 
diftingue em dous Rey- 
nos, hum eterno, outro tc- 
poral, hum futuro , outro 
prefente , hum na Jgi cja 



Sermão de 
todos : Triunfante, que defcança 
em paz no Ceo, outro na 
guerreira, &:Militanre,que 
ainda trabalhaj&: peleja na 
terra. Daqui fefegue, que 
aílim como ha dousRey- 
nos fcmelhantes ao the- 
íouroefcondido, aílim ha 
dous thefouros efcondi- 
dos, femelhantesahum,& 
outro Reyno : & eftes 
faó osdous thefouros , que 
S. Barbara comprou com o 
preço de quanto tinha: 
i^^endit tmiverfíi^qua ballet > 
& emit agrum tUum. 

433 Tinha S. Barbara 
como filha única , & her- 
deira de Diofcoro feu Pay, 
fenhor nobiliífimo da Ci- 
dade de Nicomedia, hum 
riquiíll mo património dos 
bens, que c ha mão da for- 
tuna. Tinha mais outro 
maispreciofo, & mais ri- 
co, que era ode todos os 
dotes da natJreza , &: gra- 
ça, fermofura, diferirão, 
honel}idade, &as demais 
virtudes, por onde o dcíc- 
jo,& emulação de todub os 
Grandes a procuraváo por 
eípoíà. E tendo ja conla- 
gradotudoiíloa Dcos na 
ílor 



S. Bar bar a. 47^ 

flordaidade-, atè a liber- primeiro, que para publi 



caros poderes, & louvores 
deSBarbarajadlm como 
ostrovoens dâ artelharia 
faó mudos, afiim as vozes 
mais polidas dos Prégado- 
res5&toda a noíTa eloquê^ 
cia he barbara. Ave Ma- 
ria, 

§. II. 

Simik eft Regnum delorum 
t he J aur o abf condito, 

43 f T T Uma das cou- 
jt Jlías admirave- 
isj que fez5&: tem Deos ne- 
íle mundo, & dequefua, 
fabedoria, & grádeza mui- 
to fe preza, faó os feus the- 
fouros efcondidos. Por 
ventura (^ diz Deos a Job 3 
entraftetu nos meus íhe- 
fouros da neve, ou viíle os 
meus thefouros da farai- 
vajos quaes eu tenho guar-» 
dado para o tem po dos ini- 
migos 5 & para o dia da 
guerra^Sc da bataIha?iV//»^ 
quid ingreffu 



dade, & avidalhe facrifi- 
cou a fua fé, &: o feu amor : 
a liberdade, em hum dila- 
tado martyrio prefa por 
muito tempo, & afferro- 
IJiada em hum Caftello: & 
a Vida, em outro martyrio 
mais breve , mas muito 
mais cruel ? fendo varia- 
mente atormentada com 
todos os géneros de tira- 
nias,&: finalmente degola- 
da com a maior detodas,^ 
por máo de feu próprio 
Pay. 

4,^4 Eíle foi o preço 
verdadeiramente de tudo 
quanto poíTuia , com qae 
Barbara comprou os dous 
thefouros, hum para fy, ou- 
tro para nós. Para íy, o da 
eterna coroa,que goza em 
paz na Igreja Tnunfante 
do Ceo : para nòs , o do 
perpetuo íoccorro ycom 
que noj> ajuda a batalhar, 
& vencer naiVIiluante da 
terra. Defic,quehe oque 
hoje vimos reconhecer di- 
ante de feus alçares em quidingreffm es ihcf aures 
ptTpetua 2C. áo de graças , mviS'i ant thtfatírosgraiidi" 
he o de que rrararei fómé- nis vidjdi s ^U£pr^paravi \^^^^' 
te, Coiíteíiando porem intemfmhoJttSyO' indicm -' 




474 Sermão ^s 
pfgn^.òheíii^ Porvenru- thcfoiiros efcondicíos ti- 
ra podeacègora a efpecu- nbaja profetizado Jacob ; 
laçaó dos Filofofos defco - Imindat tonem mar is quaft d 'if 
briraorigem,& verdadei- lacfiigent,& thefaurosabf ''' ^ 
rascaufasdos ventos, taò cayiditos arenarum. 
inconílantes,6cleves zWqs^ 



43 (í De maneira, que 
na terra, na agua, no ar,co- 
moemdiíFerentes, & va- 
íliflimos campos, téDeos 
efcondidos feus thefouros. 
Mas nenhum deftes, com 
ferem táo grandes , & taó 
vários, he o que o rnefmo 
Deos defcobrio a S. Barba- 
ra, Sc de que el Ia co m os ca- 
bedaesdefeu merecimen' 



6c taó encontrados nas 
fuás opinioês,como oNor- 
te,& o Sul? Mas por iíTo os 
defenganou David, que fó 
Deos , que criou os ven- 
tos, lhe conhece o nafci- 
mento , & os tira quando, 
& como he fervido , do fc- 
creto de íeus thefouros; 
Pfaim. guíprodiícit ventos dethe- ^.-....^...^ ni^iccuucn- 
'•^*' * Jaurisftás. Naó he^ menor to fe fez fenhora. O maior, 
maravilha, que naó crecê- o mais nobre , o mais ma- 
doafuperfíciedo mar hu ravilhofojócomais efcon- 
dedo com todas as corren- dido thefouro do \Jn i ver- 
tes dos Rios, que nelíe de- fo, he o quarto eIemento,o 
faguaó, fejaó taes as inun- fogo. He tão efcondido, 
daçoens do rnefmo mar, que Pitágoras , & outros 
que tenhaó afogado Cida- que refere S. Agoílinho, 
des, & fepultado Provin- porque náo vemos a esfe- 
cias inteiras. Mas todos ra dofogo, aneo-áraõ to- 
eftes dilúvios particulares, talmente. Os lugares,em 
íem ferem ajudados do que a natureza collocou 
Ceo, nem das nuvens , os os elementos, occupaó to- 
tem depofitado Deos nos dooefpaço,quefe eftcndc 
ocultos,6c profundos abif- defde o centro do mundo 
mos dos feus thefouros : atè o Ceo. A terra ao re- 
Toncns in the [auris abyjfos. dor do ccn tro , a a c^u a fo- 
Finalméte deites mefmos brç a terra , o ar íobrc a 

iigua, 



Pfâlm 
32-7. 



S, Bàrhm-a. 

agua, o fogo fobre o ar atè fez mençaô dos ou tros três 
o concavo da Lua, ou do elementos, a naô íq7. tam- 
bém do quarto ? Se í^z 
niénçaó da terra , da agua , 
& do ar, porque a naó fez 
ta m b e m do fogo ? Forque 
Moyfes, como notaó S, 
Logo final he (^inferiaó ef- Baíilio, S. João Damafce- 
tes Authores^que o fogo no,& Béda,fó faJlou das 
naó tem esfera. Mas fendo coufas manifeftas , & que 
evidente por outras de- fe vem. E aílim como caí- 
moílraçoens, que a perfei- lou a criação dos Anjos, 
çao do Univerfo naó po- porque faó im\Ç\vQ,is , af- 



Empireo. Masfe a esfera 
do fogo he taó immcnfa, 
& o fogo naturalmente lu- 
niinoío , como a naó ve- 
mos ao menos de noite? 



dia carecer deíle thefou- 
rojo que deviaó inferir, 
como nos dizemos, he,que 
íenaó vè,por fer thefouro 
efcondido. E porque o naó 
poííaó contradizer FiJofo- 
tos^ nem Mathematicos, 
kaófe as primeiras pala- 
vras, com que a Efcritura 



lim nãofaJlou do fogo ele- 
mentar, porque eílà efcon- 
dido a noílbs olhos. 

437 Efte thefouro pois 
taó propriamente efcon- 
dido, he o que Deos defco- 
brio,& de que deo o domi- 
nio a S.Barbara,fazendo-a 
governadora, protedora , 



fagradadefcreve a criação 6c defeníbra do fogo. Oh 

do mundo , & acharemos gloriofa filha de Eva, ma- 

nellas expreíTamente a ter- ior fenhora que a primeira 

ra, a agua, o ar, maso fo- mulher,aindanoeíl:adoda 



go naó : Terra mtem erat 
geoeí: ínaníSy^vacua^&Jpiritus 
^^' KDomirã ferebatur fuper 
aquas. Terra autem, eis ahi 
a terra : Super aquas,GÍs ahi 
^ agua : Spiritm Tíomini , 
^i^ ahi o ar. E porque ra- 



innocencia,&na felicida- 
de do Paraifo ! O maior 
poder,ou poderes,que nu- 
ca Deos deo a algum hof 
mem, foi a Adam. E que 
poderes lhe deo ^ Sobre a 



terra, íòbre a agua, fobre o ^^ 
.2a_ó Moyfes aíÈim €omo ^y\Ftpr^Jitpifàl?mynaris^i^' 



D 



Sermão de 




^ volatUibus CcU^ & áe- 
Jlijs , ac tmi-verfjj terr£. 
Tudo o que fe move neíle 
mundo, ou andando na ter- 
ra,ou nadando na agua, ou 
voando no ar, fera íbgeiro 
a teu império. Mas aílini 
como Deosdeoa Adam o 
domínio dos três elemen- 
tos inferiores, o do quarto, 
& íiipremo, porque lho 
naódco? Se ao império da 
terra ajuntou o da agua,6c 
ao da agua o do ar ; ao do 
ar porque naô ajutoutam- 



nis ante Ipfum pT£cedet'l^-x^ 
ra qualquer parte que vol- 
te o rofto, lliem dclle cha- 
mas de fogo : Ignis à facie 
ejmexarfifSQ oIha,he com 
olhos de fogo : OcuH ejns 
tanquamjícimMa jgnis : Se 
ouve, com ouvidos de fo- 
go : 'Dem^qui exaudiet per 
ignem : Se falia, com vozes 
de fogo : Audijii verba ti- 
Uns de médio igrds ; E ate o 
mefmo Deos Te cria vul- 
garmente , que era fogo: 
"^Den s nofter ignis cohfumcns 



pr?im. 
96 J. 

Pialm. 

Apocal. 
1 14. 






36. 



Ibidi-f. 



bem o do fogo ? Forque ef- eft. íílo hc o que viraó os 
fe refervou-o Deos para Profetas no Ceo, &tam- 



fy. Lede os Profetas, que 
faó os que vivendo na ter- 
ra fópodiao entrar, & ver 
a Corte do Ceo , & acha- 
reis, que todo o apparato 
da Mageítade de Deos he 
fogo 5 & tudo quanto de- 
creta, &: executa , por in- 
ílrumentos de fogo. Se ef- 
tà aíTentado,© feu trono he 
Daniel, dc fogo ; Throiius ejíís 
7 9-ío. jlamma tgnis : Se fae a paf 
fearcomoem carroça, as 
rodas laó de fogo : I^or^ 
eJHsignrs accerij.is: Se leva 



Exod. 
9.18- 



bem o vio todo o Povo na 
terra, quãdo Deosdeceo a 
lhe dar a Ley no Monte 
Sinai : 'Totus autem mons 
Smaifnmabat : eo quod def^ 
cendijfet T)omin7ísJuper eip 
inigne: De todo o monte 
faiáo, & fubiaó nuvens ef- 
peflas de fumo , porque 
Deos tinha decido fobre 
elleemfogo. Tudo o que 
feouvia,eraótrovoeRS, tu- 
do o que fe via, relâmpa- 
gos : Et ecce c^ptrunt andi- 
ri tom t rua , cr micarefitUwná.xô. 



k 


'mm 



diante a fua guarda reai,os gura. Atèos Gentios, por 

chi- 



archeirosfao de fogo: Jg 



eíles cftcicos,ao ítujii pi ter 



«y. Barbara 



chamarão tonante , & lhe 
deraó por armas osrayos, 
cantando os feus Poetas 
do falfo Deos o mefmo, 
nem mais,nem menos,que 
David aííirmou do verda- 
deiro: Intonuit de Calo ^o- 
pfaim. minuSy ò" AltiJJirmis dedit 
ipi^t- vocemfuam \ gr ando ^ò" car - 
bonés íffnis. È eíle he,como 
dizia, o Império, & gover- 
no do quarto, Sc fupremo 
elemento, que Deos refer- 
vou para fy, & tendo o ne- 
gado a Adam, &naó con- 
cedido a algum de tantos 
famofos Heroes , que paf- 
íaraó em tantos feculos , o 
delegou finalmente em S. 
Barbara, fogeitando a ef- 
fera do fogo, & feus prodi- 
giofos, & temerofos eíFei- 
tos ao arbitrio de feus po - 
deres, & o foccorro , & re- 
médio delles à invocação 
4efcunome. 

í. III. 

' 438 C Se m«e pcrgu- 
Eí tardes quando 
lhe deo Deos a envefti du- 
ra deíleímperio,ou a poífe 
defte governo^ & de que 




477 
modo ? Refpondojque por 
meyo de dous rayos fataes, 
pouco depois da morte da 
mefma Santa. Concorre- 
rão para a morte, ou para o 
triunfo de Barbara dous 
bárbaros, hum menor, ou- 
tro maior tyrano, ambos 
crueliílimos. O primeiro 
tyrano3&: menor foi Mar- 
ciano , que martirizou o 
corpoinnocente3& virgi- 
nal da Santa com os mais 
exquifitos tormentos : o 
fegundo tyrano, & maior 
foi Dioícoro feu Pay , que 
com entranhas mais feras:, 
que as das mefmas feras, 
defembainhou a efpada,& 
lhe cortou a cabeça. Que 
faria àviíta deíle eípecba- 
culoofogo , que com in-' 
ftinto oculto, & mais que 
natural, jà fentia naquelles 
fagrados,& coroados deff 
pojos,6c jà começava a re- 
conhecer a no va íogeição, 
& obediência, que depois 
de Deos lhe devia ? Rat- 
gaófe no mefmo tempo as 
nuvens, ou vemfe dous te- 
merofos trovoens , dçfpa- 
raòfe furiofamente dous 
rayos, os quaes derí u-ba a- 

d©, 




^^ 



'47 S Strmã^^dê 

do, abrazando , te coiifu- íem ufo de razaó , com ou- 



mindo os dous tyranos5eni 
hum mo mento os desíize- 
raó em cinzas. Ah mifera- 
veis idolatras , &: tyranos 
impijílimosjquc íe no mef- 
mo tempo, em que os dous 
relâmpagos vos ferirão os 
olhos, invocaíTeiso nome 
da mefma vidlima, a quem 
tiraftes a vida, ella fem du- 
vida vos livraria da mor- 
te! Mas nem os tyranos 
cegos foubéraó conhecer 
onde tinhaó o feu remé- 
dio: nem os mefmos rayos, 
que nefta execução come- 



tros dous rayos racionaes y 
& de grande entendimen- 
to. Aos dous irmãos S.Tia-r 
go, & S. João mudouihe 
Chriftoonome , ou acre- 
centoulho , chamandolhe 
r^yos-.Jacohum Zebedaiy 
& loarmemfratrem lacobi^ Maicj. 
C^ impofiiit eis nomina Boa- ' ^' • 
nerges^quodefifilij tonitrui. 
Boanerges propriamente 
quer dizer filhos do tro- 
vão , & porque do trovão 
nafce o rayo , Boanerges 
em fraíi Hebrea, ou Syría- 
ca, qual era a vulgar da- 



çavaô jàaprofcílar o cul- quelle tempo, íigniíicara- 
to,& veneração de Barba- yos. E que fízeraó eílcs 



ra, efperáraõ fcu impeno , 
ou cófentimento para vin- 
gar fuás injurias j porque 
naóobravaó como caufas 
naturaes por próprio im- 
pulfo, mas guiados por de- 
ílino oculto , & entendi- 
mento fuperior, que os go- 
vernava. 

439 E para que veja 
inos,quam entendidamen- 
teferviraóaS. Barbara, ôc 
fem efperar fua obediên- 
cia lhe obedecerão ; com- 
paremos eítcs dous rayos 



dous Rayos tão entendi- 
dos? Negando os Samari- 
tanos a Chriflo a entrada 
da fua Cidade , quizeráo 
ambos caftigar eíle á^Ç- 
prezo,&. vingar cila inju- 
ria de feu Mcílre, fazendo 
com.o rayos , que deccíTc 
fogodoCeo,& abrazaíTc 
os Samaritanos : mas eílc 
fogo, eíie zclo,&: eílc pcn- 
famcntotáG bravo, &: tão 
bizarro tudo ficou no ar; 
porque ? Porque confultá- 
rão, 6c pedirão licença a 
Chri- 



-Vm 



t^- 



Luc.p. 



S. Barbara. ^yp 

Chrifto : Domine^ vis dict- eílà , que lhe não havia de 



mtiSy ut defcendat ignls de 
Cxlo , ò" confumat illos ? 
Refpondeo o Senhor, que 
elle não viera ao mundo a 
homens , fenam a 



conceder a licença. Mas 
o mefmo Senhor, que nam 
havia de conceder a licen- 
ça pedida , depois que a 
Magdalenafcm a pedir lhe 
fal vaIlos,& que elles como fez aquelle obfequio , não 
feus Difcipulos havião de fódefendeoaobra,mas a 



matar 



perdoar injurias , & não 
vingallcis. O mefmo havia 
de refponder S. Barbara,fe 
os noíTbs dous rayos a con- 
fuItáraó,ou lhe pedíraó feu 
confentimento para vin- 
gar as fuás injurias, & ma 



approvou,&: louvou : Bo- 
num enim opus operata eft in ^^f^^- 
me. Omefmohaviade fu- '"^■'°' 
ceder aos dous rayos do 
Apoftolado, fe elles abra- 
zárãoos Samaritanos, co« 
mojuftamcnte mereciãoj 



tar,& abrazar os tyranos. Mas o que elles , fendo ta6 

Mas elles fendo rayos fem entendidos, não entende- 

entendimento entenderão rão, nem íizerão , fizeraó 

melhoro cafo. Ha cafos, fem entendimento os nof- 

€m que por pedir licença fos rayos, porque eraô go- 

fe perdem as mais glorio- vernados por outra intel- 

fas acçoens. Notou difere- ligencia mais aJta. 



tamente S. João Chryfo- 
Itomo, que fe a Magdalena 
pedira licença a Chriílo 
para lhe derramar húa yez 
aos pès, outra fobre a ca- 
beça os feus preciofos un- 
guentosCque erão as aguas 
de Córdova, ou de Âmbar 



440 No cafo da prifaõ 
de Chrifto, S. Pedro fem 
pedir licença tirou pelaef- 
pada , enveftio os inimi- 
gos , & começou a cortar 
orelhas : os outros Difci- 
pulos pelo contrario, che-r 
gáráofe ao Senhor,& pedi- 



11- 
daquelle tempo 3 como ef- tsio Ucguç^: domine, Ji j^err ^ ^ 
te regalo foíFe tão contra- ctitimus ingladlo ? F quem a^-'*^' 
rio à mortificação, que o fe moftxou mais íiel fervo. 
Senhor profeíTava , claro maisvalenre, 6c mais zelo- 

fQ 



4,8 ò Sermão i^e 

íoda\^id;i,& da honra de IheniandaíTem. Mas com 



razão he regeitada de to- 
dos efta fucileza , como 
alhea do texto,& da conò^x.^ 
ção do rayo ; porque os ra- 
yos depois de caliíicarem 
a fua obediência com a 
execução, então he que a 
proteftâo com dizerem. 
Aqui efba mos ; i^«%í,e^r^^ 
'vertem ia dicent : Adftimus. 
lílo he o que íizcrão os 
dous rayos vingadores 



3í 




feu Senhor ? Na6 ha duvi- 
da, que Pedro, & co mo tal 
olouvão todos os Santos. 
Entre os outros Difcipulos 
tcUiibem fe achavão os 
dous Boanerges , os dous 
Rayos, masquem fe por- 
tou como rayo foi Pearo, 
porque eíTa he a bizarra 
natureza dos rayos, ferir, 
& executar primeiro , & 
depois proteftar a fua fo- 

geiça6,& obediência. He das injurias de S. Barbara, 
texto excellente no livro começando a proteftação, 
Job. í8. ^Q^Q]^\]\[^iyiquídmittesful' & reconhecimento da fua 
gura-i&ibunt^Ò' rever ten- obediência, & íbgeição à 
tia dicent tibi : Adfiífnus? Santa,peiaanticipadaexe* 
Porventura, diz Deos a cuçáo doquedeviáoàfua 
Jobjfaótaesosteus pode- honra,femefperaroman- 
res,comoosmeus,quedcf- dado, ou licença do feu 
pidas do Ceo osrayos,& império. EJl nirnirum h^c 
elles depois de executa- circumlocntio obfequeyitif- 
rem tornem a ti , & te di- Jímnrum famulorum : diz cõ 
gão: Aquieftamospromp- 
tospara obedecer o que 
nos mandares.*^ Caietano 
demaíiadamente fútil ne* 
ftepaíTo, diífe, que eftão 
aqui as palavras trocadas, 
& que primeiro fe havião 
deprcíentaros rayos obe- 
dientes,& dizer, Adfumus^ 
6c depois exccucar o que 



S. Gregório Papa o doutif- 
fimoPineda. 



441 



§• IV. 

T 



Emosvifto co- 
mo S. Barbara 
dominou o mais efcondi- 
dothefouro da natureza, 
q hc o fogo, 6c como Dcos 
lhe 



S. Èarbara. 48 1 
Ike fogeitou as mais vio- efta flngiilar prerogacira 
lentas , & temeroíàs par- de S. Barbara , qualquer 
tes, ou efFeitoscícIIc , que outra Virgem, & Martyri 
faó os rayos. Dizendo po- mcr eceo igualni tm.^^ por- 
tem o Evangelho, que os que deo o mefmo preçoi 
thefouros, de que falia, A mefma natureza parecd 
ninguém os alcança de também que confirma eílç 
graçajfenão comprados,& direito em duas exceiçoê^j 
comprados có tudo quan- oulimitaçoens, com que 
to poííiie : Vendit univerfa^ produz os rayos. Não fó os 
quahabet , & emit agrum Poetas , que merece pou- 
íY/a^/jfeguefejquc vejamos co credito, mas os Autho- 



qual foi o preço propor 
cionado , & juftojcom que 
anoíla Santa , & ella fó, 
comprou, & mereceo efte 
extraordinário dominio. 
He queílão curiofa, & naó 
fácil. Para inteiligencia 



res da hiíloria natural, co- 
mo Piinio, & os mais, ex- 
ceptuáo da jurdição dos 
rayos entre as aves a A- 
guia,6c entre as arvores o 
Louro. E aílim como a 
Águia , & o Louro náofaô 



delia, havemos de fuppor dominadas , fenão predo- 

que eftes thefouros, quaef- minantesao rayo, aflim à 

quer que fejão, ou os com- Virgemj&à Martyrpare- 

praó os Santos por mãa ce queJie devido efte pre- 

propriajoupormáo alhea. dominio : à Virgem , em 

Os ConfeíTores compraó quanto Martyr , como à 

por mão própria, com as Águia, pela Coroa , & à 

virtudes,&boasobras,quc Martyr,em quanto Virgê, 

elles per fy mefmosexer- como ao Louro, pelaLau- 



Citáo : os Martyrcs com-, 
práo por mão alhca , co m 
os tormentos, & cruelda- 
des , que lhe fazem pade- 
cer os tyranos. Mas daqui 
parece que fe fegue> que 
, Tom,/» 



reola. Que cauía ha logo , 
ou que razão de diíFerença 
entre tantas Virgens , & 
Martyres, para que a íin- 
guiar prerogativa deftc 
dominio a dèíle a ^lymã. 
Hh Ju. 



i mi' 



! \ 





^ .«. f 1 



482 Sermão de 

Juftiçajcomo premio de fez. Os equleos , as cata- 

feu merecimento, única- ílas^os efcorpioens,& pen- 

mente a S. Barbara? tes de ferro, as laminas ar- 

442 Arazaó manifc- den tes, os chumbos derre- 

ftahc} porque o martyrio tidos, os peitos cortados, 

de S. Barbara entre todas, os dentes, &: voracidade 



& todos os Martyres,foi 
o mais violento, & furiofo 
de quantos fe padecerão a 
mãos dos tyranos. Os ou- 



das feras, tudo fe expri« 
mentou em Barbara: não 
havendo parte faã, & de 
que não correíTe fanguc 



tros Martyres padecerão a em todo o delicado corpo,, 

mãos dos Ncros, & dos &fcrindofejà não o cor- 

Dioclccianos } S. Barbara po, fenão as feridas huas 

a mãos de feu próprio Pay; fobre outras. Vencido pois 

género de martyrio pela Marciano, & vendo efgo- 



atrocidade dcfta circun- 
ílancia,naó fó lingular, & 
inaudito , mas não imagi- 
nável. Soube Diofcoro, 
quefua íilha era Chriftãa, 
& porque nenhum meyo 
lhe bailou de promeífas, 
ou ameaças , de benevo- 
lência, ou rigorjcom que a 
podeífe apartar da Fè ^pri- 
meiramente a entregou ao 
Prefidente Marciano de- 
baixo de juramento , que 
todos os tormentos, & gé- 
neros de martyrios , quan- 
tos atè então fc tinháo in- 
ventado, os havia de ex- 
primentar,& executar nel- 
ia: Sc ajiiai o jurou, Ôc fe 



tados em vão todos feus 
tormentosj, pronunciou fi- 
nalmente a ultima fenten- 
çaa& mandou aosverdu- 
gos,que cortaíFem a cabe- 
ça a Barbara. Os verdu- 
gos.^ replicou o Pay, iíTo 
não. Eu fou, & com eftas 
mãos, o que lhe hei de ti- 
rar a vida. lílo diíle de- 
fembainhando a efpadajôc 
deícarregando-a com toda 
a força na garganta inno- 
ccntc, comhum golpe lhe 
apartou a cabeça dos hom- 
bros. Oh efpedl.iculo , ô 
portéto de deshumanida- 
de,nQca viílo, como dizia, 
né ouvido, nê iinagin.-ído í 
Hum 



S. Bar bar a. 4^^ 

445 Hum fó Pay le- fejava a vida , outro tiraa- 



mos nas F fcricaras, que ti- 
raíTe a vida a fua filha, que 
foijeptejem comprimen- 
to de hum voto, que tinha 
feito a Deos. Mas que có 



do-a a quem a tinha dado» 
Hum com o maior exem- 
plo da fé, outro com o ma* 
iorefcandaIo,& horror da 
natureza. Em fim ambos 



paraçaó tem aquelíe caio pays,& ambas filhas, mas 

com eík? Aqueile foi hum com tal diflPerença em hú , 

cxccíTo de Religião, efte & outro efpedtaculo, que 

humprodigiode cruelda- vendo o facrificio dejep* 

de. AlJio Pay era Sacer- te choravão de laftima 



dote, aqui facrilego, ím- 
pio, 6c blasfemo. Humfa- 
crificava a filha amada a 
Deos, outro a filha aborre- 
cida aos Ídolos. Humdcr- 
retendofelhe as entranhas 
de compaixão como cera, 
outro com o coração mais 
duro que os mármores. 
Hú correndo] he dos olhos 
lagrimas de piedade , & 
amor , outro vomitando 
pela boca labaredas de 
ódio, & ira. Hum derra- 
mando o fangue da filha 
CO mo próprio, outro naó 
fó como alheo , mas como 
do maior inimigo. Hum 
tremendolhe a máo da ef- 



mulhcrcs,& homens , & a 
vifta do parricidio de 
Diofcoro pafmavão , & ef- 
ta vão atónitos os leoens,& 
os tigres. E como o mar- 
tyrio de Barbara foi o mais 
violento, & furiofo de to- 
dos os martyrios , por iííb 
mereceocomelleo domi- 
nio do mais violento , 6t 
furiofo de todos os Ele- 
mentos. 

444 Cóparaimc o Pay 
de Barbara, na violência , 
& fúria defta fua acção 9 
com o fogo,&: vereis quam 
parecidos, & femelhantes 
íaó hum, & outro. Notou 
advertidamente Séneca , 5^^^.^ 



pada, outro triunfando de quehe natural da violen- 
d ver tingir na purpura, cia, & efficacia do fogo, ; 
que lhe íaíra das veas. nãoconfentirque as cou- 
Hi^m matando a quem de- fas fejáó o que faó |: Ignis 

Hhij mhit 



:i||i; 



4^4- 'Sermão de 

nihileffey ^uoãfit , patitur, tureza,&: ellas por inditu- 
EraDiofcoroPayde Bar- to, fem geração. Ouça- 
bara,masa violência , & mosao Authordo feu Ri- 
furia, ou por melhor dizer tual no livro dos Faílos. 
o fogo da fua tyrania não Nec tu aliudVtftam , quam 
coníentio que fofle o que ^iva intelltge flammam, 
era. Era Pay,&: deixou de Nataque de flamma cor- 
lerPay. Mas allim havia poranulla vides. 
de fer , ou deixar de fer o lure igttur Vtrgo eji.quafe- 
que era,para mais própria- minanulla remittlt 
mente íer como o fogo. Neccapit 
Entre tod©s os Elementos E como o Pay de Bar- 
fó o fogo não hePayitodos bara, fendo Pay por natu- 
os outros geraó,&faÓ fe- reza,deixoudeferPaypor 
cundos,fóofogohc efte. tyrania,& tendo-a verda- 
ril,&nao gera. EíTa he a deiramente gerado, lhe ti- 
propriedade da etimolo- rou tão cruelmente a vida, 
gia,com que os Latinos fa- como fe a não gerara , em 
biamente lhe chamarão perpetua memoria át^ç: 
/^«/j.XJompoemfeonomc portento da deshumani- 
igmsá^m,^àç^gigno,co- dade lhe deo juílamente 
moi^ái^tr^çi.nongignens, Deos o dominio do Ele- 
o que não gera : porque as mento, que fó não he Pay, 
Salamandras, que alguns nem gera : & aílimcomo 
lhe perfílhaó, faó fabula, dia padeceo a violência. 
Mais fízerão. Para guar- &furiado mais violento. 



Ovid ia 
Faftis. 



dar perpetuamente o fo 
go, que chamavão fagra- 
do, inítituirão a Religião 
das Virgens Veftaes. E 
porque razão Virgens ? 
Para que ellas, & o fogo, a 
quem guardavão , foíTem 
femclbantes : clle por n^- 



& furiofo de todos os mar- 
tyrios, aífim dominaffe a 
violência, & fúria do mais 
violento, & furiofo de to- 
dos os Elementos. 

4+f E fe a íingulari- 
dade do martyrio de S. 
Barbara mercceo eítc do- 
mínio 



\J'JÁ 



S. Barbara] 4^/ 

mmiocómumfobre o fo- das as criaturas irracio- 
go, não foi menos devido naes, nenhúa traz maisim- 
à caufa do mefmo marty- preíTo , & expreíTo em fy 
rio o dominio , & império efte carader, que o rayo , 



particular fobre as partes 
mais violentas , & furiofas 
do mefmo fogo, que faó os 
rayos. Quaíido o Pay jà 
cruel encerrou a Santa na- 



oqual he hum tridente de 
fogo dividido em três pó- 
tas, & por iíTo chamado 
trino, ou trifulco. i//^ /»^- 
ter^Reãorque^eúm ^vui 



quella torre, mandou que dextra trifulcis ignibus ar 
feabriíTem nella duasja- mataeft^ diz Ovidio i3c 



nellas ; & como depois 
viíTe abertas três , & fou- 
beílc da mefma filha , que 
cila tinha acrccentado a 
terceira em hora da Trin- 
dade do verdadeiro Deos, 
trino, & uno , que adora- 
va ; efta fé, & proteílaçáo 
conftante foi a caufa do 
feu marty rio. Vamos ago- 
ra ao miíterio, & propor- 
ção do premio , com que 
Deos o remunerou. Ém 
todas as coufas , que Deos 
criou, como marca , ou ca- 
radber próprio Ç a modo 
dos grandes artifices 3 im- 
primio alguns veftigios do 
íeuíòberano fer, trino , & 
hum, poílo que muitos os 
naóconheção, comodiíTe 
David : Et veftigia tuanon 
cognojcentur . Mas entre to- 
Jom./. 



Séneca : Opifex trifulciful- 
minis Jenfit^ eus. Por ou- 
tra parte a mais natural 
hoftilidade dos rayos,(que 
íèmpre bufcão o mais al- 
to} hecombater,& efcal- 
lar as torres. Tanto af- 
fim, que em alguns lugares 
de Itália , que refere Píi- 
nio, foi vedado noteppo 
da guerra levantarfemfe 
torres, porque todas ba- 
tiaós&deftruiãoos rayos : 
Turres bellicis temporihis 
defierejieri^7iuUa non earMm 
fulmine diruta.^ como a 
caufa do martyrio de S. 
Barbara foi a Fé, & prote- 
ílaçáo da SantiíUma Trin- 
dade efculpida, oa decla- 
rada nas três janellas da 
fua torre ♦, para que o pre- 
mio foíTe proporcionado 
Hh iij naò 



Pliniuv 

lib. 2. 
cap.4. 








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^'^ Sermão de 

mo fo ao martyrio, fenaó 4^7 He tal a bondade 

TS^T^^^^^^A^A^"^"^.^' ^^Í^^^^^C o qual ainda 

moriadaTrindadedeolhe quando mais irado fc náo 

o doniinio dos rayos , que efqtiece de fua mifencor. 

reprefentaóamefmaTriii. dia Jquequando quer ca- 

dade nas fuás três pontas : íligar os homens , o que 



& cm memoria da torre 
fella Tutelardes torres, 8c 
dos caftelíòs, para que as 
guarde , & defenda dos 
mefmosrayos. 



mais fente he,não haver 
algumiquefe lhe oponha, 
&lherefifta. Efta he a, 
queixa, que faz por boca. 
delfaiasno Capitulo cin- 
coenta & nove , onde o 
Profeta defcreve ao mef- 
^ ' ■_. '■ ■ y" moD^os irado contra os 

í>íi446 pAra >=bem vos cativos de Babilónia , & 
^ 1 fejaórodopo- armado de juíhça,de zelo» 

oeroío, & todo piadofo de indignação, òc vingan- 
DcosCque me naó quero ca para os caíligar , ò^^^dc- 
congratular neíle caíò có ' 
anoíTají^voíra Santa, fe- 
naó com a voíía iníinita 
bondade. jPara bem vos 
fejaó eíles m cfrn os pode- 
res , que cómunicafces à 

Ç p ^ , icrva, Cv ue- w,,,t»í.^^í,;>,,^ c^aují uurci.r luu- 

tenlora noíia, para que te- t tonem hoíiihusjtiis , & ^^/- 

nha a voíTa miíericordia, cifíuudimm immicis fuis 

quem modere os rigores Eítascraóasarmas,deque 

de voO-ajuí^iça, & quando Dcosjà cílava veítido de 



íiruircomo inimigos 



. In- 



duíusejíjuftitía, iit loricuy 
& galea falutis^ zn capite s^ ^p. 
eJHs: hidíLtus c[l vejUmen- •7-»5i- 
tis ultionis y é- opertus ejl 
quaji palito zeli : Jictit ad 
vindtãam quaJi adretribu. 



a voífa maõ' armada de 
rayos queira fuhninar o 
nuindojou vos tenha maó 
nobraço^ouosapague, & 
divirta,antes de chegarem 
à terra. 



ponto em branco , para 
executar o caíligonaquel- 
les homens. £ a fua quei- 
xa, no meyo deíla mefma 
dehbcraçáó , qual era > 



S. Barbara] 4^7 

Bédita feia tal bondade,ac nal Hebreo, non afcendtftts, 
tal amor ! Et vidit quia non infraãuras, & interrufUo- 
efl 'Vir : & aporiatiis eft.quta nes ] neque oppofuiftis mu- 
nonefíqui occurrat. Aílim rumpro domolfraeU utfta 



provocado de íiiajuíliça, 
aíllm irado, aílim armado, 
aíTím deliberado a caftí- 
gar,& jà com os inftrumê- 
tos da vingança nas mãos: 
o que Deos mais fentia, o 
que mais o magoava , o 
que mais o aíHigia, &: qua- 



retis in pralio ir.die T>omi^ 
ni. Foi o cafoj qiie tinha 
Deosficiado a Gidade de 
Jerufalemcoín o exercito 
dos -Chaldeos para a ca- 
íligar,& deílruir: ^ tendo 
jà aberto brechas para o 
aíTalto real (^ que iíTo quer 



fi defefperava, ( que tudo áizGtfiaãuras,& innrrup 

iíTo fignifíca aporiatus eft } tknes ) queixafe Deos de 

emfim o de que fó fe quei- queos cercados nam fizef- 

xava o bom Senhor, he de fem contramuros ás mef- 

naó haver hum homem, mas brechas, Neque oppo* 

que Te oppuzeíTe , & con- fuiftis murunii & naó fahif- 

trariaíTe a fua mefma deli- fem a defender fortenien- 

beração, & acodiíTe pelos te a entrada dos inimigos. 

que queria caftigar,&ro- Pois íè o fitiador era Deos, 



gaíTe, & intercedeífe por 
ellcs: & com efficacia de 
razoens, como Moy fes , o 
perfuadiíTe a perdoar : ou 
lutando com elle , como 



& o exercito de Deos , & 
de Deos havia de fer a viv 
toria, & o eaíligo , In 'dm 
^omini s porque fe queixa 
o mefmo Deos de nao ha- 



Jacobjà força de braços, & ver quem fe lhe oppuzeíFe^ 

a braços o reduziíre,& ren- & refifí:iíre,iVd/?í afcendiftis^ 

'^ ex adverlo^nequeojjpofmjiis' 

murum^ Forque lendo a 
condiç^\ódeDeos naó có- 
denarjfenaó perdoar, nam 
aíTolaryfenáo confoiarjiiaò 
matar , fenaó dar vida 5 
íiii iiij 9.uan« 



deífe 

448 A mefma queixa 
fez outra vez Deos pelo 
Profeta Ezechiel , dizen- 

Eiech do ; Non afcendijtis ex ad- 
'i í- verfo [ ou como lè o origi* 



i 





iRcg. 



488 Sermatde 

quando, a mais naÓ poder, rabit : carbmesfucceyinfunt 

toma as armas para nos ca- abeo. Inclinavit cJos , & 

itigar.oquemais defeja,& defcendif. & caligo fub pe- 

reíifta,& o obrigue a em- conCpenu eJHs,fuccenfi funt 

quando da femelhantes Calo'Domrms,& excelíus 

poderes contra fy , ou fo- dabrt ■vocemfuam. 7mZ 

brefy mefmoa Barbara , gittas,& dépavtT fui- 

naoaeIla,nemanòs.fpnaó * i. ,1 r- ^ 'J"i 



guT, é- conjumplit eos. Et 



naó a ella,nem a nòs, fenaó 

C;sdtirAr°"^;^' ^^'''"' ^'^^à-revdatJ rum funda. 

^^«.rr^í&fe queixava de neT>omini, ai tnfptr atice 

raoter hum homem, que fpiritusfurons eius. Nam 

felheoppuzeíTe , jàagora tz lingua. quepoíTa decl™ 

terá hua mu!her,que p. «é- ,„ a profopopea tremen- 

ça,&odefarme.„,,,,,,.v..^ da defta defcripçaó , S 



As mais temerofas, & 
formidáveis armas deDeos 
faó os trovões, & os rayos : 
Vomimmformídabtmt ad^ 
verjartj ejits : & fiiper ipfos 
in Calís tonabit. Armado 



emudecendo. 'Inclinará 
Deos os Ceos,& avilinhar- 
fehamais à terra para ca- 
íligar feus habitadores : 
debaixo dos pès trará hum 
remoinho de nuvens ne- 



deitas armas nos pinta Da- gras, efcuras , & caJigino- 
vid ao meímo Deos com {:,s', das ventas lhe fairáó 
tal horror de palavras, que fumos efpeíTos de ira , de 
ate pmtado faz tremer, indignação , de furor : da 
Lormnota eft, & contremuit boca,como de fornalha ar- 
dente, exhalarà hum vol- 
cáodefogotragador, que 
tudo acenda em brazas, & 
converta em carvoens: 
atroará os ouvidos attoni- 



Urra '.fundamenta montium 
^l^eg. coricuJfaJunt,& conquaffa. 
tayqiLoniarn iratus eji eis, 
Afcenditfurmis de naribits 
ejusy&ignisdeore ejíis vo- 




S. Barbara. 489 

tos com os brados medo- nome, por mais que as nu- 



nhos de fua voz, que faó os 
trovoens ; cegará a vida 
com o fuíilar dos relam- 



veiis fe rafguem em tro- 
voens, fe acendaó em re- 
lâmpagos , & fe desfaçaò 



pagos alternadamête ace- em rayos,(S. Barbara! )em 
fos, abrindofc , & tornan- fe invocando, &foandoef- 



dofe a cerrar o Ceo teme- 
rofa mente fendido : defpa- 
rarà finalmente as fuás íàt- 
tas, que faó os rayos,5c co- 
rifcos : abalarfehaó os mo- 
tes, retumbarão os valles, 
aífundarfehaó atè os abif- 
mosos mares , defcubrir- 
feha o centro da terra , & 
«parecerão revoltos osfú- 
damentos do mundo. Eno 
meyodefta confufaó, af- 
fombro,terror,&defmayo, 
quaes eftaráó os coraçoens 
dos homens , & que fera 
delles ? Confumilos ha 
Deos, diz David , Et cm- 
fumpfit eos. Mas ifto fe en- 
tende do tempo , em que 
David efcreveo , muitos 
feculos antes de hai''er na 
terra a gloriofa defenfora 
deílas baterias, & ácí^cs ti- 
ros do Ceo , atè entaóin- 
venci veis. Porém depois 
que no mundo foi conhe- 
cido aquelle nome fagra- 
áoy ou o fagrado daquelie 



te poderofo, Ôc portenrofo 
nome, os trovoens , os re- 
lâmpagos, os rayos tudo fc 
diílipou,& aquelles eílron- 
dos, medos,& ameaços do 
Ceo, não fó paráraó fem 
efFeito,& fe desfízeraó fem 
danoi mas donde a terra 
temia fer abrazada,fc vio 
regada,porque os rayos fe 
refõlvéraó cm rios, & o 
fogo fe có verteo em agua : Píaim. 
Fulgura jnpluviamfecit, ^^'^'^' 

449 E u naó quero, nê 
poíTo dizer , que depois 
que no mundo ouve Si 
Barbara^ os rayos naó fof- 
fem nocivos aos homens > 
ou aíFom brando- os fó com 
o ar,ou tirandolhe a vida , 
êc fazcndo-os em cinza 
com o fogo ; pois eftáo 
cheasas hiftorias de mor- 
tes notáveis de grandes 
perfonagens feridas , & ef- 
pedaçadas com rayos. Mas 
oque fó quero dizer he, 
que de peilbajque inyocaf- 




490 ScrmaUe 

fea S. Barbara & algum podem evitar : outros faò 

hiíWha,nemcomolo- nos,&?ópara eftespode^ 

go direi,a pode haver. Se^ aproveitar as oracoens , t 

raes^d^oi^d ;r "T "^ -^os:i^W^.^.,,;i._ 

aesdepoisdedifputarro- ^^. tynmonahhus ttafur^^^^-' 

hua fentença verdadeira- preces fuennt, & vota íL 

mente Eftoica : Maloful^ ^./.^/Atèaqui^eneeact 

men non Umere, quàrn r:ofe : Jo grande Filofofo 'mas 

fintes quero não temer 6 fem fé. Para nos porenTI 

rayo que conhecelo. Tu, fabemos que naõ^ha fado 

i.ucilio,enrina aos outros mais que a Providencia 

comoosrayosfe fazem eu divina^emprelivre, & t^l 

para mim fo quizera faber do Doderofa : digo que ne^ 

comofe naô temaó : Ita^ nhum rayo poderá fazer 

•mw ^uealws docequemadmodú mal a quem fe encomen^ 

jiant, ego mihtmetum tUo- dar a S.Barbara.E porque^ 

rum excutt maio , quàm na^ Porque allim o promereo 

turamindtcart. E fe per- Deosà mefma lianta An- 

guntarmos ao mefmo Se- tts de ofl^erecer a garganta 

neca como fe podem nam à efpada do tvrano,fezBar. 

temer os rayos?Refponde, bara oraçaó a Deos , que a 



que naò temendo a morte. 
Sòquemnaó teme a mor- 
te, naò teme o rayo. E naó 
bailara , fallandogentili- 
camcnte , encomendarfe 
hum homem aos Deofcs.? 
Abfolutamente naó. Por- 
que os ray os, diz elle, huns 
faó fatacs,&neceíí-irios,& 
eftesde nenhum modo fc 



todos os que a tomaífem 
por inrerceííòra concedef- 
fefuadivma Mageltade o 
que pediílcm : & no mef- 
mo ponto íè ouvio huma 
voz do Ceo,que dizia : Af- 
iim ícrà como defejas. Lo- 
go nenhum rayo pode fe- 
rir a quem tomar por iví^ 
tcrcellòniaS. Barbara. A 
con- 



S. Barba 
confequencia Ke evidente. 
Porque aqueIlaívDZ,que fe 
ouviodo Ceo/fòi voz de 
Deos : & o rayo,que fae do 
trovaó, também he voz de 
Deos, como diz Job : la- 
^^- ^7' nabit T>eus invocefua.Lo- 
go efta fegunda voz de 
Deos he força, que fe con- 
forme com aquella pri- 
meira também de Deos, 
porque naó feriáo vozes 
da rumma verdade, fe 'bua-' 
contrariaíleaoutraj íii''°*^v 



5. VI. 

45^^. A Tè aqui temos 
ZjLviílo quães faó 
os poder es, &: domínio de 
S. Barbara fobreo fogo na- 
tural, & contra os mais 
violentos, & furiofos par- 
tos delle , quaes faò os 
rayos. Mas de trezentos 
annos a eíla parte tem cre- 
cido muito mais a jurdi- 
çaó,& império da mefma 
Santa fobre o Elemento 
do fogo. Ate o anno de 
Chriíl:omir&: trezentos & 
quarenta &:quatro,o cam- 
po em que dominava S. 



''^' 491 

era ;i Regia 5 doar, com os 
ícus relâmpagos, & rayos ,; 
& com todos . 05 o Litros; 
meteoros ardentes , que 
nelle acende o fogo , env 
que também entraó os va^^ 
ftiílimos corpos, 6c formi^ 
dáveis incêndios dos Ca-r 
metas Efte univerfal do- 
mínio como governadora, 
& protectora exercitou a 
noílà Santa pí^fk-eípaço 
mais de mil annos,que tan- 
tos fe contarão defde o feu 
martyrio atè o anno jà re- 
ferido de mil trezentos & 
quarenta & quatro. E fa- 
ço aqui efba diílinçãd de 
tempos , & de poderes j 
porque nefte anno fe acre- 
centou à mefma Santa fo- 
bre a jurdíção do fogo ele- Sponda- 
mentar , & natural , a dos "oaíl 
fogos artiíicíaes,cujospro-^^i '344- 
digiofos exceíí<^s , que ca- 
da dia vemos crecer mais> 
«Sc mais com novos horro- 
res da natureza , entaó ti- 
veraó feu principio. Com- 
razão clamão as Efcritu- 
ras, que das pa rtes S eren-> 
trionaes,& do Norte faí-> 
ria todo o mal. Aílim fe vio 
na Germânia^ porque del- 
ia 



i 






i-erem. 
1.13. 



49 J Strmaode 

la fahio naquelle annopa- ria, porque, atè entaó efta 



rapefte imiv^erfal do gé- 
nero humano a fatal invé- 
ção da pólvora , fendo feu 
defcobridor Bertoldo Ne- 
gro, o qual jà trazia no ap- 
pellidoacor,quehavia de 
ter o feu infernal invento. 
O primeiro Profeta , que 
profetizou os males , que 
no Setentriáo haviaó de 
terfua origem , foi Jerc 



va cncerradOi , & oculto 
nos fegredós da natureza , 
& quando fe inventou, en- 
tão fe àç^Çzohxio^T andetur . 
Os primeiros q feachaó 
haver ufado da artelharia 
pelo artificio da pólvora 
(^ao menos na Europa] fo- 
ráoos Mouros contra os 
Chriílãos na Batalha de 
Al2;ezira em Hefpanha. 



mias, quando em figura de De maneira, que bem ad- 
húa caldeira ardente ,0/- vertida a Chronologia dos 



Iam fuccenfam ego video , 
vio o incêndio, com que 
Nabuzardaó havia de 
abrazar a Jerufalem. E 
verdadeiramente que as 
fuás palavras muito mais 
naturalmente fe podem 
entender do incêdio , com 
que Bertoldo abrazou o 
mundo. Ab Aquilone pan- 
detur malum fupcr 



tempos, no mefmoíeculoj 
&quaíi pelos mefmos an- 
nos tiveráo feu infauílo 
nafcimento as maiores 
duas peíles do mundo , a 
pol vora,& o Império Oto- 
mano. E parece que aílim 
eílava profetizada húa, U 
outra muitos feculos antes 
por Daniel no Capitulo fe- 
timo. Fallaallio Profeta 



»rt*..*, ,„^^^„* y,*y^t/ 01717168 w inn vy . X til ia a £ H W XlUH.La 

' '^"^^ habitat ores terra. Aquelle dos quatro mais famofos 
fogo abrazou fomente os Impérios do mundo , & 
habitadores de Jerufalem , 
eítetemabrazado, &:con- 
fumidoatodas as naçoens 
do mundo. E delle íe diz 
com maior propriedade , 
^andetur malum , que o 
malfc abriria, 6c defcobri- 



com grande efpecialidade 
das três partes do Roma- 
no, que lhe havia de rou- 
bar, &: dominar o Turco 
na Afia, na Europa, 6c na 
Africa,chaniandoao mef- Daniel- 
mo Turco> Comu par\,uLú^ 7.8. 
pela 



W 



bid. 



SjBarbara. 
pela baixeza de feus prin- Deos 
cipios. E na mefma or- 
dem da narração diz, que 
vio a Deos aíTentado no 
trono de fua Mageílade, & 
queda boca lhe faia hum 
rio de fogo arrebatado: 

Fluvim igneusy rapidus que fua Providencia, que fe fa- 
•'° egredtebatur à facie , hoc çáo. Efteriopoisdo fogo 
efiy ah ore ejus. E que rio » - ^ ^ ^ . ^ , 

de fogo nomeadamente 
arrebatado, & furiofo hc 
eíl:e,fenaó o da pólvora, 
inventado no mefmo tem- 



495 
porque naó fó as 

coufas naturaes faó efFei- 

tos da fua boca , & da fua 

vozilpfedixityCrfaãafunt'^ ^'^^"^ 

fenaó também as artifi- ^^' 

ciaes, quando querendo, 

ou permitindo difpoem 



arrebatado, & furiofo da 
pólvora fe dividio logo 
em tantos canaes , huns 
maiores, outros menores, 
quantos faó os canos de 



po do Império Turquefco, ferro, ou bronze,por onde 

como logo nota o mefmo o mefmo fogo furiofam^- 

I. Profeta : Afpiciebamprop- te rebenta , & por iííb fe 

ter vocem fermonum gran- c ha mão bocas de fogo. Na 

diiim^ quos cornu illud lo- Cavallaria as pifl:olas,& as 



quebatur ? Era o author à^- 
Ite invento de profííTaó 
Religiofo, ao qual, como 
bem diz Eípondano , fora 
melhor, que notempo, em 
quefaziaaquelías experi- 
ências, fe eftiveíFe enco- 
mendando a Deos : mas 
permite o mefmo Deos 
lemelhantes invençoens, 
aflim para caftigo dos 
máos, como para gloria, & 
exaltação de feus Santos. 
Primeiramente faia efte 



caravinas, nos Infantes os 
mofquetes,& os arcabu- 
zes, nos exércitos, & nos 
muros das Cidades os ca4 
nhoe^SíÔc as culebrinas»^ E 
todos eHes infíru mentos, 
& os que os manejaó, fica- 
rão defde entaó fogeitos 
ao imperio,& debaixo da 
protecção de S. Barbara. 

4f I Vede quanto íe 
aumentou o feu dominio 
comoinvento da pólvora 
na mulddaó,na variedade. 



rio de fogo da boca de naforçajnos eíFeitos , & 



ain- 




Sermão de 
flicilidade dos tanta mulrídaó de rayos, 
quantas faó as pedras das 
fuás muralhas. Os rayos 
que caem do Ceo em mui- 
tos annos/aó contados, os 
quefe fulminaó da terra 
na bataria, ou defenfa de 
húa praça, naó tem conto. 



ainda na 

tiros, í^ machinas de fogo, 
a que prefide. Para fe ge- 
rar hum rayo he neceíla- 
rio, que as terras naó fejaó 
extremamente frias , que 
por iílb na Scithia faó ra- 
riíUmos : he neceíTario, 



que o tempo feja Eftio, ou Ainda quando os do Ceo 
Outono: que as nu vens fe- fenaó contentaó com fe- 



jaó efpeíTas, & húmidas 
que as exhalaçoens fejaó 
fecas & cálidas : que o mo- 
vimento, ou anteparifteíis 
as acenda : que a rotura por 
onde fae feja pela parte in- 
ferior,& não pela de cima: 
6c que a matéria feja craííâ, 
& pingue, porque fenam 
diflipe, ou apague o fogo, 
antes que chegue a terra. 
Tudo iílo he necefiario 
para formar hum rayo na 
Região do ar. Na terra po- 
rèm, quam pouco bafta .? 
Bafta que aos que tem o 
fupremo poder lhe fubá à 
cabeça hum vaporíinho, 
ou de cobiça, ou de ambi- 
ção, ou de inveja, ou de 
ódio, ou fomente de vai- 
dade, &: gloria , para que 
contra hua fortaleza , ou 
fobrehúa Cidade chova 



rir os montes , ou com fe 
em pregar nas feras, & nas 
eníinhas, ou fó com meter 
medo aos homens 5 raro he 
o rayo, que feja reomais 
que de hum homicidio. 
Mas os que faem de húa 
peça de artelhariajfe o naó 
viftes,ouvi o eílrago, que 
fazem. Na batalha naval 
entre os Ccfarianos , & 
Francezes na ribeira de 
Salerno matou húa bala de 
artelharia quarenta Ceíà- 
rianos: Na batalha cam- 
pal dos Alemães contra os 
Efpanhoes junto a Rave- 
na matou outra peça com 
hum íó tiro mais de cinco- 
enra Alemães : Na guerra 
de Alberto Cefir contra 
os Polacos em Bohemía, 
não clizem as hiílorias ác 
qual das partes, mas afiir- 
maó. 



S. Barbara. 4Pf 

maó, que húa fó bala ma- ferno havia de fair apol- 

tou oitenta foldados. vora,dc nenhum modo 

4f2 Que femelhança dera ao rayo o nome de 

tem com a fombra difto as inimitável, pois a noílà ar- 



telharia naô fó o imita,mas 
vence. Todo o apparato, 
& fabrica eftrondofa de 
hum rayo a que fe reduz 
no ar ? A húa nuvem 5 a hu 
relâmpago, a hum trovão > 
& aomefmorayo. Etudo 
iílofe vèj&exprimenta có 
ventagem no tiro de húa 
peça. O fumo he anuvem> 
o fogo o relâmpago , o ef- 
trondo o trovaó , a bala o 
rayo. E digo com venta- 
gemi porquea nuvem aca- 
bou no primeiro parto , & 
em fe rompendo fe desfez, 
êcdefvaneceo: & a peça 
inteira , & folida dura an- 
nos,ôc fecuIos,defparando> 
& lançando de fy no mef- 
mo dia, & na mefma hora 
naófohum, fenáo muitos 
rayos. Pouco ha diííemos, 
que o fogo natural era eíi 
teril, & náo gerava ; mas 
depois que o Artificial fe 
ajuntou com a pólvora em 
todo o género de viventes 
tem filhos de fogo. Ani- 
nhara, que do mefmoln- mães defogo nos camelos, 

íer- 



Balliílas, as Tcrebras , os 
Arietes,as Catapultas, & 
todos os outros inftrumen- 
tos bellicosjque com tanta 
força de engenho inventa- 
rão primeiro os Gregos, 
depoís os Romanos , & 
com canta força de braços 
naó confeguiaó em muito 
tempo^éc trabalho, o que 
faz em hum momento húa 
maó com hum botafogo.^ 
Muitos ouve 3 que quize^ 
rao imitar os rayos, que a 

Í;entilidade chamava de 
upiter , em que foi taó 
famofa a arrogância de 
SulmonReyde Elide vi- 
vendo, como he fabuíofo 
no Inferno o caíligo do feu 
atrevimento. Virgílio lhe 
chama louco, porque quiz 
imitar o rayo, que nam he 
imitavel. 
*DemenSiqui nimbo 'i & non 

imitabilefulmen 
^^re^ér comipedum curfu 

Jtmularat eqmrum. 
Mas fe a fua Mufa adevi- 



49^ 



Sermão de 



I 



'<- 



ferpentes de Fogo nosba- 
íiliícos,aves de fogo nos 
falcoens 3 & em todos os 
outros inílrumentosfulfu- 
reos,homcnsdefogo. Ho- 
mens de fogo na artel lia- 
ria , homens de fogo nas 
bombas, homens de fogo 
nas granadas, homens de 
fogo nos petardos,homens 
de fogo nos trabucos , ho- 
mens de fogo nas minas,6c 
aílímíbbre a terra, como 
debaixo delia homens de 



Averiguada conclufaõ hc 
entre os Meftres de haa,5c 
outra milicia , que compa- 
rada a da terra có a do mar, 
eftahe muito mais traba- 
Jhofa,&perigofa. Na terra 
peleja contra vòs hum ele- 
mento, no mar todos qua- 
tro : na terra tendes para 
onde vos retirar, no navio 
eftais prefo, &naó ttndQg 
outra retirada,que lançau" 
dovosao mefmo mar. Na 
terra ajudão huns cfqua- 



fogo,que nelle, & delle vi- droens a outros efquadro^ 
vem, ens,& huns terços a outros 

terços, no mar eílais com 
os companheiros à viíla,& 
nem elles muitas yqzqs vos 
podem foccorrer a vòs, 
nem vòs a elles. E quanto 
ao exercício da artelharia, 
na terra borneais a voíía 
peçacuberto de hum pa- 
rapeito de pedra de cinco 
pès, ou de hua trincheira 
defcixinade dezoito, no 
mar dctraz de húa taboa 
de três dedos. Na terra cor- 
re a artelharia íobre huma 
efplanadaíirme, ^fegura, 
nomarfobre hum convéz 
í l- m p rc i n qu i c to , &: ta m - 
bem inquieto da parte có- 
traria 



§. VIT. 

^^l np A5 neceílario 
X he ao intrépi- 
do, &: temerofoofficio da 
artelharia ( que tudo iílo 
comprehende) opatroci- 
nio deS.Barbaranaterra. 
E pafíando da terra ao 
mar , bem fe deixa ver 
quanto mais importante 
ferà,6c quanto mais admi- 
rável, & milagrofo , defen- 
dendo aos que pelejaó có 
os mefiiios inftrumentos 
de fogo, metidos em hum 
lenho, ôc fobre as;ondas. 



S. Barbar a. 



'497 



traria o ponto a que íe ni- 
vella o tiro. Os Gregos 
chamarão àpeça de arte- 
Iharia bombarda pelo boa- 
to 5 os Latinos tormentum^ 
pelo que atormenta o cor- 
po oppoílo que fere : eu na 
terra chamaralhe tormen- 
to,&: no mar tormenta : Ig- 
niSi é^fulphnr , érf^iritus 
frocelUrum. Grande ci- 
rcncia Geométrica he ne- 
ceílaria para entre dous 
pontos inconftantes tirar 
Âúa linha certamente re- 
éba, qual ha de feguir a ba- 
lapara fe empregar com 
cíFeito. Mastudo iílo pò 
de fazer o fabio artilheiro 
náutico có maiores eílra- 
gos do inimigo , dos que 
acima referimos , confe- 
^uindo com hum fô tiro, 
por fer no mar, o que nam 
pôde foceder na terra. Ex- 
plicarmehei com hum ex- 
emplo famofo da fagrada 
Efcritura. 

4jr4, Por occafiaó do 
ieílamento de David faz a 
Efcritura hum Catalogo 
dos feus mais iníignes Ca- 
pitaens, que he a melhor, 
& mais preciofa herança , 
Tom./. 



que Hum R.ey pode deixar 
a feu filho,eomo bem o ex- 
primentou Felippe Segú- 
do nos que herdou de Car- 
los. Começa poiso Cata- 2. ^^^ 
logo :Hac nommafortium ^^^• 
T>avid: Eftes faó os nomes 
dos valentes de David. E- 
rão eftes valentes trinta,eA 
colhidos entre todo o exer- 
cito, os quaes fe chamavaé 
os trinta fortes de Ifraeí; 
deftes trinta eraó efcolhi- 
dos três , os quaes íècha- 
mavaó os três fortes: & de- 
ites três era efçolhido hu,o 
qual naó fe chamava o for- 
tiííimo, fenaóo fapientif- 
fimo. As palavras notáveis 
do Texto faõ eftas : Sedens 
in cathedra fafientijjimus 
^rinceps inter três : ipfieft 
quafi tenerrimm ligni ver- 
miculm^ qui oãingentos in- 
ter fectt impetu uno. Eftà af- 
fentado na cadeira o Prin- 
cipe fapientiílimo entre 
três, o qual de hum Ímpe- 
to matou oitocentos, &he 
como o bichinho fem for- 
ça vqueroe as raizes da ar- 
vore. Três duvidas nam 
vulgares tem eíle Texeo. 
Se eíte primeiro , & mais 
li afFa- 



4^8 Sermão ãe 

atFamado Capitão de Da- tem acontecido , fcm dii 




■!;•'■' 



Vià. matou oitocentos^ co- 
mo os podia matar de hú 
fó Ímpeto, Interfecit oãm- 
gentos impetu une ? E fenaó 
fó entre os trinta , fenaó 
entre os três fortes de If- 
rael,eraelleomais forte; 
porque naó fe chama o 
fortiílimojfenaó fapientif- 
íimo , SapientiJJimm inter 
fr^^ .<^ Final mente, feaquel 



vida a deitara a pique com 
hum fó tiro, & no tal cafo 
dehumfó Ímpeto matará, 
oitocentos, & ainda mais 
homens : Occidit oãingen- 
tos impetu uno. E por húa 
vitoria taó notável , que 
nome,ou fama alcançara o 
Artilheiro? Naó nome,ou 
famadefortiíllmo, fenam 
<ie fapientiílimo ; porque 



Ia fua grande façanha a de- aquellaacçaónaó foi obra 
clara a Efcritura por hua das forças do feu braço , 
comparação ; porque fe fenaó da ciência pratica 
compara a hum bichinho daGeometria militar,com 
femforçajque rocas raízes que governou taó acerta- 
da arvore .-7/7^^ í^«^í/^;;í damenteotíro,& por iíTo 
tenerrimus ligni vermicw fapientiíTimo na arte: Sa- 
/ííj ? Deixada a interpreta- fientijfimus inter três. Fi- 
ção literal defta hiííoria , nalmente, para tirar a ad- 
quc naó he fácil > eu que fó miraçáo de hu m taó gran- 
areferi,& tomei porexê- deeftrago, executado por 
pio, digo,que nella eftà ad- hum inltrumento fem for- 
miravelmente retratado ças,traz a h fcritura a com- 
quantopòde obrarofabio paraçáo do bichinho, que 
artilheiro com hum fó tiro fem ellasroeo as raízes da 
iiaónaterra,fenaónomar. arvorej porque alojados 
Atirando a hua Capitania, muitos homens debaixo 
ou a outra grande nao de de húa grande arvore , fe 
guerra,fe lhe penetrar có ella por Jhe faltarem as 
abalaopayolda pólvora, raízes cahio fubitamente 
ou lhe romper outra par- fobreelles, a todosoppri- 
tevital^comoalgúasvezes mio,ac acabou de hum fô 



SiBariãfâ. 499 

golpe, T^aõ fendOi a eauía tccçaó, que nos defenda, & 
principal de tamanha rui- livre. Verdadeiramente, 



na a grandeza, &: pefo da 
arvore, fenaó o bichinho, 
que lhe roeo a raiz : Ipfe e(t 
tanquam tenerrimu^ Ugni 
njermkuliís, -■' 

45" f Por eíle íingular 
exemplo fevé quãto mais 
poderofa he a artelharia 
no mar, que na terra ^aju-^ 
dandofe,6c dandofea maó 
o Elemento da agua com o 
do fogo. Jà antigamente 
tinhaó feito a mefma com- 
panhia entre fy eftes dous 
Elementos contra Faraó 
no Egypto : Grando^ & ig- 
nls" mifia pariter fereban- 
tur\ & a mefma fazem na- 
turalmente em todas as 
batalhas, ou conflitos na- 
vaes. O fogo queima , a 
agua afoga, o fogo mata , a 
agua fepuita. Mas fe tanto 
he oeftrago i que faz yi & 
pôde fazer hiia peça de ar- 
telharia nas nãos inimigas, 
daqui fc deve fazer refle- 
xão, ( como a fazia Aga- 
menon no incêndio de 
Troya ) que o mefmo fará 
nas noífas, fenão tivermos 
álgúa mais poderofa pro- 



que he tão pia, & chrifl-ãá-^ 
como bem entendida ar- 
chitedura aqueila, có que 
cm todas as nãos de guer- 
ra) que faò Cidades nadan<- 
te«, a cafa que os Hereges, 
6c outros menos devotos 
chamaó praça de armas, 
nòs como templos peque^ 
nos a dedicamos a S. Bar- 
bara, & a fundamos fobre 
osalmazens mais fecretos, 
cnl q a pólvora vai guarda- 
da.. Como fe diíTera a noA 
fa Fè, ou a nofla confiança 
com os olhos na vigilância 
de taó foberana Protefto- yiztth. 
ra: Non fínetperfodi domuni ^4-43 • 
fuam. Para mim naó íaô 
necefl^arios outros nviía- 
gres de S. Barbara, mais q 
eíle taó univerfal , & taó 
continuo em todos os va- 
fos de guerra prenhes de 
mais aparelhados incen- 
dios,queo cavallo Troya- 
no. 

4f6 Vendo Moy fes nos 
defertoà de Madian, que á 
Çarçaardia,&naó fequei- ^^^^ 
mava, difle : Vadam^ & vi-^ ^ 3° ' 
debiivifivnemhcmc magna \ 
liij Q£^ 




w 



■!í>' 



iif 



f^ Sermõde 

Qyero ir Ter efte grande E defta mefma ncceílida- 
^ilagre. O milagre confí. de de comer para fe íu- 
ítia,cm que eftando o fogo ftetar, nafce aofogoaquel- 
tao vifinno à Çarça , ella Ja voracidade,com que taó 



com tudo íem o admitir 
em fyy eíliveíTe taó verde , 
que como bem dífíh Philo 
Hebreo, mais parecia que 
a Çarça queimava o fogo, 
que o fogo a Çarça ;& que 
cm vez de o mefmo fogo a 
abra2ar>a regava,para que 
mais reverdeceíTe. Por iíTo 



facilmente fe atea,&:tan. 
to mais, quanto a matéria 
he maisdifpoíla. Suppofto 
iílo,quem naó terá por mi- 
lagre, & continuou mila« 
grés de S. Barbara, princi- 
palmêtenas nãos de guer- 
ra, em que perpetuamen- 
te fc conferva o fogo , & 



Moyfes não folhe chamou muitosfbgos, abílerfeelle 

milagre, mas grande :F/^ de fc atear em matérias 

/wnem òancmagmm.E nao taó difpoílas^como as dos 

leria grande,nem milagre, mefmos corpos navaes ? 

leafome , & voracidade Pode haver matéria mais 

do fogo naó foífe qual he, difpofta,& mais golofa pa- 

U myft eno com que os ra o fogo, que taboas fecas. 

Antigos fingirão a Vulca- breu, alcatram, fevo, efto- 

no Ueos do fogo manco,& pa,& pólvora, & tudo ííIq 

arrimado a hum bordaÓ, aíTopradodos ventos , ôc 

lie porque fó o fogo entre em perpetuo moto , que 

todos os Elementos necef- por fy mefmo he caufa do 

lita demateria, em que fe calor, & o calor do fogo ? 

luífente. A terra, a agua,o Se as nuvens húmidas, & 



arfuítentaÓfe , & confer- 
vaófe em fy mefmos, o fo- 
go fe naó tiver em qiiefe 
íuííente,apagare, & morr 
re. Aíli.n fe apagou nas 
alampadas das Yirgensi 



frias naturalmente produ- 
zem fogo por antepariíle* 
íis, como naó obra os mef- 
mos cffeitos em matérias 
tão difpoílas todo o Ele- 
mento da agua , que as ro- 



nekías pola falta de óleo. dea,por natureza mais hu- 

midoj 



S Barbara. foi 

mido , Sc mais frio ? Mas defcartegando pólvora, &c 



para que faó argumentos, 
onde as mcfmas maravi- 
lhas fe demoftraó melhor 
nas experiências da vifta, 
do que as pode coníiderar, 
ou arguir o difcurfoíPcn- 
devos no Galeaó S. Do- 
mingos, Capitania Real 
de noíía Armada nas qua- 
tro batalhas navaes de 
Pernambuco, fuftentando 
a bataria de trinta & cinco 
iiaos Olandezas ; & que he 



tendo nas mefmas mãos 
os murroenscom duas me-^ 
chás acefas, ou os botafo- 
gos fíncados junto aos car- 
tuchos : & que bailando 
qualquer íaifca para exci- 
tar hum total incêndio, Sc 
voar em hum momento 
toda aquella maquina: que 
entre tanta confufaó , Sc 
viíinhança de pólvora , Sc 
fogo , eíliveíTeo Galeaó 
tremolando as fuás ban- 



o que fe via dentrOj^ fora deiras táo feguro,& fenhoir 
cm toda aquella fermofa, do campo, como húa roca 



& temeroía fortaleza nos 
quatro dias deíles confli- 
tos ? Juga va o Galeão fef- 
fenta meyos canhoens de 
bronze em duas cubertas 



batida fó das ondas, & naó 
das balas j quem negará 
que fupriaalli a vigilância} 
& patrocinio de S. Barba- 
ra,o que nenhúa providen^ 



tinha guarnecidas porhú, cia humana podéra evitar? 
&: outro bordo o convèz. 



os caítellos de popa , Sc 
proajas duas varandas, Sc 
as gáveas com feiscentos 
mofqueteiros. E fendo hu 
Ethna, que lentamente fe 
movia, vomitando labare- 
das, & rayos de ferro , Sc 
chumbo por tantas bocas 
maiores,ác menores : dan- 
do todos , Sc recebendo 
pólvora , carregando , Sc 
'^ Tom. 7. 



457 ÇObre eft'fe^cOv 

reconhecimento, - que vi** 
vaSjSc louvores deve toda 
a nlilicia Catholicâ, aíílní 
no mar , como na terra, m 
fua grande Prote£bora ? Sc 
que documentos darei eu 
aosGíficia^s maiores, Sc 
li iii me- 



Vil 




1 


.<., 


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li' 

1 


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1 




1 


1 










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a 


ii£. 


^ 



4Reg. 

2.11, 



5^^ SennaÕde 

menores da nobiliirima ar- os rayosdoSoI jde outros 



tedaartelharia,feus fub 
ditos,& devotos .? Para o 
triunfo de S. Barbara fe me 
ofFereciaa Carroça de E- 
lias por fer de fogo : mas 



lugares da mefma Efcri- 
tura tiraó os Santos Padres 
a verdadeira caufa. Eftan- 
do Elias retirado em hum 
monte, mandou-o chamar 



pofto que tao fmgular en- ElRey Ochofias por hum 
tre todas as que vio com Capkaõ de Infantaria, 
admiração o mundo, por- acompanhado de cinco- 

quedenenhú modo igua- enta foldados , o qual lhe 

la apompa,8c mageílade, deo o recado do Rey com 

quehe devida às vitorias eílas palavras: Homo 'Bei, 

da noíTa Santa , fó nos fer- hac dicit Rex : Feãma^def- \ ^,'«' 

vira para notar no mefmo cende: Homem de Deos, " 

fogo a diíferença , como diz ElRey, que decais lo- 

fervemas fombras , & os go, &: lhe vades fallar. E 

oppoftos para mais illu- que refponderia Elias? Si 

ftraroscontrarios.Defcre- homo T> d fim , dtfce.idat 

vendo a Efcricura o modo, ignis de C^lo, & devoret te , 

com que Elias arrebatado &qmnqítaginta tuos : Se 

da terra fe apartou de Eli- fou homem de Deos , deça 

feo, diz que foi em huma foçro do Ceo, que te abra- 

xrarroça, porque tira vaó ze^^a ti,&:aos teuscincoen- 

cavallos,&que a carroça, ta. Allím odiíTe j&aíllm 

&oscavallostudo era de fe comprio logo : deceo 

fogo:^:? ecce currm ignetis, fubitamente fogo do Ceo, 

& equt ignei divifenmt queabrazou,&confumioo 

íitrumqne. E fendo que o CapitaÓ, & os foldados. 

Texto fagrado naó dane- Sabido o cafo por ElRey, 

fte lugar a razaó , porque mandou outro Capitão có 



triunfou Elias pelo ar em 
carroça de fogo , podendo 
fer antes de nuvens mais 
viftoíamcnte douradas c6 



outra companhia do mef- 
mo numero: 6ccomoeíle 
déí^Q o recado com igual 
comedimento; a rcpofta 
. I .w , de 



tornei. 
1 cap. 
:ccl. 
8.8. 



S.Bar 
de Elias foi como a pri- 
mcira,& o Capitão , & os 
foldados todos foraó abra- 
zados com fogo doCeo cm 
hum momento. Tal era o 
império, que Deos tinha 
dado a Elias fobre o fogo, 
de que eile ufava taó def- 
poticamente : & efta foi a 
razaó , porque o mefmo 
fogo, comofogeito,&fub- 
di to fcu, fe donverteo cm 
carroça, & cav:9-Hos para o 
levarem triunfo: IgnisE' 
liam quafi fuum imperato- 
rem rever etur , et que quafi 
famulus fuum ultro offert 
obfequium^ diz có S. Chry- 
foílomo, & os outros In- 
terpretes literaes , Corne- 
lio. 

4f8 Combinemos ago- 
ra fogo com fogo, império 
Gom império, & Barbara 
com Elias. A Elias , & a 
Barbara deo Deos o impé- 
rio do fogo 5 mas com que 
diíferente mageílade exer- 
cita hum , & outro o mef- 
mo império.? Elias manda 
ao fogo que queime , & 
Barbara,que haó queime : 
Elias mandalhe, queabra- 
ze homens A Barbara,que 



bar a, 5-03 

os náo toque : obedecci\- 
do porem o fogo a Elias, 
queima,&abraza como fo- 
go que he, mas obedecen- 
do a Barbara, como feper* 
dera a própria natureza, 
quaíi deixa de fer o que he, 
por naó faltar ao que deve. 
Da parte de Elias parece 
que he igual o poder no 
império , mas da parte de 
Barbara moftra q he mui- 
to maior na obeuiencia.Sc 
quando Daniel foi lança- 
do no lago dos Leoens , el- 
les o coméraó, naó era ma- 
ravilha : mas que famin- 
tos, & como paílo à viíla 
refreaíTem a própria vora- 
cidade, a fua abftinencia 
era a que provava o mila- 
gre : & aquillo he o que fa- 
zia Elias nos homens, que 
dava a comer ao fogo , iílo 
o que faz Barbara nos que 
livra dos incêndios. Ver- 
dadeiramente era galante 
a confequencia, com que 
Elias fazia decer o fogo áo 
Ceo .' St homo ^eifum^def- 
cendat ignisde CaíOy & de- 
vorei te : Se fou homem de 
Deosjdeça fogo do Ceo, q 
te abraze. Bafta que o final 
li iiij de 




g, 



50+ Ser 

de íer de Deos era abrazar, 
& confumir homens ! Pa- 
ra bem parece que havia 
de dizer,Se fou de Deosjeu 
rogarei a Deos por ti, eu te 
guardarei, eu te defende- 
reij & ifto he com que pro- 
va a noíTa Santa fer mais 
propriamente de Deos. fi- 
lias imperando ao fogo, 
moftrava que era de Deosj 
mas de Deos vingador, de 
Deosrigorofo, de Deosfe- 
vero : & Barbara no mef- 
mo império moftra tam- 
bé que he de Deos; mas de 
Deos perdoador, de Deos 
piedofo , de Deos benig- 
no, emfím de Deos, no de 
que mais fe preza Deos. 

4fp Naó ha duvida, 
que na comparação de im- 
pério a império, o ufo , &: 
exercício dcMc foi muito 
mais humanOj& benéfico , 
ScporiíTo mais divino em 
S.Barbarajqueem Elias. E 
paífandoa comparação de 
togo a fogo,aí]im como no 
que domina S. Barbara 
defcobriremos húa grande 
novidade, aílim na combi- 
nação do mefmo dominio 
fuljiiemoscom a verdade, 



maÕde 
onde fó pôde chegar o en- 
carecimento, & de nenhu 
modo paíTar a imaginação. 
JàdiíTemos, com a opi- 
nião comum dosHiftoria- 
dores,quem,&quãdofoi o 
primeiro inventor da pol- 
vora. Mas febéfe lerem, & 
entenderem as Efcrituras , 
acharemos,que quatro mil 
annosantesa tinha jà in- 
ventado Deos no fogo ar- 
tificial, que cho\^eo fobre 
Sodôma. Que foíTe artifi- 
cial,& não natural aquelle 
fogo, confiadas palavras, 
com que Moyfes refere a 
mefmahiftoria, dizendo, 
que o Senhor choveo do 
Ceoenxofre,6c fogo feiro 
pelo mefmo Senhor : 'Do- 
mintís phíit fiiper Sodomam ceneC 
fulphur^a 'tgnemàT>om'mo 'i'^^ 
de Calo. Onde he muito 
novo,& digno de fe notar 
aquelle termo, Tiommiisà 
'Domino, para declarar,co- 
moadv^crtcm todos os in- 
terpretes, que tal género 
de fogo não foi eíTeito das 
caufasnaturaes, masdaar- 
tcj^Sc íabedona divina, a 
qual não cria nada de no- 
vo, mas das coufas jà cria- 
das, 



S\ Barbara. ^05- 

áas,compondo-as, & unin- fornalha de Babilónia, re- 
do-as entre fy, produz ef- prefentavaa fegunda pef- 
feitos novos,& maravilho- foa da Trindade, o Filho : 
fos, qual foi aquelle fogo Etfpeciesquarti fimilis Fi-^^'^^'''" 
verdadeiramête artificial. lioT)ei.^ E quando Deos 



Mas que o artifício foíTe o 
mefmo da polvorajnaó ba- 
ila efte fó texto para o pro- 
var, porque fó faz mençaó 
do enxofre, Ignem^ & fui- 
phur. Temos porém outro, 
em que o mefmo Moyfes 
no Deuteronomio torna a 
defçrevero mefmo fogo, 
& diz expreíTa mente, que 



para livrar a hum homem, 
qual era Loth, do primei- 
ro incêndio da pol vorajco- 
mete efta diligencia a dous 
Anjos,& eífes reprefenta- 
doresdeduas peíToas di- 
vinas j vede qual he o im- 
pério, o dominio , & a jur- 
diçaó de S. Barbara, pois a 
ellafó encarregou Deos o 



eracompoftode enxofre, cuidado,&fuperintenden- 

&falitre jquefaóos dous ciauniverfal de livrar, & 

ingredientes da pólvora: defêder a todososhomés, 

Sulphure^ & falis ar dor e aííim na terra , como no 

comhurens, in exempB Jub- mar,do fogo, ^ incêndios 

verfionts Sodoma, Deíle fo- da mefma pólvora I 

gopois,&do primeiro in- ^60 Fabriquem pois 

cendio , que caufou no os Serafins, que faó eípiri- 



mundo a pólvora, livrou 
Deos a Loth. Mas por 
meyo de quem ^ Nam fó 
de dous Anjos , mas eífes 
reprefentadores de duas 
peíToas divinas , porque 
craódous dos três , que 
aparecerão a AlDraham no 
valle de Mambrè Q bem 
aíTim como o Anjo, que li- 
vrou aos três mininos da 




tos também de fogo,novo 
carro triunfal a S. Barba- 
ra, melhor, & mais gíorio- 
fo que o de Elias : di^ntQ 
do qual naó fejaó levadas 
em urnas triftes,& funeílas 
ascinzaáde homens abra- 
zadcSj^f morros, mas vi- 
vo», & dando vivas à ío^ 
berana Froteéiora todos 
arquelks [ numerofem nu- 
mero j 






S*^^ . Sermão de 

mero] que liyroiido fogo, vosaproveitar de hua fó 



& dos incêndios. E o noíTo 
mÇxgnç^ Capitão do mar,& 
da guerra, que hoje có tan- 
to apparato , & grandeza 
celebra a mefma triunfa- 
dora, leve como nobiliíll 



coufa boa, que trouxe ao 
mundo o uro,8c invento da 
pólvora. DasBiborasnaó 
fó fe tira veneno , fenam 
tambê triaga. E que coufa 
boa trouxe ao mudo a pol- 



1 n ----""- -^^ •^ivyuA^.cn^aiuuoapoi- 
ma partedosfeus triunfos, vora.^Hum defengano uni- 
rodando em carretas dou- verfal,de que nenhnm ho- 



radasos canhoens ganha- 
dos em tantas,& taô famo- 
fas vitorias , com os quaes 
melhor, que com colunas 
de bronze, fc honraó as 
portadas defua illuftriíTi- 
ma Cafa : digno fucceflbr 



mem fe devejà fiar das 
fuás próprias forças. An- 
tiga mente havia Achilles, 
haviaHercuIes,havia San- 
foens : depois que a pólvo- 
ra veyo ao mundo, aca- 
boufe a valentia dos bra- 



daquelle immortal Heroe, ços. Hum Pigmeo cÓ duas 

quecomoMartedapatria, onças de pólvora pôde 

adefendeonaguerra , & derrubar o maior Gigante 

comoPay,cerradasaspor- Que fundamento cuidais 

ínt-^r. í"*^' ^ ^^^°" ^^' ^^^^ ^ Filofofia Symboli- 

" ^ ca das fabulas,para fingir, 

que os Gigantes fizeram 

guerra ao Cco,&quÍ2era6 



toriofa em paz 
§. IX. 
4^1 17 AvôsCanimo 



ílfos Miniílros 
de Vulcano,que continua- 
mente exercitais o perigo- 



apear do feu trono a Júpi- 
ter j fenaó porque enten- 
derão , & quizeraó decla- 
rar aquelles Sábios, que os 
homens , que fe íiaó cm 



lo manejo do fogo nos ma- fuás grandes forças,naó te- 
lores, &: mais arrifcados mem a Dco^, nem o vene- 
mílrumentos da voíTa ar- raó,como fenaó depende- 
te; o que fó vos digo por raòdelle. Ouviaarroean- 
fim ke,que nam deixeis de cia facrilega, 6c blasfema , 

cora 



S. Barbara. 
cóqfallavahú deíles cha- 
mado Mefencio. Dextra 
mthi T>eus , & telum , quod 
mijjile libro : O meu Deos 
he o meu braço,& a minha 
lança. Por certo foberbif- 



4,62 Sirva pois a pól- 
vora, que fempre trazeis 
nas máos^de vos lembrar o 
perigo, em que igualmen- 
te trazeis a vida , vivendo 
de maneira jqueíejaagra- 



íimo Capitão, que naó ha- davel a Deos, de quem por 
vieis fallar táo confiada- taó ordinários accidentes 



mente, fe fora em tempo, 
que o menor foldadinho 
do exercito contrario, vos 
podéra refponder com húa 
boca de fogo. Eíle he pois 
o derengano,que trouxe ao 
mundoapolvora,para que 
todo o homem, Sc muito 
mais os que vive na guer- 
ra, & da guerra , fe perfua- 
daó,quefó Deos lhe pôde 
confervaravida, & naó o 
feu braço, nemafua efpa- 
da. Aííim o dizia David, 
aquellefoldado tãoesfor- 
çado,& tão forçofo , que 
com as mãos defarmadas 
efcalava Uííbs,'&; aífogava 
Leoens: Glaâius meusnon 
Jalvabit me. 



eftà mais dependente, que 
a dos outros homens. E va- 
lendovos da poderofa in- 
terceííaó da voíla vigilan- 
tiíllma Protectora a glo- 
rioía S. Barbara : de cuja 
devaçaò,& invocação vos 
prometo por fim, o que a 
mefmaSanta tem provado 
ao mundo com vários ex- 
emplos. Ainda os que ef- 
taó ardendo no meyo das 
labaredas, invocando feu 
nome,feelle lhes naó íal- 
va totalmente a vida tem- 
poral , ao menos lha íu- 
ítenta quanto bafte, para 
que, recebidos os Sacra- 
mentos, alcancem a eter- 
na. 



SER 







4(^3 



SERMAM 



DO 



t 



S A B B A DO 

ANTES DA DOMINGA DE RAMOS, 

r. na Igreja de N.Senhora do Defterro. 
Bahiajanno de 1(^34, 



CogitavermtTrincipes Saccrdotumut ò Lazarum in- 

terfaerent^qtiia multipropter illum abíbant ex Judais^ & 

credebantinlefum. In craftinum autem turba multa ^ 

qua venerat addiemfejiumycum audijfent quia ve- 

nit lefiis Jerofolymam^acceperunt ramos palma- 

rum^ò' procejjerunt obviam ei, Joann .12. 



§. 1. 

Thcmahe gran- 
de , mas o Ser- 
mão fera peque- 
no. Saó as pala- 
vras do EvangcliílaS.Joaó 
aos doze Capítulos de fua 




hiftoria fagrada ; querem 
dizer: Fizeraó confulta os 
Irincipes dos Sacerdotes. 
Quando logo encontrei có 
cíleprincipíojfiz eftacon- 
fidcraçaó. Confulta, os 
Principcsdos Sacerdotes! 
Sem duvida , que fairáó 



Sermão do Sabbado antes 
delia grandes bens à Re- 
publica:he gente Ecclefia- 
llica, Re pelo confeguinte 
dou ta, & fanta-, que fe pô- 
de eíperar de h Cia confulta 
fua, fenaó coufas de gran- 
de gloria de Deos5& gran- 
des bens dos homens? A f- 
lim o imaginava eu, mas 
enganeime. Contra Deos, 
& contra os homens íim, 
O que fahio da confulta, 
foi, que em todo o cafo 
inorreíTe Chriílo,Gomo no 
dia dantes fe tinha decre- 
tado) iíTo quer dizer aquel- 
le Et^ut &Lazarum,como 
interpretaó os Doutores: 
^ naó fô q dêíTem a morte 
a Chrifto, fenaó que tam- 
bém tiraíTem a vida a La- 
zaro , a quem o Senhor 
pouco antes tinha refufci- 
tado; Uf ò* Lazarum in- 
ter jicerent. Hajuizosmais 
apaixonados ? Ha fcntença 
mais enorme ? Ora ouça- 
mos as cauíàs,que allegaô , 
êc admirarnoshemos mui- 
to mais. Morra, dizem, 
Chrifto, porque faz mila- 
gres , porque dá faude a 
enfermos, êc vida a mor- 
íosjporque he amado,por-; 



âa dominga de Ramos, f o5> 
que heeftimado, porque 
he feguido : & morra La- 
zarOjporque fendo refuf" 
citado por virtude de 
Chriftojhe caufa de o ama- 
rem, de o eftimarem, de o 
feguirem : ^lia multiprop- r^^j^^. 
terillumablbant exludaisy »i- 
Ò" credebãt in lefum . (^Hon- 
ra do crime í 3 Tudo ifto mÍIÍ 
paíFoucomQhoje: Ju era- ibidu. 
jtinum amem : porém ao 
outro dia, diz o E vangeli- 
íla, que entrou o Principe 
da gloria a cavallo por Je- 
rufalem triunfando (^den- 
tro porém dos limites de 
fuamodeília, 6c humilda- 
de ) fervindolhe de pom^ 
pofo acompanhamento a 
multidão infinita do' po- 
vo, que com palmas , & ac- 
clamaçoens devoto o fe» 
guia ; Turba mttltay qu£ ve- 
ntratad diemfeftum^ acce" 
perunt ramos palmarum^ ò* 
procejferunt obviam eL Atè 
aqui a letra do noílb The- 
ma. O que temos que ver, 
hehúa caufa cri mejfenten^ 
ciada, apellada, revogada. 
Do primeiro tribunal fai» 
ráó culpados os innocen- 
tes: do íegundg fairáò con- 
denados 







fio Sermão 

denados osjuizes. Pouco 
difto parece que eftà no 
Tliema, mas tudo tirare- 
mos deli e. Naoo moftro 
logo, por naó gaílar dous 
tempos.Peçamos a Graça. 



í. 11. 

' 4<>4 r^IziaPlatam, 
JLyque os que 
julgaô, ou governaó,era 
bem que dormiíTem fobrc 
as refoluçoensjquetomaf- 
fem. Parecialheao grande 
Filofofo, queojuizo con- 
fulcado com os traveíTei- 
ros, era força que faíííe 
mais repoufado. AíHm 
acontcceo aos noíTos Jui- 
zes do Evangelho os Prin- 
cipes dos Sacerdotes^ dor- 
mirão fobre a refoluçam, 
que hontem tomáraó^de 
tirar a vida a Chrifto, po- 
rém hoje acordarão em 
Confelhocom hum confe- 
lho taó deíacordado,conio 
foi confirmarem hiia Ç^n 
tença a mais injufl:a,a mais 
barbara, amais facrilega^ 
que nunca íedeo, nem ha 
de dar no mundo. Pergun- 
tara eu a fuás Senhorias 



do Sabbado 
dos Principes ' dos Sacer- 
dotes ;E bem, Senhores, 
fazer milagres , refufcitar 
mortos, fer cftimado, fer 
querido, que culpa he, ou 
contra que Ley? NoExo^ 
do, no Levitico , no Deu- 
teronomio, que íàó os Câ- 
nones por onde vos gover- 
nais,naó ha Texto, que tal 
prohiba : pois ignorância ? 
Seria afronta de hum Tri- 
bunal taó authorizado, 
querer prefumila nelle. 
Deoarazaóde tudoEuti- 
mio em duas palavras;//^* 
que t Ota res eft invidia. O 
cafo he, que tudo nefte ca- 
fo he inveja. Pois já me 
naó efpantOjqueachaíTcm 
os Principes dos Sacerdo» 
tes na mefma bondade 
crimes, na mefma innocê- 
cia culpas,no mcfmoChri- 
fto peccados , porque - nos 
TribunacSjOu pubiicosjou 
particularesjonde a inveja 
preííde , as virtudes faó 
peccados, os merecimen- 
tos faó culpas, as obras, ou 
boas calidades faó crimes. 
40)'' Filava Saul hum 
dia muito maicncolizado, 
&íriíi:e, dcícjou quclhe 
b«f- 



'mtes âa T)omngã de Ramos] j i i 

bufcaílem algum bom mu- zê os Doutores Hebreos j 

fico, naófeife para fe ale- como refere Nicolao de 

grarjfeparafe cntriftecer Lyra, queefte Cortefaó , 

mais. Acudio logo hum que aqui falloujCra Doeg, 

dos Cortefaós , que o alli- capital inimigo de David. 

ftiaó, dizendojque naó po- Capital inimigo de David, 

dia SuaMagcftade achar & gafta tanta retho rica em 

outro como David j por- feus louvores? Capital ini- 

- que além de grande muíi- migo de David, & de hum 

cojcra mancebo muito va- fundamento taó leve, co- 

lente,de grande intelligen- mo fer mullco, toma occa- 

cia nas matérias de guer- íiaó para fazer hum aran- 

ra, cortefaó, avifado , gen- zel taó largo de fuás gran- 

til-homem, & fobre tudo dezasPSim. Defcobriolhe 



muito virtuofo,& temente 
a Deos : Vuíifilium Ifaifci- 
entempfallere , & fortijjl- 
mum roborey & virum helíi^ 
cofum^& prudentem in ver- 
bis^& vir um pulchrum , & 
^ominus ejl cum eo : Ha 



a tenção delicadamente 
hum Expoíitor grave Por- 
tuguez , & de nofla Com- 
panhia : Sctebat Saulem ejje 
mvidum^& alienis laudtbus 
incredibiliter cruciar t : lau- 
dat igitiir T>avidem apud 



mais panegy rico que efte ? Saulem^ ut Saul invidiafti 

Pareceme que eftaó dizê mulis agitatus interficiat 

do todos os que o ouvirão, T>avidem. Sabia Doeg,que 

que he grande coufa ter era Saul grande emulo de 

hum amigo em Palácio, & - 

que efte o devia fer mui 

verdadeiro de David, pois 

fabía fazer taó bons oííi- 

ciospara com elle diante 

del-Rey. Tal heo múdo,q 

muitas vezes parece fíne- 



David 5 que o invejava 
muito , & como no juizo 
dos invejofos os mereci- 
mentos faó culpas, & as 
excellentes calidades deli- 
tos, louvou, 6c engrande- 
ceoaDaviddiãtede Saul> 



zas de amifadejO que faó para que Saul, como fez, 
ódios reíinadiííimos, Di- défle fentenca de morte 



con- 



}v3^ 



fii Sc^rmaÕ do Saíhadõ 

contra Da '/id. DiíTe, que como levava par cõmpa^^ 



era prudente , guerreiro, 
esforçado, gentil-homem, 
vírtuofo, & dotado de tan- 
tas outras boas partes : & 
quem bem entendeíTe to- 
da efta ladainha de enco- 
mios,& louvores, bem po- 
dia dizer por D2Lvid)0rate 
proeo. Eraò capitulos,que 
contra elle fe prefentavaó 
ao Rey, não menos que de 
lefaMageftade. Pareciam 
louvores , & eraó acufa- 
çoens : pareciaó abonos, & 
eraò calumnias. Calum- 
niadooinnocente na fua 
virtude, &: acufado o be- 
nemérito nas fuás boas 
obras, fem que à innocen- 
cia fe lhe déíTe defefa, nem 
ao merecimento lhe valef- 
fem embargos, porque era 
ojuiz a inveja. 

466 Que bem o entê- 
deoaílimo mefmo David! 



nheiraafuafama ,& efta 
nunca fabe guardar filen- 
cioi começou a correr lo- 
go pela Corte,que era che- 
gado o valente de Ifrael, o 
matador do Golias, aquel- 
leaquemas damas de íe- 
rufalemcompuzeraó a*le- 
tra,que então andava mui- , j^. 
to valida : Tercuffit Sanhi.i\ 
mi lie, T>avid decem miUia, 
Coufa maravilhofa a que 
íefegue! Tanto que che- 
gou aos ouvidos de David 
o que paíTava, diz a Efcri- 
tura,que começou a recear 
muito aparecer diante de 
A chis : 'Fojíiit T)a\:;d Ser- 
mones ijios in cor de fiio^ cJ- ^^^ '• ' 
extimiát valde a facie A- 
chis Regi s\ &: a ultima re- 
foluçaó que tomou, foi fu- 
gir dalli , & irfe meter em 
húa cova : Fugit antem inde 
infpeluncam Odollam, Pois áfi? 



Denos a confirmação, quê David, que rcfoluçam he 
nosdeoaprova.PaíToufeo eílavoífa ? Que quer di- 



Uf 



perfeguido mancebo para 
aCortede Achís Rey, & 
Reyno contrario ao de 
Saul,&: que por iíTo pare- 
cia fcguro. Hia fó, defco- 
nhecido,&: disfarça doimas 



zerirdefv^os fazer Ermitão 
de hum deferto , quando 
vos YtdQs taõ acreditado 
em húa Corte ? Qiiando 
vos vedes com tanta fima 
duntcdoRcy , para que 
fií- 



antes dã ^omln^ 
fugis de Tua prcfença ? En- 
jCendia-o como prudente, 
obrava como experimen- 
tado. Saó os louvores no 
pribunalda inveja accufa- 
çoens: & porque David íe 
viotaó louvado, homizi- 
oufe. O verfe louvado era 
yeríc aççufado, o ver fuás 
grandezas referidas , era 
•veras fuás culpas prova» 
das, teve logo muita razão 
de fe homiziar, & fugir tã- 
to de fy,como de feus emu- 
los. Os Satrapa9,& primei- 
ros Miniílros de Achís 
^raó mui picados de inve- 
ja contra os Hebréps : & 
<:omo havia de efcapar 
4elles 5 & viver na mefma 
Corte David criíiiinofo 
das fuás vitorias, & Keo da 
fuafama? Se fe diíTera de 
David, queera hum falfa- 
rioj hum perjuro, hú adul- 
íero> hum homicida , hum 
roubadordpalheoj&r ou- 
tras baixezas, fe as ha ain- 
da maiores 5 paíTeára Da- 
vid na Corte , & entrara 
muito confiado no Palácio 
do Rey , porque ai li tem 
(eílesferviços premio , ou 
quando menos, paífaófem 
Tom. 7. 



\adeRdms^. yr^ 

caíligo: porem dizendofe 
delle tantas virtudes, tan- 
tas grandezas, tantas faça- 
nhas, tantas excellenciasi 
andou como prudente em 
fe homiziar,em fugir j^por- 
que todas eífas excellen- 
cias,&: grandezas eraõ cri- 
mes contra a peíToaj&pri- 
vad!os de Achís, & delito» 
fem perdaà contra as leys 
da inveja. Coníidero eu , 
que ha mandamentos da 
ley da inveja, allim como 
haMandamentos da Ley 
deDeos. Os Mandamen- 
tos da Ley de Deos dizem. 
Não matarás, Naò furta- 
rás,Naó alevantarás falfo 
teftemunho ; os manda mé- 
tos da ley da inveja dizem, 
naó feras honrado, não fe- 
ras rico, não feras valente, 
não feras fabio , não fer᧠
bemdifpofto ,&: também 
dizem , não feras bom 
Prègador:&fcacafo Deos 
vos Vez mercê, que foubef- 
feis por os pès por húa rua, 
que foubeífeis apertar na 
mão húa efpada, quefof- 
féis difcreto, generofo , ou 
rico,ou honrado i no mef- 
mopòto tiveíles culpas no 
• ^ Kk ■ tri'^ 



f 1 4* Sermão do Sabhado 

tribunal da inveja,porque o refufcitou Chrifto • que 
peccaftes contra os feus culpa he fer hum homem 
mandamentos. Por eftas refufcitado > Taò longe 
culpas efteve taó arrifcado eft^ve de culpa nefte cafo , 
David, por eftas foi hoje quenem a teve em ado. 
condenado feu filho Chri- nem em potencia , nem a 
lio, que alllm lhe chama- teve, nem a pode ter Cu- 
raó as Turbas no Evange- rou Chrifto hum moço ce- 
\ho'. Hofanna fihopavid. godé feu nafcimento, & 
Era grande Pregador, fa- perguntarão os Difcipu^ 
2ia muitos milagres, dava los, cuidando que excita- 
faudea enfermos, refufci- vaóhúaqueílaódeRrande 
tava mortos,& comoeftas habilidade; T^omme, quis joa 
excellencias, ou eftas cul- pccavit, htc, aut Parêntesis- 
pas eftavaó provadas com ejus, tit ca cus nafieretur > 
osapplaufos,comasaccla- Senhor, por cujos pecca- 
maçoens, com o amor, & dosnafceo efte moço ce- 
feguimétodospovos,«^«/// go, pelos feus,ou pelos de 
Mantexlua^ts, & crede^ ftus pays ? Rimfe muito 
imntmlefum. Confirmou- defta pergunta os Expofi- 
le o primeiro decreto , & tores , 6c em particular 
fahio a fegunda fentença , Theophilado,porqu€ fe o 
que morra Chrifto, ut & moço nafcéra cego por 
Lazarum,tdeft, ut Chriftn, feus peccados , feguirfehia 



à' Lazarum interfciant. 

S' III. 

4^7 lI)Emeftâ,cumal 
LJeftà : porem a 
Lazaro porque o códenaó? 
Não lhe neguemos fua de- 
fenfá natural. Sc o conde- 
não , como dizem, porque 



quepeccára antes de naf- 
cer : & que maior difpai a- 
te pode dizerfe, ou imagi- 
nar, que ter hum homem 
peccados, antes de ter fer: 
ier peccador antes de fer 
homem ? Naó menos ia^ 
nocente que il lo eftava 
Lazaro. Eftava morto, 
quando Chnfto o refurci- 

tClí, 



antes daT^omlnga de ^antof, fif 

toMy &C por beneficio do como os demais , fizeralhe 
naò fer eílava impeccavel. o pay húa túnica, ou pello- 
Aílim que podemos dizer te, naó fei dé que eftofaíi- 



delle neíle cafo, o que de 
Eurialo diííe feu grande 
amigo Niío ; Nihilifte^ nec 
aufus^necpotmt^ Nem teve 



nh2.mdhoryt uni cam foly- 
mitamy com que aparecia 
os dias de fefra na Aldeã 
menos paftor que os ou- 



^ulpajnemapodeter: in- tros.Ahquantos Jo^ésdc- 
^nocenteemad:o5&empo- ftes ha hoje no mundo! 
tencia. Mascomferaílím, invejados, murmurados, 
faó taó linces os olhos da perfeguidos, porqueíPor- 
inveja,que neíles impof- que Ihesdeoa fortuna c6 
liveis de peccado defco- que trazer húa capa me- 
briraó,&: acháraó culpas liior que a voíTa. AíTimef- 
d i gnas de morte, ut & La- ta va condenado o innocê- 
s^aruminterficerent.E^OT' te moço, quando trouxe 
que?^//^[ eisaquiacul- íua ventura por alli hum 
p:i )qu!a fmlti propter //- mercador Ifmaelita , que 



fcnef. 
7.t8. 



bim credebant inlefum\^or 
que muitos por caufa, ou 
por õccafiaó delle criaó 
cmjefu. 

4,^ Fizeraó coníèlho 
fobrejofeph feus irmãos : 
fahio delle que morreíre,& 
quafi com as mefmas pala- 
vras, que temo^ no Evan- 
gelho, o refere a Efcritura: 
Cegitavertmt eum occidere. 
Sabida a caufa, era porque 
o amara Jacob particular- 
mente, & além da famafrra, 



prometeo por elle vinte 
rcales, &os cobiçofos ir* 
mãos, que eraó dez, por 
quatro vinteins , que ca- 
biaó a cada hum, venderão 
a feu irmão, & as fuás cbn- 
ciências. 

^69 Tinhaólhejà des- 
pido a túnica caufa das in- 
vejas5& naó tinha bem vi- 
rado as coftasjofeph, quã- 
do os vendedores arre- 
metem a ella,& a começaõ 
a fazer,ou desfazer em pe^ 



ou pellote do campo com daços. Parai ahi ingratos 
que hia guardar as ovelhas i;rmãos,parai,&refpondei. 

Kkíj me^ 




5 1 6 SermaÕ 

me, que quero arguirvos. 
Não eftà jà vendido Jo- 
feph? VoíTa cólera naõ eílá 
jà vingada ? VoíTa fereza 
não eílà jà ÍUísíqíxí-Sí ? EíTa 
túnica que culpa tem, ou 
que culpa pode ter ? Por- 
que a fazeis em pedaços ? 
Bem Çtiy que naó haveis de 
ter boca para me refpon- 
der, mas refponderà por 
vòs Ruperto Abbadeiir^- 
tern£ glorÍ£ monumentum 
impeccabile Ç notai muito 
a.que\lG rfnj)eccai?ik ^ Fra- 
teriííe gloria monumentum 
impeccabile laceratur : adeo 
nec morte^nec venditionefa- 
tiattir invidia. Nenhuma 
culpa tinha a túnica dejo- 
feph, que mal a podia terá 
feda, oulãainfeníiveljfem 
vida 3 fem alma , Tem von- 
tade. Com tudo nefta in- 
capacidade natural, & ne- 
fte impoíUvel de culpa, 
acharão híía os invejofos 
irmáos,&: foi,fer inílrumê- 
to da gloria de Jofeph : 
Fraterna gloria monurnsn^ 
tum. Era prenda da parti- 
cular afleição dcjacobjcra 
gala com quejoíbph fe au- 
thonzava, com que luzia 



doSabbado 
mais que os irmãos , com 
que grangeava refpeito 
noseílranhos , & ifto lhe 
bailou por culpa, para fem ' 
culpa a defpedacarem:A/<?-' 
numentum impeccabile la-, 
ceratur. 1^2.0 fei fe fe pode- ■ 
ra achar em toda a Efcri- 
tura paíTo que mais aovi-- 
vodeclaraíTe o queremos- 
entre mãos. Nenhúa culpa- 
tinha cometido Lazaro, 
antes nem a podia ter quã-: 
do o refufcitou Chrifto> 
como vimos5& neíla gran- 
de innocencia, antes nefta. 
impeccabilidade foube a 
inveja defcobrir culpas, & 
culpas dignas de morte,, 
que foraójferinfrrumento 
das glorias de Qhníko.quia 
multi propter illum crede- 
bantinlefum. Fora famo- 
faj&: mais que todas, a re- 
furreição de Lazarojadmi- 
randofe , & pafmando a 
gente de ver paíTar pelas 
ruas de Jerufalem o que ti- 
nhaó viflo de quatro dias 
morto na fepultura, & co- 
mo toda eíla admiraram 
redundava em fama , & 
gloria do refu feita dor, por 
íerinílrumcnto da gloiia, 
dcíla 




antes daT>õínmga de Ramos. fi/ 

defta" fama , condenaó â dia por JetUfalem triuii- 



Lazaro a perder a vida: UP 
éf Lazarum inter fie erent\ 
Bem aíTim como a inveja 
dos irmãos dejofeph, nam 
contente com fe vingar 
nelle, paíTou a executar a 
vingança na tunicá inno- 
cente : Adeo nec morte , nee 



farido, recebido com pal- 
mas, & acclamadodo po- 
vo : Acceperimt ramos pai- 
marum , é' procejferunt ob- 
viam ei. AíTim o diz o The- 
ma. Mas vejo que me aí- 
guem.Naó tinha eu pro- 
metido ao principio, que 



venditionefatiatnrinvidia, na revogação das fenten 

ças, fícariaõ os Juizes con 



^WW'l 



i^un^j^'. oui 



ror .ií:x?"up 



470 



I Ronúciada çô- 
trà Chrifto, & 
contra Lazaro eíla taó in- 
jufta fen tença, como a in- 
iioc^ncia quanto mais cal- 
la,então allega melhor por 
ly diante de DeóS , fervio 



ãénados ? Onde eftáo èftas 
condénaçoens ? Onde ef- 
taó eftas penas ? EíTa he a 
graçajferem-no, &nam o 
parecerem. Não íè execu- 
tar a morte de Lazaro foi a 
primeira pena : entrar 
Ghriílo por Jeruíàlem tri- 
unfando foiafegunda.Ve- 



efte íilencio de appellaçaó jamosa primeira,logo paf- 

ante feu divino tribunal, faremos à outra. 

Não tardou muito o def-- 471 Eftavajob cuber- 

pacho Q que no juizo do to de lepra com as doreSj^c 

Geo não ha dilaçoens3& ò trabalhos^ que tantas ve- 



que fahio nelle foraó dous 
decretos contra os dous 
dos Pontifices nefta ma- 
neira. O primeiro , quê a 
fêntença dada contra La- 
zaro fenaòexecutaíle:que 
ficaíTefócm intentos, Co- 
gitaverunt.O fegundo,que 
Chrifto entraíTe ao outro 
Tom. 7. 



zes fe tem repetido nos 
Púlpitos , & nunca aíTáz 
exageradojcomeçaa quei- 
xarfe, & dizer aíli m : T>ies 
mei tranfierunt^cogitationes 
tHeadiJipataJunt^ tor quen- 
tes cor meum. Paíráraófe 
meus dias 5 & os contenta- 
mentos que neiles tinha 
Kk iij tam- 



Job. ,7: 
II. 



■^^PIP 



Éd^ 




fiS Serrnao 

também fe paUaraõ , que 
para naó durarem muito , 
bailava ferem meus, T>ies 
mel: alguns intentos que ú- 
ve, cogitat tones me£ , abor- 
toumos a fortuna^não che- 
garão a ter execução, dijjl' 
patíefunty 6c ifto, diz Job, 
hea maior pena que pade- 
ço , porque quantos foraó 
cntaó ^íTqs intentosjtantos 
verdugos tenho agora,que 
me atormentaó a alma, 
tor quentes cor meum. Naó 
acabo de meadmirar, que 
hum homemjque tanta ra- 
zão tinhade faber avaUar 
tormentos, fahiíTe com íe- 
melhante queixa, t bem, 
exemplo da paciência, taó 
mimofo andais vós da for- 
tuna, que de coufas taó 
poucas vos queixais tanto? 
Naó tendes perdas de fa- 
zenda, mortes dos filhos, 
mina da cafa,& do eftado, 
doresjtriíiezas, defempa- 
ros, miferias, o corpo feito 
hCia chaga viva •, que tem 
que ver com tudo ilto os 
intentos naó executados, 
para, fo yos queixardes 
dellcs 3 Cogitãtio?ies mea 
Jlpatafaut? Fallou co- 



do Sahhado '-.>% 
mo grande Meftre de par- 
ciencia. Tinhatomadoos 
pulfos Job a tudo, o que he 
dor, a tudo o que hepena,. 
a tudo o que he tormento , 
& porque achou, quenam 
ha dor taó exceíltva , pena 
taó cruel, tormento tão in- 
fofrivel como hum penfa- 
mento fruftrado , hum in- 
tento fem execução; por 
iíFo tendo tanto de que fe 
queixar, fó fe queixa de fe 
fruílrarem feus penfamen- 
tos,&de feus intentos fe- 
não executarem , Cogita^ 
tioncs me£ dij/ifata funt. 
Como era taó difficultofo 
o credito defte encareci- 
mento, não o quiz fiar Job 
dos Expofitores, ellefe fez 
comentador de fy mefmo 
no verfo feguinte : Sifujii' 
nueroy infemus dontus me a J'^^ '7' 
eft. Tutredini dixi\Tater '^ ''*' 
meus es-, mater mea^ é^foror 
mea^ vermtbus. Naó cuide 
alguém, diz , que faó hy- 
perboles, ou exageraçoens 
fantafticas o que digo,por- 
que de verdade he o tor- 
mento que padeço taóin- 
fofrivel , & taó dcfefpera- 
do,quefc durar mais hum 

.-.;,. pOU- 



UO.: 



antes da T>ominga de Rémss. f i ^ 

pouco, Sifíipyii^erú v bem verdugos; que lhe aperta^ 
me podem abrir a cova. O raóo garrote à; alma,fí?r^ 
que os mortos fem padc* quentes cor meum , cxecu- 
cerexprimencaò nafepul- tandonelles a fentençade 
tura,iílbhe o que execu- Deos,fentençanaó menos 
taó em mim os meus pen- que de morte, ScfeDultura: 
famentos: porque nam-ha- Sífuftinuero/epídcMrumdo' 
corrupção ^ o que tanto pe-' musmeaefi, 
netre,& desfaçajnáó ha bi- 
chos, que tanto comáo, & 
carcomáo hum cadáver, 
como os mcímos penía- 
mentos me eftão morden- 
do o coração, & roendo a 
alma:& o peor he , qué 
nãoacabáode matar, mas 
matandomeme eftáo ge- 
rando outra vez, como fe 
foraõ meu pay , & minha- 
mãy,para maispenar vTíí- 
tredini dixi\ ^ater meus es 
tu;mater mea^ & foror mea^ 
'uermibus. Comparemos 
agora o cogitdtiones mea de 
Job , com o cogitaverunt 
dos noíTos Juizes : & vere- 
mos fe ficáraó códenados. 
Tiverão intentos de ma- 
tar a lj7íZ2iVO^Cogita'verunt 
ut Lazarum interfaerent^ 
ficarão eíTes intentos no 
ar, nam chegarão a ter 



472 Satisfa^amôls ago- 
ra aos curiofos. Suppofto 
que foi fentença de morte 
efta,& as de morte faó taô 
varias, perguntar me ha 6, 
que género de morte foi? 
Gnome nãolhefabéreieu 
dar, mas digo , que he húa 
morte da cafta daquellas , 
que por mais penar não 
matãojhu a mortein terior, 
que fe fabe fcntir, mas não 
fefabe explicar ,táo rigo- 
rofa, tão cruel, que feDcos 
mandara pendurar de hum 
pào todos eftes Principes 
dos Sacerdotes contra os 
foros de fua dignidade, 
muito mais benigna , êc 
piadofa fora a fentença. 
DeoAchitofel hum con- 
felhoa Abfalam,com que 
fem duvida ficaria desba- 
ratado feu pay David, con- 



exccu(^2ió)Coptatíones me^e tra quem o ingrato filho fc 
dijjipatte jiint , & aílim levantara, não o aceitou 
não executados fôramos Abfalamporpermiflaôdo 

Kk iiij Ceo, 



T20 Sermão 

Ceoj&tonloú outro htm 
diífercnt&qJhe àto Cufai. ; 
Tanto que 'Achitofel vio 
ifl:oCou\rihum caforaro, 
& efpantofo ^ poemfe a 
cavallo', partefe para fua 
cafa, faz feu te fta mento, 
deita hum laço ahúa tra^ 
íf if . ^^' enforcafe: y^%V in do- 
mumfuam , d^ dtfpofita do- 
mo fua , fufpendio interijt. 
Muitas queíloens fe pòdê 
levantar fobre efte cafo. 
A dos Canoniftas bem à 
raãoeftà,& he,fe fe havia 
de enterrar efte homem 
cmfagradojounaó? AEf- 
critura diz , que o enterra- 
rão na fepultura de feu 
pay : Sepelierunt eum cum 
patribus [uis ', masiftonam 
faz argumento, porque na- 
quelies tempos nem as fe- 
pulturaseftavão nas Igre- 
jas» nem ha via ainda o Ca- 
pitulo Tlacuit i & dado 
que hua,& outra coufa fo- 
ra,entre todos os Santos 
& Doutores, que efcrcvé- 
rão fobre o paílb, fó hum 
Rabino diz,que náo efta- 
va Achitofeíem feu juizo. 
Se aíTim he ( agora entra a 
minha queílaó ) fe eftava 
cru feu juízo Achitofcl,co- 



i^o Sabbado 
mo fez húa acção tão defa- 
íizada,como he enforcar- 
íehum homem com fuás 
próprias mãos ? Diífe -o a 
fagrada Efcritura , & he 
prova maravilhofa do nof- 
io intento : Vtdens qíiodnon 
fuiffetfaõiwn eonfiliúfuumy 
abijtin domuni fuam^ò' fuf' 
pendio interijt. A única, & 
total razão, porque fe en- 
forcou Achitofel , diz o 
Texto, ^oi^Fidens qiiodnon 
fuiffetfaãum confiimmfuúy 
Porque vio, que naó fora 
executado feu confelho. 
Quem dera credito a tal 
caufa, por mais Doutores 
queodiíreráo>feo mefmo 
Efpiriro Santo o náo affir- 
mára ! Tão cruel executor 
he hum confelho não exe- 
cutado, taes dores, taes pe- 
nas, taes tormentos cau ia 
n-a alma de quem o coníi- 
dera,q eftãdo hum. homem 
em feu inteiro juizo, efco- 
Ihendo fegundo as regras 
da prudência do mal o me- 
nos, teve por melhor mor- 
rer a fuás próprias mãos 
agonizando em húa forca, 
que viver padecendo os 
rigores de hum tormento 
taó defcfperado. Allim o 



GX- 



antes da dominga de Ramos. 5-2 1 

exprimentou AchitofeljSc deílapena em húa, vilania 



paraqueaílitno expritné- 
taíTem os invejofos Pon- 
tífices, ordenou Deos^que 
naó chegaíTe a ter execu- 
ção o confelho, que entre 
fy tomáraójde tirar a vida 
a Lazaro , ficando ntrlles 
eíTe mefriio confelho nam 



da condição natural dos 
invejofos, com que mais 
fencemosbens aiheos, & 
fuás glorias, que os males , 
& tormentos próprios. En- 
trou Chriílo Senhor noílò 
hum dia no Templo àt^t- 
rufalem , & vendo que fe 



executado, por executor eftaváoalli vendendo pó 
da mefma morte , ou por bas, cabritos, cordeiros & 



ventura ,de outra mais 
cruel, que a que lhe deter- 
mina vão dar: Cogita verunt 
Trincipes Saceraotum ut& 
Lazarmn interficerent. 

473 /^Ondcnados te- 
Vw^mos os Juizes 
pela primeira fentençain- 
juílamente dada contra 
Lazaro. Ainjuíliça da fe- 
gunda dada contra Chri« 
fto era muito mais atrõ3:& 
para que o foíFe ta m bem 
em a pena , & o caftigo , 
mandou Deos , como di- 
zia mos, que entraííe o Se- 
nhor por Jerufalem triun- 
fando : Acceperunt ramos 
palmar um , é- procefferunt 



ainda novilhos, indignado 
de tamanho defacato , to- 
ma as cordas,com que vie- 
raó atados aquelles ani- 
maes , faz delias huns co- 
mo azorragues, começa a 
açoutar os que compra^ 
vão,6c vendiáo. Compras, 
& vendas feitas na Igreja 
caíliga-as Deos por fua 
própria mão; & não come- 
te a outrem a execução de 
femelhantes delitos : fetíi 
repararem fua authorida' 
de. Mas cuidava eu, que fe 
aggravarião muito eíles 
homens úq (c verem tão 
afpera, & tão baixamente 
tratados por Chriílo , ôè 
que quando não chegai- 
ítímalhepòras mãos , ao 
menos o blasFemaíIem. 
obviam ei. Fundafe o rigor Fui porem- ver o Texto,5c 

achei. 



1 



52 2 Sermão 

achei, que nenhila mà pa- 
lavra diíTeráo contra o Se- 
nhor, não o reconhecendo 
portal. Comparando pois 
eíle paíTo com outros de 
fua vida mui difFerentes, 
fazeftapóderação S.Joaó 
Chryfoilomo. Se quando 
Chriílofarou o mudo , o 
accufáráo por endemoni- 
nhado : Se quando Chrifto 
deoviftaa hum cego, o 
querião apedrejar; Se quá- 
do refu feita a Lazaro , dão 
contra elle fentença de 
morte : como agora que os 
açouta , 6c os trata como 
e fera vos, nem fe quer húa 
mà palavra dizem contra 
ChriíloPComo o não ac- 
cufaôjcomoo não apedre- 
jaó, como o naó mataó ? 
Divinamente o Santo Pa- 
dre : Animadvertis invidia 
incredjhílem^ & quonampa- 
Bo in alios coUata beneficia 
tnagis eosirritahúnt ? Naó 
vedes, diz Chryfoílomo, a 
vilania deftcs invejofos, 
que mais fe doíâo dos bens 
alheos,quc dos males pró- 
prios r Sarar Chriílo en- 
fermos, dar vida a mortos, 
erão bens ,alhcos> por iílò 



do Sahhado 
ofentião tanto, que q«c* 
rião apedrejar a Chrifto, &c 
tirarlhe a vida : açoutallos 
Chrifto a elles, & tratallos 
como efcravos, erão males 
próprios, por iftb o fentiaò 
taó pouco, que nem huma 
fó mà palavra diftèrão có- 
trao mefmoChrifto.Mais. 
Os milagres, que Chrifto 
obrava,erão fama,& gloria 
para Chrifto , os açoutes 
com que os caftigava, eraó 
p en a, & afronta para elles, 
mas como era gente inve- 
jo fa, mais fentião a fama, 
& gloria de Chrifto, que as 
penas,& afrontas fuás :ex* 
ceftb verdadeiramente da 
inveja, não fó admirável, 
masincrivel , invidíam in- 
credihilem.FciTCccri enca- 
recimento a confirmação 
que hei de dar a efte paííb , 
mas tem bom fiador. 

474 Ardia no Inferno 
o Rico Avarcnto,& vendo 
dalli o pobre I;azaro no 
Seyo de Abraham,difte af- 
íim : Tater Abraham-.mife- , 
reremet^ & mitte Lazaru , i^ 23. 
HT tyitingat extremum digtti 
in aqua?fi, nt refrigerei lin^ 
guam ;//í'^^//.PayAbraham, 

tCtt- 



antes da dominga de Ramos. p ^ 

tende compaixão de mim, de, nem amor, que fe là o 



mandai a Lazaro, que mo - 
lhe a ponta do dedo na 
agua, &: me venha refrige- 
rar a lingua. Náo lhe de- 
ferio Abraham a gofto-, 
mas como da avareza he 
tão próprio o pedir, como 
o náo dar , tornou o Ava- 
rento a fazer fegunda pe- 
tição : Rogo te pater ^ut mit' 



ouvera, não fora Inferno , 
fora Paraifo: como he pòf- 
íivel, que tiveíTe efte con- 
denado tanto amor para 
com feus irmãos, que lhe 
queira mandarPrègadores 
da outra vida, para que fe 
convertão ? Quanto mais , 
que para o refrigerar do 
incêndio, qualquer outro 



tas eum in domum pdtris o podia fazer tao bem co^ 
mei^habee enim quinquefra^ mo Lazaro : & para pregar 



tresyutteftetur illis ^ne ò" 
ipfivenlant in himc locum. 
Rogovos muito , Pay A- 
braham,queao menos mã- 
deis a Lazaro a cafa de 
meus irmãos, que lhe diga 
p que porca paíTa , para 
que não fe condenem. Ou 
eu meenganoj ou cftas pe- 
tiçoens dizem hua coufa , 
&pertendem outra. Se as 
labaredas do Inferno fam 
tão grandes como fabe- 
mos,& o Avarento o fabía 
por experiência, como he 
poílivel , que tiveíTe para 
fy, que as podia refrigerar 
tão pouca agua, quanta pô- 
de levar aponta de hum 
dedo ? Mais. Se no Infer- 
no náo pode haver carida* 



a feus irmãos , muitos ou- 
tros o podião fazer melhor 
que elle. Qual he logo a ra- 
zão, porque em húa , & 
outra propofta fempre in- 
íiíle unicamente em que 
và Lazaro j em hila , Mttte 
La^arumyçm outra, Rogo 
ut mit tas ettm ? O cafo he, 
que nenhúa deftas coufas 
pertendia o Avarento ^ & 
todo o feu intento, & tei- 
ma, era tirai lo do Seyo de 
Abraham, & fazer, que ao 
menos por algum tempo 
náo gozaíTe o dcfcanfo em 
que o via. He futileza de 
S.Pedro Chryfologo, & a 
razão não fó tão delicada j 
mas taó natural comofua: 
^odagit dives^non efi no^ 
vciii 



I 






7':' 



5^4^ Sermão do 

velli doloris^fed livoris an- 
tiqui : zelo magis incendi- 
tuTy quàm gehenna. Sabeis , 
diz Chiyfologo , porque 
bufca o Avarento tantas 
traças,& invençoens, para 
quefaya Lazaro, íe quer 
por hum breve efpaço, do 
Seyo de Abrahaò?He por- 
que fe eftà comendo de in- 
veja, porque vè agora em 
tanta felicidade o que 
noutro tempo vio em tan- 
ta miferia : Zelo magis in- 
cenditur^qttam gehenna. A- 
qui vai o fútil do penía- 
mento. O Avarento eftà 
no Inferno, mas o Inferno 
do Avarento mais eftà no 
Seyo de Abraham , que no 
mefmo Inferno. Porque 
mais o atormenta no Seyo 
de Abraham o defcanfo,& 
felicidade, que alli eftà go- 
zando Lazaro, que no fo- 
go do Inferno as mefmas 
chamas, em que elle eftà 
ardendo. Pedia que fahifie 
Lazaro do feu defcanfo,& 
que trouxe ftc agua para o 
refrigerar , & o refrigério 
eftava naõ na agua, que 
havia de trazer, fenam no 
defcanfo,de que havia de 



Sabbado v-u 
fahir. Como era invejofo, 
maisoabrazavaó as glo- 
rias alheas, que via, que os 
Infernos próprios, em que 
penava : Zelo magis incen- 
dituTy quam gehenna. Efte 
foi o género de caftigo a 
que a divina Juftiça con- 
denou os injuftos Princi- 
pes dos Sacerdotes mui 
conforme a quem elles 
eraó. Eraó invejofos , co- 
mo vimos 5& porque ne- 
nhúa pena os havia de 
atormentar tanto como as 
glorias de Chrifto, entra o 
Senhor diante de feus 
olhos em Jerufalem triun- 
fando com húa univeríàl 
acclamaçaó de filho de 
David , & Rey de Ifrael, 
com hum perpetuo vidor 
nas bocas, & nas mãos de 
todos : AccepeTunt ramos 
palmarum^ & proceffernnt 
obviam ei. 

475" Bem pudera eu 
dizer, que foi efte maior 
caftigo, que fe Deos lhe 
mandara dar cem açoutes, 
como pelas ruas publicas 
os negociantes do Tem- 
plo: bem pudera dizenquc 
foi maior caftigo, que fe os 
lan- 



antes da^omlngn de Ramos. ^i^f 

lançalfe logo nas chamas : as cruzes, em q invifivel- 



do Inferno, como o Rico 
Avarento -, mas em parte 
quero ir menos rigorofo, 
por ir mais próprio. Sabi- 
da coufa he, que a pena a 
que os Juriftas chamaó 
ÍT^Z/Wj, he entre todas a 

maisproporcionada.Digo Mardocheo,fó porque hua 
pois, que foi eíla pena dos vez fenaó levantou paííàn- 



mente hiaó crucificados 
na alma , cruce mentis 3cvci 
lembrados eftareis da hi- 
íloria de Aman privada 
delRey AíTuero. Mandou- 
Aman levantar húa Cruz^ 
para crucificar nella a ^ 



Pontífices, pena , & tor- 
mento de Cruz. Elles qui- 
zeraò crucificar a Chriílo, 
& Chriílo crucificou-os a 
elles. Naó he meu o penía- 
mento,ou a fentença, fe- 
naó do grande Padre da 
Igreja S. A^o^'m\\o •Quam 
cTucem . mentis invideiitiai 
Jud£orum perpeti poterat , 
quando Regem fuum Chri- 
ftmn tanta_ multitudo cia- 
mabat. Que vos parece 
que foi para os invejofos 
Pontífices entrar Chriíto 
porjerufalem triunfante? 
Que vos parece q foi ,diz 
Agoftinho, fenaó crucifi- 
calos? Aquellasacclama- 
çoens do povo eraó os pre- 
goens, que hiaó diante pu- 
blicando o delito dè fua 
injuftiça : aquellas palmas, 
que levavaó nas mãos, eraó 



doelle. Ataesfoberbas,8c. 
infolencias chegaóos pri- 
vados de quem nam fabe 
fer Rey . Porém trocou a . 
fortuna as mãos, revogou-, 
fç afentençaem outro tri- 
bunal fuperior , & o cruci- 
ficado foi o Aman. Aílim 
aconteceo aos Principes: 
dos Sacerdotes. Elles no 
feu tribunal quizerão cru- 
cificara Chriílo, porém o 
tribunal divino em pena 
defua injuítiça , ordenou 
quenelles fe executaíTe a 
fuafentença)&que foílem 
elles os crucificados, nam 
em húa fó cruz , porque 
eraó muitoSjfenáo em tan- 
tas cruzes V quantas foram; 
as palmas do triunfo de 
Chriílo: ccceperunt ramos 
palmanim , à^ exkrunt ob^^ 
viam et, 

§.ví. 



< 

i 

1. 


■■(,■:' 




p6 



S' VI. 



47^ 



vangelho, & fatisfeito ao 
que prometi. Reílame dar 
íatisfação ao lugar em que 



Sermão do Sahhaãõ 

unum adverftu T)ommm^ 
&adverftu Cbrijlumejm. 
Ajuntáraófe os Reys da 
terra, & uniraófe era votos 
os Príncipes contra Chri- 
ílo, diz David : & nam hc 
pequena a diíficuldade de- 
lia Profecia. Seaentendc- 



'Enho cóclui 
do com o E 



eftou, q he o do Defterro , mos da morte,que Chrifto 

cuja dcvação nefte fabba- com eíFeito padeceo , nam 

do feriai convocou a elle ouve entáó mais que hum 

tão grande Auditório. Co- Rey,que foi Herodes . fe a 

íiderei devagar, que parte entendemos da morte,quc 



deftedifcurfo lhe acomo 
daria. E porque nenhuma 
achava, que lhe ferviíTe, 
determinei fazerme hum 
aílintea mim mefmo , 3c 
acomodarlhotodo. Tudo 
quanto atèqui tenho dito, 
foihúa reprefentação do 
quepaíTou no defterro de 
Chriílo. Para intelligen- 
cia deita conllderaçáo ha- 
vemos de fuppor , que os 
Juizes, que condenarão a 
Chrifto à morte, quando o 
Eterno Padre lha comu- 
tou em defterro , nam foi 
fó Herodes, como parece, 
fenão Herodes , & junta- 
mente o Demónio. Provo. 
v^AvA.í. Aftítenmt Reges terr^^ ^ 
^' Trincipes conveneruut in 



lhe quizerão dar quando 
nafcido,da mefma manei- 
ra náo ouve mais que hum 
Reyjquefoi também He- 
rodes (náo jà o mefmo, fe- 
não outro do mefmo no- 
me: que hum tyrano, que 
perfeguio innocenteSjuam 
havia de viver trinta & 
tresannos. 3Diz agora S. 
Joaó Chryfoftomo : Nun- 
quid Herodes Reges ? Por 
ventura Herodes he mui- 
tos Reys:Herodes he mui* 
tos Principes .í> Claro eftà, 
que não: pois fe he hum fó 
Rey,&humfó Príncipe, 
como diz David, que fc 
ajuntarão , &: fe uniram 
Reys, &■ Príncipes contra 
Chrifto : AHtterunt Reges 
tcrra^ 



' ' M Ml 



antes da Dominga de Ramof, '^ty 

terr^y é* 'Prinàpes come- acclamado por Rey de If- 
neruntinunum ? A reporta rael, &que muitos criaó 
do mefmo Santo Padre he nelle : Multi abtbant ex lu- J^^;'; 
o que eu dizia: In Rege He- d£is,& credebantin lefum-^ 
rodepeccatt quoque Regem ScHerodes, &com elle p 
oftendit. Olhava David Demónio, porque jà o co- ^ 
com olhos proféticos , que meçavaó a ver em feu naf- 
vcm o vifivel, & invifivel, cimento bufcado, & vene- 
rado dos Reys do Orien- 
te, & dentro da Corte do 
mefmo Herodes acclama- 
do por Meílias, & Rey dos , , 
Judeos : Um ejt qut natus 2.2 
eíiRexJudaorum. K^*.. 

/^jj Viíiaafemeíhan- 



& por iíTo diz, que fe ajun- 
tarão Reys , & Principes 
contra Chriílo 5 porque os 
que o condenarão à mor- 
te, não foi fô Herodes , fe- 
naó Herodes , & mais o 
Demónio. Herodes Rey 



de Judea, o Demónio Rey ça da condenação de Chri- 

dopeccado:HerodesPrin- ftono tribunal dos hom es, 

cipe da terra, o Demónio feguefe ver a condenaçani 

Principe do Inferno : In dos Juizes no tribunal de 

Herodepeccati quoque Rc' Deos com a mefma pro- 

gem ojlendit, E fe bem con- priedade. A primeira pena 

íiderarmos o motivo que a que Deos condenou os 



Herodes, & o Demónio 
tiveraó para querer tirar a 
vida a Chrifto5&: aos inno- 
centes na occaíiaó de feu 
deílerroj acharemos, que 
he amefma,eom que a in- 
veja moveo os Principes 
dos Sacerdotes a querer 
matar naò fó ao refufcita- 
dor,fenáo também ao re- 
fufcitado, Eílesjporq viaó 
a Chrifto reconhecido, & 



Princip es dos Sacerdotes 
foi , como vimos , que íi- 
caííem fruílrados os feus 
intentos: & tal foi também 
a de Herodes. DiíTe Hero- 
des aos Magos : Ite^interra^ 
gate diligêter deptiero : Ide> 
informaivos donde eílà 
eíTe miniíio que dizeis: Et 
cum inveneritisy renuntiate 
mihèy E como o achares 
avifaimc , ut&ego ^erãem 
údê" 



P8 



Sermão 





aaore?neiwi , para que eu 
também o và adorar. lílo 
pronunciava Herodes c6 a 
boca,&:como coraçáo di- 
'ziarldejinformaime, que 
■cu lhe tirarei a vida, & mil 
•vidas (^como tirou a tantos 
mil innocentes. } Mas que 
fez Deos .^ Ou por hú An- 
JO5OU por fy mefmo aviíòu 
aos MagosjquevoltaíTem 
por outro caminho : & 
quando o Tyrano vio feus 
intentos fruftrados^F/Ví^wx 
qtioniam ilhif/ís effet a Ma- 
gis^ diganos o mefmo S. 
Joaó Chryfoftomo, qual 
ficou. Saõ palavras, que fe 
as mandáramos fazer de 
encomenda , ^^o vieraó 
mais medidas com o-in- 
tento : Conjidera quaiiam 
Herodempatiprobabilefue- 
rít^ qui certèfuffocari etiam 
pra indignationis magnitu- 
dinepotuitj cumfs ita illu- 
fumatque irrifum viderM, 
-A pena que Herodes fen- 
tio vendo fuás traças át^^- 
vanecidas, &: feus intentos 
fruftradosjconfidere-o que 
fabc que coufa hc a inveja, 
que explicarfe com pala- 
vras naò he poíilvel. Mil 



do Sahhadõ 
vezes quizeratomarhum 
laço,&enforcarfe (^ digno 
caíligo daquella cabeça 
tão indignamente coroa- 
da,3 &: he maravilha como 
a mefma dor colérica, que 
o fazia raivar, lhe naó áéí- 
fe hum nò na garganta, ôc 
o afogaíFe. Là diíTe a Efcri- 
tura de Achitofel : Vtdens 
quodnofifuijfetfaãum con- 
JdhmfimmyMjt^ & fufpen- 
diointerijt. È da mcfma 
maneiradiz Chryfoílomo 
de Herodes : Vtdens qiionm 
illufus efet à M agis, fujf o ca- 
ri etiam pr£ indignationis 
magnitíidinepotuit. E nòs 
vejamos agora fe he igual 
a condenação de Herodes 
com a dos Principes dos 
Sacerdotes. Elles conde- 
nados a ficarem os feus in- 
tentos fó em mt^Vítos : Co- 
gitaverunt Trincipes Sacer^ 
dotum ut CT Lãz^ariiyyi /;/- 
terficcrent: & ellc condena- 
do a ficarem fruílradcs os 
feus , .& zom barem delle 
•os Magos : Videns qnoniam 
■iUuJks ejfct à Magis. 

478 A ícganda pena 

coube ao fcgundojuiz o 

Dcmomo: 5c íbi^ver entrar 

a Chri- 



antes da Dominga de Ramos. ^29 

a Chriílo triunfante no efcapado das mãos de He- 

rodeSjhia entrando vivo,& 
triunfante nos braços da 
Máypelasruas do Egyp- 
tOj ao mefmo paíTo dentro 
dos Templos, & derruba* 
dos dos Altares hiaó cain- 
do as imagens dos falfos 
Deofesjcm que o Demó- 
nio era adorado, desfeitas 
empÒ5& emcinza. 

479 He Theologia cer- 
ta, que quando Deos lan- 
çou do Ceo os Anjos máos, 
huns foraó parar no Infer- 
no,& outros fícáraó nefta 
Região do ar , aos quaes 
por iíTo chama S. Paulo 
Aéreas poteftates. De forte, 
que nefte mefmo lugar nos 
eftão ouvindo muitos De- 
mónios, Sequeira Deos, que 
fejaófóosque fenaó vem. 
Dà a razaó deite confelho 
divino , divinamente S. 
Bernardo: Diabolusinpde' 
namjuam loctim inaereme^ 
dium inter Calum^ ò* ter^ 
ramfortitus eft^ ut videaty 
é^invideaf^ ipfaqueinvidia 
torqueafur. Quer áizcrJ^H' 
ra maior tormento do De- 
mónio lhe deo Deos eíle 
cárcere livre do ar,elemen- 
Li to 



Egypto, como os Princi- 
pes dos Sacerdotes verem 
o feu triunfo por meyo de 
Jerufalem. Pintanos iílo 
maravilhofamente o Pro- 
feta Ifaias:^í afcendet Do- 
mimis fuper nubem levem^ò* 
[^' ^^' ingredieturç^^yptum.SO' 
birà o Senhor, & entrará 
pelo Egypto, levado como 
em carro triunfal em hua 
nuvem leve. Eíla nuvem 
leve (diz S. Ambroíio^he 
a Virgem Santiífima, Mãy 
do mefmo Senhor mini no, 
que o levou em fcus bra- 
ços ao Egypto : nuvem, 
porque ella he a que nos 
defende dos rayos do Sol 
. dejuftiça,& leve, porque 
nella fó entre todas as cria- 
turas nunca ouve pefo de 
peccado. E que fuccedeo 
ao Demónio á vifta deíle 
triunfo ? O mefmo Profeta 
o áiz\Et commo^vebuntur à 
fade ejus fimulacra c/^- 
gypti. E à vifta defta entra- 
da triunfante cahiráó der- 
rubados por terra todos os 
ídolos do Egypto. Aílim 
foi, porque aífim como o 
defterrado minino, tendo 
Tom. 7. 




!^> 



BI 



I; 



530 Sermão do Sabbado 

to meyo entre o Ceo , & a 
terra, porque vendo fubir 
os homésdaterraaoCeo, 
& deita Igreja Militante, 
onde osperícguejirgozar 
da gloria na Triunfante i a 
vifta,& inveja defte triun- 
fo lhe íirva de maior Infer- 
no aos que ficáraó, que aos 
que là eítão penando. Jà 
ouvimos a S. Pedro Chry- 
fologo , que menos pena 
davão ao Rico Avarento 
as labaredas do Inferno em 
q padecia, que as glorias , 
que Lazaro gozava no 
Seyode Abraham: & eftc 
foiocafl:igo,mais que do 
próprio Inferno, a q Deos 
condenou o Demónio, no 
mefmo defterro com que 
livrou de fuás mãos a feu 
filho ; para que vendo o 
entrar triunfante pelo E- 
gyptOjpenaífemais, & fe 
desfizcífe de inveja, allim 
como fe desfizeraó os mar- 
mores,6c bronzes das ima- 
gens, & íimulacros em que 
era adorado ; Et commove- 
buntur à facie ejusfimula» 
€ra (i^gypti. 



§. Vil 



ACabei. Efup- 
1 ' 



480 _ 

pofto que te- 
nho fatisfeito ao Evange- 
lho,& ao lugar ; algúa ju- 
ftiça parece que me fica 
para pedir ao Auditório a 
mefmafatisfação. No E- 
vangelho temos a Chrifto 
triunfante em Jerufalem : 
naquelle Altar temos a 
Chrifto triunfante no E- 
gypto : jufto he, Senhores, 
que entre também Chri- 
fto triunfando, ou pelo E- 
gypto , ou pelajeru falem 
de noíTas almas. Que outra 
coufahehúa alma , onde 
eftà levantado altar a Ve- 
nusjidolo da torpeza : on- 
de fe fazem facrificios a 
Marte, idolo da vingança : 
ondehe adorado Júpiter > 
idolo da vaidade; que cou« 
fahe, digo, húa alma de- 
ftas , fenão hum Egypto 
idolatra .? Entre pois Chri- 
fto triunfando pelo Egyp- 
to defta ai ma : Et comove* 
antur à facie eJHS fímulacra 
ç_y£gypti^^ cayáo , èí ren- 
daófcafeuspès todos eíTes 
ídolos. 



antes da T^ominga de Ramos. 5 3 ^ 

Cava a torpeza, mana Santa, em que ne- 
nhum Chriftão ha de taó 



ídolos. 

caya a vingança , caya a 



vaidade, &acabemfe ido- 
latrias tão pouco Chri- 
ftãas. Que coufa he por ou- 
tro modo húa alma, onde 
rey na a ambição : onde dà 
leys a inveja : onde manda 
tudo o ódio t que coufa he, 
torno a dizer,húa alma de- 
itas, fenaó húa Jerufalem 
depravada, 8c perdida , & 
onde por ódio , por ambi- 
çaó,& por inveja fe dà fen- 
tença de morte contra o 
mefmo Chrifto ? Ora,pois, 
Jerufalem, Jerufalem, con- 
'verteread T>ominum T))eu 
tuum , acabemfe ódios, 
acabemfe invejas, acabéfe 
ambiçoens : cayão todos 
eíTes vicios aos pès de 
C hriílo, &:levantemfe pai- 
ra as nas mãos em final da 
vitoria : Acceferunt ramos 
palmar um^ & exierunt oh* 
'viam et. 

4,8 1 Não duvido que 



fraca Fè,& de tão fria pie- 
dade, que fenão lance ren- 
dido aos pès de Chriílo. 
O que porém quizçra eu 
encomendar, & faberper- 
fuadir a todos he, que nos 
nãoaconteçajO que acon- 
t€ceoaos que acompanha- 
rão a Chriílo no feu triun- 
fo. He advertência de S. 
Bernardo. Quando o Se- 
nhor hia paíTando pela$ 
ruas de Jerufalem, tiravaó 
muitos as capas dos hom- 
bros, para que o Senhor 
paífaíFe por cima delias \ 
porém tanto que o mefmo 
Senhor tinha paífádo, tor- 
nava cada hum a levantar 
a fua capa, &: polia outra 
vez aos hombros como 
dantes. O mefmo nos acó- 
tecea nos neíla Somana. 
Dcfpimos, ou parece que 
defpimososmáos hábitos 
de noíTos vicios, lançamo- 



o facão aílim todos os que los aos pès de Chrifto , pa- 
temnome de Chriftáos, raquepaífe por cima del- 



não movidos da eíficacia 
de minhas razoens , mas 
obrigados da fantidade do 
tempo. Entramos na So- 



les com a Cruz às coftas j 
porém tanto que paífou , 
tanto que fe acabou a So- 
mana Santa , & chegou a 
LI ij Paf- 



v^^ 




53- Sermão do 

Pafchoa , torna cada hum 
aos mefmos vícios , & a re- 
veftirfe delles, comofejà 
não foraó peccados.Oh fe- 
pultemolos para fempre 
com Chrifto morto , & 
deixemos eíTes máos habi- 
ros,como Chriílo deixou 
as mortalhas na fua fepul- 
tura. Façamos diante da- 
quella Senhora huns pro- 
poíitos , & reíoluçoens 
muito firmes de fer perpé- 
tuos efcravos feus , & de 
feu béditiílimo Filho : fe- 
guindo-o,ôc fervindo-o sê- 



Sabbado 

pre5& em qualquèi parte: 
ou no Egypto,como de- 
ílcrradosdefte mundo, ou 
em Jerufalem, como mor- 
tos ao mefmo mundo ; naó 
havendo trabalho , ou fe- 
licidade, nem fortuna taò 
profpera,ou adverfa, que 
nos aparte de feu ferviço, 
de fua obediência , de feu 
amor,& de fua graça, para 
que vivendo , & morrendo 
com elle,& por elle, o acó^ 
panhemos na vida, onde 
naó ha morte, por toda a. 
eternidade. Amen. 





vi 



SEIti' 



m 



SERMAM 

S.JOAMBAUTISTA, 

NA PROFISSAM DA SENHORA MADRE 
Soror Maria da Cruz, filha do Excellentiífirno Du- 
que de Medina SydoniajReligiofa de S.FrancifcOs 
no Mofteiro de N.Senhora da Quietação, das 
Framengas, em Alcântara. 

ESTEVE O santíssimo SACRAMENTO 

cxpoíto. An no de 1644. 



EUfabeth impletum eft tempmpariendi^érpeperitfilmm. Et 
audierunt vicinh& cognaú ejus, quia magnificavit T)o- 
minusmifericerdiamfuamcumiUa , & congratulaban- 
tur ei.Et venerunt circúciderepuerum^& vocabant eunt 
no?nmepatrisfiii Zachariam. Et refpondens mater ejuft 
dixif-Nequaquam/edvocabiturloannes: Luc.c.í. 

vozes dos homens. Admi* 




§. I. 

Senhor. 

O dia em que 
nafce a Voz de 
Deos 5 juftamê- 
t© emudece as 
STorn./, 



raçoens emudecidas faó a 
retórica defte dia \Mirati 
funtunivepft y pafmos, & 
aílbmbrosfaõ as eloquen*' 
cias deíla acção : Faõíus eft 
timor fuper omnes vkinos 
Lliij f#- 




554^ Sermão de 

eonim. Hedia hoje defal- vai muito de lugar alugar 



laremoscoraçoens, 6c de 
callaretn as linguas : por if- 
íb a língua de Zacharias 
emudeceo,por iíTo os cora- 
çoens dos Montanhezes 
fallavaó : Tofuerunt in cor- 
de fuo dicentes, E fe em 
qualquer dia do grande 
Bauciíla he perigofo o fal- 
lar,& os difcurfos mais dif- 
cretos faó os que fe remete 
aoíilencio 5 que fera hoje 
no cócurfo de tantas obri- 
gaçoens, emqueascaufas 
dotemorj&os motivos da 
admiração fe vem taó cre- 
cxàos^ Setodaarazaódos 
aílbmbrosno nafcimento 
do Bautifta era verem que 
dava Deos a hua alma a 
maó de amigo ; Etenim 
mamis Domini erat cum ti- 
lo -, quanto mais deve af- 
fombrar hoje noíla admi- 
ração, ver que dà Deos a 
outra alma a mão de Efpo- 
fo : Etenim manus 'Domini 
erat aim illa > Bem fei que 
©rigen. diíTe Origeucs , que dar 
Deos a máo ao Bautiíla foi 



Defpofarfe Deos nos de- 
fertosjhe coufa ordinária; 
mas defpofarfe Deos nos 
Palácios : Deos defpofado 
no Paço.' Maravilha gran- 
de. Hecafo efte, em que 
acho contra mim todas as 
Efcrituras. 

483 Se lermos o Pro- 
feta Ofeas, acharemos,que 
querendo Deos defpofarfe 
com húa alma, diíTe, que a 
levaria primeiro a húde- 
ferto: ^ucam eam infolitu^ ^^^* '^'■ 
dmemy& loquar adcor ejtis. 
Se lermos o Profeta Jere- 
mias, acharemos,que lem- 
brando Deos a JerufaJem o 
tempo,que com ella fe àzí- 
pofára, advertio, que fora 
noutro áç,Çç:no:Charitattm Jcíid; 
defponfationis tu£j quando 
fecuta es me in deferto. Se 
lermos os Cantares de Sa- 
lamaó, acharemos, que os 
defpoforios daquella al- 
ma,fobre todas querida de 
Deos, num deferto íe tra- 
táraójnoutro dcfcrto Çc có- 



feguiraó : i^?/^ ejhjlu, qu£ Canr.3, 
defpofarfe com fuaalma; afcmdit per dijirtinn ,diz 
mas muito vai de dcfpofo- no çap.g . ^/^ efi tjía , qu^e cw.s, 
rio a defpoforiò , porque afcendit de áejerto inn:xà 



miÊmm 



6encí. 



Jhper ãHcãnmfuum , diz no 
cap. 8. Mas para que hc 
multiplicar EfcrituraSjfeo 
mefmo Efpofo , que eílâ 
prefente, nos pode efcufar 
aprova? O myfterio cm 
que Deos mais propriamê- 
tefedeípofacomas almas 
he o Sacramento foberano 
da Euchariftia. Porqnclle 
C como gravemente notou 
S. Agoftinho) por meio da 
'^«gafl^. yniao do corpo de Chrifto 
fe verifica entre Deos, & o 
homem , Emnt duo in car- 
melina. E fe bufcarmos os 
lugares emque Deos fígu- 
racivamcntc celebrou ef- 
tes deípoforios , achare- 
ihos,queosprincipaes, af- 
fim noVelhojComo no No- 
vo Teílamento , foraó de- 
fertos. A principal figura 
do Sacramento no Teíla- 
ínentoVelho foi o Mannà, 
durou quarenta annos, & 
todos foraõ de deferto; 
Tàtres nofiri manducave- 
í?^''"' funt Mannâ in deferto. K 
principal figura do Sacra- 
mento no Teílamêto No- 
vo, foi o milagre dos cinco 
paens,&:o milagre dos fe- 
se,6í ambos fucedéraò no 



Bautijta, f.rf 

deferto : 7)ejertus locm ejh ^^^^"^ ^'' 
é" nanhabent quod mandu' j^^^^j. 
cent. Vnde eos quis potefl 
hkfaturarepanibus infoli- 
tudine ? Pois qual he a ra- 
zão [ para que mais funda- 
damente nos admiremos] 
qual he a razãos porque fe 
defpofaDeos nos defertos 
fempre ? Náo heo Monar- 
ca wniverfal do mundo, 
não hc o Príncipe eterno 
da gloria? Pois jà que ha de 
defpofarfe defigualmentc 
na terra,porque naó bufca 
efpofa com menos defi- 
gualdade nas CorteSj&nos 
Paços dos Reys , fenáo nos 
defertQS5& nas folcdades?^ 
484 A razaô he •, porq 
efpofa com as qualidades 
de que Deos fe agrada,nã o 
feacha nos Palácios, acha- 
fe^os defertos. O Sacra- 
mento nos fundou a du vi- 
da iSJoão nos fundara a 
repoíta.Fez Chrifto hum 
Panegyrico do Bautifta 
(quedetaó grande fogei- 
to fó Deos pode fer baftan- 
te Orador) as palavras fo- 
rão poucas, a fuftãcia mui- 
ta, & começou o Senhor 
^íTím-.^idexiJiisindefertu 1^,^.7. 
Lliiij ^'^: 







Í3<> Sermão de 

videre ? Hommem moUihtis homem, que feguia todo ò 



'vejlitum ? Ecce mã molUhus 
'vejiiuntur^in ãomibus Re- 
gumfunt. Sabeis quem he 
JoaójeíFe a quem todos fa- 



bem, & que fugia de rodo 
o mal. E para dizer que 
fegu